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domingo, 29 de março de 2026

Guerra da informação e da contrainformação

 


A guerra promovida por Israel contra os palestinianos e outros povos não é de agora, mas sem ser tão violenta como a que se desenrola com o beneplácito dos EUA de Trump.

A disputa territorial remonta à criação do Estado de Israel em 1948 que, após a partilha da Palestina pela ONU em 1947, Israel declarou independência em 1948, o que levou à Primeira Guerra Árabe-Israelense. Muitos países árabes vizinhos não aceitaram a presença de Israel, resultando num estado de conflito contínuo.

Os argumentos que Israel tenta passar para a opinião pública internacional são as “ameaças existenciais” a que está sujeito frequentemente e justifica as suas ofensivas militares como medidas de defesa contra grupos militantes como Hamas e o Hezbollah e outras nações que não lhe reconhecem direito à sua existência e, portanto, procuram a sua extinção tornou-se o eixo central da sua comunicação externa. O tipo de coligação EUA-Israel vê como uma ameaça direta o programa nuclear e a influência regional do Irão que há muito financia grupos inimigos de Israel, alguns deles terroristas, o que resulta em ataques a alvos iranianos e a aliados do Irão. Mas, do meu ponto de vista o seu verdadeiro objetivo, o fundamental, é a ganância de espaço vital para a sua expansão e também, se possível, extinguir  povos que lhe possam fazer frente e o ameaçam (pode ler aqui o trauma social da perseguição).

O facto é que estamos em presença de uma guerra, por enquanto regional, que o presidente dos EUA Donald Trump ajudou a iniciar contribuindo previsivelmente para o seu alargamento num curto espaço de tempo. Se estivermos atentos às notícias que nos chegam pelas televisões e pela imprensa as declarações das partes em litígio, e também no interior de cada uma das partes, observamos que são, a maior parte das vezes, contraditórias. É uma espécie de círculo vicioso de informação e contrainformação numa Sequência de eventos negativos que se autorreforça e repete, gerando um impasse, por vezes, de difícil compreensão.

A guerra trava-se também no plano da informação. Num mundo em rede, a velocidade com que os dados circulam transformou-se simultaneamente numa arma e num escudo. A desinformação, a propaganda, as operações psicológicas e a manipulação estratégica deixaram de ser exceções e passaram a integrar, de forma estrutural, a política externa e a gestão, e ou, a má gestão das crises internacionais como temos verificado nas contradições sobretudo do Presidente dos EUA.

O processo “informação-desinformação” e “contrainformação” em tempo de guerra circulam no espaço onde se cruzam no ar plenas de contradições e de negações. Nega-se hoje o que se disse ontem.  A contra informação e a desinformação, assim como a propaganda, as operações psicológicas e a manipulação estratégica tornaram-se parte integrante da política externa e da gestão ou má gestão das crises internacionais. Os conceitos de contra informação e a desinformação são algo distintos. A contrainformação, muitas vezes ligada ao conceito de contra-narrativa ou operações psicológicas defensivas, refere-se às medidas tomadas para combater, negar ou neutralizar a desinformação do inimigo. A desinformação segundo a ONU é a disseminação deliberada de informações falsas, manipuladas ou fora de contexto com o objetivo de enganar, causar danos, manipular a opinião pública ou desmoralizar o inimigo.

Há uma competição informacional entre EUA-Israel e o Irão que se desenrola também ao nível interno de cada país assim, cada governo empenha-se em controlar a narrativa interna, garantir a coesão social e justificar decisões militares perante a população e a gestão das perceções de ameaça.

No caso da teocracia autoritária do Irão o poder político está intrinsecamente ligado à autoridade religiosa xiita. O controle estatal dos meios de comunicação permite uma narrativa homogénea e alinhada com os interesses do regime. Em contraste, tanto em Israel como nos Estados Unidos, a pluralidade mediática, (que nem sempre é plena, pode eventualmente sofrer restrições), podendo fomentar disputas internas e divergências de opinião que podem ser exploradas por adversários externos e até internos para enfraquecer a unidade nacional ou criar instabilidade política.

Na questão do Médio Oriente, que é ao nível regional a informação é usada como instrumento estratégico para influenciar aliados e rivais, por isso os três intervenientes procuram moldar perceções sobre a legitimidade dos ataques e operações militares através de narrativas da “resistência” ou da “segurança” numa competição por uma liderança simbólica. Esta guerra de informação, desinformação e contrainformação serve para consolidar ou desafiar alianças, ampliar influência política e militar, e promover ao nível das populações interpretações que favoreçam os respetivos interesses estratégicos.

Cada um dos intervenientes tenta enquadrar o conflito em distinções conforme o seu interesse para justificarem as suas ações bélicas usando vocábulos como “defesa”, “resistência”, “terrorismo”, “agressão” ou “direito internacional” a fim de legitimarem as suas ações e deslegitimar as do adversário. O impacto desta disputa ultrapassa fronteiras, influenciando decisões diplomáticas, sanções, apoios internacionais e a própria percepção do conflito por parte de audiências globais, tornando a gestão da informação um elemento central da estratégia de cada interveniente.

Na guerra entre Israel-EUA e o Irão ainda, e por enquanto, predominantemente regional, foi claramente agravado pela ação política dos Estados Unidos, contribuindo para uma rápida escalada das tensões. A informação que chega ao público através dos meios de comunicação é frequentemente contraditória, não apenas entre as partes em litígio, mas também no interior de cada uma delas. Declarações são desmentidas, versões são revistas e o discurso oficial adapta se ao ritmo dos acontecimentos, criando um círculo vicioso de informação e contrainformação que dificulta qualquer leitura consistente da realidade. Mais do que uma guerra aberta, trata-se dum confronto permanente onde a ambiguidade estratégica é deliberadamente cultivada.

Fazendo uma breve síntese podemos afirmar que a guerra entre Israel-EUA e o Irão não se trava apenas com drones, mísseis, bombardeamentos ou sanções. Trava-se também com palavras, imagens, símbolos e interpretações. A informação tornou-se um recurso estratégico tão importante quanto o poder militar.

Num mundo saturado de informação, a capacidade de a distinguir da contrainformação é um exercício que também nos compete a nós que diariamente vemos e ouvimos as notícias nos canais dirigidas ao grande público, mas também nas redes sociais que nos mentem a cada instante com informações deturbadas e enganadoras. A disputa pela narrativa continuará a moldar não apenas a percepção do conflito, mas também as condições para a sua escalada em vez da resolução.


quarta-feira, 5 de março de 2025

Amigos para a vida e para o pior

Trump e seus amigos.png


Há dois temas paralelos e importantes que têm estado presentes na comunicação social, um sobre a política nacional, com o primeiro-ministro Montenegro e as suas fracas explicações que quase estão a provocar uma crise política, outro sobre a política internacional e geoestratégica também importante para o nosso futuro e o da Europa.


Deixemos por agora o primeiro e vamos debruçarmo-nos sobre o segundo.  Curiosamente, embora sem novidade, é a simpatia que Donald Trump tem por líderes autocratas e ditadores e com os seus regimes políticos, o que é estranho num país que foi, durante décadas, exemplo de democracia liberal para todo o Mundo, mas que ainda há quem discorde.


Donald Trump teve relações notáveis com vários autocratas e ditadores em todo o mundo, para se saber quais os “amigos” que ele admira tracei num esquema a imagem dessas amizades.


Sobre as amizades com ditadores há provas confirmadas a partir de declarações ou entrevistas prestadas por Trump. Assim, elogiou frequentemente Putin e chamou-lhe “muito inteligente” e expressou admiração pelo seu estilo de liderança. Sobre Kim Jong Un da Coreia do Norte Trump descreveu a sua relação com Kim Jong Un como positiva, afirmando mesmo que “se apaixonaram” devido às cartas trocadas entre eles. Segundo o Washington Post, em fevereiro de 2019, afirmou mesmo “’Nós apaixonámo-nos’: Trump e Kim elogiam e acariciam egos no caminho para negociações nucleares”. Pode ver aqui.


Já quanto a líderes europeus os elogios de Trump vão para Viktor Orbán da Hungria que elogiou pela sua forte liderança e expressou apoio às suas políticas.


Estas relações têm sido frequentemente controversas, porque tem havido críticos a argumentarem que a admiração de Trump por estes líderes mina os valores e normas das democracias liberais sobretudo dos EUA. No entanto Trump e os seus apoiantes argumentam que estas relações se baseiam no respeito mútuo e em interesses estratégicos. Quanto a outros, como o líder do país que foi invadido por um dos seus amigos, Putin, esse respeito mútuo não aconteceu. Na Sala Oval Donald Trump e o seu cão de fila JD Vance receberam Vladimir Zelensky que foi por eles humilhado. Abaixo podem ver vídeos sobre o que se passou na Sala Oval e de um congressista a comentar o facto.



 



A afinidade de Donald Trump com figuras autoritárias ficou bem estabelecida durante o seu primeiro mandato.  Gabava-se dos seus relacionamentos com pessoas como o ditador norte-coreano Kim Jong Un e o presidente russo Vladimir Putin. Mais ainda, para este desnaturado que ocupa um dos mais importantes lugares do Mundo


não nos podemos esquecer que chamava aos seus inimigos políticos “vermes”, uma palavra que soa a ditadores fascistas como Adolf Hitler e Benito Mussolini. Para os planos do segundo mandato os aliados de Trump afirmavam que derrubariam as normas do governo. É o que está a acontecer.


Trump, em dezembro de 2023, elogiava Kim Jong Un e citava Vladimir Putin enquanto concorria à presidência com a promessa de governar como ditador por um dia ameaçando a democracia americana. Há muito que expressa respeito pelos líderes autoritários e pelo poder que eles exercem. A prometida vingança, durante a campanha, pela perseguição que acredita ter sofrido quando perdeu as eleições após o primeiro mandato, levou-o a delinear uma agenda neste segundo mandato marcada por uma expansão sem precedentes do poder executivo, interferência incomparável no sistema de justiça e um expurgo maciço de funcionários públicos. Trump e “o seu governo estão a seguir com ações ilegais e inconstitucionais que ameaçam diretamente a segurança económica, pessoal e nacional dos americanos”, que pode ler aqui.


Segundo a congressista McCallun “A enxurrada de ordens executivas inconstitucionais de Trump e memorandos emitidos tornam a América mais fraca e menos segura. Eles estão a aumentar os custos da saúde, habitação e mantimentos em todo o país”.


Em relação à reunião a mesma congressista McCollum fez uma declaração sobre “a conduta vergonhosa do presidente Trump e do vice-presidente Vance em relação ao presidente Zelenskyy” que pode ler aqui.


As consequências para a paz na Europa derivadas das relações de amizade entre Donald Trump e Vladimir Putin geram preocupações significativas.  A sua divisa “América Primeiro” (os MAGA) e a sua admiração por líderes autoritários, como Putin, têm levantado dúvidas sobre o compromisso dos EUA com alianças tradicionais, como a NATO.


Recentemente, Trump prometeu negociar diretamente com Putin para terminar com a guerra na Ucrânia, mas excluiu os líderes europeus nessas discussões. Foi uma espécie de “golpe” de traição à União Europeia um dos maiores apoiantes da Ucrânia. O seu objetivo talvez seja o de enfraquecer a posição da Europa como um bloco económico e geopolítico relevante. Ponto de vista há muito coincidente entre Putin e Trump.


Uma outra consequência da relação entre Trump e Putin tem reforçado a necessidade de autossuficiência militar na Europa a fim da preservação das soberanias e a segurança dos países face às possíveis mudanças na política externa dos EUA.


Alguns hipócritas pacifistas dizem que o recurso ao armamento é uma condição para a guerra. Ou são ingénuos, ou acham que, nas atuais circunstâncias, provadas pela invasão da Ucrânia, deveriam ser dadas hipóteses para a invasão de países soberanos pelo mesmo ou outro potencial invasor.

sábado, 6 de janeiro de 2024

Um verdadeiro Ano Novo precisa-se

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Já passaram as festas de Natal e do Ano Novo e o seu início desde já promete ficar cada vez mais corrompido pelo debate confronto político que se degrada à medida que se aproximam as datas das eleições previstas para este ano, penso eu.


Pelo início deste novo ano nada faz prever que mude, diz o meu oráculo. Comentadores políticos com a redundância assumida aceleram nas suas teses. São horóscopos que defendem com argumentos bem delineados, mas enganadores e intencionalmente dirigidos para defesa dos seus pontos de vista. Imaginam estes oráculos cenários, os piores possíveis, críticas a todas as políticas, sem exceção, de quem cessa funções e preconizam o nascer de sóis resplandecentes e alinham com a execução das promessas dos que se perfilam para a obtenção do poder, mesmo sabendo que elas são inexequíveis por um governo que pertença às suas filiações ou simpatias partidárias.


Os vaticínios que me são transmitidos são cantos enaltecidos e apologéticos. São promessas transitórias das direitas e das extremas-direita a elevarem-se na imprensa e nos espaços televisivos das notícias selecionadas e rigorosamente alinhadas com o que foi “dito”, mais do que o não “dito” e omitido, pelas intervenções dos responsáveis partidários das oposições de direita, tendencialmente contra o ainda Governo que cessa as suas funções exatamente a 7 de janeiro do presente ano.


O meu oráculo diz-me que os media recorrerão ao passado martelando e martirizando os ouvidos e os olhos dos telespectadores com as “maldades” várias do governo anterior e as mesmas “tags” (etiquetas) de sempre: corrupção, compadrio, favores, peculato, acompanhadas com fragmentos de peças do passado com casos e figuras mostrados insistentemente e escolhidos a dedo consoante os interesses partidários e orientações das vozes dos donos para garantia de influência mediática, em favor dos seus interesses partidários.


A saúde, sobretudo as urgências hospitalares, cuja principal causa está da epidemia gripal, terão diariamente palco, até à exaustão, nas aberturas dos jornais televisivos, como se isso fosse resolver os problemas que a direita não se atreve a dizer como resolver, porque sabe que não o conseguirá.  


Segundo o meu oráculo, as oposições, sobretudo as de direita, com a cooperação de denominados jornalistas de investigação, irão à busca de casos triviais mesmo que criticáveis são lançados para a opinião pública como sendo casos extraordinários mostrados ao modo de investidas dramáticas.


 O PCP fará dessas trivialidades ouvidos moucos porque, para eles, os desse partido, não são esses os principais problemas de que o país e o povo enfermam. Para eles o povo, os trabalhadores, os salários e as pensões são uma espécie de cassete em contínuo.


Dizem-me os meus oráculos que neste novo ano, até às eleições, continuarão comentadores e “opinadores” de serviço, sobretudo os simpatizantes da direita a direcionar as suas críticas pessoalizadas aos atores do adversário que mais os faz tremer. No entanto passam a achar que os jornalistas devem escavar, para escavacar a vida pessoal dos políticos, mas apenas quando calha a outros que não os da sua simpatia político-partidária. Se assim não for passarão logo a defender o escrutínio justiceiro pelos media e a considerar que esse deve ser também o seu papel. Assim falam porque Montenegro ultimamente está sob suspeita. João Miguel Tavares assim escreveu primeiro num ato de justificação, e depois Paulo Rangel do PSD a entrar no ato da defesa do líder.


O primeiro coloca em comparação Pedro Nunes Santos com Luís Montenegro porque, escreveu ele, que “Como eleitor, essas informações interessam-me, porque me ajudam a construir o perfil de um candidato”. Para tal desenvolve sobre os bens pessoais de cada um como sendo indicadores indispensáveis do perfil dos candidatos, Para Miguel Tavares parece que o perfil dos políticos em evidência de avaliasse pelos bens pessoais que possuem ou já possuíam ou como se o miserabilismo fosse o perfil adequado para o exercício da atividade política. Compara o que um tem e gosta com o que o outro tem e gosta, tornando-se óbvio e claro qual a intenção e o objetivo.


Ao analisarmos o artigo de João Miguel Tavares verificamos que, para atestar algo contra o Governo PS, defende o escrutínio rigoroso pelos media sobre a vida pessoal e posses dos políticos.


Paulo Rangel, numa entrevista que deu à Rádio Renascença e divulgada pelo jornal Público veio em defesa do líder do seu partido e afirmou sobre o caso Montenegro que “estranha “coincidências” e que “há” mão invisível contra Montenegro”.


Torna-se evidente a desculpabilização de Montenegro por Rangel já que atribui a culpa ao Governo. Vejam-se as perguntas e as respostas:


O inquérito teve origem em denúncias anónimas. Há aqui uma mão invisível para atrapalhar a vida do líder do PSD?


“Acho que há. Isto começou a surgir quando houve grandes problemas com o Governo.”


Faz essa associação?


“Estou a fazer uma associação puramente objetiva. A verdade é que aconteceu. Ao mesmo tempo é uma coincidência temporal, mas depois cada um interpreta como quiser. Mas o que mais admirei na posição de Luís Montenegro foi a não-vitimização, aguardar o inquérito e não fazer pressões para que decorra depressa ou devagar ou à tarde ou à noite.”


À pergunta sobre se “O líder do Chega dizia que Luís Montenegro tem de dar uma explicação cabal sobre o que está em causa no inquérito, inclusivamente mostrar os documentos. Como é que responde a isso? Luís Montenegro disse que não ia mostrar nada e entregar ao Ministério Público”.


“Uma comunicação social responsável não devia dar palco a esse tipo de populismo. É evidente que as vidas das pessoas, especialmente os seus detalhes, não têm que estar na comunicação social.”


Afirma o meu oráculo que o fator da crise das democracias, e também no caso português, é a política democrática estar sujeita a uma transformação pela sucessão contínua entre os media e a política. A autonomia das decisões políticas fica em risco e é condicionada pelos mecanismos dos media.


 


 


o domínio da política democrática pela sua transformação num contínuo político-mediático, que diminui a autonomia da decisão política e a torna cada vez mais dependente dos mecanismos da comunicação social e da sua evolução.


A atual necessidade de rapidez competitiva entre os media leva necessariamente à falta de rigor, à agressividade, à culpabilização antes da prova, à falta de racionalidade no que é escrito, dito e mostrado leva ao superficial, ao vulgar que arrasta neste círculo vicioso a própria política.


Verifica-se um fenómeno que é o de não se ter a política, os partidos e os políticos temos uma espécie de mescla o que é política, partidos e políticos com os media, neste caso considerando a imprensa, a rádio e a televisão que se influenciam mutuamente pela opinião pública.


Não foi o meu oráculo que me murmurou ao ouvido que “os factos, as opiniões, as interpretações são moldados por mecanismos mediáticos em que participam políticos e jornalistas, cada vez mais com uma cultura de acção semelhante e dependente de efeitos comunicacionais tais como a novidade, o timing, o tipo de resposta, a rapidez, a frase assassina, a falta de estudo e de rigor. As redes sociais e novas formas de acesso àquilo que passa por ser informação…”, foi Pacheco Pereira que escreveu no Público.


O meu oráculo diz-me que os que escrevinham artigos de opinião nos principais órgãos de comunicação, assim como os comentadores de serviço que são inspirados por “divindades intermediárias” irão traçar destinos maléficos, ou benéficos, consoante os interesses, tendentes a influenciar os votantes nas próximas eleições. Uns irão assinalar os recados enviados indiretamente nas intervenções da mais alta individualidade da nação que irão tomar como críticas ao Governo já em processo de demissão, mesmo que não o sejam e irão continuar a responsabilizá-lo por nada fazer. Utilizarão estribilhos muito queridos às esquerdas radicais e farão críticas, sem apresentarem soluções, centrando-se nos discursos do acesso à saúde, habitação e educação à qual acrescentam a justiça cuja reforma não lhes interessa, mas que nas bancadas gritam por não ter sido feita. Ouço eu. E, quando chegados ao poder, nada fazem. Interessa-lhes que tudo se mantenha na mesma, penso eu.


Quando as direitas usam nas suas intervenções aqueles slogans fazem-me recordar as palavras da canção de Sérgio Godinho (1974), palavras de ordem da extrema-esquerda após o 25 de Abril, estimulantes à rebelião popular,


Só há liberdade a sério


Quando houver


A paz, o pão, habitação


Saúde, educação


Só há liberdade a sério quando houver


Liberdade de mudar e decidir


Só lhes falta acrescentar:


Quando pertencer ao povo o que o povo produzir


E quando pertencer ao povo o que o povo produzir


 


Recuperar e revigorar o passado passará a ser o foco das direitas que, vendo reduzir ou desaparecer o seu espaço eleitoral, vão juntar-se na mesa para decidirem e tecerem estratégias para o banquete eleitoralista no sentido de obterem uma maioria parlamentar, ou senão, ocuparem o poder e dividir pelouros num futuro governo.


Uma Aliança Democrática versão 2024, PSD+CDS+PPM, parece destinada ao fracasso e poderá não ter efeito significante nos resultados eleitorais, digo eu. A dinâmica dos saudosos Francisco Sá Carneiro, Diogo Freitas do Amaral e Gonçalo Ribeiro Telles, quando a política era mesmo política e não era induzida pelos media, falha nesta AD forçada com líderes, especialmente como o do CDS, não vai resultar.


Poderemos vir a ficar surpreendidos ao percebermos o efeito marginal que esta aliança terá no eleitorado se mantiver o até agora discurso partidário pela negativa e pelo ataque sem nada para oferecer, sem programa claro e objetivo, com as promessas do costume se forem um potencial governo utilizando as mesmas capacidades retóricas populistas próximas do CHEGA.


O meu prenúncio para a justiça, e mais concretamente, para o desempenho do Ministério Público e da PGR não é animador devido à série de coincidências que se tem verificado entre o tempo da política e o tempo da justiça. A PGR não faz política, mas há muitas formas de manifestar os seus pareceres sobre política e as circunstâncias e as ocasiões e a forma como lança para a comunicação social o que está a investigar, e a escolha do tempo para o fazer pode vir a dar lugar a dúvidas sobre os métodos de que se serve.


Precisamente na véspera do dia da demissão do Governo que se limitará à prática dos atos estritamente necessários para assegurar a gestão dos negócios públicos os media tornam público dados que consideram serem novos e, estranhamente, sobre António Costa, exatamente no dia do início do 24.º Congresso Nacional do Partido Socialista. Estranhas coincidências na justiça, disse-me o oráculo.


Na política internacional continuarão muitos continuarão a perorar nas redes sociais (mas também alguns generais comentadores de política de guerra), talvez dissimuladamente defensores da invasão da Ucrânia pelo ditador Putin, a que tecem elogios.


À pergunta porquê responde-me a pítia do oráculo que é tudo por causa   da expansão da NATO ao Leste Europeu, à possibilidade de adesão da Ucrânia àquela aliança militar, à contestação ao direito da Ucrânia à soberania independente da Rússia e ao desejo de Vladimir Putin de restabelecer a zona de influência da antiga União Soviética, mas esquecem-se aqueles que  e é importante lembrar que a invasão violou o direito internacional e a soberania da Ucrânia, além de ter causado muitas mortes e deslocamentos . Tudo com a ajuda da influência da opinião pública por fatores como os media, a propaganda e a desinformação que Putin consegue por no terreno.


E acrescenta o oráculo porque aquelas pessoas são contra o imperialismo ocidental, mas que, ao mesmo tempo, apoiam o imperialismo estalinista de Putin na Rússia, digo eu. Estes mesmos também dizem ser defensores do povo palestiniano, sem que saibamos se, afinal, estão do lado da ala militar para a libertação da Palestina, o Hamas, organização, pró-terrorista que dizem estar do lado do povo e que, por isso, praticam atos terroristas e porque são contra os EUA. Esta organização é entendida por muitas nações como terrorista, e controla a Faixa de Gaza de maneira autoritária, dizem alguns analistas.


A pitonisa que profetisa o oráculo que consultei disse-me que o povo judeu, após o fim do holocausto e depois do Estado de Israel ter sido criado, graças à proposta da ONU de dividir o território da Palestina em duas nações, passou de vítima a agressor. São agora apontados por genocídio dos palestinianos, dizem uns, é o direito à defesa que a isso os obriga, dizem outros.


Israel ocupa indevidamente o território que devia ser de ambos os povos, no conceito de dois povos dois estados. Através duma violência que dizem ser pacífica, como se qualquer violência é pacífica, e a que chamam colunatos, expressão invasiva de território potencial e possivelmente palestiniano. Diz-me o meu oráculo que em novembro deste ano os EUA e o Mundo poderão estar em perigo se um certo senhor de perfil ditador nazi venha a ocupar o cargo mais importante daquele país.  Contudo, e pelo seu passado no anterior mandato o senhor Trump diz uma coisa e o seu contrário num curto espaço de tempo, digo eu.


Em 2022 elogiou as ações de Putin em relação à Ucrânia e reconheceu a independência de duas províncias separatistas da


Trump2024.png


Ucrânia, além do envio de tropas russas para entrar no país e para supostamente proteger os enclaves, disse ele,  a ação de Putin era “genial” e Putin entraria na Ucrânia como um pacificador, dizia ele,  condenou a invasão da Ucrânia pela Rússia, que estava orando pelos ucranianos, passou ele a dizer, talvez por estratégia eleitoral, sobre isto o meu oráculo nada diz.


Para a Paz entre Israel e Palestina teve um plano em 2020 rejeitado pelos palestinos, propunha ele e uma solução de dois estados para o conflito, como ele resolveria o conflito face aos atuais cenários, ele não diz.

segunda-feira, 4 de setembro de 2023

O patrocínio da palavra Paz no comício do PCP na Festa do Avante

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Ontem foi o encerramento da 47ª Festa do Avante organizada pelo Partido Comunista Português continuando ensombrada pela invasão da Ucrânia pela Rússia de Putin e que o Partido Comunista da Federação Russa aplaudiu e aplaude.


O novo secretário-geral do PCP Paulo Raimundo, muito contido no que se refere à invasão da Ucrânia, nada avançou de novo sobre a questão da invasão do território ucraniano pela Rússia. Sobre o tema centrou-se e refugiou-se apenas na palavra ‘paz’ que na voz do PCP e no contexto em quem é abordada é muito vaga e generalista.


Se analisarmos as suas declarações no comício de encerramento nada de novo é dito. «O povo quer a paz, não quer a guerra», lança o dirigente do PCP o que não é mais do que a afirmação do óbvio. Avança, no entanto, que «para ter a paz tem de forçar que os órgãos de soberania invistam na paz e não na guerra». Aparentemente, por aqui nada poderemos apontar à sua retórica que é apenas para povo adepto escutar, mas que adiante desenvolvo.   


Sobre a ida do Presidente da República à Ucrânia o secretário-geral assumiu  que não lhe viu utilidade a não ser se fosse usada para procurar a paz, e lamentou que «O Presidente fez uma opção de reafirmar todos os caminhos que têm instigado a guerra» e que não deixou à Ucrânia «nem uma palavra da paz».


Mais uma vez uma avaliação sobre a atitude do PCP em relação aquele conflito confirma o seu ponto de vista demagógico com o intuito de se afastar da questão de fundo sobre a causa da invasão e da defesa da Ucrânia face ao agressor.


A questão de fundo é a de sabermos são os caminhos possíveis que o PCP considera para um potencial o estabelecimento de uma paz duradoura. Até ao momento nenhuns, são apenas palavras vãs não sustentadas por qualquer opção concreta.


Todos queremos a paz, não é apenas o PCP. A dúvida que nos persegue é a de saber como é que PCP acha que deva ser conseguida. Aparentemente a resposta é dada quando afirma que (o povo) «para ter a paz tem de forçar que os órgãos de soberania invistam na paz e não na guerra.» Não sabemos que órgãos de soberania se devem forçar a investir na paz. Os de Portugal? Os da Federação Russa? Os da União Europeia? Os dos EUA? Todos?  São apenas afirmações para comicieiros ouvirem.


Perguntas a que o PCP claramente não responde e que já foram formuladas noutros posts e que continuam a fica no ar:



  1. a) Será que, para o PCP, os órgãos de soberania da Ucrânia deveriam abdicar do seu território, sem condições, a favor da Rússia de Putin?

  2. b) Que condições para a Ucrânia e para a Federação Russa seriam aceitáveis para o estabelecimento da paz do ponto de vista do PCP?

  3. c) Será que para o PCP Putin está aberto a negociações de paz e espera para tal, mas a Ucrânia e o ocidente não querem?

  4. d) Acha o PCP que o ocidente está a investir no prolongamento da guerra em vez da paz porque está a enviar armamento para a Ucrânia se defender?

  5. e) Acha o PCP que se a Ucrânia não tivesses ajuda do ocidente a Rússia do autocrata Putin parava a invasão a que chama “operação militar especial”?

  6. f) Qual a posição do PCP face aos pontos de vista do Presidente Vladimir Putin para justificar a invasão da Ucrânia?

  7. g) O PCP acha que um país invadido tem que se conformar com uma invasão que não provocou?


Não venham com a gasta questão de que não querem interferir nas questões internas de outros países, porque o PCP sempre o fez em relação a Portugal e no início da revolução de abril também se pronunciou bastas vezes. Quem professa uma ideologia pode e deve orientar linhas de pensamento e ao PCP ideologia não lhe falta.


Aquela são apenas algumas das questões a que o PCP e a sua direção deveriam responde sem se refugiar em palavras de ordem e de ocasião que todos querem ouvir, como a do alcançar a paz, palavra cujos valor é muito fortes.


A paz é um compromisso com as normas e instituições jurídicas internacionais, tais como a dos tribunais penais internacionais. Quem pretende abordar o objetivo da paz de forma realista deve encarar este problema com bastante sobriedade e de acordo  a ordem internacional, mas não é isto o que o Presidente da Federação Russa fez e tem vindo a fazer e que parece o PCP está a acompanhar.


Aliás, parece ser manifesta a simpatia do PCP pelo PCFR – Partido Comunista da Federação Russa apoia na Duma o regime de Vladimir Putin.

quinta-feira, 28 de julho de 2022

Coitadinho do PCP que tem sido uma vítima

PCP uma vítima (3).png


A ERC - Entidade Reguladora para a Comunicação repreende a SIC, qual menina malcomportada, porque o menino PCP fez queixinha e disse que aquela menina o tratou mal. Fez o papel de donzela ofendida. O PCP quer tentar demonstrar que anda a ser perseguido, o que é no mínimo patético para não dizer caricato.


O PCP e os seus dirigentes entraram em delírio e vitimizam-se. Coitadinho do PCP fez queixinha porque a cobertura noticiosa do comício do 101.º aniversário no Campo Pequeno em março teve um “registo opinativo, que desvaloriza e ridiculariza a posição” do partido, o que contrariou o rigor informativo e a isenção a que a SIC está obrigada por lei, escreveu na altura a ERC.


O que a voz off ao dar notícia do acontecimento disse foi que “Aos 101 anos, o PCP já tem idade suficiente para dizer sempre a mesma coisa”. Eu, que desde o 25 de Abril e no tempo de líder Álvaro Cunhal tenho ouvido sempre o PCP reproduzir sempre a mesma cassete, com mais ou menos variantes consoante os momentos.


Para melhor compreender o que desvairou o PCP reproduzo o que o jornal Público publicou sobre o que foi afirmado no comício: “o PCP não apoia a guerra” e que “não tem nada a ver com o Governo russo e o seu Presidente”. Acrescenta a notícia citando a voz off que “… isso não significa que o partido apoie Zelensky, antes o critica, e afirmou ainda que Jerónimo de Sousa “repete a cartilha” quando fala da responsabilidade dos Estados Unidos na promoção da guerra. “E assim se chega aos 101 anos”, remata a voz off.


A ERC parece ter entrado no jogo do PCP pois que no comunicado diz que embora realce que não se exige que as notícias “sejam um relato neutro e acrítico dos factos noticiados” e que podem integrar uma “componente analítica e interpretativa”, considera que os comentários feitos na peça não são uma interpretação, mas uma opinião que “desvaloriza e ridiculariza a posição do PCP” assente numa “avaliação pessoal e preconcebida do jornalista”. Coitadinho do PCP!


Por fim o segundo o mesmo diário o PCP congratulou-se com a decisão da ERC e aproveitou para lamentar que este não seja um caso isolado, antes um “exemplo de práticas recorrentes de manipulação e deturpação deliberadas das posições” do partido “particularmente presentes” no grupo Impresa, nomeadamente nas coberturas eleitorais. Mas o partido também considera “incompreensível que não sejam retiradas quaisquer consequências” da decisão do regulador, que se limita a “instar” a SIC a cumprir a lei. Mais, uma vez coitadinho do PCP que é uma vítima de uma empresa de comunicação.


Quem costuma ouvir os porta-voz e os dirigentes do PCP pode confirmar que, quer nos comícios, quer ao falar aos órgãos de comunicação, são, de facto, uma espécie de cassetes repetitivas.


Sobre a questão da Ucrânia o PCP bem pode gritar e dizer em abstrato que é contra a guerra e pela paz, (era mais o que faltava dizer o contrário), e que não tem nada a ver com o Governo russo e com o seu Presidente, ao mesmo tempo que responsabiliza os EUA pela guerra.


O PCP nunca afirmou claramente que rejeita a invasão da Ucrânia pela Rússia. Limita-se a falar, tal como o Kremlin, na operação especial, agora já mudou um pouco este discurso. De facto, não houve formalmente uma declaração de guerra, mas houve, objetivamente, uma invasão para ocupação de território de outro país. Se alguém leu ou ouviu alguma declaração de rejeição clara e concreta da invasão da Ucrânia por parte da Rússia de Putin agradeço que me informe quando e onde! Pode ser falha minha.


O PCP bem pode dizer que nada tem a ver com o Governo russo nem com Putin, mas deve saber muito bem que o Partido Comunista da Federação Russa, o PCFR, apoia Putin na questão da Ucrânia.


Tudo isto sobre a queixinha do PCP à ERC é uma espécie de faz de conta para enganar incautos que também serviu para mobilizar e motivar as suas hostes internas que devem andar um pouco desmobilizadas e tristonhas. Voltou a salientar que se houver algum militante ou simpatizante do PCP que leia este “post” e que ache que o partido oficialmente condena a invasão da Ucrânia pelo Presidente da Rússia que o escreva claramente nos comentários.


Se partidos da extrema-direita lhe apanham o jeito, aliás parece que já o apanharam, como se viu na peixeirada que fizeram na Assembleia da República aquando da discussão do Estado da Nação e que ameaçaram fazer queixinha ao Presidente da República. Ou será que o PCP os quer imitar?


Por favor, senhores do PCP, não façam por perder a dignidade que sempre tiveram e que o povo português sempre respeitou, mesmo os que, racionalmente, não concordam com as suas posições políticas e ideológicas.

sexta-feira, 10 de junho de 2022

O Ocidente está errado sobre essas cinco suposições sobre Putin

Um artigo na análise política isento  sobre a invasão da Ucrânia e não alinhado com extremistas anti ocidente que defendem o projeto do ocidente se submeter a Putin.


Tatiana Stanovaya


Foto:  Dmitry Kostyukov / R.Politik


Sobre a autora:


Tatiana Stanovaya é bolsista não residente no Carnegie Endowment for International Peace e fundadora e CEO da empresa de análise política R.Politik. Ela nasceu em Moscovo e mora em França desde 2010.


 Guerra da Rússia


O Ocidente está errado sobre essas cinco suposições sobre Putin, texto publicado pela primeira vez por "Política Externa" e no DER SPIGEL em 06/06/2022


A questão de saber se Putin precisa sair da guerra é secundária: ele acredita que vencerá. O Ocidente deve olhar para a situação de forma diferente se quiser ser mais eficaz.



Foto: Alexander Zemlianichenko / dpa


Uma das razões pelas quais é tão difícil entender as intenções da Rússia e o que está em jogo na guerra da Ucrânia é a discrepância significativa entre a visão dos observadores externos e a visão do Kremlin sobre os acontecimentos. Algumas coisas que alguns tomam como certa são percebidas completamente diferentes em Moscovo – como a suposta incapacidade da Rússia par alcançar uma vitória militar. A maioria das discussões de hoje no Ocidente sobre como ajudar a Ucrânia a vencer o campo de batalha ou forçar Kiev a fazer concessões têm pouco a ver com a realidade. Isso também se aplica à questão de como o presidente russo Vladimir Putin poderia ser levado a salvar a cara.


Abaixo, vou refutar cinco suposições comuns sobre como Putin vê esta guerra. O Ocidente deve olhar para a situação de forma diferente se quiser ser mais eficaz e reduzir os riscos de escalada.


Suposição 1:


Putin sabe que vai perder.


Essa suposição baseia-se no equívoco de que o principal objetivo da Rússia é obter o controle de grande parte da Ucrânia – e que, portanto, significaria o fracasso se os militares russos tivessem um desempenho ruim, não avançar ou mesmo ter que se retirar. O principal objetivo de Putin nesta guerra, no entanto, nunca foi controlar partes do território da Ucrânia, mas destruir a Ucrânia, que ele vê como um projeto "anti-Rússia". E ele quer – do seu ponto de vista – impedir que o Ocidente use o território ucraniano como ponte para atividades geopolíticas anti-russas. Como resultado, a Rússia não se vê como um fracasso. A Ucrânia não poderá juntar-se à OTAN nem existir pacificamente sem considerar as exigências da Rússia: russificação (ou "desnazificação" na língua de propaganda russa) e "financiamento da OTAN" (referido na propaganda russa como "desmilitarização"), ou seja, uma renúncia a qualquer cooperação militar com a OTAN. Para alcançar esses objetivos, a Rússia quer manter a sua presença militar em território ucraniano e continuar a atacar a infraestrutura ucraniana. Grandes ganhos territoriais ou a captura da capital ucraniana Kiev não são necessários (mesmo que a Rússia inicialmente tenha sonhado com isso). Até mesmo a anexação das regiões de Luhansk e Donetsk, que Moscovo considera apenas uma questão de tempo, é uma meta secundária local com a qual a Rússia quer fazer a Ucrânia pagar pelo que vê como decisões geopolíticas pró-ocidentais erradas das últimas duas décadas. Aos olhos de Putin, ele não vai perder esta guerra. Ele provavelmente até pensa que está a ganhar, e ele está à espera da Ucrânia admitir que a Rússia ficará ali para sempre.


 Suposição 2:


O Ocidente deve encontrar uma maneira de ajudar Putin a salvar a face, reduzindo assim os riscos de uma escalada adicional, possivelmente nuclear.


Imagine uma situação em que a Ucrânia aceita a maioria das exigências da Rússia: reconhece a Crimeia como russa e o Donbass como independente, compromete-se a reduzir o tamanho do exército e promete nunca pertencer à OTAN. Isso vai acabar com o conflito? Mesmo que a resposta pareça ser um sim retumbante para muitos, isso é errado. A Rússia está numa batalha com a Ucrânia, mas geopoliticamente ela vê-se numa guerra contra o Ocidente em território ucraniano. No Kremlin, a Ucrânia é vista como uma arma anti russa nas mãos do Ocidente; mas a sua destruição não significa automaticamente a vitória da Rússia neste jogo geopolítico antiocidental. Para Putin, esta guerra não está ocorrendo entre a Rússia e a Ucrânia. A liderança ucraniana não é um ator independente, mas uma ferramenta ocidental que deve ser neutralizada.


Quaisquer que sejam as concessões que a Ucrânia possa fazer (não importa o quão politicamente realistas possam ser), Putin continuará a escalar a guerra até que o Ocidente mude sua abordagem para o chamado problema da Rússia. Ele teria que admitir que, como Putin vê, as raízes da agressão russa residem no facto de que Washington ignorou as preocupações geopolíticas russas por 30 anos. Alcançar isso tem sido o verdadeiro objetivo de Putin, e isso não mudou. O Kremlin pode até mesmo usar exigências russas irrealistas, que Kiev rejeita, para aumentar as apostas no confronto entre a Rússia e o Ocidente – e, assim, testar se o Ocidente permanece unido e consistente. O Ocidente hoje não entende o problema: no seu esforço para parar a guerra da Rússia, está a concentrar-se nos pretextos artificiais de Moscovo para a invasão da Ucrânia. Ele ignora a obsessão de Putin com a chamada ameaça ocidental – bem como a sua disposição para forçar o Ocidente a dialogar sob as condições russas através de uma nova escalada. A Ucrânia é apenas um refém.


 


Suposição 3:


Putin está a perder não só militarmente, mas também internamente, e a situação política na Rússia é tal que Putin poderia em breve enfrentar um golpe.


O oposto é verdade, pelo menos por enquanto. A elite russa está tão preocupada em como garantir a estabilidade política e evitar protestos que está a reunir-se em torno de Putin como o único líder que pode consolidar o sistema político e evitar a agitação. A elite é politicamente impotente, assustada e vulnerável – incluindo aquelas retratadas nos media ocidentais como aquecedores e falcões. Fazer algo sobre Putin hoje seria equivalente ao suicídio a menos que Putin perca (física ou mentalmente) a sua capacidade de governar. Apesar de novas divisões e fraturas nas fileiras e insatisfação com as políticas de Putin, o regime permanece firme. A maior ameaça a Putin é o próprio Putin. Mesmo que o tempo esteja trabalhando contra ele, acordar a elite é um processo que levará muito mais tempo do que muitas pessoas esperam. Vai depender de quão presente Putin permanece na vida cotidiana do governo.


 


Suposição 4:


Putin tem medo de protestos antiguerra.


Na verdade, Putin tem mais medo dos protestos pró-guerra e tem que lidar com o zelo de muitos russos que querem destruir aqueles que chamam de nazis ucranianos. O sentimento público poderia encorajar a escalada e levar Putin a tomar uma postura mais dura e determinada – mesmo que esse sentimento seja devido à própria propaganda do Kremlin. Este é um ponto extremamente importante: Putin despertou um nacionalismo sombrio no qual ele é cada vez mais dependente. Aconteça o que acontecer com Putin, o mundo terá que lidar com essa agressividade pública e as crenças antiocidentais e antiliberais que tornam a Rússia tão problemática para o Ocidente.


 


Suposição 5:


Putin está profundamente dececionado com a sua comitiva e deu luz verde para processar funcionários de alto escalão.


Esta é uma questão muito debatida no Ocidente que surgiu da especulação: sobre a suposta prisão do ex-vice-chefe de gabinete de Putin, Vladislav Surkov, a detenção de Sergei Beseda, um alto funcionário de segurança encarregado da Ucrânia, e supostas expurgas no círculo íntimo de Putin. Todos esses rumores devem ser vistos com extremo ceticismo. Primeiro, não há confirmação de nenhum desses rumores. (Em vez disso, fontes de alto escalão sugerem que nem Beseda nem Surkov foram presos). Em segundo lugar, Putin pode estar chateado e desapontado com A sua equipa, mas não é o seu estilo realizar expurgas no seu círculo interno – a menos que crimes graves tenham sido cometidos. Para Putin, apenas as intenções contam, e se os serviços de inteligência russos o calcularam mal ou mesmo o informaram mal sem más intenções, dificilmente haverá acusação. E, finalmente, a campanha militar na Ucrânia foi meticulosamente controlada pelo próprio Putin desde o início, deixando pouco espaço para as autoridades subordinadas mostrarem iniciativa.


Tudo isso significa que o suposto dilema do Ocidente – ou dobrar o apoio à Ucrânia porque Putin está perdendo, ou apaziguar Putin, não o irritando porque ele é desesperador e perigoso – está fundamentalmente errado. Há apenas duas maneiras possíveis de sair do confronto: ou o Ocidente muda a sua atitude em relação à Rússia e começa a levar a sério as preocupações russas que levaram a esta guerra – ou o regime de Putin entra em colapso e a Rússia revê as suas ambições geopolíticas.


No momento, tanto a Rússia quanto o Ocidente parecem acreditar que o seu homólogo está condenado e que o tempo está do seu lado. Putin sonha com o Ocidente experimentando uma convulsão política, enquanto o Ocidente sonha com Putin sendo deposto ou derrubado, ou morrendo de uma das muitas doenças que ele regularmente diz ter. Ninguém está certo. Em última análise, um acordo entre a Rússia e a Ucrânia só é possível como um acordo entre a Rússia e o Ocidente como um todo – ou como resultado do colapso do regime de Putin. E isso nos dá uma ideia de quanto tempo esta guerra poderia durar: anos, no máximo.


 





 

domingo, 20 de março de 2022

Por Putin com amor ou os nossos agentes de Moscovo

Ucrânia e Putin-2.png


Facciosos que pretendem desviar as atenções das responsabilidades de Putin nesta guerra insistem no que os EUA e a NATO fizeram no passado, mas omitem que o presidente russo já foi acusado de financiar vários partidos da extrema-direita na Europa; omitem ter interferido nas eleições norte-americanas, procurando beneficiar Donald Trump; omitem que Putin não esconde as suas preferências na Europa por Órban, Le Pen, Salvini, Santiago Abascal.


Nas últimas semanas tem-se multiplicado uma infinidade de artigo de opinião e de comentários numa dicotomia entre os que revelam claramente estar contra a invasão e os outros, os pró Putin.


Antes de continuar, e porque parece estar a haver alguma animosidade contra os russos, devo esclarecer que nada tenho contra o povo russo nem contra a sua cultura, a minha opinião é a de estar contra as políticas de um líder autocrático e oligárquico que impôs ao povo russo uma democracia(?) iliberal belicista.


Uma democracia iliberal visa um poder executivo forte, controlando e manipulando os limites das instituições garantes da democracia tais como tribunais e outras instituições democráticas do estado. Para o justificar argumentam que essas instituições, garantes dos valores democráticos e de liberdade não possuem atribuições eleitorais e, como tal, impedem a vontade da soberania do povo. Desta forma a narrativa social é construída ganhando, assim, legitimidade dentro do cenário democrático. Sobre democracia iliberal ver aqui.


Ao escrever este texto veio-me à memória “From Russia with Love” com a tradução em português “Da Rússia com Amor”, filme de espionagem lançado em 1963 que permanece relativamente fiel ao romance de Ian Fleming, escritor britânico e autor do livro com o mesmo nome.


Questionei-me sobre o porquê deste filme surgir na minha memória. A memória recente deu-me a resposta: foi o nome do comentador Alexandre Guerreio que ouvi recentemente seguir o mesmo relato da propaganda de Putin e dos seus mandatários que podem ver aqui.


Em tempos de guerra surge sempre quem se colocam de um lado, ou de outro, dos intervenientes do conflito. Foi assim também na segunda guerra mundial quando, por estranho que pareça, também houve quem estivesse do lado III Reich, no início não só os alemães.


Instalou-se com esta guerra um conjunto de gente, felizmente pouca, antiamericana e anti NATO às quais acrescentam o seu antieuropeísmo irracional. Os apoiantes desta corrente não são recentes, agitaram-se a pretexto da invasão da Ucrânia por Putin e colocam-se do lado de um Estado que agride militarmente outro povo soberano e que o massacra. Esta é a realidade e não há argumentos que o justifiquem por mais rebuscados que sejam.


Esta gente reanima ódios antigos que vêm do tempo da URSS e da Guerra Fria que agora estão a ser aproveitados para a sua ressurreição com novos contornos. Daí as teses do PCP contra os EUA, a NATO e a União Europeia em favor da defesa das posições do Kremlin.


O colapso da URSS que foi recalcado por uma espécie de catarse saiu do seu subconsciente ideológico. A retórica da paz que proclamam, com omissões de princípio, em relação à invasão da Ucrânia, vem das palavras de Jerónimo de Sousa que vinculam o PCP e está nas críticas feitas ao governo ucraniano em linha com as de Moscovo. Ao mesmo tempo que diz apoiar o apelo “à solidariedade e ajuda humanitárias às populações”, acusa a Ucrânia de dar apoio a grupos fascistas ou neonazis, alinhando com uma das narrativas usadas por Putin para justificar a invasão daquele país.


Os argumentos recorrem a históricos condenatórios de outras guerras em que intervieram outros Estados, mas cujos contornos e circunstâncias não se encaixam com as atuais. Seria bom que o PCP em vez de falar em golpes recordasse o que se passou na Ucrânia.


Sem me alargar em história porque isso compete a outros debruço-me apenas sobre alguns factos da atualidade da última década para nos situarmos.


Yanukovych foi presidente da Ucrânia de 25 de fevereiro de 2010 a 22 de fevereiro de 2014 que formalmente rejeitou um acordo de cooperação com a União Europeia que há muito tinha sido negociado e que poderia, no futuro, fazer passar a Ucrânia a ser um dos seus membros e integrar o bloco dos 28 países. Este mesmo presidente, na mesma altura, terá recebido uma série de empréstimos oferecidos pelo governo russo de Putin iniciando um processo de aproximação política com o Kremelin. Esta situação levou a uma série de protestos no oeste da Ucrânia denominados "Euromaidan" que já tido início em 21 de novembro de 2013. Protestos públicos que evoluíram para apelos à renúncia do presidente Viktor Yanukovych e do seu governo.


Além da questão da integração com a Europa havia ainda acusações de corrupção contra elementos do governo, pró-Rússia, que também motivou os protestos.


A análise da situação concluiu que Yanukovych estaria sob pressão direta da Rússia e que o anúncio brusco de que o acordo com a União Europeia não seria assinado por os russos de Putin ameaçarem impor sanções à Ucrânia tendo sido Yanukovych chamado de urgência para um encontro em Moscovo com o presidente Vladimir Putin.


Mas voltemos à atualidade recente. O estilo fascizante de Putin está presente na organização de um comício político disfarçado de concerto no passado 18 de março do corrente que e cujo seu discurso podemos considerar como sendo para a obtenção de apoio à guerra, de exaltação patriótica e de celebração dos feitos militares da Federação Russa na Ucrânia ao velho estilo nazi.


Do meu ponto de vista há os que dizem defender a paz e ao mesmo se colocam do lado de Putin. Esses que dizem defender a paz são os que sustentam que a culpa da guerra é de outros. Sem o dizerem claramente alinham com o pensamento do presidente Vladimir Putin que, em dezembro de 2021, lamentou o colapso da União Soviética há três décadas a que ele chamou "Rússia histórica", conforme noticiou na altura a agência Reuters.


Os comentários de Putin, em tempo divulgados pela TV do Estado Russo (RT-Russia Today), terão provavelmente alimentado ao que chamaram especulação sobre as suas intenções em política externa que os críticos internos, (não sei se hoje ainda existem), aproveitaram para o acusar de projetar a recriação da União Soviética e de contemplar um ataque à Ucrânia, ação que na altura o Kremlin de Putin considerou como sendo ousada.


 Não há dúvida de que a Rússia de Putin é uma democracia iliberal autocrática tendencialmente expansionista que parece estra a pretender provocar uma crise idêntica à que a Alemanha Nazi colocou em prática em 1938. Há mesmo quem chame a Putin czar e o compare a Stalin e a Ivan, o Terrível, quando na Polónia em 2009 falavam de Putin.


Escrevia-se então em setembro de 2009 aquando das comemorações do início da Segunda Guerra Mundial em Gdansk que “Putin passou a última década a procurar restaurar a grandeza russa, em parte através da reabilitação de Josef Stalin e a encorajar uma narrativa heroica e nacionalista dentro do país”.


Estas afirmações são preocupantes pela tentativa de recuperar um passado tenebroso utilizando táticas semelhantes através da utilização de armamento mais sofisticados e com novas estratégias.


Há um erro quando se pensa que a Rússia, em 1939, trouxe a liberdade à Europa central. Estaline atraiçoou a Polónia depois da invasão nazi invadindo-a pelo Leste. Hoje as ambições imperiais de Putin continuam a ser um perigo, como foi demostrado pela guerra contra a Geórgia em 2008.


Foi em Gdansk onde começou a invasão da Polónia pela Alemanha de Hitler.  No dia 1 de setembro de 1939 iniciou uma guerra de seis anos. A Polónia foi dividida em 1939 pelas tiranias gémeas de Hitler e Estaline e foi onde ocorreu o assassinato em massa de judeus no Holocausto nazi e terá sido o principal alvo de campanhas de propaganda concertada russa do Kremlin.


Relativamente à Ucrânia podemos supor que todas as tentativas para chegar a um acordo de paz com Putin serão do ponto de vista moral do direito internacional e do ponto de vista prático e político serão infrutíferos, prejudiciais e perigosos tal e qual o foram todas as tentativas de apaziguar as nazis realizadas entre 1934 e 1939 ao fazer vários acordos e pactos que resultaram em fracassos e não foram respeitados.


Elísio Estaque, sociólogo, professor da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra escreveu num artigo de opinião mo jornal Publico que “O facto de a NATO ter sido criada como força de oposição à URSS num contexto de Guerra Fria, de profunda divisão ideológica no mundo ocidental (capitalismo versus socialismo), associado à imagem do exército soviético no pós-guerra, visto como força libertadora no confronto contra a Alemanha nazi, contribuiu para perpetuar a simpatia das “vanguardas” com a “pátria do socialismo” durante décadas. Desde a Revolução de Outubro, com Lenine e Trotsky, passando por Estaline, Krushtchov, Brejnev, etc, mesmo após a implosão do regime, muitos continuaram a ver no poder russo a força capaz de se opor aos EUA, o locus do poder hegemónico num mundo unipolar.


Na sua cegueira dogmática já veem nesta guerra as trombetas a anunciar o fim do capitalismo ocidental e a consequente queda do império americano.


Fazer comparações com outras ações belicistas da NATO, no passado, ou apresentar contabilidades da mortandade em várias outras latitudes que não a Europa, são de uma insensatez intolerável. Nenhuma ação bélica desta natureza pode ser relativizada, seja onde for e por quem for”.


Facciosos que pretendem desviar as atenções das responsabilidades de Putin nesta guerra insistem no que os EUA e a NATO fizeram no passado, mas omitem que o presidente russo já foi acusado de financiar vários partidos da extrema-direita na Europa; omitem ter interferido nas eleições norte-americanas, procurando beneficiar Donald Trump; omitem que Putin não esconde as suas preferências na Europa por Órban, Le Pen, Salvini, Santiago Abascal.


Há quem esteja com uma venda nos olhos espreitando por alguns orifícios causados pelo desgaste ou que não queira ver por néscia teimosia, e menos por ignorância, e que, por isso, insistem na retórica discursiva do prisioneiro inocente que se defende dizendo que foram outros que o quiseram tramar.