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quarta-feira, 1 de maio de 2024

As reparações dos pecados cometidos ou lá o que seja há mais de 500 anos



Não resisto a incluir aqui um artigo de opinião de Maria João Marques sobre essa famigerda polémica das reparações da escravização e da colonização ocorridas há mais de 500 anos.


Quem nunca escravizou nem colonizou tem de pagar reparações?










A esquerda woke não anima os descamisados do mundo rico, pelo que tem de animar a malta urbana abonada com necessidade de expiar pecados.







Vou revisitar o já famoso e infame jantar de Marcelo Rebelo de Sousa com os jornalistas estrangeiros. No meio do racismo para com António Costa, o classismo para Luís Montenegro e a informação – dada de uma forma displicente que aterroriza a mãe que escreve estas linhas – do corte de relações com o filho, o Presidente faria bem em alegar perante o país tratar-se de um episódio de insanidade temporária.


Ou, pelo menos, como no filme Anatomia de um Crime, com o divino James Stewart, ter sido acometido por um "impulso irresistível". O que teria a vantagem de ser verosímil. Todos sabemos que Marcelo Rebelo de Sousa tem o impulso irresistível de falar.


Porém Marcelo Rebelo de Sousa falou em reparações que Portugal tem de pagar às ex-colónias, por massacres e escravatura. A expressão (inteiramente clara) foi "pagar custos" das maldades todas que fizemos. Foi leviano, claro, por impulso irresistível ou deliberadamente. Entretanto, percebendo que não é tema que lhe dê píncaros de popularidade, já veio amenizar: reparações podem ser o perdão da dívida ou o "estatuto de mobilidade" dos cidadãos do PALOP. Mas a discussão ficou.


Os vários partidos já tomaram posição – quer dizer, quase todos. O Chega rasgou as vestes e quer censurar o Presidente no Parlamento. Porventura viram algum episódio de uma série política americana onde tal ocorreu. O BE e o Livre garantem que temos muito que reparar por todo o lado. O Governo, e bem, informou não planear nenhum programa de reparações. O PS, percebendo que é um tema que não agrada ao eleitorado mas não querendo descolar da esquerda woke que é natureza de Pedro Nuno Santos, não tomou posição, dizendo (através de Marta Temido) que é um assunto muito sério a ser debatido nos fóruns próprios.


Há aspetos nesta discussão para mim inteiramente pacíficos. Sou, por princípio, favorável à devolução de todas as obras de arte e artefactos obtidos por pilhagem. Aplico-o aos países africanos ou aos mármores gregos do Parténon que estão no Museu Britânico. Desde que se garanta, claro, que a devolução assegura a preservação da peça e que é feita de modo a beneficiar a população espoliada (num museu onde possa ser visitada e estudada e fomente o turismo que enriqueça a região) e não termine nos salões de um qualquer oligarca do regime.


No caso português, sou de opinião (mesmo fora da discussão das tais reparações) que se deve privilegiar imigração dos PALOP face a outras proveniências sem ligações culturais a Portugal. Não me chocariam quotas, bem como um regime de bolsas, nas universidades portuguesas específicas para alunos dos PALOP, que de resto as têm crescentemente procurado. E o perdão da dívida aos países pobres de África é um imperativo moral a que todos os países europeus têm respondido, e há que incrementar.


Qual é então o meu problema com a discussão das reparações? Vários e o menor é o mais prosaico: não temos dinheiro. E pagamos a quem? A indivíduos (nem escravizados nem colonizados) ou a regimes peculiares (se não mesmo cleptocratas)?


Começo por ver muito problemática a vontade de fazer contas à História velha de séculos que se julga com lentes do presente. Mais: onde paramos? Outro problema: há uns anos fomos surpreendidos com números portugueses avassaladores do comércio transatlântico de escravos; sucede que há nuances. Afinal Lisboa foi responsável por 4% do comércio de escravos africanos e o grosso foi feito a partir do Brasil (37%), por interesse (e proveito) da economia brasileira, sem ser política da metrópole, que deixava andar por não conseguir parar o tráfico.


Não temos de nos orgulhar dos nossos 4%, nem de inaugurar a prática. Porém o país que mais escravizou e traficou foi o Brasil. Que a administração Lula, exemplo indigesto do populismo de esquerda sul-americano, venha pedir reparações a Portugal, duzentos anos depois da independência, é topete. Cerca de 400.000 brasileiros vivem em Portugal, extremamente bem inseridos. Tratam-se nos hospitais públicos e os filhos frequentam as escolas pagas com os impostos dos portugueses que já cá viviam antes. Diria que é uma boa reparação.


O meu problema maior é a real finalidade desta discussão, que nada tem que ver com países colonizados nem descendentes de escravos. É simplesmente parte da agenda niilista antiocidental. O objetivo é expor a malícia e maldade da humanidade branca ocidental, causa de todas as calamidades desse mundo vítima e marionete da perfídia europeia.


Claro que isto é a maior confissão de ignorância, racismo e eurocentrismo. Não concebem que o resto do mundo tem uma existência e uma História que vai muito além da interação com os países europeus. Não sabem que até à revolução industrial os países mais ricos do mundo eram a China e a Índia. Desconhecem que depois da revolução industrial os países asiáticos prosperaram quando (e se) implementaram políticas copiadas das europeias (o caso japonês é sintomático). Ignoram as tensões regionais que nada têm que ver com a Europa. Más práticas de outros países e culturas são apagadas: só interessa visar o que cabe no simbólico Ocidente. A escravatura também industrial praticada pelo mundo árabe, com números igualmente assustadores e muito mais recente (até Hergé escreveu um livro do Tintin sobre este crime em meados do século XX) – não interessa nada, afinal o mundo islâmico é o clímax do anti-Ocidente.


A discussão é tão freudiana e religiosa quanto política. A esquerda woke não anima os descamisados do mundo rico, pelo que tem de animar a malta urbana abonada com necessidade de expiar pecados. Como odeiam o catolicismo e hábitos como a confissão (que Freud muito bem considerava e tem um princípio parecido à "cura pela conversa" que é a psicanálise: construir uma narrativa para contar o que vivemos é em si mesmo curativo), têm ética deficiente que os incentive a olhar para pecados próprios, e vivem num mundo superficial onde o que mais conta é a sinalização pública de virtude, escolhem expiar pecados alheios, passados há séculos, numa tentativa de demonstração de moral intocável.


Pela minha parte, sou católica, reparo os meus próprios pecados, não tenho necessidade psicológica de expiar a História, desde logo porque nunca escravizei nem colonizei. Deixo "pagar custos" para o Presidente e para os seres perfeitos da nossa esquerda que o propõem.


A autora é colunista do PÚBLICO e escreve segundo o novo acordo ortográfico






sábado, 27 de fevereiro de 2021

Os apagadores: monumentos, colonialismo e império perdidos


Artigo a partir do blogue Estátua de Sal 


A imensa estupidez de querer derrotar a História




(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 26/02/2021)








Ciclicamente, há uns espíritos desocupados da esquerda pronta-a-consumir que se dedicam a escarafunchar a História de Portugal a pretexto da depuração racista e de um ajuste de contas extemporâneo com o passado colonial, como se alguém lhes tivesse deixado em herança a missão de o resgatar e limpar de todas as impurezas. Esquecem-se, ou ignoram, que a História não pode ser julgada pelos padrões éticos contemporâneos nem pelo comportamento de cada país ou sociedade visto isoladamente, fora do contexto da época. E esquecem-se, ou ignoram — ou pior, assumem, sabendo — que esse é o caminho mais rápido e inevitável para tornar inviável qualquer discussão séria, reduzindo-a a um debate sem sombra de grandeza ou finalidade, apenas contaminado por preconceitos ideológicos, onde uma esquerda arrogante e ignorante julga poder obter ganho de causa pela simples ameaça de excomunhão alheia. Mas onde apenas consegue fazer ressuscitar das catacumbas uma ultradireita nacionalista e igualmente ignorante e facciosa, saudosa de um Império que foi muito mais a nossa ruína grandiosa e pretexto para uma longa ditadura do que o orgulho pátrio que nos vendiam. E eis como os extremos se tocam e mutuamente vão envenenando o ar que respiramos.



De repente, caiu-nos em cima um Blitz de ajuste de contas com o Império, o colonialismo e as guerras coloniais, totalmente desfasado de circunstância e real importância, não se desse o caso de ambos os lados não encontrarem outra forma de fazerem prova de vida: a extrema-esquerda porque já não consegue inventar mais causas fracturantes; a extrema-direita porque nunca encontrou outras causas tão emotivas. Três coisas lhes serviram de pretexto: os arranjos florais dos jardins da Praça do Império, datados de uma Exposição Floral de 1961; a morte do Torre e Espada Marcelino da Mata, ex-comando nativo na Guiné; e uma estapafúrdia declaração de um deputado e ex-governante socialista, defendendo, num dia em que se esqueceu de tomar os calmantes, entre outras luminosas considerações, o derrube do Padrão dos Descobrimentos, esse símbolo do nosso colonialismo. OK, se tem de ser, vamos então a isso.


Sobre os jardins de Belém e os seus arranjos, outrora florais e entretanto desaparecidos, confesso não ter opinião nessa palpitante querela. Adoro jardins e adoro flores, mas se elas representam os distritos do antigo Império ou os símbolos dos clubes da 1ª Liga, é-me indiferente: confio no vereador Sá Fernandes, que tem obra feita em Lisboa, para se ocupar do assunto.



<span class="creditofoto">ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO</span>
ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO



Sobre Marcelino da Mata, herói ou vilão, a questão é bastante mais séria e só quem viu ou viveu a guerra de perto saberá como todas as guerras são feias e como o são particularmente as guerras de guerrilha e de contraguerrilha. Os que estavam lá no mato idos daqui, tantas vezes borrados de medo daquele inimigo que lhes levava vantagem em conhecimento do terreno e técnicas de combate, mil vezes devem ter agradecido aos Marcelinos da Mata que lhes salvaram a vida, indo aonde eles não eram capazes de ir e não se preocupando então em saber, certamente, que métodos de contraguerrilha eles utilizavam. Da mesma maneira que não o perguntavam sobre as unidades de “Flechas”, da PIDE, que no mato faziam o trabalho sujo a favor da tropa portuguesa. Como não se preocuparam os 26 prisioneiros portugueses resgatados das masmorras de Sekou Touré, em Conacri, pelos comandos que Marcelino da Mata integrava, em saber se aquela operação era legal ou ilegal. Por isso, a pergunta se Marcelino da Mata foi herói ou criminoso de guerra não faz sentido: obviamente, foi ambas as coisas. O que faz sentido, já que querem remexer na História, é perguntar porque deixámos para trás, abandonados à sua sorte, os combatentes guineenses que tinham combatido ao nosso lado e que o novo poder do PAIGC se comprometera a integrar nas forças armadas do novo país independente, mas que acabaram, ou na miséria, ou fuzilados sumariamente. Ou perguntar três coisas ao coronel Vasco Lourenço, que arrolou agora como prova dos crimes de Marcelino da Mata (“facto” depois reproduzido por vários outros, como Daniel Oliveira, na última edição deste jornal) uma conversa a que terá assistido no “gabinete de um major”, em que Marcelino da Mata, regressado de uma operação, contou como entrara numa aldeia, atirara granadas para dentro das palhotas e, quando as mulheres e crianças saíram, fuzilou-as a todas: quem era esse major? Porque razão, ele, Vasco Lourenço, testemunha da confissão de um massacre desconhecido mas igual em gravidade ao de Wiriyamu, em Moçambique, se limitou a “retirar-se, incomodado”, em lugar de cumprir o seu dever de oficial e de homem de denunciar aquilo que tinha testemunhado? E porque só falou disso agora, depois de 50 anos de silêncio, e quando o suposto autor do massacre já cá não estava para, eventualmente, o contradizer?


Ah, e vamos às estátuas, aos “monumentos coloniais”. Mas, primeiro, deixem-me autobiografar-me no assunto. A seu tempo, que é o que interessa, fui, lúcida e convictamente, um opositor da guerra colonial e do tal Império — sobre o qual nunca tive dúvidas de que era, além de absurdamente tardio e inviável no tempo, profundamente iníquo e imoral para os povos colonizados e fonte de enganadora prosperidade do país, quando, de facto, só era benefício de muitíssimo poucos, o qual pagávamos com o sacrifício de vidas, de liberdade e da nossa integração no espaço europeu de prosperidade e justiça social. E, por isso, se sempre olhei com compreensão e respeito todos aqueles que, por opção, por profissão ou por falta de possibilidade de escolha, combateram nas guerras do Ultramar, também sempre respeitei e admirei os que, por convicção apenas, escolheram não combater numa guerra que não aceitavam e viveram no exílio vidas bem mais difíceis do que o discurso primário da direita imagina. Tantos anos passados, não mudei nada do que então pensava. Mas estou em paz com o assunto, com uns e com outros, e com a História — a nossa. Que, como todas as outras, teve momentos miseráveis e momentos grandiosos.



Quem não ousa sonhar ou compreender proíbe a memória dos que se atreveram. Têm medo de livros, de relatos, de estátuas, de museus. Para, no fim, acharem que ganharam a batalha contra a História. Pobres idiotas!



Mais tarde, já o Império era apenas uma saudade para uns e uma sombra para outros, tive ocasião de estudar detalhadamente e de escrever sobre um desses momentos miseráveis: o trabalho escravo nas roças de cacau e café de São Tomé e Príncipe, que descobri então, para espanto meu, durara até meados dos anos 50 do século XX: quase cem anos depois de termos abolido oficialmente a escravatura. Mas também descobri, 30 anos depois da independência, que São Tomé e Príncipe era um país falhado, como o são, com excepção de Cabo Verde, todos os que descolonizámos — e essa é, afinal, a pior herança que deixámos e o pior desmentido à nossa invocada “missão civilizacional” de 500 anos. Naquele país, liberto das amarras coloniais, com condições naturais únicas para ser um pequeno paraíso no Atlântico, tudo era mal gerido, tudo tinha sido destruído: as roças, todas as infraestruturas, os inúmeros hospitais que havíamos deixado (cada roça tinha o seu), desbaratadas ou metidas ao bolso dos governantes as generosas ajudas externas, e só numa coisa, aparentemente, se revelava o orgulho nacional: nas estátuas decapitadas dos navegadores portugueses que haviam descoberto as ilhas e que jaziam no terraço do antigo forte português, transformado em Museu da Resistência, ou coisa assim. E, então, ali me quedei sozinho, em silenciosa homenagem a João de Santarém e Pero Escobar, que em 1470 tinham cometido o crime, pelo qual depois as suas estátuas haviam sido decapitadas, de descobrirem aquelas ilhas desabitadas, no longínquo ano de 1470.


E o mesmo fiz diante do forte do Príncipe da Beira, na fronteira do Acre com a Amazónia — um dos sete fortes que o marquês de Pombal mandou construir ao longo da fronteira do Amazonas e aos quais o Brasil ficou a dever esse imenso território que hoje tão mal trata. Ali, diante das muralhas em granito de Portugal, cujas pedras atravessaram um oceano, subiram o rio Amazonas e foram depois carregadas até ao forte e empilhadas para formarem um quadrado de cem metros de lado, mais uma vez fiquei em silêncio porque não havia palavras que servissem. E nesse momento, tentando imaginar o que aqueles portugueses do século XVIII teriam suportado naquela empreitada, quantos teriam morrido de exaustão, de febres, de mordeduras de cobras ou de ataques dos índios — ou apenas de saudades — lembrando-me do que Joaquim Nabuco, o maior historiador brasileiro, disse (“nenhuma empreitada dos portugueses no mundo se compara à colonização da Amazónia”), li, e nunca mais esqueci, o que está escrito no frontispício da entrada do forte: “É vontade de El-Rei. Faça-se.” Assinado: Luís de Albuquerque, governador.


E o mesmo farei se um dia for a tempo de ainda contemplar a estátua de Gaspar Corte-Real, que a comunidade lusa ofereceu ao Canadá em 1965 e que está colocada em St. Johns, na Província de Terra Nova e Labrador, de braços cruzados, contemplando o oceano que o trouxe desde os Açores, a sua terra natal. Não sei a que propósito ou despropósito, na sequência do movimento “Black Lives Matter”, parece que a estátua simboliza agora “uma narrativa colonialista, eurocêntrica e de supremacia branca”. E o curioso é que o autor desta frase é um professor universitário de Toronto, encarregado dos “Estudos luso-canadianos” e de origem e nome português — uma espécie de Ascenso Simões norte-atlântico. Porém, a verdadeira história é outra: Gaspar Corte-Real era o filho mais novo de João Vaz Corte-Real, descobridor e explorador da costa norte-americana, do rio Hudson ao Labrador, em 1472, 20 anos antes de Colombo ter chegado à América. Em 1501, o seu filho Gaspar voltou a explorar a Terra Nova (Newfoundland) e o Labrador, desaparecendo sem nunca mais ser visto. E no ano seguinte, o seu irmão Miguel partiu à sua procura, na que então chamavam “a terra dos Corte-Reais”, e desapareceu também para sempre. E, sempre à vela, muito antes de o primeiro canadiano ter pisado a terra a que hoje chamam sua e de onde correram com todos os índios que puderam, os portugueses continuaram até aos anos 60 do século XX a saciar ali a sua sede de aventura e a sua fome de bacalhau. Pois que derrubem a estátua, só lhes fica bem!


Quem não sabe construir, destrói o que outros construíram. Quem não tem história para contar, apaga os sinais do que outros escreveram. Quem não ousa sonhar ou compreender proíbe a memória dos que se atreveram. Têm medo de livros, de relatos, de estátuas, de museus. E, tal como Estaline, hão-de acabar a apagar os personagens incómodos das fotografias. Para, no fim, acharem que ganharam a batalha contra a História. Pobres idiotas!


Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia


segunda-feira, 29 de junho de 2015

A Grécia e as pressões e preconceitos da direita


Em Portugal o problema da Grécia tem provocado comentários e análises motivados por preconceitos partidários e ideológicos que chegam ao ponto do irracional como os comentários de Luís Pedro Nunes, diretor do Inimigo Público, que pretende ter graça e satirizar mas que de graça nada tem. Em vez de distanciamento e isenção que se esperaria por parte de comentadores e analistas políticos, formando e informando, o que se vê é desinformação e tropeços em comentários emocionais, ideológica e tendencialmente partidarizados.


Os senhores que mandam na Europa não se dão bem com a esquerda, mas dá o seu beneplácito a governos de direita em coligação com sociais-democratas que lhe sejam fiéis e obedientes. É isto que está em cima da mesa, daí a teimosia dos dirigentes europeus que vêm com desagrado e querem fazer com que seja um mau exemplo para se no futuro chegarem ao poder partidos de esquerda mesmo que democraticamente eleitos. Chamam-lhe esquerda radical mas onde está a outra, a não radical? Essa já foi há muito absorvida deixando de ter representação significativa.


Há que reconheçer que a responsabilidade é de todos, políticos, governos, do povo, e dos líderes europeus mas parece que estes últimos não querem assumir as suas responsabilidades e centram-se apenas em arranjar formas de fazer cair um governo apenas por ser duma esquerda não-alinhada com as propostas que lhe querem impor.


O problema é, por isso, mais político do que financeiro e económico. Não é com vinagre que se apanham moscas diz o povo. A direita que toma posições radicais e que governa a europa, onde Portugal também se encontra, preferiu utilizar sprays fortíssimos para afastar uma espécie de moscas que lhe vieram cair em cima do prato.


É necessário ter em conta que não se trata de moscas mas de um país que foi enfraquecido por medicamentos que era suposto fortificá-lo mas que o colocaram num estado de tal depauperação que está em vias de não conseguir sequer levantar-se. No entanto, quem nos governa na Europa quer mostrar para a opinião pública que já reduziu o máximo que podia o princípio ativo do medicamento prescrito que estavam a obrigar os gregos a ingerir. Mas este princípio ativo não ajuda à cura da doença mas colocar o doente num estado de letargia durante anos.


Vamos ser objetivos, têm sido identificados na Grécia situações como evasão fiscal, a falta de agilização na cobrança de impostos, a corrupção, mau funcionamento dos tribunais administrativos, problemas de oligopólios, nas profissões, etc.. A quem devemos imputar a responsabilidade disso senão aos governos anteriores que fora socialistas, direita e de centro direita de coligação e outras fórmulas mágicas de coligações que nunca conseguiram por falta de vontade política, comprometimento com o status quo e porque nunca quiseram tocar em privilégios instalados durante anos.


A Grécia tem responsabilidades de estar na situação em que se encontra, mas a responsabilidade não é, por certo, do Syriza que nunca esteve sozinho no governo da Grécia nem sob a forma de qualquer coligação. O Syriza está no Governo da Grécia como consequência do que fizeram os governos antecedentes.


É bom recordar que em 23 de abril de 2010 o Governo da Grécia era liderado por Papandreou do partido socialista, altura em que foi pedido o primeiro resgate financeiro devido à crise europeia fazendo entrar 100 mil milhões de euros provenientes das três entidades internacionais (União Europeia, Banco Central Europeu e FMI). Em março de 2012 recorre a um segundo resgate de 130 mil milhões que entraram até finais de 2014. O resultado das condições impostas pela troika ao governo de Atenas, com Samaras da Nova Democracia então no poder, não foram cumpridas e as que o foram também não resultaram apesar dos extremos sacrifícios a que sujeitaram o povo grego.


Ao aceitar o empréstimo da troika em troca de €245,6 mil milhões de euros de maio de 2010 a março de 2016, o Governo comprometia-se à da implementação de reformas económicas, privatizações e medidas de austeridade.


No momento de uma das avaliações a troika encontrou um desfasamento no cumprimento das metas do plano de cerca de 2,5 mil milhões de euros nas contas e pedia medidas acrescidas de austeridade mas o Governo insistia nas suas contas que eram as corretas e sujeitou-as ao parlamento que as aprovou.


Para Mariana Mazzucato do The Guardian o problema da Grécia não pode ser resolvido com cortes e mais cortes e acrescenta que "o problema da Grécia nunca foi um problema de liquidez mas de solvência, ou seja, a sua incapacidade para cumprir os compromissos com os recursos que constituem seu património ou ativo. Foi a crise da competitividade agravada pela crise financeira. A crise grega não aguentando mais cortes deveria ser direcionada uma estratégia de investimento sério, acompanhado por reformas sérias do Estado e da fiscalidade tendo em vista a competitividade. A insistência no status quo de mais austeridade produz uma Grécia cada vez mais fraca, com mais desemprego e mais perda de competitividade."


A Grécia tem problemas que quer resolver mas precisa do apoio da União Europeia que lho está a negar apenas, e só, por mero preconceito e receio de que outros países possam seguir-lhe o exemplo de se atreverem a votar em partidos que não são aceites por governos que pretendem ser dominantes e hegemónicos. A estratégia tem sido dominar e controlar pacificamente outros países mais fracos, através de governos subservientes que não lhes crie problemas, de modo a possam ficar no domínio da sua influência e da qual não se possam libertar. É uma espécie de colonialismo dos tempos moderno através da finança, isto é, uma forma de domínio económico, político e social, exercido por um país sobre outro, separado geograficamente dele.