segunda-feira, 13 de abril de 2026

O Mundo é a nave dum louco - Uma ficção de Manuel-MAR


Uma personagem, figura excêntrica, surgiu com os seus apaniguados no centro de um salão dourado, repleto de espelhos que distorciam a realidade. As cidades do Mundo ainda dormiam e os relógios pareciam suspensos no tempo. Essa personagem caminhava agitadamente de um lado para o outro, à frente dos que o adulavam, sentados em sofás dourados, murmurando planos grandiosos, como se estivesse a dirigir uma orquestra invisível. Chamava-se Donald e já era conhecido o Arquiteto do Delírio a viver num mundo onírico.

Convencido de que a razão era uma prisão e a lógica um obstáculo à verdadeira grandeza, Donald tinha um objetivo singular: transformar o planeta inteiro numa gigantesca “nave de loucos”, onde cada pessoa viveria não segundo regras, mas segundo os seus impulsos, caprichos e fantasias. Falando para os seus fanáticos apaniguados dizia:

— Ordem é aborrecida! — exclamava ele, gesticulando pegando num globo do Mundo que girava lentamente, tal e qual como o personagem do filme da Chaplin “O Grande Ditador”.


— O caos, isso sim, é liberdade!

Para concretizar o seu plano, começou a enviar mensagens estranhas por todos os meios possíveis nomeadamente por uma rede social privada que mandou construir.

Discursos contraditórios, anúncios improváveis, ideias que mudavam a cada hora — tudo fazia parte de uma estratégia maior: confundir, desorientar, dissolver a linha entre o real e o absurdo. Para espanto de alguns, talvez muitos, mas pouco a pouco, algo começou a acontecer.

Em algumas cidades, as pessoas passaram a agir de forma imprevisível. Regras eram esquecidas, decisões tornavam-se impulsivas, e o mundo começava a assemelhar-se a um enorme palco onde ninguém sabia exatamente qual era o seu papel. Uns riam sem motivo, outros discutiam sobre coisas inexistentes, e até havia quem acreditasse que tudo aquilo era, de facto, um avanço.

No centro de tudo, Donald observava tudo isso com satisfação.

— Estão a perceber! — dizia, sorrindo para o seu reflexo multiplicado nos espelhos e para os seus apaniguados.

— Estão finalmente a libertar-se! Mas havia algo que ele não previra.

No meio do caos crescente, começaram a surgir pequenos grupos de pessoas que, em vez de se deixarem levar pela confusão, faziam o oposto: paravam, observavam, questionavam. Em silêncio, reconstruíam sentido onde ele parecia ter desaparecido. Essas pessoas não gritavam mais alto, nem tentavam impor ordem à força. Apenas recusavam entrar completamente no jogo da loucura.

E foi aí que a “nave de loucos” começou a revelar uma fissura.

Donald, perplexo, olhou novamente para o mapa. O caos não era total. Havia bolsas de clareza, pequenas ilhas de lucidez que resistiam à tempestade de absurdos.

— Não… isto não faz parte do plano… — murmurou, pela primeira vez hesitante.

Os espelhos à sua volta começaram a refletir algo diferente: não mais um líder absoluto do delírio, mas uma figura isolada, presa na sua própria construção.

E, enquanto o mundo oscilava entre desordem e consciência, tornava-se evidente uma verdade silenciosa: a loucura só domina completamente quando ninguém se lembra de questioná-la.





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