Escrever qualquer coisa sobre futebol em Portugal é
muito complicado e muito mais quando se trata do Mundial que, infelizmente para
nós, já terminou. O futebol não é o tema deste artigo, apenas serviu como
introdução.
Quando alguém diz ou escreve algo sobre futebol que
seja menos agradável de ler ou de ouvir caiem-lhe todos em cima, apesar do
intuito não ser o de maldizer quem adora futebol a qualquer hora e em qualquer
lugar. Aliás, tenho um neto que é jogador de futebol no SCU Torreense que há
bem pouco tempo fez história na última época ao conquistar a sua primeira Taça
de Portugal. Numa final memorável frente ao Sporting CP, torna-se o primeiro
clube do segundo escalão a vencer uma prova importante do futebol português, o
que lhe garantiu também um inédito apuramento para a Liga Europa.
Para muitos portugueses (e não só) o futebol
sobrepõe-se a tudo. O futebol é tudo. Parece que nada mais conta. As atenções
viraram-se para os momentos efémeros do Mundial em que Portugal venceria. E,
depois? Depois mais nada. Tudo fica no mesmo marasmo. Restam-nos a Liga
portuguesa, o Campeonato de Portugal, Liga 3, Taça de Portugal, etc., para o
nosso entusiamo e alegrias já que outras não temos.
A loucura da expectativa de que Portugal venceria o
Mundial de Futebol superava e fazia esquecer as dificuldades do dia a dia que
tantos aflige. Desde que haja futebol como o Europeu, o Mundial ou o nosso
clube vença, é quanto basta. É o mais importante a alcançar. É o que temos em
mente.
No passado o futebol era a conversa de escape num país
onde falar de política era quase um crime. O regime de Salazar usava Eusébio
para prestigiar a natureza pluricontinental e multirracial do regime, num tempo
em que o colonialismo português começava a isolar internacionalmente o país.
No século XIX o economista e filósofo Karl Marx afirmava que a “religião é o ópio do povo” querendo dizer que serve como um anestésico para superar o que nos aflige, o sofrimento enfrentado pelo povo. O futebol como desporto de massas que é não terá na atualidade o mesmo efeito? Porquê tanto futebol? O futebol supera tudo. Dá-nos muitas alegrias, dizem alguns! E dá, para alguns muito e muito dinheiro. O futebol adormece-nos e afasta-nos das realidades como a mente duma criança.
Afinal, onde pretendo chegar com esta introdução sobre
futebol? A resposta é: acabaram-se as emoções da bola e temos o regresso à
realidade. Portugal vive há demasiado tempo entre as memórias das suas glórias
históricas e a emoção do futebol. Orgulha-se, com razão, dos Descobrimentos, da
língua espalhada pelo mundo, da resistência cultural (cada vez menos) de um
povo cujo território é pequeno, mas vasto em história. Vibra, também com as
vitórias da seleção, com os feitos dos seus clubes e com a capacidade rara dos
seus jogadores (sobretudo um) admirado em todos os continentes. O problema não
está em celebrar o passado nem em gostar de futebol. O problema começa quando
essas duas forças se tornam quase as únicas grandes narrativas coletivas de um
país que precisa, urgentemente, de melhorar o presente e virar-se para o
futuro.
Há em Portugal uma tendência persistente para
transformar a história em refúgio. Evoca-se o império marítimo, a coragem dos
navegadores, a epopeia cantada por Camões e a ideia de uma missão universal
como se essas referências bastassem para responder aos desafios atuais através
da emoção do orgulho do passado. Mas nenhum país se desenvolve apenas pela
grandeza do que foi. Quando o passado se converte numa compensação simbólica
para a falta de ambição presente, deixa de ser património histórico, passa a ser
desculpa. Servem também para criar um clima de emoção patrioteira no qual as
críticas políticas perdem espaço para se manifestarem e/ou serem ouvidas.
Para confirmar esta asserção vem aí mais uma nova
comemoração virada para o passado a celebração dos 900 anos da Fundação de
Portugal que permitirá a Portugal “aprofundar o conhecimento pela nossa raiz
histórica, pela nossa identidade, pela nossa cultura” e pelo “sentimento de
sermos portugueses e de sermos uma das nações mais antigas do mundo”.
Mais uma vez recorrendo ao futebol notamos que esta é
uma das poucas áreas em que Portugal parece acreditar verdadeiramente onde pode
competir com os melhores. Nesse campo, há planeamento, formação, exportação de
talento, profissionalização e ambição internacional.
A questão incómoda é esta: por que razão essa
confiança não se transfere para a ciência, para a indústria, para a escola
pública, para a habitação, para a justiça, para a administração do território
ou para a inovação tecnológica? Veja-se o caso atual do Ministério da Educação
onde parece reinar o caos com os exames e avaliações em que se implementaram
transformações não testadas. E quando tudo falha, e está a falhar, a
responsabilidade nunca cabe a quem resolveu decidir dar uma passada maior do
que a perna; cabe ao sistema informático, às abstratas desculpas de
dificuldades técnicas, e segue-se uma averiguação que há de vir, mas que já
nada resolve.
Somos um país onde há um Governo em que a norma é:
destrói-se primeiro e depois reforma-se. Destruir será sinónimo de reformar?
Para o atual Governo parece que sim! O ministro da propaganda, Leitão Amaro,
nas suas press release, diz que está tudo bem!

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