O desmantelamento da
solidariedade democrática internacional é um dos sinais mais claros do afastamento da tradição de alianças
e da democracia, isto é, o ataque aos instrumentos americanos de apoio à
democracia no exterior. Durante décadas, programas de ajuda externa, apoio
eleitoral, financiamento de organizações cívicas, assistência a jornalistas e
defesa dos direitos humanos funcionaram como parte da estratégia de contenção
do autoritarismo. Salvo como já escrevi na Parte I deste título “Se
por um lado dizia pretender defender as democracias, por outro, verificaram-se
intervenções “negativas” em regiões e países onde até contribuiu para impor
ditaduras”.
A administração Trump tratou muitos desses
instrumentos referidos como obstáculos ou desperdício. O
desmantelamento da USAID - Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento
Internacional e os cortes em programas de democracia e direitos humanos
foram descritos por críticos como golpes profundos contra organizações que supervisionam
eleições, defendem direitos civis e apoiam dissidentes em regimes repressivos. Mas
na atualidade o Center for American Progress argumentou que essas decisões
deram “luz verde” a autocratas ao reduzir a pressão internacional sobre
governos repressivos.
Embora de certo modo seja assim, a propaganda americana,
mesmo a do Partido Democrata, enfatizam estas instituições e as suas atuações. Contudo,
derrubar governos para colocar ditaduras também no passado era o seu forte. Veja-se
o caso do Chile quando a ditadura foi estabelecida depois que o governo de
Salvador Allende, democraticamente eleito, foi derrubado por um golpe de Estado
apoiado pela CIA no dia 11 de setembro de 1973, que deu lugar ao regime
tenebroso de Pinochet. No cenário atual, a retórica e as práticas mudaram
consideravelmente. A política externa norte-americana concentra-se mais na
promoção formal da democracia, em sanções económicas e em apoio a oposições
políticas contra regimes autocráticos.
Com Trump os Estados Unidos abandonam ativistas
democráticos, jornalistas independentes e organizações cívicas, os autocratas
entendem a mensagem: há menos custos para reprimir. Governos autoritários podem
prender opositores, fechar ONGs, intimidar minorias e manipular eleições com
menor receio de sanções diplomáticas ou reputacional. A saída destas instituições por parte da América
não criam autoritarismos sozinhos, mas remove uma barreira que, durante
décadas, ajudou a limitar os seus abusos.
Outro alvo de Trump tem sido a
NATO que faz erodir as alianças históricas. A NATO e outras alianças americanas (Pacífico, por exemplo)
foram criadas para impedir que democracias ficassem isoladas perante potências
expansionistas. Eram compromissos de segurança, mas também sinais políticos,
garantia de que as democracias não enfrentariam sozinhas ameaças autoritárias.
Trump vê essas alianças com desconfiança. Para ele,
aliados são frequentemente devedores ingratos e não parceiros estratégicos. A
linguagem mercantilista de Trump substitui a linguagem de compromisso. A
solidariedade coletiva é condicionada ao pagamento, à obediência ou à utilidade
imediata. Tal atitude enfraquece a dissuasão de potenciais agressores. A força
da NATO não está apenas nos fornecimento ou nos orçamentos militares, está na
credibilidade da promessa de defesa mútua. Se adversários acreditam que essa
promessa depende do humor de um presidente, a aliança torna-se menos eficaz.
O abandono moral das alianças também é relevante. A atual
geração, à exceção de ideologias de extrema-esquerda, compreende que a segurança
americana também estaria ligada à sobrevivência de outras democracias. Trump
inverte essa lógica. A segurança torna-se uma relação comercial, e a liberdade
dos aliados passa a ser secundária face ao cálculo imediato.
Mark Rutte, secretário-geral da NATO, com a sua
subserviência a Trump, afirmou hoje segundo
The Guardian que “O presidente Trump espera plenamente que todos os aliados
se mobilizem imediatamente e entrem no caminho para 5% e façam isso com
urgência”. O que Trump espera é que estes orçamentos sejam destinados a compras
de material bélico aos EUA.
Especialistas apontam o fascínio e a inveja de Trump pela
capacidade desses governantes autocratas contornarem o escrutínio, a oposição
política e os trâmites legais. Levitsky, autor do livro “Como as democracias
morrem”, (2018) diz que o retorno ao poder de Trump, quatro anos depois, e pela
via eleitoral, deve levar os Estados Unidos a deixar de ser uma democracia e a converter-se
no que ele chama de “um regime autoritário competitivo”, no qual as eleições existem,
mas sem que as regras eleitorais sejam devidamente cumpridas. Com este
pensamento, se tal se pode chamar, Trump tenta subverter qualquer regime
democrático o que é provado por declarações factuais ao mostrar
admiração pela força autoritária. Afirmou ainda que a administração Trump
já causou danos graves: “Não
estamos mais a viver num regime democrático.”
Outro elemento inquietante é a afinidade retórica de
Trump com líderes fortes. Ao longo da sua carreira política, mostrou admiração
por figuras autoritárias, elogiando a sua capacidade de agir sem
constrangimentos institucionais.
Vladimir Putin, Recep Tayyip Erdogan, Viktor Orban,
Adolf Hitler, Xi Jinping, Kim Jong-un, Saddam Hussein são todos os
autoritários que, no passado (03/2014) terão recebido elogios do presidente dos
EUA Donald Trump, que prometeu aos americanos que ele também será um
ditador “no primeiro dia” de seu mandato.
Esta admiração revela uma visão de poder em que
governar é dominar, negociar é humilhar o outro, instituições independentes são
obstáculos, a imprensa é inimiga e a oposição é traição.
Esta visão é incompatível com a tradição
constitucional liberal dos EUA. A democracia baseia-se na ideia de que o poder
legítimo deve ser limitado. Trump, pelo contrário, comporta-se como se a
legitimidade eleitoral concedesse licença para capturar o Estado.
A diferença é fundamental. Um presidente democrático
aceita que vencer eleições não significa possuir o país, um líder autoritário
entende a vitória eleitoral como autorização para subjugar adversários, purgar
instituições e reescrever as regras a seu favor.
Empresas e a sociedade civil parecem
também entrar no jogo. Há
argumentos importantes como o de Eric
Schickler has published “What Donald Trump Has Taught Us acerca das
instituições políticas americanas é que a sociedade civil e o setor privado
nem sempre funcionam como barreiras automáticas contra o autoritarismo. Para
evitar retaliações muitas empresas, universidades, fundações, meios de
comunicação e organizações procuram acomodar-se ao poder. UC
Berkeley
Esta dinâmica é perigosa porque o autoritarismo
raramente avança apenas pela força bruta. Avança pela antecipação do medo.
Empresas cedem para proteger contratos ou aprovações regulatórias.
Universidades moderam críticas para evitar cortes. Meios de comunicação hesitam
perante ameaças legais ou económicas. Organizações cívicas adaptam-se para
sobreviver.
Esta sucessão de pequenas capitulações abona em favor
da tirania moderna. Cada um diz a si
próprio que está apenas a proteger a sua instituição. Mas, coletivamente, essas
concessões vão destruindo a capacidade de resistência so sistema democrático.
As promessas da eficiência do
Estado são, por vezes, plenas de vacuidades que apresentam ataques como sendo medidas de eficiência como
sejam cortar burocracia, reduzir desperdício, acelerar decisões, eliminar
“Estado profundo”. Mas essa linguagem esconde uma questão essencial que é da
eficiência para quem e sob que controlo?
Muitas das instituições democráticas que são
deliberadamente lentas existem para impedir corrupção, arbitrariedade e
perseguição política porque distribuem poder, tais como tribunais,
procedimentos administrativos, regras de contratação pública, supervisão
parlamentar, transparência orçamental e independência técnica não existem para
facilitar a vida do líder. Curiosamente no nosso país, Portugal, também vamos
escutando alguns destes argumentos. A promessa autoritária é sempre sedutora,
menos regras, menos debate, menos entraves. Mas o problema e o preço a pagar é
a concentração do poder. Quando se eliminam os controlos em nome da eficiência,
abre-se espaço para que decisões públicas sirvam lealdades privadas, vinganças
políticas ou interesses económicos próximos do governante. É a destruição como
método e sob o argumento reformista. Como
já escrevi noutro artigo é destruir primeiro reformar depois.

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