domingo, 17 de maio de 2026

Calígula versão século XXI

 


O último texto que publiquei foi sobre o “Elogio da Loucura” de Erasmo, discurso satírico onde estabeleci uma comparação entre a personagem Loucura com o Presidente Donald Trump. Lembrei-me, entretanto, de fazer um texto idêntico, mas de comparação com Calígula imperador romano entre os anos de 37 a 41 DC. Há também quem o compare a Nero. Vamos ficar por Calígula e mergulhemos numa comparação entusiasmada entre Donald Trump e uma das figuras mais notórias da história: e o Imperador Calígula!

Escrever várias vezes sobre Trump parece uma obsessão, mas não. A influência do media, não apenas aqui, no nosso país, mas sobretudo na imprensa nos EUA pode contribuir para tal.

Esta minha comparação foi feita com algum cuidado porque aparentemente humorística é, ao mesmo tempo, séria. Os contextos e épocas são totalmente diferentes. Roma imperial versus democracia moderna. Considerei mais interessante fazer uma comparação temática tendo em conta estilo de liderança, relação com instituições, propaganda, reação da elite, embora sem qualquer ideia de o demonstrar que são a mesma coisa.

Quando decidi fazer esta analogia pensei: aqui está uma coisa original! Enganei-me. Na fase da pesquiza deparei-me com historiadores e comentadores que também já o fizeram. O historiador Tom Holland deu em 2016 uma entrevista sobre o tema ao jornal britânico The Guardian. Mais recente, a 5 maio de 2026 a revista The Economist publicou um artigo intitulado “A América deve desejar para que Donald Trump não seja um novo Calígula”,  artigo finaliza assim: “…imperadores tirânicos como Calígula, que renomeou templos em sua homenagem, mandou erguer estátuas douradas suas e deleitavam-se em humilhar as antigas elites de Roma, incluindo os senadores covardes que lhe entregavam supremos poderes”.

Trump e Calígula podem ser comparados no plano do estilo político com uma liderança centrada na sua pessoa. Esta comparação é limitada porque Calígula governou um sistema autocrático com mecanismos de coerção típicos de Roma da sua época. Trump atua dentro de instituições democráticas que, apesar de ter mecanismos que restringem o poder executivo, tenta paulatinamente destruir esses mecanismos.



Para demonstrar o seu desprezo pelas classes dominantes, Calígula, ameaçou fazer do seu cavalo cônsul (o poderá ter sido uma lenda).

Donald Trump ainda não nomeou um cavalo para o seu gabinete, mas, no entanto, nomeou bajuladores não qualificados para cargos de alta responsabilidade, onde disputam a sua lealdade enquanto obtêm benefícios derivados ao cargo. Permitir que a decadência continue será um erro muito mais difícil de corrigir.

Muitos romanos comuns adoravam Calígula como um showman da época que construía monumentos de mármore, organizava desfiles militares e divertia-se em assistir a competições de gladiadores, quanto mais sangrentos, melhor. Trump não lhe fica atrás. Donald Trump, foi estrela do seu próprio reality show. Em setembro de 2016 o Whashigton Post escreveu que “o imobiliário tornou-o rico, a televisão tornou-o famoso”. Trump, fã de estátuas douradas, monumentos de mármore, de sumptuosos salões de baile e participações em lutas parece estar no mesmo caminho de Calígula versão século XXI.

Acham estranho que Donald Trump tenha sido uma estrela do wrestling? Não é bem o caso. O mundo deste desporto de entretenimento, muito famoso nos EUA, não é nada desconhecido para este presidente dos EUA que chegou a envolver-se diretamente na WrestleMania, o maior evento da modalidade. Em 2007 Trump alinhou na chamada «Batalha dos Milionários», com Vince McMahon, dono da WWE-World Wrestling Entertainment, empresa que organizou o evento. Cada um escolheu um lutador que os representaria no ringue. O perdedor teria de rapar o cabelo. Trump não ficou por aqui e foi mesmo para o combate, ainda que fora das cordas. Como o lutador representante de Trump ganhou o combate. Vince McMahon ateve que deixar rapar o cabelo com ajuda do agora presidente de todos os norte-americano, como pode confirmar aqui a partir do minuto 1:45.

Há comentadores nos EUA que sugerem que Trump opera como um “meio-Calígula”, com comportamentos erráticos que desafiam normas, semelhante ao imperador romano que, segundo relatos, zombava das instituições.

Ao longo das últimas décadas os EUA pareciam escapar ao processo de fim da liberdade e da democracia como se tem visto noutros locais e continentes como na Ásia, na África e na Rússia. Nestes países tem sido prática comum ampliar as bases do poder, distribuir o que existe, transformando-se em virtudes das sociedades e aspirações para os que o rodeiam. O que parecia longínquo como autoritarismos, fascismos ou comunismos pareciam estar a reduzir-se mo Mundo. Já não é assim. O poder não existe para servir os povos, serve para existir.

O que acontece quando se compara um político moderno exibicionista a um dos mais notórios tiranos da história? A resposta uma resposta está num vídeo onde se apresentam semelhanças impressionantes entre Donald Trump e Calígula, desde demonstrações de ego desmedidas a ganância chocante e atos escandalosos. A loucura de Calígula pode ser lendária, mas Trump, nestes nossos dias, é também um ator que representa uma comédia hilariante se não fosse perigosa.  




sábado, 9 de maio de 2026

A retórica do excesso ou a Loucura em Trump

 

O lema de Trump é se “não tens quem te elogie elogia-te a ti mesmo”.

Pergunto a quem resolveu parar aqui por curiosidade do texto conhecerá e terá lido a obra de Erasmo de Roterdão o “Elogio da Loucura” escrita em 1509? Não? Não se preocupe. Terão sido poucos os que já o leram!

O “Elogio da Loucura” é um discurso satírico em que a própria Loucura é personificada e fala na primeira pessoa para mostrar, com ironia, que grande parte da vida humana, da amizade à política, da religião ao amor, depende dela mais do que da razão. A Loucura é, ela própria, uma protagonista personificada.

Para aqueles que ainda não conhecem a obra aqui vai uma breve síntese duma pequena parte que interessa para este artigo. Erasmo, tomando a voz da Loucura, satiriza governantes, académicos, teólogos e autoridades religiosas, denunciando hipocrisia, superstição e corrupção. É crítica à sociedade, à moral, à política e à Igreja da sua época.

O “Elogio da Loucura” serviu-me como elemento para compreensão de fenómenos políticos atuais que desafiam normas tradicionais. A “Loucura”, personagem alegórica, oferece um espelho onde se podemos ver refletidas as políticas, as geopolíticas e as tensões das democracias contemporâneas.

Assim, podemos imaginar a política como uma espécie de teatro. Se Erasmo de Roterdão vivesse hoje já não escreveria o “Elogio da Loucura”. Limitar-se-ia a ler a imprensa e a ligar a televisão. A Loucura na altura em que Erasmo a escreveu era uma alegoria. Hoje teria corpo com microfone e horário nobre nas televisões.

Talvez Donald Trump seja uma das personificações da Loucura.  O que no provoca um sorriso de troça. A própria personagem Loucura teria inveja. Afinal, ela sempre quis multidões, aplausos, exagero, e uma plateia disposta a confundir convicção com verdade. As verdades são as dele. Não há outras. São as verdades alternativa. Pela análise das suas atitudes já avaliadas por especialistas, Trump domina essa arte com a naturalidade de quem respira.

A personagem Loucura é assume-se como uma criatura exuberante, que se apresenta ao mundo com a confiança de quem nunca duvida de si. Esta figura alegórica teria hoje concorrência: líderes que falam com a certeza de profetas e a leveza de comediantes, que misturam indignação com espetáculo. Trump surge como exemplo recorrente dessa retórica performativa: frases curtas, certezas longas, e uma relação com a realidade tão flexível quanto a banca de um vendedor de bugigangas ou, melhor, como vendedor de brinquedos perigosos.

Trump domina esse registo com a precisão de um antigo fanfarão da corte: provoca, exagera, repete e, nesse processo, obriga todos os que o rodeiam a dançar ao ritmo que ele impõe. Segundo alguns dicionários fanfarrão é uma pessoa arrogante, gabarola ou valentona, que ostenta coragem, superioridade ou qualidades que, na realidade, não possui. É alguém que se vangloria, mente sobre as suas capacidades e costuma desviar-se perante o perigo ou situações reais.

Erasmo escreveu que o riso desarma mais do que a espada. A Loucura torna-se perigosa porque, ao ridicularizar políticos, cientistas (alguns) e poderosos, expõe a fragilidade das instituições. Hoje, vemos repercussão dessa estratégia em discursos que desafiam normas, zombam de adversários e transformam debates em arenas de entretenimento. Não preciso de mencionar nomes para evitar suscetibilidades.

A personagem Loucura, dizia disparates que, afinal, eram verdades inconvenientes. Os fenómenos políticos recentes funcionam da mesma forma. A retórica perturbadora, por mais caótica que pareça, revela tensões profundas como desigualdades, ressentimentos, medos, frustrações. Ela é uma personagem que se vangloria de ser indispensável ao mundo. Esta figura funciona como metáfora das emoções que atravessam as sociedades em momentos de crise.

A figura de Trump assim como outros, próximo de nós, aqui em Portugal, e também na Europa, não são apenas atores barulhentos num palco, são também um espelho onde a sociedade americana e a nossa se reveem e, de momento, não sabemos se ainda gostam do que veem.

Talvez a política contemporânea precise mesmo desta energia turbulenta, desta mistura de espetáculo e convicção, para revelar o que estava escondido. Neste sentido Trump torna-se não um herói nem um vilão, mas um sintoma de uma potencial doença da democracia. Afinal, se bem refletirmos,  é mais um capítulo do que Erasmo começou e que o mundo insiste em continuar a escrever.

Mas continuemos. A figura alegórica da Loucura é mostrada como exuberante, autoconfiante, sedutora e capaz de expor contradições sociais que serve para compreender a ascensão de líderes que desafiam normas institucionais e discursivas. Donald Trump é, frequentemente, colocado nesse debate, não como objeto de sátira direta, mas como exemplo de como a retórica política contemporânea pode ser lida numa perspetiva da Loucura.

A comunicação política de Trump é frequentemente descrita como performativa, baseada na repetição, na certeza e na construção de uma identidade forte. É uma espécie de representação da forma moderna da autoridade louca, não a autoridade racional, mas a autoridade emocional que a loucura lhe provoca.

A ascensão de Trump, e de outras forças aqui mesmo na Europa, vieram expor tensões latentes não só na sociedade americana: económicas, culturais, identitárias. Criou uma retórica polarizadora, “louca” que, afinal, é também reveladora por obrigar ao confronto de desigualdades, ressentimentos e falhas institucionais.

A política partidária contemporânea para alcançar votos parece depender cada vez mais de emoções fortes, narrativas simples e figuras que dizem romper com o status quo. É nisto que se fundamenta o crescimento das extremas-direitas, dos demagogos e dos populistas. Trump é frequentemente analisado como símbolo disso mesmo sendo considerado como um agente que, para críticos e apoiantes, representa uma mudança profunda na forma como o poder é exercido e percebido. Isto é o caminho para o poder totalitário.

A “Loucura de Erasmo” triunfa apenas porque encena a sua própria autoridade. Do mesmo modo Trump não convence pela razão, mas pelo conflito, pela provocação, pela imposição, pela força e pela confiança absoluta em si mesmo.

Aqui está um video que resume a peça







segunda-feira, 4 de maio de 2026

Israel e Gaza resposta desproporcionada

 

Uma comissão de inquérito das Nações Unidas concluiu que Israel e o Hamas cometeram crimes de guerra. Os investigadores do Conselho de Direitos Humanos da ONU dizem que não há inocentes neste conflito e responsabilizam quer o Hamas, quer Israel, pela violação do Direito Internacional.


Tal vem a propósito de no dia 29 de abril, o colunista do Observador, João Marques de Almeida, ter publicado um artigo intitulado “Sim, sou pró-Israel”, cujo lead afirma: “Não haja dúvidas, Israel é, de certo modo, um pretexto. Para a Europa, a grande ameaça às nossas democracias é a coligação entre os islamistas radicais e as extremas esquerdas”. Logo no início, o autor apresenta três razões para a sua posição, sendo a primeira “obviamente, o Holocausto”.

Foi precisamente aqui que deixei de ler. Não por desinteresse, mas porque o argumento se tornou previsível e, sobretudo, problemático.

Estar “a favor” ou “contra” Israel não é uma posição absoluta nem moralmente automática. Depende do contexto, dos atos concretos, das circunstâncias históricas e políticas, e também da sensibilidade ética de cada um. Nenhuma dessas variáveis, porém, pode servir para suspender o juízo crítico.

O Holocausto foi, sem dúvida, um crime histórico de dimensão incomparável: um genocídio planeado e executado de forma sistemática por um regime ditatorial feroz, assente numa mistura de antissemitismo secular, ideologia racial pseudocientífica e oportunismo político. Esse horror deve ser lembrado, estudado e condenado sem reservas. Sempre.

O que não é aceitável é a tentativa, explícita ou implícita, de transformar essa tragédia num salvo-conduto moral para ações presentes. A memória de uma calamidade não pode justificar novas calamidades. O facto de um povo ter sido vítima de atrocidades não lhe confere legitimidade para infligir sofrimento extremo a outro povo que em nada contribuiu para esse crime histórico.

A história mostra-nos que regimes autoritários, ou líderes com ambições autoritárias, recorrem, frequentemente, a bodes expiatórios para consolidar poder. Invocam ameaças à democracia enquanto corroem os seus fundamentos por dentro. Instalam-se no sistema precisamente para o instrumentalizar.

O verdadeiro compromisso ético exige coerência que passa pela condenação das perseguições, dos massacres e dos crimes contra a humanidade do passado e do presente, sem exceções seletivas. Não é moralmente defensável que o perseguido de ontem se transforme no perseguidor de hoje, exercendo violência indiscriminada sobre um povo inteiro.

Chegados aqui, a pergunta impõe-se com clareza:
pode a reação do governo de Netanyahu, marcada por ataques massivos, sem distinção clara entre alvos militares e civis, e com evidente intenção de ocupação territorial, ser considerada proporcional ao ataque terrorista do Hamas de 7 de outubro?

Ou estaremos, mais uma vez, perante a instrumentalização do medo, da memória e da dor histórica para justificar o injustificável?

Um ataque terrorista é sempre um crime abominável. Mas nenhuma atrocidade inicial legitima a destruição e deslocação sistemática de quase uma população inteira.

Há poucos gestos mais claros de barbárie do que um ataque terrorista deliberado contra civis. A violência indiscriminada, planeada para espalhar medo e morte, mesmo que os seus objetivos sejam por alguns considerados justos. Merece condenação inequívoca, sem relativizações nem ambiguidades. No entanto, essa condenação, necessária e justa, não pode servir de carta‑branca para uma resposta que, em nome da segurança, mergulha uma população inteira num cenário de devastação.

É precisamente neste ponto que muitas narrativas oficiais falham. Confundem autodefesa com vingança e justiça com força bruta como tem sido o caso de Israel com a população de Gaza indefesa.  “Comandado” por uma espécie de facínora que é Benjamin Netanyahu, a justificação é a de combater o Hamas (alguns ataques serão e daí nada a dizer), mas é a população deslocada, que é o mesmo que dizer perseguida sem culpa.

Responder militarmente a um ataque terrorista não é, em si, ilegítimo. Estados têm o direito, e o dever, de proteger os seus cidadãos. Mas esse direito está longe de ser absoluto. Ele encontra limites claros no direito internacional, na ética e, sobretudo, na humanidade. Quando uma reação militar deixa de visar os responsáveis diretos e passa a atingir indiscriminadamente civis, infraestruturas essenciais e as condições mínimas de vida, deixa de ser defesa e transforma‑se em punição coletiva. Acrescentaria aqui, uma espécie de revanche dos judeus contra “outros” pela vivência no Holocausto.

A desproporcionalidade manifesta‑se quando a escala da resposta não corresponde ao objetivo declarado. Bombardeamentos maciços em áreas densamente povoadas, destruição de bairros residenciais, colapso de hospitais, falta de água, eletricidade e alimentos não são efeitos colaterais inevitáveis, são consequências previsíveis. E quando são previsíveis, são também escolhas.

O argumento de que “não há alternativa” ou de que uma população é cúmplice por viver sob o controlo forçado por um grupo armado é moralmente indefensável. A maioria das pessoas que habitam territórios em conflito não escolheu a guerra, não participou no ataque inicial e não dispõe de qualquer meio para influenciar decisões militares ou políticas. Ainda assim, são essas pessoas que enterram os mortos, fogem com os filhos ao colo e sobrevivem entre escombros.

É aqui que a desproporcionalidade se torna mais evidente, não apenas nos números, mas na injustiça fundamental de quem sofre. A violência deixa de ser dirigida a culpados e passa a recair sobre inocentes. Quando crianças, idosos e doentes se tornam as principais vítimas, algo se perdeu pelo caminho.

Pior ainda, este tipo de reação destrutiva tende a produzir o efeito oposto ao proclamado. Quando há um país que em vez do recurso à diplomacia ataca outro com armas com pretextos pouco explícitos e pouco consistentes, como seja depor um regime em vez de eliminar a violência alimenta‑a.

Cada casa destruída, cada família desalojada, cada vida perdida sem razão militar clara cria um legado de dor, ressentimento e desespero. A força excessiva não constrói segurança duradoura, constrói memórias de injustiça. É o que está a acontecer também no Irão

Há também uma outra dimensão política que não pode ser ignorada. Quando um Estado afirma agir em nome da lei, dos valores democráticos ou da ordem internacional, espera‑se dele um padrão de conduta superior ao daqueles que recorrem ao terrorismo. Quando essa diferença desaparece, quando os métodos se aproximam na sua brutalidade, a legitimidade moral desintegra‑se, mesmo que a retórica se mantenha.

Condenar um ataque terrorista ou até mesmo um regime opressor e, ao mesmo tempo, denunciar uma resposta desproporcionada não é contradição. Pelo contrário: é um sinal de coerência ética. O valor da vida humana não pode depender do lado da fronteira em que se nasce nem da narrativa que domina os noticiários.

Num mundo saturado de slogans e alinhamentos automáticos, recusar a lógica do “vale tudo” é um ato de lucidez. A verdadeira força mede‑se na contenção, na capacidade de reagir sem perder o sentido da humanidade. Quando essa contenção desaparece, a violência deixa de ser exceção, torna‑se método.

É por isso que: “Sim, NÃO SOU pró-Israel” nem pró Trump.


“Entre sorrisos e evasivas” a entrevista a Paulo Rangel

 

Na grande entrevista concedida à RTP1, a 29 de abril, Paulo Rangel voltou a demonstrar aquilo que muitos identificam como a subserviência de Portugal perante determinados poderes externos — uma postura lamentável, embora recorrente nas suas intervenções públicas, e não apenas no que diz respeito ao dossiê das Lajes. A diplomacia não se constrói com evasivas nem com o receio de enfrentar questões difíceis; constrói‑se com clareza, frontalidade e sentido de responsabilidade política.

O senhor ministro fala com desenvoltura e aparente eloquência, mas o conteúdo das suas palavras revela‑se escasso. Como se costuma dizer em contexto jurídico, “quanto aos factos, nada disse”. Nem o sorriso persistente nem o momento do olhar direto para as câmaras conseguiram disfarçar a ausência de respostas concretas ou de posições claramente assumidas.

É verdade que esta atitude de subordinação não é recente, vem de longe. Mas, no momento presente, assume contornos particularmente penosos, para não dizer inquietantes. Importa, por isso, colocar a questão essencial: com quem queremos nós comparar‑nos enquanto país? Com Estados enfraquecidos, resignados à tutela de uma potência dominante, ou com países que, mesmo sob pressão, souberam adotar uma posição autónoma, coerente com as suas convicções, relativamente ao ataque ao Irão levado a cabo por um líder movido pelo fanatismo do poder e da riqueza?

Serão esses países, que recusaram alinhar nas estratégias do presidente Trump em torno da invasão do Irão, defensores do regime iraniano ou cúmplices do terrorismo que esse regime tem promovido? A pergunta é tão legítima quanto esclarecedora. Confundir planos distintos sejam eles ideológicos, políticos e diplomáticos é um erro frequente e conveniente, mas profundamente enganador. Explicações ambíguas ou deslocadas apenas servem para fugir à questão central.

Não nos admiraríamos que, caso Portugal se recusasse ceder o apoio da base das Lajes aos EUA, o presidente Trump propusesse a compra da Base ou, até invadisse os Açores para se apropriar dum local estratégico.

Como bem resume o senso comum: uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.

segunda-feira, 20 de abril de 2026

O aconchego do poder

 

O aconchego do poder

 Lembram-se da parte dos Evangelhos segundo São Mateus em que o diabo tenta Jesus? Pois bem, esta é a Boa-Nova segundo Trump.




…Então o diabo conduziu Trump a um avião que viajou muito alto e, mostrando-lhe todas as nações do Mundo com as suas riquezas, disse-lhe: «Tudo isto te darei se, prostrado, me adorares.» Respondeu-lhe Trump: «Estou ao teu dispor se tal me concederes.»  Então o diabo abraçou-o e disse-lhe: «Estarei sempre contigo.» Então, Trump, prestou-lhe culto.

segunda-feira, 13 de abril de 2026

O Mundo é a nave dum louco - Uma ficção de Manuel-MAR


Uma personagem, figura excêntrica, surgiu com os seus apaniguados no centro de um salão dourado, repleto de espelhos que distorciam a realidade. As cidades do Mundo ainda dormiam e os relógios pareciam suspensos no tempo. Essa personagem caminhava agitadamente de um lado para o outro, à frente dos que o adulavam, sentados em sofás dourados, murmurando planos grandiosos, como se estivesse a dirigir uma orquestra invisível. Chamava-se Donald e já era conhecido o Arquiteto do Delírio a viver num mundo onírico.

Convencido de que a razão era uma prisão e a lógica um obstáculo à verdadeira grandeza, Donald tinha um objetivo singular: transformar o planeta inteiro numa gigantesca “nave de loucos”, onde cada pessoa viveria não segundo regras, mas segundo os seus impulsos, caprichos e fantasias. Falando para os seus fanáticos apaniguados dizia:

— Ordem é aborrecida! — exclamava ele, gesticulando pegando num globo do Mundo que girava lentamente, tal e qual como o personagem do filme da Chaplin “O Grande Ditador”.


— O caos, isso sim, é liberdade!

Para concretizar o seu plano, começou a enviar mensagens estranhas por todos os meios possíveis nomeadamente por uma rede social privada que mandou construir.

Discursos contraditórios, anúncios improváveis, ideias que mudavam a cada hora — tudo fazia parte de uma estratégia maior: confundir, desorientar, dissolver a linha entre o real e o absurdo. Para espanto de alguns, talvez muitos, mas pouco a pouco, algo começou a acontecer.

Em algumas cidades, as pessoas passaram a agir de forma imprevisível. Regras eram esquecidas, decisões tornavam-se impulsivas, e o mundo começava a assemelhar-se a um enorme palco onde ninguém sabia exatamente qual era o seu papel. Uns riam sem motivo, outros discutiam sobre coisas inexistentes, e até havia quem acreditasse que tudo aquilo era, de facto, um avanço.

No centro de tudo, Donald observava tudo isso com satisfação.

— Estão a perceber! — dizia, sorrindo para o seu reflexo multiplicado nos espelhos e para os seus apaniguados.

— Estão finalmente a libertar-se! Mas havia algo que ele não previra.

No meio do caos crescente, começaram a surgir pequenos grupos de pessoas que, em vez de se deixarem levar pela confusão, faziam o oposto: paravam, observavam, questionavam. Em silêncio, reconstruíam sentido onde ele parecia ter desaparecido. Essas pessoas não gritavam mais alto, nem tentavam impor ordem à força. Apenas recusavam entrar completamente no jogo da loucura.

E foi aí que a “nave de loucos” começou a revelar uma fissura.

Donald, perplexo, olhou novamente para o mapa. O caos não era total. Havia bolsas de clareza, pequenas ilhas de lucidez que resistiam à tempestade de absurdos.

— Não… isto não faz parte do plano… — murmurou, pela primeira vez hesitante.

Os espelhos à sua volta começaram a refletir algo diferente: não mais um líder absoluto do delírio, mas uma figura isolada, presa na sua própria construção.

E, enquanto o mundo oscilava entre desordem e consciência, tornava-se evidente uma verdade silenciosa: a loucura só domina completamente quando ninguém se lembra de questioná-la.





terça-feira, 7 de abril de 2026

Desvairos e mentiras de um presidente

 


Um título que poderia ser dado a este artigo seria: «É possível que um mais alto representante duma nação possa ser mentiroso e inconsistente? Sim é, possível».

Quem está atento aos noticiários das televisões e a par do que se escreve na imprensa verificará que as intervenções do Presidente dos EUA Donald Trump são a maior parte das vezes contraditórias, dependentes do acaso, de circunstâncias e muitas vezes imprevisíveis e contingenciais. Isto é, o que é dito hoje pode já não o será amanhã.

Apoiando Israel em Gaza e agora atacando o Irão sem objetivos definidos surgiram de Trump novas mentiras, confusões e indecisões que passaram a segundo plano, mas que é oportuno recordar. Dividi o artigo sobre mentiras e imprecisões de Trump em duas partes, uma mais generalista e outra dedicada às guerras de Gaza e do Irão. Sobre estas últimas, as mais recentes, ficarão para o próximo texto.

Dispus-me a pesquisar a partir de fontes credenciadas algumas das várias contradições, desinformações e até mentiras, atitudes de Trump que muitos comentadores justificam as pela sua capacidade negocial e transacional. Mas as nações, nem a política internacional, arcadas atualmente pela multipolaridade e tensões geopolíticas, não se gerem com transações aleatórias e conforme desígnios pessoais.

As contradições e afirmações falsas atribuídas a Donlad Trump são baseadas em verificações independentes e têm como base a imprensa a televisão e órgãos de verificação de factos. Não são opiniões próprias, são apenas relatos que fontes jornalísticas e organizações de verificação de facto documentaram. Recorri a diversas fontes como CNN, Associated Press, SIC entre outras.

As afirmações e declarações falsas, exageradas ou deturpadas por Donald Trump são várias: números exagerados, sobretudo sobre economia, imigração e conflitos internacionais; afirmações incompatíveis com dados oficiais como reinterpretações seletivas de estatísticas para reforçar narrativas políticas e contradições entre declarações feitas em momentos diferentes. Economia: discrepâncias entre discurso e dados oficiais

Comecemos pela economia. “O país que herdei tinha uma economia estagnada” disse Trump, mas, a economia dos EUA crescia a um ritmo sólido antes do início do seu mandato em que o PIB cresceu cerca de 2,8% em 2024 e 2,9% em 2023, valores superiores ao início do novo mandato presidencial. A narrativa de “estagnação” não é suportada pelos dados. “Não tive inflação, praticamente não tive inflação”. A inflação acumulada durante o mandato anterior de Trump foi de cerca de 7,8%, o que contraria a afirmação de inflação quase nula.

Quanto à imigração as afirmações absolutas de Trump não batem com a realidade operacional. A sua afirmação foi que “Nos últimos nove meses, zero imigrantes ilegais entraram nos Estados Unidos”. A frase é tecnicamente verdadeira apenas se interpretada de forma muito restrita porque refere-se a imigrantes detidos e libertados dentro do país, mas milhares de travessias ilegais foram registadas no mesmo período, mesmo que em números mais baixos do que noutras administrações.

Na política externa inflação de números inflacionados sobre conflitos ao afirmar que “Nos meus primeiros 10 meses terminei com oito guerras”. A Associated Press classificou esta afirmação como altamente inflacionada, porque não há registo de oito conflitos encerrados nesse período.

Nos debates presidenciais é elevado o número de afirmações falsas onde foram identificadas muitas afirmações falsas num único debate dos quais faziam parte aborto, imigração, economia e políticas tarifárias. Alguns exemplos que Trump afirmou: as suas políticas tarifárias não aumentariam custos para famílias de classe média, mas estudos citados pela CNN indicam aumentos anuais estimados entre 1.200 e 3.600 euros para famílias médias, dependendo do cenário tarifário.

Nos discursos internacionais como foi no Fórum Económico de Davos, realizados entre 16 e 19 de janeiro de 2026 verificaram-se várias declarações com imprecisões e os exageros no discurso de Donald Trump em Davos que podem ser consultados na verificação de factos publicada pela BBC de que a seguir faço uma síntese, mas que pode ver aqui.

Num discurso a líderes mundiais no Fórum Económico Mundial em Davos, Suíça, o presidente Trump fez uma série de alegações que foram contestadas. Trump mencionou o seu desejo de obter a Groenlândia da Dinamarca a que ele chamou “small ask”, sobre a contribuição dos Estados Unidos para a NATO e a energia eólica na China. O seu discurso que durou mais de uma hora continha várias afirmações falsas que deram lugar a perguntas que foram posteriormente respondidas.

A primeira falsidade foi que os EUA “devolveram a Groenlândia” após a Segunda Guerra Mundial o que é falso. Durantes várias semanas Trump falou sobre o seu desejo de adquirir a Groenlândia, território que em grande parte é autónomo e pertença da Dinamarca chegando a afirmar que é fundamental para a segurança nacional dos EUA. Acrescentou em Davos que após a Segunda Guerra Mundial “devolvemos a Groenlândia à Dinamarca”, acrescentando: “Quão estúpidos fomos por fazer isso?” O que nos diz a história é que em 1933, um tribunal internacional, predecessor do Tribunal Internacional de Justiça (CIJ), decidiu que a Groenlândia pertencia à Dinamarca.  Em 1941 depois da rendição da Dinamarca à Alemanha no ano anterior, os representantes dos EUA e da Dinamarca assinaram um acordo que permitia aos EUA defenderem a Groenlândia para impedir que os nazis a ocupasse, o que levou à construção de bases americanas na ilha, bem como ao envio de tropas americanas. No entanto, o acordo não envolvia uma transferência de soberania, o que significava que a Groenlândia nunca se tornou território dos EUA.

O presidente dos EUA criticou a NATO quando afirmou que “os Estados Unidos estavam a pagar praticamente 100% da NATO”. Sobre o nível das contribuições dos países que são membros da aliança militar disse que “Eles não pagaram os 2% e agora estão a pagar 5%”. Nenhuma dessas afirmações está correta. Assim, nos últimos anos, os gastos dos EUA em defesa representaram cerca de 70% do total gasto pelos países da NATO. Em 2024, esse número caiu para 65% e, a estimativa em 2025 terá sido 62%, já que todos os membros da NATO deveriam ter gasto pelo menos 2% do PIB em defesa pela primeira vez.

Sobre o nível das contribuições dos países que são membros da aliança militar afirmou que “Eles não pagaram os 2% e agora estão pagando os 5%”. O facto é que o presidente dos EUA conseguiu que esses países se comprometessem a gastar mais em defesa, mas os 5% de que Trump estava a falar são um objetivo de longo prazo, a ser alcançado até 2035. Nenhuma daquelas afirmações está correta.

Atualmente, nenhum membro da NATO gasta tanto, já que até para a Polónia, o país que gasta a maior parte do seu PIB em defesa, estima-se que tenha gasto pouco abaixo de 4,5% em 2025.

Outra afirmação polémica e deturpada foi a de que os EUA não receberam nada de retorno da NATO quando Trump afirmou que os EUA “nunca receberam nada” da NATO e que “nunca pedimos nada”. São afirmações falsas. O site da NATO afirma que “a defesa coletiva é o princípio mais fundamental da NATO” e o Artigo 5 do tratado fundador afirma que “um ataque armado contra um membro da NATO será considerado um ataque contra todos eles”. Os EUA são o único membro da aliança que invocaram o Artigo 5 o que fizeram após os ataques de 11 de setembro de 2001 às Torres Gémeas em Nova Yorque. Por outro, as nações que fazem parte da  NATO contribuíram com tropas e equipamentos militares para a guerra liderada pelos EUA no Afeganistão que se seguiu.

Entre os países que contribuíram estava a Dinamarca, que sofreu uma das maiores taxas de baixas ‘per capita’ entre os aliados dos EUA. Eles foram amplamente destacados para áreas fortemente contestadas ao lado das forças britânicas na província de Helmand.

Trump criticou a energia eólica que, segundo ele, fazia parte de um “novo golpe verde” e atacou políticas de energia renovável, chamando-as do “maior engano da história” e defendeu o uso de petróleo e de gás. Destacou ainda a China, alegando que, embora ela tenha fabricado muitos geradores para energia eólicas, ele não “conseguiu encontrar nenhum parque eólico na China.”

Estas são mentiras descaradas porque a China possui um dos maiores parques eólicos do mundo, em Gansu, província da República Popular da China que pode ser visto do espaço.


 Parque eólico em Gansu, China.

Imagem The Guardian

A China gera mais energia eólica do que qualquer outro país, segundo o Our World in Data. As suas estatísticas mostram que, em 2024, a China gerou 997 terawatt-hora a partir do vento, mais do que o dobro do que os EUA que ficaram em segundo lugar.

O presidente Trump também destacou o Reino Unido, criticando suas políticas energéticas e referiu-se ao petróleo do Mar do Norte, dizendo incorretamente: “Eles, o Reino Unido, tornam impossível para as companhias petrolíferas, ficam com 92% da receita.”

Sgundo a verificação de factos da BBC as empresas de petróleo e gás que operam no Mar do Norte pagam um imposto sobre as sociedades de 30% sobre seus lucros e uma quota suplementar de 10% além disso. Isso é maior do que os 25% de imposto sobre sociedades pagos por outras grandes empresas. Em novembro de 2024, o governo aumentou o imposto sobre lucros extraordinários sobre empresas de petróleo e gás de 35% para 38%. Isso eleva o imposto total sobre o petróleo do Mar do Norte para 78%, que é pago com lucros, não com receita.

Ainda em 2025 as diatribes de Trump foram também evidentes quando afirmou que “encerrou 8 guerras em apenas 8 meses" em uma postagem nas redes sociais com o título "o presidente da paz” e a sua mais recente adição à lista de guerras “encerradas” é o conflito de dois anos entre Israel e Hamas. Os outros sete ficaram entre Israel e Irão, Paquistão e Índia, Ruanda e República Democrática do Congo, Tailândia e Camboja, Arménia e Azerbaijão, Egipto e Etiópia, e Sérvia e Kosovo. O certo é que vários desses conflitos duraram apenas alguns dias, embora tenham sido resultado de tensões antigas, e um deles não teve combate para terminar.


domingo, 29 de março de 2026

Guerra da informação e da contrainformação

 


A guerra promovida por Israel contra os palestinianos e outros povos não é de agora, mas sem ser tão violenta como a que se desenrola com o beneplácito dos EUA de Trump.

A disputa territorial remonta à criação do Estado de Israel em 1948 que, após a partilha da Palestina pela ONU em 1947, Israel declarou independência em 1948, o que levou à Primeira Guerra Árabe-Israelense. Muitos países árabes vizinhos não aceitaram a presença de Israel, resultando num estado de conflito contínuo.

Os argumentos que Israel tenta passar para a opinião pública internacional são as “ameaças existenciais” a que está sujeito frequentemente e justifica as suas ofensivas militares como medidas de defesa contra grupos militantes como Hamas e o Hezbollah e outras nações que não lhe reconhecem direito à sua existência e, portanto, procuram a sua extinção tornou-se o eixo central da sua comunicação externa. O tipo de coligação EUA-Israel vê como uma ameaça direta o programa nuclear e a influência regional do Irão que há muito financia grupos inimigos de Israel, alguns deles terroristas, o que resulta em ataques a alvos iranianos e a aliados do Irão. Mas, do meu ponto de vista o seu verdadeiro objetivo, o fundamental, é a ganância de espaço vital para a sua expansão e também, se possível, extinguir  povos que lhe possam fazer frente e o ameaçam (pode ler aqui o trauma social da perseguição).

O facto é que estamos em presença de uma guerra, por enquanto regional, que o presidente dos EUA Donald Trump ajudou a iniciar contribuindo previsivelmente para o seu alargamento num curto espaço de tempo. Se estivermos atentos às notícias que nos chegam pelas televisões e pela imprensa as declarações das partes em litígio, e também no interior de cada uma das partes, observamos que são, a maior parte das vezes, contraditórias. É uma espécie de círculo vicioso de informação e contrainformação numa Sequência de eventos negativos que se autorreforça e repete, gerando um impasse, por vezes, de difícil compreensão.

A guerra trava-se também no plano da informação. Num mundo em rede, a velocidade com que os dados circulam transformou-se simultaneamente numa arma e num escudo. A desinformação, a propaganda, as operações psicológicas e a manipulação estratégica deixaram de ser exceções e passaram a integrar, de forma estrutural, a política externa e a gestão, e ou, a má gestão das crises internacionais como temos verificado nas contradições sobretudo do Presidente dos EUA.

O processo “informação-desinformação” e “contrainformação” em tempo de guerra circulam no espaço onde se cruzam no ar plenas de contradições e de negações. Nega-se hoje o que se disse ontem.  A contra informação e a desinformação, assim como a propaganda, as operações psicológicas e a manipulação estratégica tornaram-se parte integrante da política externa e da gestão ou má gestão das crises internacionais. Os conceitos de contra informação e a desinformação são algo distintos. A contrainformação, muitas vezes ligada ao conceito de contra-narrativa ou operações psicológicas defensivas, refere-se às medidas tomadas para combater, negar ou neutralizar a desinformação do inimigo. A desinformação segundo a ONU é a disseminação deliberada de informações falsas, manipuladas ou fora de contexto com o objetivo de enganar, causar danos, manipular a opinião pública ou desmoralizar o inimigo.

Há uma competição informacional entre EUA-Israel e o Irão que se desenrola também ao nível interno de cada país assim, cada governo empenha-se em controlar a narrativa interna, garantir a coesão social e justificar decisões militares perante a população e a gestão das perceções de ameaça.

No caso da teocracia autoritária do Irão o poder político está intrinsecamente ligado à autoridade religiosa xiita. O controle estatal dos meios de comunicação permite uma narrativa homogénea e alinhada com os interesses do regime. Em contraste, tanto em Israel como nos Estados Unidos, a pluralidade mediática, (que nem sempre é plena, pode eventualmente sofrer restrições), podendo fomentar disputas internas e divergências de opinião que podem ser exploradas por adversários externos e até internos para enfraquecer a unidade nacional ou criar instabilidade política.

Na questão do Médio Oriente, que é ao nível regional a informação é usada como instrumento estratégico para influenciar aliados e rivais, por isso os três intervenientes procuram moldar perceções sobre a legitimidade dos ataques e operações militares através de narrativas da “resistência” ou da “segurança” numa competição por uma liderança simbólica. Esta guerra de informação, desinformação e contrainformação serve para consolidar ou desafiar alianças, ampliar influência política e militar, e promover ao nível das populações interpretações que favoreçam os respetivos interesses estratégicos.

Cada um dos intervenientes tenta enquadrar o conflito em distinções conforme o seu interesse para justificarem as suas ações bélicas usando vocábulos como “defesa”, “resistência”, “terrorismo”, “agressão” ou “direito internacional” a fim de legitimarem as suas ações e deslegitimar as do adversário. O impacto desta disputa ultrapassa fronteiras, influenciando decisões diplomáticas, sanções, apoios internacionais e a própria percepção do conflito por parte de audiências globais, tornando a gestão da informação um elemento central da estratégia de cada interveniente.

Na guerra entre Israel-EUA e o Irão ainda, e por enquanto, predominantemente regional, foi claramente agravado pela ação política dos Estados Unidos, contribuindo para uma rápida escalada das tensões. A informação que chega ao público através dos meios de comunicação é frequentemente contraditória, não apenas entre as partes em litígio, mas também no interior de cada uma delas. Declarações são desmentidas, versões são revistas e o discurso oficial adapta se ao ritmo dos acontecimentos, criando um círculo vicioso de informação e contrainformação que dificulta qualquer leitura consistente da realidade. Mais do que uma guerra aberta, trata-se dum confronto permanente onde a ambiguidade estratégica é deliberadamente cultivada.

Fazendo uma breve síntese podemos afirmar que a guerra entre Israel-EUA e o Irão não se trava apenas com drones, mísseis, bombardeamentos ou sanções. Trava-se também com palavras, imagens, símbolos e interpretações. A informação tornou-se um recurso estratégico tão importante quanto o poder militar.

Num mundo saturado de informação, a capacidade de a distinguir da contrainformação é um exercício que também nos compete a nós que diariamente vemos e ouvimos as notícias nos canais dirigidas ao grande público, mas também nas redes sociais que nos mentem a cada instante com informações deturbadas e enganadoras. A disputa pela narrativa continuará a moldar não apenas a percepção do conflito, mas também as condições para a sua escalada em vez da resolução.


segunda-feira, 23 de março de 2026

O trauma social de Israel, a santa aliança Trump-Netanyahu, o conflito israelo-palestiniano e o Irão

 


O ataque por Israel-EUA ao Irão quase que fez esquecer o conflito na faixa de Gaza que a comunicação social, nomeadamente as televisões, deixaram-nos sem saber o ponto da situação.  Mas, com base em informações de março de 2026, o conflito entre Israel e os palestinianos na Gaza encontra-se numa fase complexa de transição, marcada por um cessar-fogo frágil, negociações para uma segunda fase de estabilização e uma crise humanitária contínua. Conforme notícia do Observador em 19 de março, “A televisão Al-Qahera News noticiou que a passagem entre a Faixa de Gaza e o Egito foi retomada “em ambos os sentidos” e transmitiu imagens aéreas de palestinianos a regressar a Gaza, alguns após tratamento médico no Egito, mas também de ambulâncias à espera para irem buscar feridos ou doentes palestinianos ao enclave.

Por ser um tema muito sensível, sujeito a várias controvérsias e complexo, tenho evitado escrever sobre o conflito Israelo-Palestiniano. Como este conflito pode ser analisado por ângulos multifacetados o contributo da minha opinião sobre as causas remotas do conflito decorre duma análise documental que, apesar de tudo, insere-se dum ponto de vista pessoal e subjetivo.

O tema ocorreu-me da questão sobre as causas sociais, políticas e implicitamente territoriais do conflito e das pressupostas ameaças existenciais por parte de Israel. Tomei como base uma publicação de 2024 da Universidade de Boston por Jessica Stern, especialista em terrorismo, e por Trauma Bessel van der Kolk, investigador em psiquiatria[i]. Não se trata duma reprodução do texto, mas duma síntese construída segundo o meu ponto de vista que, como é óbvio, é discutível.

Muito já se escreveu ao logo do século XX e seguinte sobre o Holocausto e sobre as narrativas da punição a seis milhões de judeus por nazis descerebrados cujo trauma perdurou e ainda perdura na nação israelita.

O trauma não é só individual, é também coletivo, transmitido entre gerações, e tem moldado identidades, narrativas e perceções de ameaça. O Holocausto terá causado no povo de Israel um trauma coletivo com impacto psicológico na nação agravado ao longo de décadas pelas várias administrações israelitas e também por movimentos criados por sentimentos de compaixão para com o sofrimento do povo judeu na época do nazismo.

Segundo especialistas o trauma social judaico, profundamente moldado por atrocidades históricas como o Holocausto e séculos de perseguições, tem ainda um impacto significativo e complexo na identidade coletiva e nos comportamentos políticos. Traumas intergeracionais não resolvidos podem fomentar uma “mentalidade de cerco” ou “trauma escolhido” que às vezes alimenta o desejo de “vingança política” ou medidas agressivas de autodefesa. Essa narrativa é frequentemente invocada para justificar a existência e as ações do Estado de Israel, vendo-o como a salvaguarda suprema contra ameaças existenciais.

Assim, o impacto psicológico e emocional profundo que afetou a comunidade e a nação israelita originada pelo evento catastrófico da segunda guerra e a sua violência estrutural romperam laços sociais, geraram medo contínuo transmitidos às gerações que moldaram identidades e culturas. Memórias de violência tornaram-se parte da cultura política e social não apenas no povo de Israel, mas também noutro ponto de vista no povo palestiniano.

Em torno de experiências traumáticas como o Holocausto e a expulsão violenta e desapropriação de centenas de milhares de palestinianos durante a criação do Estado de Israel em 1948 gerou-se um processo que incluiu a destruição de comunidades, perda de identidades nacionais, de terras e a negação do direito de regresso dos refugiados, marcando profundamente a identidade e a história palestiniana. Estas memórias coletivas moldam políticas, educação e atitudes face ao outro grupo.

Não vou aqui desenvolver os acontecimentos que se seguiram aos dados históricos sob administração do Reino Unido pela Liga das Nações em 1922. Todos esses territórios tornaram-se eventualmente Estados totalmente independentes, exceto a Palestina, cujo o Mandato Britânico expressou apoio ao “estabelecimento na Palestina de um ‘lar nacional’ para o povo judeu”. Assim, durante aquele Mandato, de 1922 a 1947, houve uma imigração judaica em grande escala, principalmente da Europa Oriental, com números aumentando na década de 1930 com a perseguição nazi. Este processo que pode ver aqui com mais pormenor conduziu ao conflito que produziu um trauma crónico tanto nos israelitas como nos palestinianos.

Em síntese: antes da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), o território hoje ocupado por Israel, a Cisjordânia e a Faixa de Gaza, era conhecido como Palestina, sob administração britânica (Mandato Britânico da Palestina) desde o fim da Primeira Guerra Mundial (1917) até 1948. A população era maioritariamente composta por árabes palestinos muçulmanos e cristãos, em passou também por uma rápida transformação demográfica devido à imigração judaica. O que restou foram conflitos permanentes entre ambos, mas especialmente por Israel que pretendeu sempre ocupar pela força territórios que não lhe estavam destinados.

O ataque terrorista do Hamas a Israel em outubro de 2023 deu início a um conflito devastador na Faixa de Gaza que alguns observadores internacionais consideram como genocídio, não sendo reconhecido por outros. A adoção da Convenção das Nações Unidas sobre Genocídio em dezembro de 1948, que entrou em vigor em janeiro de 1951m e cujo artigo 2.º da convenção define genocídio como “qualquer um dos seguintes atos cometidos com a intenção de destruir, no todo ou em parte, um grupo nacional, étnico, racial ou religioso. Só os tribunais, como a Corte Internacional de Justiça e o Tribunal Penal Internacional ou tribunais nacionais, têm autoridade legal para confirmar essa acusação de forma definitiva.

Independentemente das dúvidas sobre a existência ou não dum genocídio dos palestinianos Israel tem contado, neste último conflito na faixa de Gaza, com o beneplácito dos EUA que já vem de anteriores administrações e tem exercido uma força desajustada. O alvo deveria ser apenas o Hamas, mas ataca indiscriminadamente escolas, hospitais e a população civil indefesa com o pretexto, não comprovado, de alojarem elementos hostis do Hamas. A ONU News em agosto 2024 escrevia que Israel tinha aumentado ataques a escolas que abrigam deslocados da guerra em Gaza.

O tipo de intervenção de Israel com o apoio de Trump conduziu à completa destruição de Gaza, talvez há tempo premeditada, mas cujo ataque do Hamas acelerou e ajudou aos objetivos dos dois aliados estratégicos na região, a ocupação selvagem e devastação da faixa de Gaza por Israel.

A CNN dos EUA escrevia em janeiro de 2025 que a guerra entre Israel e Hamas reduziu grande parte de Gaza a escombros. Ataques aéreos israelitas danificaram ou destruíram cerca de 60% dos prédios, incluindo escolas e hospitais, e cerca de 92% das residências, segundo a ONU aproximadamente dos moradores de Gaza foram deslocados, e muitos foram forçados a mudar-se repetidamente, alguns mais de 10 vezes. Em comentários feitos em 2024 pelo genro de Trump, Jared Kushner classificou a propriedade à beira-mar em Gaza de “muito valiosa” e sugeriu que Israel deveria retirar os palestinos de Gaza e “limpá-la”.

Recordemos que durante uma conferência de imprensa com o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, Trump apresentou um plano amplo para que os EUA colonizassem Gaza e construíssem lá resorts. “Não quero ser fofo. Não quero ser espertinho, mas a Riviera do Médio Oriente poderia ser magnífico.”, disse Trump.

No que respeita ao genocídio dos palestinianos perpetrado por Israel podemos considerar que o conceito não possa ser o mais correto, mas, há um ditado popular que diz que “Há muitas formas de matar uma pulga”.

Pode ainda acrescentar-se que o hitlerismo no século XXI está a renasce, agora disfarçado de personagens como Trump cujos comportamentos aleatórios e contraditórios o levam a tomar posições de tentativas de ataque a países soberanos, invasões fora do direito internacional, promoção de ameaças e ofensas a países e povos que não aceitam as suas condições e rejeitam as suas opções invasivas e bélicas.

Podemos não gostar, ou não concordar com um regime tal como o cubano ou venezuelano, mas note-se a insolência e o desplanto no caso de Cuba que, segundo o New York Times, o presidente Trump levantou a possibilidade de os Estados Unidos “tomarem” Cuba, ao dizer na segunda-feira, 16 de março, a repórteres na Casa Branca: “Acredito que terei a honra de tomar Cuba.”. “Levando Cuba. Quero dizer, se eu libertar, agarro. Acho que posso fazer o que quiser com ele”, disse. “Eles estão muito enfraquecidos agora.”.

Os EUA ao longo do século XX intervieram em países para derrubar regimes que eram desfavoráveis aos seus interesses financeiros e económico, daí incentivarem golpes de Estado para substituírem alguns governos por outros a que chamavam democráticos, por vezes até ditaduras desde que que lhes fossem favoráveis. Trump parece ter recuperado a propensão para pensar resolver crises permanentes nas economias centralizadas dos regimes comunistas que estes nunca seriam capazes de resolver, apenas tapar aqui e ali.

O caso do Irão parece estar a ser diferente e pode vir a ser uma “camisa de onze varas” para Netanyahu e para o seu aliado Trump porque, como escreve Faranaz Keshavje, “Ao imaginar o futuro do Irão como uma transição linear entre regime e democracia, ignora-se a complexidade das forças em jogo. E substitui-se análise por desejo”.



[i] “O Conflito Israelo Palestino e a Psicologia do Trauma”


domingo, 15 de março de 2026

De que lado estamos: EUA-Israel ou Irão?

 


No dia onze de março o diário The Washington Post colocou uma notícia com o seguinte em título: “O Pentágono impede que fotógrafos de imprensa tirem fotografias pouco lisonjeiras” de Hegseth. A equipa do Secretário da Defesa Pete Hegseth criticou as fotos tiradas numa sessão informativa e decidiu excluir fotógrafos de duas conferências de imprensa subsequentes. Como devemos compreender esta atitude? A imagem e a postura de agressividade de Hegseth que tem sido muitas vezes conotado como nazi devido às suas tatuagens que alguns dizem nada ter a ver com essa ideologia.

Ao lermos opiniões sobre determinados temas confrontamo-nos com pontos de vista por vezes muito bem escritos numa linguagem rebuscada, complexa e quase encriptada, eventualmente propositada, não ajuda à compreensão do conteúdo da mensagem pela maior parte das pessoas pelo que abandonam a leitura logo de início. O uso duma linguagem, menos técnica e mais natural para chegar ao maior número de pessoas é talvez preferível, mesmo quando se trate de questões complexas. Sempre que não seja possível evitar uma linguagem mais técnica a sua explicação exige-se no decurso da narrativa.

No contexto da guerra EUA-Israel com o Irão as declarações transmitidas por cada uma das partes deparamo-nos com declarações de porta-vozes que são contraditórias e polarizadas conforme os interesses das partes em litígio devido aos procedimentos de informação e de contra informação.

A escalada militar entre Estados Unidos, Israel e o Irão desencadeou uma intensa disputa no circuito da informação. Nas redes sociais, circulam imagens manipuladas, vídeos fora de contexto, conteúdos retirados de jogos eletrónicos e peças sintéticas geradas por inteligência artificial, muitas vezes amplificadas por contas verificadas ou redes automatizadas.

Especialistas alertam que, em contextos de guerra, a desinformação pode agravar tensões, afetar operações humanitárias e influenciar o comportamento de civis, tornando o ecossistema digital um campo estratégico adicional do conflito.

Donald Trump tem utilizado declarações públicas para justificar ataques e instar a população iraniana a derrubar o regime, enquanto o Irão responde orgulhando-se da sua preparação defensiva.

 

Vem tudo isto a propósito da guerra levada a cabo por EUA-Israel contra o Irão sobre a qual encontramos opiniões rebuscadas que em nada acrescentam e até falseiam a realidade.

Se pretendermos avaliar juízos formulados sobre esta guerra facilmente perceberemos a existência de dois pontos de vista antagónicos: de um lado os que defendem a ação dos EUA-Israel e do outro os que defendem o ponto de vista do Irão.

Os argumentos que defendem o ponto de vista do Irão contra as ações militares dos EUA e de Israel resumem-se a uma sistematização das justificações usadas por aquele país e por analistas que lhe são próximos. Assim, e do ponto de vista iraniano a presença militar dos EUA no Médio Oriente é vista como fonte de instabilidade e não de segurança e que os ataques reforçam a perceção de que Washington procura mudança de regime, o que incentiva grupos aliados do Irão a mobilizarem‑se argumentando ainda que a escalada é consequência direta da política norte‑americana e de Israel e não das suas ações.

Analistas alinhados com o Irão argumentam que Israel possui armas nucleares não declaradas, o que nunca foi sancionado, e que os EUA apoiam militarmente Israel, mesmo quando este conduz operações que violam resoluções da ONU. Por isso o Irão vê isto como prova de que o Ocidente aplica padrões diferentes consoante o aliado.

Ainda do ponto de vista iraniano o país é signatário do Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP) e acrescenta que o seu programa nuclear é civil, monitorizado pela AIEA, e que os EUA e Israel usam a narrativa da “bomba nuclear” como pretexto político. Assim, em relação aos ataques pelos EUA em junho de 2025 às instalações de Fordow, Natanz e Esfahan são vistos como agressões injustificadas.

Após os bombardeamentos dos EUA e de Israel, em 28 de fevereiro, o Irão lançou mísseis contra bases norte‑americanas no Golfo e contra alvos militares israelitas. Para Teerão e segundo a CNN, isto constitui retaliação proporcional, e não escalada porque atacam bases que abrigam forças que os atacaram e que a resposta é apresentada como defensiva, não ofensiva.

Desta forma e do ponto de vista do Irão os argumentos que defendem assentam em quatro pilares: soberania violada por ataques não provocados; ilegalidade internacional das ações dos EUA e de Israel; retaliação proporcional e direito à autodefesa; duplo critério ocidental e sabotagem da diplomacia. Alguns destes argumentos não representam a minha posição servem apenas para justificar a polarização de opiniões sobre o tema.

Se, por um lado, nos posicionarmos num ponto de vista que se oponha à intervenção bélica dos países aliados EUA-Israel na guerra contra o Irão logo somos marcados como estarmos a favor de um regime não democrático de opressão do povo, autoritário, tirânico, repressivo e de supremacia religiosa, que o é de facto. Se, por outro lado, nos colocamos do lado dos agressores já não se consideram perspetivas éticas e jurídicas e somos, de imediato, e  erradamente, politicamente considerados como imperialistas, anti iranianos, antidemocracias liberais e de estarmos do lado de ameaças nucleares, etc..

Devido a argumentos que apoiam a intervenção bélica de Trump e Netanyahu no Irão governos europeus e do Médio Oriente viram-se indiretamente confrontados com uma guerra repentina que não era a sua que a maioria não desejava. Face a isto as autoridades desses países mobilizaram-se para resgatar cidadãos presos numa zona de combate cada vez maior e a subida vertiginosa dos preços da energia está em riscos de afetar economias frágeis e com agitação a tomar conta das políticas internas dos países provocando algumas divisões.

Para a diplomacia europeia o regime iraniano representa uma ameaça séria devido ao programa nuclear, mísseis balísticos e apoio a grupos armados, mas insiste e apela a todas as partes envolvidas para exercerem a máxima contenção, protegerem civis e respeitarem o direito internacional e humanitário que é prioritário.

Na União Europeia os Estados‑membros alinham-se no compromisso de tomar medidas de defesa caso um país europeu seja atacado, mas consideram até ao momento que não entrarão diretamente na guerra ao lado dos EUA ou de Israel. No entanto, Analistas ouvidos pela DW-Deutsche Welle, empresa pública de radiodifusão da Alemanha, “dizem que bloco carece de coesão”. Segundo a Euronews Ursula von der Leyen e António Costa apelam a “Garantir a segurança nuclear e evitar quaisquer ações que possam agravar ainda mais as tensões ou comprometer o regime global de não-proliferação nenhuma parte tome medidas que agravem o conflito ou enfraqueçam o regime global de não proliferação.”

Países como Alemanha, França e Reino Unido permitem uso limitado de bases militares pelos EUA, mas rejeitam envolvimento direto, apesar de Trump exigir apoio europeu mais firme, mas vários líderes europeus questionam a legitimidade da guerra.

Numa conferência de imprensa realizada na passada segunda-feira, para justificar o ataque Trump disse que o Irão tinha um novo local para desenvolver armas nucleares protegido por granito, para substituir as instalações bombardeadas no ano passado pelos EUA.

Para além das questões sobre as razões e responsabilidades do desencadear da guerra há outras duas: a de saber qual a responsabilidade por uma guerra que envolve os Estados Unidos e Israel contra o Irão e a de saber se tal intervenção seria justificada no contexto social e político atual. A resposta à responsabilidade e à justificação dependem da perspetiva política, do direito internacional e da interpretação dos acontecimentos. Quem ler artigos sobre os principais pontos de vista utilizados por governos, analistas e observadores internacionais ocidentais ficará confuso, tais são as várias interpretações e justificações em favor ou contra o conflito

Os críticos dos EUA argumentam que a responsabilidade imediata recai sobre os Estados Unidos e Israel porque iniciaram ataques militares em grande escala ao território iraniano a 28 de fevereiro de 2026. Trump afirmou que o principal objetivo dos ataques era “defender o povo americano, eliminando ameaças iminentes do regime iraniano”. Segundo ele, essas ameaças incluíam o programa nuclear do Irão, que a Casa Branca afirmou ter destruído “totalmente” com ataques em junho de 2025. Agora apresenta, sem provas, o argumento de que o Irão construiu outras instalações para substituir as três instalações nucleares que foram destruídas por ataques dos Estados Unidos ao Irão em junho. Fantástica a rapidez da construção em meio ano!!

Segundo notícias publicadas em órgãos de comunicação social os ataques de 28 de fevereiro visaram instalações nucleares iranianas, bases militares e figuras do regime iraniano. Contudo o Irão descreve os ataques como agressão estrangeira e uma violação da soberania. Assim parece ter sido, visto que de acordo com o direito internacional e ao abrigo da Carta das Nações Unidas, a força militar é geralmente legal em dois casos, autodefesa após um ataque e a autorização pelo Conselho de Segurança da ONU (Art. 51).

Esta é, de facto, uma guerra escolhida pelos Estados Unidos e por Israel, em contravenção à mesma carta da ONU que os próprios europeus invocavam para condenar a invasão ilegal da Ucrânia pela Rússia e também para insistir na soberania da Groenlândia.

Dado o que se sabe da personalidade deturpada de Trump se não se convencer Trump a fazer diplomacia para poder garantir uma vitória ele irá envolver-se num atoleiro de conflito regional penoso. Irá pressionar outros países a participar na sua guerra. Apesar do apelo de Trump ao povo iraniano para usar este momento para se levantar e derrubar o regime para alguns comentadores os iranianos comuns provavelmente darão prioridade à segurança e à proteção em vez de invadir as ruas. Mesmo que os EUA consigam derrubar a liderança iraniana, provavelmente prevêem-se anos de caos pela frente para o país e o povo do Irão.

Os que apoiam a operação EUA-Israel argumentam que foi o comportamento regional do Irão que criou as condições para a guerra. Estas afirmações não foram comprovadas e incluem o que diz Israel que acredita que o Irão pode produzir armas nucleares, dar apoio a grupos armados hostis a Israel e aos EUA (frequentemente chamado “Eixo da Resistência”) e a promoção do terrorismo e no passado também ataques e ameaças anteriores contra as forças dos EUA e os seus aliados regionais.

Das afirmações dos responsáveis norte-americanos e israelitas resulta que a guerra é uma ação preventiva para neutralizar ameaças iminentes, particularmente capacidades de mísseis e nucleares, o que ainda não foi provado.

Algo semelhante já vimos com a invasão do Iraque pelos EUA quando W. Bush se baseou na acusação falsa de que Saddam Hussein possuía um programa nuclear e armas de destruição massiva. A invasão foi ainda justificada pelo argumento da “Guerra ao Terrorismo”. Mas, quanto ao Irão, ao longo dos tempos tem sido um dos promotores do terrorismo internacional islâmico.

Outras correntes recorrem às causas remotas. O conflito resulta não de um único evento, mas vem desde 1979 altura de revolução iraniana. São décadas de confronto crescente. Contudo, a aliança EUA de Trump com Israel de Netanyahu agudizaram e trouxeram o conflito para o terreno. Desta perspetiva, a guerra é o resultado de um longo ciclo de escalada envolvendo todos os lados.

Após cinco dias de guerra no Médio Oriente Pit Hegset, Secretário de Defesa dos Estados Unidos, exaltou há dias a “enorme destruição” que as forças americanas e israelitas estavam a infligir aos seus “adversários islâmicos radicais iranianos.”

Segundo o Finantial Times a equipe de Trump promove a guerra contra o Irão com a retórica agressiva do tenebroso Hegseth, (ou melhor o secretário da guerra) que retrata a América como um predador justo e implacável, e está no centro da estratégia de comunicação extremamente agressiva da Casa Branca. Esta estratégia inclui vídeos de operações militares nas redes sociais, que visam mostrar o poder letal americano e a sua superioridade militar. As regras de aliciamento das forças americanas “são projetadas para libertar o poder americano, não para restringi-lo”, gabou-se Hegseth. Esta personagem é uma espécie de nazi americano do séc. XXI. Críticos acusam o governo de usar uma retórica insensível e cruel que banaliza a violência inerente aos conflitos armados. A linguagem bombástica de Hegseth parece, assim, dissociada da realidade da tomada de decisões em tempos de guerra.

Na mesma linha o veículo de notícias online pan-árabe com sede em Londres o “The New Arab”, noticiou no dia 10 de março, que Lindsey Graham, senador republicano, ameaçou a Arábia Saudita se ela se recusar a entrar na guerra EUA-Israel contra o Irão. O político republicano afirmou no dia 9, segunda-feira, que Riad tem o dever de ajudar o seu aliado, na sua tentativa de mudança do regime no Irão após o ataque surpresa de Israel e dos EUA ao Irão em 28 de fevereiro.

No dia 10 de março, o descaramento do Secretário da Guerra Pete Hegseth durante uma conferência de imprensa no Pentágono não teve limites ao afirmar que “Os iranianos estão desesperados. Como covardes terroristas que são, disparam mísseis a escolas e hospitais..., lançando deliberadamente sobre inocentes..., porque sabem que o seu exército está sendo sistematicamente degradado e aniquilado”, atrevimento e mentira não lhe faltam porque esqueceu convenientemente o que Israel e os EUA fizeram em Gaza e agora o mesmo no Irão.

Segundo a revista The Week “a Operação Fúria Épica é a aposta fatídica de Trump”. O problema com a intervenção de Trump, como disse Abigail Hauslohner ao Finantial Times, “é que não há um plano claro por detrás dela. Os seus raciocínios e objetivos mudam constantemente. Num minuto, sugere que a missão vai durar alguns dias, no outro, diz que vai durar cinco semanas; num minuto, ele convoca os iranianos para «tomarem o controle do seu destino», no seguinte, diz que não tem interesse na construção nacional. No domingo, disse que havia optado por três «escolhas muito boas» entre os oficiais iranianos para assumir o país. No dia seguinte, disse à ABC que os ataques entre EUA e Israel haviam sido «tão bem-sucedidos» que os candidatos estavam «todos mortos». Trump precisa descobrir exatamente o que está a tentar alcançar no Irão, como afirmou David Blair no The Daily Telegraph.

O colapso de um regime assassino teria o potencial para remodelar o Médio Oriente para melhor, mas as possibilidades de sucesso são poucas e sem objetivos claros da administração Trump do EUA.