domingo, 15 de março de 2026

De que lado estamos: EUA-Israel ou Irão?

 


No dia onze de março o diário The Washington Post colocou uma notícia com o seguinte em título: “O Pentágono impede que fotógrafos de imprensa tirem fotografias pouco lisonjeiras” de Hegseth. A equipa do Secretário da Defesa Pete Hegseth criticou as fotos tiradas numa sessão informativa e decidiu excluir fotógrafos de duas conferências de imprensa subsequentes. Como devemos compreender esta atitude? A imagem e a postura de agressividade de Hegseth que tem sido muitas vezes conotado como nazi devido às suas tatuagens que alguns dizem nada ter a ver com essa ideologia.

Ao lermos opiniões sobre determinados temas confrontamo-nos com pontos de vista por vezes muito bem escritos numa linguagem rebuscada, complexa e quase encriptada, eventualmente propositada, não ajuda à compreensão do conteúdo da mensagem pela maior parte das pessoas pelo que abandonam a leitura logo de início. O uso duma linguagem, menos técnica e mais natural para chegar ao maior número de pessoas é talvez preferível, mesmo quando se trate de questões complexas. Sempre que não seja possível evitar uma linguagem mais técnica a sua explicação exige-se no decurso da narrativa.

No contexto da guerra EUA-Israel com o Irão as declarações transmitidas por cada uma das partes deparamo-nos com declarações de porta-vozes que são contraditórias e polarizadas conforme os interesses das partes em litígio devido aos procedimentos de informação e de contra informação.

A escalada militar entre Estados Unidos, Israel e o Irão desencadeou uma intensa disputa no circuito da informação. Nas redes sociais, circulam imagens manipuladas, vídeos fora de contexto, conteúdos retirados de jogos eletrónicos e peças sintéticas geradas por inteligência artificial, muitas vezes amplificadas por contas verificadas ou redes automatizadas.

Especialistas alertam que, em contextos de guerra, a desinformação pode agravar tensões, afetar operações humanitárias e influenciar o comportamento de civis, tornando o ecossistema digital um campo estratégico adicional do conflito.

Donald Trump tem utilizado declarações públicas para justificar ataques e instar a população iraniana a derrubar o regime, enquanto o Irão responde orgulhando-se da sua preparação defensiva.

 

Vem tudo isto a propósito da guerra levada a cabo por EUA-Israel contra o Irão sobre a qual encontramos opiniões rebuscadas que em nada acrescentam e até falseiam a realidade.

Se pretendermos avaliar juízos formulados sobre esta guerra facilmente perceberemos a existência de dois pontos de vista antagónicos: de um lado os que defendem a ação dos EUA-Israel e do outro os que defendem o ponto de vista do Irão.

Os argumentos que defendem o ponto de vista do Irão contra as ações militares dos EUA e de Israel resumem-se a uma sistematização das justificações usadas por aquele país e por analistas que lhe são próximos. Assim, e do ponto de vista iraniano a presença militar dos EUA no Médio Oriente é vista como fonte de instabilidade e não de segurança e que os ataques reforçam a perceção de que Washington procura mudança de regime, o que incentiva grupos aliados do Irão a mobilizarem‑se argumentando ainda que a escalada é consequência direta da política norte‑americana e de Israel e não das suas ações.

Analistas alinhados com o Irão argumentam que Israel possui armas nucleares não declaradas, o que nunca foi sancionado, e que os EUA apoiam militarmente Israel, mesmo quando este conduz operações que violam resoluções da ONU. Por isso o Irão vê isto como prova de que o Ocidente aplica padrões diferentes consoante o aliado.

Ainda do ponto de vista iraniano o país é signatário do Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP) e acrescenta que o seu programa nuclear é civil, monitorizado pela AIEA, e que os EUA e Israel usam a narrativa da “bomba nuclear” como pretexto político. Assim, em relação aos ataques pelos EUA em junho de 2025 às instalações de Fordow, Natanz e Esfahan são vistos como agressões injustificadas.

Após os bombardeamentos dos EUA e de Israel, em 28 de fevereiro, o Irão lançou mísseis contra bases norte‑americanas no Golfo e contra alvos militares israelitas. Para Teerão e segundo a CNN, isto constitui retaliação proporcional, e não escalada porque atacam bases que abrigam forças que os atacaram e que a resposta é apresentada como defensiva, não ofensiva.

Desta forma e do ponto de vista do Irão os argumentos que defendem assentam em quatro pilares: soberania violada por ataques não provocados; ilegalidade internacional das ações dos EUA e de Israel; retaliação proporcional e direito à autodefesa; duplo critério ocidental e sabotagem da diplomacia. Alguns destes argumentos não representam a minha posição servem apenas para justificar a polarização de opiniões sobre o tema.

Se, por um lado, nos posicionarmos num ponto de vista que se oponha à intervenção bélica dos países aliados EUA-Israel na guerra contra o Irão logo somos marcados como estarmos a favor de um regime não democrático de opressão do povo, autoritário, tirânico, repressivo e de supremacia religiosa, que o é de facto. Se, por outro lado, nos colocamos do lado dos agressores já não se consideram perspetivas éticas e jurídicas e somos, de imediato, e  erradamente, politicamente considerados como imperialistas, anti iranianos, antidemocracias liberais e de estarmos do lado de ameaças nucleares, etc..

Devido a argumentos que apoiam a intervenção bélica de Trump e Netanyahu no Irão governos europeus e do Médio Oriente viram-se indiretamente confrontados com uma guerra repentina que não era a sua que a maioria não desejava. Face a isto as autoridades desses países mobilizaram-se para resgatar cidadãos presos numa zona de combate cada vez maior e a subida vertiginosa dos preços da energia está em riscos de afetar economias frágeis e com agitação a tomar conta das políticas internas dos países provocando algumas divisões.

Para a diplomacia europeia o regime iraniano representa uma ameaça séria devido ao programa nuclear, mísseis balísticos e apoio a grupos armados, mas insiste e apela a todas as partes envolvidas para exercerem a máxima contenção, protegerem civis e respeitarem o direito internacional e humanitário que é prioritário.

Na União Europeia os Estados‑membros alinham-se no compromisso de tomar medidas de defesa caso um país europeu seja atacado, mas consideram até ao momento que não entrarão diretamente na guerra ao lado dos EUA ou de Israel. No entanto, Analistas ouvidos pela DW-Deutsche Welle, empresa pública de radiodifusão da Alemanha, “dizem que bloco carece de coesão”. Segundo a Euronews Ursula von der Leyen e António Costa apelam a “Garantir a segurança nuclear e evitar quaisquer ações que possam agravar ainda mais as tensões ou comprometer o regime global de não-proliferação nenhuma parte tome medidas que agravem o conflito ou enfraqueçam o regime global de não proliferação.”

Países como Alemanha, França e Reino Unido permitem uso limitado de bases militares pelos EUA, mas rejeitam envolvimento direto, apesar de Trump exigir apoio europeu mais firme, mas vários líderes europeus questionam a legitimidade da guerra.

Numa conferência de imprensa realizada na passada segunda-feira, para justificar o ataque Trump disse que o Irão tinha um novo local para desenvolver armas nucleares protegido por granito, para substituir as instalações bombardeadas no ano passado pelos EUA.

Para além das questões sobre as razões e responsabilidades do desencadear da guerra há outras duas: a de saber qual a responsabilidade por uma guerra que envolve os Estados Unidos e Israel contra o Irão e a de saber se tal intervenção seria justificada no contexto social e político atual. A resposta à responsabilidade e à justificação dependem da perspetiva política, do direito internacional e da interpretação dos acontecimentos. Quem ler artigos sobre os principais pontos de vista utilizados por governos, analistas e observadores internacionais ocidentais ficará confuso, tais são as várias interpretações e justificações em favor ou contra o conflito

Os críticos dos EUA argumentam que a responsabilidade imediata recai sobre os Estados Unidos e Israel porque iniciaram ataques militares em grande escala ao território iraniano a 28 de fevereiro de 2026. Trump afirmou que o principal objetivo dos ataques era “defender o povo americano, eliminando ameaças iminentes do regime iraniano”. Segundo ele, essas ameaças incluíam o programa nuclear do Irão, que a Casa Branca afirmou ter destruído “totalmente” com ataques em junho de 2025. Agora apresenta, sem provas, o argumento de que o Irão construiu outras instalações para substituir as três instalações nucleares que foram destruídas por ataques dos Estados Unidos ao Irão em junho. Fantástica a rapidez da construção em meio ano!!

Segundo notícias publicadas em órgãos de comunicação social os ataques de 28 de fevereiro visaram instalações nucleares iranianas, bases militares e figuras do regime iraniano. Contudo o Irão descreve os ataques como agressão estrangeira e uma violação da soberania. Assim parece ter sido, visto que de acordo com o direito internacional e ao abrigo da Carta das Nações Unidas, a força militar é geralmente legal em dois casos, autodefesa após um ataque e a autorização pelo Conselho de Segurança da ONU (Art. 51).

Esta é, de facto, uma guerra escolhida pelos Estados Unidos e por Israel, em contravenção à mesma carta da ONU que os próprios europeus invocavam para condenar a invasão ilegal da Ucrânia pela Rússia e também para insistir na soberania da Groenlândia.

Dado o que se sabe da personalidade deturpada de Trump se não se convencer Trump a fazer diplomacia para poder garantir uma vitória ele irá envolver-se num atoleiro de conflito regional penoso. Irá pressionar outros países a participar na sua guerra. Apesar do apelo de Trump ao povo iraniano para usar este momento para se levantar e derrubar o regime para alguns comentadores os iranianos comuns provavelmente darão prioridade à segurança e à proteção em vez de invadir as ruas. Mesmo que os EUA consigam derrubar a liderança iraniana, provavelmente prevêem-se anos de caos pela frente para o país e o povo do Irão.

Os que apoiam a operação EUA-Israel argumentam que foi o comportamento regional do Irão que criou as condições para a guerra. Estas afirmações não foram comprovadas e incluem o que diz Israel que acredita que o Irão pode produzir armas nucleares, dar apoio a grupos armados hostis a Israel e aos EUA (frequentemente chamado “Eixo da Resistência”) e a promoção do terrorismo e no passado também ataques e ameaças anteriores contra as forças dos EUA e os seus aliados regionais.

Das afirmações dos responsáveis norte-americanos e israelitas resulta que a guerra é uma ação preventiva para neutralizar ameaças iminentes, particularmente capacidades de mísseis e nucleares, o que ainda não foi provado.

Algo semelhante já vimos com a invasão do Iraque pelos EUA quando W. Bush se baseou na acusação falsa de que Saddam Hussein possuía um programa nuclear e armas de destruição massiva. A invasão foi ainda justificada pelo argumento da “Guerra ao Terrorismo”. Mas, quanto ao Irão, ao longo dos tempos tem sido um dos promotores do terrorismo internacional islâmico.

Outras correntes recorrem às causas remotas. O conflito resulta não de um único evento, mas vem desde 1979 altura de revolução iraniana. São décadas de confronto crescente. Contudo, a aliança EUA de Trump com Israel de Netanyahu agudizaram e trouxeram o conflito para o terreno. Desta perspetiva, a guerra é o resultado de um longo ciclo de escalada envolvendo todos os lados.

Após cinco dias de guerra no Médio Oriente Pit Hegset, Secretário de Defesa dos Estados Unidos, exaltou há dias a “enorme destruição” que as forças americanas e israelitas estavam a infligir aos seus “adversários islâmicos radicais iranianos.”

Segundo o Finantial Times a equipe de Trump promove a guerra contra o Irão com a retórica agressiva do tenebroso Hegseth, (ou melhor o secretário da guerra) que retrata a América como um predador justo e implacável, e está no centro da estratégia de comunicação extremamente agressiva da Casa Branca. Esta estratégia inclui vídeos de operações militares nas redes sociais, que visam mostrar o poder letal americano e a sua superioridade militar. As regras de aliciamento das forças americanas “são projetadas para libertar o poder americano, não para restringi-lo”, gabou-se Hegseth. Esta personagem é uma espécie de nazi americano do séc. XXI. Críticos acusam o governo de usar uma retórica insensível e cruel que banaliza a violência inerente aos conflitos armados. A linguagem bombástica de Hegseth parece, assim, dissociada da realidade da tomada de decisões em tempos de guerra.

Na mesma linha o veículo de notícias online pan-árabe com sede em Londres o “The New Arab”, noticiou no dia 10 de março, que Lindsey Graham, senador republicano, ameaçou a Arábia Saudita se ela se recusar a entrar na guerra EUA-Israel contra o Irão. O político republicano afirmou no dia 9, segunda-feira, que Riad tem o dever de ajudar o seu aliado, na sua tentativa de mudança do regime no Irão após o ataque surpresa de Israel e dos EUA ao Irão em 28 de fevereiro.

No dia 10 de março, o descaramento do Secretário da Guerra Pete Hegseth durante uma conferência de imprensa no Pentágono não teve limites ao afirmar que “Os iranianos estão desesperados. Como covardes terroristas que são, disparam mísseis a escolas e hospitais..., lançando deliberadamente sobre inocentes..., porque sabem que o seu exército está sendo sistematicamente degradado e aniquilado”, atrevimento e mentira não lhe faltam porque esqueceu convenientemente o que Israel e os EUA fizeram em Gaza e agora o mesmo no Irão.

Segundo a revista The Week “a Operação Fúria Épica é a aposta fatídica de Trump”. O problema com a intervenção de Trump, como disse Abigail Hauslohner ao Finantial Times, “é que não há um plano claro por detrás dela. Os seus raciocínios e objetivos mudam constantemente. Num minuto, sugere que a missão vai durar alguns dias, no outro, diz que vai durar cinco semanas; num minuto, ele convoca os iranianos para «tomarem o controle do seu destino», no seguinte, diz que não tem interesse na construção nacional. No domingo, disse que havia optado por três «escolhas muito boas» entre os oficiais iranianos para assumir o país. No dia seguinte, disse à ABC que os ataques entre EUA e Israel haviam sido «tão bem-sucedidos» que os candidatos estavam «todos mortos». Trump precisa descobrir exatamente o que está a tentar alcançar no Irão, como afirmou David Blair no The Daily Telegraph.

O colapso de um regime assassino teria o potencial para remodelar o Médio Oriente para melhor, mas as possibilidades de sucesso são poucas e sem objetivos claros da administração Trump do EUA.


Sem comentários:

Enviar um comentário