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sexta-feira, 28 de fevereiro de 2025

Voltemo-nos para o Governo do país

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Não há paciência para isto! Já não nos faltava a ministra da saúde com a sua arrogância e com as demissões sem justificação evidente. Agora só nos faltava o primeiro-ministro que pensávamos ser o único que dizia estar a trabalhar para as pessoas e a mostrar-se empenhado em corrigir erros(?) do anterior Governo resolvendo à tripa-forra os problemas de algumas bem conhecidas corporações da Função Pública, e das suas reivindicações. No entanto, não se tem mostrado lesto a exigir que a sua ministra da saúde, Ana Paula Martins, coloque duma vez por todas na mesa o plano que tem para eliminar o caos que gerou, e piorou, durante a sua vigência na área dita da sua competência (ou incompetência) que é a saúde e o SNS.


Não sou dos que estão contra os políticos, que dizem mal dos políticos, como se houvesse democracia e política sem políticos! Quando surge nos media algo que diga respeito a manchar a face de um político seja porque se descobriu corrupção, peculato, falsificação ou qualquer outro crime do mesmo calibre ou até conflito de interesses. A tendência, mesmo antes de provas concretas, é cairmos em generalizações, por vezes sem fundamento, formando-se opiniões de que todos os políticos são corruptos.


Os que gritam contra a política e os políticos, (mas que também o são), consideram-se impolutos, irrepreensíveis, honestos e exemplares.  Este caso que agora surge a atingir Luís Montenegro pode vir a ser mais um caso para Ventura se salientar e aparecer nos ecrãs das televisões com o seu regatear político contra os políticos e levantar suspeições várias para convencer os mais emocionais.


A ingenuidade não me parece que seja uma característica da política e dos políticos para que se abalancem a ocupar cargos em que facilmente possam ser acusados de situações em que lhes possam apontar o dedo e publicamente denunciadas.  O que contaria esta minha afirmação são os factos ainda só parcialmente objetivados que se passam com elementos do atual Governo e do próprio primeiro-ministro. Se alguém me relatasse estes factos sem me dizer a fonte diria que não era possível existir tal ingenuidade por parte de alguém cujo domínio de competência é o das leis.


Mas é um facto objetivo, temos agora um primeiro-ministro a receber avenças mensais pagas por empresas privadas, mesmo que seja apenas de uma, no exercício do seu cargo. Isto vai muito para além dos conflitos de interesses de grupos privados, que ele poderá vir a esclarecer amanhã na sua comunicação. Se estes factos forem reconfirmados a pergunta se se impõe é o que Luís Montenegro tem na cabeça o que o terá levado a tal ingenuidade como anteriormente referi. Não poderia ele ter feito a si próprio uma consulta sobre os riscos de conflito de interesses?


Volto a repetir como é que um político profissional se coloca numa posição de pôr em risco a sua reputação e contribuir para as tais vozes, ditas impolutas, que se manifestam contra os políticos que pretendem pôr em causa o nosso regime democrático que tem sido fustigado por casos graves e outros até menos graves, mas que não deixam de ser casos.

segunda-feira, 6 de maio de 2024

Políticos malabaristas de palavras e de falsas verdades

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Antes de comentar casos concretos parece-me pertinente fazer aqui uma reflexão sobre o discurso utilizado pela generalidade dos políticos sem distinção de partidos ou de ideologias que, quase sempre, nos apresentam discursos alternativos à sua medida cuja veracidade não passa por uma verificação da realidade e que são incompreendidos pela maioria dos cidadãos comuns.


Normalmente tomamos como sendo realidade coisas ou factos que julgamos serem reais, ou quando nos referimos à sua natureza real, em lugar de ideias imaginadas, inventadas ou teóricas. Ao contrário os políticos muitas vezes usam argumentos construídos em torno do contra factual, por vezes enviesados e com uma visão imaginada como se de uma realidade alternativa se tratasse.


Especialistas em política, interventores políticos, partidos e comentadores criam as suas narrativas e expõem realidades alternativas e não factuais o que, infelizmente, costuma levar a erros de compreensão por quem os escuta. Os que se concentram numa linguagem especificamente política e muito elaborada preocupam-se a sua ideologia partidária e em mistificar e distorcer as realidades. Os mais perspicazes negam que utilizem linguagem distorcida e de falta à verdade, embora o uso duma linguagem distorcida possa ser útil como evocação dos seus referenciais partidários e ideológicos. Todavia a maioria com menos cultura e iliteracia política consideram a linguagem política como sendo distorcida ou mistificadora o que no conduz à desconfiança da verdade da narrativa dos políticos.


A verdade na política tem sido um tema intensamente debatido ao longo do tempo. A relação entre verdade e política revela-se um dos problemas mais prementes do nosso tempo, sobretudo por ter como alvo os políticos que se acusam mutuamente da sua falta à verdade. Isto devido ao pano de fundo das crises das democracias ocidentais, à ascensão mundial do populismo e ao aparente aumento de mentiras, notícias falsas e propaganda. Em Portugal o discurso político parece ser dominado por uma quantidade quase incontrolável de meias “verdades” que alguns tentam passar por verdade confundindo a opinião pública.


Inverdades, no sentido de mentiras ou inexatidões, proferidas por políticos ou pelo poder são seguidas por ataques nas lutas partidárias e são usadas pelo ou contra o poder político. A verdade em política pode não corresponder à exatidão, ao rigor e à precisão, mas ela existe, independentemente de a querermos ou não, de estarmos de acordo com ela ou não.


Todavia a veracidade é a exatidão duma afirmação e verifica.se quando se apresenta a precisão de algum assunto, facto, declaração, ou outras questões, para que esteja em conformidade com uma suposta verdade. A veracidade é, assim, a pré-condição para a apuração da verdade em política. Isto é, um discurso de campanha passa sem a necessidade de declarar a própria credibilidade e confiabilidade do candidato, mas salientam-se as mentiras e as falsas promessas dos seus adversários políticos.


Cada um de nós interpreta a realidade conforme os filtros de crenças, experiências e vivências individuais, que vêm antes da interpretação da realidade, criamos assim a nossa própria verdade pessoal.


Feitas estas considerações podemos centrar-nos nos discursos que os políticos manifestam, com os quais entram em contato com o eleitorado, interferindo de certa forma nas suas opiniões pelo que devemos salientar a importância da compreensão das suas construções discursivas.


Como exemplo saliento o caso de Paulo Rangel do PSD que é, para mim, um perito na reescrita da realidade. Ele transforma uma realidade numa outra, sem aparente contradição, dado o seu talento excecional para construir argumentações com retóricas demagógicas, por vezes falaciosas e, por isso, devemos estar atentos e preparados quando o ouvimos ou lemos as suas narrativas.


Rangel tem o condão de ser uma espécie de embusteiro da política via argumentações por meio de retóricas contorcionistas. Dá a volta a tudo sem convencer ninguém, é um artista do malabarismo da retórica. Isto é, usa técnicas de construção de sofismas para ludibriar e convencer quem o ouve. A formulação das suas opiniões podem ser uma farsa quando a informação sobre os factos não está garantida e se os próprios factos não forem trazidos ao debate onde intervem. Isto é, a verdade de um facto fornece informações ao pensamento político, mas uma verdade concebida apenas pela razão fornece somente especulações mais ou menos filosóficas.


Se compararmos a linguagem científica que visa a precisão e o rigor na representação da realidade com a linguagem política verificamos que esta última tem propósitos diferentes como a persuasão, a influência e a dinâmica de poder.


Numa análise elementar de algumas das suas mais recentes intervenções que retive no dia 12 de abril na Assembleia da República Rangel afirmou que “a herança que o anterior Governo nos deixa, apesar do alarido com o excedente, é uma herança pesada” e que esconde um “Estado Social em estado de liquidação”. Se o Estado Social estava em liquidação faltou a Rangel e ao atual Governo dizer como vai proceder para o recuperar resolver. As afirmações de Rangel foram apenas o mote para desculpabilização do Governo de Luís Montenegro caso não consiga melhorar o Estado Social, assim como da impossibilidade do atual Governo executar as promessas durante a campanha eleitoral sem fazer derrapar as contas certas que o Governo anterior deixou.


Outro exemplo do malabarismo das palavras e da sua veracidade intrínseca poderíamos começar a analisar as frases várias vezes proferidas por Montenegro sobre os 1500 milhões da descida do IRS entre outras matérias, assim como intervenções de vários dirigentes partidários e comentadores políticos em debates e confrontos partidários.  


No primeiro dia de discussão do programa do Governo e sobre o IRS o Primeiro-Ministro achou ter sido claro. Mas não foi: disse que a sua proposta de lei ia “perfazer uma diminuição global de cerca de 1.500 milhões de euros nos impostos sobre o trabalho dos portugueses face ao ano passado.”. Estas palavras foram ditas.


Ainda sobre o choque fiscal começo com um bordão, isto é, palavra esvaziada de sentido e sem função morfossintática, como forma de apoio em momentos de hesitação, como o que Rangel usa quando rebate um seu adversário começando por ora vamos lá ver. Se Luís Montenegro garante que não enganou ninguém, então foi porque teve a sua base o Orçamento para 2024 do Governo PS.  Todavia, em entrevista à RTP o ministro das Finanças Miranda Sarmento clarificou que os 1.500 milhões de euros de alívio no IRS referidos pelo primeiro-ministro, no início do debate do programa do Governo, não vão somar-se aos cerca de 1.300 milhões de euros de redução do IRS inscritos no OE para 2024, rondando assim os 200 milhões. A confusão das várias narrativas é bem clara!


Para outro exemplo selecionei afirmações de André Ventura que criticou e classificou de “malabarismos políticos” os discursos de outros partidos para tentarem “isolar o Chega” após as eleições, ou quando o presidente do Chega afirmou que o seu partido é “o único contra o sistema de interesses”, criticando as “elites que governam o país há 47 anos” frase muito cara aos populistas.


O populismo considera a sociedade separada em dois grupos homogéneos e antagónicos: “o povo puro” e a “elite corrupta”, e ainda que a política deve ser uma expressão da vontade geral do povo se utilizarmos a definição de Cas Mudde, especialista em extremismo político e populismo na Europa e nos Estados Unidos, professor da Universidade da Georgia.


Há ainda os que, como Luís Montenegro, proferem frases e discursos pelo absurdo como o que passou acusando o PS de estar a entender-se com o Chega, o que aconteceu quando na Assembleia da República as propostas do PS, Bloco e PCP para o IRS foram aprovadas, na generalidade, com os votos da esquerda e a abstenção do Chega.


A intervenção de Montenegro não foi mais do que pura tática política de campanha contra o PS. Se prestarmos atenção a esta afirmação de Montenegro torna-se claro que pretende seja passada como como verdade uma inverdade e uma impossibilidade política no atual contexto. Disse ainda Montenegro que “a ideia do PS e do Chega é simularem uma oposição ao Governo fazendo um governo alternativo, então vão ter de assumir isso olhos nos olhos dos portugueses.” Este é manifestamente um símbolo de impossibilidade porque bem sabemos que não existe, e que não existirá, nenhuma espécie de entendimento ou estratégia concertada entre o PS e o Chega. Montenegro toma a parte pelo todo. Em democracia é legitimo que um partido vote num sentido, ou noutro diferente, ou acompanhe o sentido de voto de outro partido o que não significa que haja qualquer aliança, mas apenas uma aproximação de pontos de vista em assuntos específicos, mesmo que seja por motivo oportunista da parte de uma deles.


Isto leva-nos à conclusão de que na política, a linguagem pode ser mistificada ou deliberadamente tornada complexa para criar uma aura de saber e convicção muitas vezes com apelo emocional e gestos exagerados para influenciar opiniões, veja-se o caso de André Ventura nas suas intervenções na Assembleia da República.


Outro malabarista é Hugo Soares, líder da bancada da AD na Assembleia da República, este sem comparação com o nível argumentativo de Paulo Rangel. Hugo Soares é outra espécie de demagogo cujas intervenções ao atirar para o ar ideias esgotadas são como reflexos dum espelho quebrado.


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Hugo Soares responsabilizava, em março de 2024 antes das eleições, o PS pela degradação e falta de investimento nos serviços públicos. Disse então o cabeça de lista pelo círculo eleitoral do distrito de Braga da candidatura da Aliança Democrática (AD) numa reunião em Braga que “o PS era o responsável pela degradação e falta de investimento nos serviços públicos”.


Justificado pela dita “degradação dos serviços públicos”, “do SNS às escolas, dos tribunais às forças de segurança”, segundo o PS o que estaria em causa era colocar em marcha as intenções da AD no que respeita ao Estado Social, não para o manter, melhorar e fazer melhor, mas para, o debilitar ainda mais.


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Hugo Soares continuava a sua tese falando da “habitação e do desemprego jovem, da precariedade e do êxodo dos jovens”. Em suma, segundo ele “o Estado Social parece agora em estado de liquidação”, mas nada diz como o vai melhorar. Logo, digo eu, é o mesmo que estar a dizer que teria de acabar ou reduzir o dito Estado social porque o Governo AD não iria ter capacidade para a sua resolução nem o poderia alterar porque iria arrombar com as contas públicas certas. Lembremo-nos que o PSD na oposição dizia que o Governo deveria fazer e gastar mais. Hugo Soares um “passista” ferrugento um primitivo de Passos Coelho que em 2012 lançou para a praça pública a frase do seu ídolo Passos que justificava a “maior austeridade com herança mais pesada” herdada do PS.


A coligação AD, na impossibilidade de conseguir cumprir e alterar o que criticou e prometia na oposição, sabendo já da possibilidade do incumprimento das promessas durante a campanha eleitoral lança para a frente o estribilho da “pesada herança”. É um déjà vu do PSD. Passados 12 anos esta retórica já não pega, arranjem outra! 


A tentativa de colar o PS ao despesismo é uma falacia que para a coligação AD serve, à falta de melhor, para tudo, até para o disparate. Se o PSD queria o poder então a sua missão não é falar de heranças pesadas ou não, é resolver o que disse que faria com o que estava mal e propor o que pode e como fazer melhor.


A questão que se levanta é a de saber se agora a austeridade virá sem herança pesada (terão que inventá-la), ou se irão seguir a estratégia do passado com desonestidade para justificarem a impossibilidade do cumprimento das promessas que fizeram sem saberem as contas que iriam encontrar ou, então, concordavam com as contas certas e com as cativações que tantas vezes criticaram.


Estranha-se também é que o PSD, quando na oposição, atacasse o ministro das finanças do Governo PS pelas cativações de verbas que serviam como almofada em caso de emergência e agora queixa-se de não haver verbas. Protestava então o PSD acusando o Governo da altura de “falsear o debate orçamental” através de “cativações recorde”, e desafiava o ministro das Finanças a esclarecer onde ia congelar despesa no próximo ano.


A velha estratégia aí está, porque demagogia e desonestidade política andam a para e não têm limites quando servem para lançar a confusão política com as suas verdades alternativas criadas ou a criar por este Governo, que comprovam a evidência de que está com dificuldades, quiçá em desespero, pela impossibilidade de não conseguir cumprir as promessas eleitorais. Assim, o Governo AD, pela voz do atual ministro das finanças Miranda Sarmento, veio dizer que as contas públicas “estão bastante pior”, mas ex-ministro das Finanças Fernando Medina garante que país “não tem” problemas orçamentais e acusa o atual ministro de “profunda impreparação técnica” e de “usar a falsidade como arma de combate político” e garante que “o país não tem qualquer problema orçamental”. Assegurou ainda que “todas as despesas” que autorizou “cabem no orçamento” e garante que o país “não tem qualquer problema orçamental”.


Começa a ser evidente um padrão que começa a ser facilmente reconhecido e que é atributo da direita quando chega ao poder e tem o costume de anunciar de forma veemente que as contas não estão bem e logo de seguida parte para políticas de austeridade. Isto não é novidade e aconteceu várias vezes. A dificuldade está na mudança que está a dificultar o uso daquela estratégia a que o ministro das finanças e o Governo chefiado por Montenegro não deu a devida importância.


No que se refere às finanças o resultado é reconhecido por várias entidades que sabem o que dizem sobre têm uma palavra a dizer nessa matéria. Luís Montenegro e Miranda Sarmento querem passar a mensagem e fazer de conta que isso não aconteceu para lançarem a mesma narrativa em que gritam aos quatro ventos das contas públicas numa desgraça para depois dizer que “somos nós que temos de resolver.” A linha é a mesma de quando em 2011 o então primeiro-ministro Pedro Passos Coelho afirmou perante o Conselho Nacional do PSD que o seu Governo encontrou um “desvio colossal em relação às metas estabelecidas” para as contas públicas. O atual Governo pretende reconstruir esta falsa realidade através de uma verdade alternativa para enganar os portugueses.


Há outras narrativas que e o atual Governo pretende distorcer inventando novas realidades e factos na forma e no conteúdo. Estão nesta linha o caso de o Governo exonerar a provedora da Santa Casa da Misericórdia e o que levou à demissão de Fernando Araújo, Diretor Executivo do Serviço Nacional de Saúde e outros casos se seguirão.


Segundo o jornal Público a Ministra da Saúde “contava estar a iniciar trabalhos do Plano de Inverno e volta a responsabilizar Araújo Ana Paula Martins admitiu que ‘os planos sazonais de saúde pública são da Direcção-Geral da Saúde (DGS), por causa das ondas de calor, das ondas de frio, e são sempre feitos pela DGS e assim continuará’. Contudo, considera que, face ao estatuto que define as competências e atribuições da DE-SNS, ‘é muito claro que a articulação da malha da rede que neste momento são as unidades locais de saúde, ou seja, integram os nossos centros hospitalares e os cuidados de saúde primários, é naturalmente competência do senhor diretor executivo e da sua equipa’, defendeu, numa crítica à decisão de Fernando Araújo”. Segundo parece é mais uma verdade não factual apresentada pela atual ministra da saúde.


No passado recente temos o caso do ex-bastonário da Ordem do Médicos, Miguel, Guimarães, que estava na linha da frente do ataque ao SNS com comentários pouco abonatórios como um elemento de oposição ao Governo ao jeito de campanha ao seu partido, o que deu os seus frutos porque é agora deputado pela AD. O que não se conhece é como este Governo, conforme prometeu, irá no prazo de sessenta dias resolver os problemas que apontava existiam no SNS, mas receia-se o pior.


A esquerda conseguiu aprovar as suas propostas de redução do IRS contra a do PSD. A antecipação de que a proposta de lei do Governo arriscava ficar pelo caminho se fosse a votos veio por uma intervenção de André Ventura que criticou o executivo por ter apresentado a proposta “sem negociar”, questionando-se: “Espelho meu, espelho meu, quem engana mais os portugueses do que eu?”


Como afirmam os populistas estes factos demonstram que há um distanciamento entre a classe política, as elites e a população em geral. Escrever ou dizer coisas polémicas parece ser o que está a dar para se ser um político sério e responsável. Não sei se ser jovem e ser polémico não terá sido o que serviu de legitimação para a escolha de Sebastião Bugalho para cabeça pela AD de lista nas eleições europeias.


Por outro lado, a embalagem muito bonita do Chega com o programa e as promessas que defende está tudo muito bem embrulhada. Ao que me parece as afirmações recentes de Passos Coelho levam para a tendência de acordos com o partido Chega. Parece que segundo uma newsletter de Ana Sá Lopes no Público “Passos tenta ensinar Montenegro a governar”.
Não me recordo quem escreveu “que é legitimo e mesmo útil uma aliança e mesmo o governo do seu partido com o diabo que chegou. No inferno do governo deviam era estar lá eles todos. Seria, no entanto, juntar a fome com a vontade de comer, os outros morreriam esfomeados. Está mal. Não concordo. O erro dele é preferir um voto eleitoral legitimo, mas ignorar os dislates de quem se abraça”.


Há que confrontar os factos com as verdades e as verdades alternativas criada pelos políticos fora ou dentro do Governo para iludir os potenciais eleitores.

sábado, 6 de janeiro de 2024

Um verdadeiro Ano Novo precisa-se

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Já passaram as festas de Natal e do Ano Novo e o seu início desde já promete ficar cada vez mais corrompido pelo debate confronto político que se degrada à medida que se aproximam as datas das eleições previstas para este ano, penso eu.


Pelo início deste novo ano nada faz prever que mude, diz o meu oráculo. Comentadores políticos com a redundância assumida aceleram nas suas teses. São horóscopos que defendem com argumentos bem delineados, mas enganadores e intencionalmente dirigidos para defesa dos seus pontos de vista. Imaginam estes oráculos cenários, os piores possíveis, críticas a todas as políticas, sem exceção, de quem cessa funções e preconizam o nascer de sóis resplandecentes e alinham com a execução das promessas dos que se perfilam para a obtenção do poder, mesmo sabendo que elas são inexequíveis por um governo que pertença às suas filiações ou simpatias partidárias.


Os vaticínios que me são transmitidos são cantos enaltecidos e apologéticos. São promessas transitórias das direitas e das extremas-direita a elevarem-se na imprensa e nos espaços televisivos das notícias selecionadas e rigorosamente alinhadas com o que foi “dito”, mais do que o não “dito” e omitido, pelas intervenções dos responsáveis partidários das oposições de direita, tendencialmente contra o ainda Governo que cessa as suas funções exatamente a 7 de janeiro do presente ano.


O meu oráculo diz-me que os media recorrerão ao passado martelando e martirizando os ouvidos e os olhos dos telespectadores com as “maldades” várias do governo anterior e as mesmas “tags” (etiquetas) de sempre: corrupção, compadrio, favores, peculato, acompanhadas com fragmentos de peças do passado com casos e figuras mostrados insistentemente e escolhidos a dedo consoante os interesses partidários e orientações das vozes dos donos para garantia de influência mediática, em favor dos seus interesses partidários.


A saúde, sobretudo as urgências hospitalares, cuja principal causa está da epidemia gripal, terão diariamente palco, até à exaustão, nas aberturas dos jornais televisivos, como se isso fosse resolver os problemas que a direita não se atreve a dizer como resolver, porque sabe que não o conseguirá.  


Segundo o meu oráculo, as oposições, sobretudo as de direita, com a cooperação de denominados jornalistas de investigação, irão à busca de casos triviais mesmo que criticáveis são lançados para a opinião pública como sendo casos extraordinários mostrados ao modo de investidas dramáticas.


 O PCP fará dessas trivialidades ouvidos moucos porque, para eles, os desse partido, não são esses os principais problemas de que o país e o povo enfermam. Para eles o povo, os trabalhadores, os salários e as pensões são uma espécie de cassete em contínuo.


Dizem-me os meus oráculos que neste novo ano, até às eleições, continuarão comentadores e “opinadores” de serviço, sobretudo os simpatizantes da direita a direcionar as suas críticas pessoalizadas aos atores do adversário que mais os faz tremer. No entanto passam a achar que os jornalistas devem escavar, para escavacar a vida pessoal dos políticos, mas apenas quando calha a outros que não os da sua simpatia político-partidária. Se assim não for passarão logo a defender o escrutínio justiceiro pelos media e a considerar que esse deve ser também o seu papel. Assim falam porque Montenegro ultimamente está sob suspeita. João Miguel Tavares assim escreveu primeiro num ato de justificação, e depois Paulo Rangel do PSD a entrar no ato da defesa do líder.


O primeiro coloca em comparação Pedro Nunes Santos com Luís Montenegro porque, escreveu ele, que “Como eleitor, essas informações interessam-me, porque me ajudam a construir o perfil de um candidato”. Para tal desenvolve sobre os bens pessoais de cada um como sendo indicadores indispensáveis do perfil dos candidatos, Para Miguel Tavares parece que o perfil dos políticos em evidência de avaliasse pelos bens pessoais que possuem ou já possuíam ou como se o miserabilismo fosse o perfil adequado para o exercício da atividade política. Compara o que um tem e gosta com o que o outro tem e gosta, tornando-se óbvio e claro qual a intenção e o objetivo.


Ao analisarmos o artigo de João Miguel Tavares verificamos que, para atestar algo contra o Governo PS, defende o escrutínio rigoroso pelos media sobre a vida pessoal e posses dos políticos.


Paulo Rangel, numa entrevista que deu à Rádio Renascença e divulgada pelo jornal Público veio em defesa do líder do seu partido e afirmou sobre o caso Montenegro que “estranha “coincidências” e que “há” mão invisível contra Montenegro”.


Torna-se evidente a desculpabilização de Montenegro por Rangel já que atribui a culpa ao Governo. Vejam-se as perguntas e as respostas:


O inquérito teve origem em denúncias anónimas. Há aqui uma mão invisível para atrapalhar a vida do líder do PSD?


“Acho que há. Isto começou a surgir quando houve grandes problemas com o Governo.”


Faz essa associação?


“Estou a fazer uma associação puramente objetiva. A verdade é que aconteceu. Ao mesmo tempo é uma coincidência temporal, mas depois cada um interpreta como quiser. Mas o que mais admirei na posição de Luís Montenegro foi a não-vitimização, aguardar o inquérito e não fazer pressões para que decorra depressa ou devagar ou à tarde ou à noite.”


À pergunta sobre se “O líder do Chega dizia que Luís Montenegro tem de dar uma explicação cabal sobre o que está em causa no inquérito, inclusivamente mostrar os documentos. Como é que responde a isso? Luís Montenegro disse que não ia mostrar nada e entregar ao Ministério Público”.


“Uma comunicação social responsável não devia dar palco a esse tipo de populismo. É evidente que as vidas das pessoas, especialmente os seus detalhes, não têm que estar na comunicação social.”


Afirma o meu oráculo que o fator da crise das democracias, e também no caso português, é a política democrática estar sujeita a uma transformação pela sucessão contínua entre os media e a política. A autonomia das decisões políticas fica em risco e é condicionada pelos mecanismos dos media.


 


 


o domínio da política democrática pela sua transformação num contínuo político-mediático, que diminui a autonomia da decisão política e a torna cada vez mais dependente dos mecanismos da comunicação social e da sua evolução.


A atual necessidade de rapidez competitiva entre os media leva necessariamente à falta de rigor, à agressividade, à culpabilização antes da prova, à falta de racionalidade no que é escrito, dito e mostrado leva ao superficial, ao vulgar que arrasta neste círculo vicioso a própria política.


Verifica-se um fenómeno que é o de não se ter a política, os partidos e os políticos temos uma espécie de mescla o que é política, partidos e políticos com os media, neste caso considerando a imprensa, a rádio e a televisão que se influenciam mutuamente pela opinião pública.


Não foi o meu oráculo que me murmurou ao ouvido que “os factos, as opiniões, as interpretações são moldados por mecanismos mediáticos em que participam políticos e jornalistas, cada vez mais com uma cultura de acção semelhante e dependente de efeitos comunicacionais tais como a novidade, o timing, o tipo de resposta, a rapidez, a frase assassina, a falta de estudo e de rigor. As redes sociais e novas formas de acesso àquilo que passa por ser informação…”, foi Pacheco Pereira que escreveu no Público.


O meu oráculo diz-me que os que escrevinham artigos de opinião nos principais órgãos de comunicação, assim como os comentadores de serviço que são inspirados por “divindades intermediárias” irão traçar destinos maléficos, ou benéficos, consoante os interesses, tendentes a influenciar os votantes nas próximas eleições. Uns irão assinalar os recados enviados indiretamente nas intervenções da mais alta individualidade da nação que irão tomar como críticas ao Governo já em processo de demissão, mesmo que não o sejam e irão continuar a responsabilizá-lo por nada fazer. Utilizarão estribilhos muito queridos às esquerdas radicais e farão críticas, sem apresentarem soluções, centrando-se nos discursos do acesso à saúde, habitação e educação à qual acrescentam a justiça cuja reforma não lhes interessa, mas que nas bancadas gritam por não ter sido feita. Ouço eu. E, quando chegados ao poder, nada fazem. Interessa-lhes que tudo se mantenha na mesma, penso eu.


Quando as direitas usam nas suas intervenções aqueles slogans fazem-me recordar as palavras da canção de Sérgio Godinho (1974), palavras de ordem da extrema-esquerda após o 25 de Abril, estimulantes à rebelião popular,


Só há liberdade a sério


Quando houver


A paz, o pão, habitação


Saúde, educação


Só há liberdade a sério quando houver


Liberdade de mudar e decidir


Só lhes falta acrescentar:


Quando pertencer ao povo o que o povo produzir


E quando pertencer ao povo o que o povo produzir


 


Recuperar e revigorar o passado passará a ser o foco das direitas que, vendo reduzir ou desaparecer o seu espaço eleitoral, vão juntar-se na mesa para decidirem e tecerem estratégias para o banquete eleitoralista no sentido de obterem uma maioria parlamentar, ou senão, ocuparem o poder e dividir pelouros num futuro governo.


Uma Aliança Democrática versão 2024, PSD+CDS+PPM, parece destinada ao fracasso e poderá não ter efeito significante nos resultados eleitorais, digo eu. A dinâmica dos saudosos Francisco Sá Carneiro, Diogo Freitas do Amaral e Gonçalo Ribeiro Telles, quando a política era mesmo política e não era induzida pelos media, falha nesta AD forçada com líderes, especialmente como o do CDS, não vai resultar.


Poderemos vir a ficar surpreendidos ao percebermos o efeito marginal que esta aliança terá no eleitorado se mantiver o até agora discurso partidário pela negativa e pelo ataque sem nada para oferecer, sem programa claro e objetivo, com as promessas do costume se forem um potencial governo utilizando as mesmas capacidades retóricas populistas próximas do CHEGA.


O meu prenúncio para a justiça, e mais concretamente, para o desempenho do Ministério Público e da PGR não é animador devido à série de coincidências que se tem verificado entre o tempo da política e o tempo da justiça. A PGR não faz política, mas há muitas formas de manifestar os seus pareceres sobre política e as circunstâncias e as ocasiões e a forma como lança para a comunicação social o que está a investigar, e a escolha do tempo para o fazer pode vir a dar lugar a dúvidas sobre os métodos de que se serve.


Precisamente na véspera do dia da demissão do Governo que se limitará à prática dos atos estritamente necessários para assegurar a gestão dos negócios públicos os media tornam público dados que consideram serem novos e, estranhamente, sobre António Costa, exatamente no dia do início do 24.º Congresso Nacional do Partido Socialista. Estranhas coincidências na justiça, disse-me o oráculo.


Na política internacional continuarão muitos continuarão a perorar nas redes sociais (mas também alguns generais comentadores de política de guerra), talvez dissimuladamente defensores da invasão da Ucrânia pelo ditador Putin, a que tecem elogios.


À pergunta porquê responde-me a pítia do oráculo que é tudo por causa   da expansão da NATO ao Leste Europeu, à possibilidade de adesão da Ucrânia àquela aliança militar, à contestação ao direito da Ucrânia à soberania independente da Rússia e ao desejo de Vladimir Putin de restabelecer a zona de influência da antiga União Soviética, mas esquecem-se aqueles que  e é importante lembrar que a invasão violou o direito internacional e a soberania da Ucrânia, além de ter causado muitas mortes e deslocamentos . Tudo com a ajuda da influência da opinião pública por fatores como os media, a propaganda e a desinformação que Putin consegue por no terreno.


E acrescenta o oráculo porque aquelas pessoas são contra o imperialismo ocidental, mas que, ao mesmo tempo, apoiam o imperialismo estalinista de Putin na Rússia, digo eu. Estes mesmos também dizem ser defensores do povo palestiniano, sem que saibamos se, afinal, estão do lado da ala militar para a libertação da Palestina, o Hamas, organização, pró-terrorista que dizem estar do lado do povo e que, por isso, praticam atos terroristas e porque são contra os EUA. Esta organização é entendida por muitas nações como terrorista, e controla a Faixa de Gaza de maneira autoritária, dizem alguns analistas.


A pitonisa que profetisa o oráculo que consultei disse-me que o povo judeu, após o fim do holocausto e depois do Estado de Israel ter sido criado, graças à proposta da ONU de dividir o território da Palestina em duas nações, passou de vítima a agressor. São agora apontados por genocídio dos palestinianos, dizem uns, é o direito à defesa que a isso os obriga, dizem outros.


Israel ocupa indevidamente o território que devia ser de ambos os povos, no conceito de dois povos dois estados. Através duma violência que dizem ser pacífica, como se qualquer violência é pacífica, e a que chamam colunatos, expressão invasiva de território potencial e possivelmente palestiniano. Diz-me o meu oráculo que em novembro deste ano os EUA e o Mundo poderão estar em perigo se um certo senhor de perfil ditador nazi venha a ocupar o cargo mais importante daquele país.  Contudo, e pelo seu passado no anterior mandato o senhor Trump diz uma coisa e o seu contrário num curto espaço de tempo, digo eu.


Em 2022 elogiou as ações de Putin em relação à Ucrânia e reconheceu a independência de duas províncias separatistas da


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Ucrânia, além do envio de tropas russas para entrar no país e para supostamente proteger os enclaves, disse ele,  a ação de Putin era “genial” e Putin entraria na Ucrânia como um pacificador, dizia ele,  condenou a invasão da Ucrânia pela Rússia, que estava orando pelos ucranianos, passou ele a dizer, talvez por estratégia eleitoral, sobre isto o meu oráculo nada diz.


Para a Paz entre Israel e Palestina teve um plano em 2020 rejeitado pelos palestinos, propunha ele e uma solução de dois estados para o conflito, como ele resolveria o conflito face aos atuais cenários, ele não diz.

segunda-feira, 18 de dezembro de 2023

Pluma caprichosa ou harpia desconcertante

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Falemos primeiro sobre as harpias na mitologia grega mito que tem várias descrições e interpretações. A que apresento pareceu-me a mais adequada à minha pretensão. No mundo da mitologia grega as harpias eram génios maus, monstros alados com corpo de pássaro e cabeça de mulher com garras afiadas que atormentavam as almas com perversidades incessantes. Representavam a inquietação e as provocações da maldade. Eram vistas como má sorte, pois podiam fazer estragos na vida das pessoas. Se uma pessoa ou objeto desaparecesse repentinamente no ar, a conclusão comum seria que uma harpia os levou nas suas garras afiadas.


Falemos então sobre a relação que faço com as harpias. Às quintas-feiras, no Eixo do Mal, um programa de comentário da SIC Notícias, há um elemento que, na maior parte das vezes, consegue ser detestável de tão arrogante. É senhora de si e convicta das suas indiscutíveis certezas.  


Do ponto de vista da psicologia convicção é a forte crença de que um comportamento é correto, moral e consistente com os valores de cada um. Consiste numa espécie de certeza sobre si e sobre o seu próprio comportamento. É o sentimento de certeza sobre alguma coisa que, quando se acredita, ou pensa que se acredita, pode fazer agir por ressentimento ou arrogância com base nas próprias certezas. Quando a convicção é de ressentimento ou arrogância pode levar no sentido da desvalorização de alguém.


Clara Ferreira Alves tem convicções que, por vezes, demonstram um cinismo irritante e talvez seja essa a sua intenção. O modo como se expressa e o sorriso desdenhoso possuído de absoluta certeza revela o tamanho do seu ego na mesma medida com que ataca as pessoas que critica porque detesta.


Luís Osório, jornalista e escritor, afirmou em abril deste ano que “A sua agenda é a dela própria, das suas obsessões, preconceitos e valores – como se ela fosse a única pessoa do mundo e todos fossemos personagens do seu próprio filme. Uma arrogância que na escrita a transporta para uma dimensão de excelência. E nós com ela”. Subscrevo esta afirmação de Luís Osório sobre a escrita de Ferreira Alves. No entanto, para mim, é uma espécie de harpia que ataca segundo os seus caprichos e convicções que para ela são transformados em certezas e predições definitivas.


A superficialidade de algumas das suas afirmações oralizadas não são prova de facto, são prova de ódios estimados. As suas afirmações no último “Eixo de Mal” são, este sim, factos da aversão que tem a António Costa. Clara Ferreira Alves pretende ser uma comentadora que sai fora da caixa, que quer pensar diferente da corrente dos seus colegas. Talvez para conseguir audiências dos que se encontram na gama partidária e simpatizante da Iniciativa Liberal e do Chega que agridem António Costa que não se resumem apenas na discordância com as políticas do Governo, mas também por sentimentos da já tradicional inveja portuguesa da capacidade política de Costa e da sua aceitação em contexto europeu. Clara Ferreira Alves parece envolver-se também neste sentimento dando folego aos líderes daqueles dois partidos.


Também sinto alguma invejazita da Clara quando leio algumas das suas crónicas apenas por que não sei, nem consigo, escrever como ela. Não é por isto que deixa de fazer parte do mundo das harpias modernas (que não são como as da mitologia grega), que estão sempre à espreita para atacar os seus oponentes e de quem não gostam, como são alguns políticos e jornalistas que podemos descrever como sendo de natureza agressiva e predatória.

quarta-feira, 31 de maio de 2023

Um artigo de opinião de Carmo Afonso: As Cristina Talks e a contagem dos parvos



As Cristina Talks e a contagem dos parvos









Assim, é difícil acreditar na democracia. Estamos todos à mercê das fraquezas e vulnerabilidades uns dos outros.







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Cristina Ferreira soma e segue enchendo salas com milhares de pessoas para assistirem às Cristina Talks. Depois de Gondomar e Lisboa, foi a vez de Guimarães, e a próxima sala, em Braga, também já esgotou os 7500 bilhetes, a 19 euros, em poucas horas. A este propósito, recomendo a leitura de um artigo neste jornal: Cristina e o seu séquito de levantados do chão.


São eventos onde Cristina Ferreira surge como guru que ensina a superar adversidades – como críticas, insultos ou até a própria pobreza – e onde se propõe fazer a assistência passar por um processo transformador, mediante o qual aquelas pessoas passarão a acreditar em si mesmas e no seu sucesso. A partir daí ficarão mais próximas de alcançar esse sucesso nas suas vidas, ou seja, alcançarão prosperidade material e reconhecimento público.


No seu espetáculo, a apresentadora fala dos que a criticam e chama-lhes "anticristina". Representam a intelectualidade e sobre eles diz: “Quanto mais me põem para baixo, mais eu ganho balanço para ir para cima.” Dá destaque às críticas nas redes sociais e ao desdém com que muitos a tratam, considerando-os mais um impulso para a sua ascensão. O segredo é ser autêntica e acreditar. Tudo o resto virá por acréscimo porque afinal “somos o que quisermos ser” e ela, Cristina Ferreira, está “entre as pessoas mais poderosas do país”.


Reparem que o relambório de publicações nas redes sociais a criticar a seriedade de Cristina Ferreira nesta sua nova atividade é perfeitamente inútil e até faz parte integrante da fórmula mágica que apresenta aos fãs.


Temos aqui um problema: existem dezenas, ou centenas, de milhares de pessoas que estão disponíveis para pagar um bilhete e participar num ritual, presidido por Cristina, que supostamente as transformará em pessoas de sucesso. É difícil perceber qual a escala disto, mas é certo que, onde quer que vá, esta mulher esgota as maiores salas de espetáculo. Temos de reconhecer que são mesmo muitos os portugueses que acreditam que ouvir a Cristina Ferreira vai melhorar as suas vidas.


Isto reveste-se de gravidade. É pura e simplesmente a negação da política. Quem acredita que aquele é o caminho para uma vida melhor está a abandonar a sua condição de sujeito político; o que pensa, reivindica melhores condições de vida e está disposto a lutar por elas individual e coletivamente. As palestras de Cristina Ferreira são uma verdadeira alternativa ao ato político. Porque precisarão os trabalhadores de fazer uma greve pela melhoria das condições de trabalho se basta acreditarem que são bons?


Observar o fenómeno Cristina Ferreira ajuda a perceber outros fenómenos como o das igrejas evangélicas e o da ascensão da extrema-direita. Aqui, justiça seja feita a Cristina Ferreira: não costuma convidar fascistas para os seus programas e para as suas entrevistas. Mas o assunto é outro e há mesmo semelhanças entre o processo que leva as pessoas a acreditar que mudarão de vida por causa de uma talk e o que leva as pessoas a acreditar que o Chega vai resolver os seus problemas ou que o seu líder é que diz as verdades, não obstante ser apanhado a mentir quase diariamente. A sensação para quem está de fora é parecida: uma profunda incredulidade com o que se passa na cabeça daquelas pessoas. Assim, é difícil acreditar na democracia. Estamos todos à mercê das fraquezas e vulnerabilidades uns dos outros.


Quase todos os políticos portugueses já foram aos programas da Cristina Ferreira e Marcelo Rebelo de Sousa chegou a telefonar-lhe na estreia de um novo formato quando a apresentadora estava em direto. Este histórico funciona como uma legitimação das qualidades que a apresentadora anuncia ter e é também isto que vende. Não deve voltar a acontecer. A classe política tem obrigação de não contribuir para a credibilização de quem anuncia milagres e vende fantasias perigosas para quem as compra e para a própria democracia.


Cristina Ferreira sonha ser Presidente da República. Temos razões para não querer que ponha esse plano em ação. Não que seja previsível que ganhe, mas é certo que de cada vez que contamos quantos de nós puseram a cruz numa opção que demonstra que se perdeu o juízo e o bom senso chegamos a números astronómicos. Está aqui uma coisa boa que Cristina Ferreira pode fazer por Portugal: não nos obrigar a saber exatamente quantos portugueses desejam que seja presidente. Já mereceria um agradecimento.


A autora é colunista do PÚBLICO e escreve segundo o novo acordo ortográfico





 

quarta-feira, 17 de maio de 2023

Pretensos democratas que descredibilizam a política

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O espetro partidário da direita tem vindo modificar-se desde 2015. Em 2017 é fundado o Iniciativa Liberal (IL) e concorre às primeiras eleições legislativas e pela segunda vez em 2022 conseguindo oito deputados. O partido Chega concorreu às Eleições Legislativas Portuguesas de 2019 e em 2022 obteve doze deputados.


A suposição que se pode fazer é que a maioria dos eleitores destes partidos terá a sua origem em simpatizantes que votariam anteriormente no PSD e no CDS o que, em parte, pode explicar as enormes perdas destes dois partidos em número de votantes. É assim compreensível que os novos partidos com assento na Assembleia da República tentem conquistar ainda mais votos, e o PSD e o CDS conseguir que os “fugitivos” também os que terão votado no PS de arrependam voltem ao partido e origem.


O Chega pela voz do seu presidente faz uma oposição que se limita a descredibilizar políticos e a política, isto é, descredibiliza a própria democracia. Os que assim procedem uns consideram-se incorruptos e outros apolíticos. Ao atacarem a política e os políticos estão na substância a fazer política e a proceder como políticos. A pergunta que se coloca a estes e aos que pensam que todos os políticos deveriam ser banidos é: como é que eliminariam toda a classe política e por quem a substituiriam?


Montenegro não segue por esse caminho, mas, para chegar ao poder, não rejeita qualquer participação e oportunidade para denegrir os políticos a quem faz oposição em vez de criticar as suas políticas passa o tempo a dedicar-se a casos que em nada contribuem para as reformas necessárias. Contribui para denegrir a própria política para recuperar votos aproximando-se do percurso do Chega por caminhos mais subtis.


São os populistas que espalham a desconfiança em relação aos políticos, que ocultam inevitabilidade da política, como se esta pudesse ser despenhada por quem não é político.


Fará sentido que se alimentem críticas em relação aos parlamentares, representantes do povo, quando os que os criticam dizem estar a falar em nome da voz do povo descontente com os políticos?


Os populistas são uns elitistas políticos virados em sentido contrário, isto é, são senhores do pensamento que propagam defendendo que não acredita que o povo é igual aos seus governantes, mas sim que é melhor que os seus governantes. Basta analisar com cuidado as atitudes, comportamentos e até os discursos fátuos de partidos na Assembleia da República que se acham grandes representantes da vontade do povo contra os partidos, os políticos e a política desde que não sejam eles. É por isto que se torna imperioso que se combata a iliteracia política que tende a devastar toda ação política e governativa lançada na opinião pública e no seio das massas populares.


Há partidos e políticos cujo líderes têm por missão desqualificar os outros com ataques pessoais, fazendo-nos acreditar que eles próprios não agem como políticos ou que são políticos de uma elite à parte. Fazem-se desinteressados e suprapartidários e mostram ser contra o número de deputados, mas que como tal usufruem das mesmas regalias.


Houve tempo em que um líder dum partido de extrema-direita que defendia a proposta de reduzir o número de deputados. Se tal fosse aceite a Assembleia da República seria ainda menos capaz de controlar os executivos. Talvez isso interessar a quem tal propões na esperança de um dia serem Governo.


Partidos e líderes partidários que fazem oposição ao Governo colocam-se por vezes numa posição suprapartidária e de infalibilidade nas afirmações e críticas que proferem usando uma linguagem polissémica e dúbia a partir de retóricas supostamente baseadas em factos desfigurados a que depois chama por factos alternativos.


O populismo vive de inverdades, de meias-verdades, de mentiras e de factos alternativos, ou verdades alternativas como se queira. O Dicionário Inglês de Oxford (Oxford English Dictionary) dá o significado para facto "Aquilo que se sabe (ou em que se acredita firmemente) ser real ou verdadeiro; o que de facto aconteceu; verdade atestada por observação direta ou testemunho autêntico; realidade".


A denominada verdade alternativa[1] ou facto alternativo no seu nível mais básico é uma afirmação que é apresentada como verdadeira, mas que na verdade é falsa ou enganosa. É essencialmente uma forma de propaganda e de desinformação destinada a manipular a opinião pública ou a moldar a perceção pública de forma que seja favorável à pessoa ou grupo que apresenta os ditos factos alternativos que não são mais do que falaciosos.


Factos alternativos não são factos, são falsidades. Só os tendencialmente adeptos do totalitarismo manipulam a linguagem e defendem a ideia absurda dos factos alternativos para poderem afirmar o controle do público.


As “fake news” (notícias falsas) podem assumir muitas formas diferentes, mas o elemento essencial é sempre o de serem parcial ou totalmente falsas. Podem ser uma lenda urbana, um boato, um rumor, escrita mal fundamentada, desinformação deliberada ou com intenção de humor ou paródia. Como consumidores de informações, é da nossa sua responsabilidade avaliarmos as fontes de notícias quanto à sua credibilidade, autoridade e propósito, tanto para as nossas próprias necessidades de informação como para evitar que compartilhemos propositada ou acidentalmente notícias falsas com outras pessoas.


Vejamos um exemplo relevante em como a partir de um facto real que pode ser comprovado se pode gerar uma verdade alternativa. Em 6 de maio de 2023 Luís Montenegro afirmou que entre 2011 e 2015, durante o governo de Passos Coelho, «nós conseguimos não perder tanta qualidade de vida e tanto bem-estar como aquele que tem sido perdido nos últimos anos». Ora pode comprovar-se, recorrendo a informação da época, que as circunstâncias do Portugal democrático desde o 25 de Abril, devido aos episódios da assistência financeira externa, tal não é verdade. É uma verdade que tem uma perspetiva parcial e demagógica porque naquela época houve circunstâncias gravosas para grande parte, se não a maioria, da população.


O líder do PSD, Luís Montenegro, num jantar em Pombal no dia 14 de maio tenta ludibriar quem o ouvia com verdades parciais. Verdades parciais por terem sido feitas sem enquadramento, destacando apenas números desligados.  Afirmou ele: “Pois, esta semana batemos mais uma vez, pela mão do Partido Socialista e do doutor António Costa, o recorde de portugueses sem médico de família. São mais de 1,7 milhões de portugueses que não têm hoje médico da família”, sublinhou, acrescentando que, no distrito de Leiria, “cerca de um terço dos utentes de cada concelho, em média, não tem médico de família”. E acrescentou: “É com este Governo e com este primeiro-ministro que temos em Portugal mais de 3,3 milhões de portugueses que tiveram de fazer um seguro de saúde, aos quais acresce mais cerca de um 1,2 milhões que tem ADSE, mais alguns subsistemas”.


Analisando estas afirmações destacam-se falhas graves na informação passada, a saber:



  1. O número de pessoas sem médico de família terá aumentado devido ao número de imigrantes que teve acesso ao SNS nos últimos anos e que vieram acrescer o número de utentes e a sobrecarregar estes serviços.

  2. Quanto ao número de seguros de saúde está a confundir dois tipos: os seguros de saúde propriamente ditos com os cartões de desconto em serviços médicos de empresas privadas (ex. Medicare, Multicare) que não é o mesmo que um seguro de saúde; A ADSE sempre existiu, desde o tempo do Estado Novo, desde 1963; os outros subsistemas já existem há décadas, e o PSD nos anos em que esteve no Governo em nada alterou, melhorou ou acabou com os subsistemas.


É óbvio que algumas intervenções oposicionistas do líder do PSD têm a sua razão, contudo, os que não estejam “acorrentados” aos pontos de vista daquele partido devem estar atentos, porque muitas das intervenções políticas do presidente do PSD revelam alguma ansiedade e falta de preparação institucional e recorre a manobras de diversão e algumas vezes vai andando a reboque dos populismos.


[1] Facto alternativo ou verdade alternativa surgiu sobretudo durante o mandato de Donald Trump nos EUA.


 


 


 

sábado, 13 de maio de 2023

PSD: Acreditar ou não acreditar eis a questão

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Na peça “Hamlet” de Shakespeare o personagem principal cita o seguinte verso:


 



Ser ou não ser, eis a questão: será mais nobre


Em nosso espírito sofrer pedras e flechas


Com que a Fortuna, enfurecida, nos alveja,


Ou insurgir-nos contra um mar de provocações


E em luta pôr-lhes fim?



A oposição de direita desempenha um papel cujo objetivo é apenas o de tentar desapear o Governo em funções para, através de eleições antecipadas ou no tempo limite, o substituir por um outro que julgam venha a ter melhor desempenho e capacidade governativa. Em democracia é assim, sem o que esta não faria sentido.


Numa democracia os governos são expostos a críticas pelos partidos que se encontram na oposição e pela avaliação da opinião pública, muitas vezes condicionada pelos media e as suas agendas mediáticas e políticas.


Na nossa democracia representativa é possibilitada a discussão entre vários pontos de vista ideológicos sobre o tipo de governo, o que, consequentemente, pressupõe argumentos e contra-argumentos das partes envolvidas no processo, partidos na oposição e governo.


A forma parlamentar de governo prevê o direito de cada indivíduo ou grupo ter uma opinião diferente. Assim, todos os pontos de vista deveriam ser expressos e discutidos pelos diversos representantes do povo escolhidos por eleições livres tendo como objetivo principal o interesse da vida dos portugueses. Isto é o que deveria ser. Mas nem sempre o é.


A oposição tem a responsabilidade de dar atenção e observar o desenvolvimento das políticas do Governo e discuti-las criticamente perante o parlamento e o povo propondo alternativas. Mas assim não procede.


O grande desafio para a oposição é a necessidade de poder ser vista como credível neste papel de crítico. Para obter essa credibilidade deveria ser responsável, respeitada e unida como partido político para propor políticas alternativas relevantes que se manifestassem para o dia-a-dia das pessoas. Mas nada disto faz a oposição.


Luís Montenegro, líder do PSD, é o principal rosto da oposição ao Governo liderado por António Costa. O líder do PSD tem criticado duramente as políticas do executivo socialista, acusando-o de falta de ambição, de irresponsabilidade orçamental e de submissão aos interesses dos partidos à sua esquerda. Esta último argumento perdeu a validade terminado o prazo da chamada “geringonça”.


As oposições de extrema-esquerda (a líder do Bloco prefere "esquerda radical") apenas podem ter como ambição a recuperação de alguns votos perdidos nas últimas eleições, o que penso ser insanável. A sua oposição baseia-se no ataque, em reivindicações sucessivas. Passado um mês da tomada de posse do Governo o BE já o acusava de ser “fraco” e de estar “em desagregação”. Comprometiam-se em combater a extrema-direita e a direita radical, mas prece que tal não está a acontecer. Reivindicam em sucessivos momentos grevistas com argumentos que mais parecem uma espécie de cassete dando margem à direita e à extrema-direita. Tal não é atípico porque no passado aconteceu que as extremas-esquerdas ajudaram a abrir as portas do poder à direita.


Como líder da oposição Luís Montenegro desvaloriza e omite das suas narrativas os pontos fortes dos resultados do Governo incidindo apenas nos pontos fracos ou falhas relacionadas com casos marginais do executivo em consonância com os media que os amplifica. O intuito é simples e propositado, mostrar que faz oposição. É oposição pela oposição. É dizer mal só para dizer mal como arma para desgaste do Governo PS.


Montenegro enfrenta agora outro desafio para além da sua oposição ao Governo PS que tem a ver com problemas internos no seu partido que começam a vir à superfície.


A perceção das pessoas é a dificuldade que a liderança do PSD mostra em não estar a conseguir afirmar-se como poder alternativo e credível ao atual Governo. Esta dificuldade surge num cenário político marcado pela polarização e pela crispação ajudados pelos partidos da extrema-esquerda, sobretudo o BE, e da extrema-direita, o Chega.


A evidência da alguma recuperação económica conseguida pelo Governo de António Costa está em contradição com as afirmações de Montenegro quando diz que o Governo PS está a conduzir o país para o declínio e que só uma mudança de rumo pode garantir um futuro melhor para os portugueses. Mas que rumo e que mudança?


Quando há números que mostram o bom desempenho do Governo em algumas áreas procuram-se argumentos e números retirados às estatísticas que são tratados para contradizer os bons resultados quando estes são evidentes. Isto faz-me recordar um livro de Nogueira Ramos “Torturem os Números que eles Confessam” onde denuncia o mau uso das estatísticas e da sua interpretação nociva. É uma forma perniciosa de servir objetivamente algum interesse ou uma visão facciosa da realidade social.


Na dita mudança de rumo que Montenegro propõe é que está a dúvida. Não basta dizer que é preciso uma mudança de rumo, complementarmente é necessário também definir qual será esse novo rumo, em que direção e em que sentido a oposição seguirá como alternativa. Quando a ponte de comando o comandante de um navio diz que vai proceder a uma mudança de rumo este deve especificar ao piloto as novas orientações, porque se tal não for indicado, aquele ficará desorientado por desconhecer o rumo e coloca em risco a embarcação.  


Um eleitor que neste momento pretendesse votar no PSD em alternativa ao PS não sabe se o deverá fazer porque desconhece o que o seu substituto terá para lhe oferecer a não ser as críticas ocasionais que faz ao executivo em funções e ao seu líder.


A oposição voa continuamente na TAP porque não têm mais nada em concreto para fazer oposição. Mas a TAP, embora seja um assunto importante que se deve tratar e resolver, não põe pão na mesa dos portugueses como alguns dizem.


Luís Montenegro para ser coerente com as críticas que faz à atuação do Governo deveria ao mesmo tempo sugerir propostas que, segundo ele, responderia melhor aos mesmos problemas. Limita-se a retóricas críticas sobre o que faz o Governo PS e António Costa, debruçando-se sobre casos avulso, alguns com alguma importância, outros irrelevantes, para quem pretenda escolher nova governação num futuro mais ou menos próximo.


Faz-se oposição comentando-se factos marginais, pessoalizando-se políticas, relevando-se casos que não concorrem para a mudança das políticas que se criticam, porque não as há. O líder do PSD faz uma oposição pessoalizada e politicamente irrelevante sem propostas objetivas.  Desta forma quem poderá confiar, acreditar, numa direita sem projeto alternativo credível?


Em dado momento era notória a ambiguidade que Luís Montenegro mostrou em relação ao não afastamento do partido Chega. Ultimamente talvez se tenha diluído um pouco devido à “nega” que lhe deu em relação ao projeto de resolução em que André Ventura, em modo oportunista e para ter visibilidade, recomendava a saída de João Galamba acusando-o de “imaturidade e de teatro político”. Claro que a rejeição de tal proposta por Luís Montenegro deu lugar a mais um “ataque” populista André Ventura ao responder que “o líder do PSD demonstra incapacidade de fazer oposição” e que “é por isso que nas sondagens 40% das pessoas dizem que é o Chega a liderar a oposição”.


O Chega de André Ventura, juntamente com a extrema-esquerda, têm sido fatores contributivos para a polarização crescente que é promovida por aqueles que se favorecem dela. Políticos, partidos e grupos mais extremistas alimentam-se do descontentamento e da intolerância para ganhar mais apoio para as suas ideias. Afinal, medidas extremas têm maior chance de aceitação quando se vê o outro grupo como um inimigo perigoso que é preciso eliminar, ao invés de um concorrente no debate.


Cada um segue o seu caminho, mas Luís Montenegro mostra que não está a conseguir capitalizar a oposição pela positiva. Contudo há quem queira o Chega e o PSD juntos, dizem para unir a direita, e outros que consideram esta ser uma união incompatível e improvável.


André Ventura não diz o que fará se ganhar eleições, embora o saibamos. Luís Montenegro também não diz o que fará, e como. O argumento para não dizer o que fará é uma espécie de tabu que se esconde ao dizer que não é ele,  é o Governo que deve governar e não a oposição. Pela sua lógica o que o eleitor deve fazer é votar no escuro e acreditar no que Montenegro não diz.


A oposição feita por Luís Montenegro é um facto alternativo. É um facto que não existe, que não é convincente, é contraditório, resultante de manobras de diversão.


Se analisarmos as afirmações que Montenegro tem proferido elas são demonstrativas do balancé da sua oposição:



  1. Quando se candidatou à liderança do PSD afiançava estar mais preocupado em "dar respostas às necessidades das pessoas" do que em debates "ideológicos ou crises existenciais". Atualmente dedica-se a comentar e a fazer oposições através de crises existenciais.

  2. Ao mesmo tempo que diz estar pronto para governar, por outro não quer eleições antecipadas.

  3. Diz que “não pedimos eleições, mas também não as recusaremos”.

  4. Montenegro afirma que o PSD é a alternativa ao Governo e que está preparado para estar quatro anos na oposição, mas não diz o que fará se lá chegar. Se o disser só quando estiver no Governo, então ao pensarmos votar no PSD devemos ficar alerta.

  5. Faz comentários sobre o que se passa na comissão de inquérito à TAP em vez de se preocupar em propostas para "dar respostas às necessidades das pessoas". A comissão de inquérito à TAP passou a ser um local de intrigas e de assuntos pessoalizados e ainda existe na opinião pública porque interessa ao media.

  6. O PS garante que Luís Montenegro está a demonstrar “incapacidade em assumir-se como alternativa”. Pela oposição que tem feito até ao momento leva-nos a creditar que sim.

  7. Luís Montenegro preocupa-se em limpar do seu discurso os bons resultados da governação as respostas que têm sido dadas a vários problemas.


O que a democracia, nem ninguém precisa é que o PSD se volte para o populismo que vive de inverdades, de meias-verdades, de mentiras e de factos alternativos, ou verdades alternativas, como se queira. Assim vai ser difícil “Acreditar” que é o slogan do PSD.

domingo, 16 de outubro de 2022

As oposições do repete, repete

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Após a entrega do OE2023 na Assembleia da República pouco ou nada foi falado nos jornais televisivos, a semana passou com os casos e casinhos das incompatibilidades de ministros e secretários de estado devido a participações em empresas dos pais, dos maridos, das dezenas de euros com que participam, etc. Depois, seguiu-se a TAP que privatiza e não privatiza, as ameaças de greve pelos sindicatos e, por aqui, e por ali, o caso da localização, ou não, do aeroporto.


Seguiu-se, entremeado, o caso das declarações do Presidente da República sobre as queixas de abusos sexuais de menores na Igreja Católica Portuguesa que alguns partidos enfatuaram, mas com o PCP a afirmar, e bem, que "ser sustentadas, desdramatizadas, sem esquecer que é preciso fazer a investigação". Não contente com isto o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa saiu-se com a promoção de Passos Coelho não o subtraindo a  elogios e potenciais promoções a uma futura Presidência da República.


Estes casos são demasiado graves para se esquecerem e continuar as investigações, mas daí o aproveitamento político e pessoal para tirarem dividendos políticos é a prova daquilo que é a nossa política partidária, com tantos casos que afetam o país consumiram-se horas de televisão e, vai-se a ver, e nada.


As televisões repetem, repetem o já repetido.


A televisão funciona como um agente político e desempenha um papel cada vez mais ativo e por ser o mais frequentado pelas massas está sempre sob a alçada dos políticos que lhes interessa para as suas querelas partidárias e, em alternância, de oposição a governos.


Não é menosprezível que as mensagens de cariz político com o fundamento de notícias veiculadas pelas televisões e pela imprensa sejam, por vezes, apresentadas consoante alguns “atrativos/simpatias/interesses” partidários. Vamos entrar no período da discussão do OE2023 e, mais uma vez, iremos ser confrontados com os argumentos de cada um dos partidos eleitos e que estão presentes na Assembleia da República que acham que o orçamento de um Governo de maioria de um partido deveria ser ao que cada um deles acha deveria ficar conforme cada um deles achava.


Quando os partidos se encontram na oposição na luta pelo poder os argumentos vão no sentido destrutivo de tudo quanto venha do governo que e estiver em funções cujo objetivo são a obtenção de dividendos políticos tendo em vista um qualquer ato eleitoral mais ou menos próximo.


Em democracia, a votação contra um Orçamento de Estado dum Governo proposto pelo partido(os) é comum, mas uma tal decisão pode não estar em linha com os interesses do país, mas com interesses meramente de política ideológica e partidária. Se cada orçamento fosse conforme as pretensões de cada um dos partidos representados na Assembleia da República, então, deixaria de ser um orçamento do governo em funções, mas algo fictício.


As democracias possibilitam aos partidos políticos exercerem o controle e a crítica ao funcionamento dos governos. À primeira vista, no caso português, o controle exercido sobre os governos pelos partidos políticos quando na oposição não é absoluto e menos ainda quando lidam com maiorias absolutas.


Quando começa a aproximar-se a apresentação dum orçamento para o ano seguinte a comunicação social começa a espalhar as críticas dos opositores e comentadores dos opositores ao Governo preparam a opinião pública fazendo sobressair as críticas que ajudam a oposição. A evidência é que qualquer orçamento apresentado por um determinado Governo nunca poderá ser aceite pelos partidos que se encontram na oposição. Se tal fosse o caso deixaria de ser o orçamento do Governo e passaria a ser o da oposição. Não será de estranhar tanta polémica sobre o orçamento. As falhas poderão. Contudo, podem ser colmatadas por propostas de melhoramento vindas dos partidos da oposição. Não há orçamentos puros e universais, isto é, que agrade, sem exceção, a todas as correntes sociais, políticas e partidárias.


Os momentos de discussão orçamental são de maior ou menor instabilidade social, política e governativa, neste último caso quando não há maiorias absolutas e a possibilidade de consensos não sejam conseguidos. A não aprovação de um orçamento pode levar a demissões de governos. Veja-se o que se passou aqui com a demissão de António Costa, primeiro-ministro de um Governo minoritário do Partido Socialista, o que levou a eleições antecipadas causado pela rejeição de toda a oposição do Orçamento de Estado, mesmo que, no caso, tal não fosse imperativo. Não irá ser presentemente o caso por via de maioria absoluta do partido do Governo.


Todos estes casos fazem parte da prática democrática e sublinha a importância gradual que os partidos foram adquirindo no desenvolvimento da democracia em Portugal, pese embora as instabilidades governativas ao longo dos anos. A introdução de críticas à ação governativa por parte das oposições, de direita e de esquerda, é movida pelo anseio de preparação de uma potencial chegada ao poder.


A oposição aos governos não se faz apenas no Parlamento, mas também no exercício do direito à manifestações na rua demonstrativas de encenados descontentamentos e através de reivindicações grevistas. É a oposição cujo objetivo é a desestabilização social por saberem que, sem coligações e acordos, dificilmente chegarão ao poder através de eleições democráticas, assim, para além de se oporem no parlamento, manifestam-se nas ruas através dos sindicatos que controlam e fazendo “associações” parlamentares pontuais, muitas vezes contranatura ideológica.


Por considerar oportuno abordar neste artigo o papel da comunicação social no controle do poder insiro a partir deste ponto parte dum texto que anteriormente publiquei no blogue “apropositodetudo” com o título “O desgoverno das oposições ao Governo”.


Outro elemento essencial à efetividade democrática e de controle ao poder são as comunicações sociais também designadas por media. Não há democracia sem liberdade de expressão de pensamento que lhe é inerente, não apenas pelo direito de ser ouvido, mas, também, pelo direito de ouvir o que outros têm a dizer. A estes podemos ainda juntar as redes sociais veículos de informações falsas, deturpadas e muitas vezes incitadoras à instabilidade social, à violência física e psicológica e incitamento ao ódio.


Só através dos órgãos de comunicação social é possível adquirir um esclarecimento sobre a política para, sobre ela, dar opinião e a influenciar. Os meios de comunicação social contribuem para informar o cidadão pela difusão de opiniões (por vezes, também, desinformar criando entropias na informação prestada).


Ainda assim, em benefício da democracia há algumas cautelas que devemos ter em conta que é o cuidado com a formação de “fábricas mediáticas de consenso”, isto é, um poder mediático, económico e ideológico, concentrado e, mesmo disperso, que possa condicionar e controlar um governo. O eleitor pode ser influenciado pelos media de modo que, em vez de escolher, passa a ser escolhido e modelado pelos que estão a eleger.


A comunicação social mais comum é a televisão, onde a imagem prevalece e a capacidade simbólica é evidenciada pela abstração decorrente da linguagem do meio. No entanto, como a televisão se baseia, sobretudo, na imagem, há um risco claro do empobrecimento do entendimento e da compreensão. A influência da televisão sobre a opinião pública pode ser determinante para os rumos da política, do governo, até porque, com frequência, a televisão exibe-se como porta-voz de uma opinião pública que, conforme alguns investigadores é, na realidade, o eco de retorno da sua própria voz.


“Basta a democracia representativa, para funcionar, que há uma opinião pública que é verdadeiramente do público. Mas é cada vez menos verdade, dado que a videocracia está a fabricar uma opinião solidamente hetero-dirigida que, aparentemente, reforça, mas em substância esvazia, a democracia como sendo um governo de opinião. Porque a televisão é mostrada como um porta-voz de uma opinião pública que é, na verdade, o eco do regresso da própria voz.” Sartori, 1999, ed. Espanhola p. 72.


Partidos e comunicação social parecem contribuir para que Portugal seja, em democracia, um país difícil de governar, mas que, mesmo assim é a forma melhor de governo. Aliás parece ser ajustada a frase, atribuída a Júlio César e que ao longo dos anos nos tem assentado, dizia ele que “nos confins da Ibéria, há um povo que não se governa nem se deixa governar". Faz-me lembrar a banda desenhada Astérix criada em 1959 por Uderzo e Goscinny.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2021

O tempo da justiça beneficia o infrator

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Para além do mais o processo João Rendeiro traz-nos a propósito a criminalidade que fez escola nos últimos anos e a benignidade da forma como a justiça portuguesa muitas das vezes trata os crimes perpetrados por poderosos da alta especulação por atividades financeiras especulativas e ilícitas. A corrupção passiva e ativa de políticos, banqueiros e seus satélites deixa-nos a perceção de impunidade desses senhores arrogantes que nos fazem de parvos.


Os senhores da alta finança sabem e acreditam ou, se preferirem, acreditavam, que o seu estatuto e os meios de que dispõem os tornam intocáveis perante um poder político e uma justiça que se vai arrastando passinho a passinho.


Quando apanhados não ficam sem chão, com o dinheiro ganho em negociatas, recebimentos de luvas ou subtraído a outrem, recorrem aos melhores, mais caros e mais conhecidos escritórios de advogados especialistas na área que os vão “safando” e protelando o final da chatice, por vezes até às prescrições dos processos. Acreditar na justiça e deixar a justiça fazer o seu trabalho sim, mas há limites! Veja-se por exemplo o caso do julgamento de Duarte Lima, antigo deputado do PSD, acusado pelo homicídio de Rosalina Ribeiro, ocorrido no Brasil em 2009, vai iniciar-se só em 9 de março de 2022 no Juízo Central Criminal de Sintra, 12 anos depois.


E não deverá ficar por aqui, surgirão “pauzinhos na engrenagem” para continuar a empatar. Nada disto passa em branco numa sociedade que contempla tudo isto. Dizem-nos que há o tempo da política e o tempo da justiça. A sério?!


Ainda a propósito de João Rendeiro tem-se falado e escrito muito na última semana, mas e outros casos que não fugindo andam por aí, aguardando ou adiando julgamentos e possíveis condenações o passa para a opinião pública a ideia da demasiada complacência para com esses senhores.  Deram-lhe tempo para tudo inclusivamente para fugir.


Conforme tem sido divulgado pelos órgãos de comunicação social Rendeiro teve tempo para vender bens imobiliários, obras de arte, engendrou moradas falsas na Polónia e até teve tempo de sobra para preparar a fuga com tal desplanto que parece um filme de uma série policial em que, no final o criminoso consegue escapar-se indo passar os seus dias numa praia de um qualquer paraíso. Não terá sido apenas João Rendeiro que sozinho arquitetou todo plano, decerto que teve como conselheiros advogados estrategas nestas andanças.


Os populismos da extrema-direita sabem bem aproveitar tudo isto lançando desconfianças acerca da justiça em Portugal devido à disparidade de acesso e de tratamento entre arguidos com mais ou menos posses.

sábado, 25 de setembro de 2021

Influenciadores ou a arte de aliciar estúpidos

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Pode também ler este "post" em A Fruta mais Ácida.


A campanha para as eleições autárquicas terminou, hoje é dia de reflexão. Foi uma campanha sem interesse, muitas das vezes sem nexo e não dirigida ao interesse dos cidadãos em relação ao poder local. Partidos e os seus candidatos aprontaram estratégias para propagandas diversas para captar potenciais eleitores. Influenciar o povo para votar é o principal objetivo de cada um dos partidos. São estratégias de marketing. Vender o seu programa (qual programa?) prendeu-se com a capacidade, ou incapacidade, que cada um teve para conseguir influenciar o público. São os empreendedores da política que utilizam técnicas idênticas aos influencers que medram pelas redes sociais e pelos blogues fazendo da estupidez dos outros o seu modo de vida. Sobre estupidez já escrevi aqui.


A captação de votos através da influência aos potencias eleitores determinou o remoque para, mais uma vez, escrever sobre essa gente a que chamam influencers.


No meu blogue A Fruta mais Ácida tenho dedicado mais espaço sobretudo aos influencers que propagandeiam ideias para quem queira comprar. Há também as aberrações de alguns que se julgam engraçadinhos por fazerem stand up contando umas piadas rascas em canais televisivos e em teatros esgotados por desejosos de piadas de mau gosto ou sem piada. Quando há um que ri logo outros o acompanham opara não destoarem. Um canal de televisão privado resolveu promover um desses a residente no programa das tardes de domingo e, ainda, transformá-lo em ator de uma telenovela enquanto muitos atores conceituados se encontram há muito em dificuldades por falta de trabalho.


Influencers, influenciadores em bom português, é um nome vago para indivíduos que vivem de canais digitais colocando em plataformas conteúdos muitas vezes patrocinados. A cada mensagem e em cada selfie supostamente sincera colocam as suas vidas em exibição. Eles são estrelas da internet e precisam de protagonismo para ganhar a vida com a vida vazia e a pobreza de espírito de outros.


Podemos então definir influencer como alguém que tem a habilidade de influenciar um determinado grupo de pessoas mostrando o seu estilo de vida, opiniões e hábitos muitas(os) e delas(es) baseiando-se para tal na riqueza expondo-se através de imagens das suas casas, das compras que fazem, dos meios que frequentam e no estatuto social. Utilizam as redes digitais ditas sociais e o Youtube, neste caso chamam-se pomposamente youtubers, como meios para alcançarem o seu alvo e têm efeito em muitas centenas e até milhares de seguidores.


Os influencers das redes socias são os propagandistas do século XXI, uma casta originada pelas redes que atrai incautos para gastar o seu dinheiro em compras, por vezes desnecessárias, para se identificarem com o seu influenciador. É um novo estatuto ser seguidor de pessoas que não conhecemos de lado nenhum, mas de quem gostam de ver na TV.  Os influencers são sujeitas e sujeitos, (coloquei as sujeitas em primeiro lugar para não me acusarem de ser machista, ou, caso contrário, de demasiado feminista), que olham para o mercado e percebem que podem criar riqueza a explorar o défice cognitivo dos influenciados.


O influencer mobiliza indivíduas(os) apelando para emoções e paixões mostrando um certo intimismo ensombrando as capacidades cognitivas da potencial “vítima”, para a atrair para a aquisição de objetos materiais e para serem seus seguidores. As suas receitas mágicas e as suas opiniões pessoais ao estilo do “eu já vi e aconselho porque comprei e tenho na minha casa”, são a suas armas preferidas. Ou ainda: “eu já comprei esta roupa que fica lindamente com a minha maquiagem da marca “X””. Muitos aproveitaram a covid-19 para fazer negócio colocaram fotos usando máscaras e usaram a hashtag do coronavírus durante o surto. É um oportunismo e uma jogada descarada.


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Os visuais tornaram-se uma fórmula para copiar, o tom muitas vezes irritante, cheio de banalidades e trivialidades, como aconteceu com uma tal pipoca, influencer digital que tem um blogue e que foi chamada para comentar numa coisa a que chamaram gala os acontecimentos do programa rasca conhecido pelo nome de Big Brother e até teve direito a vestido de gala.


Se a vida é complicada para o mundo em geral, imagine-se o que é, por exemplo, para uma mulher que ainda não chegou aos trinta e já tem de lidar diariamente com problemas tão profundos como saber que sapatos calçar. Sapatos, romance e outras teorias de vida.


Estes influenciadores(as) colocam títulos aliciadores enganando deliberadamente a audiência porque sabem que é necessário atraí-lo independentemente da qualidade do artigo que aconselham. Eles não vendem, aconselham, sugerem seja lifestyle e moda, beleza, coleção de joias juntamente com uma marca, viagens milionárias, ou o quer que seja, e, muito importante, acompanhadas(os) pelos seus maridinhos ou esposas – os divórcios deles e sobretudo delas também são muito chamativos – mais os seus filhotes para que o impacto seja maior, para tal basta colocar os vídeos e imagens para aliciar o pagode que seguir o seu Instagram o outra qualquer rede social. E lá caem mais uns “likes” e uns euros na bolsa pagos pela propaganda aconselhada.


Não posso esquecer os comentadores de influencers que os publicitam descrevendo o quanto são interessantes colocando frases como:


“A ou (o) X apresenta no Instagram os seus outfits, (maneira muito chique de dizer roupa), dos programas televisivos, o seu dia a dia e ainda as suas sugestões para looks mais arrojados. Apesar de ter bastante experiência como blogger moda e instagramer, o seu estilo e forma de apresentar roupas e acessórios nos seus posts continua a fazer com que os seus seguidores se apaixonem como no primeiro dia! Se quiser comprar a roupa da blogger, poderá fazê-lo na marca Z. Tem peças giríssimas com descontos imperdíveis! “Como podem ver são coisas estúpidas e tolas, mas inteligentes, para atrair tolos. Utilizo aqui palavras em inglês para dar a ideia de também estou in!


Se eu, sujeito influencer, no meu blog dou visibilidade à minha vida privada de forma ficcionada dizendo às pessoas como sou feliz com o meu consorte, falo dos meus filhos lindíssimos, na minha casa para a qual comprei um móvel giríssimo, e para mim um perfume, um detergente que “eu uso cá em casa”, ou uma roupa, ou uma viagem incrível que fiz ao “país paraíso” onde me diverti imenso com a minha família, etc., etc., as pessoas vão a correr consumir seja o que for que coloquei no meu blog, ou anunciei na rádio, ou na televisão. Mas, atenção, a culpa não é minha, é das pessoas que acreditaram nas soluções incríveis que lhes propagandeei e que eram boas para a minha casa, para mim e para a minha família e quiseram viver as mesmas experiências do que eu.


Os influencers prestam um serviço inestimável à sociedade e o Estado não pode impedir estes empreendedores que fazem pela vidinha e que encontram maneiras de obter vantagens financeiras e rentabilizar a estupidez alheia.


Poderão pensar que sou contra a iniciativa privada e o empreendedorismo. Nada disso. Pelo contrário. Estou é em desacordo com o simulacro de empreendedorismo que se aproveita da estupidez alheia. Se, por um lado, a indústria dos media é extremamente regulada, por outro, há uma indústria informal que tem cada vez mais influência, mas que não tem qualquer tipo de regulação.


Não podemos subestimar o papel dos otários que contribuem para o bolso dos influencers. Há negócios que dependem dos otários. Se não os houvesse quem lhes colocaria os “likes” nos “posts” e quem iria a correr a comprar online ou nas lojas os artigos que os influencers anunciam como os mais incríveis da moda e que iria contribuir para entrar os dinheirinhos nos seus bolsos. Ser influencer é um sonho de qualquer um, porque não tem que investir em stocks, nem em salários dos seus colaboradores, nem em nada, a não ser no tempo que está agarrado a colocar as novidades e a mostrar que está in para o que basta encontrar estúpidos que os sigam. Quanto mais seguidores e “likes” mais probabilidades há de captar anúncios para o site.


Parece-me que algumas pessoas endoideceram ou, então, estão debaixo de um stress agudo. Não me refiro apenas a gente do povo porque neste incluo também médicos, juízes negacionistas que se opões às medidas sanitárias e fazem acusações infundadas. Esta gente são um caso de estudo de doenças mentais. Não são opiniões, nem me venham com as tretas de serem contra o pensamento único, ao negarem que em Portugal as mortes por covid-19 foram manipuladas como explicam o que acontece ao nível planetário.  Isto é simplesmente demência.


Muito se grita por liberdade, especialmente a seita dos negacionistas, estão de facto a tornarem-se numa seita durante a epidemia da covid-19. Ser influenciado por influencers, desculpem-me a redundância linguística, é, em muitos casos, termos a liberdade de sermos estúpidos o que merece proteção porque não temos escolhas próprias e precisamos de catar locais onde eles se hospedam virtualmente.


No meu entender qualquer influencer tem a arte de “domar” estúpidos, isto é, exercer domínio sobre os impulsos ou instintos de outro(s) e, para isso, temos de ter todos algo de estúpido. Há quem tenha milhões de seguidores nas redes sociais. Poderá perguntar-se: será que milhões serão todos estúpidos? À resposta a esta pergunta eu respondo que sim comparando com muitos mais milhões que não são seguidores de nenhum influencer. Eu não me incluo nestes, mas no dos estúpidos, porque sigo alguns. Há, contudo, uma diferença, esses(as) que sigo não me influenciam com as suas tretas.  

sábado, 6 de fevereiro de 2021

As forças da extrema direita que surgem da sombra

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Com Portugal centrado no combate à pandemia covid-19 os órgãos de comunicação social, especialmente as televisões, focam-se exageradamente neste problema ultrapassando o nível da informação necessária, imprescindível e preventiva, consumindo com exagero de tempo e de espaço dedicado, por vezes com casos e casinhos, mais ou menos pontuais, com que vão preenchendo as suas edições.


As eleições nos EUA, a tomada de posse da nova administração da Casa Branca, a saída de Trump atribulada e machadada na democracia pela incitação aos seus adeptos radicais para invasão à violência no Capitólio.


Por cá, as eleições presidenciais aliviaram, embora pouco, as notícias covid-19.  Com o rescaldo das presidenciais no dia 25 de janeiro passou ao lado o discurso do Secretário Geral da ONU, António Guterres, no dia em que foi assinalado o 76.º aniversário da libertação do campo de concentração de Auschwitz-Birkenau. Guterres chamou a atenção para o facto de que «Após décadas na sombra, os neonazis e as suas ideias estão a ganhar terreno» e pediu uma aliança internacional coordenada contra o crescimento do neonazismo e da supremacia branca, xenofobia, antissemitismo e discurso do ódio provocado em parte pela pandemia de covid-19.


Guterres recordou o que há muito anos é sabido: quase dois terços dos jovens norte-americanos não sabem que seis milhões de judeus foram mortos durante o Holocausto. Alertou ainda para a necessidade de «combater a propaganda e a desinformação» tendo apelado para uma maior educação sobre as ações nazis durante a Segunda Guerra Mundial.


«A propaganda que liga os judeus à pandemia, por exemplo, acusando-os de criar o vírus como parte de uma tentativa de dominação global, seria ridícula, se não fosse tão perigosa», salientou.


Não seria necessário conhecer as palavras do Secretário Geral da ONU, bastava-nos acompanhar o que grupos e adeptos de partidos extremistas divulgam nas redes sociais. O que dizem é tal que, qualquer mente minimamente racional e com algum tino intelectual, aferiria a irracionalidade e a quantidade de mensagens e de “publicações” de tal modo grotescas e inverosímeis que mais parecem ter saído de uma ficção de baixo nível.


O discurso de ódio não se faz apenas via redes sociais ou blogs. No nosso país, embora com palavreado disfarçadamente menos violento, temos exemplos ao vivo e a cores desses discursos via alguns partidos políticos legalmente aceites que utilizam a nossa democracia para fazerem passar as suas mensagens na tentativa de lançar explorar antagonismos entre cidadãos.


Durante a campanha eleitoral para as presidenciais vimos e ouvimos candidatos das esquerdas incluindo a mais moderada pedir a ilegalização do partido Chega representado por André Ventura. Esta atitude parece-me ser quase uma apologia ao  partido pois poderá levá-lo a ostentar a sua vitimização. Não parece ser esta a via. Aliás, no campo das ideias é tal a falta de base daquele candidato que se torna impossível ter um debate político coerente e minimamente são.


O tipo de propostas que o partido Chega tem para apresentar em termo de ideias é de tal modo sem robustez e coerência que não se compara com a potencial de perigosidade dos seus congéneres europeus, contudo, não devemos subestimá-lo. A democracia deve estar atenta porque os que se candidatam, ou dizem candidatar-se, contra o sistema vão depois abraçá-lo e até impor com “zelo” a sua sobrevivência através de modelos monolíticos, mais ou menos disfarçados de democracias.


É perigoso ainda porque o complexo dos messias em Portugal, ainda está vivo em alguma parte das populações, mesmo em pessoas bem-intencionadas, que veem o seu mundo a desmoronar-se, o seu ambiente a tornar-se imprevisível e a aumentar o seu desejo de ordem e de previsibilidade.  


A próxima década vai ser perigosa porque, se tudo falha, políticos, liderança, U.E., erupções de forças obscuras que estavam latentes e que se vêm exteriorizando, podem vir a agitar-se entre nós. Como já ouvimos muitas vezes a democracia não está garantida. Veja-se o exemplo recente do que aconteceu nos EUA, um dos países onde a democracia estava há muito instalada, e onde uma tentativa da tomada do poder por um presidente com forte tendência para o autoritarismo que se servia da democracia para finalidades pouco democráticas.


Em julho de 1979, quatro após ter-se dado a Revolução de Abril em portugal, o The New York Times relatava que «Depois de mais de três décadas de hibernação, pequenos, mas influentes grupos de direita em França estão novamente a procurar o centro das atenções intelectuais, expondo teorias sobre raça, biologia e elitismo político desacreditadas pela derrota do fascismo na Segunda Guerra Mundial». E continuava, «Ao contrário de seus predecessores na década de 1930, os novos grupos de direita mostram pouco interesse em criar movimentos políticos de massa. Nem assumiram abertamente posições anti-semitas. Em vez disso, escolheram influenciar o curso da política, trabalhando ao lado de figuras centristas e conservadoras estabelecidas no governo e no parlamento». O sublinhado é meu porque esta última frase é de reter.


Para essa gente um dos argumentos é que as raças nasceram desiguais e assim deveriam ser mantidas pela política social. Estes e outros argumentos com a mesma orientação também os ouvimos nos últimos quatro anos nos EUA. Já ouvimos, por outras palavras, algo semelhante no nosso país.


Em síntese, o aparecimento da exigência de “liderança mais forte” coincide com o recrudescimento de grupos apologistas de regimes autoritários que esperam aproveitar com o potencial ou eventual colapso dos governos representativos baseando-se no mito da destruição do sistema (dizem-se antissistema) e a vantagem da eficiência autoritária.


Muitos ainda acreditam na esperança de um messias, um salvador, que nos livre dos ciganos, dos imigrantes, dos negros, nos retirem todos os subsídios, na baixa ou eliminação de impostos, e que apele a todos os insatisfeitos, vingativos, descontentes, enfim, aos que apelam ao ódio.   Veja-se que isto não é tão inverosímil como possa parecer. Esta semana veio a público uma notícia sobre uma nova congressista do Partido Republicano nos EUA, Taylor Greene, que difunde teorias da conspiração e apela à morte de figuras do Partido Democrata o que torna evidente o que poderá acontecer noutros países, nomeadamente no nosso se as posições se extremarem ou polarizarem. Estão a regressar os movimentos racistas, xenófobos e étnicos que atuam a descoberto. Entretanto  o Partido Republicano condenou as ameaças e as teorias da conspiração propagadas pela congressista Marjorie Taylor Greene, mas o Partido Democrata considerou que isso era insuficiente e afastou-a dos seus cargos em duas comissões de trabalho.


De vez em quando, e quando se entra em crise política e de governabilidade alguns analistas e comentadores de política falam na crise mundial da democracia e da sua capacidade de resolução de problemas e sobre o desafio a que está a ser sujeita a democracia. Por enquanto esses oráculos da desgraça não têm tido razão, os poderes democráticos têm conseguido resolver e ultrapassar as crises.


O processo já é por demais conhecido, fala-se mal dos políticos, da corrupção, do exagerado número de deputados, sobre a política parlamentar que está em crise, que a Assembleia da República está a falhar e que não está a responder às expectativas do povo. Estes e outros são argumentos da extrema direita e dos populistas tendo em vista a desestabilização e a descredibilização da democracia, daí a necessidade de um esforço para um diálogo sério entre forças da esquerda, do centro e da direita moderada para delinearem, em contexto democrático, estratégias e consensos para resolução de problemas económicos, financeiros e, sobretudo, sociais, de modo a retirar a esses partidos da extrema direita o seu campo de manobra populista.