A digitalização prometeu libertar
os cidadãos da burocracia, das filas intermináveis e da espera sem resposta.
Mas, em demasiados casos, a promessa transformou-se no seu contrário: sistemas
automáticos difíceis de usar, atendimento distante e uma sensação crescente de
impotência perante serviços que deveriam simplificar a vida quotidiana.
Como se viu no caso dos exames implementados
pelo Ministério da Educação, nem sempre a realidade acompanha a promessa. E não
basta invocar, como por vezes se fez, uma suposta resistência à mudança para
explicar falhas que têm origem na conceção, na preparação e na execução dos
sistemas.
Durante vários anos da minha vida
profissional, antes de ingressar como professor no ensino superior, trabalhei
com tecnologias de informação. Passei pela análise e programação de sistemas,
ainda no tempo dos grandes equipamentos informáticos, e acompanhei depois a
chegada dos chamados computadores pessoais.
Ao longo do tempo, as tecnologias
digitais tornaram-se mais sofisticadas. Contudo, com o aparecimento dos sistemas
de atendimento telefónico automático, hoje usados pela maioria das empresas e por
muitas instituições do Estado, a promessa de simplificação ficou frequentemente
por cumprir. Em vez de facilitar a vida aos cidadãos, estes sistemas oferecem,
demasiadas vezes, longos tempos de espera e respostas pouco rápidas ou pouco
eficazes.
É verdade que, por vezes, as
coisas funcionam. Mas a experiência quotidiana mostra que esses casos são ainda
insuficientes. Criou-se uma frustração persistente, alimentada por razões
estruturais, técnicas e políticas. A tecnologia digital, os call centers automatizados e os sistemas
de atendimento de empresas privadas e do Estado acabam, muitas vezes, por
complicar aquilo que deveriam simplificar.
O que se verifica é que a digitalização
foi frequentemente pensada para a eficiência interna, e não para a conveniência
do cidadão. Grande parte das soluções digitais usadas por empresas e pelo
Estado foi desenhada para reduzir custos, automatizar tarefas, diminuir o
número de funcionários no atendimento e padronizar procedimentos. Tudo isso pode
compreender-se no âmbito da gestão interna: menos papel, maior controlo de
despesas e processos mais uniformes. O problema surge quando esta lógica deixa
de servir o utente e passa a afastá-lo da resposta de que necessita. Otimizar
para dentro não é o mesmo que servir melhor quem está fora.
Os sistemas automáticos passaram,
em muitos casos, a criar barreiras em vez de resolver problemas. Menus
telefónicos intermináveis — o conhecido “prima 1, prima 2” —, bots que
não compreendem perguntas simples e formulários incapazes de aceitar exceções
são sintomas de uma automatização excessiva, pouco testada e pouco flexível. A
tecnologia funciona razoavelmente bem em tarefas simples; falha quando o
problema exige interpretação humana, contexto e capacidade de adaptação ao caso
concreto de cada utente.
Falta, muitas vezes, investimento
sério na experiência do utilizador e em testes com pessoas reais, tanto nos
serviços públicos como nos privados. Sem recolha de opinião e sem correção das
falhas de usabilidade, o objetivo passa a ser apenas “ter o sistema a funcionar”,
e não “ter o sistema a funcionar bem para pessoas reais”. O caso do sistema
digital de exames é, neste domínio, particularmente elucidativo.
Digitalizar um processo
burocrático não o torna, por si só, menos burocrático. Se o procedimento
original era lento, redundante e cheio de passos desnecessários, a sua versão
digital apenas transfere a burocracia para o ecrã do computador ou para o
telefone.
A digitalização sem alternativa
exclui pessoas. Quando o atendimento presencial desaparece, o atendimento
telefónico se torna totalmente automatizado e o atendimento digital é complexo,
os cidadãos com menor literacia digital ficam, na prática, sem acesso real ao
serviço.
Em suma, a tecnologia digital e
os atendimentos automáticos falham quando são implementados sobretudo com
objetivos de eficiência administrativa, e não de serviço ao cidadão. O
resultado é conhecido: mais espera, menos respostas, mais frustração e menor
confiança nas instituições.

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