O ataque por Israel-EUA ao Irão quase
que fez esquecer o conflito na faixa de Gaza que a comunicação social,
nomeadamente as televisões, deixaram-nos sem saber o ponto da situação. Mas, com base em informações de março de
2026, o conflito entre Israel e os palestinianos na Gaza encontra-se numa fase
complexa de transição, marcada por um cessar-fogo frágil, negociações para uma
segunda fase de estabilização e uma crise humanitária contínua. Conforme
notícia do Observador em 19 de março, “A televisão Al-Qahera News noticiou que
a passagem entre a Faixa de Gaza e o Egito foi retomada “em ambos os sentidos”
e transmitiu imagens aéreas de palestinianos a regressar a Gaza, alguns após
tratamento médico no Egito, mas também de ambulâncias à espera para irem buscar
feridos ou doentes palestinianos ao enclave.
Por ser um tema muito sensível, sujeito
a várias controvérsias e complexo, tenho evitado escrever sobre o conflito
Israelo-Palestiniano. Como este conflito pode ser analisado por ângulos
multifacetados o contributo da minha opinião sobre as causas remotas do
conflito decorre duma análise documental que, apesar de tudo, insere-se dum
ponto de vista pessoal e subjetivo.
O tema ocorreu-me da questão sobre as
causas sociais, políticas e implicitamente territoriais do conflito e das pressupostas
ameaças existenciais por parte de Israel. Tomei como base uma publicação de
2024 da Universidade de Boston por Jessica Stern, especialista em terrorismo, e
por Trauma Bessel van der Kolk, investigador em psiquiatria[i].
Não se trata duma reprodução do texto, mas duma síntese construída segundo o meu
ponto de vista que, como é óbvio, é discutível.
Muito já se escreveu ao logo do
século XX e seguinte sobre o Holocausto e sobre as narrativas da punição a seis
milhões de judeus por nazis descerebrados cujo trauma perdurou e ainda perdura na
nação israelita.
O trauma não é só individual, é também
coletivo, transmitido entre gerações, e tem moldado identidades, narrativas e
perceções de ameaça. O Holocausto terá causado no povo de Israel um trauma
coletivo com impacto psicológico na nação agravado ao longo de décadas pelas
várias administrações israelitas e também por movimentos criados por
sentimentos de compaixão para com o sofrimento do povo judeu na época do
nazismo.
Segundo especialistas o trauma
social judaico, profundamente moldado por atrocidades históricas como o
Holocausto e séculos de perseguições, tem ainda um impacto significativo e
complexo na identidade coletiva e nos comportamentos políticos. Traumas
intergeracionais não resolvidos podem fomentar uma “mentalidade de cerco” ou “trauma
escolhido” que às vezes alimenta o desejo de “vingança política” ou medidas
agressivas de autodefesa. Essa narrativa
é frequentemente invocada para justificar a existência e as ações do Estado de
Israel, vendo-o como a salvaguarda suprema contra ameaças
existenciais.
Assim, o impacto psicológico e
emocional profundo que afetou a comunidade e a nação israelita originada pelo evento
catastrófico da segunda guerra e a sua violência estrutural romperam laços
sociais, geraram medo contínuo transmitidos às gerações que moldaram
identidades e culturas. Memórias de violência tornaram-se parte da
cultura política e social não apenas no povo de Israel, mas também noutro ponto
de vista no povo palestiniano.
Em torno de experiências traumáticas
como o Holocausto e a expulsão violenta e desapropriação de centenas de
milhares de palestinianos durante a criação do Estado de Israel em 1948
gerou-se um processo que incluiu a destruição de comunidades, perda de
identidades nacionais, de terras e a negação do direito de regresso dos
refugiados, marcando profundamente a identidade e a história palestiniana.
Estas memórias coletivas moldam políticas, educação e atitudes face ao outro
grupo.
Não vou aqui desenvolver os
acontecimentos que se seguiram aos dados históricos sob administração do Reino
Unido pela Liga das Nações em 1922. Todos esses territórios tornaram-se eventualmente
Estados totalmente independentes, exceto a Palestina, cujo o Mandato Britânico
expressou apoio ao “estabelecimento na Palestina de um ‘lar nacional’ para o
povo judeu”. Assim, durante aquele Mandato, de 1922 a 1947, houve uma imigração
judaica em grande escala, principalmente da Europa Oriental, com números
aumentando na década de 1930 com a perseguição nazi. Este processo que pode ver aqui com mais pormenor
conduziu ao conflito que produziu um trauma crónico tanto nos israelitas como nos
palestinianos.
Em síntese: antes da Segunda Guerra
Mundial (1939-1945), o território hoje ocupado por Israel, a Cisjordânia e a
Faixa de Gaza, era conhecido como Palestina, sob administração britânica
(Mandato Britânico da Palestina) desde o fim da Primeira Guerra Mundial (1917)
até 1948. A população era maioritariamente composta por árabes palestinos
muçulmanos e cristãos, em passou também por uma rápida transformação
demográfica devido à imigração judaica. O que restou foram conflitos
permanentes entre ambos, mas especialmente por Israel que pretendeu sempre
ocupar pela força territórios que não lhe estavam destinados.
O ataque terrorista do Hamas a
Israel em outubro de 2023 deu início a um conflito devastador na Faixa de Gaza
que alguns observadores internacionais consideram como genocídio, não sendo reconhecido
por outros. A adoção da Convenção das Nações Unidas sobre Genocídio em dezembro
de 1948, que entrou em vigor em janeiro de 1951m e cujo artigo 2.º da convenção
define
genocídio como “qualquer um dos seguintes atos cometidos com a
intenção de destruir, no todo ou em parte, um grupo nacional, étnico, racial ou
religioso. Só os tribunais, como a Corte Internacional de Justiça e o Tribunal
Penal Internacional ou tribunais nacionais, têm autoridade legal para confirmar
essa acusação de forma definitiva.
Independentemente das dúvidas sobre
a existência ou não dum genocídio dos palestinianos Israel tem contado, neste
último conflito na faixa de Gaza, com o beneplácito dos EUA que já vem de
anteriores administrações e tem exercido uma força desajustada. O alvo deveria
ser apenas o Hamas, mas ataca indiscriminadamente escolas, hospitais e a
população civil indefesa com o pretexto, não comprovado, de alojarem elementos
hostis do Hamas. A ONU News em agosto 2024 escrevia que Israel tinha aumentado
ataques a escolas que abrigam deslocados da guerra em Gaza.
O tipo de intervenção de Israel com
o apoio de Trump conduziu à completa destruição de Gaza, talvez há tempo premeditada,
mas cujo ataque do Hamas acelerou e ajudou aos objetivos dos dois aliados
estratégicos na região, a ocupação selvagem e devastação da faixa de Gaza por
Israel.
A CNN dos EUA escrevia em janeiro de
2025 que a guerra entre Israel e Hamas reduziu grande parte de Gaza a
escombros. Ataques aéreos israelitas danificaram ou destruíram cerca de 60% dos
prédios, incluindo escolas e hospitais, e cerca de 92% das residências, segundo
a ONU aproximadamente dos moradores de Gaza foram deslocados, e muitos foram
forçados a mudar-se repetidamente, alguns mais de 10 vezes. Em comentários
feitos em 2024 pelo genro de Trump, Jared Kushner classificou a propriedade
à beira-mar em Gaza de “muito valiosa” e sugeriu que Israel deveria retirar os
palestinos de Gaza e “limpá-la”.
Recordemos que durante
uma conferência de imprensa com o primeiro-ministro de Israel, Benjamin
Netanyahu, Trump apresentou um plano amplo para que os EUA colonizassem Gaza e
construíssem lá resorts. “Não quero ser fofo. Não quero ser espertinho, mas a Riviera do Médio Oriente poderia
ser magnífico.”, disse Trump.
No que respeita ao genocídio dos
palestinianos perpetrado por Israel podemos considerar que o conceito não possa
ser o mais correto, mas, há um ditado popular que diz que “Há muitas formas
de matar uma pulga”.
Pode ainda acrescentar-se que o
hitlerismo no século XXI está a renasce, agora disfarçado de personagens como
Trump cujos comportamentos aleatórios e contraditórios o levam a tomar posições
de tentativas de ataque a países soberanos, invasões fora do direito
internacional, promoção de ameaças e ofensas a países e povos que não aceitam
as suas condições e rejeitam as suas opções invasivas e bélicas.
Podemos não gostar, ou não concordar
com um regime tal como o cubano ou venezuelano, mas note-se a insolência e o desplanto
no caso de Cuba que, segundo
o New York Times, o presidente Trump levantou a possibilidade de os Estados
Unidos “tomarem” Cuba, ao dizer na segunda-feira, 16 de março, a repórteres
na Casa Branca: “Acredito que terei a honra de tomar Cuba.”. “Levando Cuba.
Quero dizer, se eu libertar, agarro. Acho que posso fazer o que quiser com ele”,
disse. “Eles estão muito enfraquecidos agora.”.
Os EUA ao longo do século XX intervieram
em países para derrubar regimes que eram desfavoráveis aos seus interesses
financeiros e económico, daí incentivarem golpes de Estado para substituírem alguns
governos por outros a que chamavam democráticos, por vezes até ditaduras desde
que que lhes fossem favoráveis. Trump parece ter recuperado a propensão para
pensar resolver crises permanentes nas economias centralizadas dos regimes
comunistas que estes nunca seriam capazes de resolver, apenas tapar aqui e ali.
O caso do Irão parece estar a ser
diferente e pode vir a ser uma “camisa de onze varas” para Netanyahu e para o
seu aliado Trump porque, como escreve Faranaz Keshavje, “Ao imaginar o futuro
do Irão como uma transição linear entre regime e democracia, ignora-se a
complexidade das forças em jogo. E substitui-se análise por desejo”.

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