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quarta-feira, 5 de março de 2025

Amigos para a vida e para o pior

Trump e seus amigos.png


Há dois temas paralelos e importantes que têm estado presentes na comunicação social, um sobre a política nacional, com o primeiro-ministro Montenegro e as suas fracas explicações que quase estão a provocar uma crise política, outro sobre a política internacional e geoestratégica também importante para o nosso futuro e o da Europa.


Deixemos por agora o primeiro e vamos debruçarmo-nos sobre o segundo.  Curiosamente, embora sem novidade, é a simpatia que Donald Trump tem por líderes autocratas e ditadores e com os seus regimes políticos, o que é estranho num país que foi, durante décadas, exemplo de democracia liberal para todo o Mundo, mas que ainda há quem discorde.


Donald Trump teve relações notáveis com vários autocratas e ditadores em todo o mundo, para se saber quais os “amigos” que ele admira tracei num esquema a imagem dessas amizades.


Sobre as amizades com ditadores há provas confirmadas a partir de declarações ou entrevistas prestadas por Trump. Assim, elogiou frequentemente Putin e chamou-lhe “muito inteligente” e expressou admiração pelo seu estilo de liderança. Sobre Kim Jong Un da Coreia do Norte Trump descreveu a sua relação com Kim Jong Un como positiva, afirmando mesmo que “se apaixonaram” devido às cartas trocadas entre eles. Segundo o Washington Post, em fevereiro de 2019, afirmou mesmo “’Nós apaixonámo-nos’: Trump e Kim elogiam e acariciam egos no caminho para negociações nucleares”. Pode ver aqui.


Já quanto a líderes europeus os elogios de Trump vão para Viktor Orbán da Hungria que elogiou pela sua forte liderança e expressou apoio às suas políticas.


Estas relações têm sido frequentemente controversas, porque tem havido críticos a argumentarem que a admiração de Trump por estes líderes mina os valores e normas das democracias liberais sobretudo dos EUA. No entanto Trump e os seus apoiantes argumentam que estas relações se baseiam no respeito mútuo e em interesses estratégicos. Quanto a outros, como o líder do país que foi invadido por um dos seus amigos, Putin, esse respeito mútuo não aconteceu. Na Sala Oval Donald Trump e o seu cão de fila JD Vance receberam Vladimir Zelensky que foi por eles humilhado. Abaixo podem ver vídeos sobre o que se passou na Sala Oval e de um congressista a comentar o facto.



 



A afinidade de Donald Trump com figuras autoritárias ficou bem estabelecida durante o seu primeiro mandato.  Gabava-se dos seus relacionamentos com pessoas como o ditador norte-coreano Kim Jong Un e o presidente russo Vladimir Putin. Mais ainda, para este desnaturado que ocupa um dos mais importantes lugares do Mundo


não nos podemos esquecer que chamava aos seus inimigos políticos “vermes”, uma palavra que soa a ditadores fascistas como Adolf Hitler e Benito Mussolini. Para os planos do segundo mandato os aliados de Trump afirmavam que derrubariam as normas do governo. É o que está a acontecer.


Trump, em dezembro de 2023, elogiava Kim Jong Un e citava Vladimir Putin enquanto concorria à presidência com a promessa de governar como ditador por um dia ameaçando a democracia americana. Há muito que expressa respeito pelos líderes autoritários e pelo poder que eles exercem. A prometida vingança, durante a campanha, pela perseguição que acredita ter sofrido quando perdeu as eleições após o primeiro mandato, levou-o a delinear uma agenda neste segundo mandato marcada por uma expansão sem precedentes do poder executivo, interferência incomparável no sistema de justiça e um expurgo maciço de funcionários públicos. Trump e “o seu governo estão a seguir com ações ilegais e inconstitucionais que ameaçam diretamente a segurança económica, pessoal e nacional dos americanos”, que pode ler aqui.


Segundo a congressista McCallun “A enxurrada de ordens executivas inconstitucionais de Trump e memorandos emitidos tornam a América mais fraca e menos segura. Eles estão a aumentar os custos da saúde, habitação e mantimentos em todo o país”.


Em relação à reunião a mesma congressista McCollum fez uma declaração sobre “a conduta vergonhosa do presidente Trump e do vice-presidente Vance em relação ao presidente Zelenskyy” que pode ler aqui.


As consequências para a paz na Europa derivadas das relações de amizade entre Donald Trump e Vladimir Putin geram preocupações significativas.  A sua divisa “América Primeiro” (os MAGA) e a sua admiração por líderes autoritários, como Putin, têm levantado dúvidas sobre o compromisso dos EUA com alianças tradicionais, como a NATO.


Recentemente, Trump prometeu negociar diretamente com Putin para terminar com a guerra na Ucrânia, mas excluiu os líderes europeus nessas discussões. Foi uma espécie de “golpe” de traição à União Europeia um dos maiores apoiantes da Ucrânia. O seu objetivo talvez seja o de enfraquecer a posição da Europa como um bloco económico e geopolítico relevante. Ponto de vista há muito coincidente entre Putin e Trump.


Uma outra consequência da relação entre Trump e Putin tem reforçado a necessidade de autossuficiência militar na Europa a fim da preservação das soberanias e a segurança dos países face às possíveis mudanças na política externa dos EUA.


Alguns hipócritas pacifistas dizem que o recurso ao armamento é uma condição para a guerra. Ou são ingénuos, ou acham que, nas atuais circunstâncias, provadas pela invasão da Ucrânia, deveriam ser dadas hipóteses para a invasão de países soberanos pelo mesmo ou outro potencial invasor.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

Heróis de ontem, de hoje e de amanhã

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Acho um desplante quando leio ou escuto muitos dos nossos comentadores e líderes de opinião habituais que ocupam espaço na nossa comunicação social perorarem sobre casos que não viveram. Comentam e exprimem juízos sobre factos passados como se os tivessem presenciado, vivido, sentido na pele e convivido quando na época a que se referem ainda não eram nascidos ou eram crianças de tenra idade.


Dir-me-ão que isso não é impeditivo de tecer opiniões sobre temas de então porque se recorre à documentação e relatos históricos disponíveis. É certo, mas o que está em causa é a convicção com que opinam sobre factos ou acontecimentos e exprimem sentimentos como se deles tivessem sido contemporâneos.   


Uma coisa é a disponibilidade de fontes históricas que, no caso, só podem ser documentos textuais, registos sonoros e representações pictórica como fotografias e vídeos. Outra coisa são as interpretações ou reinterpretações que fazem a partir dessas fontes. Isto já não é ciência histórica, são opiniões e interpretações, mais ou menos aceites ou assentes em factos históricos em que a ideologia também está envolvida. Neste conjunto incluo editoriais como o de Ana Sá Lopes, opiniões como as de João Miguel Tavares, e de Manuel Loff como historiador que vieram a propósito da morte de Marcelino da Mata.


Marcelino da Mata foi um comando negro do Exército português que lutou ao lado das tropas portugueses durante a guerra colonial (na Guiné) e que teve homenagem de Estado que despontou logo coros de opiniões, umas criticando, outras aplaudindo, outras, ainda, julgando as escritas opiniões.


Se defender os meus pontos de vista sobre factos reportados a uma parte do passado à luz dos presentes contextos é como se escrevesse hoje a justificar e a enaltecer a importância do exemplar heroísmo de Miguel de Vasconcelos por ter representado os interesses castelhanos durante os 40 anos de dependência espanhola que terminou terminada com a Restauração da Independência conseguida pelo golpe de estado revolucionário ocorrido a 1 de dezembro de 1640 perpetrado por um grupo de conspiradores.


Se sugerisse que Miguel de Vasconcelos, na data das comemorações da efeméride, fosse recordado de forma elogiosa por ter sido “injustamente” defenestrado, a minha atitude ficaria, deste modo, ideologicamente comprometida, mesmo 381 anos depois. Tal opinião, se publicada, seria contestada por várias outras mais ou menos extremadas, porque a minha interpretação subjetiva me colocava apenas num dos lados do facto histórico. Não poderia estar simultaneamente do lado espanhol e do lado português, teria de fazer uma opção. Não poderia estar do lado dos heróis e, ao mesmo tempo, dos vilões, os outros. Para estar com ambos os lados teria, então, de apresentar argumentos válidos que sustentassem tal opção. Com o olhar do presente teria então de abraçar os heróis e os vilões numa atitude de ambiguidade ideológica. Mas em política as coisas nem sempre são brancas ou pretas, há também cinzentos.


Um dos problemas das ciências sociais ao qual a ciência histórica não escapa é a penetração ideológica subjetiva nas investigações veiculando as ideologias das práticas dominantes ou das práticas suas opositoras. Isto é, as ideologias teóricas resistem e dominam as formações científicas nas ciências sociais e às quais a história não fica imune.


Ana Sá Lopes, no editorial do jornal Público, faz uma crítica ao facto de responsáveis do Governo se colocarem numa atitude de expressão de “justo reconhecimento ao tenente-coronel Marcelino da Mata, um dos militares mais condecorados de sempre, pela dedicação e empenho depositados ao serviço do Exército português e de Portugal” com fez o ministro da Defesa Nacional.


Por sua vez o PSD entregou um voto de pesar em que enaltece “a excelsa bravura” e o “exemplar heroísmo” e o CDS pediu um dia de luto nacional.


O caso mais evidente de que tenho conhecimento que causou alguma polémica foram o editorial de Ana Sá Lopes e o artigo de opinião de João Miguel Tavares que foi contra-atacado por Manuel Loff.   Como seria de esperar seguiu-se ontem a reação de JMT.


Escrevi algumas vezes neste blogue sobre as opiniões de João Miguel Tavares, umas vezes em concordância, outras vezes totalmente em desacordo. No caso presente limito-me a um simples ‘não sei’.  Porquê desta minha atitude simplista?


A razão está em dois dos meus pontos de vista: o primeiro por me parecer que (as aparências por vezes iludem) todas aquelas manifestações de reconhecimento a Marcelino da Mata estejam numa linha de circunstância meramente política e propagandística, mais ou menos ideológica, tendo em vista uma espécie de mostra oficial do não racismo português. O segundo por ser uma forma de manifestação hipócrita de não hostilização da direita e da extrema-direita por acomodação a um passado que foi colono-ditatorial e de patriotismo oportunista que tinha em vista a manutenção das colónias perdidas pela revolução do 25 de Abril.


Estes meus pontos de vista, que valem o que cada um quiser, baseia-se no facto de as opiniões sobre o passado histórico se transformarem em tentativas de rescrita, omitindo uns factos, salientando ou construindo outros consoante satisfaça as ideologias de cada um, sejam elas de direita ou de esquerda mais ou menos radicais, sobretudo quando se referem aos 50 anos de Estado Novo, ao colonialismo e à pós-revolução de Abril de 1975 que criaram sobre os factos mitos feitos à medida. Quer nos agradem, quer não, os factos históricos não se apagam, nem se reescrevem, podemos é discordar ou concordar com as abordagens que são feitas e reinterpretá-las à luz de novas investigações e de novos documentos cientificamente validados.  


Os factos históricos são realidades objetivas, são independentes dos observadores, embora possam ser percebidos de modo diferente por cada um de nós por razões que se prendem, por vezes, com a falta de acesso a informação fidedigna e imparcial e têm de ser adequados à realidade, devendo os resultados obtidos ser verificados pelos restantes.


Tendo em conta esta perspetiva João Miguel Tavares escreve a certa altura do seu artigo que “Há uma forma particular de pobreza que afecta este país – a pobreza da nossa memória histórica, demasiado selectiva e formatada, que conduz à ignorância generalizada sempre que falamos de factos ou de pessoas que não encaixam na historiografia oficial do regime”. Ou seja, acusa o regime de seleção e formatação dos factos históricos. Não sabemos a que regime se refere? Será ao regime democrático? Será ao regime de Governo atual? E se fosse outro o partido o do Governo o regime também se comportaria da mesma forma? Ficamos sem respostas!


Há algo, no que escreve Miguel Tavares, que me parece caricato quando se refere à historiografia oficial do regime ao afirmar que “Marcelino foi colocado do lado de fora da história da democracia portuguesa e, por isso, morreu sem que o seu nome e a sua vida extraordinária fossem integrados na memória colectiva.” Vamos lá a ver, além de Marcelino da Mata não houve centenas, senão milhares, de outros militares que combateram nas ex-colónias, que arriscaram a vida e que não foram condecorados nem durante, nem depois, do regime do Estado Novo e que não foram integrados na memória coletiva. O que sabe JMT da memória coletiva senão aquilo que lhe ‘enfiaram’, pela sua educação e formação, na cabeça ao longo das suas primaveras e que, suponho, racionalmente, posteriormente aceitou, acrescido pelo que leu e ouviu, ou pelo que lhe contaram sem as certezas validadas pela investigação histórica.


JMT teria dois anos quando aconteceu a Revolução do 25 de Abril de 1974 que terminou com o fim oficial do Estado Novo, data em que também se iniciou o PREC (Processos Revolucionário em Curso) que terminou mais de um ano depois com o 25 de Novembro de 1975.


Nicles, é a vivência que JMT tem dessa altura. Neste aspeto, a não ser pelo que lhe relatam nos bastidores a que tem acesso em determinadas fileiras, sabe ainda menos do que eu. O que ele, e outros, sabem é através de fontes históricas e de relatos. Está no seu direito de defender ou censurar uma época, não pode é assumir grande ciência sobre os acontecimentos do passado. Pode ainda, isso sim, fazê-lo através de outros, consoante as ideologias. Não pode é tentar ‘lavar’ ou fazer com que passos da história sejam omitidos, por muito que o deseje e tentar sugerir que outros o fazem.


Defender ou atacar Marcelino da Mata são sofismas que cada um gere conforme a sua subjetividade política e ideológica.   


A perda da memória histórica do século XX terá como causa o nulo ou pouquíssimo tempo dedicado nas escolas ao estudo na disciplina de história, sobre o Estado Novo e do pós-25 de Abril o que contribui para o esquecimento e desconhecimento dos factos histórico daquela época como sejam a ditadura, a guerra colonial, os presos políticos, os torturadores, os funcionários da polícia política, os denunciantes. Talvez, como escreveu Ana Sá Lopes, “devido à estratégia para integrar o velho regime no novo regime, o esquecimento acabou por ser a via aceitável para o convívio possível”.


À medida que os anos passam os jovens estão, e estarão se nada mudar, cada vez mais, afastados da nossa história do século XX e acham, por desconhecimento, que tudo quanto sejam assomos de regresso a regimes autoritários com persecução política e étnica pertence ao domínio da ficção e da imaginação de alguns.


Grave também é, devido às interpretações menos avisadas, aceitar uma espécie de maniqueísmo em que a realidade histórica deve ser aceite e dominada simultaneamente por duas visões antagónicas, as do bem e as do mal porque, como no dizer de Tavares, uma “sociedade adulta deveria perceber – lição essencial em tempos maniqueístas – é perfeitamente possível alguém ser herói e ser vilão”.


Não venha agora dizer que grita como no título do artigo de opinião de ontem: “Mais uma comparação com o nazismo e eu grito”. Pois pode gritar à vontade porque poderemos também ser uma sociedade adulta e comparar com outros regimes como o do estalinismo em que, segundo JMT, também deveria ser perfeitamente possível alguém ser herói e ser vilão. Sim, JMT, não podemos varrer da nossa memória coletiva o que foram aqueles dois regimes e que as suas ameaças não estão radicalmente afastadas, mesmo no nosso país.


Assim sendo, porque não sermos também solidários e aceitar os vilões que negam o holocausto, compreender os atos praticados pelas SS, soldados e altas patentes nazis através de perseguições contra os judeus e outros, na altura considerados pelo regime heróis e patriotas, mas que, com o passar do tempo, também poderiam ser louvados e condecorados por serviços prestados à Pátria.  E porque também na atualidade não se transformam facínoras da PIDE em heróis porque estavam contra os inimigos da Pátria e do Estado Novo.


Para que fique esclarecido não tenho nada a favor, nem contra Marcelino da Mata, o que entendo é que a homenagem prestada foi extemporânea e desajustada. Compreendo o seu passado, e o de muitos outros no contexto de uma guerra em que havia ordens a cumprir, a bem ou a mal.  Ou será que todos teriam de fugir para fora do país? Eu estive lá! Também sou culpado e, portanto, ser também homenageado, assim como muitos outros que lá estiveram. Não enramalhetem ou desenfeitem o desnecessário, porque a história é o que é.

segunda-feira, 3 de julho de 2017

Demissões na direita precisam-se

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O antigo dirigente social-democrata Ângelo Correia que acusa a liderança do PSD de “inércia” e diz que o partido está votado ao “silêncio” e à “ausência”. Diz mesmo que nem consegue criticar o líder da oposição. “Nós só podemos criticar aquilo que existe e como não existe nós nem sequer podemos criticar”, disse Ângelo Correia, em entrevista à TSF e ao Diário de Notícias. “O grande problema para o PSD



hoje em dia é o vazio que ele está a criar à sua volta, porque um partido político não pode deixar abandonado quem nele vota”, considera.


Queremos demissões brama Passos Coelho e outros cavalgando as ondas que por aí surgiram coincidentemente, ou não, causadas pelos incêndios e pelo roubo das armas, passando pelo sobrevoar inexplicavel dos aeroportos por drones . Demissões de elementos do Governo, mesmo que ad hoc, são precisas faz-me lembrar a introdução dos episódios da série de televisão “Crime disse ela”. A comunicação social na proximidade de eleições vem dando uma ajudinha. Claro que devido à inércia e ao vazio do PSD nada mais há do que arranjar casuísticas, a partir de situações graves, que as há, e fazer parecer mais importante o que na realidade não é.


Os “moralistas” e arautos da boa ética política que agora pedem cabeças e demissões, e sei lá mais o quê, para fragilizar o Governo esquecem-se do passado e do tempo em que foram governo em onde casos se sucediam sem nunca ninguém se demitir.


Acontecimentos estranhos e sucessivos num curto espaço de tempo levantam, segundo a minha opinião, suspeitas, tendo em conta o passado duma direita descendente da que esteve envolvida em atos que nos dias de hoje em democracia plena seriam considerados terroristas. Os que hoje militam nesta direita obsoleta e inquinada que transmitiu o seu vírus às novas gerações muitas delas descendentes dos retornados, infiltradas em todos os nichos da sociedade, quer agora mostrar-se sem mácula.   


A palavra demissão passou a fazer parte do seu léxico político. É um trunfo que quer agarrar para obter uns pontinhos nas sondagens. Pode perguntar-se: quantas demissões teve ele no seu governo devido aos problemas que houve? A dele próprio, com o caso dos descontos para a Segurança Social, não se verificou! O Diário de Notícias dizia em fevereiro de 2015: “O primeiro-ministro pagou este mês cerca de quatro mil euros. Mas entre 1999 e 2004 nunca pagou”. Isto também foi grave. Foi fraude, embora a gravidade de cada caso seja proporcional e relativa. Demitiu-se? Não. A demissão de Paulo Portas não conta. Porque não o foi. Porque deixou de o ser. Porque foi uma nota revogável da irrevogabilidade.


Num “post” intitulado “Quando os abutres pairam” referi-me ao aproveitamento que a comunicação social, sobretudo alguns canais de televisão, usam e abusam por ser uma mina para preencher horas de programação com noticiários e tempos de antena para reportagens. Deseja polémica, “sangue”, instabilidade quanto mais melhor.


A concorrência entre aqueles canais sobre o tema dos incêndios tem sido, lamentavelmente, feroz. A juntar a tudo isto a direita, se por um lado mostra pesar, por outro esfrega as mãos de contentamento oculto porque vê na tragédia um filão para aproveitar dividendos políticos e conseguir alguns pontinhos a mais nas sondagens que para ela têm andado pelas ruas da amargura, o que significa que se encontra em estado de tristeza, despeito e de derrota.


Mas não basta para esta direita a satisfação sádica e oculta por aqueles episódios dos incêndios, outras “novidades” como os drones a voar a altitudes perigosas para os aviões nos aeroportos e agora também o assalto ao paiol de Tancos donde foi roubado material de guerra como anteriormente referi. São demasiadas coincidências para serem ocasionais. Talvez seja isto a que Passo Coelho aludiu quando disse em setembro de 2016, que depois das férias os portugueses se preparassem porque vinha aí o diabo. Lá chegar chegou, mas com algum atraso.


Há por aí alguns jornalistas que nas entrevistas que fazem tentam colocar questões pretendendo relacionar aqueles acontecimentos sucessivos sugerindo sentimentos de insegurança na população. Uma destas jornalistas foi Clara de Sousa da SIC no Jornal da Noite, ao entrevistar o ministro da Defesa e o chefe do Estado-Maior do Exército, Azeredo Lopes. O ministro não associou de modo alguns os três factos, considerando-os independentes e sem qualquer relação.


O mesmo não digo eu. Acho que, bem pelo contrário, poderá haver relação entre eles, embora a minha explicação não seja mais do que uma mera opinião e, quiçá, uma especulação ficcional. Mas, quanto ao roubo do material de guerra de Tancos o Chefe de Estado Maior do Exército em entrevista hoje na RTP1 deu a entender que no ponto em que as investigações se encontram é provável que tivesse havido conivência vinda do interior.


Considero a direita portuguesa pelos menos nos últimos quinze ou vinte anos, período em que foi assaltada por elementos mais ou menos radicais e extremistas que se infiltraram dentro do PSD pela porta da JSD cujos genes políticos inculcados pelos seus ascendentes ficaram bem vincados.


Mas vamos à minha história ficcional e recuemos até aos anos 1975 e 1976 que os mais jovens, com certeza, desconhecem, mas que os mais velhos de certo se recordarão. Outros que assistiram infelizmente já não se encontram entre nós.  


Estamos nos anos da rede bombista perpetrada pela extrema direita, mas para a qual a outra direita também deu o ar da sua graça.


Os atentados bombistas mais violentos, mortais e sanguinários ocorreram precisamente em 1976 nos meses de abril e maio. É assassinado o padre Max, na embaixada de Cuba em Lisboa rebenta uma bomba matando dois funcionários diplomáticos, “um jovem morre na sequência do rebentamento de um carro armadilhado junto à sede do PCP na Avenida da Liberdade, em Lisboa, uma bomba explode numa residência em São Martinho do Campo, Santo Tirso, matando Rosinda Teixeira, a mulher de um trabalhador fabril". Ativistas daquela rede como Ramiro Moreira estiveram envolvidos direta ou indiretamente chegando a afirmar: "o que interessava era haver confusão para que os grandes negócios de armas, de droga, e de divisas continuassem. O que interessava era ter a polícia ocupada com as bombas para eles andarem nos seus negócios." De Coimbra para cima, os operacionais sentiam-se protegidos a nível policial, militar e político, sustentava então.


Para Miguel Carvalho, autor do livro Quando Portugal Ardeu, naquela altura, “para o cidadão comum, na altura, tudo era culpa do PCP", diz Miguel Carvalho, dando o exemplo do cerco ao congresso do CDS no Porto, em janeiro de 1975. "O próprio Freitas do Amaral atribui, nas suas memórias, responsabilidades ao PCP quando está mais do que provado que não as teve, tendo em conta declarações de dirigentes de outras formações de extrema-esquerda que se vangloriam de ter organizado o cerco àquele congresso".


Naquela data as costas dos comunistas foram largas. "Há documentos da PJ e da PJ Militar que demonstram que as próprias organizações e operacionais ligados à rede bombista incendiavam sedes de direita para justificar os ataques que faziam à esquerda", afirma no mesmo livro onde também diz que foi pedido a Ramiro Moreira, “que pusesse bombas em igrejas e chegou a ser planeada uma operação no Santuário de Fátima, mas ele recusou".


Relata ainda Miguel Carvalho que os operacionais da rede bombista "andavam tão à vontade que contavam nos cafés as histórias do que faziam. Estavam no território deles e sentiam-se impunes". Os seus "feitos" tinham o apoio dos militares do Norte, eram bem vistos pelos senhores da terra, pelas paróquias e igrejas e pelo cidadão comum mais conservador.


Um industrial do Norte, Joaquim Ferreira Torres, um dos financiadores da rede bombista, em 1979, quando ameaçou revelar o que ainda não se sabia dos meandros do MDLP, organismo da extrema direita que estava no cerne da questão, caso tentassem pô-lo na prisão.


Atualmente houve quem dissesse, e, nomeadamente jornalistas lamentaram que, “quando se começou a desenhar a chamada geringonça, se tenha voltado a repetir em Portugal um discurso com o mesmo objetivo de há 40 anos”.


Termino com uma citação de Miguel Carvalho: “li nas redes sociais e em colunas de opinião, coisas escandalosas, de um desconhecimento doentio do que se passou naquele período. Muito se escreveu com o mesmo objetivo de há 40 anos. Em pleno século XXI, vi escritas as mesmas barbaridades que se escreveram na altura do PREC. Vivemos numa democracia consolidada. Ver gente a fazer manifestações para combater o comunismo, a escrever nos jornais que já estavam a fazer as malas porque vinha aí um regime soviético...”.


E agora digo eu, ainda dentro do meu ponto de vista ficcional: as pessoas deveriam interiorizar que as direitas não foram (ou não são) tão civilizadas, ordeiras e democráticas, como às vezes parecem fazer crer. Naqueles anos da rede bombista toda a gente que perdeu privilégios com a revolução enfiou-se no PSD. Toda a gente de certa estirpe ligada à finança e a maioria dos retornados endinheirados entrou para o PSD e o CDS era apenas uma pequenina gota no meio de tudo. Temos estado nos últimos anos a ser governados área donde proveio Pedro Passos Coelho.   Eis a direita que nós temos em Portugal que, de certo modo, me começa a amedrontar, até porque muita coisa está a acontecer e pode vir ainda a acontecer, agora já sem bombistas, mas com outros meios e formas despercebidas, arranjadas com requinte, para que possam passar impunes. Com infiltrações aqui e ali, tudo tem estado a ser orquestrado e muito bem preparado…, para criar instabilidade social e política e estragarem o que tanto tem custado a construir.