Mostrar mensagens com a etiqueta opinião. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta opinião. Mostrar todas as mensagens

domingo, 20 de julho de 2025

Os grunhidos

Chega-redes sociais-grunhidos.png


O artigo de opinião de Pacheco Pereira publicado no jornal Público em 12 de julho mostra, claramente, a falta de educação e a estupidez do que se escreve, acrescida de ignorância, que prolifera neste país ao que acresce um absoluto sectarismo.


O ambiente político em Portugal tem assistido a uma polarização cada vez mais acentuada, refletida tanto no discurso público quanto no espaço digital. As redes sociais tornaram-se palco frequente de debates inflamados e, por vezes, de ataques pessoais que extravasam todos os limites do respeito democrático. Exemplos recentes ilustram como a retórica agressiva e as insinuações depreciativas têm sido usadas para minar adversários e alimentar divisões profundas dentro da sociedade.


É uma mostra da estupidez dos que, coitadinhos, não sabendo argumentar com “classe” e racionalidade agarram-se a armas vocabulares sem qualquer critério.  Não pretendo com isto proceder à em defesa do autor do artigo, do qual não pretendo ser procurador, que foi escrito acerca do programa “o Princípio da Incerteza” onde ele interveio.  


Quem faz comentários como aqueles que foram publicados mostra que, supostamente, serão simpatizantes, ou quiçá, militantes que, afinal, servem para descredibilizar ainda mais o próprio partido Chega, tal como tem feito a deputada deste partido Rita Matias. Podemos questionar se terá idoneidade suficiente para ser deputada. Quando abre a boca é como estivesse numa rede social a dialogar com os da sua laia a mentir descaradamente. Quem tem as responsabilidades que lhes foram dadas pelos eleitores e mente em pleno Parlamento devia ser sancionado. Assim, transcrevo do referido artigo os nomes e as frases desses idiotas que escreveram comentários no Facebook da CNN.


O Chega tem verificou que lhe é útil fazer desencadear todo o racismo e preconceito que, no fundo, existia na sociedade portuguesa. Era uma panela de pressão à espera de ter um instrumento que lhe permitisse ficar “à vontadinha”. Tomar uma posição contra a imigração excessiva e abusiva que se permitiu e começar a fazer o seu controle e alterar as leis que tal possibilitam, que nada têm a ver com racismo nem com xenofobia. O problema do Chega é que não se fica por aí.


Aqui vão as mensagens mencionadas no referido artigo que mostram que é uma matilha composta, como afirmei no início inculta, ignorante, estúpida, idiota, que se arrastam pelas redes sociais com grunhidos incompreensíveis.


Segue a transcrição dos grunhidos dos personagens redatores das mensagens na rede social Facebook da CNN sem qualquer correção ortográfica.


 A mama e o tacho


Carlos Da Silva
Mais um que pensa que sabe tudo
Acho que estam todos com medo de perder a mama


Carlos Pereira
Outro xuxalista com medo de se acabar a mama


Jose Figueira Dos Santos
Mais um chulo do sistema sempre a mamar a 50 anos


Daniel Calôba
Todo povo que é contra o CHEGA so tenho a dizer 2 coisas , ou anda a a viver as custas dos outros e teem medo da mama acabar ou querem arruinar Portugal , pessoas que nao teem um palmo de testa que nao veem que este Pais esta a ficar perigoso para nossos filhos e netos , cultivem se pessoas


António Silva
O Pacheco mama no sistema e está a ver a teta a acabar se o chega governar a mama vai acabar por isso viva o chega viva ventura viva Portugal sempre


Jose Cardoso
Estavas habituado a mama valia mais estares calado.devias estar na toca


Ribeiro Ribeiro
Vergonha é esse gajo a mamar durante 50anos a conta do povo sem fazer nada


Carlos Calvo
Mais um que andou somente a vida toda a encher o NALGUEIRO á costa do Zé Tuga. Parece que os tachos estão a ficar menores e as tampas a desaparecer


Antonio Margarido
Não consegues ser o último dos últimos.És um inútil faccioso e chupista do sistema.


Xéxé e dinossaúrio


Jose Carlos Conde
Este PP está senil!


Vasco Pina Cabral
PP já não e ouvido em lado nenhum...apenas um caquético velho do Restelo!


Fatimamedeiros Morais
Eu não acredito que estes velhos ultrapassados pela mentalidade tacanha, ainda venham dar palpites.chulos do sistema.


Filipe Silva
Pacheco Pereira, todos temos um tempo, e o teu já passou, estás senil, trata-se, e abstém-te de opinar, a tua geração foi a mais corrupta da democracia.


Mario Pestana
Cala-te velho do sistema,a tua reforma tambem devia ser cortada,para pagar os subsidios aos emigrantes


Charles AP
Este velho a apoiar a estrangeirada.


A nulificação do outro


António Silva
Mais um parasita à procura de poiso…..nunca foi nem fez nada na vida a não ser viver à conta dos papos que manda…agora que começa a ver o cerco apertar está à procura de alguém que acolha…(à esquerda pois claro)


Mario Barreto
Não vales um cigarro


Vitor Almeida
Viveu como um Lord, apesar de pertencer há ocmlp,MRPP, depois procurou o seu sustento, agora destila ódio e protagonismo, qualquer dia cândidate-se a presidente da República


Armando Saramago
Historiador de marretas !


Victor Mendes
Gostaria de saber quanto este senhor recebeu do estado para ter o projeto efemera


A censura


Miguel Ribeiro
Olá. Eu acho vergonhoso certas alarvidades que este senhor Pacheco Pereira brucifera. Não percebo como é que é possível tê-lo como comentador, há semelhança de muitos outros. O nosso dinheiro chega para todos?


Emilia Bastos
Para dizeres umas nugices na TV.


Carlos Silva
Pacheco zurra para outro lado que já não te ouço


Eugénio Assis Alberto
Outro que só está de bem com ele próprio.
Renovem os "comentadeiros". Este já está podre...


Teresa Ferreira
Um ditador comuna disfarçado ,nem deviam ter direito a comentar essa corja ,depois de tudo o que fizeram ao país e aos portugueses,,,sao uns ridiculos


O pseudotudo


Francisco Santos
Eh mano, vai lá limpar o pó dos.teus livros, nao chateies a gente
Pacheco Pereira mais um chulo da política que agora vem dar uma de historiador. Vai nanar, tu e a CNN Portugal.


Vítor Timóteo
Vergonha.,foi teres desrrtado...abandonado os teus homens....e teres teabalhado com o inimigo da altura contta o teu povo


Burro


Jose António Pereira
Fostes sempre um tinhoso ,e não mudas nada!quando foi feita a distribuição da inteligência faltas-te à formatura. ÉS um triste.


Rui Loução
Deviam de ouvir este senhor.
Esse escroque não vale meio tostão furado. Não lhe passei credêcial para dizer que me vem defender
Vá dar banho ao cão


Comunista


Jose Goncalves Ferreira
Pois e um comunistas a cara dele mostra tudo


Henrique Carvalho
CNN tem um padrão nos seus comentadores estão senis ou são comunas. Só falta irem buscar a outra louca que está na SIC. O NOW vai limpar as audiência.


Manuel Gomes
Qur quer esse Cömuna ? Chega sempre Chega


Alexandre Branco
Assim se vê o caráter das pessoas  um Marxista de extrema esquerda que virou "Democrata" a dizer mal da Direita como que a envergonhar o seu passado moralista de vão de escada 


Jose Lima Oliveira
Este Pacheco é comunista está com pena das criancinhas que as leve pra casa dele


Puro insulto


Ligia Fernandes
Pacheco Pereira vai lamber sabão! Ora dá uma no cravo outra na ferradura.


Lelo Alberto Nunes
Se este porco quiser pode ligar-me terei muito gosto em compará-la publicamente com a dele .


Paulo Brito
Este palhaço e os da mentalidade dele deveriam todos ser enviados para Sibéria...


Jorge Nogueira
Pacheco Pereira era so quem te desse com um gato morto nos cornos ate ele miar corrupto , esquerdalha


Vitor Gaspar Lopes
Sanguessuga


Jose Manuel Nunes
Mete menos tabaco


Orlando Ricardo Prata Leal
Quando apalparem uma das tuas netas na primária, assobias para o lado como se nada acontece&se


Jonas Alexandre
Porcoooooooooooooooooooooooooooossssssss este pacheco pereira e este elenco no estudio é so porcoooooooooooooooooooossssssssssssssssssssss


Mmgf Freitas
Este Pacheco que va comer bolota p o alentejo

sábado, 19 de julho de 2025

O mundo é dos brutos - um artigo de opinião de Pacheco Pereira



O mundo é dos brutos — a ascensão da violência e a queda da empatia


Um artigo de Pacheco Pereira









A “civilização” como a conhecemos no mundo democrático ocidental está a acabar diante dos nossos olhos.







Qualquer pessoa que conheça história sabe que aquilo a que chamamos “civilização” é muito mais frágil do que a crueldade, a violência, a prepotência, a vingança, o poder absoluto e brutal. Não é preciso sequer escolher grandes períodos da história, a “civilização” é uma raridade, acontece por pequenos períodos, torna a vida dos que vivem nesses tempos melhor e depois esgota-se e acaba. Não me interessa fazer grandes exercícios analíticos sobre qualquer das palavras que estou a usar, seja civilização, seja barbárie, toda a gente sabe a diferença entre um mundo, imperfeito que seja, desigual, muitas vezes injusto, mas onde as pessoas são senhoras do seu destino pelo voto, vivem no primado da lei, têm liberdade religiosa, acedem a condições mínimas de existência. Para contrariar o meu argumento podem vir com mil exemplos de imperfeição, de injustiça, de exclusão, mas o que sobra é melhor do que um mundo com pena de morte, tortura, censura, ausência de direitos, em que todos são indefesos face aos mais fortes.


A “civilização” como a conhecemos no mundo democrático ocidental está a acabar, diante dos nossos olhos, pela ascensão da brutalidade, da educação dos jovens pela distracção, da ignorância e do valor da força, do individualismo agressivo, do culto da ignorância e do pseudo-igualitarismo das redes sociais. A violência torna-se a regra nas relações como “outro” e o “outro” é fácil de encontrar nas nossas ruas, os imigrantes.


Não adianta virem-me dar lições de que este catastrofismo civilizacional é recorrente em certos momentos da história cultural, o que é verdade. Mas também é verdade que a catástrofe já ocorreu várias vezes, uma das quais nos anos 20-30 do século passado. O mundo que filósofos como Comte entendiam ter entrado numa senda de “progresso”, com a revolução técnico-científica do final do século XIX, entrou na barbárie da I e da II Guerra com milhões de mortos e anos de brutalidade em vários países “civilizados” da Europa e na URSS.


Há muitas explicações socioeconómicas para esta crise civilizacional, muito sérias, mas a guerra cultural dos nossos dias tem um papel fundamental. O culto imberbe pela modernidade, assente num deslumbramento tecnológico que oculta muita preguiça e manipulação, em que meia dúzia de gestos num telemóvel, explorando três ou quatro funções simples, passam por um saber semelhante ao falar português sem um erro ortográfico a cada palavra, a arrogância de dar opiniões sobre coisas que não se viram, ouviram e leram — tudo isto ajuda a erodir a frágil democracia porque “molda” a cabeça. É o que já cá está e o que vem aí.


Basta ver o X para se perceber o impacto em quem vive dependurado nas redes do que lá encontra: cenas de violência em que velhos, mulheres e brancos são atacados por imigrantes, em que mulheres de burka reclamam a conversão da Europa ao Islão, cenas de pancadaria para “punir” um ladrão ou um molestador apanhado em flagrante por “cidadãos verdadeiros”, acidentes de automóvel com pancadaria, uma sucessão elogiosa de enormes explosões na Síria, no Líbano, em Gaza, com origem nos “amigos de Israel”, a generalização da palavra “traidor” para designar quem não participa da fúria anti-imigrante e não quer participar na chamada “remigração” (e porque não organizar uns pogroms?), etc., etc.


No Instagram e no TikTok, um bom exemplo da platitude intelectual dos nossos dias é a classificação de “influenciadores”. Uma pequena multidão compete por essa “influência” nas redes sociais, alguns/algumas com alguma imaginação e esperteza, mas, por regra, com uma absoluta indigência intelectual, gigantesca ignorância, muito mau carácter, e truques de ganância que é, nos nossos dias, o principal motivador dinâmico do comportamento. Esses “influenciadores”, na sua maioria do sexo feminino, actuam para um público adolescente, também na sua maioria feminino, mas atingindo um público muito mais vasto e para além do nível etário da adolescência, embora, como se saiba, nos dias de hoje é-se jovem até aos 35 anos.


Alguns/algumas já cometeram crimes, desde violência sobre crianças (a história do banho de água fria para calar os berros da filha) ao atropelamento e fuga de um “criador de conteúdos”, forcado e apoiante do Chega. Ambos gabaram-se destes feitos, porque tudo é bom para terem os célebres 15 minutos de fama, e acabaram em tribunal. O facto de terem feito estas violências sem qualquer hesitação moral significa que olharam para elas como olham milhares de pessoas cuja principal preocupação, quando assistem a uma qualquer violência sobre os mais fracos, é puxar do telemóvel e filmar, para terem material” para colocar nas redes sociais, e não ajudar.




Foto


Von Reyneken Vosse (1550) DR


No plano político, nestes “influenciadores”, predominam os homens e o Chega. Produzem uns comentários indigentes, mas sublinhando os temas da propaganda do partido, e fazem quase de imediato uns pequenos filmes em que qualquer das personagens da direita radical que tenha um debate com alguém à esquerda “arrasa”, “esmaga”, com imagem a condizer. As redes sociais, o YouTube, o Instagram, o TikTok estão cheios destes produtos, que funcionam como multiplicadores e são consumidos por um público jovem e adulto, o jovem mais atraído pela distracção que dá o confronto, quem “ganha” e quem “perde”, o adulto procurando um espelho daquilo que já pensa.


Este submundo é hoje o mundo. Sem princípios, sem saber, sem mediação, com apologia da força, elogio da violência e hostilidade aos mais fracos. Já estão a ganhar e, se os justos não lhes respondem alto e bom som, ainda vai ser pior.


O autor é colunista do PÚBLICO





 

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2025

Nem só os loucos sofrem de psicose

Trump-psicose.png


Se perguntarmos a especialistas em psicologia ou em psiquiatria o que é uma psicose obteremos respostas tais como conjunto de sintomas que afetam a mente, onde houve alguma perda de contato com a realidade e dificuldade em reconhecer o que é real e o que não é, mesmo face a evidências. Ou ainda uma condição de saúde mental que se caracteriza por uma desconexão da realidade. Ou experimentar sintomas como delírios, isto é, crenças falsas firmemente mantidas apesar de evidências contrárias. Ou ainda outros sintomas que incluem perturbação da mente que causa dificuldades em determinar o que é ou não real e comportamento inapropriado para determinada situação e também perda capacidade emocional.


Posso acrescentar ainda que, a negação da realidade evidenciada pode ser um sintoma de psicose. Esses delírios podem levar à negação da realidade de diversas formas, como acreditar que eventos que não ocorreram realmente aconteceram ou que situações reais não são verdadeiras. A negação das evidências científicas sobre vários temas pode ser um dos sintomas.


Analisando atentamente declarações e fazendo uma análise de conteúdo das intervenções de Donald Trump por um especialista em psicologia ou em psiquiatria desde que concorreu pela primeira vez às eleições nos EUA detetar-se-iam alguns sintomas característicos de psicose.


Contudo, se a pessoa em questão está em estado de negação consciente, isto é, nega as evidências apenas com algum propósito então entramos noutra particularidade que é a intencionalidade do objetivo que tem um fim em vista que é a obtenção de vantagens pessoais quaisquer que sejam, que podem ser políticas e ou de poder.


A psicose não é exclusiva das pessoas que são comumente rotuladas como “loucas”. Na realidade, a psicose pode afetar pessoas de todas as esferas da vida e pode ser uma manifestação de várias condições de saúde mental. Qualquer pessoa pode experimentar um ou vários episódios psicóticos em determinadas circunstâncias como por exemplo, entre outras, experiências traumáticas, sejam emocionais, físicas ou sexuais. Situações de grande stress podem precipitar também episódios psicóticos.


Assim, negar conscientemente as evidências com o objetivo de obter vantagens pessoais que podem ser políticas ou de exercício de poder, pode ser diferente da negação da realidade observada na psicose.


Trump parece estar em estado de negação consciente, por isso, é mais provável que ele esteja a agir de forma intencional e estratégica, possivelmente com motivações egoístas, narcisistas ou a evitar consequências negativas. Essa forma de negação pode estar associada a comportamentos manipulativos ou desonestos, e não necessariamente a uma condição de saúde mental. Portanto, a negação da realidade devido à psicose é uma questão de saúde mental, enquanto a negação consciente da realidade com um propósito específico é uma questão comportamental e ética,


Donald Trump tem sido conhecido por negar várias evidências, especialmente em relação às eleições presidenciais dos Estados Unidos de 2020. Frequentemente alegou, sem apresentar provas, que houve fraude eleitoral generalizada que resultou na vitória de Joe Biden. Essas alegações foram repetidamente desmentidas por autoridades eleitorais e judiciais, incluindo membros do próprio partido republicano.


Além disso, Trump também foi acusado de interferência eleitoral e de tentar anular os resultados das eleições de 2020. Essas ações e alegações têm sido amplamente discutidas e investigadas, mas até agora, não foram apresentadas evidências concretas que sustentem suas afirmações de fraude eleitoral. Essas alegações foram desmentidas por várias investigações e revisões judiciais.


Donald Trump tem negado várias evidências em diferentes áreas, incluindo questões climáticas e saúde pública. Os exemplos são vários.


Trump chamou frequentemente “farsa” às mudanças climáticas e retirou os Estados Unidos do Acordo de Paris, que visa combater o aquecimento global; desconsiderou evidências científicas sobre o impacto das atividades humanas no clima.


Durante a pandemia, Trump minimizou a gravidade do vírus e promoveu tratamentos não comprovados, como a hidroxicloroquina, e também criticou e desacreditou especialistas em saúde pública e as suas recomendações, chamando algumas informações “notícias falsas”.  Em alguns momentos, defendeu ou mencionou tratamentos que não tinham comprovação científica, o que foi rotulado por muitos especialistas como irresponsável.


Mas há outras evidências como a deslegitimação de fontes ao chamar de “fake news” às informações que divergiam de sua visão ou que criticavam as suas ações. Trump procurou minar a credibilidade dos meios de comunicação e de instituições que apresentavam dados contrários às suas posições. 


As atitudes de Trump geraram debates intensos tanto no meio científico quanto na sociedade, levantando preocupações sobre os efeitos que a disseminação de desinformação pode ter na formulação de políticas causando desconfiança na população em relação às informações e dados credenciados.


Tudo isto tem impacto na opinião pública porque o tipo de retórica de Trump pode contribuir para que parte do público se torne menos crítico em relação à análise de evidências, aceitando passivamente informações vindas de fontes de autoridade sem uma verificação aprofundada.

sábado, 12 de outubro de 2024

Ler o que outros escrevem

Ler o que outros escrevem.png


Os comentários e opiniões que nos chegam pelos vários órgãos de comunicação social acerca da política são tantos e tão diversos que, por vezes, conseguem confundir mesmo os mais atentos, conhecedores e atualizados. Quantas vezes os que emitem opiniões e fazem comentários entram também em contradições. Não será o caso dos quais vou hoje fazer algumas citações.
As citações que hoje selecionei podem não corresponder à minha opinião, nem tão pouco que com elas esteja de acordo. Cada um tirará as conclusões que achar deva tirar. Essas citações são apenas exemplos de pontos de vista político que circulam por aí e achei importante que se reflita sobre elas.


A. …”o país está há seis meses mergulhado num jogo de sombras. O Governo finge governar distribuindo as mais variadas prebendas aos mais diversos grupos de interesse, uns mais legítimos do que outros. A oposição esquece-se de todas as suas linhas vermelhas para formar maiorias contranatura no Parlamento, exatamente com o mesmo fim. O propósito de uns e outros é claríssimo: todos temem uma crise política, todos fazem por estar nas melhores condições possíveis quando ela chegar.”
Pedro Norton, 1 de outubro de 2024, Jornal Público


B. … “sou capaz de acompanhar Pedro Nuno Santos no seu ceticismo e reservas profundas quanto ao IRS Jovem. A medida é, não apenas muitíssimo pesada do ponto de vista financeiro (ide ouvir o Conselho das Finanças Públicas), mas é sobretudo de uma eficácia mais do que duvidosa (prestai ainda atenção ao FMI). O próprio PSD parece, aliás, tê-lo já percebido. Foi, afinal, o próprio Hugo Soares que, num assomo de surpreendente candura, sublinhou, num debate na semana passada, o caráter absolutamente experimental da proposta. Só esta confissão dava, de resto, um tratado sobre a irresponsabilidade no desenho das políticas públicas. Mas há mais. Como se tudo isto não bastasse, têm-se ainda levantado dúvidas razoáveis sobre a constitucionalidade da medida e, no plano da equidade e da justiça relativa, parece mesmo muitíssimo problemático fazer da idade um fator determinante do esforço fiscal de cada contribuinte.”
Pedro Norton, 1 de outubro de 2024, in Jornal Público


C. “Lisboa insalubre
Acresce que muitos dos ecopontos são na realidade meros múltiplos de contentores de lixo indiferenciado que, portanto, estão sistematicamente imundos e por conseguinte atraem nuvens de varejeiras o que obriga os residentes nos apartamentos circundantes a manter as janelas permanentemente fechadas para que elas não entrem nas suas cozinhas e casas de jantar.”


D. “Eu tenho a certeza que, todos os que aqui estão, estão a sentir como eu estou a sentir, que o país nos está a escapar das mãos. Estamos a perder o controlo das nossas ruas, das nossas cidades, vilas e aldeias. Estamos a perder o controlo das terras que eram nossas”.
“Nos últimos anos, a nossa estratégia não foi receber bem. A nossa estratégia foi a de receber toda a gente e de qualquer maneira”.
André Ventura, 2 de outubro de 2024, in Diário de Notícias


E. O líder da comunidade, Rana Taslim Uddin, que vive em Portugal desde os anos 1990, contou que muitos bengalis lhe telefonaram, preocupados, e que ele respondeu a todos o mesmo: “Não se preocupem, não tenham medo. O André Ventura e o 1143 escolheram esta palavra sensível, imigrante, porque sabem que é uma palavra que dá votos. É só isso. Disse-lhes que um dia, se calhar, o André Ventura vai para o Governo, mas que não faz mal, nós vamos continuar cá, investimos muito em Portugal e Portugal precisa de nós. O dr. Marques Mendes explicou isso na televisão. Vivemos aqui com as nossas famílias, comprámos casas, lojas, temos os nossos negócios, pagamos os nossos impostos, esta é a nossa terra.”
Bárbara Reis, 5 de outubro de 2024, in Público


F. “Entretanto, todos avistaram de repente e perceberam um drama que se desenha no horizonte: o PRR, o famoso Plano de Recuperação e Resiliência, com mundos e fundos indispensáveis para a economia e a administração pública, está pelas ruas da amargura, com pouco uso e mau proveito, um dos piores registos da Europa. Com nova crise de governo e novas eleições, esta espécie de desastre seria uma calamidade. Presidente, Governo e partidos perceberam que sobre eles se abateria um justo e furioso vendaval. E de nada serve passar culpas: todos serão condenados.”
António Barreto, 5 de outubro de 2024, in Público


G. “… o Conselho de Ministros, nos momentos em que não se entretém a explorar novas possibilidades para a Legística, aprovando PowerPoints, foi aproveitando o Orçamento anteriormente apelidado de "Pipi" para aumentar a despesa, sempre que as reivindicações eram suficientemente ruidosas. Enquanto o Parlamento ia contribuindo para a festa despesista, prolongou-se uma negociação fastidiosa: umas vezes com recuos do executivo, outras com linhas vermelhas do PS, e, já no prolongamento, com piruetas irrevogáveis de Ventura.
…………………………………………………………
Na verdade, em si, aumentar despesa e reduzir impostos não é um problema. Individualmente, aliás, é o que todos desejamos e, coletivamente, é o que deve acontecer em períodos de arrefecimento económico, quando as políticas públicas devem estabilizar a economia, à custa dos equilíbrios orçamentais. Só que não é este o momento: estamos perante um comportamento pró-cíclico – ou seja, a generosidade orçamental acontece num contexto economicamente favorável, com o emprego em alta, a inflação em queda acentuada e os salários reais a crescerem. E o problema está mesmo na incerteza do futuro próximo, marcado por muitos riscos na envolvente externa (as previsões apontam para um recuo do contributo das exportações para o produto).”
Pedro Adão e Silva, 10 de outubro de 2024, in Público



H. “O Orçamento do Estado para 2025 ontem apresentado é politicamente uma proposta com bola ao centro, destinado a ser viabilizado por uma ampla maioria de AD e PS. Os sinais do Governo são inequívocos, prefere negociar com Pedro Nuno Santos do que com André Ventura, a quem ostraciza, mas Luís Montenegro já percebeu que em caso de emergência e mesmo que o líder do Chega diga pior da proposta orçamental do que um maometano diz do toucinho, o Chega acabaria por dar o sim, mesmo sem negociar.
Não há grandes novidades e nem pode haver, porque a máquina do Estado e os compromissos assumidos deixam pouca margem. E este fardo perdurará e até se agravará nos próximos anos. O peso da dívida no PIB baixa e os juros tenderão a aliviar em 2025, mas os juros da dívida pública ainda constituem um grande ‘ministério’ que os contribuintes pagam. Mas o principal sinal de alerta é a subida da despesa: num cenário de desaceleração económica, que é provável por causa da estagnação alemã e da fragilidade financeira francesa. Há riscos para a gestão das contas públicas.”
Armando Esteves Pereira, 11 de outubro de 2024, in CM



I. “Isto é, apesar da imagem de desorientação e de falta de estratégia negocial para o Orçamento do Estado, Pedro Nuno Santos pode continuar a ser líder. Para isso também contribui – e muito – o facto de o PS estar a começar o percurso de oposição, depois de ter sido governo oito anos. Seja com Pedro Nuno Santos, seja com líderes seguintes, o PS terá ainda de fazer uma travessia pela oposição, em que terá de se renovar e reconstruir. Os governos de António Costa concretizaram o final de um ciclo partidário do PS iniciado por António Guterres, líder que, a partir de 1992, mudou substancialmente o PS do ponto de vista programático e até organizativo.
A missão que a direção do PS – este secretário-geral ou outro que se lhe siga – tem pela frente é árdua e longa. Daí que seja importante que Pedro Nuno Santos ganhe uma linha de rumo e acerte o passo para a ciclópica tarefa que tem pela frente. É urgente que o PS assuma uma posição e acabe com a desorientação perante o Orçamento, que a direção se concentre em preparar as autárquicas e que sejam, finalmente, lançados os novos Estados Gerais, que serão a chave para a retoma da ligação entre o PS e a sociedade, bem como um meio de ser estabelecidos novos desafios e linhas programáticas.”


São José Almeida, 21 de outubro de 2024, in Público


J. “Não, senhor primeiro-ministro. O problema maior do jornalismo português não está nos editores que sopram perguntas aos ouvidos dos jornalistas. Está nos políticos que sopram notícias aos ouvidos de directores de publicações falidas, com accionistas misteriosos, que sobrevivem como zombies há décadas – e agora, para mal dos nossos pecados, com ajudas generosas do Estado. São esses os auriculares que me preocupam. São essas as mensagens de telemóvel que nos deveriam inquietar.”
João Miguel tavares, 21 de outubro de 2024, in Público

terça-feira, 2 de julho de 2024

Um artigo de opinião de João Miguel Tavares-O senhor Ventura já não tem idade para brincar aos polícias



O senhor Ventura já não tem idade para brincar aos polícias










“Não é nenhum apelo à desordem”, disse Ventura. Claro que não é. É apenas uma forma de instrumentalizar um movimento sindical à medida das suas conveniências.







Aqui há três meses publiquei nesta página um artigo intitulado Uma proposta inaceitável do Chega de que pouco se falou, no qual chamava a atenção para um ponto particular do seu programa eleitoral que deveria ter merecido maior debate, não fossem as palhaçadas de André Ventura serem tão mais atraentes do que as suas propostas efectivas. Na secção “Tornar Portugal Seguro”, lia-se esta proposta do Chega: “Reconhecer aos membros das Forças de Segurança o direito à filiação partidária, bem como o direito à greve.”


Desde o primeiro dia que o Chega está a fazer um enorme esforço para ganhar poder dentro das forças policiais, como antigamente o PCP se esforçava para ganhar força dentro dos grandes sindicatos industriais. Mas a ideia de milhares de polícias poderem um dia vir a ser militantes do Chega, ou de qualquer outro partido, parece-me absolutamente abstrusa, e defini-a nesse artigo como uma “linha vermelhíssima” em qualquer democracia liberal que se preze: as pessoas que o país treina, arma, e às quais dá poder para recorrerem à violência em nome do Estado, devem a sua lealdade ao país como um todo, e não a qualquer partido político particular.


A Lei dos Partidos Políticos é clara: “Não podem requerer a inscrição nem estar filiados em partidos políticos: 1) os militares ou agentes militarizados dos quadros permanentes em serviço efectivo; 2) os agentes dos serviços ou das forças de segurança em serviço efectivo.” A Lei da Segurança Interna diz a mesma coisa: “As forças e os serviços de segurança são organismos públicos, estão exclusivamente ao serviço do povo português” e são “rigorosamente apartidários”. Portanto, nem GNR, nem PSP, nem PJ, nem SIS, nem Autoridade Marítima Nacional, nem o Sistema da Autoridade Aeronáutica podem ter funcionários filiados em partidos. Só assim se evitam conflitos de interesse que poderiam comprometer o prestígio e a imagem de neutralidade dessas instituições.


Isto é tão óbvio que se enfia pelos olhos dentro. Mas André Ventura nunca foi homem dado a subtilezas institucionais, e por isso deu mais um passo em frente na tentativa de colar o Chega às forças de segurança: desafiou os membros da PSP e da GNR para uma manifestação na próxima quinta-feira, às 15 horas, em frente à Assembleia da República, e também dentro das galerias do Parlamento. Motivo: vai ser votada – e chumbada – a proposta do Chega de aumento do subsídio de risco para 400 euros mensais até 2026.


Ventura, pelos vistos, acha que a votação terá outra graça se os deputados chumbarem a proposta rodeados de polícias, que assim poderão dar largas à sua revolta nas galerias e na escadaria de São Bento. É, realmente, uma ideia digna de um político com sentido de Estado. “Não é nenhum apelo à desordem”, disse Ventura. Claro que não é. É apenas uma forma de instrumentalizar um movimento sindical à medida das suas conveniências.


E funciona. O badalado Movimento Zero já se colocou ao seu lado, apelando a todos os membros das forças de segurança para irem ao Parlamento na quinta-feira: “É uma oportunidade única para fazer ouvir a nossa voz, para exigir respeito e melhores condições de trabalho.” Os polícias encontram-se em negociações avançadas com o Governo, e por isso não acredito que vá acontecer grande coisa em São Bento. Mas quando homens adultos, como Ventura, ainda gostam de brincar aos polícias, das três, uma: ou são imaturos, ou são irresponsáveis, ou são perigosos. Nenhuma das opções é boa.


O autor é colunista do PÚBLICO






 

quarta-feira, 12 de junho de 2024

Análises muito subjetivas da situação política atual

Política análise subjetiva.png


1. Relativamente aos resultados das eleições europeias há os que dizem que não deve haver leituras internas, e há os que acham, ou defendem que essa leitura deve ter consequências. Claro que cada uma das opiniões se manifesta consoante as conveniências.



2. A ministra da saúde é um especialista em provocar demissões e substituições no sistema sem que nada daí tenham resultado melhorias para as pessoas nos serviços de saúde. Pelo menos até hoje!



3. O poder, quando exercido por alguém que tenha incompetência para um cargo muito específico e sente dificuldade na resolução no curto prazo de problemas complexos que se lhe deparam, tornam-se prepotentes e acusam os que estão sob a sua alçada de serem os causadores dessas dificuldades que, afinal, são derivadas da sua própria incompetência. Tal parece ser o caso da atual ministra da saúde do Governo AD. De formação farmacêutica, área onde se produzem e combinam químicos, alguns que curam, mas em que outros podem trazer efeitos secundários graves.



4. O que se verificou no caso da França e da Alemanha são a prova que dão razão aos que defendem a segunda opinião. Macron perde a eleições europeias e convoca eleições antecipadas. Macron vai assim dissolver o Parlamento francês após derrota esmagadora da extrema-direita. As forças nacionais conservadoras e de extrema-direita da Europa obtiveram grandes ganhos, terminando com pouco menos de um quarto dos eurodeputados na assembleia de 720 assentos que foi o maior ganho até hoje, contudo não se saíram uniformemente bem e, em alguns casos saíram pior do que o previsto.



5. Na Alemanha apesar dos escândalos da AfD sobre a “lavagem” do regime nazi a Alternativa para a Alemanha (AfD) obteve uma percentagem mais elevada de votos nacionais (16%) do que qualquer um dos três partidos que compõem a coligação liderada pelo chanceler, Olaf Scholz. O escândalo está relacionado com a circunstância do principal candidato da (AfD) para as eleições parlamentares europeias ter renunciado à liderança do partido de extrema-direita alemão. Maximilian Krah, que disse ao jornal italiano La Repubblica que as SS, a principal força paramilitar dos nazis, “não eram todas criminosas” e afirmou ainda que os seus comentários “estavam a ser usados indevidamente como pretexto para prejudicar nosso partido”. Krah, está a ser investigado por supostas ligações com a Rússia e a China, o que ele nega.


6. Era suposto que os populistas da extrema-direita tivessem uma grande ascensão no Parlamento Europeu, mas Cas Mudde, especialista em populismo e direita radical da Universidade da Geórgia, diz que “Mais do que tudo, estas eleições refletem os desenvolvimentos a nível nacional”, e acrescentou que a extrema-direita está agora “sub-representada em nível europeu”.


7. A IL pela voz de Cotrim diz que não apoia António Costa para a presidência do Conselho Europeu e alinha com André Ventura com o mesmo diapasão. Porque será apenas porque é socialista, será porque não gostam pessoalmente dele, será porque há um ressabiamento, talvez inveja do percurso ou será por último uma questão racista bem disfarçada?


8. Cotrim da IL esta pessoa altamente qualificada e experiente em governação e em assuntos europeus explica que é por que, António Costa não fez nada em Portugal em oito anos e que, por isso, também não vai fazer nada no Conselho Europeu. Não fez porque não fez como ele acha que devia fazer? Veja-se a lógica desta rara avis que diz defender Portugal, mas que, qual Ventura, infama os portugueses apenas por motivos ideológicos.


9. Sebastião Bugalho com Montenegro a coadjuvar disseram que a vitória do PS foi por “Poucochinho”. E a vitória da AD nas eleições legislativas foi uma grande vitória certo?


Sebastião Bugalho4.png


10. Poucachinho, mas ficou bem claro é que não foram validadas nem valorizadas os anúncios das medidas que o Governo diz tomar. Apesar do desgaste dos socialistas após 8 anos de governo, a AD ganhou as legislativas por uma unha negra, isto é também por poucachinho. Agora, com um governo ainda fresquinho, com pacotes para todos, desde os professores aos polícias, passando pelos reformados e jovens e levado ao colo pela comunicação social e com mais uma ajudinha do Ministério Público (recorde-se os casos que se levantaram pelo MP dias antes das eleições), com um comentador oficial aos domingos na SIC e sem contraditório perde as eleições. Para onde foram os votos que o Chega perdeu? Terá a AD conseguido captar algum? Naturalmente não, a ver pela IL que subiu.


11. O PCP, como de costume, fez da derrota uma vitória porque com grande sorte conseguiu eleger um deputado tendo perdido 1 desde 2109. O BE seguiu-lhe os passos. Ambos dizem estar em boa forma. Estes dois partidos ainda não viram que cassetes e repetições dos discursos não resultam!


12. O que trama o PCP é a sua insistência no apoio encoberto à Rússia, a Putin e à invasão da Ucrânia. Falam e reptem sucessivamente que são a favor da paz. Quem, não é? Eles, o partido, deve explicitar claramente em que moldes devem ser feitos esses acordos. Será com a capitulação da Ucrânia? Ao PCP estar a favor da paz não basta, é preciso mostrar também claramente de que lado está.


13. Quando Paulo Raimundo foi eleito para a posição de secretário-geral em novembro de 2022 alterou-se de algum modo a posição do partido. Passou a falar da condenação da “intervenção e invasão russa no território ucraniano” dizendo que não menosprezavam nem relativizavam. Sentiu indispensável ter que de vir afirmar que o PCP “não tem nada a ver com o governo russo” nem que “não há nada que nos relacione com o Governo russo, nem de longe, nem de perto” e acrescentava que “não temos nada a ver com as opções de classe do Governo russo” e que “estamos no dia-a-dia no combate a essas opções”. Mas a sua oposição clássica à UE e o sentimento de rancor para com os EUA e a NATO leva-os a afirmar que a Rússia não é o único responsável pela guerra, que “o confronto político entre vários intervenientes NATO, Rússia, EUA e UE teve como ponto alto uma invasão russa”.


14. Para o PCP os grandes causadores da invasão foram a NATO, a UE e os EUA. Ao fim destes anos todos (desde 2014 com os protestos começados em novembro de 2013 e com o Governo ucraniano do Presidente pró-russo Viktor Yanukovych decidiu suspender um acordo de associação com a União Europeia porque defendia uma maior aproximação com a Rússia para se juntar à União Aduaneira Eurasiática e acusaram os EUA de ter feito um golpe. Putin lembrou-se disso só em fevereiro de 2022?!


15. As esquerdas radicais e os sindicatos a eles afetos tanto lutaram pelos professores que seria de esperar que houvesse alguns votos que lhe calhassem. Parece que não.


16. O BE e o PCP mantêm-se numa linha ideológica que pouco ou nada evoluiu ao longo do tempo não se reajustando às novas realidades. O PCP continua na inspiração marxista-leninista a da nacionalização da economia e a contradição entre trabalho e capital é central na visão de mundo que o PCP sustenta.


17. O ímpeto propagandista deste Governo liderado por Montenegro continua após as eleições para a UE. Nos tempos de antena que lhe são dedicados nas televisões mostra o que está a fazer, o que vai fazer, o que diz que faria e vai fazer, mas pouco o que já fez, concretizou ou executou, a não ser pequenos arranjos aqui e ali sem um plano, alguns até com problemas. O que nós vemos executar são demissões, saneamentos políticos, sem que daí resultem melhorias visíveis para a população. A grande batalha que se dizia ia ser feita para melhor o SNS está tão coxo como estava. Isto é, melhor do que estava não está, mas, se está, continua defeituoso. Quem precisa de alguma coisa da saúde e pode tem de pagar rios de dinheiro aos privados.

sexta-feira, 7 de junho de 2024

Os jovens o jornalismo e a política

Sebastião Bugalho e terceira idade.png


A juventude pode significar muitas das vezes um pensamento conservador e antiquado embora com pretensões de mostrar uma grande abertura de pensamento. Há um exercício mental que se pode fazer: imaginar, por exemplo, Sebastião Bugalho como primeiro-ministro no lugar de Luís Montenegro. A juventude em certos cargos, que não seja a mera emissão de opiniões e comentários que por serem por vezes polémicos podem demonstrar um pensamento desarticulado com a realidade e, tanto pode ser um pensamento antiquado ou, então demasiado atrevido e progressista em alguns pontos fraturantes.


Por várias vezes tenho escrito aqui sobre a influência dos media televisivos na política partidária com a proliferação de opiniões e comentadores na política portuguesa e como tentam tomar posições ideológico-partidárias de favorecimento a partidos especialmente de direita. Conhece-se a promiscuidade entre a política e o sector privado assim como entre a política partidária e o comentário político. Chegou-se agora a uma dimensão inédita: a transição do jornalismo de comentário para o estrelato da política.


O caso da escolha de Sebastião Bugalho para cabeça de lista às eleições europeias é, no mínimo, intrigante e parece ser um destes casos. Sebastião Bugalho, parece ser um pecado original de caso da promiscuidade político-mediática.


Quem se dedica a ver e a ouvir comentários políticos nas televisões apercebe-se do aumento significativo do número crescente de comentadores, tendencialmente favoráveis à representação da direita, embora ligeira, no período em que houve uma maioria de esquerda no governo. Foi exceção o ano de 2016 em que o equilíbrio se encontrou favorável à esquerda e o ano 2023 que registou um maior desequilíbrio, com 37 comentadores identificados como de direita face de 25 como de esquerda.


No entanto, há dificuldade em identificar o posicionamento ideológico de alguns comentadores e opiniões devido ao acréscimo da categoria daqueles a quem é possível atribuir uma orientação política que se deve ao alargamento do número de comentadores e também ao destaque dado aos jornalistas nos espaços de opinião.


O estudo efetuado considerou a exclusão da análise programas que, sendo semanais e regulares, apresentam convidados pontuais de acordo com a temática da semana são exemplos “É Ou Não É?”, “Expresso da Meia-Noite” ou “Negócios da Semana”, assim como os segmentos de opinião dentro dos noticiários ou outros programas que são protagonizados por comentadores convidados.


Em março de 2024 foi publicado um estudo do ISCTE sobre aquela temática intitulado “Comentário político nos media 2023 Análise ao comentário político em Televisão, Rádio e Meios online em Portugal”. Nesse estudo foram excluídos os que, apesar de incidirem sobre temas da atualidade política que, quer pelo formato, quer pelo conteúdo, se afastavam do comentário político estruturado em torno da opinião pessoal do comentador.


O estudo mostra várias asserções que fazem uma análise sobre os espaços semanais de comentário político em televisão concluindo que tem aumentado de forma acelerada nos últimos anos, passando de 53 em 2016 e em 2019 para 78 em 2023.


Comentadores e política.png


Esta evolução reflete uma aposta crescente neste registando um aumento de 47,2% em relação a 2016.


O Relatório MediaLab do ISCTE refe ainda que “ao longo de 8 anos de maioria à esquerda no governo o comentário político em televisão tem sido marcado por uma ligeira vantagem da representação da direita, com mais comentadores desse espectro político, com exceção do ano de 2016 em que o equilíbrio era favorável à esquerda”.


O ano 2023 é aquele que regista um maior desequilíbrio, com 37 comentadores de direita face a 25 de esquerda. O mesmo relatório mostra “O alargamento do número de comentadores tem aumentado a dificuldade em identificar o seu posicionamento político, crescendo a categoria daqueles a quem não foi possível atribuir uma orientação política seguindo os critérios definidos na metodologia. Este crescimento dos casos considerados “não identificável” politicamente nos últimos dois anos resulta sobretudo do maior protagonismo conferido aos jornalistas em espaços de opinião.”


Comentadores e política2.png


Fica demonstrado que a relação entre comentadores políticos, jornalistas e partidos políticos pode ter implicações significativas para a integridade dos meios de comunicação social, a perceção pública e os processos democráticos.


 


O caso de Sebastião Bugalho, lançado como cabeça de lista às eleições europeias pela AD, pode ser encaixado nestas tipologias. Bugalho destacou-se no cenário jornalístico e político de Portugal devido ao seu olhar crítico e detalhado sobre os acontecimentos contemporâneos. Formado em Comunicação Social, Bugalho começou a sua carreira em diversos meios de comunicação, incluindo jornais, canais de televisão e plataformas digitais.


A independência e objetividade dos meios de comunicação social ficam em causa quando comentadores políticos ou jornalistas participam ativamente em campanhas partidárias levantando questões sobre a sua independência e objetividade e os seus artigos podem ser tendenciosos ou carecer de análise crítica. Assim, comentadores políticos que alternam entre funções de campanha e funções mediáticas podem, inadvertidamente, contribuir para esta perceção.


Quando se foi ou é jornalista e se participa em campanhas de políticas partidárias cria-se uma perceção de conflito de interesses porque quando se é, ou foi, comentador pode dar-se prioridade às filiações pessoais ou partidárias próprias.


Interromper o seu processo de comentador para se candidatar a um cargo político e ao mesmo tempo partidário o seu retorno ao comentário fica comprometido na sua independência e objetividade. Quando os jornalistas são vistos como partidários, isso pode corroer a confiança nos meios de comunicação e o público pode questionar se os meios de comunicação são realmente imparciais. De qualquer modo não parece ser o que irá suceder a Sebastião Bugalho porque terá grandes hipóteses se vir a ser eleito como deputado europeu, mas doravante a sua independência enquanto jornalista passará a ficar comprometida. Tenha-se, contudo, em atenção que Sebastião Bugalho integrou as listas do CDS, como independente. Apesar de não ter aceitado assumir o cargo de deputado em 2021, coloca mesmo assim em causa a sua independência enquanto jornalista, ficando na posição do comentador partidário.


 

quarta-feira, 1 de maio de 2024

As reparações dos pecados cometidos ou lá o que seja há mais de 500 anos



Não resisto a incluir aqui um artigo de opinião de Maria João Marques sobre essa famigerda polémica das reparações da escravização e da colonização ocorridas há mais de 500 anos.


Quem nunca escravizou nem colonizou tem de pagar reparações?










A esquerda woke não anima os descamisados do mundo rico, pelo que tem de animar a malta urbana abonada com necessidade de expiar pecados.







Vou revisitar o já famoso e infame jantar de Marcelo Rebelo de Sousa com os jornalistas estrangeiros. No meio do racismo para com António Costa, o classismo para Luís Montenegro e a informação – dada de uma forma displicente que aterroriza a mãe que escreve estas linhas – do corte de relações com o filho, o Presidente faria bem em alegar perante o país tratar-se de um episódio de insanidade temporária.


Ou, pelo menos, como no filme Anatomia de um Crime, com o divino James Stewart, ter sido acometido por um "impulso irresistível". O que teria a vantagem de ser verosímil. Todos sabemos que Marcelo Rebelo de Sousa tem o impulso irresistível de falar.


Porém Marcelo Rebelo de Sousa falou em reparações que Portugal tem de pagar às ex-colónias, por massacres e escravatura. A expressão (inteiramente clara) foi "pagar custos" das maldades todas que fizemos. Foi leviano, claro, por impulso irresistível ou deliberadamente. Entretanto, percebendo que não é tema que lhe dê píncaros de popularidade, já veio amenizar: reparações podem ser o perdão da dívida ou o "estatuto de mobilidade" dos cidadãos do PALOP. Mas a discussão ficou.


Os vários partidos já tomaram posição – quer dizer, quase todos. O Chega rasgou as vestes e quer censurar o Presidente no Parlamento. Porventura viram algum episódio de uma série política americana onde tal ocorreu. O BE e o Livre garantem que temos muito que reparar por todo o lado. O Governo, e bem, informou não planear nenhum programa de reparações. O PS, percebendo que é um tema que não agrada ao eleitorado mas não querendo descolar da esquerda woke que é natureza de Pedro Nuno Santos, não tomou posição, dizendo (através de Marta Temido) que é um assunto muito sério a ser debatido nos fóruns próprios.


Há aspetos nesta discussão para mim inteiramente pacíficos. Sou, por princípio, favorável à devolução de todas as obras de arte e artefactos obtidos por pilhagem. Aplico-o aos países africanos ou aos mármores gregos do Parténon que estão no Museu Britânico. Desde que se garanta, claro, que a devolução assegura a preservação da peça e que é feita de modo a beneficiar a população espoliada (num museu onde possa ser visitada e estudada e fomente o turismo que enriqueça a região) e não termine nos salões de um qualquer oligarca do regime.


No caso português, sou de opinião (mesmo fora da discussão das tais reparações) que se deve privilegiar imigração dos PALOP face a outras proveniências sem ligações culturais a Portugal. Não me chocariam quotas, bem como um regime de bolsas, nas universidades portuguesas específicas para alunos dos PALOP, que de resto as têm crescentemente procurado. E o perdão da dívida aos países pobres de África é um imperativo moral a que todos os países europeus têm respondido, e há que incrementar.


Qual é então o meu problema com a discussão das reparações? Vários e o menor é o mais prosaico: não temos dinheiro. E pagamos a quem? A indivíduos (nem escravizados nem colonizados) ou a regimes peculiares (se não mesmo cleptocratas)?


Começo por ver muito problemática a vontade de fazer contas à História velha de séculos que se julga com lentes do presente. Mais: onde paramos? Outro problema: há uns anos fomos surpreendidos com números portugueses avassaladores do comércio transatlântico de escravos; sucede que há nuances. Afinal Lisboa foi responsável por 4% do comércio de escravos africanos e o grosso foi feito a partir do Brasil (37%), por interesse (e proveito) da economia brasileira, sem ser política da metrópole, que deixava andar por não conseguir parar o tráfico.


Não temos de nos orgulhar dos nossos 4%, nem de inaugurar a prática. Porém o país que mais escravizou e traficou foi o Brasil. Que a administração Lula, exemplo indigesto do populismo de esquerda sul-americano, venha pedir reparações a Portugal, duzentos anos depois da independência, é topete. Cerca de 400.000 brasileiros vivem em Portugal, extremamente bem inseridos. Tratam-se nos hospitais públicos e os filhos frequentam as escolas pagas com os impostos dos portugueses que já cá viviam antes. Diria que é uma boa reparação.


O meu problema maior é a real finalidade desta discussão, que nada tem que ver com países colonizados nem descendentes de escravos. É simplesmente parte da agenda niilista antiocidental. O objetivo é expor a malícia e maldade da humanidade branca ocidental, causa de todas as calamidades desse mundo vítima e marionete da perfídia europeia.


Claro que isto é a maior confissão de ignorância, racismo e eurocentrismo. Não concebem que o resto do mundo tem uma existência e uma História que vai muito além da interação com os países europeus. Não sabem que até à revolução industrial os países mais ricos do mundo eram a China e a Índia. Desconhecem que depois da revolução industrial os países asiáticos prosperaram quando (e se) implementaram políticas copiadas das europeias (o caso japonês é sintomático). Ignoram as tensões regionais que nada têm que ver com a Europa. Más práticas de outros países e culturas são apagadas: só interessa visar o que cabe no simbólico Ocidente. A escravatura também industrial praticada pelo mundo árabe, com números igualmente assustadores e muito mais recente (até Hergé escreveu um livro do Tintin sobre este crime em meados do século XX) – não interessa nada, afinal o mundo islâmico é o clímax do anti-Ocidente.


A discussão é tão freudiana e religiosa quanto política. A esquerda woke não anima os descamisados do mundo rico, pelo que tem de animar a malta urbana abonada com necessidade de expiar pecados. Como odeiam o catolicismo e hábitos como a confissão (que Freud muito bem considerava e tem um princípio parecido à "cura pela conversa" que é a psicanálise: construir uma narrativa para contar o que vivemos é em si mesmo curativo), têm ética deficiente que os incentive a olhar para pecados próprios, e vivem num mundo superficial onde o que mais conta é a sinalização pública de virtude, escolhem expiar pecados alheios, passados há séculos, numa tentativa de demonstração de moral intocável.


Pela minha parte, sou católica, reparo os meus próprios pecados, não tenho necessidade psicológica de expiar a História, desde logo porque nunca escravizei nem colonizei. Deixo "pagar custos" para o Presidente e para os seres perfeitos da nossa esquerda que o propõem.


A autora é colunista do PÚBLICO e escreve segundo o novo acordo ortográfico






segunda-feira, 18 de março de 2024

A propósito do jornalismo dar a papa à direita-radical

Jornalismo e direita radical.png


Montagem parcial a partir da imagem do Público do artigo "A grande família do Chega"


Os media contribuíram para a importância que hoje tem o partido Chega. Ao ajudarem os partidos direitistas a canalizar o descontentamento para o PS abriram caminho para o crescimento daquele partido. Mas não só, o PCP e o BE com a repetição contínua de palavras de ordem com ataques ao Partido Socialista ajudaram a passar a mensagem do Chega também contra o PS sem que eles próprios se auto questionassem sobre por que os votos de protesto foram para a extrema-direita, Chega. Se houve tantos votos de protesto para a extrema-direita por que apenas ela tirou proveito disso e não também à extrema-esquerda.


O partido Chega estrategicamente passou a simular o jogo democrático como uma obrigação, mas as declarações do seu líder continuarem a mostrar que era contra o sistema. Por entre a extrema-direita existem versões mais moderadas e outras mais extremistas, mas todas elas colocam em causa as conquistas civilizacionais e, em última instância, a democracia.


Já escrevi vários textos neste blogue em que me debrucei sobre os media e o jornalismo como por exemplo “Fugir das Armadilhas” e “Relação Político Mediática e Jornalismo”. No primeiro escrevi que “A dúvida instala-se sobre o que pudemos esperar do verdadeiro jornalismo quando estes, por motivos de interesses vários, se encontram enfeudados a ideologias e partidos” e mais adiante que “o problema verifica-se quando há tendenciosamente critérios de subtil favorecimento a candidatos pela utilização das mais variadas técnicas de abordagens…”. Pacheco Pereira em artigos de opinião tem abordado aquelas mesmas questões de forma clara e com um preciosismo muito próprio.


Quem vê televisão e os seus noticiários, debates e comentários opinativos durante a pré demissão do primeiro-ministro e depois de conhecidos os resultados das últimas eleições pode perceber as causas e possíveis consequências dos resultados que são lançadas para o ar. Refiro-me à televisão por ser o media através do qual a maioria das pessoas toma conhecimento do andamento da política.


Verifica-se uma ininterrupta relação entre a política e os media onde, para além dos políticos, o jornalismo tem uma carga de politização, talvez até uma partidarização subliminar, que servem de veículos de transmissão de políticas de direita através de comentadores que, ao mesmo tempo, são políticos. São os profissionais da contradição consoante os interesses e que, por vezes, agarram o que os seus adversários dizem e o tomam à letra. Tomar à letra o que se diz tem a suas dificuldades interpretativas e dificuldade em discernir pois depende do contexto em que as frases são enunciadas porque podem ser determinadas pela função da pergunta e dos contextos em que se dá a resposta.


Na política, as questões são frequentemente complexas e podem exigir mais do que um simples "sim" ou "não". Embora seja possível dar uma resposta direta, muitas vezes é necessário fornecer contexto ou explicação e depende da situação. Em todo o caso, na minha opinião, em política não pode haver apenas sim ou não!


Por outro lado, jornalistas, quais lobos famintos, procuram encontrar ininterruptamente supostas contradições que dizem ter sido proclamadas pelos políticos para os atacarem e fazerem disso aberturas de noticiários televisivos ou manchete para capa de jornal.


Verifica-se desde alguns anos um crescimento dum jornalismo politizado, maioritariamente de direita e muito, quer nas televisões, quer na imprensa, não sei se na rádio, mas nas rádios dos jornais e nos podcasts que agora estão na moda isso é certo.


Porém, do ponto de vista do líder do Chega, não há um jornalismo politizado maioritariamente de direita. Para ele, no que reporta às redações, o que se passa é o contrário. Leia-se parte da transcrição do discurso de André Ventura no dia das eleições ao festejar os ganhos eleitorais do seu partido: “…hoje houve em Portugal um ajuste de contas com a história, na nossa história do pós 25 de abril. Houve um ajuste de contas com um país que, durante décadas, foi asfixiado, dominado, manipulado, atrofiado, pela extrema-esquerda e pela esquerda que dominou redações, dominou instituições e que dominou a nossa economia…” (itálico da minha autoria). Neste mesmo dia duas militante do Chega já com alguma idade disseram a um jornalista da CNN que “fala a nossa linguagem” e, ainda por cima, “é um borracho”.


Nas agendas dos noticiários e nos seus alinhamentos os indicadores económicos, financeiros e sociais que foram bons em Portugal e foram aplaudidos internacionalmente foram apresentados de maneira fugaz e não entravam como fator importantes nas notícias.


A isto acresce o ambiente mediático negativo, a agressividade de várias ordens e sindicatos profissionais com criação acintosa de modo a criar um contexto social de caos e insegurança. Servem como exemplos as reivindicações dos sindicatos dos professores, dos médicos, dos enfermeiros, dos polícias entre outros. Acrescentemos o Serviço Nacional de Saúde com que diariamente os telespectadores eram bombardeados aquando das situações extraordinárias devidas às doenças de inverno que anualmente acontecem. Recordemos o anterior bastonário da Ordem dos Médicos, Miguel Guimarães, que fez tudo quanto era possível para subtilmente desacreditar o ministro da saúde e para fazer campanha denegrindo o SNS. Posteriormente, durante a campanha eleitoral da AD várias vezes estava ao lado de Luís Montenegro e foi, e agora é, cabeça de lista da AD pelo Porto.


Num artigo de opinião Pacheco Pereira escreve que após o resultado das eleições “Subitamente, órgãos políticos e de interesses, como a Rádio Observador, cujos orgasmos matinais contra o Governo davam o tom para as notícias de muitos outros órgãos de informação, passaram agora, como era de prever, a ensinar como é que a AD deve governar, quais as prioridades, o estilo e as alianças. Com ironia se pode perceber que o que antes era negro na acção política agora é branco, já não há falta de transparência nos silêncios, e a obrigação de responsabilidade tornou-se a dos “outros”, como mostra a chantagem comunicacional sobre a votação do PS no Orçamento.”


É fácil perceber que vai cair sobre o PS a responsabilidade por tudo o que aconteça de mal à direita. A pergunta que se coloca é a de saber se deve ser o PS a sustentar um Governo cujo partido ganhou as eleições?


De alguns pensamentos provindos de grupos de comentaristas entendedores de política salientam-se opiniões que propõem que o Chega não deve ficar na oposição porque pode crescer ainda mais. Estas razões são simplistas porque há outras razões mais complexas.   Há outras variáveis mais marcantes nos eleitores que que os levaram a presentear o Chega e que têm a ver com aspetos sócio económicos vários que nem sempre são da responsabilidade do PS, mas do jornalismo de influência direitista que preparou a população contra o PS num alinhamento com o Chega e com os partidos da extrema-esquerda.


Parece estar a haver críticas a Montenegro por causa da frase do “não é não” ao Chega, que agora lamentam, porque pôs em causa um possível entendimento com aquele partido. Contudo, do meu ponto de vista, o “não é não” ficou em suspenso para salvaguardar que, numa circunstância como a atual poderia ser adaptado a novas circunstâncias que, entretanto, surgissem. Mas, tal poderá não acontecer pois colocaria face a alguma opinião pública como falta à palavra dada.


É por isso que o “não é não” de Montenegro ao Chega poderá, ou não, ter outras nuances, digamos, mais “flexíveis”. É o mesmo que dizer “Bem, na Assembleia da República falamos o que seria a condensação e ou remoção da frase e de alguns de seus sentidos, com o objetivo de restringir o propósito do pensamento seria uma espécie de “novilíngua” orwelliana) entre todos os deputados”, o que, como é óbvio, todos não significa para a AD falar com o Bloco ou com o PCP, mas com o Chega.

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2024

Mentira de Mortágua ou verdade alternativa da direita

Montenegro e Mortágua.png


O debate entre Mariana Mortágua e Luís Montenegro mantem-se depois do frente a frente devido ao argumento de Mortágua sobre a lei das rendas de Assunção Cristas conhecida por Lei Cristas no tempo do governo de Passos Coelho.


Li hoje no jornal Público um artigo de opinião de Carmo Afonso que abaixo reproduzo, mas antes farei um enquadramento. Lei Cristas, foi assim que ficou conhecida a mudança no arrendamento feita em 2012 no governo do PSD e CDS e promulgada por Cavaco Silva. Cavaco para mostrar na altura que estava atento e preocupado, escrevia numa nota da Presidência que "o Presidente da República, tendo tomado conhecimento do comunicado divulgado pelo Governo na passada sexta-feira, dia 27, esclarecendo vários aspetos relativos ao Decreto da Assembleia da República que procede à revisão do regime jurídico do arrendamento urbano (...), decidiu promulgar como lei o referido diploma".


A explicação que convenceu Cavaco não foi na altura suficiente para os inquilinos, que temiam os aumentos e o que acontecerá aos inquilinos que não consigam suportar uma renda de 1/15 do VPT (Valor Patrimonial Tributário). “Serão despejados, não há a menor dúvida”, lamentou na altura Romão Lavadinho, presidente da Associação de Inquilinos Lisbonense (AIL).


Apesar de na referida nota Cavaco  Silva dizer “assegurar a estabilidade contratual e a proteção social” dos arrendatários em situação mais vulnerável, havia uma "vasta experiência de diplomas que são prometidos e que nunca saem do papel", afirmou, na altura a AIL que lamentava a promulgação e que o Presidente Cavaco não estava a cumprir nem a fazer cumprir a Constituição.


Esta lei volta agora a ser notícia depois do debate entre Mortágua e Montenegro. A direita arrana uma verdade alternativa, termo que se refere à ideia de que a verdade pode ser moldada ou alterada para se adequar a uma narrativa ou perspetiva particular e pretende ainda fazer uma lavagem histórica ao que fez na altura remetendo para anteriores leis.


Aqui segue o artigo de opinião de Carmo Afonso sem que antes refira que não sou simpatizante do BE, nem tão pouco de Mariana Mortágua, mas não me inibo de apoiar qualquer político que eu entenda estar dentro da razão, apenas abro exceção aos que raramente, ou nunca, têm razão e que, à falta dela, se agarram ao populismo e à demagogia.


A lei da Cristas e a avó da Mortágua


É muito óbvia a razão pela qual continua a insistir-se na acusação a Mariana Mortágua de que terá mentido. Ajuda muito a estabelecer o paralelismo com o populismo da extrema-direita.


Carmo Afonso


Carmo Afonso.png


In jornal Público 23 de Fevereiro de 2024


Comecemos pelas afirmações de Mariana Mortágua no debate com Luís Montenegro: “Eu lembro-me de uma lei das rendas, em que as pessoas idosas recebiam uma carta e, se não respondessem durante 30 dias, a renda aumentava para qualquer valor e podiam ser expulsas.” Esta afirmação é verdadeira. As pessoas idosas não estavam excluídas do regime. Também elas poderiam receber a famosa carta, que continha uma proposta para um novo valor de renda e para um tipo e duração de contrato. Caso não respondessem a essa carta, no prazo de 30 dias, a ausência de resposta valeria como aceitação da proposta. Isto significa que as novas condições entrariam em vigor a partir do primeiro dia do segundo mês seguinte ao do termo do prazo.


Peço-vos que tenham presente que estamos a falar de pessoas idosas sem qualquer apoio jurídico. Poderia tratar-se de um inquilino com 90 anos, tendo como único rendimento uma pensão mínima. Se não cumprisse o prazo de resposta, perderia – de forma irremediável – todos os seus direitos e passaria para uma renda fixada pelo senhorio e, claro, incomportável. Isto equivale a ser despejado. Se passado um mês e meio fizesse prova da sua idade, essa prova já não serviria para nada. A verdade é que, até hoje, nunca se apurou quantos idosos ficaram sem casa nestas circunstâncias. Já agora: quem diz idosos, diz também pessoas portadoras de deficiência e com rendimentos miseráveis.


Mariana Mortágua prosseguiu: “Eu vi idosos a serem expulsos, eu conheço o pânico que era receber uma carta do senhorio. Eu vi o sobressalto da minha avó ao receber cartas do senhorio, porque não sabia o que é que lhe ia acontecer...” Não me considero em posição de afirmar se Mortágua viu ou não pessoas a ser expulsas das casas onde moravam há anos, se se apercebeu do pânico dos idosos e se a sua avó ficou sobressaltada quando, por essa altura, recebeu cartas do seu senhorio. O que posso afirmar é que, enquanto advogada, assisti a todas essas situações. E atrevo-me a garantir que todos os idosos que receberam cartas dos senhorios naquela altura, ou pelo menos aqueles que sabiam da alteração legislativa, ficavam em sobressalto. Como se pode duvidar disto? Talvez os leitores tenham a experiência do sobressalto de receber uma qualquer carta da Autoridade Tributária. Somos todos humanos e reagimos todos ao perigo. É o batimento cardíaco que acelera e a temperatura do corpo que aumenta. O transtorno é transitório, mas desagradável. Para uma pessoa idosa, pode ser especialmente perturbador.


E Mariana Mortágua finalizou afirmando: “E essa foi uma responsabilidade do PSD que esvaziou as cidades.” Será aqui que mentiu? Diria que não. Basta ouvir de onde nos chegam os elogios a esta lei, considerada como a grande impulsionadora da reabilitação urbana em Lisboa e no Porto. Reabilitaram as cidades, e claro que isso é positivo, mas à custa da expulsão de centenas ou milhares de pessoas que deixaram passar o prazo de resposta aos senhorios, que deixaram de poder pagar as rendas aumentadas ou que simplesmente viram os contratos chegar ao fim, decorrido o período de transição. Pagou-se um preço muito alto pela reabilitação. Que o digam os lisboetas que passaram a morar em Almada ou noutros concelhos limítrofes de Lisboa. Os prédios estão mais bonitos, é um facto. Mas faltam as pessoas que cá moravam.


É muito óbvia a razão pela qual continua a insistir-se na acusação a Mariana Mortágua de que terá mentido. Ajuda muito a estabelecer o paralelismo com o populismo da extrema-direita, que de facto tem mentido quase todos os dias nesta pré-campanha. A última mentira é especialmente engraçada: Ventura queixou-se de a caravana do Chega ter sido recebida com tiros em Famalicão. Mas a PSP veio esclarecer que se tratava de "rateres" de uma mota que integrava a própria caravana. Não há nada de novo para ver aqui. Mentem, logo existem. Mas não é o caso de Mariana Mortágua, a quem deve ser reconhecido rigor no que afirma e o prévio estudo dos temas sobre os quais fala. A comparação é ofensiva.


Por outro lado, é altamente esclarecedor que continuem a defender uma lei que tanta mossa fez à vida de milhares de portugueses e que acabou por contribuir para a crise na habitação que enfrentamos. Uma coisa é defender essa lei sem antever os seus efetivos impactos. Fazê-lo agora significa renovar os votos a uma das facetas mais cruéis da governação passista.

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2024

A propósito dum artigo de opinião de Carmo Afonso

Mentiras de Ventura.png


Ser de extrema-direita, populista e demagogo não significa ser boçal, ser ordinário, ter falta de responsabilidade política, não fazer política com seriedade, ser mentiroso. Ventura é tudo isto, parecendo mais aquilo a que os nossos antepassados designavam por carroceiro, com respeito para com essa extinta profissão.


André Ventura é o protótipo da boçalidade, da manipulação e da alucinação, epítetos que lhe assentam com mestria. Demonstra ter ambição, sim, isso é o que quer para ele, mas, e os outros? Diz ser contra o sistema ao mesmo tempo que diz querer fazer parte do sistema ao propor alianças com forças do sistema. Pretende desenvolver o país, substituindo o sistema, do qual diz ser contra. Qual outro sistema e por qual? É uma incógnita!


da violência do ódio), A sua ignorância em termos da aplicação prática política das propostas apresentadas confraterniza com a  com ignorância.


Ventura é um sujeito perigoso, capaz até de se fosse caso disso e conseguisse um dia chegar ao poder absoluto e ditatorial, de matar adversários que se lhe opusessem ou lhe fizessem frente. Associo Ventura a uma espécie de Putin. Porque André Ventura nem o seu partido Chega têm nada a ver com os da maioria da extrema-direita europeia.


Hoje incluo abaixo o artigo de opinião de Carmo Afonso publicado hoje no Público com um título de certo modo sarcástico “Não, a culpa não é do TikTok”.


Acho que vale a pena ser lido, mesmo por aqueles que já decidiram votar no partido que lhes dá esperanças sem fundamento, lhes oferece futilidades não exequíveis e que, por isso, nunca as irão conseguir ou alcançar.


Até pode ser que Carmo Afonso seja de esquerda, até pode ser que seja de extrema-esquerda, até pode ser que seja do centro, até pode ser que seja de direita, mas o artigo que escreveu é de uma evidência e clareza que só os empedernidos intelectuais, os ferrenhos clubistas não entendem, ou não querem entender.


Aqui segue então o artigo de Carmo Afonso:


 


Não, a culpa não é do TikTok


Um artigo de Carmo Afonso


In jornal Público, 16 de fevereiro de 2024


Carmo Afonso.png


Aplaudir o líder do Chega e considerá-lo vencedor de debates, sabendo que mentiu e sabendo que está a enganar uma percentagem assustadora de portugueses, é indesculpável.


As audiências indicam que os portugueses têm assistido aos debates entre os candidatos às próximas legislativas. São muitos debates, uma verdadeira maratona em que cada candidato tem a possibilidade, e o dever, de discutir as propostas que apresenta perante cada um dos candidatos a primeiro-ministro das restantes candidaturas. Sabemos que, a menos que nos espere algum terramoto, só existem dois candidatos a primeiro-ministro. E poderia dar-se o caso de os portugueses guardarem a sua atenção apenas para o debate entre ambos. Mas não, numa grande demonstração de vitalidade democrática têm seguido os vários debates.


Ter esta atenção dos eleitores dá aos debates uma importância fundamental. Não é previsível que a maioria se dedique à leitura dos programas eleitorais ou que se desloque a comícios. É nestes duelos que uma parte significativa dos portugueses decidirá em quem votar. Notem que as sondagens indicam que uma percentagem relevante do eleitorado ainda está indecisa. Serão esses os eleitores que decidirão quem ganhará as eleições.


Os debates são curtos e, também por isso, pouco esclarecedores em relação aos programas de cada candidatura. Não há de facto tempo para aprofundar assuntos. Mas não é só por falta de tempo. O formato destes debates promove uma disputa de aspectos da personalidade e de habilidades. Ficamos a saber quem é o mais rápido, o mais felino e o mais confiante. Também notamos quem se preparou melhor e em que medida é capaz de usar esse conhecimento para contraditar o outro e encostá-lo à parede.


Pergunto: serão estas características as mais relevantes para sabermos qual dos candidatos será o melhor primeiro-ministro? E respondo: não. Ter a arte de dar baile é um detalhe menor, eventualmente dispensável, nas capacidades de um bom político. Os debates, por si, não conseguem ser esclarecedores.


É também por isso que os comentários que se seguem aos debates são tão importantes como os próprios debates. Notem que o tempo concedido aos comentadores excede o tempo concedido aos candidatos. É como assistir a uma curta-metragem seguida de uma extensa discussão entre críticos de cinema.


Nestes debates destaca-se a participação de um candidato que recorre insistentemente à mentira deliberada e à deturpação dos factos. Além disso apresenta propostas não exequíveis e que estão em absoluta contradição com outras propostas que defendeu anteriormente. Tem também o hábito de insultar, interromper e de fazer uma espécie de bullying aos adversários. Suponho que ninguém desconheça a quem me refiro. É o rei dos falsos no fact checking, título que já detinha antes do início destes debates. Isto é ponto assente e todos os comentadores o reconhecem.


Qualquer jogo ou combate tem regras. O incumprimento dessas regras tem consequências e determina penalizações. Os golos marcados por jogadores que estão fora de jogo não são considerados. Se não existissem sanções os jogadores prevaricadores, e as respetivas equipas, seriam beneficiados. Mas é precisamente isso que muitos comentadores estão a fazer.


Ventura acusou o PCP de ter cometido assassinatos no pós-25 de Abril. É difícil imaginar uma mentira mais gravosa. Dita por quem tem no seu partido Diogo Pacheco Amorim, que pertenceu ao MDLP. Esta organização foi responsável por ações violentas no pós-25 de Abril, onde se incluíram ataques bombistas. Morreram pessoas como resultado dessas ações, como o padre Max e a estudante Maria de Lurdes.


Mas houve comentadores que deram a vitória a Ventura no debate com Paulo Raimundo e que voltaram a fazê-lo no debate com Pedro Nuno Santos, onde Ventura voltou a mentir. São, mais coisa menos coisa, os mesmos que acusaram Mariana Mortágua – que deu o verdadeiro baile a Ventura – de ter mentido a propósito do assassinato do padre Max ou a propósito da carta recebida pela avó. Ui, aí rasgaram as vestes. Mas Mariana Mortágua não mentiu e não costuma mentir.


Estamos conscientes de que André Ventura está a enganar milhares de portugueses, pessoas que confiam na sua seriedade. Não me parece que seja o caso de algum comentador. Aplaudir o líder do Chega e considerá-lo vencedor de debates, sabendo que mentiu e sabendo que está a enganar uma percentagem assustadora de portugueses, é indesculpável. Estes comentadores também não cumprem as regras. Depois não digam que a culpa é do TikTok.


A autora é colunista do PÚBLICO e escreve segundo o novo acordo ortográfico

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2024

Eles não são todos iguais - Um artigo de Opinião de Amílcar Correia



Eles não são todos iguais


 











A divisão entre o povo e a elite, na qual se insere a classe política, entre os “portugueses de bem” e os outros, é a redução da política a uma falácia.






Um primeiro-ministro que se demite por estar sob investigação e cujo chefe de gabinete escondia dinheiro na porta ao lado, um ex-primeiro-ministro que vai ser julgado por suspeitas de ter sido corrompido, numa contradição judicial que provoca perplexidade, e um presidente do Governo Regional da Madeira constituído arguido por alegada corrupção.


A escolha dos nomes a figurar nas listas para a Assembleia da República também não abona muito a favor da classe política e das forças partidárias. A forma como deputados do PSD e da IL, sobretudo do primeiro, se prontificaram a integrar as listas do Chega não dignifica ninguém. A mudança de bancada não se deveu a nenhuma mudança ideológica. Deveu-se, simplesmente, ao facto de não serem reconduzidos, em parte por terem sido indicados por Rui Rio, e quererem, a todo o custo, manter-se no Parlamento.


O Chega começou a distribuir tachos nos passos perdidos da Assembleia, tachos que ainda não tem, confiante no seu crescimento e impaciente para fazer upgrade dos seus quadros. O processo de recrutamento de deputados do PSD e da IL — que lideram seis listas do partido de André Ventura — é tudo menos higiénico. O caso de Maló de Abreu, que se contradisse sem qualquer escrúpulo, é patético e contraproducente para a valorização de quem exerce cargos políticos. A sua desfaçatez transforma um lugar no Parlamento num emprego sem sentido.


Não interessa qual é a bancada. Só é necessária uma vaga. É irónico que o Chega tenha sido apresentado como resultado de uma rebelião interna do PSD, protagonizada por André Ventura contra Rui Rio. São os deputados escolhidos por este e não reconduzidos por Luís Montenegro que o Chega recrutou.


Não é preciso muito mais para reforçar a percepção popular de que a política corrompe e de que os políticos são corruptos, a argamassa de que se alimenta a demagogia mais rasteira. Estão criadas as condições para fazer da corrupção o tema principal da campanha que se avizinha e para que o Chega ludibrie o eleitorado com mentiras em nome da verdade e da limpeza do país. É fácil generalizar uma opinião corrosiva sobre a classe política, como se ela fosse toda igual e desprezível, o que está longe de ser verdade. Não é.


A dignidade de Duarte Cordeiro, ao rejeitar a possibilidade de ser candidato num lugar destacado a deputado, porque a Operação Influencer ainda não esclareceu o seu papel neste processo, e porque a justiça portuguesa é tudo menos célere, prova-o. Apesar de não ser arguido, o ministro do Ambiente tomou a opção ética de se resguardar, a si e ao partido, uma vez que o seu ministério foi alvo de buscas e foi citado nos autos como tendo participado em reuniões e jantares nos quais esteve, por exemplo, o administrador da Start Campus.


Os casos que ensombram a classe política, na qual a justiça tem tido um papel ambíguo e, por vezes, espalhafatoso, afectam a dignidade das instituições democráticas, mas não são estas que estão em causa. O discurso dicotómico entre nós e eles tem sido eficaz, apesar da sua boçalidade, no jargão populista por quase toda a Europa.


A divisão entre o povo e a elite, na qual se insere a classe política, com o Chega a fingir nada ter que ver com o assunto, entre os “portugueses de bem” e os outros, é a redução da política a uma falácia. A popular expressão do “eles são todos iguais” tanto pode ser usada para sublinhar as semelhanças entre PS e PSD, o bloco da alternância, quer para enfiar no mesmo saco todos os eleitos.


O povo puro e virtuoso não é homogéneo. A classe política e os partidos também não. Todos estes casos que têm alimentado a discussão pública são suficientemente preocupantes para gerar uma sensação de pântano, mas são insuficientes para lançar um anátema sobre toda a gente que faz parte dessa classe que nos querem apresentar como uma oligarquia sem vergonha.


Mas se o povo não é assim tão puro e os políticos não são todos oligárquicos, isso não quer dizer que os partidos não necessitem de mais exigência nas suas escolhas e de prestarem atenção aos problemas que sustentam o voto de protesto primário. Talvez a adopção de círculos uninominais obrigasse os partidos a uma escolha mais apurada dos seus candidatos.


O Parlamento sairia mais dignificado com a entrada de novos protagonistas, nomeadamente de independentes, o que não parece que aconteça num contexto como o actual, como se pode concluir das listas anunciadas e das transferências conhecidas, marcadas mais pela continuidade do que pela renovação. Sobra-nos a campanha, as várias campanhas que teremos pela frente, ameaçadas pela turbulência dos argumentos maldosos. É desejável evitá-la, mas nada nos garante que assim seja.