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segunda-feira, 20 de maio de 2024

Regular o sistema educativo no respeito pelo professor

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Li um artigo de Inês Teotónio Pereira no jornal Sol (Inês Teotónio foi deputada à XII Legislatura pelo CDS-PP). Não sou nada virado para os pontos de vista da direita, mas também não sou maniqueísta, isto é, no universo da política não tenho a conceção de que haja uma dualidade básica entre opostos inconciliáveis: direita como bem, e esquerda como mal, e vise versa. Assim, incluo este artigo que me parece ser, de facto, o que se está a passar no sistema educativo.


Por outro lado, o respeito que os professores exigem nos cartazes que apresentam nas greves, paralisações, manifestações e protestos não deve situar-se apenas numa questão de carreiras e mais dinheiro nos bolsos. O respeito e a dignidade a que têm direito, inerente à própria profissão que exercem, deve ser exigido, sobretudo, aos alunos e aos encarregados de educação.


E não venham cá as esquerdas a teorizar argumentos, tantas vezes falaciosos, em defesa dos alunos e dos pais, esses coitadinhos injustiçados.


Pais versus escola


Por Inês Teotónio Pereira


In Jornal SOL


 Os pais lidam com a escola como um bem de consumo. E quem compra quer resultados. Mas os resultados são uma relação cada vez mais tensa e de desconfiança entre pais e professores.


Fala-se do tempo serviço dos professores, de currículos, de avaliações internacionais, de insucesso escolar ou de telemóveis, mas quando se fala da escola pouco espaço se dedica à temática dos pais. E os pais são a variável mais instável deste universo estudantil. Nos programas de governo e eleitorais não há uma palavra sobre o que fazer com eles.


A verdade é que os pais destabilizam as escolas, seja porque querem saber demais, seja porque não põem lá os pés. Mas seja qual for a razão, a relação entre pais e escolas é tensa, distante e cada vez mais conflituosa. Vejo pais que se queixam de tudo: do livro recomendado que é difícil demais, dos trabalhos de casa em excesso, das notas baixas, das regras impostas sobre os telemóveis, da qualidade da comida, dos gritos dos professores ou das aulas de educação física à chuva. Por outro lado, também há pais que se queixam da falta de exigência dos professores, das notas inflacionadas, da tolerância de muitos professores, da falta de controlo dos telemóveis, da escassez de trabalhos de casa e da ausência de regras.


Tudo isto acaba invariavelmente nos grupos de pais, em reuniões onde se insultam professores e em discussões sobre casos concretos que se generalizam. Os pais querem e exigem mais do que as escolas e os professores podem dar e as escolas e os professores acantonam-se com medo que os pais lhes multipliquem os problemas.


No meio estão os filhos, os alunos, para quem a escola quer dizer cada vez menos como espaço onde têm de aprender, crescer e responder a exigências. A ideia é que não se deve responsabilizar os filhos por coisa alguma e os professores que o queiram fazer têm de se justificar aos pais. Basta um pai zangado para incendiar os ânimos e basta um grupo de WhatsApp de pais maldispostos para estragar uma turma.


A escola dá confiança a mais aos pais e os pais acreditam mais nas versões dos filhos do que nos professores. Os miúdos, por sua vez, percebem quando os pais estão contra a escola e é aí que a autoridade dos professores vai pelo ralo abaixo. E o respeito de ambos os lados é cada vez menos.


Os pais olham para a escola como um bem de consumo e quem compra um produto quer resultados: querem que o filho mude de turma por um critério só dele, exige que os atrasos possam ser injustificáveis, pedem uma atenção especial aos filhos e muitos pressionam para que se mudem os professores. Os professores, por outro lado, aconselham o encaminhamento dos alunos para acompanhamentos extracurriculares, reclamam e questionam a ausência ou os valores das famílias e consideram a maioria dos pais incompetentes e um obstáculo ao seu trabalho.


A escola, durante todos estes anos, foi cedendo e os pais foram exigindo cada vez mais. Uns exigem mais escola e os outros mais casa. Com tudo isto, a confiança entre ambos foi-se esbatendo e é cada vez menor. O resultado é que quando um filho percebe que os pais não confiam na escola, não se deixa educar e permanece como filho nas aulas. É preciso professores mais professores e pais mais pais.

terça-feira, 21 de novembro de 2023

Como dignificar os professores? Um artigo de José Matias Alves



Como dignificar os professores? Como promover a escola pública?










Esta greve do Stop é insensata, tendencialmente ilegítima e só prejudica os professores e as escolas públicas.







Leio que o presidente do Stop quer passar a mensagem de que “venha quem vier para o futuro governo, os profissionais de Educação continuarão a lutar por uma escola pública e de qualidade para todos os que lá trabalham e estudam”. E por isso decreta 13 dias de greve de docentes e não docentes até ao dia 29 de novembro.


Ora, independentemente das razões e dos sentimentos que assistem aos professores, esta deliberação não pode (não deve) eleger como vítimas os alunos e respetivas famílias. Não pode continuar a promover a instabilidade, o tédio e o abandono das aprendizagens. E, ao contrário do que afirma, esta luta está a desacreditar a escola pública, a promover a procura social do ensino particular e cooperativo e a cavar o desprestígio de uma profissão que deveria ser exemplar na adoção de um código de conduta de serviço público – porque há formas alternativas de lutar, há formas alternativas de protestar, dignificando e prestigiando a profissão.


Sustento, pois, que esta ação é insensata, tendencialmente ilegítima e só prejudica os professores e as escolas públicas. E enuncio cinco argumentos:


1. É uma greve que é feita contra o futuro governo. Ora, esta visão e este propósito não podem ser mais descabidos. Sabendo da inutilidade de ação presente, adota-se a arrogância desta medida para marcar posição? Em que valores éticos se fundamenta? Não se entenderá que deve haver limites para uma luta que parece ter abandonado as linhas vermelhas e em que vale tudo?


2. É uma greve feita para promover a escola pública de qualidade para todos. Mas não se vê que este modo de agir promove a desigualdade no acesso e na frequência da educação? Não se vê que são os mais frágeis e fracos os que mais sofrem? Não se vê que isto é um contributo objetivo para desacreditar e progressivamente destruir a escola pública que está muito longe de ser pública e de qualidade para todos e para cada um? Em que mundo vivem os dirigentes do Stop?


3. É uma greve feita para dignificar os professores. Mas a dignidade e o prestígio social e profissional só se afunda com estas práticas. Porque é um atentado aos direitos basilares das crianças – o de aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a ser e conviver. É um atentado à tranquilidade das famílias. É um motivo objetivo para perda de trabalho de um número indeterminado de famílias. A dignidade profissional constrói-se no interior da profissão, na ação de serviço ao outro, na exigente qualidade das aprendizagens que assegura (a todos os alunos, em condições muitas vezes adversas), na responsabilidade da equação dos direitos e deveres e na capacidade de prever as consequências das ações.


4. É uma greve para arregimentar o “rebanho” e o manter unido contra um inimigo que é o Ministério da Educação e o Governo. Mas não se vê a inutilidade desta ação de “terra queimada”? Saramago, no incipit de um dos seus romances, aconselhava os seus leitores: “Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.” Será preciso elaborar outro “ensaio sobre a cegueira”?


5. E referir, enfim, o pensamento inspirador de um sociólogo de “esquerda”, Pierre Bourdieu: “Ensinar não é uma atividade como as outras. Poucas profissões serão causa de riscos tão graves como os que os maus professores fazem correr aos alunos que lhe são confiados. Poucas profissões supõem tantas virtudes, generosidade, dedicação e, acima de tudo, talvez entusiasmo e desinteresse. Só uma política inspirada pela preocupação de atrair e de promover os melhores, esses homens e mulheres de qualidade que todos os sistemas de educação sempre celebraram, poderá fazer do ofício de educar a juventude o que ele deveria ser: o primeiro de todos os ofícios.”


Precisamos de dignificar os professores e promover a escola pública. Não precisamos de agir em sentido completamente contrário.


O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico