No dia onze de março o diário The Washington Post colocou
uma notícia com o seguinte em título: “O Pentágono impede que fotógrafos de
imprensa tirem fotografias pouco lisonjeiras” de Hegseth. A equipa do
Secretário da Defesa Pete Hegseth criticou as fotos tiradas numa sessão
informativa e decidiu excluir fotógrafos de duas conferências de imprensa subsequentes.
Como devemos compreender esta atitude? A imagem e a postura de agressividade de
Hegseth que tem sido muitas
vezes conotado como nazi devido às suas tatuagens que alguns dizem nada ter
a ver com essa ideologia.
Ao lermos opiniões sobre determinados temas
confrontamo-nos com pontos de vista por vezes muito bem escritos numa linguagem
rebuscada, complexa e quase encriptada, eventualmente propositada, não ajuda à
compreensão do conteúdo da mensagem pela maior parte das pessoas pelo que abandonam
a leitura logo de início. O uso duma linguagem, menos técnica e mais natural
para chegar ao maior número de pessoas é talvez preferível, mesmo quando se
trate de questões complexas. Sempre que não seja possível evitar uma linguagem
mais técnica a sua explicação exige-se no decurso da narrativa.
No contexto da guerra EUA-Israel com o Irão as declarações
transmitidas por cada uma das partes deparamo-nos com declarações de
porta-vozes que são contraditórias e polarizadas conforme os interesses das partes
em litígio devido aos procedimentos de informação e de contra informação.
A escalada militar entre Estados Unidos, Israel e o Irão
desencadeou uma intensa disputa no circuito da informação. Nas redes sociais,
circulam imagens manipuladas, vídeos fora de contexto, conteúdos retirados de
jogos eletrónicos e peças sintéticas geradas por inteligência artificial,
muitas vezes amplificadas por contas verificadas ou redes automatizadas.
Especialistas alertam que, em contextos de guerra, a
desinformação pode agravar tensões, afetar operações humanitárias e influenciar
o comportamento de civis, tornando o ecossistema digital um campo estratégico
adicional do conflito.
Donald Trump tem utilizado declarações públicas para
justificar ataques e instar a população iraniana a derrubar o regime, enquanto
o Irão responde orgulhando-se da sua preparação defensiva.
Vem tudo isto a propósito da guerra levada a cabo por EUA-Israel
contra o Irão sobre a qual encontramos opiniões rebuscadas que em nada acrescentam
e até falseiam a realidade.
Se pretendermos avaliar juízos formulados sobre esta guerra
facilmente perceberemos a existência de dois pontos de vista antagónicos: de um
lado os que defendem a ação dos EUA-Israel e do outro os que defendem o ponto
de vista do Irão.
Os argumentos que defendem o ponto de vista do Irão
contra as ações militares dos EUA e de Israel resumem-se a uma sistematização
das justificações usadas por aquele país e por analistas que lhe são próximos.
Assim, e do ponto de vista iraniano a presença militar dos EUA no Médio Oriente
é vista como fonte de instabilidade e não de segurança e que os ataques
reforçam a perceção de que Washington procura mudança de regime, o que
incentiva grupos aliados do Irão a mobilizarem‑se argumentando ainda que a
escalada é consequência direta da política norte‑americana e de Israel e não
das suas ações.
Analistas alinhados com o Irão argumentam que Israel
possui armas nucleares não declaradas, o que nunca foi sancionado, e que os EUA
apoiam militarmente Israel, mesmo quando este conduz operações que violam
resoluções da ONU. Por isso o Irão vê isto como prova de que o Ocidente aplica
padrões diferentes consoante o aliado.
Ainda do ponto de vista iraniano o país é signatário
do Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP) e acrescenta que o seu programa
nuclear é civil, monitorizado pela AIEA, e que os EUA e Israel usam a narrativa
da “bomba nuclear” como pretexto político. Assim, em relação aos ataques pelos
EUA em junho de 2025 às instalações de Fordow, Natanz e Esfahan são vistos como
agressões
injustificadas.
Após os bombardeamentos dos EUA e de Israel, em 28 de
fevereiro, o Irão lançou mísseis contra bases norte‑americanas no Golfo e
contra alvos militares israelitas. Para Teerão e segundo
a CNN, isto constitui retaliação proporcional, e não escalada porque atacam
bases que abrigam forças que os atacaram e que a resposta é apresentada como
defensiva, não ofensiva.
Desta forma e do ponto de vista do Irão os argumentos
que defendem assentam em quatro pilares: soberania violada por ataques não
provocados; ilegalidade internacional das ações dos EUA e de Israel; retaliação
proporcional e direito à autodefesa; duplo critério ocidental e sabotagem da
diplomacia. Alguns destes argumentos não representam a minha posição servem
apenas para justificar a polarização de opiniões sobre o tema.
Se, por um lado, nos posicionarmos num ponto de vista que
se oponha à intervenção bélica dos países aliados EUA-Israel na guerra contra o
Irão logo somos marcados como estarmos a favor de um regime não democrático de
opressão do povo, autoritário, tirânico, repressivo e de supremacia religiosa,
que o é de facto. Se, por outro lado, nos colocamos do lado dos agressores já
não se consideram perspetivas éticas e jurídicas e somos, de imediato, e erradamente, politicamente considerados como
imperialistas, anti iranianos, antidemocracias liberais e de estarmos do lado
de ameaças nucleares, etc..
Devido a argumentos que apoiam a intervenção bélica de
Trump e Netanyahu no Irão governos europeus e do Médio Oriente viram-se indiretamente
confrontados com uma guerra repentina que não era a sua que a maioria não
desejava. Face a isto as autoridades desses países mobilizaram-se para resgatar
cidadãos presos numa zona de combate cada vez maior e a subida vertiginosa dos
preços da energia está em riscos de afetar economias frágeis e com agitação a tomar
conta das políticas internas dos países provocando algumas divisões.
Para a diplomacia europeia o regime iraniano
representa uma ameaça séria devido ao programa nuclear, mísseis balísticos e
apoio a grupos armados, mas insiste e apela a todas as partes envolvidas para
exercerem a máxima contenção, protegerem civis e respeitarem o direito
internacional e humanitário que é prioritário.
Na União Europeia os Estados‑membros alinham-se no
compromisso de tomar medidas de defesa caso um país europeu seja atacado, mas consideram
até ao momento que não entrarão diretamente na guerra ao lado dos EUA ou de
Israel. No entanto, Analistas
ouvidos pela DW-Deutsche Welle, empresa pública de radiodifusão da Alemanha,
“dizem que bloco carece de coesão”. Segundo a Euronews Ursula von der Leyen e
António Costa apelam a “Garantir a segurança nuclear e evitar quaisquer ações
que possam agravar ainda mais as tensões ou comprometer o regime global de
não-proliferação nenhuma parte tome medidas que agravem o conflito ou
enfraqueçam o regime global de não proliferação.”
Países como Alemanha, França e Reino Unido permitem
uso limitado de bases militares pelos EUA, mas rejeitam envolvimento direto,
apesar de Trump exigir apoio europeu mais firme, mas vários líderes europeus
questionam a legitimidade da guerra.
Numa conferência de imprensa realizada na passada segunda-feira,
para justificar o ataque Trump disse que o Irão tinha um novo local para
desenvolver armas nucleares protegido por granito, para substituir as
instalações bombardeadas no ano passado pelos EUA.
Para além das questões sobre as razões e responsabilidades
do desencadear da guerra há outras duas: a de saber qual a responsabilidade por
uma guerra que envolve os Estados Unidos e Israel contra o Irão e a de saber se
tal intervenção seria justificada no contexto social e político atual. A resposta
à responsabilidade e à justificação dependem da perspetiva política, do direito
internacional e da interpretação dos acontecimentos. Quem ler artigos sobre os principais
pontos de vista utilizados por governos, analistas e observadores
internacionais ocidentais ficará confuso, tais são as várias interpretações e
justificações em favor ou contra o conflito
Os críticos dos EUA argumentam que a responsabilidade
imediata recai sobre os Estados Unidos e Israel porque iniciaram ataques
militares em grande escala ao território iraniano a 28 de fevereiro de 2026.
Trump afirmou que o
principal objetivo dos ataques era “defender o povo americano, eliminando
ameaças iminentes do regime iraniano”. Segundo ele, essas ameaças incluíam o
programa nuclear do Irão, que a Casa Branca afirmou ter destruído “totalmente” com
ataques em junho de 2025. Agora apresenta, sem provas, o argumento de que o
Irão construiu outras instalações para substituir as três instalações nucleares
que foram destruídas por ataques dos Estados Unidos ao Irão em junho. Fantástica a rapidez da
construção em meio ano!!
Segundo notícias publicadas em órgãos de comunicação
social os ataques de 28 de fevereiro visaram instalações nucleares iranianas,
bases militares e figuras do regime iraniano. Contudo o Irão descreve os
ataques como agressão estrangeira e uma violação da soberania. Assim parece ter
sido, visto que de acordo com o direito internacional e ao abrigo da Carta das
Nações Unidas, a força militar é geralmente legal em dois casos, autodefesa
após um ataque e a autorização pelo Conselho de Segurança da ONU (Art. 51).
Esta é, de facto, uma guerra escolhida pelos Estados
Unidos e por Israel, em contravenção à mesma carta da ONU que os próprios
europeus invocavam para condenar a invasão ilegal da Ucrânia pela Rússia e também
para insistir na soberania da Groenlândia.
Dado o que se sabe da personalidade deturpada de Trump
se não se convencer Trump a fazer diplomacia para poder garantir uma vitória ele
irá envolver-se num atoleiro de conflito regional penoso. Irá pressionar
outros países a participar na sua guerra. Apesar do
apelo de Trump ao povo
iraniano para usar este momento para se levantar e derrubar o regime para alguns comentadores os
iranianos comuns provavelmente darão prioridade à segurança e à proteção em vez
de invadir as ruas. Mesmo que os EUA consigam derrubar a liderança iraniana,
provavelmente prevêem-se anos de caos pela frente para o país e o povo do Irão.
Os que apoiam a operação EUA-Israel argumentam que foi
o comportamento regional do Irão que criou as condições para a guerra. Estas
afirmações não foram comprovadas e incluem o que diz Israel que acredita que o
Irão pode produzir armas nucleares, dar apoio a grupos armados hostis a Israel
e aos EUA (frequentemente chamado “Eixo da Resistência”) e a promoção do
terrorismo e no passado também ataques e ameaças anteriores contra as forças
dos EUA e os seus aliados regionais.
Das afirmações dos responsáveis norte-americanos e
israelitas resulta que a guerra é uma ação preventiva para neutralizar ameaças
iminentes, particularmente capacidades de mísseis e nucleares, o que ainda não foi
provado.
Algo semelhante já vimos com a invasão do Iraque pelos
EUA quando W. Bush se baseou na acusação falsa de que Saddam Hussein possuía um
programa nuclear e armas de destruição massiva. A invasão foi ainda justificada
pelo argumento da “Guerra ao Terrorismo”. Mas, quanto ao Irão, ao longo dos tempos
tem sido um dos promotores do terrorismo internacional islâmico.
Outras correntes recorrem às causas remotas. O conflito
resulta não de um único evento, mas vem desde 1979 altura de revolução iraniana.
São décadas de confronto crescente. Contudo, a aliança EUA de Trump com Israel de
Netanyahu agudizaram e trouxeram o conflito para o terreno. Desta perspetiva, a
guerra é o resultado de um longo ciclo de escalada envolvendo todos os lados.
Após cinco dias de guerra no Médio Oriente Pit Hegset,
Secretário de Defesa dos Estados Unidos, exaltou há dias a “enorme destruição”
que as forças americanas e israelitas estavam a infligir aos seus “adversários islâmicos
radicais iranianos.”
Segundo o Finantial
Times a equipe de Trump promove a guerra contra o Irão com a retórica agressiva
do tenebroso Hegseth, (ou melhor o secretário da guerra) que retrata a América
como um predador justo e implacável, e está no centro da estratégia de
comunicação extremamente agressiva da Casa Branca. Esta estratégia inclui
vídeos de operações militares nas redes sociais, que visam mostrar o poder
letal americano e a sua superioridade militar. As regras de aliciamento das
forças americanas “são projetadas para libertar o poder americano, não para
restringi-lo”, gabou-se Hegseth. Esta personagem é uma espécie de nazi
americano do séc. XXI. Críticos acusam o governo de usar uma retórica
insensível e cruel que banaliza a violência inerente aos conflitos armados. A
linguagem bombástica de Hegseth parece, assim, dissociada da realidade da
tomada de decisões em tempos de guerra.
Na mesma linha o veículo de notícias online pan-árabe
com sede em Londres o “The New Arab”, noticiou no dia 10 de março, que Lindsey
Graham, senador republicano, ameaçou a Arábia Saudita se ela se recusar a
entrar na guerra EUA-Israel contra o Irão. O político republicano afirmou no
dia 9, segunda-feira, que Riad
tem o dever de ajudar o seu aliado, na sua tentativa de mudança do regime no
Irão após o ataque surpresa de Israel e dos EUA ao Irão em 28 de fevereiro.
No dia 10 de março, o descaramento do Secretário da
Guerra Pete Hegseth durante uma conferência
de imprensa no Pentágono não teve limites ao afirmar que “Os iranianos
estão desesperados. Como covardes terroristas que são, disparam mísseis a
escolas e hospitais..., lançando deliberadamente sobre inocentes..., porque
sabem que o seu exército está sendo sistematicamente degradado e aniquilado”,
atrevimento e mentira não lhe faltam porque esqueceu convenientemente o que Israel
e os EUA fizeram em Gaza e agora o mesmo no Irão.
Segundo a revista The Week “a Operação
Fúria Épica é a aposta fatídica de Trump”. O problema com a intervenção de
Trump, como disse Abigail Hauslohner ao Finantial Times, “é que não há um plano claro por detrás
dela. Os seus raciocínios e objetivos mudam constantemente. Num minuto, sugere
que a missão vai durar alguns dias, no outro, diz que vai durar cinco semanas;
num minuto, ele convoca os iranianos para «tomarem o controle do seu destino»,
no seguinte, diz que não tem interesse na construção nacional. No domingo, disse
que havia optado por três «escolhas muito boas» entre os oficiais iranianos
para assumir o país. No dia seguinte, disse à ABC que os ataques entre EUA e
Israel haviam sido «tão bem-sucedidos» que os candidatos estavam «todos mortos».
Trump precisa descobrir exatamente o que está a tentar alcançar no Irão, como
afirmou David Blair no The Daily Telegraph.
O colapso de um regime assassino teria o potencial para
remodelar o Médio Oriente para melhor, mas as possibilidades de sucesso são poucas
e sem objetivos claros da administração Trump do EUA.

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