terça-feira, 7 de julho de 2026

Trump e a demolição por dentro da ordem que conteve o autoritarismo Parte II

 

O desmantelamento da solidariedade democrática internacional é um dos sinais mais claros do afastamento da tradição de alianças e da democracia, isto é, o ataque aos instrumentos americanos de apoio à democracia no exterior. Durante décadas, programas de ajuda externa, apoio eleitoral, financiamento de organizações cívicas, assistência a jornalistas e defesa dos direitos humanos funcionaram como parte da estratégia de contenção do autoritarismo. Salvo como já escrevi na Parte I deste título “Se por um lado dizia pretender defender as democracias, por outro, verificaram-se intervenções “negativas” em regiões e países onde até contribuiu para impor ditaduras”.

A administração Trump tratou muitos desses instrumentos referidos como obstáculos ou desperdício. O desmantelamento da USAID - Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional e os cortes em programas de democracia e direitos humanos foram descritos por críticos como golpes profundos contra organizações que supervisionam eleições, defendem direitos civis e apoiam dissidentes em regimes repressivos. Mas na atualidade o Center for American Progress argumentou que essas decisões deram “luz verde” a autocratas ao reduzir a pressão internacional sobre governos repressivos.

Embora de certo modo seja assim, a propaganda americana, mesmo a do Partido Democrata, enfatizam estas instituições e as suas atuações. Contudo, derrubar governos para colocar ditaduras também no passado era o seu forte. Veja-se o caso do Chile quando a ditadura foi estabelecida depois que o governo de Salvador Allende, democraticamente eleito, foi derrubado por um golpe de Estado apoiado pela CIA no dia 11 de setembro de 1973, que deu lugar ao regime tenebroso de Pinochet. No cenário atual, a retórica e as práticas mudaram consideravelmente. A política externa norte-americana concentra-se mais na promoção formal da democracia, em sanções económicas e em apoio a oposições políticas contra regimes autocráticos.

Com Trump os Estados Unidos abandonam ativistas democráticos, jornalistas independentes e organizações cívicas, os autocratas entendem a mensagem: há menos custos para reprimir. Governos autoritários podem prender opositores, fechar ONGs, intimidar minorias e manipular eleições com menor receio de sanções diplomáticas ou reputacional.  A saída destas instituições por parte da América não criam autoritarismos sozinhos, mas remove uma barreira que, durante décadas, ajudou a limitar os seus abusos.

Outro alvo de Trump tem sido a NATO que faz erodir as alianças históricas. A NATO e outras alianças americanas (Pacífico, por exemplo) foram criadas para impedir que democracias ficassem isoladas perante potências expansionistas. Eram compromissos de segurança, mas também sinais políticos, garantia de que as democracias não enfrentariam sozinhas ameaças autoritárias.

Trump vê essas alianças com desconfiança. Para ele, aliados são frequentemente devedores ingratos e não parceiros estratégicos. A linguagem mercantilista de Trump substitui a linguagem de compromisso. A solidariedade coletiva é condicionada ao pagamento, à obediência ou à utilidade imediata. Tal atitude enfraquece a dissuasão de potenciais agressores. A força da NATO não está apenas nos fornecimento ou nos orçamentos militares, está na credibilidade da promessa de defesa mútua. Se adversários acreditam que essa promessa depende do humor de um presidente, a aliança torna-se menos eficaz.

O abandono moral das alianças também é relevante. A atual geração, à exceção de ideologias de extrema-esquerda, compreende que a segurança americana também estaria ligada à sobrevivência de outras democracias. Trump inverte essa lógica. A segurança torna-se uma relação comercial, e a liberdade dos aliados passa a ser secundária face ao cálculo imediato.

Mark Rutte, secretário-geral da NATO, com a sua subserviência a Trump, afirmou hoje segundo The Guardian que “O presidente Trump espera plenamente que todos os aliados se mobilizem imediatamente e entrem no caminho para 5% e façam isso com urgência”. O que Trump espera é que estes orçamentos sejam destinados a compras de material bélico aos EUA.

Especialistas apontam o fascínio e a inveja de Trump pela capacidade desses governantes autocratas contornarem o escrutínio, a oposição política e os trâmites legais. Levitsky, autor do livro “Como as democracias morrem”, (2018) diz que o retorno ao poder de Trump, quatro anos depois, e pela via eleitoral, deve levar os Estados Unidos a deixar de ser uma democracia e a converter-se no que ele chama de “um regime autoritário competitivo”, no qual as eleições existem, mas sem que as regras eleitorais sejam devidamente cumpridas. Com este pensamento, se tal se pode chamar, Trump tenta subverter qualquer regime democrático o que é provado por declarações factuais ao mostrar admiração pela força autoritária. Afirmou ainda que a administração Trump já causou danos graves: “Não estamos mais a viver num regime democrático.”

Outro elemento inquietante é a afinidade retórica de Trump com líderes fortes. Ao longo da sua carreira política, mostrou admiração por figuras autoritárias, elogiando a sua capacidade de agir sem constrangimentos institucionais.

Vladimir Putin, Recep Tayyip Erdogan, Viktor Orban, Adolf Hitler, Xi Jinping, Kim Jong-un, Saddam Hussein são todos os autoritários que, no passado (03/2014) terão recebido elogios do presidente dos EUA Donald Trump, que prometeu aos americanos que ele também será um ditador “no primeiro dia” de seu mandato.

Esta admiração revela uma visão de poder em que governar é dominar, negociar é humilhar o outro, instituições independentes são obstáculos, a imprensa é inimiga e a oposição é traição.

Esta visão é incompatível com a tradição constitucional liberal dos EUA. A democracia baseia-se na ideia de que o poder legítimo deve ser limitado. Trump, pelo contrário, comporta-se como se a legitimidade eleitoral concedesse licença para capturar o Estado.

A diferença é fundamental. Um presidente democrático aceita que vencer eleições não significa possuir o país, um líder autoritário entende a vitória eleitoral como autorização para subjugar adversários, purgar instituições e reescrever as regras a seu favor.

Empresas e a sociedade civil parecem também entrar no jogo. Há argumentos importantes como o de Eric Schickler has published “What Donald Trump Has Taught Us acerca das instituições políticas americanas é que a sociedade civil e o setor privado nem sempre funcionam como barreiras automáticas contra o autoritarismo. Para evitar retaliações muitas empresas, universidades, fundações, meios de comunicação e organizações procuram acomodar-se ao poder. UC Berkeley

Esta dinâmica é perigosa porque o autoritarismo raramente avança apenas pela força bruta. Avança pela antecipação do medo. Empresas cedem para proteger contratos ou aprovações regulatórias. Universidades moderam críticas para evitar cortes. Meios de comunicação hesitam perante ameaças legais ou económicas. Organizações cívicas adaptam-se para sobreviver.

Esta sucessão de pequenas capitulações abona em favor da tirania moderna.  Cada um diz a si próprio que está apenas a proteger a sua instituição. Mas, coletivamente, essas concessões vão destruindo a capacidade de resistência so sistema democrático.

As promessas da eficiência do Estado são, por vezes, plenas de vacuidades que apresentam ataques como sendo medidas de eficiência como sejam cortar burocracia, reduzir desperdício, acelerar decisões, eliminar “Estado profundo”. Mas essa linguagem esconde uma questão essencial que é da eficiência para quem e sob que controlo?

Muitas das instituições democráticas que são deliberadamente lentas existem para impedir corrupção, arbitrariedade e perseguição política porque distribuem poder, tais como tribunais, procedimentos administrativos, regras de contratação pública, supervisão parlamentar, transparência orçamental e independência técnica não existem para facilitar a vida do líder. Curiosamente no nosso país, Portugal, também vamos escutando alguns destes argumentos. A promessa autoritária é sempre sedutora, menos regras, menos debate, menos entraves. Mas o problema e o preço a pagar é a concentração do poder. Quando se eliminam os controlos em nome da eficiência, abre-se espaço para que decisões públicas sirvam lealdades privadas, vinganças políticas ou interesses económicos próximos do governante. É a destruição como método e sob o argumento reformista. Como já escrevi noutro artigo é destruir primeiro reformar depois.


sábado, 4 de julho de 2026

Trump e a demolição por dentro da ordem que conteve o autoritarismo Parte I

 

Hoje 4 de julho os EUA celebram o aniversário da Revolução Americana, também conhecido como o Dia da Independência dos Estados Unidos. A data assinala a aprovação da Declaração de Independência em 1776. Resta-nos saber até que ponto a administração Trump tem estado, ou não, empenhada em destruir as instituições e alianças que a geração do pós-guerra criou para, em teoria, defender o mundo do autoritarismo e da tirania como se disse ao alongo de anos, apesar de este último ponto não ser totalmente correto, mesmo com administrações anteriores a Donald Trump.

Situando-nos na atualidade e pelo que pesquisas efetuadas há vários pontos de vista e estudos que nos mostram que Trump tem estado contra a ordem que conteve o autoritarismo.

A administração Trump representa assim uma rutura profunda com o projeto político, institucional e diplomático que os Estados Unidos ajudaram a construir depois da Segunda Guerra Mundial. Claro que este ponto de vista não é caro a alguma esquerda mais radical, o que é compreensível devido a factos passado com a política externa dos EUA.

O projeto assentava numa ideia tendo em vista impedir o regresso do fascismo, da tirania e da guerra entre grandes potências, era preciso criar instituições fortes, alianças duradouras, regras internacionais, administrações públicas profissionais, imprensa livre, universidades autónomas e uma sociedade civil capaz de limitar o poder arbitrário.

O que hoje podemos constatar é uma tentativa sistemática de inverter a construção dessa geopolítica. Não se trata apenas de uma mudança de prioridades partidárias, nem de uma política externa mais nacionalista da parte de Trump, trata-se de uma ofensiva contra os próprios mecanismos que a geração do pós-guerra criou para conter o poder, autocratas e proteger democracias vulneráveis. Neste aspeto o século passado não confirma esta tese em absoluto por parte dos EUA. Se por um lado dizia pretender defender as democracias, por outro, verificaram-se intervenções “negativas” em regiões e países onde até contribuiu para impor ditaduras.

Deixemos este passado e voltemos ao presente. A questão central já não é saber se Trump desafia normas democráticas. Isso é evidente. A questão é medir até que ponto a sua administração está empenhada em destruir, enfraquecer ou capturar as instituições que foram concebidas precisamente para impedir a concentração de poder que caracteriza os regimes autoritários.

Depois de 1945, os Estados Unidos desempenharam um papel decisivo na criação de uma ordem internacional fora da órbitra soviética. A NATO, as Nações Unidas, a promoção dos direitos humanos, os programas de ajuda externa, o apoio à reconstrução europeia, a defesa da imprensa livre e a consolidação de administrações públicas profissionais faziam parte de uma mesma visão: a democracia não sobreviveria apenas por eleições periódicas; precisava de instituições, normas e alianças.

Essa ordem tinha defeitos, contradições e hipocrisias. Os Estados Unidos como já referi anteriormente apoiaram ditaduras quando lhes convinha, assim como intervieram de forma desastrosa em vários países e aplicaram de forma seletiva os princípios que diziam defender. Mas, apesar dessas falhas, criaram-se barreiras reais contra o expansionismo autoritário, ajudou a estabilizar democracias na Europa e na Ásia e ofereceu apoio material e simbólico a movimentos cívicos em regimes repressivos.

As políticas e práticas de Trump rejeitam essa tradição. A sua política externa do “MAGA” -“America First” vê alianças não como compromissos estratégicos, mas como transações comerciais. Para Trump as instituições multilaterais não são instrumentos de estabilidade, mas antes constrangimentos vendo a promoção da democracia não como interesse nacional, mas como desperdício ou ameaça.

Em síntese o resultado é uma regressão para uma lógica das grandes potências a competirem sem regras fortes, aliados tratados como clientes, adversários autoritários são admirados pela sua força e a política internacional volta a uma espécie de arena de coerção pura.

Tem sido claro o contributo de Trump  para o enfraquecimento deliberado do Estado democrático nos EUA. O ataque de Trump às instituições começa dentro dos próprios Estados Unidos. Uma das premissas fundamentais do constitucionalismo americano é a separação de poderes: Congresso, tribunais, burocracia profissional, estados federados, imprensa, universidades e sociedade civil devem funcionar como contrapesos ao executivo. Ao longo de décadas tal foi suposto que assim continuasse incluindo por cientistas em ciência política.  A experiência Trump mostrou que esses contrapesos são mais frágeis do que era suposto. O professor Eric Schickler, da Universidade da Califórnia em Berkeley, argumenta que a presidência Trump expôs debilidades profundas nas instituições americanas: em vez de resistirem ao excesso de poder executivo, muitas instituições deferiram, acomodaram-se ou procuraram sobreviver individualmente o que é demonstrado no artigo “Political Science paper explores institutional weaknesses exposed by the Trump presidency Trump”, (Spowart, 2026); UC Berkley.

O que tem sido investigado, e é factual, tem sido divulgado através dos media do próprios EUA. As fragilidades do sistema democrático têm-se manifestado de várias formas e frequentemente tolerado ou normalizado a expansão do poder presidencial. A lei que deveria ser aplicada com independência profissional, tem sido alvo de purgas, intimidação e substituição por políticos leais ao presidente Trump. Agências técnicas, científicas e reguladoras têm sido enfraquecidas por cortes e pressões orçamentais e ataques à sua credibilidade.

Esta lógica é típica de governos autoritários: não é necessário abolir imediatamente as instituições; basta esvaziá-las, capturá-las ou torná-las incapazes de agir. A democracia continua formalmente de pé, mas os seus mecanismos de defesa deixam de funcionar.

Pelos artigos e opiniões que consultamos nos media dos EUA parece haver uma captura por lealdade que é um dos traços mais perigosos da administração Trump que é a substituição da competência institucional pela lealdade pessoal. Em democracias constitucionais, cargos públicos devem ser ocupados por pessoas comprometidas com a lei, a Constituição e o interesse público. Em regimes autoritários, a pergunta central é: “És leal ao líder?”

Essa mudança altera a natureza do Estado. Uma agência reguladora deixa de ser uma instituição que aplica regras gerais e passa a ser um instrumento de recompensa e punição. Os tribunais deixam de ser os defensores da legalidade e passam a ser uma arma política. A diplomacia deixa de servir interesses nacionais duradouros e passa a refletir impulsos pessoais e alianças ideológicas de curto prazo.

Passou a assistir-se ao ataque à ciência, à informação e a ordem democrática que também depende de infraestruturas de conhecimento como universidades, imprensa independente, estatísticas públicas, agências científicas, organismos reguladores, serviços diplomáticos e instituições de investigação. Estas entidades não são neutras em todos os sentidos, mas desempenham uma função essencial: criam uma realidade factual comum sobre a qual a política pode operar. Trump e os seus correligionários atacaram repetidamente essa infraestrutura. A imprensa é descrita como inimiga. Universidades são tratadas como centros de subversão. Cientistas e funcionários técnicos são pressionados quando as suas conclusões entram em conflito com a narrativa política. Agências ligadas ao clima, saúde pública, alimentação, ambiente e investigação tornam-se alvos porque produzem factos inconvenientes.

Segundo um documento do gabinete do senador Jeff Merkle“Toque de alarme dos sinos: As Dez Regras do Manual Autoritário

de Trump” são estas as dez regras:

Regra um: despedir os reguladores

Regra dois: encher o Governo com os leais

Regra três: demonizar o inimigo interior

Regra quatro: desrespeitar os procedimentos legais

Regra cinco: silenciar a liberdade de expressão

Regra seis: retirar o poder do orçamento do congresso

Regra sete: abusar da autoridade governamental

Regra oito: transformar o sistema de justiça numa arma

Regra nove: usar o exército para suprimir a dissidência

Regra dez: manipular a próxima eleição

Este ponto é decisivo. O autoritarismo não precisa apenas de controlar pessoas; precisa de controlar a realidade. Quando a verdade factual se fragmenta, quando toda a crítica é apresentada como conspiração, quando dados independentes são substituídos por propaganda, o cidadão perde a capacidade de julgar o poder.

A destruição institucional passa, portanto, pela destruição epistemológica: sem confiança em fontes independentes de conhecimento, só resta a palavra do líder.

São estes os caminhos que se abrem para o autoritarismo e autocracia e, no final, para uma ditadura.


quinta-feira, 2 de julho de 2026

O ministro da educação economista e a Teoria do Caos simplificada

 

O Ministro da Educação pode ser, e é, Doutorado em Economia pelo Birkbeck College (Universidade de Londres) e até professor da Universidade do Minho, mas tenho dúvidas que perceba algo sobre o Sistema Educativo.

O conceito central da Teoria do Caos é a sensibilidade às condições iniciais, isto é, pequenas variações no início de um acontecimento ou fenómeno podem gerar consequências gigantescas e imprevisíveis a longo prazo.

O Ministério da Educação, (ou melhor o ministro da educação), do Governo de Luís Montenegro, mas não só, está a gerar consequências desastrosas no sistema educativo.

Como pequeno grande exemplo o caso do Ministério da Educação é paradigmático. Neste ministério parece reinar o caos com os exames e avaliações com as transformações não testadas. E quando tudo falha, e está a falhar, a responsabilidade nunca cabe a quem decidiu dar uma passada maior do que a perna; cabe ao sistema informático, às abstratas dificuldades técnicas, e segue-se uma averiguação que há de vir, mas que já nada resolve.

A norma é: destrói-se primeiro e depois reforma-se. Para este Governo e para este ministério destruir será sinónimo de reformar? Parece que a culpa é de todos menos de quem tem responsabilidades políticas.

A Educação voltou a estar no centro da instabilidade política e social em Portugal. Entre a falta persistente de professores, a contestação sindical, as dificuldades na organização dos exames e as sucessivas reformas anunciadas pelo Ministério da Educação, Ciência e Inovação, a perceção pública é a de um setor em permanente sobressalto. O Governo insiste que há resultados e medidas em curso, mas nas escolas, entre alunos, famílias e docentes, continua a sentir-se uma realidade marcada por incerteza, desgaste e desconfiança.

Há um stress que se agravou com as críticas à correção digital dos exames nacionais e ao funcionamento das plataformas associadas. O Governo rejeita a ideia de caos generalizado e garante que o processo decorre dentro da normalidade. Já estruturas sindicais e vários docentes têm denunciado falhas, atrasos e dificuldades de acesso. Mesmo que parte dos problemas seja localizada, a questão política é mais profunda: num sistema já fragilizado, qualquer falha tecnológica ou administrativa ganha dimensão simbólica e reforça a ideia de que o Ministério está a experimentar soluções sem garantir previamente a sua robustez.

O caos na Educação não se resume ao Ministério. Reflete também uma dificuldade mais ampla do Governo em transformar anúncios em resultados visíveis no quotidiano das pessoas. A comunicação política apresenta planos, metas e balanços positivos. A distância entre o discurso oficial e a experiência no terreno é perigosa, porque corrói a autoridade política e aprofunda a descrença nas instituições, neste caso a Educação.

Hoje fico-me por aqui. Mas, há mais muito mais…


sexta-feira, 19 de junho de 2026

Este artigo foi inspirado no editorial do jornal Público da autoria de David Pontes e teve como base a entrevista da Antena 1 a Maria Lúcia Amaral. Esta entrevista decorre da demissão da função de ministra da Administração Interna que exerceu a convite de Luís Montenegro.

Aparentemente chamar para aqui o tema da “reforma do Estado” parece ser descabido. A expressão foi uma das bandeiras políticas utilizadas por Luís Montenegro e uma das mais repetidas tendo inclusivamente designado especificamente um ministro para essa matéria.

O conceito de reforma do Estado é um conceito muito abrangente. A que se refere Luís Montenegro quando o aplica? Desconhecemos!

Há uma dimensão estratégica sobre o papel do Estado na sociedade, isto é, o que o Estado deve, ou não, faze, e uma dimensão administrativa sob a forma como o Estado funciona que diz respeito à simplificação de processos, melhorias nos departamentos e serviços.  Teoria sobre reformas do Estado podem ser consultadas aqui.

Continuando. Suponho que a ministra do Trabalho não esteja a incluir neste âmbito a contestada reforma da Lei Laboral como reforma estratégica. Se alguma coisa foi feita quer numa, quer noutra vertente o cidadão comum ainda não deu por nada. O Governo diz que sim no seu portal de propaganda informativa. Se sim, então onde estão as vantagens para os cidadãos? Bem pelo contrário! Tem havido cada vez mais constrangimentos e barreiras. Veja-se o caso do SNS.

Olhemos para casos concretos tais como problemas e dificuldades que muitos cidadãos enfrentam que os faz sentir indefesos perante este monstro que é um inimigo em vez duma defesa. Um dos imensos exemplos é o caso do atendimento na Segurança Social, e no SNS, entre muitos outros organismos públicos.

Ora é aqui que bate o ponto. A chamada Reforma do Estado não fica distante da qualidade dos ministros convidados para o executivo. Assim, em vez falarmos da Reforma do Estado é melhor falarmos do “estado a que isto chegou”.

Os ministérios são departamentos setoriais da Administração Pública, a quem compete planear, coordenar e executar as políticas do Estado nas suas respetivas áreas geridos pelas respetivas pastas ministeriais.

Uma ministra que poderá ter a nossa consideração é Maria Lúcia Amaral que teve a coragem de se demitir devido a não ter condições para o exercício do cargo, nem as competências necessárias para tal. Digo eu! NO entanto pode perguntar-se porque aceitou aquele ministério muito sensível? Mas sobre esta ex-ministra pode ler-se o já referido editorial.

Não é com estudos muito bem-intencionados (nem com teses de doutoramento que têm o seu valor, mas que muitas vezes estão desligados das realidades). Refiro-me, por exemplo, à Ministra do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, Maria do Rosário Palma Ramalho, (cujo currículo é invejável).

Também não é tirando aos poucos das gavetas reformas delineadas no papel por governos anteriores. Não é apenas com a digitalização e informatização dos serviços que isso se resolve, porque isso está feito. O que é necessário é a atualização e modernização dos sistemas que vão perdendo eficácia por obsoletos. Também não é com admissão de mais pessoal na função pública sem critério e por vezes com compadrios porque isso apenas vai atrapalhar mais os serviços. Isto faz-me lembrar o caso em que, para se fazer uma tarefa, estão duas pessoas a trabalhar e estão mais três a vigiar e a dar instruções. Os cidadãos precisam quando têm de contactar instituições públicas que as coisas funcionem e que os seus problemas se resolvam. É neste ponto que se pode relacionar a forma como foram escolhidos os ministros do executivo de Luís Montenegro.

Não estou por dentro destes meandros, como tal apenas posso imitir opiniões em função das perceções que vamos tendo e pela informação que a comunicação social dos fornece.

A formação do Governo de Luís Montenegro revelou, desde o primeiro momento, uma contradição entre a ambição governativa anunciada e a execução na prática. Prometeu um Executivo de excelência, capaz de elevar o nível de exigência na governação e de restaurar a confiança nas instituições. O resultado, porém, está aquém dessa promessa.

No XXIV Governo Constitucional o Primeiro-Ministro Luís Montenegro manteve a sua equipa ministerial inalterada ao longo do mandato. A única remodelação verificada abrangeu apenas secretários de Estado.

Chefiou o XXIV Governo Constitucional, no dia 2 de abril de 2024 e após novas eleições chefia o XXV Governo Constitucional que registou apenas uma substituição de 1 ministro no elenco governativo por auto demissão de Maria Lúcia Amaral.

Conforme informação disponível, a percepção que se tem da escolha dos ministros parece não ter sido conduzida por um critério rigoroso de competência, mas mais por urgência política. Assim, tal seleção terá sido por interesses partidários e necessidade de lealdades partidárias de modo a responder a expectativas públicas.  Produziu, assim, um elenco heterogéneo, cuja coerência é difícil de identificar.

Ao contrário dos resultados que o primeiro-ministro e o ministro da presidência Leitão Amaro propagam, para algumas opiniões correntes o grupo ministerial apresenta uma composição desigual a ver pelos resultados e pelas declarações prestadas.

Várias avaliações apontam para que há ministros tecnicamente sólidos, com experiência e capacidade de gestão pública, mas coexistem com outros cuja ligação às pastas é ténue, quando não inexistente. Há ainda um grupo, que terá sido escolhido sobretudo por razões partidárias, (quase todos oriundos do governo anterior XXIV) e outros ex-ministros cuja principal credencial é a proximidade ao aparelho do PSD. Pode consultar esta informação aqui.

 


Este desequilíbrio interno cria um Governo a várias velocidades: enquanto alguns ministérios funcionam com profissionalismo, outros acumulam hesitações e contradições que fragilizam o conjunto.

Do meu ponto de vista que não sou mais do que um “opinador sobre política”, acho que governar exige mais do que conhecimento técnico. Exige visão, estratégia, capacidade de negociação, leitura estratégica e resistência ao escrutínio público.

Quando um ministro não domina minimamente a área que tutela, há pouca margem para a tomada de decisões informadas. Suponho que no atual Governo, há casos em que essa falta de preparação é evidente, tal como a pasta da saúde tutelada pela farmacêutica Ana Paula Martins e da educação, o economista Fernando Alexandre. A aprendizagem é possível, mas a governação não deve ser tratada como uma espécie de estágio ou de tirocínio.

A perceção pública tornou claro que este Governo começou a perder capital político antes de o ter acumulado. A sucessão de episódios de amadorismo, alguns evitáveis com um mínimo de rigor, transmite a sensação de que o critério de escolha não foi a competência, mas sim a conveniência.

Neste contexto de fragmentação política e crescente desconfiança, um governo não pode dar-se ao luxo de parecer improvisado. A credibilidade constrói-se com escolhas sólidas e não com remendos. Luís Montenegro apresentou um pequeno conjunto de ministros competentes que convivem com nomeações difíceis de justificar. Recorrendo a notícias e factos que têm sido recorrentes posso exemplificar alguns casos.

A Saúde foi um dos casos que fragilizou e ainda fragiliza o Governo, que teve como principal episódio, para mim o mais grave, o da Demissão do diretor do SNS, problemas persistentes nas urgências, listas de espera críticas na oncologia. Estes episódios foram interpretados como sinais de má coordenação política e falta de preparação para gerir uma das pastas mais complexas e onerosas do Estado.

A SIC Notícias noticiou, em devido momento, que, para além da Administração Interna (caso que culminou com a demissão da ministra), a Saúde gerou vários problemas não apenas nas urgências, mas com a demissão do ex-diretor do Serviço Nacional de Saúde, já referido, com o INEM, as listas de espera na oncologia ao quais se acrescentam as dificuldades crescentes nos serviços de atendimento nas Unidades de Saúde e na obtenção de consultas. Neste âmbito, ao ser atacado por várias frentes o primeiro-ministro chegou a dizer no Parlamento que “Eu estou aqui para dar e durar senhor deputado”. Quem fala assim não é gago e tem minoria parlamentar.

Aos casos referidos que fragilizaram o Governo que, como de costume, deixaram de ter interesse para a Comunicação Social acrescentam-se as declarações sobre violência doméstica, sugerindo dúvidas sobre o aumento da criminalidade que geraram forte reação pública; os comentários sobre jornalistas usarem auriculares para receber perguntas “sopradas” que foram vistos como ataques gratuitos à comunicação social; a atitude de evitar responder a perguntas dos jornalistas, acumulando pressão mediática, são tudo episódios que têm fragilizado a imagem de profissionalismo e controlo político.

A instabilidade em áreas-chave como a Saúde e a Administração Interna contribuíram para a perceção de um Governo “a várias velocidades”, com falta de coordenação e de visão estratégica.

No debate público, estes acontecimentos são frequentemente interpretados como indícios de que a escolha de alguns ministros e responsáveis governativos pode ter sido guiada mais por conveniências partidárias do que por critérios de competência técnica ou política.

Porque o primeiro-ministro não remodela o Governo é uma pergunta e uma discussão que vai ganhando força e a que Montenegro tem resistido apesar da pressão mediática. É que remodelar cedo equivale a reconhecer que a escolha inicial falhou.

Para um Governo que começou sob críticas de amadorismo, Montenegro sabe que uma remodelação no primeiro ano reforçaria a narrativa de erro estrutural na formação do Executivo. Essa resistência resulta de fatores políticos, estratégicos e institucionais que ajudam a explicar porque a remodelação não avança, apesar da pressão mediática e até partidária.

Há analistas de política que estão convictos que o primeiro-ministro acredita que a pressão mediática irá desaparecendo, que os casos que surgem desgastam, mas passam e que substituir ministros só prolonga a crise e mostra por outro lado que é uma estratégia de resistência.

O entendimento comum é que, atualmente, o PSD parece não dispor de um quadro se suplentes e robusto e substituir ministros implica encontrar perfis com qualidade. Acresce ainda que, com uma maioria relativamente frágil, qualquer remodelação seria interpretada como sinal de fraqueza perante a oposição, sobretudo perante o Chega cujo populismo o leva a explorar cada hesitação do Governo.

A oposição, a comunicação social e parceiros sociais estão atentos e têm identificado os ministros que têm sido mais criticados por comentadores e oposição. Não se trata fazer de juízos de valor, mas de identificar os mais criticados. A Ministra da Saúde é uma delas, cuja pasta tem sido um dos pontos mais frágeis do Governo que para além dos anteriormente referidos mostra a incapacidade de estabilizar a governação do setor. Esta é a ministra que, para muitos analistas e responsáveis por instituições de saúde com maior desgaste acumulado. Porque não é demitida? Ficamos com dúvidas.

Em resumo, os episódios acima, nomeações falhadas, polémicas de incompatibilidades, dificuldades parlamentares, instabilidade em setores críticos e comunicação política desastrada, alimentam a narrativa de que o Governo de Luís Montenegro tem revelado sinais de amadorismo.

 

segunda-feira, 8 de junho de 2026

Ser contra o turismo desregrado não é xenofobia é estarmos fartos deles

 

 

A afluência massiva e descontrolada de visitantes gera impactos profundos e prejudiciais para as comunidades residentes. É o turismo desregrado. É como um polvo que abraça as cidades.

Há temas que, quando abordados sem cuidado e utilizam palavras menos acauteladas podemos, de imediato, ser conotados como difusores de discursos de ódio. Cai-se no exagero. Não podermos estar contra algo sem que sejamos logo declarados como racistas, xenófobos, entre outros.  Ser pelo controle de imigração, ou contra o turismo excessivo, por exemplo, vêm logo alguns com acusações de racismo, xenofobia, e outros impropérios.

Como motivação para este tema, cito Bárbara Reis que escreveu no Público e resume bem o pensamento, talvez da maioria: “Quem defende mais regulação tem uma “agenda política”. Quem mostra preocupação com o esvaziamento dos centros históricos quer destruir a economia. Quem pede mais intervenção das câmaras e dos governos é insensível, irrealista e irresponsável. Quem não tem fé cega no mercado é ignorante. Quem fala do impacto negativo do turismo de massas noutras cidades europeias é manipulador. Quem critica é malicioso.”

Estamos na época de primavera e de verão propícios ao turismo. Os que não são por ele atormentados, exulta tal atividade com o fito nos ganhos sem se importarem com os que se veem atolados por turistas que perturbam e interferem na sua vida quotidiana devido ao descontrole incómodo que lhes causa.

Temos a clara perceção de que o Governo é incapaz de encarar os problemas do turismo e resolvê-los nos limites das possibilidades, da sensatez e do interesse público, isto é, tendo em conta as pessoas. Luís Montenegro diz recorrentemente, quando refere estar a governar para as pessoas.

As “pessoas” encontram-se rodeadas por imigrantes das mais várias origens (mas esta é outra conversa). Turistas que escolhem para as suas viagens Portugal, o país das amplas permissibilidades que, sobretudo os jovens, tudo deterioram à sua volta e prejudicam os residentes onde se alojam.

Há uma tensão social crescente entre as populações e o turismo desregrado. Veja-se o caso de Albufeira no Algarve onde impera a desbunda. Não vale a pena insistir em que o turismo é que nos está a salvar e que resolve o problema do crescimento. É a nossa addiction, a nossa dependência.

Imagino os comentários que irão aparecer, por quem ler este texto, vindos dos grandes impulsionadores do turismo desregrado. Quem não é pelo turismo que anarquicamente invade todo o país, sobretudo na cidade de Lisboa e no Algarve - que parece já não ser nosso - é contra Portugal, é antipatriótico, como escreveu Bárbara Reis. Vender a alma ao turismo é a ordem. Concordo com ela.

Podem alguns dizer que quem critica os excessos causados pelo turismo e não se rende e vende ao turismo quer a ruína do país.

Por isto, porque me oponho ao excesso de turismo, e porque protesto contra o esvaziamento e descaracterização das cidades, neste caso Lisboa e, especificamente, o Algarve, sou um perigoso radical esquerdista e tonto. Pensem o que quiserem. Vivem lá tranquilos nos seus espaços sem o incómodo de tal atividade.

O que vejo em alguns bairros e freguesias por onde transito na cidade de Lisboa deparo-me com turistas que nos anos 80 eram designados por “turistas do pé descalço” ou “turismo do chinelo”.

Alojamentos locais (AL) e habitações cujos proprietários fazem alugueres temporários a turistas (com objetivo lucrativo, o que é lícito), mas que reduzem a oferta destinada à habitação.  Os inconvenientes do ruído e até de lixo que tais tipos de turistas transportam para edifícios destinados a habitação são evidentes. Várias medidas tomadas por sucessivos governos e autarcas em grande medida pertencem ao grupo do laissez faire, laissez passer, em relação ao turismo.

Infelizmente somos um país que, sem turismo, sobreviverá a muito custo por culpa dos sucessivos governos que estimularam este subsetor na prática desregulado desleixando outros setores que poderiam contribuir para o crescimento da economia.  

O turismo tem sido uma opção de modelo de desenvolvimento, com ganhos evidentes. A opção tem riscos estruturais que os governos assumem politicamente essa opção como a salvação do país. Não sabendo o que fazer, dizem-nos que não há outra solução.

Dada a falta duma visão alargada, transformaram o turismo num pilar central, justificando tal com propagandas bacocas destinadas a quem não se inteira das andanças da economia acenando ao mesmo tempo com a importância para o elevado peso no PIB, no emprego, nas exportações de serviços e na balança de pagamentos. Vendermos Portugal ao estrangeiro.

É recorrente a facilidade com que é sobrevalorizado o turismo.  O turismo tem sido crucial para compensar défices estruturais na balança de bens como já referi. Sem turismo, o desequilíbrio externo seria muito mais visível. Somos uma espécie de pedintes de mão estendida ao turismo. Vender Portugal ao turismo é o que dá menos trabalho, menos dor de cabeça é o que está a render.

Mas, como diz a canção interpretada pelo cantor português Luís Trigacheiro da qual faço aqui uma adaptação ao turismo: “…nem tudo do turismo é mau / Nem tudo do turismo é lamento / Sem turismo não há nada”.

O turismo tem sido crucial para compensar défices estruturais na balança comercial com o estrangeiro. Sem turismo, o desequilíbrio externo seria muito mais visível, para além disso oferece emprego rápido e cria muitos postos de trabalho em pouco tempo, absorvendo desemprego jovem e pouco qualificado e recorre-se também à imigração para trabalho sazonal.

Outro fator para o dinamismo local em muitas cidades é a reabilitação urbana. O turismo foi o gatilho para recuperar edifícios, dinamizar centros históricos e atrair investimento que transforma em hotéis e empreendimento ds de luxo que turistas ricos adquirem apreços tais que conduzem ao aumento do preço da habitação.

O problema é que estas vantagens são frequentemente apresentadas como se fossem estratégia de desenvolvimento, quando muitas vezes funcionam mais como atalho conjuntural. Em vez de resolver fragilidades produtivas, o país “aluga-se” ao exterior. A perceção é que as vantagens são inferiores às desvantagens para as pessoas.

A falta de visão estratégica e o facilitismo nas decisões governamentais pode ter consequências graves. Quando o turismo cai, não há amortecedores internos suficientes e regiões inteiras podem ficar sem alternativa económica, empresas que fecham, o desemprego aumenta. Isto é típico de economias dependentes que, geralmente, estão associados à dependência de um único setor de atividade como o do turismo como uma espécie de monocultora e não uma economia diversificada.

Há efeitos colaterais evidentes da lógica “mais turismo a qualquer custo”. A conversão massiva de habitação em alojamento local, a subida de rendas e preços de compra, expulsão de residentes de bairros centrais,         transformação de cidades em cenários para consumo, não em lugares para viver. O caso de Barcelona é paradigmático porque enfrenta um dilema crítico de overtourism

Aqui o turismo deixa de ser “setor económico” e passa a ser força de reconfiguração através duma arquitetura social negativa. Quem pode pagar fica, quem não pode é empurrado para a periferia. A economia ganha, mas a sociedade fragmenta-se.

Mesmo não sendo especialista em economia uma simples análise mostra-nos que o turismo é o maior motor da economia portuguesa, gerando cerca de aproximadamente 19,1% do Produto Interno Bruto (PIB). Em 2025 foram registados 19,7 milhões de hóspedes estrangeiros em relação a 10,87 milhões de habitantes o que representa um aumento de 3,0​% e 1,9%, respetivamente, em relação a 2024. (Fonte Turismo de Portugal)

Porto e Lisboa estão entre as dez cidades a nível global com maior densidade turística em relação ao número de habitantes. A capital, por exemplo, ultrapassa a fasquia dos 21 milhões de dormidas anuais na sua área metropolitana Fonte Jornal económico).

Grande parte do turismo português assenta em alojamento, restauração, serviços pessoais, trabalho intensivo, salários baixos, fraca produtividade.

Ou seja, o país especializa-se em serviços intensivos em trabalho barato, em vez de subir o seu valor económico em tecnologia, conhecimento, design, serviços avançados. O resultado é que o turismo faz subir o PIB, mas não faz subir proporcionalmente salários médios, qualificação, inovação.

Quando um setor ganha peso económico e simbólico excessivos os lóbis atuam e tende a ganhar também poder político. A resistência a qualquer regulação, como sejam limitação ao alojamento local, taxas turísticas, regras sobre ruído (regra esta que, por acaso, existe, mas insipiente e de difícil concretização), entre outras.

Surge então o habitual e permanente discurso de chantagem traduzido em: “se regulam, matam o turismo e se matam o turismo, matam a economia” e por aí adiante. Qualquer tentativa de reequilibrar o modelo urbano ou produtivo é acusada de “anti turismo”, o que bloqueia reformas necessárias. Governos como o atual que se dizem reformistas “assobiam para o lado” e nós, as pessoas, para quem Luis Montenegro diz estarem no seu foco, cá estamos para aturar isto. Mas não lhe podemos imputar toda a responsabilidade os anteriores governos de António Costa foram também responsáveis por esta anarquia digna do “terceiro mundo”, conceito já desatualizado que eram as nações neutras e subdesenvolvidas. Somos um país pobre como as Maldivas, Camboja, Gâmbia e Quénia que dependem fortemente do turismo internacional.

O verdadeiro problema não é ter turismo, é não ter mais nada. O turismo em si não é o inimigo e quando se torna o principal apoio ao crescimento e quando é desregrado e excessivo.

Alguns os adeptos mais furiosos que ganham milhares ou dependem do turismo irão dizer, ou melhor, escrever, que não sei do que estou a falar. Têm razão. Como disse anteriormente não sou especialista em economia, mas observo e vejo o que se passa à volta.

Se acham que posso sugerir linhas de saída e ideias de reorientação para além do turismo, não contem com isso. Como disse anteriormente não sou especialista em economia, sou apenas um cidadão comum que observa o que o rodeia.

O que é preciso são governos corajosos e competentes. É para isso que os elegemos. Elegemos os que se dizem reformistas, mas que pioram o que eventualmente já estava mal e apenas se centram nos prejuízos sobre quem trabalha para aumentar o crescimento com o slogan da produtividade e da competitividade. Quando não sabem o que hão de fazer para reformar encontram sempre os suspeitos do costume.

Condenaram Portugal ao turismo desregrado e escolheram depender dele. A questão política central não é se o turismo é bom ou mau, mas que quantidade de turismo é compatível com uma economia diversificada e uma sociedade habitável.

domingo, 17 de maio de 2026

Calígula versão século XXI

 


O último texto que publiquei foi sobre o “Elogio da Loucura” de Erasmo, discurso satírico onde estabeleci uma comparação entre a personagem Loucura com o Presidente Donald Trump. Lembrei-me, entretanto, de fazer um texto idêntico, mas de comparação com Calígula imperador romano entre os anos de 37 a 41 DC. Há também quem o compare a Nero. Vamos ficar por Calígula e mergulhemos numa comparação entusiasmada entre Donald Trump e uma das figuras mais notórias da história: e o Imperador Calígula!

Escrever várias vezes sobre Trump parece uma obsessão, mas não. A influência do media, não apenas aqui, no nosso país, mas sobretudo na imprensa nos EUA pode contribuir para tal.

Esta minha comparação foi feita com algum cuidado porque aparentemente humorística é, ao mesmo tempo, séria. Os contextos e épocas são totalmente diferentes. Roma imperial versus democracia moderna. Considerei mais interessante fazer uma comparação temática tendo em conta estilo de liderança, relação com instituições, propaganda, reação da elite, embora sem qualquer ideia de o demonstrar que são a mesma coisa.

Quando decidi fazer esta analogia pensei: aqui está uma coisa original! Enganei-me. Na fase da pesquiza deparei-me com historiadores e comentadores que também já o fizeram. O historiador Tom Holland deu em 2016 uma entrevista sobre o tema ao jornal britânico The Guardian. Mais recente, a 5 maio de 2026 a revista The Economist publicou um artigo intitulado “A América deve desejar para que Donald Trump não seja um novo Calígula”,  artigo finaliza assim: “…imperadores tirânicos como Calígula, que renomeou templos em sua homenagem, mandou erguer estátuas douradas suas e deleitavam-se em humilhar as antigas elites de Roma, incluindo os senadores covardes que lhe entregavam supremos poderes”.

Trump e Calígula podem ser comparados no plano do estilo político com uma liderança centrada na sua pessoa. Esta comparação é limitada porque Calígula governou um sistema autocrático com mecanismos de coerção típicos de Roma da sua época. Trump atua dentro de instituições democráticas que, apesar de ter mecanismos que restringem o poder executivo, tenta paulatinamente destruir esses mecanismos.



Para demonstrar o seu desprezo pelas classes dominantes, Calígula, ameaçou fazer do seu cavalo cônsul (o poderá ter sido uma lenda).

Donald Trump ainda não nomeou um cavalo para o seu gabinete, mas, no entanto, nomeou bajuladores não qualificados para cargos de alta responsabilidade, onde disputam a sua lealdade enquanto obtêm benefícios derivados ao cargo. Permitir que a decadência continue será um erro muito mais difícil de corrigir.

Muitos romanos comuns adoravam Calígula como um showman da época que construía monumentos de mármore, organizava desfiles militares e divertia-se em assistir a competições de gladiadores, quanto mais sangrentos, melhor. Trump não lhe fica atrás. Donald Trump, foi estrela do seu próprio reality show. Em setembro de 2016 o Whashigton Post escreveu que “o imobiliário tornou-o rico, a televisão tornou-o famoso”. Trump, fã de estátuas douradas, monumentos de mármore, de sumptuosos salões de baile e participações em lutas parece estar no mesmo caminho de Calígula versão século XXI.

Acham estranho que Donald Trump tenha sido uma estrela do wrestling? Não é bem o caso. O mundo deste desporto de entretenimento, muito famoso nos EUA, não é nada desconhecido para este presidente dos EUA que chegou a envolver-se diretamente na WrestleMania, o maior evento da modalidade. Em 2007 Trump alinhou na chamada «Batalha dos Milionários», com Vince McMahon, dono da WWE-World Wrestling Entertainment, empresa que organizou o evento. Cada um escolheu um lutador que os representaria no ringue. O perdedor teria de rapar o cabelo. Trump não ficou por aqui e foi mesmo para o combate, ainda que fora das cordas. Como o lutador representante de Trump ganhou o combate. Vince McMahon ateve que deixar rapar o cabelo com ajuda do agora presidente de todos os norte-americano, como pode confirmar aqui a partir do minuto 1:45.

Há comentadores nos EUA que sugerem que Trump opera como um “meio-Calígula”, com comportamentos erráticos que desafiam normas, semelhante ao imperador romano que, segundo relatos, zombava das instituições.

Ao longo das últimas décadas os EUA pareciam escapar ao processo de fim da liberdade e da democracia como se tem visto noutros locais e continentes como na Ásia, na África e na Rússia. Nestes países tem sido prática comum ampliar as bases do poder, distribuir o que existe, transformando-se em virtudes das sociedades e aspirações para os que o rodeiam. O que parecia longínquo como autoritarismos, fascismos ou comunismos pareciam estar a reduzir-se mo Mundo. Já não é assim. O poder não existe para servir os povos, serve para existir.

O que acontece quando se compara um político moderno exibicionista a um dos mais notórios tiranos da história? A resposta uma resposta está num vídeo onde se apresentam semelhanças impressionantes entre Donald Trump e Calígula, desde demonstrações de ego desmedidas a ganância chocante e atos escandalosos. A loucura de Calígula pode ser lendária, mas Trump, nestes nossos dias, é também um ator que representa uma comédia hilariante se não fosse perigosa.  




sábado, 9 de maio de 2026

A retórica do excesso ou a Loucura em Trump

 

O lema de Trump é se “não tens quem te elogie elogia-te a ti mesmo”.

Pergunto a quem resolveu parar aqui por curiosidade do texto conhecerá e terá lido a obra de Erasmo de Roterdão o “Elogio da Loucura” escrita em 1509? Não? Não se preocupe. Terão sido poucos os que já o leram!

O “Elogio da Loucura” é um discurso satírico em que a própria Loucura é personificada e fala na primeira pessoa para mostrar, com ironia, que grande parte da vida humana, da amizade à política, da religião ao amor, depende dela mais do que da razão. A Loucura é, ela própria, uma protagonista personificada.

Para aqueles que ainda não conhecem a obra aqui vai uma breve síntese duma pequena parte que interessa para este artigo. Erasmo, tomando a voz da Loucura, satiriza governantes, académicos, teólogos e autoridades religiosas, denunciando hipocrisia, superstição e corrupção. É crítica à sociedade, à moral, à política e à Igreja da sua época.

O “Elogio da Loucura” serviu-me como elemento para compreensão de fenómenos políticos atuais que desafiam normas tradicionais. A “Loucura”, personagem alegórica, oferece um espelho onde se podemos ver refletidas as políticas, as geopolíticas e as tensões das democracias contemporâneas.

Assim, podemos imaginar a política como uma espécie de teatro. Se Erasmo de Roterdão vivesse hoje já não escreveria o “Elogio da Loucura”. Limitar-se-ia a ler a imprensa e a ligar a televisão. A Loucura na altura em que Erasmo a escreveu era uma alegoria. Hoje teria corpo com microfone e horário nobre nas televisões.

Talvez Donald Trump seja uma das personificações da Loucura.  O que no provoca um sorriso de troça. A própria personagem Loucura teria inveja. Afinal, ela sempre quis multidões, aplausos, exagero, e uma plateia disposta a confundir convicção com verdade. As verdades são as dele. Não há outras. São as verdades alternativa. Pela análise das suas atitudes já avaliadas por especialistas, Trump domina essa arte com a naturalidade de quem respira.

A personagem Loucura é assume-se como uma criatura exuberante, que se apresenta ao mundo com a confiança de quem nunca duvida de si. Esta figura alegórica teria hoje concorrência: líderes que falam com a certeza de profetas e a leveza de comediantes, que misturam indignação com espetáculo. Trump surge como exemplo recorrente dessa retórica performativa: frases curtas, certezas longas, e uma relação com a realidade tão flexível quanto a banca de um vendedor de bugigangas ou, melhor, como vendedor de brinquedos perigosos.

Trump domina esse registo com a precisão de um antigo fanfarão da corte: provoca, exagera, repete e, nesse processo, obriga todos os que o rodeiam a dançar ao ritmo que ele impõe. Segundo alguns dicionários fanfarrão é uma pessoa arrogante, gabarola ou valentona, que ostenta coragem, superioridade ou qualidades que, na realidade, não possui. É alguém que se vangloria, mente sobre as suas capacidades e costuma desviar-se perante o perigo ou situações reais.

Erasmo escreveu que o riso desarma mais do que a espada. A Loucura torna-se perigosa porque, ao ridicularizar políticos, cientistas (alguns) e poderosos, expõe a fragilidade das instituições. Hoje, vemos repercussão dessa estratégia em discursos que desafiam normas, zombam de adversários e transformam debates em arenas de entretenimento. Não preciso de mencionar nomes para evitar suscetibilidades.

A personagem Loucura, dizia disparates que, afinal, eram verdades inconvenientes. Os fenómenos políticos recentes funcionam da mesma forma. A retórica perturbadora, por mais caótica que pareça, revela tensões profundas como desigualdades, ressentimentos, medos, frustrações. Ela é uma personagem que se vangloria de ser indispensável ao mundo. Esta figura funciona como metáfora das emoções que atravessam as sociedades em momentos de crise.

A figura de Trump assim como outros, próximo de nós, aqui em Portugal, e também na Europa, não são apenas atores barulhentos num palco, são também um espelho onde a sociedade americana e a nossa se reveem e, de momento, não sabemos se ainda gostam do que veem.

Talvez a política contemporânea precise mesmo desta energia turbulenta, desta mistura de espetáculo e convicção, para revelar o que estava escondido. Neste sentido Trump torna-se não um herói nem um vilão, mas um sintoma de uma potencial doença da democracia. Afinal, se bem refletirmos,  é mais um capítulo do que Erasmo começou e que o mundo insiste em continuar a escrever.

Mas continuemos. A figura alegórica da Loucura é mostrada como exuberante, autoconfiante, sedutora e capaz de expor contradições sociais que serve para compreender a ascensão de líderes que desafiam normas institucionais e discursivas. Donald Trump é, frequentemente, colocado nesse debate, não como objeto de sátira direta, mas como exemplo de como a retórica política contemporânea pode ser lida numa perspetiva da Loucura.

A comunicação política de Trump é frequentemente descrita como performativa, baseada na repetição, na certeza e na construção de uma identidade forte. É uma espécie de representação da forma moderna da autoridade louca, não a autoridade racional, mas a autoridade emocional que a loucura lhe provoca.

A ascensão de Trump, e de outras forças aqui mesmo na Europa, vieram expor tensões latentes não só na sociedade americana: económicas, culturais, identitárias. Criou uma retórica polarizadora, “louca” que, afinal, é também reveladora por obrigar ao confronto de desigualdades, ressentimentos e falhas institucionais.

A política partidária contemporânea para alcançar votos parece depender cada vez mais de emoções fortes, narrativas simples e figuras que dizem romper com o status quo. É nisto que se fundamenta o crescimento das extremas-direitas, dos demagogos e dos populistas. Trump é frequentemente analisado como símbolo disso mesmo sendo considerado como um agente que, para críticos e apoiantes, representa uma mudança profunda na forma como o poder é exercido e percebido. Isto é o caminho para o poder totalitário.

A “Loucura de Erasmo” triunfa apenas porque encena a sua própria autoridade. Do mesmo modo Trump não convence pela razão, mas pelo conflito, pela provocação, pela imposição, pela força e pela confiança absoluta em si mesmo.

Aqui está um video que resume a peça







segunda-feira, 4 de maio de 2026

Israel e Gaza resposta desproporcionada

 

Uma comissão de inquérito das Nações Unidas concluiu que Israel e o Hamas cometeram crimes de guerra. Os investigadores do Conselho de Direitos Humanos da ONU dizem que não há inocentes neste conflito e responsabilizam quer o Hamas, quer Israel, pela violação do Direito Internacional.


Tal vem a propósito de no dia 29 de abril, o colunista do Observador, João Marques de Almeida, ter publicado um artigo intitulado “Sim, sou pró-Israel”, cujo lead afirma: “Não haja dúvidas, Israel é, de certo modo, um pretexto. Para a Europa, a grande ameaça às nossas democracias é a coligação entre os islamistas radicais e as extremas esquerdas”. Logo no início, o autor apresenta três razões para a sua posição, sendo a primeira “obviamente, o Holocausto”.

Foi precisamente aqui que deixei de ler. Não por desinteresse, mas porque o argumento se tornou previsível e, sobretudo, problemático.

Estar “a favor” ou “contra” Israel não é uma posição absoluta nem moralmente automática. Depende do contexto, dos atos concretos, das circunstâncias históricas e políticas, e também da sensibilidade ética de cada um. Nenhuma dessas variáveis, porém, pode servir para suspender o juízo crítico.

O Holocausto foi, sem dúvida, um crime histórico de dimensão incomparável: um genocídio planeado e executado de forma sistemática por um regime ditatorial feroz, assente numa mistura de antissemitismo secular, ideologia racial pseudocientífica e oportunismo político. Esse horror deve ser lembrado, estudado e condenado sem reservas. Sempre.

O que não é aceitável é a tentativa, explícita ou implícita, de transformar essa tragédia num salvo-conduto moral para ações presentes. A memória de uma calamidade não pode justificar novas calamidades. O facto de um povo ter sido vítima de atrocidades não lhe confere legitimidade para infligir sofrimento extremo a outro povo que em nada contribuiu para esse crime histórico.

A história mostra-nos que regimes autoritários, ou líderes com ambições autoritárias, recorrem, frequentemente, a bodes expiatórios para consolidar poder. Invocam ameaças à democracia enquanto corroem os seus fundamentos por dentro. Instalam-se no sistema precisamente para o instrumentalizar.

O verdadeiro compromisso ético exige coerência que passa pela condenação das perseguições, dos massacres e dos crimes contra a humanidade do passado e do presente, sem exceções seletivas. Não é moralmente defensável que o perseguido de ontem se transforme no perseguidor de hoje, exercendo violência indiscriminada sobre um povo inteiro.

Chegados aqui, a pergunta impõe-se com clareza:
pode a reação do governo de Netanyahu, marcada por ataques massivos, sem distinção clara entre alvos militares e civis, e com evidente intenção de ocupação territorial, ser considerada proporcional ao ataque terrorista do Hamas de 7 de outubro?

Ou estaremos, mais uma vez, perante a instrumentalização do medo, da memória e da dor histórica para justificar o injustificável?

Um ataque terrorista é sempre um crime abominável. Mas nenhuma atrocidade inicial legitima a destruição e deslocação sistemática de quase uma população inteira.

Há poucos gestos mais claros de barbárie do que um ataque terrorista deliberado contra civis. A violência indiscriminada, planeada para espalhar medo e morte, mesmo que os seus objetivos sejam por alguns considerados justos. Merece condenação inequívoca, sem relativizações nem ambiguidades. No entanto, essa condenação, necessária e justa, não pode servir de carta‑branca para uma resposta que, em nome da segurança, mergulha uma população inteira num cenário de devastação.

É precisamente neste ponto que muitas narrativas oficiais falham. Confundem autodefesa com vingança e justiça com força bruta como tem sido o caso de Israel com a população de Gaza indefesa.  “Comandado” por uma espécie de facínora que é Benjamin Netanyahu, a justificação é a de combater o Hamas (alguns ataques serão e daí nada a dizer), mas é a população deslocada, que é o mesmo que dizer perseguida sem culpa.

Responder militarmente a um ataque terrorista não é, em si, ilegítimo. Estados têm o direito, e o dever, de proteger os seus cidadãos. Mas esse direito está longe de ser absoluto. Ele encontra limites claros no direito internacional, na ética e, sobretudo, na humanidade. Quando uma reação militar deixa de visar os responsáveis diretos e passa a atingir indiscriminadamente civis, infraestruturas essenciais e as condições mínimas de vida, deixa de ser defesa e transforma‑se em punição coletiva. Acrescentaria aqui, uma espécie de revanche dos judeus contra “outros” pela vivência no Holocausto.

A desproporcionalidade manifesta‑se quando a escala da resposta não corresponde ao objetivo declarado. Bombardeamentos maciços em áreas densamente povoadas, destruição de bairros residenciais, colapso de hospitais, falta de água, eletricidade e alimentos não são efeitos colaterais inevitáveis, são consequências previsíveis. E quando são previsíveis, são também escolhas.

O argumento de que “não há alternativa” ou de que uma população é cúmplice por viver sob o controlo forçado por um grupo armado é moralmente indefensável. A maioria das pessoas que habitam territórios em conflito não escolheu a guerra, não participou no ataque inicial e não dispõe de qualquer meio para influenciar decisões militares ou políticas. Ainda assim, são essas pessoas que enterram os mortos, fogem com os filhos ao colo e sobrevivem entre escombros.

É aqui que a desproporcionalidade se torna mais evidente, não apenas nos números, mas na injustiça fundamental de quem sofre. A violência deixa de ser dirigida a culpados e passa a recair sobre inocentes. Quando crianças, idosos e doentes se tornam as principais vítimas, algo se perdeu pelo caminho.

Pior ainda, este tipo de reação destrutiva tende a produzir o efeito oposto ao proclamado. Quando há um país que em vez do recurso à diplomacia ataca outro com armas com pretextos pouco explícitos e pouco consistentes, como seja depor um regime em vez de eliminar a violência alimenta‑a.

Cada casa destruída, cada família desalojada, cada vida perdida sem razão militar clara cria um legado de dor, ressentimento e desespero. A força excessiva não constrói segurança duradoura, constrói memórias de injustiça. É o que está a acontecer também no Irão

Há também uma outra dimensão política que não pode ser ignorada. Quando um Estado afirma agir em nome da lei, dos valores democráticos ou da ordem internacional, espera‑se dele um padrão de conduta superior ao daqueles que recorrem ao terrorismo. Quando essa diferença desaparece, quando os métodos se aproximam na sua brutalidade, a legitimidade moral desintegra‑se, mesmo que a retórica se mantenha.

Condenar um ataque terrorista ou até mesmo um regime opressor e, ao mesmo tempo, denunciar uma resposta desproporcionada não é contradição. Pelo contrário: é um sinal de coerência ética. O valor da vida humana não pode depender do lado da fronteira em que se nasce nem da narrativa que domina os noticiários.

Num mundo saturado de slogans e alinhamentos automáticos, recusar a lógica do “vale tudo” é um ato de lucidez. A verdadeira força mede‑se na contenção, na capacidade de reagir sem perder o sentido da humanidade. Quando essa contenção desaparece, a violência deixa de ser exceção, torna‑se método.

É por isso que: “Sim, NÃO SOU pró-Israel” nem pró Trump.