Uma comissão de inquérito das Nações Unidas concluiu
que Israel e o Hamas cometeram crimes de guerra. Os investigadores do Conselho
de Direitos Humanos da ONU dizem que não há inocentes neste
conflito e responsabilizam quer o Hamas, quer Israel, pela violação do
Direito Internacional.
Tal vem a propósito de no dia 29 de abril, o colunista do Observador, João Marques de Almeida, ter publicado um artigo intitulado “Sim, sou pró-Israel”, cujo lead afirma: “Não haja dúvidas, Israel é, de certo modo, um pretexto. Para a Europa, a grande ameaça às nossas democracias é a coligação entre os islamistas radicais e as extremas esquerdas”. Logo no início, o autor apresenta três razões para a sua posição, sendo a primeira “obviamente, o Holocausto”.
Foi precisamente aqui que deixei de ler. Não por
desinteresse, mas porque o argumento se tornou previsível e, sobretudo,
problemático.
Estar “a favor” ou “contra” Israel não é uma posição
absoluta nem moralmente automática. Depende do contexto, dos atos concretos,
das circunstâncias históricas e políticas, e também da sensibilidade ética de
cada um. Nenhuma dessas variáveis, porém, pode servir para suspender o juízo
crítico.
O Holocausto foi, sem dúvida, um crime histórico de
dimensão incomparável: um genocídio planeado e executado de forma sistemática
por um regime ditatorial feroz, assente numa mistura de antissemitismo secular,
ideologia racial pseudocientífica e oportunismo político. Esse horror deve ser
lembrado, estudado e condenado sem reservas. Sempre.
O que não é aceitável é a tentativa, explícita ou
implícita, de transformar essa tragédia num salvo-conduto moral para ações
presentes. A memória de uma calamidade não pode justificar novas calamidades. O
facto de um povo ter sido vítima de atrocidades não lhe confere legitimidade
para infligir sofrimento extremo a outro povo que em nada contribuiu para esse
crime histórico.
A história mostra-nos que regimes autoritários, ou
líderes com ambições autoritárias, recorrem, frequentemente, a bodes
expiatórios para consolidar poder. Invocam ameaças à democracia enquanto
corroem os seus fundamentos por dentro. Instalam-se no sistema precisamente
para o instrumentalizar.
O verdadeiro compromisso ético exige coerência que
passa pela condenação das perseguições, dos massacres e dos crimes contra a
humanidade do passado e do presente, sem exceções seletivas. Não é moralmente
defensável que o perseguido de ontem se transforme no perseguidor de hoje,
exercendo violência indiscriminada sobre um povo inteiro.
Chegados aqui, a pergunta impõe-se com clareza:
pode a reação do governo de Netanyahu, marcada por ataques massivos, sem
distinção clara entre alvos militares e civis, e com evidente intenção de
ocupação territorial, ser considerada proporcional ao ataque terrorista do
Hamas de 7 de outubro?
Ou estaremos, mais uma vez, perante a
instrumentalização do medo, da memória e da dor histórica para justificar o
injustificável?
Um ataque terrorista é sempre um crime abominável. Mas
nenhuma atrocidade inicial legitima a destruição e deslocação sistemática de quase
uma população inteira.
Há poucos gestos mais claros de barbárie do que um
ataque terrorista deliberado contra civis. A violência indiscriminada, planeada
para espalhar medo e morte, mesmo que os seus objetivos sejam por alguns
considerados justos. Merece condenação inequívoca, sem relativizações nem
ambiguidades. No entanto, essa condenação, necessária e justa, não pode servir
de carta‑branca para uma resposta que, em nome da segurança, mergulha uma
população inteira num cenário de devastação.
É precisamente neste ponto que muitas narrativas
oficiais falham. Confundem autodefesa com vingança e justiça com força bruta
como tem sido o caso de Israel com a população de Gaza indefesa. “Comandado” por uma espécie de facínora que é Benjamin
Netanyahu, a justificação é a de combater o Hamas (alguns ataques serão e daí
nada a dizer), mas é a população deslocada, que é o mesmo que dizer perseguida
sem culpa.
Responder militarmente a um ataque terrorista não é,
em si, ilegítimo. Estados têm o direito, e o dever, de proteger os seus
cidadãos. Mas esse direito está longe de ser absoluto. Ele encontra limites
claros no direito internacional, na ética e, sobretudo, na humanidade. Quando
uma reação militar deixa de visar os responsáveis diretos e passa a atingir
indiscriminadamente civis, infraestruturas essenciais e as condições mínimas de
vida, deixa de ser defesa e transforma‑se em punição coletiva. Acrescentaria aqui,
uma espécie de revanche
dos judeus contra “outros” pela vivência no Holocausto.
A desproporcionalidade manifesta‑se quando a escala da
resposta não corresponde ao objetivo declarado. Bombardeamentos maciços em
áreas densamente povoadas, destruição de bairros residenciais, colapso de
hospitais, falta de água, eletricidade e alimentos não são efeitos colaterais
inevitáveis, são consequências previsíveis. E quando são previsíveis, são
também escolhas.
O argumento de que “não há alternativa” ou de que uma
população é cúmplice por viver sob o controlo forçado por um grupo armado é
moralmente indefensável. A maioria das pessoas que habitam territórios em
conflito não escolheu a guerra, não participou no ataque inicial e não dispõe
de qualquer meio para influenciar decisões militares ou políticas. Ainda assim,
são essas pessoas que enterram os mortos, fogem com os filhos ao colo e
sobrevivem entre escombros.
É aqui que a desproporcionalidade se torna mais
evidente, não apenas nos números, mas na injustiça fundamental de quem sofre. A
violência deixa de ser dirigida a culpados e passa a recair sobre inocentes.
Quando crianças, idosos e doentes se tornam as principais vítimas, algo se
perdeu pelo caminho.
Pior ainda, este tipo de reação destrutiva tende a
produzir o efeito oposto ao proclamado. Quando há um país que em vez do recurso
à diplomacia ataca outro com armas com pretextos pouco explícitos e pouco
consistentes, como seja depor um regime em vez de eliminar a violência alimenta‑a.
Cada casa destruída, cada família desalojada, cada
vida perdida sem razão militar clara cria um legado de dor, ressentimento e
desespero. A força excessiva não constrói segurança duradoura, constrói memórias
de injustiça. É o que está a acontecer também no Irão
Há também uma outra dimensão política que não pode ser
ignorada. Quando um Estado afirma agir em nome da lei, dos valores democráticos
ou da ordem internacional, espera‑se dele um padrão de conduta superior ao
daqueles que recorrem ao terrorismo. Quando essa diferença desaparece, quando
os métodos se aproximam na sua brutalidade, a legitimidade moral desintegra‑se,
mesmo que a retórica se mantenha.
Condenar um ataque terrorista ou até mesmo um regime
opressor e, ao mesmo tempo, denunciar uma resposta desproporcionada não é
contradição. Pelo contrário: é um sinal de coerência ética. O valor da vida
humana não pode depender do lado da fronteira em que se nasce nem da narrativa
que domina os noticiários.
Num mundo saturado de slogans e alinhamentos
automáticos, recusar a lógica do “vale tudo” é um ato de lucidez. A verdadeira
força mede‑se na contenção, na capacidade de reagir sem perder o sentido da
humanidade. Quando essa contenção desaparece, a violência deixa de ser exceção,
torna‑se método.
É por isso que: “Sim, NÃO SOU pró-Israel” nem pró
Trump.

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