Não sou jornalista, nem escritor,
apenas escrevo o que me dá na real gana. Opiniões, crónicas, comentários e interpretações,
claro, com algum grau de subjetividade é o que me atrai na escrita.
Hoje os influenciadores são o meu
alvo preferido. Estes, que proliferam nas redes sociais são a antítese de tudo quanto
à educação representa e que deve ser um processo contínuo e intencional de
desenvolvimento integral do ser humano contrário ao que esta “seita”
representa. Deve abranger a transmissão de conhecimentos, valores, costumes e competências,
quer formalmente (escola), quer informalmente (convivência). Encontram-se nas
redes sociais que como Madalena Sá Fernandes diz “são
a antítese de tudo o que a leitura representa”. E acrescenta ainda que “Há
uma necessidade de que toda a gente seja influencer na sua área... é
desgastante”.
Quem ainda não está farto de influenciadores? Parece que muito
poucas pessoas e algumas escolas e alunos também não. O jornal Público de 1 de
março do corrente insere um artigo sobre uma investigação que intitulou de “Escolas
recebem influenciadores que fazem da sexualização das crianças um negócio”.
Aquele artigo de investigação conduziu-me mais uma vez a
escrever sobre o tema o que já tinha feito em 2021 e que publiquei neste novo
blogue que pode ver em “Influenciadores
ou a arte de aliciar estúpidos”. O tema passou a ser agora muito mais sério
e suscita vários perigos porque atinge diretamente em contexto escolar os
nossos jovens e até crianças. E com grande desaforo um influenciador digital
que faz negócio com a sexualização das crianças voltou
a entrar numa escola portuguesa na passada segunda-feira. “Influenciador
que lucra com sexualização de crianças volta a uma escola após denúncia”. Bercina
Pereira, presidente do Sindicato dos Inspetores, da Educação e do Ensino reagiu
sublinhando que “Isto está a parecer uma epidemia”, e que é necessário “emitir
diretivas para as escolas com uma grandessíssima urgência”.
O influenciador em causa passa em todas as escolas uma playlist
especial para estas ocasiões, as quais têm letras sexualmente explícitas. Além
da linguagem obscena, todas objetificam as mulheres, havendo também espaço para
a normalização da violência sexual.
A investigação revela-nos casos de “influenciadores” que
entram em escolas e expõem crianças a conteúdos sexualizados, e denuncia que,
ao longo dos últimos dois anos letivos, em 79 escolas, “influenciadores” foram
convidados a entrar sob o pretexto de animar campanhas de associações de
estudantes. Estes sujeitos denominados “influenciadores” são acusados de fazer
da sexualização das crianças um negócio, ou seja, exploram conteúdos
sexualizados direcionados a menores para obter ganhos comerciais.
Segundo relatos para a investigação publicada no passado domingo
por aquele jornal esta situação levanta preocupações importantes visto que a
entrada desses “influenciadores” em ambientes escolares pode expor crianças e
adolescentes a conteúdos inadequados, normalizando discursos e comportamentos
que não são apropriados para essa faixa etária.
Esses autodenominados “influenciadores”, também assim nomeados
por outros que fomentam a sua validação externa, capitalizam a sua notoriedade
entre o público jovem, misturando humor, sexualização e até misoginia a fim de gerarem
audiências e transformar em fonte de lucro essa exposição, seja por
publicidade, parcerias ou venda de produtos. Saber como foram escolhidos, quem
autorizou, quais os critérios de segurança e qual o impacto psicológico nos
alunos são condições que devem ser tomadas em consideração.
Neste contexto as
escolas enfrentam o desafio de regular a presença de tais “influenciadores” como
forma de tentarem dialogar com a cultura digital sem comprometerem a segurança
e o bem-estar dos menores. Assim, o caso
revelado pela investigação do Público levanta dúvidas sobre a
responsabilidade das direções escolares, das associações de estudantes e dos
encarregados de educação na avaliação da idoneidade dos convidados no sentido
da proteção dos alunos.
O ministro da Educação, Ciência e Inovação, Fernando
Alexandre, “admite
investigação às escolas que receberam influenciadores e não descarta
investigação, mas remete a responsabilidade para as direções das escolas que
autorizaram a entrada de influenciadores misóginos e pornógrafos.”, refere o
jornal Público.
É fundamental analisar como esta casta de indivíduos(as) surgem
não apenas no panorama das redes sociais, mas também nas televisões e nas
rádios e mesmo questionar e identificar os motivos que arrastam ao seu elevado
número de seguidores. O fenómeno da influência social descreve a tendência
humana de alterar comportamentos, crenças ou opiniões com base nos outros e está
ligado ao interesse das pessoas por aparências exteriores, relegando valores, racionalidade
sem atenderem ao pensamento crítico que serviria para analisar intenções, estratégias,
impactos e riscos escondidos.
O sentimento de pensamento crítico permite observar o
fenómeno dos “influenciadores” para além das aparências, e analisar intenções,
estratégias, impactos e riscos escondidos. Antes de aceitar o que dizem ou
promovem, o nosso pensamento crítico deve levar‑nos a perguntar afinal quem são
estes influenciadores e o que pretendem.
O seguidismo irracional retira-nos a capacidade de estarmos atentos
ao que pretendem os influenciadores porque muitos constroem uma imagem
cuidadosamente planeada para atrair seguidores, não necessariamente para educar
ou informar. Uma atitude cautelosa baseada em evidências, factos e
comportamentos inconsistentes podem servir como autoproteção. Há que desconfiar
sempre questionar que tipo de conteúdo produzem, que valores transmitem, se estão
a informar, a entreter ou a vender.
Assim, o pensamento crítico ajuda a separar a “pessoa” do
influenciador da verdadeira intenção. Eles constroem a sua influência usando
técnicas para manipulação de perceções, a maior parte das vezes através de imagens
idealizadas, narrativas escritas ou imagéticas emocionais, proximidade
artificial, como a dos chamados amigos virtuais, e não raras vezes produzem conteúdos
sexualizados para ganhos rápidos (como no caso das escolas mencionadas na
investigação). Torna-se necessário identificar estes mecanismos e avaliar o
impacto real na audiência, sobretudo nos jovens. A maior parte das vezes os
influenciadores contribuem para um seguidismo de imitação cega. Por exemplo, há
influenciadores que sexualizam crianças ou jovens e até adultos para gerar
lucro e, por isso, exigem uma avaliação crítica mais profunda, tanto do
conteúdo como a das instituições que lhes dão espaço.
As generalidades dos seguidores(as) não identificam falácias
nem distinguem evidências reais de palpites, assim como não percebem quando um
influenciador faz afirmações sem base científica em áreas como política, finanças,
saúde, psicologia, fitness, etc... Por outro lado, muitos influenciadores também
não distinguem factos de opiniões e, frequentemente, apresentam opiniões
pessoais como se fossem verdades absolutas confundindo intencionalmente opinião
com anúncio.
Muitos seguidores são atraídos por “influenciadores” devido
ao foco na imagem, estilo de vida apresentado e valores, o que evidencia uma
preferência pelo que é exterior e visível, em detrimento de características
intelectuais, tendência que contribui para a popularidade desses indivíduos e
para o crescimento das suas comunidades virtuais de péssimo gosto e
deseducativas o que devia contrariar a abertura das Escolas a esses tais
influenciadores.
Muitos seguidores podem sentir-se inferiores, feios, pobres,
desatualizados ou arrasados na vida porque comparam a sua vida real à vida
filtrada dos influenciadores. Há que ter em conta que as redes sociais mostram
pedaços seletivos da vida em que a maior parte é encenada e que a comparação
constante distorce a autoestima. Eles normalizam comportamentos, ditam tendências,
condicionam escolhas políticas, de consumo e de valores. O sentimento de comunidade
e pertença entre seguidores, estimula empatia e proximidade emocional com o “influenciador”.
Os influenciadores não são “bons” ou “maus”, o seu impacto depende
da capacidade crítica de quem os segue. As consequências são aceitação passiva
de informações, polarização e adesão cega a crenças ou a líderes enganadores, o
que é comum na era da desinformação e das redes sociais. As pessoas apegam-se a
informações que confirmam crenças prévias, ignorando evidências contrárias,
agravadas pelo excesso de dados contraditórios.
Sem pensamento crítico institucional, escolas tornam-se
vulneráveis a exploração comercial e simbólica.

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