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segunda-feira, 13 de abril de 2026

O Mundo é a nave dum louco - Uma ficção de Manuel-MAR


Uma personagem, figura excêntrica, surgiu com os seus apaniguados no centro de um salão dourado, repleto de espelhos que distorciam a realidade. As cidades do Mundo ainda dormiam e os relógios pareciam suspensos no tempo. Essa personagem caminhava agitadamente de um lado para o outro, à frente dos que o adulavam, sentados em sofás dourados, murmurando planos grandiosos, como se estivesse a dirigir uma orquestra invisível. Chamava-se Donald e já era conhecido o Arquiteto do Delírio a viver num mundo onírico.

Convencido de que a razão era uma prisão e a lógica um obstáculo à verdadeira grandeza, Donald tinha um objetivo singular: transformar o planeta inteiro numa gigantesca “nave de loucos”, onde cada pessoa viveria não segundo regras, mas segundo os seus impulsos, caprichos e fantasias. Falando para os seus fanáticos apaniguados dizia:

— Ordem é aborrecida! — exclamava ele, gesticulando pegando num globo do Mundo que girava lentamente, tal e qual como o personagem do filme da Chaplin “O Grande Ditador”.


— O caos, isso sim, é liberdade!

Para concretizar o seu plano, começou a enviar mensagens estranhas por todos os meios possíveis nomeadamente por uma rede social privada que mandou construir.

Discursos contraditórios, anúncios improváveis, ideias que mudavam a cada hora — tudo fazia parte de uma estratégia maior: confundir, desorientar, dissolver a linha entre o real e o absurdo. Para espanto de alguns, talvez muitos, mas pouco a pouco, algo começou a acontecer.

Em algumas cidades, as pessoas passaram a agir de forma imprevisível. Regras eram esquecidas, decisões tornavam-se impulsivas, e o mundo começava a assemelhar-se a um enorme palco onde ninguém sabia exatamente qual era o seu papel. Uns riam sem motivo, outros discutiam sobre coisas inexistentes, e até havia quem acreditasse que tudo aquilo era, de facto, um avanço.

No centro de tudo, Donald observava tudo isso com satisfação.

— Estão a perceber! — dizia, sorrindo para o seu reflexo multiplicado nos espelhos e para os seus apaniguados.

— Estão finalmente a libertar-se! Mas havia algo que ele não previra.

No meio do caos crescente, começaram a surgir pequenos grupos de pessoas que, em vez de se deixarem levar pela confusão, faziam o oposto: paravam, observavam, questionavam. Em silêncio, reconstruíam sentido onde ele parecia ter desaparecido. Essas pessoas não gritavam mais alto, nem tentavam impor ordem à força. Apenas recusavam entrar completamente no jogo da loucura.

E foi aí que a “nave de loucos” começou a revelar uma fissura.

Donald, perplexo, olhou novamente para o mapa. O caos não era total. Havia bolsas de clareza, pequenas ilhas de lucidez que resistiam à tempestade de absurdos.

— Não… isto não faz parte do plano… — murmurou, pela primeira vez hesitante.

Os espelhos à sua volta começaram a refletir algo diferente: não mais um líder absoluto do delírio, mas uma figura isolada, presa na sua própria construção.

E, enquanto o mundo oscilava entre desordem e consciência, tornava-se evidente uma verdade silenciosa: a loucura só domina completamente quando ninguém se lembra de questioná-la.





segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

As Inovações Autoritárias de Trump

Vale a pena ler aqui o artigo publicado no Project Syndicate, organização internacional de media sem fins lucrativos que publica, investiga e faz comentários e análises sobre vários temas globais.


Dec 5, 2025


Ruth Ben-Ghiat


Ruth Ben-Ghiat


Ruth Ben-Ghiat, professora de História e Estudos Italianos na Universidade de Nova York, é autora de Strongmen: Mussolini to the Present (W.W. Norton & Company, 2020).


Trump-Autoritarismo.jpg


Durante o seu segundo mandato, Donald Trump juntou-se a uma longa linhagem de autocratas que chegam ao poder por meio de eleições apenas para corroer a democracia, com o objetivo final de instalar um regime autoritário. Mas muito no seu primeiro ano e de volta ao governo assemelha-se mais às consequências de golpes.


NOVA YORK – Todo o aspirante a autocrata que assume o poder numa sociedade livre utiliza medidas e métodos testados pelo tempo para deslegitimar e, em última instância, derrotar a democracia. O presidente dos EUA, Donald Trump, não é exceção. Mas a administração Trump também está a dar a sua própria abordagem ao manual autocrático, com três inovações que não têm paralelo entre autocratas contemporâneos que chegaram ao poder por meio de eleições.


Autoritarismo pode ser definido como a expansão da autoridade e do poder pessoal do executivo, em detrimento dos outros poderes do governo, especialmente do judiciário. As instituições estatais tornam-se ferramentas com as quais o líder pune inimigos, lida com problemas financeiros e legais pessoais, acumula riqueza privada e consolida o poder. A primazia desses objetivos explica por que os autocratas valorizam a lealdade em vez da competência ou experiência. Do presidente russo Vladimir Putin e do presidente turco Recep Tayyip Erdoğan ao primeiro-ministro húngaro Viktor Orbán e Trump, autocratas povoam os seus círculos íntimos com familiares, bajuladores e comparsas, funcionários incapazes.


As cenas que hoje se desenrolam pelos Estados Unidos lembram a história de regimes autoritários, incluindo juntas militares. Tropas percorrem as ruas da cidade, e forças de segurança estaduais mascaradas capturam pessoas e as "desaparecem" para prisões nacionais e estrangeiras. Com unidades da Guarda Nacional estadual criando "forças de reação rápida" para "controle de multidões" a pedido do Pentágono, e o Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA (ICE) a aumentar seus gastos anuais com armas, blindados e armas químicas em 600%, uma "guerra eterna" doméstica contra cidadãos americanos parece provável.


Como qualquer regime autocrático, a administração Trump precisa de medias complacentes para promover narrativas aprovadas pelo governo e minimizar a cobertura desfavorável, incluindo evidências da sua incompetência em políticas económicas. Esse ambiente mediático é criado em parte por meio de colaborações que promovem o processo de captura dos media, como a compra da CBS News por David Ellison, filho do bilionário apoiante de Trump, Larry Ellison.


A intimidação também ajuda: o Washington Post, da propriedade do fundador da Amazon, Jeff Bezos, não publica mais opiniões que não estejam alinhadas com os princípios aprovados pela administração de "liberdades pessoais e mercados livres", e a ABC News desembolsou 15 milhões de dólares para resolver um processo frágil por difamação movido por Trump. Ele continua a criticar e insultar repórteres que o desafiam, e ameaça revogar licenças de transmissão por cobertura pouco lisonjeira. Enquanto isso, o Pentágono cortou o acesso a qualquer jornalista que se tenha recusado a assinar um compromisso de não reportar nenhuma informação "não autorizada".


Outro elemento familiar do projeto autoritário de Trump é a normalização do extremismo e do racismo. Trump recebeu o supremacista branco Nick Fuentes, amante de Hitler, em Mar-a-Lago, em 2022, e colocou um vídeo em 2024 sugerindo que votar nele era um voto pelo estabelecimento de um "Reich unificado". Comparsas de Trump como Elon Musk, o ex-estratéga-chefe da Casa Branca Steve Bannon e o alto funcionário da Patrulha de Fronteira Gregory Bovino realizaram publicamente continências ao estilo nazista.


Líderes emergentes do Partido Republicano estão a assumir com entusiasmo esse plano extremista. Em outubro, o Magazine Politico publicou um grupo no Telegram no qual jovens e funcionários do Partido Republicano no meio de carreira usavam insultos raciais, zombavam sobre estupro e discutiam o envio de opositores políticos para câmaras de gás. O vice-presidente JD Vance descartou as mensagens como "piadas."


Isso é especialmente preocupante porque, enquanto os cultos à personalidade dos homens fortes dependem da ideia de TINA – "não há alternativa" ao líder – a idade avançada de Trump e o seu aparente declínio físico e cognitivo tornaram a sucessão uma questão importante para o seu movimento Make America Great Again (MAGA). Os arquitetos do Projeto 2025, que basicamente delineou a agenda do segundo mandato de Trump, assim como nacionalistas cristãos, o aliado de Musk Peter Thiel e outros interessados, investiram fortemente em Vance, que esperam que possa levar a autocracia americana para o futuro. Mas Vance é impopular além dos fiéis MAGA e parece improvável  vencer uma eleição presidencial livre e justa em 2028 contra um candidato democrata.


A maioria dos autocratas hoje continua a realizar eleições, mas manipula o sistema de modo que seja difícil para a oposição prevalecer (como na Turquia e na Hungria) ou recusar-se a deixar o cargo caso perca (Venezuela). Mas, dadas as limitações de Trump, os EUA podem experimentar um desentendimento acelerado do eleitorado, ou até mesmo uma suspensão das eleições por meio da declaração de lei marcial ou algum outro estado de exceção. Trump já sugeriu a ideia de acabar com as eleições. "Daqui a quatro anos, você não precisará mais votar", disse Trump a apoiantes cristãos num evento de campanha em 2024. "Vamos consertar tudo tão bem que não vai ser precisar votar mais."


Um ritmo alucinante


Isso leva-nos à primeira das inovações autocráticas de Trump: a velocidade, o desígnio e a escala da transformação dos Estados Unidos. Em questão de meses, Trump fez mudanças abruptas e radicais na política económica e comercial dos EUA; desestabilizou posições de longa data na política externa, alianças e arranjos de inteligência; e desencadeou operações do ICE que atrapalham o cotidiano de cidadãos e imigrantes nascidos nos EUA.


Outros autocratas contemporâneos que chegaram ao poder por meio de eleições, incluindo Erdoğan, Orbán e Putin, não causaram um nível comparável de agitação durante o seu primeiro ano no cargo. Como também observou Anne Applebaum, da The Atlantic (ver) primeiro ano de Trump assemelha-se mais a momentos de mudança de regime, às consequências de golpes bem-sucedidos ou às repressões que se seguiram a golpes fracassados (como a revolta militar de 2016 contra Erdoğan).


Essa Blitzkrieg foi possível em parte graças ao Projeto 2025 da Heritage Foundation. Durante a presidência de Joe Biden, os arquitetos do projeto atuaram como uma espécie de governo sombra, planeando a destruição de instituições democráticas e o recrutamento do governo federal com um "exército" de agentes cuidadosamente selecionados que seriam "ativados" no primeiro dia do segundo mandato de Trump. A sua tarefa: mudar as culturas políticas e de governança dos Estados Unidos para o autoritarismo.


Autoritários pensam grande e pensam no longo prazo. As figuras que agora moldam a política dos EUA – como o principal organizador do Projeto 2025, Russell Vought (agora diretor do Escritório de Gestão e Orçamento), e o vice-chefe de gabinete da Casa Branca, Stephen Miller – sabem que criar um serviço público compatível é essencial. Isso explica as purgas da administração Trump em funcionários federais dos setores militar e civil, incluindo o Departamento de Justiça. Só apagando a experiência profissional e a memória institucional do governo poderão criar um serviço público receptivo a práticas autoritárias – um novo "estado profundo" que permanecerá no poder muito tempo depois da saída de Trump.


O Oligarca no Comando


O ataque de Trump à democracia dos EUA também foi possibilitado pela sua aliança com Musk, o homem mais rico do mundo, e pela criação do Departamento de Eficiência Governamental (DOGE), sob a responsabilidade de Musk. Oligarcas normalmente operam fora do governo, comprando propriedades de media ou de financeiras que podem aproveitar a serviço do autocrata. Mas Trump efetivamente fez de Musk – que havia investido muito para elegê-lo – seu co-líder.


Durante as primeiras semanas da presidência de Trump, Musk falou regularmente em reuniões de gabinete e no Salão Oval, inclusive para a imprensa, e reuniu-se com chefes de Estado estrangeiros, como o primeiro-ministro indiano Narendra Modi. Musk foi tão proeminente nesse período que a revista Time o retratou atrás da Resolute Desk do presidente no Salão Oval numa capa de fevereiro de 2025.


Mas o envolvimento de Musk no governo foi além do espetáculo. Como chefe do DOGE, Musk teve acesso a sistemas de dados dos EUA, com os seus agentes a dotar métodos ilegais que são características da mudança de regime. Como soldados a executar um golpe, ocuparam prédios governamentais, por vezes impedindo a entrada de membros do Congresso; demitiu milhares de funcionários públicos após proibi-los de aceder aos seus próprios sistemas de computador; e removeram fisicamente funcionários que tentavam impedi-los de apreender propriedades digitais.


O verdadeiro objetivo do DOGE nunca foi "aumentar a eficiência", mas sim criar um "banco de dados centralizado único com vastos recursos pessoais sobre milhões de cidadãos e residentes dos EUA", que pudesse ser usado para vigilância governamental e treino em IA. Para Musk, as atividades do DOGE também ofereciam uma oportunidade de desmantelar agências que ameaçavam as suas empresas com investigações e multas, além de direcionar negócios governamentais nacionais e estrangeiros para seus produtos.


Musk deixou publicamente o DOGE em maio, e o "departamento" centralizado foi recentemente dissolvido. Mas a agência continua operando clandestinamente em centenas de agências, escritórios e departamentos do governo dos EUA. Muitos estados dos EUA possuem uma força-trabalho do DOGE: em Idaho, mais de 70 departamentos, escritórios, programas e comissões estão a ser considerados para cortes a partir de novembro. A Vought, em quem convergem o Projeto 2025 e o DOGE, agora compromete-se a tornar as mudanças do DOGE permanentes.


Esse roubo de dados combinado com infiltração estatal não tem precedentes. Os tiranos atuais e aspirantes ao poder do mundo têm muito a aprender.


Tornando os Adversários da América Grandes


"Se você tem um presidente inteligente, eles não são inimigos", disse Trump sobre a Rússia, China e Coreia do Norte num comício de campanha na Virgínia em junho de 2024. "Você vai fazê-los saírem-se bem." Trump certamente está afazer isso: ao destruir sistematicamente os alicerces da prosperidade, prestígio e boa vontade dos EUA no mundo, ele contribui para um declínio do poder americano, tanto duro quanto brando, que beneficiará as autocracias estrangeiras que ele tanto admira. Aqui reside a terceira inovação autocrática de Trump.


Muitos dos ditadores mais notórios do mundo levaram os seus países à ruína, como o ter cortado a assistência pública (Augusto Pinochet, do Chile), apropriando-se de fundos para si mesmos e para os seus comparsas (Mobutu Sese Seko, no Congo, Muammar el-Qaddafi na Líbia e Putin), ou envolvendo-se em guerras catastróficas ou campanhas revolucionárias (Benito Mussolini, Adolf Hitler e Mao Zedong=Mao Tse Tung). Mas a administração Trump é incomum no seu aparente compromisso de destruir os pilares da prosperidade de longo prazo dos EUA – educação, saúde, pesquisa e política climática – e dizimar a confiança e a boa vontade em relação aos EUA no exterior.


Embora quase todos os autocratas politizem a ciência e a medicina, a maioria avança gradualmente para mudar o arcabouço institucional em que essas disciplinas são praticadas. Os nazis só criaram o Ministério do Reich para Ciência, Educação e Cultura em maio de 1934, mais de um ano após a Lei de Habilitação conceder a Hitler poder irrestrito. Em contraste, Trump destruiu a capacidade científica dos Estados Unidos quase imediatamente ao retornar à Casa Branca, cortando o financiamento federal para pesquisa e restringindo o trabalho das instituições mais prestigiadas do país, como os Institutos Nacionais de Saúde. Até mesmo ao trabalho sobre os cancros infantis foi retirado financiamento.


A determinação fanática demonstrada por oficiais de Trump nesse processo assemelha-se à mentalidade de funcionários fascistas e comunistas, incluindo aqueles que implementaram a devastação da ciência e da medicina chinesas por Mao durante a Revolução Cultural. Robert F. Kennedy Jr., secretário de saúde e serviços humanos de Trump – que frequentemente defende a medicina charlatã em vez da ciência legítima – arquitetou a saída de quase um quarto de seu departamento (20.000 trabalhadores) em apenas alguns meses.


"Em rajadas rápidas", a administração Trump "demitiu grandes equipes de cientistas, encerrou milhares de projetos de pesquisa e propôs cortes profundos nos gastos para novos estudos", informou o The New York Times em agosto, acrescentando que o corte orçamentário proposto de 44 biliões de dólares para o próximo ano seria "a maior queda no apoio federal à ciência desde a Segunda Guerra Mundial." A ciência tem sido "há muito tempo um dos principais motores da preeminência global dos EUA", escreve o jornalista do Guardian Robert Tait, e por isso ela precisa ser destruída.


Essa iniciativa, juntamente com a redução mais ampla da presença de soft power dos EUA e o recuo da liderança global, está a criar as condições para que a doutrina da "multipolaridade" defendida por autocratas como Putin e o presidente chinês Xi Jinping tenha sucesso. A China já está a intervir para preencher as lacunas deixadas pelos EUA como fabricante de energia limpa e parceiro comercial. Nesse sentido, é à China que a MAGA está "a fazer muito bem".


Como outras inovações de Trump, o esforço para desmontar o prestígio e o poder dos EUA parece ser projetado para obter resultados o mais rápido possível, independentemente dos custos humanitários. A destruição pela Agência dos EUA para o Desenvolvimento Internacional (USAID), que salvou cerca de 92 milhões de vidas nas últimas duas décadas, mostra o quão altos esses custos podem ser.


Dhruv Khullar, médico e professor da Weill Cornell Medicine, enquadra corretamente os ataques da administração Trump à formação médica e à inovação biomédica como "subversão". Essa é a palavra certa, e deveria ser aplicada de forma mais ampla. Enquanto a administração Trump, os seus apoiantes políticos e o seu aparato ideológico trabalham arduamente para destruir a estabilidade dos EUA e o bem-estar dos americanos, eles não estão apenas a acelerar a transição do país de uma sociedade livre para uma autocracia. O deles é um esforço holístico para derrubar uma superpotência.

segunda-feira, 21 de julho de 2025

A sério? MAGA! Make America Great Again?

A sério? – MAGA!


Make America Great Again?


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O slogan Trumpista MAGA-Make America Great Again é uma cópia do que a Grã-Bretanha utilizou quando, em 5 de junho de 1975, realizou um referendo sobre a permanência do país no que era então o Mercado Comum. Bastou-lhe trocar o “B” pelo “A” e está feito.


A pergunta era na altura, em 1975: “Você acha que o Reino Unido deveria permanecer na Comunidade Europeia (Mercado Comum)?” como se pode ver na imagem abaixo.


Curiosamente, slogans semelhantes ressurgem ao longo da história, adaptando-se a diferentes contextos políticos e culturais, mas sempre evocando um sentimento de retorno a um passado idealizado. No caso do Reino Unido em 1975, a campanha refletia tanto incertezas quanto aspirações de renovação nacional - uma dinâmica recorrente em debates sobre identidade e pertença coletiva.


O MAGA de Trump que é uma cópia do passado da Inglaterra (ou ver imagem diretamente) está a falhar a vários níveis porque segundo analistas muitas das políticas de Donald Trump enraizadas numa retórica nostálgica que têm lutado, até agora, sem conseguirem concretizar as amplas melhorias por ele prometidas. Os críticos apontam para divisões sociais persistentes, resultados económicos mistos e desafios no cenário mundial como evidência de que o retorno previsto a um passado idealizado permanece indefinido. Em vez disso, estas políticas destacaram frequentemente as complexidades de governar num mundo em rápida mutação, onde simples slogans raramente se traduzem em soluções eficazes.


Segundo uma sondagem da NORC em 17 de julho,  apenas cerca de um quarto dos adultos dos EUA dizem que as políticas do presidente Donald Trump os ajudaram desde que assumiu o cargo, com notas abaixo do esperado em questões-chave, incluindo economia, imigração, gastos do governo e saúde.


O presidente republicano não consegue obter a aprovação da maioria em nenhuma das questões incluídas na pesquisa da NORC. Sobre o seu extenso projeto de lei orçamentária, poucos acreditam que ele entende os problemas enfrentados por pessoas como ele.

quinta-feira, 20 de março de 2025

Trump e o controle sobre a liberdade de imprensa

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Em todo o mundo extremas-direita, direitas radicais, autocracias ou outros modelos ditatoriais rejubilam com Trump no poder nos EUA. Há uma reciprocidade neste jubilo estes vêm-no como exemplo a seguir e Trump pretende pertencer a esse grupo.  Quanto aos plutocratas não precisam estar necessariamente dentro do governo para exercer o poder. Praticam-no por meio de grupos de pressão, garantindo leis favoráveis aos seus negócios e prejudiciais a outras pessoas tais como concentração de poder, leis que não protegem o trabalhador, violência ou leis coercivas para garantir o uso do território para determinadas empresas.


O que Trump tem vindo a fazer com as suas ordens executivas é colocar em causa a democracia dos EUA que era vista como um exemplo da democracia para o mundo e contra países com regimes ditatoriais, autocratas, sem esquecermos que, no passado, tiveram um contributo para o derrube de governos que não tivessem assentimento pelo regime americano.


As medidas executivas de Trump, para além de colocarem em causa o regime democrático americano, aproximam-se de pontos de vista ideológico e de atuação das ditaduras, autocracias, plutocracias e, algumas delas, próximo nazismo.


Um artigo publicado hoje no jornal Público relata que tem havido ameaças a juízes. Escreve que: “Confrontado com um número crescente de reveses e entraves à sua Administração nos tribunais, o Presidente norte-americano, Donald Trump, subiu esta semana o tom das suas críticas ao poder judicial, apelando ao Congresso para depor o juiz que decretou a suspensão da deportação de cidadãos estrangeiros à luz de uma lei do século XVIII, o Alien Enemies Act”. Não sei os que pensam disto os senhores apoiantes de Trump e também o partido CHEGA.


Se visitarmos a imprensa online dos EUA, alguns até próximos do Partido Republicano, verificamos que têm vindo a crescer críticas à atuação da presidência Trump conhecida como versão 2.0.


Donald Trump tem uma visão enraizada de que a comunicação social nos EUA é “verdadeiramente inimiga do povo” e que, por isso, deve ser substituída por fontes de informação alinhadas com as suas opiniões pessoais e sob o seu controle dos seus aliados. Disse-o em novembro de 2022, já depois de terminado o seu primeiro mandato.


A censura aos media tem sido um dos seus objetivos. No início de janeiro, por exemplo, a cartunista vencedora do Prémio Pulitzer Ann Telnaes renunciou ao seu cargo de longa data no Washington Post depois que o seu cartum de Bezos, (Jeff Bezos é o empresário fundador da Amazon e dono do The Washington Post), e de outros multimilionários da tecnologia subservientes a Trump foi retirado pelo jornal antes da publicação (ver imagem abaixo).


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Um colaborador freelance do jornal LA Times disse que um seu artigo foi alterado minutos antes da publicação para deturpar as suas opiniões sobre o perigo de Robert F. Kennedy Jr. para liderar o Departamento de Saúde.


É possível que nenhuma dessas decisões reflita a censura do governo, contudo, a censura direta não é a única maneira de minar a imprensa livre. Criar um ambiente no qual os órgãos de comunicação social comecem a fazer autocensura a opiniões sobre os que detêm o poder é uma maneira menos complicada de alcançar o mesmo resultado.


Têm sido significativas as críticas nos meios de comunicação social norte-americanos às ações da atual Presidência dos EUA sobre a liberdade de expressão e o excesso da atuação governamental. Uma preocupação recorrente é a suposta pressão do governo sobre as plataformas das redes sociais para suprimir conteúdo rotulado considerado como desinformação. Os críticos argumentam que esta abordagem infringe os direitos constitucionais visto que esbate a linha que separa o combate aos conteúdos nocivos e a restrição da liberdade de expressão.


Alguns meios de comunicação têm destacado os esforços do governo para regular o discurso online. Sugerem que essas medidas poderão estabelecer um precedente perigoso para o envolvimento do governo nas plataformas privadas. Isto tem gerado debates sobre a questão da garantia da segurança pública como justificação e a preservação das liberdades individuais.


Tudo isto reflete preocupações sobre o papel do governo na formação do discurso público e as potenciais implicações para os princípios democráticos. Além disso, críticos apontam para a intromissão em decisões privadas e apontam para haver um debate sobre o equilíbrio entre a justificação para o combate à desinformação como pretexto e a proteção da liberdade de expressão.


Críticas dos meios de comunicação norte-americanos às ações da atual presidência em matéria de palavras proibidas e remoção de documentos têm sido várias. Relatórios sugerem que agências federais estão a ser orientadas para eliminar dos documentos e sites oficiais certos termos considerados “woke”[i], como “diversidade”, “equidade” e até “mulheres”. O argumento parte do pressuposto de que este tipo de decisões mina a inclusão e a transparência, com alguns rotulando-o como uma tentativa de remodelar o discurso público para se alinhar com visões ideológicas específicas de Trump, e sugerem que são próximas das ditaduras. Estas medidas têm sido descritas como contraditórias entre o compromisso declarado sobre a liberdade de expressão e o equilíbrio que deve existir entre a aplicação de políticas e os princípios democráticos, o que tem originado discussão sobre o tema em vários artigos.


Os EUA que se afirmavam como os grandes defensores da liberdade, criticados pelos extremistas de esquerda, e se apresentavam como sendo o braço das democracias liberais do ocidente estão a caminhar e a aproximarem-se de ditaduras que parece estar a proliferar pelo mundo.


 


[i] «Sinónimo de políticas liberais ou de esquerda, que defendem temas como igualdade racial e social, feminismo, o movimento LGBTQIA+, o uso de pronomes de género neutro, o multiculturalismo, a vacinação, o ativismo ecológico e o direito ao aborto.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2025

Nem só os loucos sofrem de psicose

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Se perguntarmos a especialistas em psicologia ou em psiquiatria o que é uma psicose obteremos respostas tais como conjunto de sintomas que afetam a mente, onde houve alguma perda de contato com a realidade e dificuldade em reconhecer o que é real e o que não é, mesmo face a evidências. Ou ainda uma condição de saúde mental que se caracteriza por uma desconexão da realidade. Ou experimentar sintomas como delírios, isto é, crenças falsas firmemente mantidas apesar de evidências contrárias. Ou ainda outros sintomas que incluem perturbação da mente que causa dificuldades em determinar o que é ou não real e comportamento inapropriado para determinada situação e também perda capacidade emocional.


Posso acrescentar ainda que, a negação da realidade evidenciada pode ser um sintoma de psicose. Esses delírios podem levar à negação da realidade de diversas formas, como acreditar que eventos que não ocorreram realmente aconteceram ou que situações reais não são verdadeiras. A negação das evidências científicas sobre vários temas pode ser um dos sintomas.


Analisando atentamente declarações e fazendo uma análise de conteúdo das intervenções de Donald Trump por um especialista em psicologia ou em psiquiatria desde que concorreu pela primeira vez às eleições nos EUA detetar-se-iam alguns sintomas característicos de psicose.


Contudo, se a pessoa em questão está em estado de negação consciente, isto é, nega as evidências apenas com algum propósito então entramos noutra particularidade que é a intencionalidade do objetivo que tem um fim em vista que é a obtenção de vantagens pessoais quaisquer que sejam, que podem ser políticas e ou de poder.


A psicose não é exclusiva das pessoas que são comumente rotuladas como “loucas”. Na realidade, a psicose pode afetar pessoas de todas as esferas da vida e pode ser uma manifestação de várias condições de saúde mental. Qualquer pessoa pode experimentar um ou vários episódios psicóticos em determinadas circunstâncias como por exemplo, entre outras, experiências traumáticas, sejam emocionais, físicas ou sexuais. Situações de grande stress podem precipitar também episódios psicóticos.


Assim, negar conscientemente as evidências com o objetivo de obter vantagens pessoais que podem ser políticas ou de exercício de poder, pode ser diferente da negação da realidade observada na psicose.


Trump parece estar em estado de negação consciente, por isso, é mais provável que ele esteja a agir de forma intencional e estratégica, possivelmente com motivações egoístas, narcisistas ou a evitar consequências negativas. Essa forma de negação pode estar associada a comportamentos manipulativos ou desonestos, e não necessariamente a uma condição de saúde mental. Portanto, a negação da realidade devido à psicose é uma questão de saúde mental, enquanto a negação consciente da realidade com um propósito específico é uma questão comportamental e ética,


Donald Trump tem sido conhecido por negar várias evidências, especialmente em relação às eleições presidenciais dos Estados Unidos de 2020. Frequentemente alegou, sem apresentar provas, que houve fraude eleitoral generalizada que resultou na vitória de Joe Biden. Essas alegações foram repetidamente desmentidas por autoridades eleitorais e judiciais, incluindo membros do próprio partido republicano.


Além disso, Trump também foi acusado de interferência eleitoral e de tentar anular os resultados das eleições de 2020. Essas ações e alegações têm sido amplamente discutidas e investigadas, mas até agora, não foram apresentadas evidências concretas que sustentem suas afirmações de fraude eleitoral. Essas alegações foram desmentidas por várias investigações e revisões judiciais.


Donald Trump tem negado várias evidências em diferentes áreas, incluindo questões climáticas e saúde pública. Os exemplos são vários.


Trump chamou frequentemente “farsa” às mudanças climáticas e retirou os Estados Unidos do Acordo de Paris, que visa combater o aquecimento global; desconsiderou evidências científicas sobre o impacto das atividades humanas no clima.


Durante a pandemia, Trump minimizou a gravidade do vírus e promoveu tratamentos não comprovados, como a hidroxicloroquina, e também criticou e desacreditou especialistas em saúde pública e as suas recomendações, chamando algumas informações “notícias falsas”.  Em alguns momentos, defendeu ou mencionou tratamentos que não tinham comprovação científica, o que foi rotulado por muitos especialistas como irresponsável.


Mas há outras evidências como a deslegitimação de fontes ao chamar de “fake news” às informações que divergiam de sua visão ou que criticavam as suas ações. Trump procurou minar a credibilidade dos meios de comunicação e de instituições que apresentavam dados contrários às suas posições. 


As atitudes de Trump geraram debates intensos tanto no meio científico quanto na sociedade, levantando preocupações sobre os efeitos que a disseminação de desinformação pode ter na formulação de políticas causando desconfiança na população em relação às informações e dados credenciados.


Tudo isto tem impacto na opinião pública porque o tipo de retórica de Trump pode contribuir para que parte do público se torne menos crítico em relação à análise de evidências, aceitando passivamente informações vindas de fontes de autoridade sem uma verificação aprofundada.

domingo, 23 de fevereiro de 2025

O perigo não vem só da Rússia vem também de Trump

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António Costa alertava no Financial Times que a “a Rússia deve ser encarada como ameaça global”, para acrescentar que a Europa deve negociar uma nova arquitetura de segurança que encare Moscovo como “uma ameaça não apenas para a Ucrânia”, escreve o Público no dia 18 do corrente. Talvez omitisse os EUA de Trump por motivos diplomáticos. Mas, o perigo não vem só da Russia como diz Costa.


O presidente dos EUA gostou da declaração de Vladimir Putin quando disse que, após o seu regresso à Casa Branca, a Europa “ficará aos pés de seu mestre”. A publicação da CNBC, que incluía a citação correspondente, foi republicada por Trump na sua página da rede social, como se enfatizasse que tudo será exatamente como o presidente russo disse.


Notícias, artigos e comentários sobre negociações de paz para a terminar com guerra na Ucrânia na linha definida por Donald Trump são vários e contraditórios. Afirmações, declarações e contradições de Trump aparecem diariamente nos media de vários países que já lhe perdemos a conta.


Afinal o que devemos entender por negociações para a paz segundo a ciência política? É um tipo específico de negociação tendo em vista acabar com conflitos, guerras e estabelecer a paz a longo prazo, abordar as causas subjacentes do conflito e criar acordos que previnam violência futura. Normalmente envolve países, governos ou até fações envolvidas em conflitos armados que visam a paz, a estabilidade e a reconstrução. Assim, têm como objetivo cessar as hostilidades. Em síntese, as negociações de paz visam especificamente a resolução de conflitos e o estabelecimento de uma paz duradoura.


No conflito da Ucrânia as partes diretamente envolvida foram este país e, até ao momento, a Rússia que invadiu aquele país soberano, embora Putin o negue e agora também Trump usando argumentos falaciosos. A União Europeia, o Reino Unido e os Estados Unidos da América auxiliaram a Ucrânia, desde o início da invasão, com apoio em armamento e recursos financeiros. Com a invasão da Ucrânia o que o autocrata/ditador da Rússia pretendia era instalar na Ucrânia um governo fiel a Moscovo.


Trump, na sua rede social Truth Social de desinformação que, para ele, passou a ser palavra proibida, chamou a Zelensky um “comediante modestamente bem-sucedido”. Trump como os da sua equipa têm memória curta. Ele deve recordar-se que começou a tornar-se conhecido como proprietário dos concursos de beleza Miss Universo, Miss EUA e Miss Teen EUA e alcançou maior projeção como criador e apresentador do reality show “O Aprendiz”, do qual fez parte entre 2004 e 2015. O programa mostrava executivos competindo por uma posição numa das empresas do apresentador e produtor do programa que era Donald Trump. Assim ele foi também uma espécie de comediante num show televisivo que lhe rendeu muito dinheiro.


Mais grave ainda são as mentiras que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, disse na sua rede social ao afirmar que o presidente ucraniano é “um ditador sem eleições”, o mesmo que já tinha sido afirmado por Putin e voltou a acusar aparentemente a Ucrânia de ser responsável pela guerra com a Rússia numa onda de alegações sem fundamento e desconhecedor do tema, talvez para agradar ao seu amigo Putin. Putin também já tinha acusado a Ucrânia de ter dado início à guerra. O facto é que a Rússia lançou uma invasão em grande escala na Ucrânia em fevereiro de 2022, e já tinha anexado a Crimeia em 2014. “Foram eles que começaram a guerra em 2014”, disse o presidente russo, Vladimir Putin, numa entrevista ao apresentador de talk show americnao Tucker Carlson em fevereiro de 2024.


O que não há dúvidas é que, em 22 de fevereiro de 2022, a Rússia começou a guerra invadindo a Ucrânia. As tropas russas invadiram a fronteira com o objetivo explícito de derrubar o governo de Zelensky em Kiev que é pró-ocidente com o objetivo de poder de lá colocar um presidente fiel a Moscovo.


Neste segundo mandato Donald Trump tem adotado uma abordagem diferente em relação à ajuda à Ucrânia. Condicionou a ajuda dos EUA à Ucrânia em troca de direitos sobre recursos minerais, de terras raras, que são essenciais para a indústria eletrónica. Trump pretende bloquear verbas e o auxílio militar à Ucrânia. Apesar de ter tomado


Donald Trump tomou uma postura no sentido de iniciar conversações para a paz na Ucrânia, mas as negociações são de facto complexas e deveria envolver várias partes interessadas. Desde o início da invasão russa em 2022 houve várias tentativas de negociação que falharam. Recentemente houve vários anúncios sobre um telefonema de Trump com o presidente russo, Vladimir Putin, anunciando que as negociações de paz começariam imediatamente. Mais recentemente, houve um novo impulso diplomático com a participação de altos responsáveis dos EUA e da Rússia em reuniões na Arábia Saudita sem, no entanto, a Ucrânia não ter sido convidada para essas reuniões, o que gerou críticas de Zelensky que expressou a sua insatisfação com a exclusão da Ucrânia dessas negociações e afirmou que Kiev não reconhecerá qualquer acordo alcançado sem sua participação.


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As ações de Donald Trump de tentar negociar a paz na Ucrânia, sem a presença das outras partes interessadas e propondo negociações diretas com Vladimir Putin, tem gerado controvérsias. Este tipo de atitude de Trump pode levantar desconfiança já que se desconhece o conteúdo da conversa telefónica com Putin e porque a sua relação com ele parece ser comprometedora tendo em conta relações políticas e de amizade com ele próprio já tinha expressado anteriormente. Após a tomada de posse para o segundo mandato de Trump, Putin anunciou com entusiasmo que “os líderes europeus ficarão do lado do mestre e acabarão por abanar a cauda carinhosamente”.


Mas há mais, o presidente russo, Vladimir Putin, elogiou o seu homólogo Donald Trump numa entrevista publicada no domingo 2/2/2025, dizendo que Trump em breve “restaurará a ordem” na Europa.


A comparação de Trump com Putin aproxima-se porque ele proíbe uma agência noticias de entrar na Casa Branca. Recentemente a administração Trump proibiu a entrada de jornalistas da agência de notícias Associated Press (AP) na Casa Branca e no Air Force One. Esta decisão foi tomada porque a AP continuou a usar o termo “Golfo do México” em vez de “Golfo da América”, conforme exigido por uma ordem executiva de Trump. A Casa Branca defendeu a sua decisão, afirmando que a recusa da AP em cumprir a mudança de nome era um compromisso com a desinformação. A medida foi amplamente criticada por várias organizações de media e é vista como uma violação da Primeira Emenda. Ridículos, decisão de Trump, a proibição e os motivos.


Os EUA estão a caminho duma autocracia, nome bonito para ditadura, e ainda não sabem.


 

domingo, 16 de fevereiro de 2025

Discurso de Vance em Munique: Críticas à Democracia Europeia

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Ontem na Conferência de Segurança de Munique é um evento anual onde líderes mundiais, ministros e outros decisores políticos se reúnem para debater os principais desafios globais. Este ano de 2025 teve como objetivo abordar questões urgentes de segurança global, incluindo a guerra em curso na Ucrânia, a crise em Gaza e a dinâmica de mudança das alianças internacionais. Serviu de plataforma para o diálogo e a cooperação de alto nível entre líderes mundiais, decisores políticos e peritos.


O discurso de JD Vance em Munique parece ter revelado o colapso da aliança transatlântica. Para o The Guardian, o discurso foi “cheio de hipocrisia risível, retratos distorcidos da democracia europeia e insensibilidade em relação ao trauma da Europa com o fascismo”.


JD Vance, o vice-presidente dos EUA, fez um discurso na conferência onde criticou a abordagem dos governos europeus à democracia. Vance criticou a abordagem dos governos europeus à democracia e disse temer que a liberdade de expressão no continente esteja a “recuar” criticou os líderes europeus e a democracia da U.E. porque não alinharem com as extremas-direitas e radicais em vez de se focar que estava em discussão que eram para a paz na Ucrânia.


Ele expressou preocupações sobre a liberdade de expressão na Europa, afirmando que muitos americanos veem na Europa “interesses entrincheirados” que se escondem atrás de termos como desinformação para suprimir pontos de vista alternativos. Fez críticas à abordagem dos países europeus à democracia e à liberdade de expressão e manifestou preocupação com o recuo da liberdade de expressão na Europa e criticou os governos europeus por lidarem com a imigração e os valores democráticos


Vance também mencionou que a maior ameaça à Europa não é externa, como a Rússia ou a China, mas sim interna, com a Europa se afastando de alguns de seus valores fundamentais compartilhados com os Estados Unidos.


Está mais do que provado que o que ele denomina pontos de vista alternativos, isto é, verdades não evidenciadas por factos, muito ao gosto de Donald Trump, como se verificou do seu anterior mandato. dar algum sentido à distopia desorientadora da pós-verdade que parece ter envolvido os Estados Unidos desde o primeiro mandato mantendo-se, agora novamente com Donald Trump na presidência americana.


A propósito do que eles chamam “pontos de vista alternativos” ou “factos alternativos” como em 2017 os seus conselheiros de Donlad Trump (ou acólitos)?) contestavam a realidade como já escrevi noutro texto. Um deles, “Kellyanne Conway, diretora de campanha presidencial de Donald Trump em 2016 e conselheira do presidente até agosto de 2020, alegava, na altura, a existência de haver “factos alternativos” para  ajudar Sean Spicer, assessor político e Secretário de Imprensa e Diretor de Comunicações interino do presidente Donald Trump que, no mesmo ano, usou seu primeiro encontro na Casa Branca para protestar contra os jornalistas devido ao que ele incorretamente chamou “reportagem deliberadamente falsa” sobre a posse de Trump na altura”.


Ainda sobre a liberdade de expressão em perigo cito as palavras de


Mas regressemos ao discurso de Vance, uma hipócrita “lição” de democracia como escreveu hoje no Público Andreia Sanches, mas, para mim, foi claramente desagregador duma aliança e, ao mesmo tempo, da democracia europeia.


Andreia Sanches escreveu ainda “Vance disse que a Europa está a suprimir a liberdade de expressão e a ignorar quem pensa diferente. Estamos a falar do vice de um país onde universidades e variadíssimas organizações financiadas pelo Estado estão, de há semanas a esta parte, a expurgar dos seus documentos oficiais palavras que se tornaram proibidas com a Administração Trump, como "diversidade", "desinformação", "activismo", "racismo" ou "género"”.


Vance afirmou que “enquanto o governo Trump está muito preocupado com a segurança europeia e acredita que podemos chegar a um acordo razoável entre a Rússia e a Ucrânia – e também acreditamos que é importante nos próximos anos que a Europa se esforce em grande escala para fornecer sua própria defesa – a ameaça que mais me preocupa em relação à Europa não é a Rússia, não é a China, não é nenhum outro ator externo. O que me preocupa é a ameaça interna. O recuo da Europa em relação a alguns dos seus valores mais fundamentais: valores partilhados com os Estados Unidos da América.”


Que ameaça interna na Europa preocupa Vance? Penso ser a democracia. O descaramento deste senhor é tal que afirmou que “Fiquei impressionado com o facto de um antigo comissário europeu ter ido recentemente à televisão e parecer satisfeito com o facto de o Governo romeno ter acabado de anular uma eleição inteira. Ele alertou que, se as coisas não saírem conforme o planejado, a mesma coisa pode acontecer na Alemanha também.” Tem memória curta porque apagou a cena que o seu líder Trump fez quando perdeu as eleições nos EUA e promoveu indiretamente o assalto ao Capitólio.


Sobre os principais partidos democratas não trabalharem com a extrema-direita, referindo-se à Alemanha, Vance defendeu que “não há espaço” (aplicou o termo firewalls-aplicar uma política de segurança a um determinado ponto, geralmente associados a redes) para cordões sanitários seja a quem for. Atente-se a isto: “But what no democracy, American, German or European will survive, is telling millions of voters that their thoughts and concerns, their aspirations, their pleas for relief, are invalid or unworthy of even being considered.


Democracy rests on the sacred principle that the voice of the people matters. There is no room for firewalls. You either uphold the principle or you don’t. Europeans, the people have a voice. European leaders have a choice. And my strong belief is that we do not need to be afraid of the future”.


Foi um discurso demagógico, de falsos valores, sobre o que ele(s) e o que entende(m) por liberdade de expressão (que, para ele e para o seu chefe Trump) deve servir para tudo inclusivamente para motivar o ódio, a promoção de fascismos, nazismos, autocracias, e outras ditaduras. Vance sabe que isso lhes interessa. Isto é, “autocratas e ditadores de todo o Mundo uni-vos”.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2025

É o tempo para uma oligarquia autocrática nos EUA?

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Dada a robustez das instituições democráticas americanas e a longa tradição de direitos civis e políticos a ideia de uma oligarquia autocrática nos Estados Unidos pode parecer distante. No entanto, eventos recentes têm levado muitos a reconsiderar a possibilidade de uma concentração de poder nas mãos de poucos, com tendências autoritárias. Movimentos populistas e líderes carismáticos que desafiam as normas democráticas, como o observado na presidência de Donald Trump, têm levantado questões sobre a resiliência do sistema democrático dos EUA e a vulnerabilidade às influências oligárquicas e autocráticas.


Daqui a tentação fácil de intuir e associar à palavra alemã “führer” cuja tradução pode ser “guia”, “líder” ou “chefe”. A palavra permanece ainda ligado a Adolf Hitler, que a usou para se auto designar como o líder supremo da Alemanha Nazi que terminou com a democracia alemã. Guiados por ideias racistas e autoritárias, os nazis aboliram direitos básicos e inventaram uma comunidade populacional de origem alemã, o “Volk”.


A possibilidade de um líder, tipo “führer”, autoritário nos Estados Unidos parece ser duvidoso ou até impossível para alguns apesar do slogan de propaganda MAGA – Make America Great Again muitas vezes usado por Donald Trump. Este ponto de vista justifica-se porque a história e a política dos EUA têm sido marcadas, pelo que conhecemos ao longo do tempo, por uma forte tradição democrática e instituições robustas que estão despertas para prevenir a ascensão de líderes autoritários. No entanto, nada garante que os valores democráticos sejam mantidos, o que parece não estar a acontecer naquele país e o partido democrático parece andar à aranhas porque não está a ser capaz de se movimentar ou de encontrar a saída neste conjunto de dificuldades.


 Há tempo atrás seria inconveniente, na melhor das hipóteses, e absurdo na pior das hipóteses, mencionar o fascismo ou o autoritarismo numa conversa sobre a política americana. Este ponto de vista nada tem a ver com opções ideológicas que se professem, mesmo que casualmente, contrárias à política até agora dominante nos EUA.


Tem-se verificado que políticos, académicos, comentaristas e jornalistas nos EUA compararem regularmente a ascensão de Trump à de líderes fascistas e autoritários. A situação agrava-se nas redes sociais com a discussão continua de que Hitler esteja a ser invocado como comparação destinada a criticar o extremismo de outra pessoa. Como escrevi num anterior artigo é “prematuro estabelecer qualquer relação consistente”, agora, parece cada vez mais que epítetos como "Hitler" ou "nazi" ou "autoritário" são suficientemente plausíveis para atrair uma ansiedade razoável e crescente.


Basta pesquisar alguns dos media dos EUA para ver as medidas que Trump, comprovadamente, tomou desde a sua tomada de posse em janeiro de 2025:



  • assinou várias ordens executivas, incluindo a retirada dos EUA do Acordo de Paris sobre o Clima e da Organização Mundial da Saúde e revogou 78 políticas do governo Biden;

  • ordenou uma repressão à imigração, incluindo a deportação de imigrantes ilegais e o cancelamento de um programa que permitia que os migrantes entrassem legalmente nos EUA por meio de um agendamento;

  • ofereceu incentivos para 2 milhões de trabalhadores federais e implementou um congelamento de contratações, exceto para militares, fiscalização de imigração, segurança nacional e empregos de segurança pública e restabeleceu uma ordem executiva para facilitar a demissão de funcionários federais;

  • perdoou cerca de 1.500 pessoas acusadas no ataque de 6 de janeiro de 2021 ao Capitólio dos EUA;

  • anunciou planos para aumentar as tarifas sobre produtos importados de vários países, incluindo Canadá, México, China, Brasil e Índia;

  • assinou ordens para reduzir as regulamentações ambientais e aumentar a produção de combustíveis fósseis;

  • intensificou a proteção da liberdade de expressão e da liberdade religiosa, embora as suas ações tenham provocado reações mistas de vários quadrantes.


Estas são apenas algumas das medidas que tomou até agora.  


Há personagens sinistras, ameaçadoras, assustadoras ou mal-intencionadas que são levadas ao poder eleitos pelo povo porque não são percebidas como tal e mascaram-se e dissimulam muito bem.


O termo sinistro é também frequentemente usado para descrever indivíduos que exibem comportamentos ou características que causam medo ou desconfiança nas pessoas ao seu redor. Pode referir-se a personagens fictícios em filmes, livros ou séries, bem como a pessoas reais que são vistas como perigosas ou moralmente questionáveis. Contudo, o termo “sinistro” pode ser considerado bastante subjetivo.


No que se refere a presidentes dos EUA, alguns poderão ser considerados sinistros devido às suas ações ou políticas controversas. Embora alguns presidentes dos EUA possam ter sido vistos negativamente devido às suas ações ou políticas, não há conhecimento que tenha havido presidentes com características propriamente sinistras.  


Há alguns exemplos mencionados pelo USNews como Richard Nixon com o seu envolvimento no escândalo Watergate e a subsequente demissão em 1974 que deixou uma mancha duradoura no seu legado. Andrew Johnson com sua oposição, reconstrução quanto aos direitos civis dos escravos libertos após a Guerra Civil o que o levou a ser classificado como um dos piores presidentes. James Buchanan e o seu fracasso em lidar com a escalada de tensões que levaram à Guerra Civil também lhe rendeu uma má reputação. Esses presidentes são frequentemente criticados por suas ações ou falta de ação em momentos críticos da história, mas na minha opinião não podem ser considerados sinistro.


No que se refere ao Presidente Trump se amplificarmos o conceito de sinistro para desastroso, ameaçador, cruel, assustador, desastroso as dúvidas esbatem-se.


Não é absolutamente necessário viver nos EUA para percebermos o que lá se passa, basta consumir várias horas e dias de leitura e visionamentos para podermos observar o que por lá se diz e vê nos media e em artigos académicos.


Alguns consideram as ideias apresentadas por Donald Trump como sendo “fora da caixa”. Esta expressão que pode ser considerada como inteligente e inovador na procura de soluções extraordinárias para problemas comuns, é tentar ir além das coisas óbvias ou do que todo mundo vê. No caso das ideias lançadas por Donald Trump são fora da caixa porque demonstram um certo grau de loucura derivada da sua egomania. São exemplos disso os Estados Unidos assumirem o controlo da Faixa de Gaza; os dois milhões de palestinianos que lá vivem serem recebidos noutros países para nunca mais voltarem; e sobre as ruínas dos edifícios e de todas as infraestruturas arrasadas por Israel construir uma aprazível “Riviera do Médio Oriente” aberta a uma população “internacional”.


Na atividade incansável e a quente, de teorias ao nível popular, análises académicas e narrativas partidárias confundem-se e minimizam o esforço para dar algum sentido à distopia desorientadora da pós-verdade que parece ter envolvido os Estados Unidos desde o primeiro mandato mantendo-se, agora novamente com Donald Trump na presidência americana.


Não estaremos muito distantes da verdade se dissermos, embora com algumas reservas, que os EUA estão a ser governados por um partido que colocou no poder um sinistro, egomaníaco/egocêntrico, narcisista que veio do mundo dos “reality shows” e, possivelmente, com algum grau de loucura. Que precedentes, profetizações ou sinais do passado histórico que possam explicar as causas e as circunstâncias que permitiram um tal Presidente no poder.


Em 20 de janeiro de 2017, após a tomada de posse do primeiro mandato de Donald Trump, o livro mais vendido na Amazon.com foi o livro “1984”, escrito por George Orwell editado pela primeira vez em 1949. Segundo o jornal Público, “As vendas aumentaram depois das declarações (consideradas “pouco factuais”) do Presidente norte-americano e de alguns membros da sua administração”. “Os “factos alternativos” invocados pela Administração Trump estão a reavivar a popularidade daquela obra”, escreve o mesmo jornal. Os “factos alternativos” invocados pela Administração Trump reavivaram a popularidade daquela obra onde o autor apresenta um estado de pesadelo de controle de pensamento e de ficções de propaganda.


A propósito dos “factos alternativos” em 2017 os seus conselheiros (ou acólitos)?) contestavam a realidade. Um deles, Kellyanne Conway, diretora de campanha presidencial de Donald Trump em 2016 e conselheira do presidente até agosto de 2020, alegava, na altura, a existência de haver “factos alternativos” para  ajudar Sean Spicer, assessor político e Secretário de Imprensa e Diretor de Comunicações interino do presidente Donald Trump que, no mesmo ano, usou seu primeiro encontro na Casa Branca para protestar contra os jornalistas devido ao que ele incorretamente chamou “reportagem deliberadamente falsa” sobre a posse de Trump na altura. Dizia ele que os jornalistas alegavam falsamente, que um número recorde de pessoas não terão comparecido ao seu juramento do presidente.


Esta situação carrega uma contundente crítica ao autoritarismo e à manipulação da verdade. A narrativa pró-governo tem a função principal de alterar registos para que estes passem para a opinião pública como versão oficial da história (reescrita da história) promovida pelo partido do Governo e do seu líder de modo a garantir que a instituição esteja sempre certa e a sua narrativa seja a única verdade.


Andreia Sanches num artigo no jornal Público designa como “grotesca, delirante, sinistra, criminosa que são alguns dos adjetivos usados nas análises publicadas nos últimos dois dias, um pouco por todo o mundo”.


Donal Trump, EUA, política, autoritarismo, oligarquia, egomania, Casa Branca, política internacional, democracia, populismo,


tendências autoritárias. Na pior das hipóteses, as palavras e ações dele e dos seus apoiantes são desconcertantes e estão muito perto da espécie mais virulenta e nacionalista do autoritarismo, o fascismo.

sexta-feira, 22 de novembro de 2024

A invasão da Ucrânia de Trump a Putin I

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Em outubro de 2023 publiquei noutro blogue estes dois textos. Faz agora 1003 dias do inícios da invasão da Ucrânia resolvi, por isso, voltar a publicá-los novamente, mas agora aqui neste blogue.


A invasão da Ucrânia de Trump a Putin I 


A invasão da Ucrânia de Trump a Putin: contributos para uma teoria da conspiração


Curioso é analisarmos que Joe Biden tomou posse como Presidente dos EUA em 20 de janeiro de 2021. Cerca de um ano e um mês depois de Trump ter saído da cena da presidência Putin invade a Ucrânia. Isto diz-nos alguma coisa



  1. Introdução.


As circunstâncias criadas pelos atores da política internacional levam-nos por vezes a aventurar-nos em terrenos imprevisíveis da paisagem política em permanente mudança de velocidade e de factos. Ao tentarmos fazer uma interpretação política de factos políticos sem sermos especialistas, vemos que há acontecimentos comprovados que nos levam a estabelecer interpretações e paralelismos por vezes arrojados.


Em política, interpretações e paralelismos não são isentos de ideologias que determinam o contexto do exercício do poder e as abordagens socioeconómicas que fazem parte de ideias e de interesses que ajudam a compreender a criatividade estratégica das ações e, muitas vezes, as obsessões dos atores políticos.


As intenções do Presidente Vladimir Putin em relação à invasão da Ucrânia estão naquele âmbito, já que as suas potenciais intenções/obsessões, se forem concretizadas, não ficarão no domínio do impossível, o avanço pelos países limítrofes, a começar pela Polónia, poderão ser inevitáveis.


A queda da URSS e a dissolução do Pacto de Varsóvia em 1 de julho de 1991, acordo militar firmado em 14 de maio de 1955, estabelecia uma aliança entre os países socialistas do leste europeu e pôs fim à aliança militar de que faziam parte a Hungria, Roménia, Alemanha Oriental, Albânia, Bulgária, Checoslováquia e Polónia e a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS).


O fim daquele acordo resultou num abrandamento das precauções pelo ocidente, União Europeia e EUA, e a entrada uma espécie de torpor da NATO. Oito anos passados, de 1999 em diante, é que novos países passaram a fazer parte daquela organização alguns deles República Checa (1999), Hungria (1999), Polónia (1999), Bulgária (2004), Eslováquia (2004), Eslovénia (2004),, Estónia (2004) Letónia (2004), Lituânia (2004,) Roménia (2004), Albânia (2009), Croácia (2009), Montenegro (2017), Macedónia do Norte (2020). 


No poder da Federação Russa Vladimir Putin é um produto da sociedade da ex-URSS e, como tal, foi “formatado” nesse regime. Porém, tendo em vista que a queda do regime possibilitou a apropriação das riquezas das empresas estatais entretanto privatizadas, e que Putin e outros atuais oligarcas não ficaram “distraídos”, talvez um regresso exatamente ao antigo regime possa não lhe interessar, mas em termos de política os métodos totalitários de governação poderão ser os mesmos.


O embate ideológico entre o capitalismo ocidental e o imperialismo soviético, génese da Guerra Fria antes do seu desmembramento, parece ter renascido com o imperialismo russo renovado, que, afinal, esteve apenas latente. Contudo, o que para aqui interessa não é o embate ideológico entre o capitalismo ocidental e o antigo regime soviético, é o confronto provocado por razões menos ideológicas e mais de domínio geoestratégico. Antes, durante e depois da presidência de Donald Trump parece existir uma teoria da conspiração em que dois implicados estarão envolvidos.


As teorias da conspiração são uma explicação de um evento ou situação que invoca uma conspiração de atores com poder, políticos com motivações pessoais e hegemónicas que se apresentam como prováveis.


O ocidente, nomeadamente a U.E. e, sobretudo, os EUA, têm sido acusados de imperialistas por forças da esquerda radical e por apoiantes das políticas de Vladimir Putin. O conceito de imperialismo que aqui referimos consiste numa expansão violenta da área territorial da influência ou poder direto por parte dos Estados ou de sistemas políticos análogos e também formas de exploração económica em prejuízo de outros Estados ou povos (neste caso próximo do colonialismo). O conceito mais atual define que o imperialismo não é mais do que um resultado inevitável da tentativa de países ricos em manterem as suas posições de poder no equilíbrio geoestratégico e económico do mundo.


O imperialismo é também, segundo afirmam alguns líderes, um meio para libertar os povos do domínio tirânico ou de lhes trazer segurança, a que se junta o impulso pelo poder e prestígio com a criação no povo de emoções nacionalistas, como tem sido o imperialismo de Putin.


Durante o período da União Soviética (ex-URSS) e quando da invasão da antiga Checoslováquia (hoje República Checa e República Eslovaca) tornou-se mais difícil, mesmo para marxistas não dependentes da ideologia oficial do regime soviético, negar a existência de aspetos imperialistas na política externa da então URSS, quer sob o aspeto da imposição pela força da sua vontade aos Estados satélites, quer sob o da sua exploração económica. Se a URSS não tivesse desabado e autodestruído não saberíamos em que ponto se encontraria hoje o seu imperialismo e o estado da Guerra Fria.


A invasão da Ucrânia trouxe para a luz dos ecrãs de televisão, nomeadamente em Portugal, comentadores e outros que se encontravam no anonimato e que surgem a convite dos canais que tentam impor-nos com argumentos falaciosos e adulterados os seus desvarios, quer os que defendem doentiamente Putin e são anti ocidente, quer os que defendem veementemente o ocidente e a sua prevenção defensiva contra o imperialismo russo.


A Ucrânia é um país cujas fronteiras foram reconhecidas por Moscovo aquando do colapso da União Soviética e é por isso que os seus aliados ocidentais afirmam que Putin não tem justificação para o que diz ser uma apropriação de terras que lhe pertencia ao velho estilo imperial. O conflito na Ucrânia começou em 2014 após o então Presidente ucraniano pró-russo ter sido derrubado com a Revolução Maidan e a Rússia ter anexado a Crimeia. A luta foi desencadeada entre as forças apoiadas pela Rússia e os soldados ucranianos no leste da Ucrânia


Os que na atualidade apresentam argumentos, alguns do tempo da Guerra Fria, contra o ocidente e a NATO estão, de algum modo, a colocar-se ao lado da política de Putin em relação à Ucrânia mesmo que o neguem e que ao mesmo tempo reclamam pela paz e pelo fim da guerra. Mas, mais do que isso, estão, ao mesmo tempo, a concordar com os pontos de vista que Donald Trump tem mostrado.


Curioso é analisarmos que Joe Biden tomou posse como Presidente dos EUA em 20 de janeiro de 2021. Cerca de um ano e um mês depois de Trump ter saído da cena da presidência, Putin invade a Ucrânia. Isto pode querer dizer alguma coisa e pode até conduzir a uma teoria da conspiração sobre dois relevantes atores da política internacional mostrados pelas atuações e declarações que se vêm ajustando desde há uma década atrás.


 



  1. Vladimir Putin o primeiro ator da conspiração


O filme Katyn do realizador polaco Andrzej Wajda, proposto para os Óscares de 2008, motivou-me para a escrita deste texto. Neste filme que deve ser visto ou revisto a cena mais impressionante passa-se em 17 de setembro de 1939, dia da invasão soviética da Polónia que os alemães já tinham também invadido duas semanas e meia antes.


A cena passa-se numa ponte, que é uma representação visual do que aconteceu em 1939 em todo o país, quando a Polónia foi apanhada entre dois exércitos invasores, o alemão e o soviético, cujos ditadores haviam concordado em conjunto eliminar a Polónia do mapa.


Na cena de abertura do filme uma multidão de pessoas ansiosas e desesperadas, umas a pé, outras de bicicleta, levando cavalos, carregando caixas, caminha por uma ponte. Para sua surpresa veem outro grupo de pessoas ansiosas e desesperadas vindo na sua direção, mas a caminhar na direção oposta. “Gente, o que estão a fazer?”, grita um homem. O diálogo é mais ou menos este: “Voltem! Os alemães vêm atrás de nós!”. Mas do outro lado, outra pessoa grita: “Os soviéticos atacaram-nos!”, mas ambos os lados continuam o seu caminho, seguindo a confusão geral. Um grande número de soldados polacos, (que também são pais, maridos e irmãos) cai nas mãos das tropas soviéticas e mais tarde tornam-se brutalmente vítimas do estalinismo.


A invasão da Ucrânia tem suscitado publicações de vários “posts” nas redes sociais e noutros locais textos em que se fazem analogias com as invasões e ocupações desencadeadas por Hitler, mas poucas têm sido feitas sobre Estaline.


Ao mesmo tempo que a agressão do presidente russo Vladimir Putin avança na Ucrânia e o seu regime limita com dureza a oposição interna, a alegação de que a Rússia está a voltar ao estalinismo encontra-se, quase diariamente, nos órgãos de comunicação tanto na Europa como nos Estados Unidos.


Para melhor compreensão da leitura deste rascunho e porque a informação factual tem que ser analisada e contextualizada, uma breve incursão ao passado no tempo da II Guerra poderá ser útil.


Reportemo-nos como exemplo a um caso do passado, agosto de 1939, quando a Rússia e a Alemanha assinaram um tratado de não-agressão (pacto Molotov-Ribbentrop - Ministros das Relações Exteriores) em que a Alemanha e a União Soviética concordaram em concluir um pacto de não-agressão. Um protocolo secreto deste tratado foi encontrado nos arquivos nazis no pós-guerra, embora a União Soviética o tenha negado durante décadas que ele tenha existido.


Vladimir Putin quando se refere às comemorações do “Dia da Vitória”, a que chama data que marca o triunfo dos soviéticos em 1945 sobre a Alemanha nazi, omite, por conveniência, que Hitler e Estaline estabeleceram e assinaram em 1939, um pacto de não agressão em que se comprometiam a não se atacar uma à outra e a manterem-se neutras se uma delas fosse atacada por uma terceira potência.


Mas o que Hitler e Estaline pretendiam não era apenas um compromisso de não apoiar os inimigos um do outro, havia um protocolo com pontos não divulgados em que os dois ditadores combinaram uma divisão da Polónia e da Finlândia, e os países bálticos, Lituânia, Letónia e Estónia. Todos estes passaram a integrar a URSS - União das Repúblicas Socialistas Soviéticas de 1940 a 1991 data em que conquistaram as suas independências assim como uma região entre a Moldávia e a Roménia que foram prometidos à União Soviética. Assim, o chamado Pacto Hitler-Estaline não consistia apenas na parte formal e oficial em que os dois ditadores acordaram, tinha outros acordos não divulgados.


Os ditadores são por norma falsos não apenas para com os seus povos, mas também entre eles. Assim, da parte de Adolfo Hitler, o pacto não foi mais do que o propósito de ganhar tempo para os seus planos de guerra e, no final de 1940, avançou com a campanha contra a União Soviética e a 22 de junho de 1941 as tropas nazis atacaram de surpresa o território soviético.


O pacto entre os dois ditadores sanguinários de regimes completamente antagónicos possibilitava aos dois a conquista de territórios e a execução de políticas totalitárias é uma nódoa na história donde se depreende que a traição e a mentira são umas das suas características.


Em pleno século XXI Vladimir Putin talvez inspirado pelos dois mais cruéis ditadores do século XX viola a paz na Europa seguindo estratégias idênticas às de Hitler em relação à política externa e de Estaline na política interna. Putin aproxima-se cada vez mais dum regime próximo do estalinismo, de um regime político totalitário-autocrático e oligárquico cujas principais características são o nacionalismo, a centralização política, o militarismo e a censura dos meios de comunicação.


Sabemos da propensão que os ditadores têm para sujeitar os órgãos de comunicação a censuras, proibição de publicações e para limitar ou perseguir o livre exercício do jornalismo, que é devido ao facto de poderem ficar livres para ocultar a verdade e divulgar as suas mentiras e notícias falsas através de canais informativos leais que controlam e cuja informação, diria antes desinformação, fazem propagar no interior e para o exterior.


Os discursos de Vladimir Putin e as suas intervenções não escondem o objetivo da sua política internacional para reconquista das antigas zonas de influência que a ex-União Soviética perdeu depois da Guerra Fria. É toda uma política revisionista, uma tentativa de regresso ao passado e cujo pensamento da política interna vai-se aproximando de uma espécie de antigo regime soviético modernizado.


Numa situação de conflito armado e para a sua explicação e concretização, cada lado fabrica as mentiras adequadas aos seus intentos, criando bodes expiatórios. Recorde-se como foi o caso com Hitler com os judeus na Alemanha e de Estaline que, após ter assumido plenos poderes, não hesitou em ordenar a execução de milhares dos seus antigos companheiros e também da elite intelectual judaica do país. Para ambos os ditadores era sobre esses que lançavam a causa de todos os males numa espécie de culpa coletiva.


As operações chamadas “bandeira falsa” que usam artimanhas e mentiras com o objetivo de proceder ao envolvimento de falsos soldados do lado oposto, que vestem uniformes do agredido, que lançam ataques orquestrados a instalações ou civis convocando posteriormente órgãos de comunicação para mostrarem   edifícios destruídos e cadáveres que, na verdade, pertencem a prisioneiros, assassinados especialmente para a ocasião. Este tipo de “crime”, juntamente com alguns outros “ataques”, que compõem a desculpa formal para invasões foi o que serviu a Hitler como desculpa formal para a invasão da Polónia.  Um dos exemplos foi o da propagada nazi que fez passar a informação de que a Alemanha estava sob ataque criando uma perceção de medo nos cidadãos alemães de um ataque polaco contra a Alemanha. Na realidade, os nazis encenaram o incidente para criar uma campanha de propaganda que favoreceria um ataque alemão contra a Polónia (foi a montagem de uma operação do tipo bandeira falsa).


A propaganda nazi de Hitler descreveu a invasão da Polónia como um conflito defensivo travado pela “libertação” da zona habitada principalmente por alemães étnicos de minoria alemã no oeste da Polónia, Cidade Livre de Gdansk/Danzig. Antes da invasão a Alemanha organizou algumas provocações cujo objetivo era justificar a invasão. No dia 1 de setembro de 1939 a Alemanha invadiu a Polónia. Para o justificar a propaganda nazi alegou falsamente que a Polónia planeava com os seus aliados cercar a Alemanha, e que os polacos perseguiam pessoas de etnia alemã no seu país. Foi então forjado, em conluio com os militares alemães, um falso ataque polaco a uma estação de rádio alemã. Hitler utilizou esta pretensa ação para lançar uma campanha de “retaliação” contra a Polónia. 


A 17 de setembro de 1939 os soviéticos avançaram sobre a Polónia alegando que era “uma campanha de libertação”, e que Moscovo não podia permitir que a Polónia caísse completamente nas mãos dos nazis, o que os factos do protocolo secretos atrás referido que também pode ver aqui desmentem.


Sem declaração de guerra a Polónia foi ocupada pelo exército de invasão alemã. A invasão soviética da Polónia nunca foi reconhecida como sendo uma invasão. Para a União Soviética a mensagem que passava e a retórica oficial era a do costume e que Putin reproduziu para a invasão da Ucrânia. Na altura era o Exército Vermelho que estendia a mão da assistência fraternal aos trabalhadores da Ucrânia Ocidental e da Bielorrússia Ocidental libertando-os para sempre da escravidão social e nacional, diziam, agora é Putin que diz querer libertar a Ucrânia dos nazis.  A União Soviética nunca admitiu ter conquistado ou anexado o território polaco: estas terras permaneceram parte da URSS após a guerra e ainda fazem parte da atual Bielorrússia e a Ucrânia hoje, depois da Segunda Guerra Mundial, foi internacionalmente reconhecida como estado independente com os seus próprios direitos. A República Socialista Soviética de Ucrânia foi dos 50 estados fundadores da ONU - Organização das Nações Unidas que aderiu em junho 1945 no final da Segunda Guerra Mundial. O nome atual do estado sucessor é Ucrânia.


O derrube da União Soviética que trouxe também a esperança do fim da Guerra Fria não foi olhado por todos da mesma forma, para uns terá sido uma catástrofe, como Putin afirmou recentemente, para outros traria a Rússia para o lado do “bem”, do Ocidente.


Durante a Guerra Fria olhava-se para a política como uma disputa pelo poder, e para a geopolítica como a disputa entre os Estados mais poderosos a competirem pela supremacia global. A Guerra Fria era um confronto entre a URSS e EUA, entre Washington e Moscovo/Kremlin, como os comentadores lhe costumam chamar. No entanto, a Guerra Fria também se disputou no campo de batalha das crenças, nos valores e direitos humanos universais em que o Ocidente acreditava e acredita. Faz sentido afirmar que o foi também ideologicamente entre o liberalismo económico e os radicais do pensamento marxista-leninista.


Olhando hoje para o que se passa na Rússia de Putin é fácil estabelecer uma analogia entre a invasão da Ucrânia e o que se passou no passado com a Polónia porque, segundo ele, é também para libertar o povo ucraniano dos nazis. A perceção que se tem é que Putin parece ter mimetizado a invasão alemã da Polónia, uma espécie de cartilha de Hitler quando pretendia travar uma guerra o que se tornaria na estratégia “blitzkrieg” (Guerra relâmpago, com exército e bombardeamentos contra a defesa do oponente e cercar as suas forças). Talvez, por isso, Putin tenha insistido naquilo ao que chamou “operação militar especial”.


É estranha a obsessão de Vladimir Putin com a justificação da sua guerra de agressão com a “desnazificação” da Ucrânia como ele propagandeia. Segundo o jornal Der Spiegel (maio de 2022), inúmeros neonazis estão a combater pela Rússia na Ucrânia e um documento interno do BND (serviço de inteligência exterior da Alemanha) revela agora que as tropas de Moscovo estão a ser apoiadas por grupos extremistas de direita. A propaganda oficial do Kremlin afirma que quer combater os neonazis da Ucrânia, o facto é que, também entre as tropas da Rússia, há militantes do neonazismo e da extrema-direita.


Centremo-nos agora há dois anos atrás, setembro de 2020, quando o Parlamento Europeu aprovou uma resolução que condenou e colocou em pé de igualdade os dois totalitarismos, Hitler na Alemanha e Estaline na URSS, por terem cometido “genocídios e deportações” e perseguições políticas e destruído grande parte da Europa no século XX.


À semelhança de Hitler que pretendia vingar a humilhação da derrota sofrida na I Guerra Mundial e ancorado na crença de uma suposta superioridade da raça ariana e também criando um crescente clima de ódio contra os judeus, que dizia serem inimigos do povo alemão e a outros falsos pretextos, desencadeou violentas invasões a países soberanos europeus, Putin também forjou os seus fundamentos e pretextos para justificar os ataques a um país soberano.


Putin, no início da segunda década do século XXI, utiliza como justificação para ocupar a Ucrânia, a desnazificação, a que agora chama desucranização, e outras expressões que lhe sirvam para os seus objetivos de propaganda. Estas são as causas próximas que Putin forjou para justificar a invasão, mas há causas anteriores de raiz ideológica e filosófica que o inspiraram para além das desvairadas comparações que faz de si próprio com o czar Pedro, o Grande, recordando a Grande Guerra do Norte e as batalhas de Pedro contra os suecos.


Tornar a Rússia grande novamente tornou-se numa nova crença ideologica para Putin. Ele ganhou um quarto mandato em 2018 e logo a propaganda do Kremlin começou a espalhar a ideia de que Putin é o único que pode restaurar a grandeza da antiga Rússia e de que ele é o líder histórico capaz de se unir a fervorosos defensores da primitiva União Soviética, os quais ainda se reveem nesse período. A tomada de posse de Vladimir Putin no Kremlin aconteceu dois dias depois da polícia ter reprimido manifestantes que saíram às ruas para gritar “Putin não é o nosso czar”. Cerca de mil manifestantes foram detidos, entre eles o atual líder mais conhecido da oposição russa, Alexei Navalny que sofreu uma tentativa de assassinato.



  1. Pensar como Putin. O discurso do ódio


O discurso de ódio não é recente nem nasceu com as redes sociais, embora estas o tenham potenciado. Neste contexto o conceito de discurso de ódio que adotei é o de Parekh (2012) que é tudo quanto “expressa, encoraja, atiça ou incita ódio contra um grupo de indivíduos distinguidos por uma característica particular ou conjunto de características como raça, etnia, género, religião, nacionalidade e orientação sexual, utilizando frequentemente uma linguagem ofensiva, raivosa, abusiva e insultuosa”. Outros autores acrescentam que também existe discurso de ódio quando se pretende desumanizar, assediar, intimidar, rebaixar, degradar, vitimizar ou incitar a brutalidade contra grupos-alvo.  Este tipo de discurso agravou-se com a utilização online sobretudo nas redes sociais onde é instantâneo, rapidamente disperso e muitas vezes anónimo.


O discurso de ódio tem as suas propriedades como a quem se dirige, o que comunica e por onde se difunde. Assim, as pessoas ou grupos são atingidas pelo que são, e não pelo que pensam. Durante o nazismo foi esta forma de pensamento que levou os judeus a serem sujeitos a perseguições, indiferentemente do que pensavam politicamente, a que se associavam discursos de   incitação à violência política. Há porém uma diferença entre  os discursos de ódio e aqueles que se baseiam em antagonismo, ou seja, em  posições político-partidárias.


A incitação à violência política tem origem em disposições no cenário político, os discursos de ódio têm origem na discriminação sistemática. A troca de ideias passa então a ser marcada pela grosseria política, ou seja, insultos, ameaças, etc. (ver em Stryker, 2016).


Como vários autores têm observado o discurso de ódio também é empregue para perseguir, insultar e justificar a privação dos direitos humanos podendo, em casos extremos, conduzir a homicídios e genocídios cujos exemplos mais conhecidos foram o holocausto na Alemanha nazi; o ditador Estaline quando exigiu que alemães que morassem em territórios na altura recém dominados pela União Soviética (antes controlados por Hitler) voltassem para seu país de origem e em que no trajeto, famílias inteiras foram agredidas ou assassinadas; quando em 1971 a parte leste do Paquistão entrou em guerra para se tornar um Estado independente, Bangladesh, o governo paquistanês reagiu de modo radical, matando separatistas e seguidores; quando Estaline o tirano russo adotou técnicas variadas para perseguir rivais políticos entre 1932 e 1933 forçou a Ucrânia e o Cazaquistão a exportar todos os seus alimentos, matando os nativos de fome.


Os atributos de Hitler e de outros ditadores estão a ressurgir numa extrema-direita renovada, nacionalista, autoritária, autocrática que aproveita as redes sociais e os meios da internet que os seus congéneres do passado não tinham para difusão das suas ideias.


Em julho de 2021 Putin assinou e fez publicar no site oficial do Kremlin o artigo “Sobre a unidade histórica dos russos e ucranianos“. Neste artigo Putin tenta escrever uma “nova história” dizendo que grande parte da Ucrânia é roubada da terra da “Rússia Histórica”, que a nação ucraniana é uma ideia artificial e os ucranianos são basicamente russos de lavagem cerebral porque a Ucrânia é liderada por “radicais e neonazis” que são “instrumentos” do Ocidente, EUA, NATO e EU.


As palavras de ordem “nazi” e “neonazi” aparecem em cinco partes diferentes do texto de Putin com o objetivo de fazer reviver com uma única palavra, todo o mal que essa palavra comporta numa tentativa de desumanizar os ucranianos desde a revolução de Maidan em 2013.


O artigo de Putin antes da invasão da Ucrânia foi uma espécie de discurso à nação e foi distribuído aos soldados do exército russo no que pareceu ser uma versão moderna da “educação” política dos soldados semelhante à do antigo exército soviético. Estratégia que Estaline também adotava.


Já no decorrer da guerra em junho do corrente ano Dmitry Medvedev presidente russo entre 2008 e 2012, primeiro-ministro em 2012, e, atualmente, vice-presidente do Conselho de Segurança russo, escreveu no Telegram uma mensagem onde disse sobre os ucranianos que: “Eles são bastardos que querem a morte para a Rússia. Eu odeio-os e farei de tudo para fazê-los desaparecer”, repetindo o que o ideólogo Aleksandr Dugin disse em 2015, como adiante irei referir.


Palavras de ódio dirigidas a uma nação, tal como Hitler fez com os judeus, Medvedev utiliza palavras como  “desaparecer / deixar de existir / odiá-los”, é uma grande luz verde para os soldados irem em frente com toda e qualquer ação que possamos imaginar.


Ou seja, é o discurso de ódio onde se exige a destruição e liquidação de todos os “nazis” que, para ele, são todos os ucranianos, pelo que reclama uma supressão massiva e imediata de todo esse povo. Além da censura a qualquer voz ucraniana, e da introdução das leis e da cultura russas, o objetivo é proibir até mesmo o nome Ucrânia e o próprio termo ucraniano. Tudo indicando o objetivo de fazer desaparecer a Ucrânia como nunca tivesse existido.


Ao tentar perceber e conhecer o pensamento de Vladimir Putin deparei-me com o seu interesse por autores que o influenciaram, essencialmente Alexander Dungin e o seu livro “The Fourth Political Theory”.


Para Dugin os sistemas políticos têm sido produto de três ideologias, sendo a mais antiga a democracia liberal, seguida do marxismo e o terceiro o fascismo tendo estes dois últimos falhado. O primeiro que ele diz não ter resultado, mas que tem sido aceite como sendo o mais correto. Dugin afirma que “Hoje o mundo encontra-se à beira de uma realidade pós-política em que os valores do liberalismo estão tão profundamente incorporados que a pessoa comum não está ciente de que ao seu redor há uma ideologia em jogo”(The Fourth Political Theory, cap.1- The Three Main Ideologies and their Fate in the Twentieth Centuty, pp. 15-16).


Na perspetiva de extrema-direita iliberal de Aleksandr Dugin o liberalismo monopoliza o discurso político mergulha o mundo numa espécie de pensamento, sempre do mesmo tipo, mesmo para situações distintas, destruindo singularidades e tudo o que torna as várias culturas e povos únicos. Isto é, este discurso político pretende impor-se em todo o lado.


Todavia, para o ideólogo de Putin, Alexander Dugin, que comentadores do ocidente designam como uma espécie de Rasputin de Putin, há muito tempo que os russos são um “povo imperial”, e podem liderar um “império mundial”. Curioso como ao mesmo tempo acusam os EUA e o Ocidente de imperialistas.


A ideia de Putin parece ser a da substituição de um imperialismo por outro, esse outro que terminaria com a democracia e com o liberalismo para os substituir por um despotismo com mando absoluto e arbitrário como o que ele está a impor aos russos. A leitura analítica dos discursos políticos de Putin conduz-nos à perceção de que não pretende substituir a pertença unicidade de pensamento de que acusa o Ocidente, mas à pretensão de que o Mundo deve passar a aceitar o seu pensamento como único.


Os discursos de Putin revelam uma aproximação ao radicalismo que Alexander Dugin defende no seu livro onde argumenta que a Rússia deve retornar ao seu antigo poder e garantir que o “atlântico” (valores ocidentais que incluem o liberalismo, os mercados livres e a democracia representados pelos EUA e pela  Europa Ocidental), perca a sua influência sobre o que ele denomina por “Eurásia” territórios outrora governados, pela União Soviética, que precisa defender uma hierarquia, tradição e uma estrutura jurídica estrita. Isto é, instituir uma ditadura fascista de cariz totalitário para toda a Europa.


Porém, Putin parece ter-se ainda estará inspirado num outro livro do mesmo autor para tomar a decisão de invadir a Ucrânia que se supõe ser Foundations of Geopolitics.


Nas pesquisas efetuadas encontrei um artigo de Marlène Laruelle, especialista em estudos europeus e russos, onde caracteriza Dugin como um ideólogo tradicionalista, fascista e antissemita. No campo geopolítico é um ultranacionalista russo agressivo. Num canal do Youtube Alexander Dugin em 2015(?) incentivou ao ódio numa mensagem que incluía afirmações como “Os ucranianos precisam de ser mortos, mortos e mortos, estou a dizer-lhes isto como professor“ canal bloqueado pela empresa detentora. A dúvida é saber quantas das suas estratégias anteriores e estratagemas destrutivos se concretizaram por parte do Governo do Kremlin. Em abril de 2014 Dugin, num programa de televisão do jornalista Vladimir Posner, argumentou provocatoriamente que a Rússia deveria reconstruir os seus stocks de armas nucleares.


Em março de 2022 Jaweed Kaleem, correspondente do Los Angeles Times, escreveu que Putin ao “justificar a guerra que lançou no final de fevereiro, culpando o “Ocidente decadente” por tentar eliminar a identidade, fronteiras e segurança russas, lançou a ideia-chave do eurosianismo, uma teoria política do século XX que os seguidores modernos descrevem com argumentos de que a Rússia não faz parte da Europa nem da Ásia e que é inimiga do mundo “Atlântico” liderado pelos EUA”, pressupostos estes que são os de Alexander Dugin.


O grande objetivo de Putin seria a deposição de Zelensky para colocar no seu lugar uma figura de presidente fantoche da sua confiança, um governo pró-Moscovo em Kiev, como sucede na Bielorrússia, que renunciasse à militarização, reconhecesse a Crimeia como russa e alterasse a Constituição para voltar atrás na adesão à NATO e à U.E., concretização que para Putin seria um sucesso político inegável.


Nesta linha da propaganda que é a pretensão de fazer uma Rússia grande realizou-se no dia 7 de junho de 2022 uma reunião com a presença do Presidente do Estado da Duma Viacheslava Volodina com uma delegação do Conselho Popular da DPR- República Popular de Donetsk chefiada pelo seu presidente Vladimir Bidevka onde este afirmou que “Tenho a certeza de que definitivamente estaremos em casa, como parte de uma grande Rússia: a gloriosa Rússia, a grande Rússia! E tenho a certeza de que aqui todos devemos trabalhar em benefício deste objetivo - em benefício da Rússia - e nos concentrarmos hoje em volta do seu líder Vladimir Putin”.


De acordo com um relato do New York Times baseado em entrevistas com aqueles que recentemente interagiram com Putin, dizem que "perdeu completamente o interesse no presente" e passa grande parte deste tempo debruçado sobre a história russa com seus confidentes mais próximos. Os líderes estrangeiros visitantes são frequentemente tratados com extenso palavreado sobre a história russa.


Em 21 de fevereiro de 2022 Vladimir Putin assinou um decreto onde reconhece partes do leste da Ucrânia, Donetsk e Lugansk como entidades independentes, numa clara violação dos acordos de Minsk e ordenou o envio de tropas para as duas regiões separatistas para “manutenção da paz” desenvolvimento que pode ler aqui. Num discurso dirigido aos russos Putin responde com uma reescrita e interpretação ficcionada da história.


Como se sabe, Vladimir Putin está no controle da Rússia desde 1999 e em 2020 mexeu os cordelinhos internos para se manter no poder após 2036 fazendo mudanças para garantir que o cargo que ocupa mantenha e aumente mais o seu poder. Em janeiro de 2020 num discurso presidencial, Putin propôs casualmente mudanças constitucionais para aumentar a “independência e responsabilidade do primeiro-ministro“. Todavia não ficou claro quando as mudanças poderiam ser realizadas ou quando poderiam entrar em vigor.


No seu discurso anual de estado da nação Putin queria que a Duma, câmara baixa do parlamento da Rússia, tivesse o poder de escolher o primeiro-ministro. Em março de 2021 essa mesma Duma introduziu uma legislação que permitisse a Putin concorrer a mais dois mandatos presidenciais de seis anos, mas, para isso, teve que colocar o país sob uma ditadura despótica. O argumento era que “Aumentaria o papel e a importância do parlamento do país e a independência e responsabilidade do primeiro-ministro”, justificava Putin.


A estratégia seria planear antecipadamente uma “jogada” de longo prazo que procuraria o enfraquecimento dos laços dos EUA com a Europa, o desagregar da União Europeia e, por consequência, desfazer a NATO para o que, como se verá adiante, Donald Trump estava também a contribuir.


Putin, ao agir para resolver problemas isoladamente, pretende preservar a posição da Rússia como uma potência hegemónica no cenário mundial. Aliás, os comentadores pró Putin que em Portugal publicam nas redes sociais e nos media textos anti ocidente (EUA, NATO e U.E.), defendem a tese de um Mundo multipolar, quando não apenas da Rússia, e não apenas a supremacia dos EUA, mas no substrato encontra-se preferencialmente a hegemonia da Rússia.


Esta estratégia foi também mencionada por Dugin no livro Foundations of Geopolitics: The Geopolitical Future of Russia, (1997) onde assinala as estratégias dos adversários da Rússia, elabora a sua própria e fornece passos ousados para recuperar a posição de domínio da Rússia perdida no final da Guerra Fria. As recomendações mais enérgicas incluem a invasão da Geórgia, a anexação da Ucrânia, a separação da Grã-Bretanha do resto da Europa, e a disseminação de sementes divisionistas nos Estados Unidos. Cada uma delas é-nos bastante familiar. Nos EUA encontramos a estratégia divisionista de Trump que iremos ver adiante.


No mesmo livro Dugin avança ainda que a Rússia precisaria da linha costeira do Mar Negro tanto para o comércio quanto como base naval de operações para que a “costa norte do Mar Negro pudesse ser exclusiva e centralmente subordinada a Moscovo.”


O apoio às extremas-direita na Europa não terá estado fora da eventual ligação ideológica Putin-Dugin. Especialistas do ocidente consideram que Putin, talvez por inspiração de Dugin, tem ligação aos movimentos europeus de extrema-direita e aos partidos populistas em ascensão nos países da Europa e, provavelmente, também no EUA. 


Como se tem confirmado as proclamações de Putin são a evidência das suas contradições e negações. A negação e a mentira são dois atributos de Putin na sua política interna e externa. Ele olha para os movimentos populistas, partidos de extrema-direita e partidos nacionalistas a primeira expressão concreta da chamada Quarta Teoria Política, como a descreveu Dugin em 2018, como sendo a realização do seu programa político. Por outro lado, ataca a Ucrânia por ser nacionalista e diz pretender “desucranizá-la”. Os partidos elogiados são o partido italiano de extrema-direita Liga (Liga do Norte), liderado por Matteo Salvini e o Movimento 5 Estrelas, movimento populista fundado em 2009.


O governo italiano confirmava em 2018 que era a primeira expressão concreta da chamada Quarta Teoria Política de Dugin e a realização do programa político deste autor. “A união entre Lega - Liga do Norte e o Movimento Cinco Estrelas é o primeiro passo histórico para a afirmação irreversível do populismo e a transição para um mundo multipolar”, escreveu Dugin e acrescentava que, por essa razão, naquela altura o governo italiano era um parceiro natural do Kremlin.


Quatro anos depois, no dia 22 de junho de 2022, o Movimento 5 Cinco Estrelas dividiu-se para formar um novo grupo parlamentar que apoiará o primeiro-ministro Mario Draghi. Esta decisão foi tomada pelo ministro dos Negócios Estrangeiros, Luigi Di Maio, depois de criticar o seu próprio partido por não apoiar o governo italiano no envio de armas para a Ucrânia. Entretanto, no momento em que escrevo este texto, Mário Draghi demitiu-se.


Mas há outros extremistas elogiados e há outros exemplos de populismo da simpatia de Putin que são o partido conservador alemão, AfD - Alternative für Deutschland, RN – Ressemblement National de Marine Le Pen, já referida, e Jean-Luc Melenchon em França, e, em certa medida, Donald Trump nos EUA.


Tradicionalmente a AfD apoia Putin, e, como muitos dos partidos políticos de extrema-direita da Europa, os seus principais políticos mantiveram laços com o Kremlin e desfrutaram do seu apoio ativo. A oposição de Putin a organizações ocidentais como a NATO e a U.E. insere-se perfeitamente na base de alguns dos programas eleitorais de populistas e de extrema-direita


nomeadamente o programa eleitoral da AfD, sobretudo no leste da Alemanha que é cética em relação à U.E., e talvez pelos laços históricos influenciarem uma empatia cultural com a Rússia, muito embora residual. Porém, apesar de alguns grupos de extrema-direita estarem divididos entre uma posição


pró-russa (digo antes, pró-Putin) e uma postura pró-Ucrânia, quando falam aos seus eleitores os líderes de partidos nacionalistas radicais de direita, como Marine Le Pen e Matteo Salvini, condenam com mais ou menos veemência a intervenção de Putin.


Marine Le Pen foi colocada em janeiro de 2017 na lista negra da Ucrânia por ter defendido a anexação da península da Crimeia pela Rússia, em 2014, ato considerado ilegal pela comunidade internacional. O Governo ucraniano considerou que fez “declarações que reproduziam a propaganda do Kremlin, demonstrando desrespeito pela soberania e integridade territorial da Ucrânia e ignorar completamente os princípios fundamentais do direito internacional”.


Em abril de 2022, próximo da campanha eleitoral em França, Le Pen mudou o discurso e nas últimas semanas antes da ida às urnas, a candidata francesa obrigou-se a admitir que a invasão da Ucrânia por Moscovo foi “uma clara violação do direito internacional e absolutamente indefensável”, mas pediu uma “aproximação estratégica entre a NATO e a Rússia”, logo que a guerra terminar. Estranha estratégia que poderá ter levado Putin a deixar de elogiar e apoiar estes partidos.


Em março de 2022, houve um confronto televisivo no canal France2, principalmente focado em temas europeus, entre o secretário do Partido Democrata de centro-esquerda de Itália Enrico Letta e a presidente da RN - Rassemblement National, Marine Le Pen, candidata às eleições presidenciais. Neste confronto televisivo o líder do Partido Democrata censurou Le Pen ao dizer que “Os seus amigos eram Trump e Putin, um atacou o Capitólio, o outro bombardeou a Ucrânia. A sua política externa é um fracasso.”. Esta afirmação deixou Marine Le Pen e os políticos de extrema-direita e entusiastas de Putin numa difícil posição após a invasão da Ucrânia.


No meio de todas estas relações deu-se um novo desenvolvimento, resultado da guerra na Ucrânia, que poderá dar às democracias europeias uma nova visão democrática e alguma esperança para o futuro. Muitos dos políticos de extrema-direita da Europa, que há muito enalteciam e elogiavam publicamente Putin e o seu nacional-imperialismo, passaram a distanciar-se da ideologia que se apoia num “nacional-totalitarismo”, que o líder russo impõe ao seu povo pela mentira e pela censura e que pretende também impor a países soberanos.


O nacionalismo fornece aos ditadores a arma ideal para resistirem à democratização rejeitando, em nome do princípio da não ingerência nos assuntos internos, que a comunidade internacional ponha em causa o regime. Totalitário e censor no interior amordaçando o seu país e revolucionário para o exterior ao dizer querer libertar a Ucrânia do nacionalismo e do nazismo, o nacional-totalitarismo de Putin toca, assim, nas várias teclas das ditaduras ao mesmo tempo.


Ao mesmo tempo, na Europa, o nacionalismo da Ucrânia é apresentado como aceitável, opondo-se ao nacionalismo imperialista russo. A luta ucraniana pela manutenção da sua independência, soberania e identidade nacional pode ter como consequência, inspirar os nacionalistas de extrema-direita na Europa, fazendo com que ganhem força que, de certo modo, têm vindo a obter aproveitando como argumentação a luta pró-nacionalista.


Embora a situação da Ucrânia difira da dos movimentos independentistas regionais, estes podem argumentar contra a perda de soberania que, segundo eles, lhes é imposta pelos estados onde se integram. São exemplos a Escócia, o País Basco e a Catalunha. Argumentos idênticos também poderão dar impulso aos partidos políticos nacionalistas como o Rassemblement National em França, a Lega na Itália, a AfD na Alemanha e o Vox na Espanha, partidos implantados nos principais países europeus.


Vladimir Putin defende a construção de um mundo multipolar e rejeita as imposições da hegemonia global supranacional que ele e os seus seguidores identificam como sendo dos Estados Unidos da América. Mas, ao mesmo tempo coloca-se numa perspetiva de querer impor a sua própria hegemonia, para tal tem esperado pela desagregação da U.E. e da NATO para retirar os EUA do palco mundial numa tradução na política das teorias de Dugin. 


No entanto, não deixa de ser curioso e causar surpresa que Vladimir Putin no 25.º Fórum Económico Internacional de São Petersburgo que decorreu de 15 a 18 de junho de 2022 tenha dito que a Rússia não está preocupada que a Ucrânia possa obter o estatuto de candidata “porque a União Europeia não é uma organização militar“, isto é, não é uma ameaça para a Rússia como o é a NATO.


Muitos pró Putin que escrevem nas redes sociais, alguns deles conhecidos, e outros que comentam nas televisões, repetem, tal e qual o Kremlin e a propaganda russa, que a União Europeia perdeu a sua soberania política, e que as suas elites burocráticas estão a dançar ao som de outra pessoa (leia-se EUA e Biden), fazendo tudo o que é dito “do alto” prejudicando o seu próprio povo, as economias e as empresas. Repetem de outro modo o discurso de Putin que acusa o ocidente de russofobia. Acho que Putin está errado, o que se passa no Ocidente é a “Putinofobia” devido à sua política, quer interna, quer externa. Esperemos que os russos um dia, que seja breve, acordem do pesadelo que lhes induzem como se fosse de tranquilidade.


A candidatura para a adesão da Ucrânia à U.E., e posteriormente à NATO, parece-me ser politicamente enganadora. Não sabemos como a Ucrânia, a ser destruída pela invasão de Putin e ficando com o seu território parcialmente ocupado, irá conseguir cumprir as exigências para a adesão. Levanta-se uma dúvida: como é que futuramente Putin irá corrigir o conflito territorial com a Ucrânia e facilitar a sua adesão à União Europeia quando antes tinha, não sabemos se ainda mantém, intenções de contribuir para o seu desmembramento.


CONTINUAÇÃO