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sábado, 29 de novembro de 2025

Presidente comentador versão 2.0

Eleições Presidenciais-Marcelo-Mendes.png


No debate André Ventura com Marques Mendes o primeiro não foi novidade a nuvem de palavra costumeira fluía tocando a mesma partitura. Sobre a pergunta sobre o que faria se fosse eleito presidente como tem sido habitual a resposta nem ouvi-la. A estratégia foi a fuga para a frente.


Marques Mendes lá foi andando com alguns tropeções. Não é fácil debater com Ventura porque é entrar numa espécie de carrocel. André Ventura mostrou que, em assuntos fundamentais, na diplomacia não tem sentido de Estado. Marques Mendes foi acusado por Ventura de ser uma “marioneta de Montenegro”, que não é independente e que era o “comentador do sistema” “alinhado com o primeiro-ministro” disse.


Sobre a justiça Marques Mendes disse que convocaria uma reunião do Conselho de Estado para tratar da corrupção e da reforma da justiça ao que André Ventura, aproveitou para lhe chamar “fofinho” afirmando que preciso é acabar com eles. Ventura só não especificou como o faria.


É provável que Marques Mendes vá à segunda volta, mas se conseguir passar a essa etapa e ganhar vamos ter uma espécie do slogan que Sá Carneiro tendo em 1980 a AD uma maioria absoluta nas eleições presidenciais apoiava o General Soares Carneiro e pedia “uma maioria, um Governo e um Presidente”. Na composição atual do Parlamento há uma minoria AD um Governo e um presidente, Marcelo Rebelo de Sousa.


Parece haver uma dinâmica de comentadores TV e artigos de opinião com tendência para a promoção do candidato Marques Mendes. Já aqui escrevi um texto em relação às opções partidário- ideológicas de comentadores de política e dos candidatos à Presidência da República.


Já temos um Presidente da República em fim de prazo que veio de comentador em canais de televisão e se tornou num selfista, apresenta-se agora à candidatura do cargo uma outra personalidade que, à semelhança do primeiro, também foi comentador político poderemos vir a ter outro, embora com algumas diferenças mas da mesma área partidária. É mais do mesmo.


Analisemos então as diferenças entre as duas versões. Primeiro quanto ao percurso político. Ambos têm trajetórias semelhantes porque foram líderes do PSD e comentadores televisivos.  Marques Mendes tem sublinhado que não é uma “cópia” nem uma “imitação” afirmando que são “muito diferentes” ele e Marcelo Rebelo de Sousa. É uma verdade óbvia. São personalidades diferentes apesar da amizade, vieram do mesmo partido. Há algumas coincidências. Pois, é nas coincidências que pode estar o problema porque é um campo muito vasto para que não haja semelhanças.


Marques Mendes destaca-se pelo apoio explícito ao PSD, mas fez questão de entregar o cartão de militante como gesto simbólico de independência, tal como fez Cavaco Silva. Ora aqui está uma atitude que tem apenas um significado simbólico por que como já escrevi noutro texto sobre Marcelo Rebelo de Sousa “sendo militante do PSD não se desfiliou do seu partido, tendo suspendido a militância quando concorreu pela primeira vez à Presidência da República.  Não existe um requisito legal explícito que obrigue um Presidente da República a desfiliar-se do seu partido, assim, um candidato à Presidência da República pode manter a sua filiação partidária. O que está estabelecido na Constituição da República Portuguesa é que o Presidente da República deve atuar com total independência e imparcialidade para representar a unidade nacional… Contudo, a desvinculação ao partido a que pertence é uma consequência natural e necessária para garantir a sua atuação enquanto Chefe de Estado”


Numa entrevista, ao ser questionado sobre as semelhanças que tem com o atual Presidente da República, Marques Mendes, devido ao facto de terem sido ambos presidentes do PSD e comentadores televisivos rejeitou ser um “filho político” de Marcelo Rebelo de Sousa. Quis demonstrar que é um candidato experiente, preparado e conhecedor sobre o que deve ser um Presidente, o que parece ser arrogância face a outros candidatos, o que pode ser demonstrativo do quanto ele está implicado com o sistema, tal como diria André Ventura se fizesse um cometário a esta afirmação.


Marques Mendes defende ainda que o presidente deve estar preparado para evitar crises e propõe pactos de regime para regenerar a política, aproximando partidos em matérias como ética e justiça. Lugar-comum a quem se candidata a presidente porque não se vislumbra diferença em relação aos outros candidatos que defendem o mesmo, PSD com o CDS-PP.


Para se destacar Mendes exprime um sentimento negativo ao afirmar depreciativamente Rebelo de Sousa dizendo que se fosse presidente reuniria mais vezes o Conselho de Estado e não manteria a prática de promulgar leis e fazer comentários públicos sobre elas, como faz Marcelo. Considera que esses comentários criam “ruído e instabilidade” e não são úteis, pois o presidente não é governo. Marques Mendes seria, portanto, um presidente fugidio, escondido, refugiado no palácio, mais ou menos «à moda» de Cavaco Silva.


Apesar das semelhanças no percurso, Marques Mendes procura afirmar uma postura mais institucional, menos mediática e mais focada na estabilidade política e na transparência. Já Marcelo Rebelo de Sousa é conhecido pelo estilo comunicativo, pelos comentários públicos e pela proximidade com o público. Mendes quer marcar diferença pela forma de exercer o cargo e pela defesa de pactos e acordos claros entre partidos.


Contudo, Marques Mendes tanto distanciamento quer ter de Marcelo Rebelo que se esqueceu, como escreve Ana Sá Lopes no Público, que Marcelo «Foi capaz, entre muitas selfies e outros exageros, de dessacralizar a instituição Presidente da República, o que era fundamental a seguir ao último mandato de Cavaco. Esteve mais perto do povo do que talvez qualquer um dos seus antecessores.». E termina sublinhando que «O excesso de demarcação de Marcelo Rebelo de Sousa pode, se calhar, não ser uma ideia assim tão boa. Ah, basta ver o plano de “paz” para a Ucrânia para ver que o Presidente tinha razão quando considerou Donald Trump “um activo russo”. Confirma-se.»


Marques Mendes defende também que o Presidente da República deve ser “experiente, preparado para evitar crises e independente”, não sendo uma “correia de transmissão” do partido.


Não ser uma “correia de transmissão” do partido surgiu-me uma dúvida filosófica: será que alguém deve demitir-se da sua ideologia enquanto político quando exerce um importante cargo público, por exemplo, como o de Presidente dum país?


Não é possível os candidatos a presidentes demitirem-se totalmente da ideologia, porque toda ação política implica valores e escolhas normativas, é possível, isso sim, suspender a identidade partidária ou suavizar a marca ideológica, apresentando-se como uma espécie de árbitro ou moderador mais ou menos pragmático. Todavia, essa suspensão é sempre parcial e provisória porque a ideologia reaparece nas decisões concretas e na perceção pública.


Prestar juramento de defender a Constituição exige dar prioridade às obrigações constitucionais acima das suas crenças pessoais ou religiosas, mas não obriga à renúncia da ideologia, mesmo que partidária, apesar dessa renúncia ser uma imposição mais de consciência do que outra.


De facto, simbolicamente, a atitude de Marques Mendes pode ser um gesto de distanciamento meramente estratégico, para se apresentar como independente ou pragmático, mas no plano prático, mesmo que rejeite rótulos, as suas decisões continuarão a refletir valores, prioridades e visões do mundo que são em si mesmos ideológicos. Cargos como o de Presidente da República exigem imparcialidade formal, mas não anulam a bagagem ideológica de quem ocupa o lugar.


Assim, a declaração de Marques Mendes de que não será correia de transmissão do partido não fazer mudar a posição dos eleitores visto que estes projetam expectativas ideológicas sobre qualquer candidato, mesmo que este se declare acima das ideologias. Também não é possível demitir-se totalmente do que defende em teores políticos visto que toda a ação política implica valores e opções que, de certo modo, são de carácter ideológico.


Isto ocorre quando a adesão dogmática à ideologia entra em conflito com o dever de servir a nação e o país, com a evidência empírica dos factos e com a racionalidade do indivíduo. O que pode estar em causa é a distinção entre oportunismo de mudança para benefício próprio e uma reavaliação de colocar acima de tudo mudança para servir o país.


A fim de melhorar as suas hipóteses de eleição e para manter a sua influência os políticos, e Marques Mendes é um deles, estão plenamente cientes de sua viabilidade eleitoral e podem modificar as suas posições para se alinhar com as mudanças no sentimento público e perceção dos eleitores fazendo por mostrar que o dever para com o bem comum deve sobrepõe-se à lealdade ideológica. Mas os eleitores que votam num determinado partido irão também votar num candidato a Presidente da República do qual conhecem o seu pensamento em termos partidário-ideológico.  Todos os candidatos a presidentes aquele que ganhar e for empossado tenta procurar distinguir-se do seu anterior e afirmar-se autonomamente perante a opinião pública, mas nem sempre é assim.


Marques Mendes será uma espécie de Marcelo mais contido, mais reflexivo, mas não deixará de ser mais do mesmo porque o “vício” do comentário televisivo não desaparece facilmente defendendo o que a sua consciência partidária lhe ditar. Se não o fizer será para si uma contrariedade como o foi a de Cavaco ao tempo em que aceitou uma “geringonça”.  


Cavaco Silva não aprovava a geringonça porque a considerava uma solução inédita, arriscada e pouco credível, tanto interna como externamente. Aceitou-a apenas por não ver alternativa viável, entre um governo de gestão ou a nomeação de Costa, e procurou reduzir os riscos impondo condições formais.

segunda-feira, 3 de março de 2025

Propaganda do Governo sem as explicações esperadas

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Quando há um painel de comentadores partidários em que se convide um elemento da coligação AD para o debate é correto e normal que assim seja. Foi, no entanto, com espanto que vimos em dias após a comunicação ao país do primeiro-ministro os diretores de informação das televisões convidarem ministros do governo de Montenegro para comentarem a comunicação. Não seria de esperar que tal seria uma narrativa uniforme em defesa do primeiro-ministro.


Vitimizações devido a suspeitas que caem sobre partidos, militantes e governantes são recorrentes. É uma tática para minimizar estragos. Até o lança foguetes André Ventura utiliza a mesma tática.


A comunicação do primeiro-ministro Montenegro de sábado passado teve laivos de manipulação emocional usando a retórica da família e da vida privada que, nas circunstâncias a que ele se referia não se trava apenas de vida privada, para tornar a sensibilidade das pessoas mais suscetíveis para acreditar nas palavras que ouviam. No final perguntas não houve para ninguém, deixando o mistério do suposto empresário avolumar-se.


Já escrevi anteriormente que, sendo o primeiro-ministro um jurista reconhecido e praticante da advocacia, não previu o que, mais tarde ou mais cedo, poderia acontecer ao vir a ocupar a função que atualmente ocupa.


Depois do caso estar na praça pública enredou-se em retardar explicações plausíveis esperando, provavelmente, que a fervura do tema acalmasse. Como tal não aconteceu veio dar umas explicações atabalhoadas rodeando habilmente o que, de facto estava, em questão aquando da moção de censura apresentada pelo Chega de André Ventura que está sempre atento a tudo quanto lhe possa dar visibilidade nos media.


O primeiro-ministro enganou-se, a comunicação social estava atenta e não desengatilhou as armas. As oposições também não. Daqui a comunicação ao país sobre a sua relação da empresa com a vida familiar julgando que tal bastaria para acalmar os ânimos mais ou menos exaltados aproveitando a circunstância para, mais uma vez, fazer propaganda ao seu Governo.


Para Luís Montenegro tudo foram sucessos do Governo, talvez esteja confundido quando disse que “Estamos a executar o Programa de Emergência e Transformação da Saúde e a resolver muitos problemas estruturais do sistema”. Não Sr. Primeiro-ministro, a sua Ministra da Saúde criou foi problemas estruturais na saúde e no SNS porque se já os havia agravou-os.


Em vez da longa exposição das quais um quarto foi de propaganda ao Governo, reformulação ministerial teria sido melhor em vez de apenas uma ameaça moção de confiança cuja sua promoção ficou apenas no ar.


Será difícil mudar a Ministra da Saúde? Provavelmente sim. A Ministra da Saúde, Ana Paula Martins, foi iniciada há vários anos para a Grande Loja Feminina de Portugal da Maçonaria tendo acabado por se afastar há alguns anos. A CCN Portugal/TVI dizia em fevereiro que “No Governo, no maior partido da oposição e nos altos cargos da Administração Pública são vários os que foram iniciados na maçonaria, tendo muitos deles partilhado rituais juntos.” Luís Montenegro chegou, em 2012, a ser associado à maçonaria, no entanto, foi por ele garantido na altura que não pertencia a nenhuma obediência, tendo assumido, porém, ter participado em eventos. Mas, quanto a isso, a oposição não ficaria de fora. Não está em causa que a Maçonaria seja uma organização criminosa, que não o é, mas organizações como estas são premiáveis a compadrios e favores.


Houve ainda outro facto que foi o primeiro-ministro não ter comunicado ao Presidente da República a comunicação que ia fazer ao país nesse sábado e Marcelo Rebelo de Sousa fez saber que o chefe de Governo está no seu direito de não ligar, mas também nota que podia ser do interesse do primeiro-ministro ouvir a opinião do Chefe de Estado, o que não aconteceu.


Já o ministro de Estado e das Finanças disse que caso a moção de censura anunciada pelo PCP seja rejeitada no Parlamento “não há uma justificação” para o Governo apresentar uma moção de confiança.


Nota: Parte deste texto foi colocando no Facebook antes de publicado no blogue.

quarta-feira, 1 de maio de 2024

As reparações dos pecados cometidos ou lá o que seja há mais de 500 anos



Não resisto a incluir aqui um artigo de opinião de Maria João Marques sobre essa famigerda polémica das reparações da escravização e da colonização ocorridas há mais de 500 anos.


Quem nunca escravizou nem colonizou tem de pagar reparações?










A esquerda woke não anima os descamisados do mundo rico, pelo que tem de animar a malta urbana abonada com necessidade de expiar pecados.







Vou revisitar o já famoso e infame jantar de Marcelo Rebelo de Sousa com os jornalistas estrangeiros. No meio do racismo para com António Costa, o classismo para Luís Montenegro e a informação – dada de uma forma displicente que aterroriza a mãe que escreve estas linhas – do corte de relações com o filho, o Presidente faria bem em alegar perante o país tratar-se de um episódio de insanidade temporária.


Ou, pelo menos, como no filme Anatomia de um Crime, com o divino James Stewart, ter sido acometido por um "impulso irresistível". O que teria a vantagem de ser verosímil. Todos sabemos que Marcelo Rebelo de Sousa tem o impulso irresistível de falar.


Porém Marcelo Rebelo de Sousa falou em reparações que Portugal tem de pagar às ex-colónias, por massacres e escravatura. A expressão (inteiramente clara) foi "pagar custos" das maldades todas que fizemos. Foi leviano, claro, por impulso irresistível ou deliberadamente. Entretanto, percebendo que não é tema que lhe dê píncaros de popularidade, já veio amenizar: reparações podem ser o perdão da dívida ou o "estatuto de mobilidade" dos cidadãos do PALOP. Mas a discussão ficou.


Os vários partidos já tomaram posição – quer dizer, quase todos. O Chega rasgou as vestes e quer censurar o Presidente no Parlamento. Porventura viram algum episódio de uma série política americana onde tal ocorreu. O BE e o Livre garantem que temos muito que reparar por todo o lado. O Governo, e bem, informou não planear nenhum programa de reparações. O PS, percebendo que é um tema que não agrada ao eleitorado mas não querendo descolar da esquerda woke que é natureza de Pedro Nuno Santos, não tomou posição, dizendo (através de Marta Temido) que é um assunto muito sério a ser debatido nos fóruns próprios.


Há aspetos nesta discussão para mim inteiramente pacíficos. Sou, por princípio, favorável à devolução de todas as obras de arte e artefactos obtidos por pilhagem. Aplico-o aos países africanos ou aos mármores gregos do Parténon que estão no Museu Britânico. Desde que se garanta, claro, que a devolução assegura a preservação da peça e que é feita de modo a beneficiar a população espoliada (num museu onde possa ser visitada e estudada e fomente o turismo que enriqueça a região) e não termine nos salões de um qualquer oligarca do regime.


No caso português, sou de opinião (mesmo fora da discussão das tais reparações) que se deve privilegiar imigração dos PALOP face a outras proveniências sem ligações culturais a Portugal. Não me chocariam quotas, bem como um regime de bolsas, nas universidades portuguesas específicas para alunos dos PALOP, que de resto as têm crescentemente procurado. E o perdão da dívida aos países pobres de África é um imperativo moral a que todos os países europeus têm respondido, e há que incrementar.


Qual é então o meu problema com a discussão das reparações? Vários e o menor é o mais prosaico: não temos dinheiro. E pagamos a quem? A indivíduos (nem escravizados nem colonizados) ou a regimes peculiares (se não mesmo cleptocratas)?


Começo por ver muito problemática a vontade de fazer contas à História velha de séculos que se julga com lentes do presente. Mais: onde paramos? Outro problema: há uns anos fomos surpreendidos com números portugueses avassaladores do comércio transatlântico de escravos; sucede que há nuances. Afinal Lisboa foi responsável por 4% do comércio de escravos africanos e o grosso foi feito a partir do Brasil (37%), por interesse (e proveito) da economia brasileira, sem ser política da metrópole, que deixava andar por não conseguir parar o tráfico.


Não temos de nos orgulhar dos nossos 4%, nem de inaugurar a prática. Porém o país que mais escravizou e traficou foi o Brasil. Que a administração Lula, exemplo indigesto do populismo de esquerda sul-americano, venha pedir reparações a Portugal, duzentos anos depois da independência, é topete. Cerca de 400.000 brasileiros vivem em Portugal, extremamente bem inseridos. Tratam-se nos hospitais públicos e os filhos frequentam as escolas pagas com os impostos dos portugueses que já cá viviam antes. Diria que é uma boa reparação.


O meu problema maior é a real finalidade desta discussão, que nada tem que ver com países colonizados nem descendentes de escravos. É simplesmente parte da agenda niilista antiocidental. O objetivo é expor a malícia e maldade da humanidade branca ocidental, causa de todas as calamidades desse mundo vítima e marionete da perfídia europeia.


Claro que isto é a maior confissão de ignorância, racismo e eurocentrismo. Não concebem que o resto do mundo tem uma existência e uma História que vai muito além da interação com os países europeus. Não sabem que até à revolução industrial os países mais ricos do mundo eram a China e a Índia. Desconhecem que depois da revolução industrial os países asiáticos prosperaram quando (e se) implementaram políticas copiadas das europeias (o caso japonês é sintomático). Ignoram as tensões regionais que nada têm que ver com a Europa. Más práticas de outros países e culturas são apagadas: só interessa visar o que cabe no simbólico Ocidente. A escravatura também industrial praticada pelo mundo árabe, com números igualmente assustadores e muito mais recente (até Hergé escreveu um livro do Tintin sobre este crime em meados do século XX) – não interessa nada, afinal o mundo islâmico é o clímax do anti-Ocidente.


A discussão é tão freudiana e religiosa quanto política. A esquerda woke não anima os descamisados do mundo rico, pelo que tem de animar a malta urbana abonada com necessidade de expiar pecados. Como odeiam o catolicismo e hábitos como a confissão (que Freud muito bem considerava e tem um princípio parecido à "cura pela conversa" que é a psicanálise: construir uma narrativa para contar o que vivemos é em si mesmo curativo), têm ética deficiente que os incentive a olhar para pecados próprios, e vivem num mundo superficial onde o que mais conta é a sinalização pública de virtude, escolhem expiar pecados alheios, passados há séculos, numa tentativa de demonstração de moral intocável.


Pela minha parte, sou católica, reparo os meus próprios pecados, não tenho necessidade psicológica de expiar a História, desde logo porque nunca escravizei nem colonizei. Deixo "pagar custos" para o Presidente e para os seres perfeitos da nossa esquerda que o propõem.


A autora é colunista do PÚBLICO e escreve segundo o novo acordo ortográfico






sábado, 29 de julho de 2023

O rastilho do Presidente da República

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Como presumo que o Chega, o PSD e a IL, como o Presidente, não se tornaram esquerdistas no despesismo, esta contradição vem muito mais de uma lógica de oposição em todos os azimutes, ou, no caso do Presidente, de exorbitar das suas funções para “pôr o Costa na ordem”, do que de uma posição de fundo. É por isso que a contra-governação do Presidente gera instabilidade social


José Pacheco Pereira


in Jornal Público.


Face a alguns sintomas que se manifestam no nosso sistema de governo, começo a ter dúvidas se se trata, de facto, de um tipo de sistema de governo semipresidencialista em que o Governo, centro da atividade política, responde politicamente perante a Assembleia de República. Alguns falam até em presidencialismo do Primeiro-Ministro no caso de maiorias absolutas monopartidárias.


Esta minha dúvida surgiu-me das justificações do Presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa quando devolveu, sem promulgação, o Decreto que estabelece os termos de implementação dos mecanismos de aceleração de progressão na carreira dos educadores de infância e dos professores dos ensinos básico e secundário, mas apontando a frustração da esperança dos professores ao encerrar definitivamente o processo.


O Presidente parece estar a tornar-se uma espécie de contrapoder e, portanto, a contra governar, umas vezes por tagarelice e agora, parece, também, por palavras escritas. O Presidente fala de mais é o que se tira das suas intervenções.


Marcelo parece estar apostado em querer atear o rastilho de pólvora que poderá resultar em convulsão social e em reivindicações nas carreiras dos vários setores e servidores do Estado. O objetivo será, porventura, ficar nas “boas graças” da classe dos professores e dos seus sindicatos.


O caminho perigoso que o Presidente da República segue ao criar dificuldades à governação de António Costa é que quando, para criticar o Governo, por vezes falando de mais, passou também a fazê-lo nas críticas feitas nas notas de promulgação dos diplomas como se fosse ele o senhor absoluto omnisciente sobre tudo. O discurso do Presidente sobre a governação é mais parecido com um sistema de governo presidencialista.


Podemos estar, ou não, de acordo com o diploma do Governo relativamente às carreiras dos professores, mas a decisão é parte integrante da governação e, como tal, é legitimo, desde que no diploma não sejam detetadas inconstitucionalidades.


O Presidente pode, ou não, concordar com o decreto-lei sobre a carreira dos professores, e está no seu direito, mas que deveria votá-lo desde que esteja no âmbito constitucional e não em função da sua discordância, porque não é ele que governa. Claro que professores e sindicatos elogiam veto de Marcelo. Ao promover um sinal que pode abrir portas à perigosidade social, trata-se de uma opinião sobre como governar cujas consequências não é o Presidente que gere, nem que terá que neutralizar e que gera instabilidade social.


Se o referido diploma não resolve os conflitos com os professores, e não acabará com as greves nas escolas, mas gestão dessas expectativas que nada mais é do que a negociação entre Governo e sindicatos entre o que este último espera e aquilo que será feito que é uma função do Governo e não aquela para a qual elegemos o atual Presidente não foi eleito para isso.


Nota final:


Estará o Presidente da República a querer degradar o seu peso político?
Quando os militares vierem para a Rua gritar, Marcelo saltará de imediato do lugar a defender que as FA´s são uma prioridade; mal os polícias se transformem em "secos e molhados", Marcelo saltará do lugar a dizer que a segurança e as polícias são uma prioridade; mal os Impostos venham para a Rua gritar, Marcelo defenderá que o pessoal dos impostos é essencial para garantir às Misericórdias e ASS ligadas à igreja católica todos os milhões que o OE lhes reserva; quando os todos os trabalhadores do setor público vierem para a rua exigir que descongelem as carreiras desde há dezenas de anos, Marcelo virá a correr dizendo que são todos essenciais, por exigência do Presidente da República e assim por diante.


 

sábado, 3 de junho de 2023

Nós, eleitores e crentes

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Nós, os eleitores e crentes que temos direito de eleger, somos os cordeiros e o “pau para toda a obra”, nas mãos de obreiros da partidarite e de influencres mais ou menos hábeis, que grassam pelo país cujo objetivo último é atrair o maior número possível de crentes e de votos, o que, na gíria popular, se designa por caça ao voto e à compra. Para este tipo de caça vale tudo o que estiver disponível para persuadir, influenciar e condicionar os eleitores de modo astucioso.


Não é só na política, mas também noutros sentidos, que a caça e a crença se desenrolam, é também no domínio dos “shows” e rituais como os das seitas evangélica ou pró-evangélicas cada uma com os seus séquitos.


A decisão dos eleitores em votarem numa ou noutra força partidária é idêntico ao processo que leva as pessoas a acreditar que mudarão de vida por causa de uma qualquer X-talks (talk-lérias) ou, ainda, pantomimices de palestras de autoajuda e motivação ao vivo assim como as pessoas são levadas a acreditar que um ou outro partido irá resolver os seus problemas ou que um certo líder é que diz as verdades, não obstante ser apanhado a mentir quase diariamente. A sensação para quem está de fora é parecida: uma profunda incredulidade com o que se passa na cabeça dos eleitores que se transformam em crentes irracionais. O oportunismo de imagens religiosas nos fatos e capas que veste são usadas como chamariz são a evidência do apelo à crendice que acarreta.


Introduzo aqui uma analogia entre política e shows pagos para ouvir uma senhora que enriquece à custa da papalvice de alguns que a idolatram e acham que lhes vai melhorar a sua vida com as suas patranhices. Este tipo de palestras descredibilizam o ato político de escolhas porque tornam implícito que a crença neste tipo de negócio para melhorar a vida das pessoas passa por abandonar a escolha política.


Mais grave ainda é haver políticos que já foram aos programas daquela que parece querer identificar-se com uma qualquer “nossa senhora” como o fez o Senhor Presidente   Marcelo Rebelo de Sousa que chegou a telefonar-lhe na estreia de um novo formato (janeiro/2023) quando essa “Nossa Senhora” estava em direto. Este tipo de intervenções de políticos ajuda ao marketing do produto que uma qualquer “guru” com uma capa com a imagem de “Nossa Senhora” pretende vender. Este tipo de intervenções funciona como uma legitimação das qualidades que a apresentadora anuncia ter, assim como a dos produtos que vende.


Os políticos, e muito menos o mais alto dignitário de Portugal, não podem fazer de figurantes publicitários que contribuam para a credibilização de vendas personalizada duma pessoa que anuncia milagres, vende sonhos e ficções perigosas aos clientes que até podem ser perigosos para a própria democracia. Isto reveste-se de gravidade. É pura e simplesmente a negação da política quando se acredita que, o que aquele, ou aquela, pensa contribui para melhores condições de vida e está disposto a lutar por elas individual e coletivamente fazendo-os acreditarem que tudo conseguem.


Nós, os eleitores, somos frágeis e crentes e, por isso, estamos sujeitos a deixarmo-nos enganar por manhas. De acordo com a Bíblia, a serpente ludibriou Eva para enganar Adão e o conduzir à desgraça da perda do paraíso e, daí, o sofrimento ao Mundo. A desculpa de Eva foi simples “foi a serpente que me enganou e eu comi”. Esta resumida passagem da Bíblia serve para mostrar como é a estratégia dos partidos políticos para atrair o voto dos cidadãos. É assim o jogo em democracia. Procuram ganhar eleições fazendo promessas em que os eleitores apostam como se fosse um jogo do poker igual aos que vendem patranhas.


Os eleitores são sujeitos a esta espécie de jogo de caça ao “tesouro do poder” pelo voto. Os bons rapazes são eles, os dos partidos, e nós, os “gajos merdosos”, que nos deixamos enganar.


Nós, os eleitores, somos por natureza volúveis nas nossas opções, ora votamos num partido, ora votamos noutro. Os eleitores pensam que ao mudarem a opção de voto lhes trará vantagens, facto de que os populistas sabem tirar vantagens. Assim, nós os eleitores, devemos estar acima do ruído onde se perde o sentido do que interessa, mas naquilo que tenha impacto na sua vida.


Em todo o mundo partidos e políticos populistas têm mostrado capacidade para usar um discurso forte para atrair adeptos e votos. Quem escreve roteiros para filmes ou gosta de avaliar filmes tem uma regra que é o “KISS” - Keep It Short And Simple, isto é, mantenha a narrativa curta e simples. Esta é uma espécie de fórmula utilizada para quando se está a contar uma história, seja ela verbal, visual ou multimédia para que seja percebida por todos e essa também é a estratégia utilizada pelo populismo. Veja-se, por exemplo, as mensagens colocadas em outdoors dos partidos.


Para seduzir eleitores, partidos da extrema-direita e também da extrema-esquerda, recorrem ao discurso populista que parece estar a resultar, não apenas em Portugal. Face a isto, os partidos políticos democráticos moderados de direita e de esquerda deixam-se contaminar e passam muitas vezes a seguir o mesmo processo de comunicação com os eleitores.  Para fazerem oposição ao Governo, (qualquer governo), criam no povo a crença errónea de que o país está sob ameaça devido à má governação e corrupção causados por forças que o estão a destruir. Quem esteja na oposição e a concorrer ao poder, aponta ao alvo que, por princípio, é sempre o partido no governo, socialista ou outro qualquer.  O argumento é que o "verdadeiro povo" precisa de ser protegido dos corruptos e da falsidade. Como anseiam o poder recorrem à injuria, à ofensa, censuram e criticam o que está mal e o que está bem, tudo no mesmo saco. Podem ser os partidos políticos, a U.E. os imigrantes, etnias, salários, pensões, etc., estratégia usada sobretudo pelos partidos da extrema-direita.


Nós, os eleitores, devemos ter esperança, dizem-nos alguns. Esperança era uma das palavras preferidas usada pelo PSD na altura da troica (Passos Coelho). Esperança foi recuperada por Luís Montenegro que, motivado por Cavaco Silva, diz que, se o partido for apoiado e chegar ao governo, dará uma nova vida aos portugueses. O líder do PSD acompanha o Professor Aníbal Cavaco Silva no “sinal de esperança para os portugueses.”. Falta clarificar a esperança em quê. Numa nova vida baseada em quê?


A propaganda do PSD avança com um fraseado próximo do populismo: “Quem é o português que não está zangado neste momento, lá em casa, quando vê o dinheiro do PRR a não chegar aos negócios e às famílias, quando vê o caos nas urgências, quando vê greves de professores umas atrás das outras?”, palavras de Cavaco. Fazer chegar o dinheiro do PPR às famílias?!! Não basta dizer ou escrever à toa. Nós, o povo, os eleitores, os crentes em alguma coisa precisamos de saber o quê e como fará o PSD para alterar o que hoje critica. Nós, o povo, os eleitores, os crentes precisamos de conhecer claramente o projeto da direita para o país. Assim o diz Francisco Mendes da Silva (CDS).


O que os portugueses precisam de ouvir é, sobretudo, como é que um governo PSD resolveria para fazer chegar dinheiro às famílias, resolver o problema do “caos” nas urgências, dar resposta às exigências dos professores e à situação da falta de médicos de família.


Veja-se como o discurso de Cavaco Silva se aproxima do populismo que é a estratégia que Luís Montenegro passou a seguir. A ideia é criar algo que todos entendam, fáceis e compreensíveis como os movimentos populistas têm utilizado eficazmente nos últimos tempos. Os “heróis”(!) combatentes patriotas populistas lançam para o “ar” a ideia de que estamos numa desgraça da política e, por isso, lutam por uma espécie de ressurreição dizendo lutar contra uma crise social por eles construída artificialmente ajudados pelos media.


Nas representações típicas dos populistas verificamos que está sempre presente uma evocação de crise ou de declínio das instituições. É um dos elementos básicos das estruturas da sua argumentação, para além do discurso falsamente moralizado e centrado em suspeições e factos hipotéticos. A aproximação à pessoa comum e aos seus problemas individuais é um ardil. Outro ainda é a passagem da noção de pessoas comuns versus os políticos que são uma elite e que o povo tem uma espécie de senso comum implícito nos seus julgamentos. Desenvolvem teorias da conspiração acerca de intrigas malignas sobre os que os criticam e desenvolvem um discurso muito moralizado. Tentam instigar os instintos mais primários das pessoas criando tensões e quebrando as normas e valores, que caracterizam a coesão social.


Os eleitores, o povo em geral, não está ciente de que não está plenamente informado do que se passa no interior dos partidos nem nos corredores da política do país a não ser pelos media. Como os eleitores só recebem fragmentos episódicos de factos, frases bombásticas dos líderes dos partidos, notícias dadas pelos media, as quais não possibilitam conhecer as causas primárias, os potenciais eleitores são confrontados grosseiramente com notícias que lhes impingem por vezes aceitando-as acriticamente.


Os momentos das várias agendas mediáticas e políticas são focados na economia que não chega aos bolsos das pessoas, na crise da habitação que não é resolvida e a que os jovens não tem acesso, na corrupção que grassa, na pessoalização de casos, etc. É isto que diariamente é repetidamente metralhado e chega pela comunicação social aos potenciais eleitores que não sabe o que, entretanto, possa ter sido melhorado e implementado de novo, e, quando o é, é “En Passant”, de forma a passar despercebido.


Os comentários são repetidamente os mesmos: o que se passa com a política e com os políticos, o país não avança, está atrasado, os salários estão baixos, etc. Quem é o culpado? Claro, são os que governam no momento, o socialismo, e, para alguns, o primeiro-ministro, e, em alguns casos, a própria democracia. Os que assim falam julgam-se os representantes executivos, diretos e únicos, da verdadeira vontade do povo. Fingem defendê-lo contra os políticos que veem como sendo todos corruptos e parasitas, exceto eles próprios, claro!


Alguns da direita extrema fazem-nos acreditar que são enviados e apoiados por Deus para defender as pessoas contra as coisas más presentes nos tempos modernos. Daí a necessidade de mostrarem publicamente a sua religiosidade e como são seguidores fiéis da Igreja Católica os órgãos de comunicação, mais ou menos simpatizantes da causa, fazem tornar públicos.


Se estivermos atentos ao que os media nos colocam à disposição diariamente sentimos que o essencial dos factos não é relevante, não é essencial para as pessoas. O irrelevante dos factos é selecionado e amplificado para que sejam acionadas as críticas que sejam mais compreensíveis pelos potenciais eleitores e se indignem com a situação. Não interessa mostrar o enquadramento da causa que, por vezes, é mais complexa do que nos mostram.


As redes sociais possibilitam a qualquer um fazer comentários sobre a situação política que se tornou, por isso, uma maneira eficaz de promover narrativas oposicionistas de cariz populista assim como a publicação de notícias falsas. Há pessoas e grupos que se organizam de modo a tentarem influenciar a opinião pública sobre temas que lhes interessa. Coloca-se material como sendo notícia acerca de factos que são falsos e que, sem filtro, são assumidos como verdadeiros.


Os eleitores que almejam paraísos fictícios são ludibriados com vãs esperanças de promessas fortuitas vindas de alguns partidos que enchem a sua alma desejosa de melhorias intangíveis.


Os canais televisivos debitam diariamente no noticiários e debates políticos onde, por vezes, é evidente a falta de clareza, a repetição diária e sistemática das mesmas imagens e notícias sobre o mesmo tema transmitidos até à exaustão. A estes acrescem comentários e opiniões que fazem parte da agenda político noticiosa de cada canal construídos para causar nas audiências desorientação e funcionam como uma espécie de lavagem cerebral política induzida pelos media mais consumidos através dos quais os potenciais eleitores absorvem informação.


Saber distinguir o trigo do joio em tudo aquilo que os media e os partidos nos “vendem” é uma arte que deve ser cultivada, sem emoções arrebatadas levantadas pelos contextos políticos e até por opções pessoais de ordem partidária ou ideológica. Nós, os eleitores, não nos podemos deixar levar por crenças misturadas neste caldeirão emocional em que os media e os partidos nos fazem viver sem discernir racionalmente, o que, por vezes, se torna difícil.

quinta-feira, 25 de maio de 2023

Estamos todos fartos até à náusea

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O artigo de opinião de Eduardo Marçal Grilo no jornal Público que abaixo transcrevo toca no ponto essencial do que pensa grande parte dos portugueses pelo que recomendo a sua leitura.


Haverá, decerto, quem não aprecie o artigo o que é compreensível, porque em democracia é normal a discordância. Devemos, contudo, distinguir os facciosos, os adeptos clubistas partidários de esquerda ou de direita, os militantes doentios anti Governo, anti PS e anti António Costa, os anti tudo, os populistas, os que absorvem o que lhe dizem, veem e ouvem, qual esponja, destituídos de qualquer espírito crítico, os que não distinguem o trigo do joio, os que acreditam que todos os políticos da direita são de uma pureza indelével e incorruptível, porque destes, raramente é feita notícia e, quando ela existe, apressadamente, transformam-na em fogo-fátuo.


A campanha repetitiva dos órgãos de comunicação social que têm a obrigação de nos informar, e não condicionar, com imparcialidade e ética giram numa espécie de roda de argumentos ad nauseam (até provocar náusea) ou ad infinitum para tentar convencer as audiências através da repetição.


Estou farto e cansado


OPINIÃO


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Eduardo Marçal Grilo


25 de maio de 2023


In Jornal Público


 Estou cansado e triste quando vejo os militantes dos partidos abdicarem de dizer o que pensam.


Sim, estou farto de quase tudo o que ouço e vejo à minha volta.


Mas também estou cansado de ouvir e ler sempre os mesmos a dizerem as mesmas coisas, como se conhecessem as soluções para todos os problemas, mas que nunca nos apresentaram uma única ideia ou proposta para a solução dos problemas com que o país se confronta.


Sim, estou farto de ver os políticos a criar conflitos inúteis, como estou farto de ver as televisões a massacrar os telespectadores com programas de futebol intermináveis e em que para entreter se criam conflitos sobre penalties, expulsões e foras-de-jogo.


Estou cansado de ler as notícias da corrupção que corrói a democracia e alimenta os populismos.


Estou cansado de ver os moderados sem voz e sem presença nos media.


Estou cansado e triste por ver pessoas “queimadas” na praça pública com notícias falsas ou com acusações infundadas.


Estou farto de ver títulos de jornais que não correspondem à notícia a que se referem.


Estou farto de conferências, colóquios e seminários em que os que falam e os que ouvem são sempre os mesmos.


Estou farto dos debates em que nós todos já sabemos o que cada um vai dizer.


Estou cansado e triste quando vejo os militantes dos partidos abdicarem de dizer o que pensam.


Estou farto de ver gente em lugares de responsabilidade comportarem-se como membros de uma associação de estudantes do ensino secundário.


Estou cansado e triste por ver deitados para o lixo trabalhos que foram feitos por organizações credíveis que só querem contribuir para melhores soluções para os problemas do país.


Estou farto da arrogância de alguns que nos querem impor as agendas das minorias.


Como também estou cansado dos excessos em torno da cultura de género.


Estou cansado das notícias que justificam que os processos judiciais se tornem intermináveis.


Estou farto dos que lucram com todo este emaranhado jurídico dos processos lançados pelo Ministério Público.


Estou também indignado com os processos lançados contra pessoas que, quando julgadas, se provou nada terem feito de mal.


Estou farto de ver incompetentes a exercer cargos para os quais não têm qualquer qualificação.


Estou cansado e farto de ver nas televisões o rigor substituído pelo espetáculo.


Estou farto de ver muita gente mais interessada em estar do lado do problema do que do lado das soluções.


E também estou cansado de ver que em certos casos são eles mesmos o problema.


Como também estou cansado dos que gostam mais de destruir do que construir.


Estou cansado de ver tanta inveja e tanta vontade de deitar abaixo os que fazem qualquer coisa que se veja.


Confesso igualmente que estou cansado das notícias sensacionais que duram menos de 24 horas, porque foram forjadas com objetivos inconfessáveis.


Estou cansado de não ver enaltecido o que de muito bom se faz em Portugal, seja nas empresas, nas universidades, nas escolas ou nos hospitais.


Como estou farto de ver aqueles que, como portugueses, gostam de se autoflagelar.


Estou cansado de ver televisão e até de ler jornais.


Sim, estou cansado de viver num país que adoro, mas que me traz grandes frustrações quase todos os dias.


Tanta frustração deve talvez ser da idade e da falta de paciência que tenho para aturar tantos disparates.


Nota final: estou triste, cansado e farto de muitas coisas, mas não sou um desistente.


Estarei sempre disponível para lutar contra os populismos e contra os inimigos da democracia, procurando que não nos toquem na liberdade e que, sem complexos ideológicos, se encontrem, com moderação, equilíbrio e bom senso, as soluções para os problemas que enfrentamos.


O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico

terça-feira, 23 de maio de 2023

Conselheiro do PSD nova função de Cavaco Silva?

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O ex-Primeiro-Ministro e ex-Presidente da República Cavaco Silva veio amparar Luís Montenegro, como se este fosse um coitadinho que não está a saber conduzir a oposição ao Governo. Dá-lhe inclusivamente conselhos (conselheiro, nova função de Cavaco?)


Cavaco Silva, apresentou-se no seu discurso como sendo o curador de Luís Montenegro, isto é, como se fosse representante de uma pessoa declarada incapaz e que, por isso, lhe deixa recados.


Encontramos, contudo, um ponto positivo quando aconselha o líder do PSD a “deixar de andar distraído com temas secundários ou com agendas de outrem não é suficiente.”


De seguida o primeiro conselho de Cavaco Silva aponta para que “é no Governo socialista que o PSD deve centrar a sua atenção”. Para Cavaco a indicação é para apontar baterias ao estado da governação, aos salários baixos e às pensões de reforma indignas, ao empobrecimento da classe média, à má qualidade dos serviços públicos, à falta de rumo e de visão estratégica. Pra Cavaco a demagogia e o descaramento não têm limites. A pergunta que nos surge é, (sobre os pontos que sublinhei): o que fizerem ele e os seus sucessores, nomeadamente Passos Coelho, para implementar o que Cavaco Silva diz agora ser necessário. Estará a dizer ao atual líder do PSD para prometer o que, em princípio, não poderá fazer, nem fará?


E mantendo o seu ímpeto conselheiro afirmou Cavaco que “O PSD não deve cometer o erro de anunciar qualquer política de coligação.” Como se pode ver este é um tema recorrente que é colocado a Luís Montenegro quando é interpelado, tendo rejeitado formar governo com políticos racistas, xenófobos, oportunistas ou populistas. O que aconselha Cavaco Silva?  Que os sociais-democratas não devem desfazer já as dúvidas sobre o que vão fazer nas próximas eleições, para não correrem o risco de ter de voltar atrás com a palavra. Ficamos a saber que após eleições Cavaco Silva deixou uma porta aberta para possíveis alianças ou coligações pós-eleitorais ou alianças com partidos da extrema-direita como o Chega. Já alertei para isto num outro texto.


 Como remate final disse que "O PSD não deve ir a reboque de moções de censura apresentadas por outros partidos mais preocupados em ser notícia." Vamos lá ver se entendo. Quem tem insistido na apresentação de moções de censura é o partido Chega. Segundo Cavaco essas propostas só servem para desviar as atenções e, por isso, interessam ao Governo. Mas, ao mesmo tempo, Cavaco abre portas à possibilidade de coligações pós-eleitorais com outros partidos e o Chega não estará fora de causa, apesar deste ser um dos partidos que está sempre preocupado em ser notícia.


Se bem nos recordamos Luís Montenegro nunca abriu a porta a moções de censura, mas, se pensava fazê-lo nos tempos mais próximos, o conselheiro Cavaco já o disse para não fazer. Mas, se for necessário, poderá chamar o Chega para coligação.


Sobre Cavaco Silva o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa fez uma apreciação sobre a frequência das intervenções públicas do ex-chefe de Estado Cavaco Silva dizendo que falou “menos” como Presidente e “mais” depois do cargo.


O ex-Presidente Cavaco Silva pode esforçar-se a dar conselhos a Luís Montenegro do PSD, mas as previsões, penso não me enganar, serão de que as perdas de votos sofridas pelo PSD, com vantagem para o Chega e para o Iniciativa Liberal, não serão recuperáveis a breve prazo. Recuperá-las apenas do PS serão uma insignificância.


Caso venha a ser Governo, e dada a falta de projeto claro do PSD, se for seguir o que o “conselheiro” Cavaco diz sobre os pontos em que é essencial “apontar baterias”, tal implicará incluir no programa de Governo o que ele indicou no seu discurso. A dúvida de tal ser possível fica no ar.

domingo, 19 de março de 2023

Presidente e comentador

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Hoje lembrei-me do filme “Oficial e Cavalheiro”, drama romântico de 1982 que teve grande sucesso que chamou a atenção sobre Richard Gere e que se não me engano foi vencedor do Óscar para melhor ator secundário Louis Gossett Jr.,Óscar para a melhor canção: "Up Where We Belong" e, ainda indicado nas categorias de melhor atriz (Debra Winger), melhor edição, melhor roteiro original e banda sonora (Jack Nitzche).


Lembrei-me deste filme quando escolhia um título adequado, talvez satírico, para o artigo do “post” que publico e que nada tem a ver com o filme.


O título escolhido, “Presidente e comentador”, parece querer antecipar sobre o quê e sobre quem escrevo. Exatamente, o nosso Presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa. Votei a primeira vez nele para o primeiro mandato, voltei a votar nele para o segundo mandato e, provavelmente, voltaria a votar nele, à falta de melhor, se pudesse candidatar-se a um terceiro mandato. Exclamarão alguns neste exato momento, “poça”, já chega, estamos fartos! OK, cada um sabe de si. Mas eu também não lhes disse que que votaria, disse que talvez votasse, isto porque não saberemos o que virá por aí nessa altura.


Quando vemos notícias na televisão ou as lemos na imprensa oscilamos entre uma visão de conjunto que temos e o momento fugitivo de ideias gerais  e acontecimentos específicos que passam nos ecrãs, sobre atores da política que nos são mostrados conforme a agenda mediática, os interesses e os alinhamentos feitos para os jornais televisivos.


Por vezes identificamo-nos com os pensamentos desses personagens e concentramos nelas a nossa atenção e tentamos ver a paisagem política circundante através dos seus comentários, de tal modo que já nem nos apercebemos do que estamos a ver e a ouvir. É como estarmos a conduzir um automóvel quando acionamos automaticamente e inconscientemente os comandos. São os espectadores e os leitores a que me atrevo a chamar ingénuos para descrever os tipos que não estão minimamente preocupados com os aspetos exatos do conteúdo e ligam mais à artificialidade, aos aspetos artificiais das mensagens. A estes ingénuos podemos opor os reflexivos os interessados no conteúdo exato e à descodificação da eventual polissemia das mensagens e para a descoberta da artificialidade, prestando atenção aos métodos utilizados pelo mensageiro da notícia, cortando, amplificando, distorcendo a mensagem do emissor.


Mas vamos recuar no tempo, não muito, para vermos o professor Marcelo Rebelo de Sousa que também tinha sido jornalista e que, sem largar a Comunicação Social, aparece como comentador político primeiro na rádio, na TSF, e depois na televisão, na TVI de 2000 a 2004, na RTP de 2005 a 2010 e de 2010 até 2015 novamente na TVI e, paralelamente, a estes percursos, Marcelo teve uma longa carreira no ensino universitário. O seu percurso enquanto comentador tornou-o numa presença habitual e afável de grande maioria dos lares portugueses e até em certas alturas parecia mais um oráculo noticioso.


O abandono do comentário político foi apenas formal porque o Presidente continua a comentar a vida política nacional de todos os ângulos. Passou de comentário semanal para comentador diário, quase horário e em qualquer lugar, sem limites. É uma presença que mostra obsessão pelos media e que chega ao limiar do exagero. Talvez por isso os jornalistas, ávidos das suas palavras, solicitam-no a comentar, sejam os temas mais importantes, sejam os mais triviais. O fulano disse, o partido fez, o que tem a dizer sobre isso – perguntam-lhe – e, solicito, o Presidente lá vai comentando, intrometendo-se dizendo o que acha sobre assuntos que deveria ser da competência do Governo. São intervenções por vezes perturbadoras da governação que os media aproveitam para fazer aberturas nos jornais televisivos.


São José Almeida escreveu hoje no jornal Público que o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa reformulou “a forma como projeta para o país a sua atitude perante o Governo, não no sentido de ser propriamente mais crítico, mas, sim, no sentido de se tornar ainda mais presente, mais incisivo” e que isso o faria “reganhar espaço no centro do palco político institucional”.


O poder de influência reclamado por outros Presidentes da República, como Cavaco Silva fazia por utilizar, pode diminuir quando há maiorias absolutas dando segurança ao primeiro-ministro. Por isso vemos o Presidente Marcelo fazer por não perder o seu poder de influência que pretende mostrar via comunicação social. Ora provoca o Governo, ora diz que está a justificar opções. E agora passou também a ser uma espécie de inspetor da execução dos projetos PRR (Plano de Recuperação e Resiliência).


A existência de uma maioria absoluta, assim como dá segurança ao primeiro-ministro, diminui o poder de influência do Presidente da República sobre o Governo. Desde que deixou de ser comentador de televisão, devido à candidatura para Presidente e ter ganhos duas eleições presidenciais nunca mais deixou de estar no ar e faz por isso.


Num comentário em 12 de março passado o Presidente da República deu uma entrevista à RTP, onde teceu algumas das mais duras críticas ao Governo, desde que foi eleito. A comentadora da CNN Portugal Alexandra Leitão analisou as palavras de Marcelo Rebelo de Sousa, que "não escondeu o seu gosto pelo comentário político".


O Presidente Marcelo parece estar num país que alterna entre sistemas de governo. Para um observador inexperiente umas vezes ele parece ser um presidencialista, outras, semipresidencialista, outras ainda, um parlamentarista. Talvez tenha razão quem em tempo disse que Marcelo Rebelo de Sousa é um cata-vento. Foi Passos Coelho, num Congresso do PSD (XXXV) em 2014, que traçou o perfil do Presidente da República como candidato onde afirmou que para o cargo não deveria ser um “protagonista catalisador de qualquer conjunto de contrapoderes ou num catavento de opiniões erráticas”. Passos Coelho terá idealizado um candidato como tinha sido Cavaco Silva, uma espécie de adepto do solipsismo que, como ironia, podemos considerar como uma pessoa que apenas reconhece a sua existência como sujeito pensante, sendo os outros apenas simples representações mentais sem existência própria.


Cavaco Silva foi um presidente que se refugiava no Palácio que é presidencial e onde, qual “monarca”, se distanciava da nação, autoanalisando o seu “eu” de político de Presidente. Raramente se expunha publicamente, exceto quando aparecia para fazer comunicações que ele achava serem relevantes. Tal e qual um monarca com tendências absolutistas, talvez até uns laivos salazaristas.


Apenas tenho presente a sua saída com mais impacto mediático, tirando os discursos de pouca isenção ideológica, foi a sua saída para ir ver as “cagarras”, pássaro dos Açores. Afirmou ele na altura, julho de 2013: “As cagarras resolveram ter muito respeito e consideração pelo Presidente da República de Portugal por ter sido o primeiro a dormir aqui. Contrariamente ao que me tinham avisado, não me incomodaram”, revelou ele, acrescentando que “foi uma noite tranquila, em que não chegou nenhuma notícia desagradável de Lisboa”.


O seu último discurso de 18 de março nos “30 Anos PER: génese e impacto nos territórios” autocentrava-se, e, como se esperava, colocou as políticas focadas nele mesmo, como sempre fez. Dos seus discursos não podemos esperar outra coisa. Como se verificou neste último aparecimento pareceu um ente imaginário que veio das catacumbas, mais uma vez, parar perorar contra o que ainda lhe está marcado na alma, o PS, (sobretudo António Costa), que o “obrigou” a “destronar” o seu partido minoritário saído, na altura, das eleições.


Antes Rebelo de Sousa!! Ao estar também, embora numa outra perspetiva, focado em si mesmo, preocupado com a sua popularidade mediática e com a produção de selfies. Numa sondagem em finais de fevereiro de 2023 do Cesop/Universidade Católica para o PÚBLICO, RTP e Antena 1, apesar de ter recebido nota positiva, igual ou superior a 10 dos 79% dos inquiridos. Mas a avaliação média estava já em queda acentuada desde o início do segundo mandato, e situava-se numa nota de 12,2, o que representa uma queda de 0,7 pontos desde julho do ano passado.


Mas, contudo, lá vai andando como Presidente e comentador. Estaremos atentos para ver o respeito que irá ter pela maioria absoluta sem se deixar influenciar pelos órgãos de comunicacional, pelas greves políticas e manifestações, convocadas pela da extrema-esquerda ansiosa por recuperar os votos perdidos, das quais se aproveita a extrema-direita.

segunda-feira, 26 de julho de 2021

A promoção duma amnésia histórica: acerca de um artigo de Ana Sá Lopes

O editorial de hoje , 26 de junho de 2021, do jornal Público escrito por Ana Sá Lopes tem a vantagem de nos possibilitar refletir sobre algo que, na maior parte das vezes, passa ao lado de alguns das direitas que usam palas no olhos que os obriga a olhar apenas num só sentindo esquecendo-se do papel ativo que tiveram nos desenvolvimentos do terrorismo no pós 25 de Abril, (não  esquecer o MDLP), muitos deles andam por aí utilizando a democracia que o dito cujo dia lhes trouxe para o boicotar logo que lhes oferçam condições para isso.


O editorial esclarece isso mesmo e ajuda e contribui para evitar a amnésia história que muitos pretendem.


 


Editorial




Obrigada, Presidente Eanes (sobre Otelo)



A direita gosta muito de se insurgir contra os alegados “donos” do 25 de Abril. O problema – e agora veio ao de cima mais uma vez na morte de Otelo Saraiva de Carvalho – é que demasiadas pessoas de direita nunca se sentiram à vontade com o 25 de Abril (e passaram o sentimento aos filhos).







Já que o nosso Presidente da República em funções se sente mais à vontade a elogiar Marcelino da Mata do que a prestar homenagem a Otelo Saraiva de Carvalho, é fundamental agradecer ao antigo Presidente Ramalho Eanes ter vindo lembrar duas coisas básicas: “A ele [Otelo] a pátria deve a liberdade e a democracia. E esta é dívida que nada, nem ninguém, tem o direito de recusar.” Depois do texto confuso com que Marcelo decidiu “evocar” Otelo Saraiva de Carvalho no dia da sua morte, é um bálsamo saber que há um ex-Presidente da República, que abandonou as funções em 1986, capaz de sentido de Estado no momento da morte de um homem decisivo para a nossa liberdade. É evidente que Ramalho Eanes é um homem do 25 de Abril e Marcelo Rebelo de Sousa não é – talvez isto também ajude a explicar que o “filho do governador colonial” esteja mais à vontade para fazer a homenagem a Marcelino de Mata do que para “evocar” Otelo.


Ramalho Eanes não silencia o papel de Otelo nas FP-25 e é claro a condenar os “desvios políticos perversos, de nefastas consequências”. Por esses “desvios políticos perversos”, Otelo passou cinco anos em prisão preventiva. Sim, Mário Soares pressionou PS e PSD a aprovarem a amnistia – mas também tinha sido Mário Soares a pressionar para o regresso de António Spínola a Portugal (esteve exilado no Brasil e em Madrid), outro cabecilha de uma organização terrorista, o MDLP, só que neste caso era terrorismo de extrema-direita. Quando morreu, em 1996, o homem do MDLP teve direito a luto nacional. Otelo, parece que por vontade expressa do primeiro-ministro imediatamente aceite pelo Presidente da República, segundo diz o Expresso, não terá.


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Leia o jornal Público


A direita gosta muito de se insurgir contra os alegados “donos” do 25 de Abril. O problema – e agora veio ao de cima mais uma vez na morte de Otelo Saraiva de Carvalho – é que demasiadas pessoas de direita nunca se sentiram à-vontade com o 25 de Abril (e passaram o sentimento aos filhos). O facto de muitos dirigentes políticos de direita, incluindo Cavaco Silva, se recusarem a utilizar o cravo na lapela – o símbolo popular do 25 de Abril – é todo um tratado de semiótica.


Quem se espanta com a violência verbal que anda no Twitter devia conhecer o meu “liceu” nos anos 80: a fractura dos defensores do 25 de Abril contra aqueles que apenas aprenderam a “viver habitualmente” com o 25 de Abril estava tão exposta naquela época como hoje. Na verdade, a única novidade é a existência de redes sociais.


Devemos agradecer profundamente a Otelo o 25 de Abril. Mas também devemos estar gratos às várias lideranças dos partidos de direita pelo facto de terem conseguido “integrar” muitos dos desolados do 25 de Abril na democracia. São dívidas históricas.




  

quarta-feira, 10 de março de 2021

Modelos de desenvolvimento há muitos, chapéus também há muitos

Embora concordando, em parte, com o que escreve Rui Tavares no jornal Público parece-me ser um atribuito da esquerda querer sempre tudo para já. Neste caso estou com os que dizem que muito, depressa e bem não há quem! E quando se pretende transformar o país lá aparecem as manifestações contra.


 


OPINIÃO


(Rui Tavares, in jornal Público, 10/03/2021)


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E uma missão para transformar o país, porque não há?


Portugal precisa de um grande debate nacional sobre o seu modelo de desenvolvimento futuro, e precisa de várias reformas transformadoras: pelo menos no ensino, na regionalização e na administração pública, incluindo justiça.


Marcelo Rebelo de Sousa apresentou cinco missões ao país para o seu segundo mandato e eu desejo-lhe toda a sorte do mundo. Nenhuma das missões de Marcelo é insensata ou incorreta, bem pelo contrário: manter o regime democrático e com ele fazer frente “às mais graves pandemias” (incluindo, presumivelmente, a pandemia do nacional-populismo); desconfinar com sensatez; reconstruir as vidas das pessoas com crescimento, mas sobretudo com coesão, que são a terceira e quarta missão; e, finalmente, assumir que Portugal “não é uma ilha no universo” e aprofundar a nossa ação no plano da lusofonia, europeu e mundial.


Concordo com tudo, e aplaudo a passagem em que Marcelo Rebelo de Sousa apresentou a sua visão de uma democracia feita de “inclusão, tolerância, respeito por todos os portugueses”, em que ninguém seja “sacrificado ao mito do português puro”.


Infelizmente, não chega. Se as nossas missões forem só estas, corremos o risco de falhar redondamente, tal é o tamanho dos desafios que temos pela frente e o peso dos problemas que trazemos de trás. Nesta década vamos ter não só as consequências da pandemia, mas uma economia global em plena transformação e com divergências acentuadas entre a Ásia e o Ocidente, e agora também entre os EUA e a UE, se não for aprovada uma segunda bazuca. Mas teremos também a expansão da inteligência artificial, do teletrabalho, da hiperconectividade em 5G, da impressão 3D, tudo a necessitar de mais incorporação de conhecimento e tecnologia e de mais capacidade de requalificar a força de trabalho. E teremos ainda o aprofundar da crise ecológica e os seus impactos no território nacional, na vida das pessoas, na agricultura e na biodiversidade. Desafios não faltam, e a maior parte deles — como no passado a entrada na China na Organização Mundial do Comércio, o alargamento a leste e a entrada no euro, que conjuntamente nos puseram a patinar durante as duas primeiras décadas do século — nem sequer entram no debate público em Portugal. Com que recursos financiar as universidades do futuro? Com que impostos combater o predomínio dos combustíveis fósseis? Como garantir que funciona o elevador chamado Estado social?


O discurso de Marcelo Rebelo de Sousa, tal como a prática governativa de António Costa, está feito de boas intenções e sentimentos no sítio certo: é de facto preciso reconstruir a vida das pessoas, e nas suas belas palavras isto “é tudo ou quase tudo: emprego, rendimentos de empresas, mas também saúde mental, laços sociais, vivências e sonhos”. Mas se é verdade que isto “é muito mais do que recuperar ou regressar a 2019”, por que não existe um diagnóstico acerca dos padecimentos do Portugal de 2019 que já então tornavam difícil que superássemos sem mais os desafios da nova década?


A verdade é esta: Portugal não chega lá com esta indefinição em torno do seu modelo de desenvolvimento, nem com metas que eram adequadas ao nosso passado recente mas que estão profundamente desajustadas do grau de exigência que temos de ter para o futuro. Não é preciso só manter, reconstruir, recuperar; é preciso entender que um Portugal que joga para o empate — apenas convergir com a média da União Europeia, sem querer tornar-se numa sociedade de vanguarda em termos económicos, ambientais e sociais — acabará a perder e, na posição periférica que temos, tornar-se insustentável.


Passam governos e doutrinas políticas e continua a não haver uma resposta satisfatória ao problema do que queremos ser na Europa e no mundo neste século XXI. A doutrina de Passos Coelho e Paulo Portas era, no seu “ir além da troika”, a de que Portugal teria de se tornar competitivo cortando nos custos do trabalho, ou seja, embaratecendo-se. A doutrina da saída do euro, que tantos defenderam há uns anos, era a mesma, apenas por outra via: desvalorizar o “novo escudo” e ser competitivo, embaratecendo-se. Ambas se esqueceram de um detalhe: as pessoas emigram. E se cortamos os salários aos portugueses, ou lhes damos um salário em moeda fraca, as pessoas — num contexto de liberdade de circulação na União Europeia — vão ganhar mais lá fora com a formação que lhes demos cá dentro.


Perante a rejeição dupla destes caminhos (da desvalorização da austeridade a da desvalorização da saída do euro) a estratégia de António Costa e de Marcelo Rebelo de Sousa tem sido navegar à vista. Não chega.


Portugal precisa de um grande debate nacional sobre o seu modelo de desenvolvimento futuro, e precisa de várias reformas transformadoras: pelo menos no ensino, na regionalização e na administração pública, incluindo justiça. E precisa de o fazer agora, que o 25 de Abril se aproxima do meio século. Mas, caramba, como a falta de ambição da nossa elite política é aflitiva.


 


O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico


 


Historiador; fundador do Livre

quinta-feira, 19 de março de 2020

Covid-19. Ventura é igual aos que preferem a praia ou andam nos copos no Bairro Alto


Covid-19. Ventura é igual aos que preferem a praia ou andam nos copos no Bairro Alto




Opinião de Martim Silva, in Expresso Diário, 17/03/2020 



André Ventura e o Chega, na sua onda desenfreada de populismo irresponsável, decidiram afixar mais um outdoor político, desta vez destinado a criticar o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, há duas semanas em isolamento voluntário na sua casa de Cascais.


“Marcelo em quarentena. Um verdadeiro Presidente não se esconde”, lê-se na mensagem difundida por aquele partido.


A forma como se comportou Marcelo nas últimas semanas dá azo a muitas críticas e por isso mesmo este tipo de mensagem pode passar com alguma facilidade, mesmo junto daqueles que não professam qualquer simpatia por André Ventura.


O problema é que a mensagem esconde algo de bem mais grave, que decorre da ‘normalização’ da sociedade pós-verdade das redes sociais, em que a informação correta sobre os assuntos vale bastante menos que seguir uma onda de indignação fácil que apela aos nossos instintos mais primários. E em que o insulto faz parte do dia a dia.


Perante uma pandemia de proporções ainda desconhecidas, acusar alguém de se esconder quando opta pelo isolamento voluntário é do mais mesquinho que já ouvi


No fundo, o que Ventura e o Chega fazem é mais ou menos o mesmo que aqueles que, atirando às urtigas as recomendações das autoridades e responsáveis de saúde, não se coibiram de rumar aos milhares às praias mal o sol fez subir um pouco a temperatura. Ou que continuam alegremente a assobiar para o lado e a enfrascar uns copos no Bairro Alto ou outros locais de diversão noturna, ignorando os perigos para si e sobretudo para os outros.


No fundo, o que fazem é ignorar o alarme que a pandemia do Covid-19 representa para cada um de nós e para a sociedade coletivamente. É ignorar o potencial de risco de um novo vírus do qual ignoramos muito (mas que já sabemos que é muito contagioso e bastante mais mortal que a gripe comum) e acreditar que tudo não passa de uma imensa cabala ou histeria coletiva criada para nos assustar a todos.


Voltemos ao Presidente.


Claro que Marcelo devia ter explicado melhor logo desde o primeiro dia a que se devia o seu isolamento (que foi aconselhado pela ministra da Saúde).


Claro que Marcelo nunca deveria ter ido à janela dar ‘entrevistas’ sem nexo.


Claro que Marcelo devia evitar falar aos portugueses num vídeo caseiro de má qualidade em que a mensagem mal passa.


Mas, ao isolar-se, Marcelo mostrou aos portugueses como o assunto era para levar a sério.


Mas Marcelo ao falar aos jornalistas também mostrou como se deve ter todos os cuidados mas sem cair em alarmismos e acreditando que a vida continua e que a normalidade deve ser mantida… dentro da anormalidade disto tudo.


Mas Marcelo, ao seguir os passos exigidos para convocar o Conselho de Estado e decretar o estado de emergência, também mostra como, mesmo numa situação delicadíssima, a burocracia é necessária e a melhor garantia que temos contra a tirania e a arbitrariedade de quem nos governe.


Marcelo pode ter cometido erros políticos. Mas mil vezes mil os erros políticos de Marcelo do que as mensagens incentivadoras de ódio primário destes populistas que nos entraram pela janela.


segunda-feira, 21 de outubro de 2019

A iniciativa do liberalismo para responsabilização dos pobres pela sua pobreza

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Dediquei-me ultimamente a ler os programas (diria antes propagandas eleitorais) de dois partidos que vão ter assento na Assembleia da República, o Chega e o Iniciativa Liberal. Não admira que alguém que tivesse lido com atenção o programa do Iniciativa Liberal tenha colocado aí o seu voto, tal é aliciante devido à sua característica de rol de ofertas para proporcionar a venda do produto qual página de folheto de supermercado.


Este programa no contexto ideológico em que ele se insere conduziu-me a refletir sobre o problema da pobreza, as diversas discussões que se têm abordado e sobre as explicações sociológicas da mesma. Mas antes vejam este video.


 


Há autores que identificam, quer o percurso do neoliberalismo, quer o do liberalismo económico, como uma grave ameaça à democracia e à liberdade política, assim como o comunismo revolucionário defendido pelo marxismo-leninismo que conduziria ao totalitarismo são contrárias às propostas levantadas pelo socialismo liberal ou liberalismo social.


O socialismo liberal democrático inclui princípios liberais e democráticos sem pretender suprimir a economia de mercado nem o capitalismo em favor de uma economia estatizada.  O Estado liberal difere do Estado social liberal de Direito. O primeiro visa sobretudo garantir a liberdade e a propriedade privada e o segundo pelo contrário é mais abrangente porque, para além de defender a propriedade privada e a economia de mercado é complementado com uma economia mista, a propriedade pública e a propriedade privada dos bens de capital e intervém também na vida económica, nomeadamente ma segurança social. Isto é, não deixa o cidadão à sua sorte tal como faz o liberalismo radical e tal como pretendem o partido Iniciativa Liberal e o Chega.


Para os radicais do liberalismo toda atividade do Estado, quer política, quer económica, deve ter como objetivo criar uma situação que possibilite aos cidadãos desenvolverem as suas qualidades como pessoas, cabendo aos indivíduos, singularmente impotentes, buscar solidariamente em conjunto este fim comum.


As diferenças apontadas conduzem-nos á questão da riqueza e da pobreza que se refletem de forma diferente em cada uma das matrizes ideológicas de cada um deles.


Vejamos então as duas visões:


Liberalismo radical 

Socialismo liberal democrático



Teoria da culpabilização da vítima.



Os pobres são responsáveis pela sua própria pobreza. É transmitida entre gerações porque os jovens desde cedo não têm razões para aspirar a mais.
• Existe uma cultura de pobreza entre os pobres. Resultado da atmosfera social e cultural onde as crianças são socializadas.


 



Teoria da culpabilização do sistema.



A pobreza é produzida e reproduzida pelas forças estruturais da sociedade.
• Cultura da dependência. Os pobres dependem da segurança social.
• Ênfase nos processos socias que produzem condições de pobreza.
• Grandes dificuldades de superação.
Fatores que moldam a forma como os recursos são distribuídos:


Classe
Género
Etnia
Posição ocupacional
Escolaridade


Geram cultura de dependência


Pobreza e subclasse geram desvantagens


• Múltiplas privações
• Baixas qualificações escolares
• Baixos padrões de saúde
• Elevados níveis de vitimização criminal


Reduzem as hipóteses de integração social, política e económica.



 


O neoliberalismo - a ideologia económica dominante desde os anos 80 - tende a defender uma abordagem de mercado livre para a formulação das suas políticas: promovendo medidas como privatização, cortes nos gastos públicos e desregulamentação. Geralmente é contra o setor público e acredita que o setor privado deve desempenhar um papel maior na economia e que o mérito e o empreendedorismo são a única via.


No entanto, "Em vez de gerar crescimento, algumas políticas neoliberais aumentaram a desigualdade, comprometendo a expansão durável", afirmam os economistas do FMI num relatório que redigiram em 2016.


O partido Iniciativa Liberal insere-se precisamente no âmbito das ideologias radicais do liberalismo populista, pior ainda do que o neoliberalismo, o que confina com a tese e de Hall (2017) por estar longe de excluir pontos de vista autoritários e conservadores que legitimam a desigualdade económica para garantir a estabilidade social. A ideologia neoliberal promove a indiferença para com a situação dos mais desfavorecidos - as "rainhas de bem-estar" [1] na frase memorável de Reagan - tanto quanto a ideologia socialmente conservadora promove a indiferença à situação das minorias raciais e étnicas.


Pela pior das razões, o neoliberalismo é uma ideologia que culpabiliza a vítima, neste caso os mais desfavorecidos e os pobres como sendo os responsáveis pela sua própria pobreza e, ao fazê-lo, isenta instituições e pactos sociais, económicos e político do capitalismo. Isto é, não se opõe a seguir pontos de vista autoritários que uma sociedsde socialmente conservadora.


É uma ideologia, por excelência, justificadora do sistema. George Monbiot,  um colunista do jornal The Guardian e autor de “Feral, The Age of Consent and Out of the Wreckage: a New Politics for an Age of Crisis” (Selvagem, A Idade do Consentimento e Fora dos Destroços: uma Nova Política para uma Era de Crise) escreveu em 2016: "os ricos persuadem-nos de que adquiriram a sua riqueza por mérito, ignorando as vantagens — como  a educação,  herança e  classe — que podem ter ajudado a fixá-la. Os pobres começam a culpar-se pelos seus fracassos, mesmo quando podem fazer pouco para mudar as suas circunstâncias."


No site da Presidência Marcelo Rebelo de Sousa afirma que é necessário combater a pobreza “caso a caso, pessoa a pessoa”, como “um fenómeno mais global, de múltiplas causas, e abordagem transversal” e “com estratégia, juntando meios públicos e privados, experiência social e solidária, inspirando cidadãos para a causa de um Portugal mais justo e coeso”.


“Há tanta gente que mesmo trabalhando não consegue sair de uma situação de pobreza, percebemos o longo caminho que ainda temos para percorrer. E são mais de 10% os que não conseguem sair da pobreza apesar de estarem no mercado de trabalho” escreve Filipe Soares num artigo de opinião no jornal Público.


Foi a crise política que resultou do neoliberalismo que causou a crise económica e financeira de 2008.  À medida que o controle e a regulação pelo estado são reduzidos, a nossa capacidade de mudar o curso das nossas vidas através da votação também se contrai conduzindo um grande número de pessoas a desinteressar-se da política levando à abstenção ou na votação em partidos populistas.


Pode ler também:


Bárbara Reis, “Os novos liberais só têm ideias velhas”.


Pedro Miguel Cardoso, “A pobreza da riqueza”.


[1] Linda Taylor foi uma criminosa mais conhecida por uma fraude de bem-estar em larga escala e ficou conhecida como a rainha do bem - estar durante a eleição presidencial dos Estados Unidos, em 1976. Taylor era uma mulher branca que costumava fazer passar-se por diferentes raças, com diferentes pseudónimos e idades, a fim de aumentar sua atividade fraudulenta nos sistemas de assistência social de vários estados no EUA

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

Razões e não razões do Presidente

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O Presidente da República tem razão quando pede que todas as boas notícias sobre o crescimento e o défice deixem de ser conjunturais e passem a ter um nível sustentável, o que pode ser entendido como um pedido ao Governo e, ao mesmo tempo, um aconselhamento. Para isso pede “tempo e trabalho” para se garantir que o crescimento e as contas públicas passem do conjuntural para o estrutural.


O Presidente da República tem razão quando diz serem necessários ir mais longe nos incentivos à iniciativa privada.


O Presidente da República tem razão quando salienta e faz lembrar que o Governo herdou em 2015 um “trilho aberto com inquestionável mérito” e tem “oportunidade única” para reformar o país", mas…


… O Presidente da República não tem razão quando omite o que estava previsto pelo anterior governo foi substituído em 2015. Promessas na campanha eleitoral da direita, então no poder, de um país melhor e as pessoas pior, esperando-se mais cortes, mais privatizações indiscriminadas, mais cortes na saúde, mais austeridade e tudo o que mais viesse.


O Presidente da República, com certeza não desconhece que, nas mesmas circunstâncias, num país com finanças exauridas e com endividamento extremo, qualquer outro governo teria feito melhor com outras políticas já que, as que foram adotadas não foram as mais saudáveis, nem para a economia, nem para as finanças. Sendo muito hábil na diplomacia interna sabe qual a oportunidade e o que dizer para agradar ao Governo e à oposição de direita fazendo a ambos ofertas de rebuçados verbalizados.


O Presidente da República tem razão quando elogia o Governo por ter mostrado que estavam enganados aqueles que, no início, o “condenaram ao fracasso”.


O Presidente tem razão quando diz que há que garantir que fenómenos de contestação inorgânica[i] não desestabilizam o ambiente social.


O Presidente da República tem razão quando lembra que “Portugal pode dispor de uma oportunidade única para se afirmar, virando definitivamente a página das crises endémicas, dos adiamentos, dos conjunturalismos, das soluções para o imediato se o contexto favorável na Europa e no mundo se mantiver “.


O Presidente da República está certo quando faz um aviso e implicitamente uma crítica aos partidos que têm dado apoio parlamentar ao governo para não prejudicarem o que sido conseguido.


O Presidente da República tenta agradar à oposição de direita ao mesmo tempo que atribui mérito ao atual Governo, evitando assim que a comunicação social pudesse aproveitar-se para insinuar confrontos de caráter institucional entre Presidência e Governo. Mas, por outro lado, a mesma comunicação social o que relevou como título foi que o Presidente elogiou o governo de Passos o que seria de esperar.


São comentários a algumas das declarações do Presidente da República proferidas na Banking Summit, uma conferência organizada pela Associação Portuguesa de Bancos (APB) e pela SIBS, em Lisboa. Falando para banqueiros e outros afins, faze todo o sentido a lógica adotada no seu discurso.


É bom não esquecermos, como já afirmei neste mesmo espaço na altura da campanha para as eleições presidenciais, que Marcelo Rebelo de Sousa, apesar de moderado, é de direita e, como tal, tenderá a chegar a brasa à sua sardinha.  


Palavras dos Presidente da República:


“Aqui chegados, numa situação inversa àquela que no início muitos consideraram infalivelmente condenados ao fracasso”, Marcelo fala dos desafios para o futuro, desde os mais “simples aos mais complexos”:


Os mais simples: “manter o rumo financeiro percorrido, reforçar a sua interiorização pelos portugueses, continuar a reciclar a dívida pública, reduzindo-a, tirar proveito da possibilidade acrescida de investimento público, permitir a concretização de investimentos privados já projetados, manter e acentuar a abertura ao digital, ao turismo e às exportações e sua diversificação”.


Os mais complexos: garantir que fenómenos de contestação inorgânica não desestabilizam o ambiente social; ir mais longe nos incentivos à iniciativa privada, muito timidamente tratada no orçamento do Estado para 2018″


Em síntese: “Preparar para o futuro condições estruturais mais sólidas de competitividade e produtividade, para converter o conjuntural em sustentável, assegurando que o crescimento veio para ficar e de forma mais intensa, tudo evitando bolhas no consumo que possam fugir a uma sólida prevenção de desregramentos, depois, dificilmente controláveis”.


 


[i] Movimentos inorgânicos são movimentos de contestação e “indignação”, nos quais participam camadas e sectores variados que, apresentados como espontâneos e informais, se caracterizam essencialmente pela sua grande heterogeneidade social e política, por expressões, graus de consciência e organização muito diversos e por objetivos difusos, parcelares e mesmo contraditórios que se têm vindo a desenvolver em vários países, nomeadamente na Europa.