Na grande entrevista concedida à RTP1, a 29 de abril, Paulo Rangel voltou a demonstrar aquilo que muitos identificam como a subserviência de Portugal perante determinados poderes externos — uma postura lamentável, embora recorrente nas suas intervenções públicas, e não apenas no que diz respeito ao dossiê das Lajes. A diplomacia não se constrói com evasivas nem com o receio de enfrentar questões difíceis; constrói‑se com clareza, frontalidade e sentido de responsabilidade política.
O senhor ministro fala com desenvoltura e aparente
eloquência, mas o conteúdo das suas palavras revela‑se escasso. Como se costuma
dizer em contexto jurídico, “quanto aos factos, nada disse”. Nem o sorriso
persistente nem o momento do olhar direto para as câmaras conseguiram disfarçar
a ausência de respostas concretas ou de posições claramente assumidas.
É verdade que esta atitude de subordinação não é
recente, vem de longe. Mas, no momento presente, assume contornos
particularmente penosos, para não dizer inquietantes. Importa, por isso,
colocar a questão essencial: com quem queremos nós comparar‑nos enquanto país?
Com Estados enfraquecidos, resignados à tutela de uma potência dominante, ou
com países que, mesmo sob pressão, souberam adotar uma posição autónoma,
coerente com as suas convicções, relativamente ao ataque ao Irão levado a cabo
por um líder movido pelo fanatismo do poder e da riqueza?
Serão esses países, que recusaram alinhar nas
estratégias do presidente Trump em torno da invasão do Irão, defensores do
regime iraniano ou cúmplices do terrorismo que esse regime tem promovido? A
pergunta é tão legítima quanto esclarecedora. Confundir planos distintos sejam
eles ideológicos, políticos e diplomáticos é um erro frequente e conveniente,
mas profundamente enganador. Explicações ambíguas ou deslocadas apenas servem
para fugir à questão central.
Não nos admiraríamos que, caso Portugal se recusasse ceder
o apoio da base das Lajes aos EUA, o presidente Trump propusesse a compra da Base
ou, até invadisse os Açores para se apropriar dum local estratégico.
Como bem resume o senso comum: uma coisa é uma coisa,
outra coisa é outra coisa.

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