sábado, 4 de julho de 2026

Trump e a demolição por dentro da ordem que conteve o autoritarismo Parte I

 

Hoje 4 de julho os EUA celebram o aniversário da Revolução Americana, também conhecido como o Dia da Independência dos Estados Unidos. A data assinala a aprovação da Declaração de Independência em 1776. Resta-nos saber até que ponto a administração Trump tem estado, ou não, empenhada em destruir as instituições e alianças que a geração do pós-guerra criou para, em teoria, defender o mundo do autoritarismo e da tirania como se disse ao alongo de anos, apesar de este último ponto não ser totalmente correto, mesmo com administrações anteriores a Donald Trump.

Situando-nos na atualidade e pelo que pesquisas efetuadas há vários pontos de vista e estudos que nos mostram que Trump tem estado contra a ordem que conteve o autoritarismo.

A administração Trump representa assim uma rutura profunda com o projeto político, institucional e diplomático que os Estados Unidos ajudaram a construir depois da Segunda Guerra Mundial. Claro que este ponto de vista não é caro a alguma esquerda mais radical, o que é compreensível devido a factos passado com a política externa dos EUA.

O projeto assentava numa ideia tendo em vista impedir o regresso do fascismo, da tirania e da guerra entre grandes potências, era preciso criar instituições fortes, alianças duradouras, regras internacionais, administrações públicas profissionais, imprensa livre, universidades autónomas e uma sociedade civil capaz de limitar o poder arbitrário.

O que hoje podemos constatar é uma tentativa sistemática de inverter a construção dessa geopolítica. Não se trata apenas de uma mudança de prioridades partidárias, nem de uma política externa mais nacionalista da parte de Trump, trata-se de uma ofensiva contra os próprios mecanismos que a geração do pós-guerra criou para conter o poder, autocratas e proteger democracias vulneráveis. Neste aspeto o século passado não confirma esta tese em absoluto por parte dos EUA. Se por um lado dizia pretender defender as democracias, por outro, verificaram-se intervenções “negativas” em regiões e países onde até contribuiu para impor ditaduras.

Deixemos este passado e voltemos ao presente. A questão central já não é saber se Trump desafia normas democráticas. Isso é evidente. A questão é medir até que ponto a sua administração está empenhada em destruir, enfraquecer ou capturar as instituições que foram concebidas precisamente para impedir a concentração de poder que caracteriza os regimes autoritários.

Depois de 1945, os Estados Unidos desempenharam um papel decisivo na criação de uma ordem internacional fora da órbitra soviética. A NATO, as Nações Unidas, a promoção dos direitos humanos, os programas de ajuda externa, o apoio à reconstrução europeia, a defesa da imprensa livre e a consolidação de administrações públicas profissionais faziam parte de uma mesma visão: a democracia não sobreviveria apenas por eleições periódicas; precisava de instituições, normas e alianças.

Essa ordem tinha defeitos, contradições e hipocrisias. Os Estados Unidos como já referi anteriormente apoiaram ditaduras quando lhes convinha, assim como intervieram de forma desastrosa em vários países e aplicaram de forma seletiva os princípios que diziam defender. Mas, apesar dessas falhas, criaram-se barreiras reais contra o expansionismo autoritário, ajudou a estabilizar democracias na Europa e na Ásia e ofereceu apoio material e simbólico a movimentos cívicos em regimes repressivos.

As políticas e práticas de Trump rejeitam essa tradição. A sua política externa do “MAGA” -“America First” vê alianças não como compromissos estratégicos, mas como transações comerciais. Para Trump as instituições multilaterais não são instrumentos de estabilidade, mas antes constrangimentos vendo a promoção da democracia não como interesse nacional, mas como desperdício ou ameaça.

Em síntese o resultado é uma regressão para uma lógica das grandes potências a competirem sem regras fortes, aliados tratados como clientes, adversários autoritários são admirados pela sua força e a política internacional volta a uma espécie de arena de coerção pura.

Tem sido claro o contributo de Trump  para o enfraquecimento deliberado do Estado democrático nos EUA. O ataque de Trump às instituições começa dentro dos próprios Estados Unidos. Uma das premissas fundamentais do constitucionalismo americano é a separação de poderes: Congresso, tribunais, burocracia profissional, estados federados, imprensa, universidades e sociedade civil devem funcionar como contrapesos ao executivo. Ao longo de décadas tal foi suposto que assim continuasse incluindo por cientistas em ciência política.  A experiência Trump mostrou que esses contrapesos são mais frágeis do que era suposto. O professor Eric Schickler, da Universidade da Califórnia em Berkeley, argumenta que a presidência Trump expôs debilidades profundas nas instituições americanas: em vez de resistirem ao excesso de poder executivo, muitas instituições deferiram, acomodaram-se ou procuraram sobreviver individualmente o que é demonstrado no artigo “Political Science paper explores institutional weaknesses exposed by the Trump presidency Trump”, (Spowart, 2026); UC Berkley.

O que tem sido investigado, e é factual, tem sido divulgado através dos media do próprios EUA. As fragilidades do sistema democrático têm-se manifestado de várias formas e frequentemente tolerado ou normalizado a expansão do poder presidencial. A lei que deveria ser aplicada com independência profissional, tem sido alvo de purgas, intimidação e substituição por políticos leais ao presidente Trump. Agências técnicas, científicas e reguladoras têm sido enfraquecidas por cortes e pressões orçamentais e ataques à sua credibilidade.

Esta lógica é típica de governos autoritários: não é necessário abolir imediatamente as instituições; basta esvaziá-las, capturá-las ou torná-las incapazes de agir. A democracia continua formalmente de pé, mas os seus mecanismos de defesa deixam de funcionar.

Pelos artigos e opiniões que consultamos nos media dos EUA parece haver uma captura por lealdade que é um dos traços mais perigosos da administração Trump que é a substituição da competência institucional pela lealdade pessoal. Em democracias constitucionais, cargos públicos devem ser ocupados por pessoas comprometidas com a lei, a Constituição e o interesse público. Em regimes autoritários, a pergunta central é: “És leal ao líder?”

Essa mudança altera a natureza do Estado. Uma agência reguladora deixa de ser uma instituição que aplica regras gerais e passa a ser um instrumento de recompensa e punição. Os tribunais deixam de ser os defensores da legalidade e passam a ser uma arma política. A diplomacia deixa de servir interesses nacionais duradouros e passa a refletir impulsos pessoais e alianças ideológicas de curto prazo.

Passou a assistir-se ao ataque à ciência, à informação e a ordem democrática que também depende de infraestruturas de conhecimento como universidades, imprensa independente, estatísticas públicas, agências científicas, organismos reguladores, serviços diplomáticos e instituições de investigação. Estas entidades não são neutras em todos os sentidos, mas desempenham uma função essencial: criam uma realidade factual comum sobre a qual a política pode operar. Trump e os seus correligionários atacaram repetidamente essa infraestrutura. A imprensa é descrita como inimiga. Universidades são tratadas como centros de subversão. Cientistas e funcionários técnicos são pressionados quando as suas conclusões entram em conflito com a narrativa política. Agências ligadas ao clima, saúde pública, alimentação, ambiente e investigação tornam-se alvos porque produzem factos inconvenientes.

Segundo um documento do gabinete do senador Jeff Merkle“Toque de alarme dos sinos: As Dez Regras do Manual Autoritário

de Trump” são estas as dez regras:

Regra um: despedir os reguladores

Regra dois: encher o Governo com os leais

Regra três: demonizar o inimigo interior

Regra quatro: desrespeitar os procedimentos legais

Regra cinco: silenciar a liberdade de expressão

Regra seis: retirar o poder do orçamento do congresso

Regra sete: abusar da autoridade governamental

Regra oito: transformar o sistema de justiça numa arma

Regra nove: usar o exército para suprimir a dissidência

Regra dez: manipular a próxima eleição

Este ponto é decisivo. O autoritarismo não precisa apenas de controlar pessoas; precisa de controlar a realidade. Quando a verdade factual se fragmenta, quando toda a crítica é apresentada como conspiração, quando dados independentes são substituídos por propaganda, o cidadão perde a capacidade de julgar o poder.

A destruição institucional passa, portanto, pela destruição epistemológica: sem confiança em fontes independentes de conhecimento, só resta a palavra do líder.

São estes os caminhos que se abrem para o autoritarismo e autocracia e, no final, para uma ditadura.


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