Uma personagem, figura excêntrica, surgiu com os seus apaniguados no centro de um salão dourado, repleto de espelhos que distorciam a realidade. As cidades do Mundo ainda dormiam e os relógios pareciam suspensos no tempo. Essa personagem caminhava agitadamente de um lado para o outro, à frente dos que o adulavam, sentados em sofás dourados, murmurando planos grandiosos, como se estivesse a dirigir uma orquestra invisível. Chamava-se Donald e já era conhecido o Arquiteto do Delírio a viver num mundo onírico.
Convencido de que a
razão era uma prisão e a lógica um obstáculo à verdadeira grandeza, Donald
tinha um objetivo singular: transformar o planeta inteiro numa gigantesca “nave
de loucos”, onde cada pessoa viveria não segundo regras, mas segundo os seus impulsos,
caprichos e fantasias. Falando para os seus fanáticos apaniguados dizia:
— Ordem é aborrecida! —
exclamava ele, gesticulando pegando num globo do Mundo que girava lentamente, tal
e qual como o personagem do filme da Chaplin “O Grande Ditador”.
— O caos, isso sim, é liberdade!
Para concretizar o seu plano, começou a enviar mensagens estranhas por todos os meios possíveis nomeadamente por uma rede social privada que mandou construir.
Discursos
contraditórios, anúncios improváveis, ideias que mudavam a cada hora — tudo
fazia parte de uma estratégia maior: confundir, desorientar, dissolver a linha
entre o real e o absurdo. Para espanto de alguns, talvez muitos, mas pouco a
pouco, algo começou a acontecer.
Em algumas cidades, as
pessoas passaram a agir de forma imprevisível. Regras eram esquecidas, decisões
tornavam-se impulsivas, e o mundo começava a assemelhar-se a um enorme palco
onde ninguém sabia exatamente qual era o seu papel. Uns riam sem motivo, outros
discutiam sobre coisas inexistentes, e até havia quem acreditasse que tudo
aquilo era, de facto, um avanço.
No centro de tudo,
Donald observava tudo isso com satisfação.
— Estão a perceber! —
dizia, sorrindo para o seu reflexo multiplicado nos espelhos e para os seus apaniguados.
— Estão finalmente a
libertar-se! Mas havia algo que ele não previra.
No meio do caos
crescente, começaram a surgir pequenos grupos de pessoas que, em vez de se
deixarem levar pela confusão, faziam o oposto: paravam, observavam,
questionavam. Em silêncio, reconstruíam sentido onde ele parecia ter
desaparecido. Essas pessoas não gritavam mais alto, nem tentavam impor ordem à
força. Apenas recusavam entrar completamente no jogo da loucura.
E foi aí que a “nave de
loucos” começou a revelar uma fissura.
Donald, perplexo, olhou
novamente para o mapa. O caos não era total. Havia bolsas de clareza, pequenas
ilhas de lucidez que resistiam à tempestade de absurdos.
— Não… isto não faz
parte do plano… — murmurou, pela primeira vez hesitante.
Os espelhos à sua volta
começaram a refletir algo diferente: não mais um líder absoluto do delírio, mas
uma figura isolada, presa na sua própria construção.
E, enquanto o mundo
oscilava entre desordem e consciência, tornava-se evidente uma verdade
silenciosa: a loucura só domina completamente quando ninguém se lembra de
questioná-la.

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