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terça-feira, 6 de maio de 2025

Regressados do recato da política

PSD almoço com o passado.png


Aqueles que, ao longo dos anos, estavam preocupados com o estado do país e que há um ano prometiam medidas para resolver problemas antigos, não só não os resolveram, a não ser continuar com o que o anterior Governo deixou preparado, agravando tais problemas. A política foi lançar dinheiro que encontraram nos cofres do Estado para cima dos problemas.


Por mais que se deseje, os problemas que se arrastam há anos que perpassaram por diferentes Governo os quais, sucessivamente prometiam resolver, têm mostrado a evidencia que (o tal reformismo) não se faz facilmente sem desestruturar o nosso modelo económico e social o que geraria instabilidade social e, mesmo assim, tais reformas não se conseguiriam resolver nem a curto, nem a médio prazo.


É recorrente que Luís Montenegro quando é confrontado com os problemas que ele não quer esclarecer lança demagogicamente mão às emoções dos portugueses e das portuguesas, como ele diz, vitimizando-se pelo que diz lhe estão a fazer injustamente, evitando  responder às questões que lhe são colocadas.


Escrevia eu estas linhas quando me assaltou a memória, mais uma vez, a política e alguns políticos que se movimentam nas democracias e o conceito de demagogia cujo significado tem várias entradas na maior parte dos dicionários. Um deles define-a como sendo um “discurso ou ação política em que se procura conquistar apoio através da manipulação das emoções populares, em detrimento do uso de argumentos lógicos ou racionais” e noutro “discurso ou ação que visa manipular as paixões e os sentimentos do eleitorado para conquista fácil de poder político”.


Para Aristóteles a demagogia é o de arrastar o povo e descreve-a como uma forma de governar em que os argumentos são substituídos por apelos aos medos, preconceitos, amores e ódios dos cidadãos. É a abordagem dos debates através da linguagem dos sentimentos e impedir uma discussão, sem exaltação, sobre a ação política. Surgem em momentos ad crise e revelam-se como salvadores e ao conquistarem o povo, podem mudar o rumo dum regime político fazendo-o derivar para regimes autoritários. Veja-se a possibilidade do que se está a passar nos EUA com Trump no poder. O que naquele país seria uma impossibilidade pode estar a seguir para uma possibilidade.


Em momentos de campanha eleitoral surgem, especialmente da direita mais retrógrada e conservadora, ressurgindo da escuridão política ou partidária a que os votaram, ou a que eles próprios se conferiram, para se pronunciarem com as suas palavras sábias e irrepreensíveis para induzirem potenciais eleitores saudosistas de tempos passados.


Como é óbvio, cada um elogiando o líder concorrente às eleições do seu partido favorito, ainda que esse líder, novamente candidato a primeiro-ministro, tenha sido um fiasco em algumas das políticas, nomeadamente nas da saúde, e na falta de clareza das suas ligações a empresas privadas, tirando oportunisticamente proveito político das políticas implementadas pelo Governo seu antecessor.


Uma destas sumidades chega a afirmar sobre o concorrente a Primeiro-Ministro que “A minha escolha de Primeiro-Ministro fundamenta-se em três critérios: a capacidade política e técnica, a dimensão ética na vida política e a proposta de política geral do Governo”. E mais afirma que a “campanha de suspeições e insinuações movida por partidos da oposição e por alguma comunicação social contra a pessoa do primeiro-ministro” e que era “mais confusa e desinformativa do que esclarecedora”. Claro que se refere a Luís Montenegro, e, mesmo que algumas afirmações não sejam na íntegra verdadeiras elas pretendem enaltecê-lo e, sem hesitação, oferece-lhe o seu beneplácito.


O que temos observado da parte de Luís Montenegro ainda ele respondia perante o Parlamento é as suas capacidades de mimetismo serenidade de impoluto e a sua capacidade para a vitimização escondendo-se atrás dum rosto de ingenuidade manifesta.


Mas, espantemo-nos porque a coisa não fica por aqui porque com grande descaramento tal apoiante de Montenegro afirma que “…tendo procurado avaliar objetivamente os comportamentos e atitudes dos diferentes líderes partidários da oposição, não encontrei em nenhum deles qualquer superioridade em relação ao atual Primeiro-Ministro na dimensão ética e moral na vida política.” Este estilo panfletário é risível para não dizer lamentável!


A defesa de Montenegro perpetrada pela douta personagem  cai como catarata escamoteando a verdadeira razão estratégica da “coisa” que provocou uma crise fazendo cair o Governo declara-se nestes termos: “Como afirmei noutra ocasião, a campanha de suspeições e insinuações foi o pretexto de partidos da oposição para criarem um clima político de tal forma inflamado e paralisante da ação do Governo que não lhe deixou alternativa que não fosse a de confrontar a Assembleia da República com uma moção de confiança”. Risível mais uma vez, não é!


Para este douto conhecedor o facciosismo é o motor, pois que, para ele, “o atual Primeiro-Ministro, Luís Montenegro, revelou ser possuidor de boas qualidades nas principais questões técnicas dos diferentes ministérios, na liderança do Governo… qualidades que não vislumbro nem antecipo nos outros líderes partidários”. Desafio os leitores deste texto a tentar adivinhar quem é esta excelência, cujo nome não devemos pronunciar em vão, dada a sua divindade política, sabedor isento que, quando regressado do recato político surge a falar do alto da sua cátedra escreve as tábuas da sua lei e da arte de cavalgar toda a política.


Enfim, há que contribuir com distorção dos factos mostrados na comunicação social, reorganizando a verdade ao seu modo, a qual passou a ser a dele, mesmo que não no seu todo.


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Não ficamos por aqui, no almoço de celebração dos 51 anos do partido PSD juntaram-se também à mesa outros regressados do sossego da política, recordados não pelos melhores motivos, para darem uma ajudinha a Montenegro.  E lá vem Passos com a sua experiência do passado que ninguém esquece, (o tal do temos de ir para além da troika), dizer a Montenegro que “…é preciso que exista verdadeiramente um espírito reformista que possa estar ao serviço dessa estabilidade”. Enche o peito com o espírito reformista. Resta-nos saber o que entenderá ele por isso no atual contexto.


Será que pega?

sexta-feira, 8 de março de 2024

Os jovens esses coitados. Diz a direita

Eleições-promessas3.png


A legalização de drogas foi uma proposta da IL que serviu de mote para atrair alguns jovens. A direita do lado da IL-Iniciativa Liberal diz querer legalizar a produção e venda de cannabis para uso recreativo, incluindo no supermercado. De acordo com a proposta da Iniciativa Liberal, qualquer loja (exceto estações de serviço) poderá vender, mas a pelo menos 300 metros de escolas. Consumo só para maiores de 18 anos. Isto foi afirmado em abril de 2023.


Todos os partidos políticos têm feito apelo ao voto dos jovens com promessas e alternativas para todos os gostos. São um isco para a “pesca” de votos. Para todos os partidos da direita os jovens são o máximo e têm sido muito mal tratados dizem.


Para o PSD/AD o governo do partido socialista tratou-os mal, não lhe deu importância, dizem que emigram devido às políticas do Governo PS que não lhes deu o que lhes era devido.


As estratégias e os malabarismos da direita para atrair os jovens, e também de alguma esquerda, são várias. O líder do PSD, Luís Montenegro tem afirmado que não se resigna com um país “que deixa fugir para o estrangeiro os seus jovens” e que é preciso criar mais riqueza para reter as pessoas no país. Tem dito ainda que não se resigna nem conforma com um país que deixa fugir para o estrangeiro os seus jovens, “aqueles que são garante da nossa capacidade de criarmos mais riqueza e, através dessa riqueza, sermos mais justos”. Só que a riqueza não se cria com varinhas mágicas nem num curto espaço de tempo, pelo que os jovens a quem ele se dirige terão que esperar e muito.


A memória de Montenegro é muito curta esquecendo-se do Governo de Passos Coelho do PSD com o CDS. Foi nesse tempo, entre 2012 e 2015 que, de acordo com o Observatório de Emigrações, foram registados os maiores níveis de emigração de portugueses, contabilizando mais de 100 mil saídas anuais, e um saldo migratório negativo, ao contrário do que se tem registado entre 2017 e 2021, em que o saldo é positivo.


Todos se referem aos coitadinhos dos jovens que não têm ou não vão ter o mesmo género de vida que os seus pais e avós tiveram. Uma palavra de ordem que se houve por aí em relação aos jovens portugueses, porque interessa, é a de que esta geração viverá pior do que anterior. A ideia tem por base o critério material, ou seja, o rendimento e regalias sociais que o 25 de Abril possibilitou.


Não sei a que jovens se refere a direita quando fazem estas declarações. Será aos que nasceram entre 1995 e 2005? Parece-se que estas declarações parecem-me ser enganadoras.


Os pais e avós destas gerações não tiveram a vida nada facilitada. Tinham de trabalhar para pagar a habitação a alimentação e a educação dos filhos e em alguns casos até a deles próprios. Não tinham acesso à cultura nem a espetáculos porque o salário era muitas vezes contado para as despesas obrigatórias e os passeios e férias eram condicionados pela disponibilidade financeira.  


O que vemos nas últimas décadas, sobretudo na época de primavera verão é a organização de concertos por todo país cujos espaços se esgotam e onde há consumo desenfreado de álcool (diga-se que é mais de cerveja), para já não falar das discotecas, restaurantes onde jovens consumem álcool à discrição com dinheiro grande parte das vezes abonados pelos pais. Os que não estão nesta dependência financeira já têm trabalho, mas do qual se queixam ser precário. Mas têm trabalho!


Porém há dinheiro para divertimento o que se compreende por se considerar que também necessário aos jovens e também aos adultos. Dizem não ter tempo para se divertirem porque têm sempre muito que estudar e dos trabalhos que lhes são impostos nos estudos. Alguns acumulam com um emprego.


Com a IL-Iniciativa Liberal os jovens iludem-se ao pensar que todos serão empresários de sucesso e que serão apreciados pelo mérito e os que não o forem terão ganhos salariais excelentes.  Mas enganam-se o excesso de liberalismo retira-lhes direitos, sobretudo ao nível do trabalho. Quando não há mérito na sua avaliação que, sendo vista do ponto de vista da empresa será sempre subjetivo, abre-se a porta para o despedimento.


Num trabalho de Joana Gorjão Henriques publicado no jornal Público jovens foram questionados sobre o seu sentido de voto. Algumas respostas são interessantes e demonstrativa de como os jovens vêm os partidos e a política.


Do que se percebe das conversas, alguns dizem que há vários amigos que aderem às ideias do Iniciativa Liberal, partido que, dizem “chama muito os jovens”. A jovem diz que isso “Tem muito que ver com a forma como eles se publicitam, tentam chegar aos jovens por causas insignificantes, por exemplo, legalização de cannabis, tentam imenso falar sobre isso no Instagram e no Twitter. Pode conferir aqui.


A direita não diz tudo porque não lhe interessa. Identifica a carga fiscal das empresas como um problema. No entanto parecem desconhecer ou omitir que os governos vão precisar de cada vez mais receitas fiscais e sociai, para pagar as reformas e a saúde de uma sociedade envelhecida; para compensar os cidadãos pelas consequências das secas, cheias, fogos, aumentos dos preços da energia e da alimentação; para investir na descarbonização. Será razoável, neste contexto, pensar que se pode reduzir os impostos e as contribuições sociais? Escreve-se no artigo. A direita omite, mas não desconhece, porque tem em vista usar os recursos do Estado para pagar a privados, nomeadamente a saúde que deveria, por direito, ter serviços públicos de qualidade, para todos, porque o privado, mesmo recebendo esses recursos, não conseguiria dar resposta.

domingo, 3 de março de 2024

O repositório do PSD e os antigos falantes

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Os falantes da oposição de direita do PSD/AD para criticarem o Partido Socialista, seu opositor mais direto, dizem que estão sempre a falar do passado do Governos Passos Coelho durante o período da troica. Pois é! Não gostam que se recordem esses tempos dos cortes de pensões, de salários e aumentos de impostos e outros malefícios que advieram do “ir além da troica”.


Nesta campanha Luís Montenegro seguindo o modelo tem andado a retirar do repositório do partido e a chamar para a sua campanha alguns nomes de má memória. Já tinha siso Passos Coelho, agora Durão Barroso é chamado para o encontro. Este, sem mais, como seria de esperar lá falou também do passado para tentar “limpar” a imagem de austeridade do Governo de Passos Coelho e da austeridade e tira da cartola o “coelho” que é a “questão da troika”. Claro, lá voltou a dizer que “Quem pôs Portugal na bancarrota foi o Governo PS” acrescentando que “Não temos de pedir desculpa por esse período, temos que ter orgulho por aquilo que fizemos com sentido patriótico para salvar Portugal”. As palavras como “sentido patriótico” e “salvar Portugal” que pareceram ter sido retiradas dum discurso dum partido populista pró-fascista.


Durão Barroso fez ainda mais, ajudou Luís Montenegro a limpar-se das polémicas declarações do candidato de Santarém sobre as alterações climáticas que pareciam, (ou serão) dum negacionista convicto quando Eduardo Oliveira e Sousa, antigo presidente da Confederação dos Agricultores de Portugal (CAP), considerou que Portugal tem perdido investimento por “falsas razões climáticas” e avisou que há agricultores que já falam em organizar milícias armadas perante “os roubos nos campos”.


Luís Montenegro já se tinha colocado antes ao lado do candidato por Santarém do ataque a que foi sujeito por todos os partidos por causa daquelas declarações sobre as alterações climáticas. Para Luís Montenegro, Eduardo Oliveira e Sousa só fez alertas e admite que “há zonas de fanatismo ambiental” que têm frustrado projetos de investimento. Mas onde raio ficam essas zonas de fanatismo ambiental?


Ana Sá Lopes escreveu no Público que “Quanto ao “ajuda” Eduardo Oliveira e Sousa, cabeça de lista da AD por Santarém, que veio questionar a crise climática, quando criticou a proibição de “novas plantações às cegas baseada em ideologias de extrema-esquerda, iludindo as pessoas com falsas razões de ordem climática”, e que anunciou aos portugueses que os agricultores estão prontos a “organizar-se em milícias” contra os roubos do cobre, a ajuda foi fabulosa. Tivesse isto acontecido na campanha do PS e o país político tinha ido abaixo”.


Só faltava agora na procura de oportunidades de protagonismos políticos Santana Lopes que, em janeiro de 2021, quatro meses após ter abandonado a presidência da Aliança, rompeu definitivamente com o partido que fundou em 2018, depois de 22 anos de militância no PSD. Santana e a Aliança deixaram de “viver juntos”
depois de 22 anos de militância no PSD, a sua casa de sempre, como o próprio escreveu numa carta que dirigiu na altura aos militantes na qual explicava que ele e o PSD deixavam de “viver juntos”. O primeiro passo de afastamento da Aliança aconteceu em junho, altura em que abandonou as funções executivas que tinha no partido.


Este baloiçante partidário regressou a tempos passados para contrabalançar com o PS quando este se refere ao passado do governo de Passos Coelho que colocou as pessoas de tanga com cortes e mais cortes e aconselhou jovens e professores a emigrar.


Na Figueira da Foz onde Santana Lopes esperou por Montenegro apontou baterias ao PS. “Nenhum dos antigos líderes do PSD ou do CDS fugiu a dizer que vinha aí o pântano, nem nenhum pediu intervenção externa, nem nenhum se demitiu por peripécias passadas no seu gabinete”, referia-se aos antigos chefes de governo socialista António Guterres e José Sócrates. Santana Lopes esqueceu-se de agradecer a Durão Barroso por ter optado por abandonar o governo de Portugal e o ter designado seu sucessor e o ter elevado a primeiro-ministro que tornou Portugal num autêntico circo de barraca.

sexta-feira, 1 de março de 2024

Medo a arma do populismo

Populismo-medo.png


Lembram-se da frase de Passos Coelho quando, em 2016, ao despedir-se dos deputados do PSD, dramatizava em tom catastrofista a situação política com “Vem aí o diabo”? Disse ele então “Gozem bem as férias que em setembro vem aí o diabo”.


Passos Coelho para ajudar (ou prejudicar) o PSD/AD veio agora usar a mesma estratégia do recurso ao medo, desta vez o mais básico que é o medo do outro ao fazer a associação dos imigrantes com insegurança. Esta estratégia já é conhecida e praticada há muito por partidos populistas da extrema-direita.


Recordam-se quando em 2013 Pedro Passos Coelho, que estava há pouco tempo no Governo e na Suíça se restringia a entrada de imigrantes a todos os países da União Europeia aplicando um teto máximo às quotas de autorizações de residência e o então presidente do PSD Passos foi um dos chefes de governo europeus que criticaram tal medida? 


Em 19 e 20 de dezembro daquele ano Passos Coelho discursava sobre as políticas de imigração europeias, que iriam ser tratadas pelos chefes do Governo no encontro de Bruxelas dizia então que “…é de lamentar que ciclicamente apareçam visões negativas de uma espécie de Europa fortaleza”. E mais, “A Europa precisa de imigrantes e força de trabalho”, embora possa “não ter condições para dar asilo a muita gente”, mas “precisa no seu espaço de acolher imigração porque precisa de contrariar os fenómenos de natalidade decrescente”. Mudou agora de opinião.  Passos Coelho quer que a AD aproveite a “mãozinha” do Chega de Ventura.


Se recuarmos aos anos 30 do século XX verificamos que parece haver uma aproximação destas afirmações com partidos populistas e fascistas que recorriam ao medo para mobilizar as populações para os seus desígnios.


Sabemos como os partidos populistas de direita constroem com sucesso o medo recorrendo a perigos reais ou imaginários designando bodes expiatórios acusando-os de ameaçarem ou realmente prejudicarem as suas sociedades.


Todos os partidos populistas de direita instrumentalizam as populações contra algum tipo de minoria étnica/religiosa/linguística/política para serem os bodes expiatórios de todos os problemas atuais para, logo de seguida, acusarem o respetivo grupo como perigoso e como uma ameaça para nós e para a nossa nação, é o fenómeno que se manifesta pela política do medo.


Veja-se o caso do partido nazi na Alemanha de 1939 em que os judeus foram o alvo de perseguições pela mobilização da população contra eles, mas há outros. O fascismo, ideologia política autoritária e nacionalista, muitas vezes capitaliza o medo e o preconceito para ganhar o poder. Os líderes fascistas exploram as ansiedades da sociedade prometendo segurança, estabilidade e o acesso a uma era de ouro e de crescimento. Para capitalizarem preconceitos existentes, exploram os medos enraizados da população através de narrativas simplistas contra certos grupos como fonte de problemas sociais e pessoais que populações pouco avisadas percecionam.


Exemplos históricos como o regime nazi da Alemanha e o governo fascista de Benito Mussolini na Itália fornecem ilustrações claras de como o medo pode ser aproveitado para alimentar ideologias fascistas. No primeiro caso explorou-se a instabilidade económica, o sentimento antissemita para chegar ao poder. Ao criar-se um inimigo comum na imigração joga-se com os medos existentes que são usados para consolidar o apoio e controlar as populações.


Passos Coelho parece ter recorrido a um medo latente e perigoso para intencionalmente se aproximar do Chega e talvez captar alguns eleitores para a AD.  


Os que promotores deste tipo de discursos populistas lançam para a população vários medos, como o de perder o emprego, medo de estranhos (ou seja, imigrantes), medo de perder a autonomia nacional, medo de perder as velhas tradições e valores, medo das mudanças climáticas, deceção e a repulsa de e para com a política tradicional e os políticos, da corrupção, a aversão para com o fosso crescente entre ricos e pobres, a pobreza devido a governos que pretendem derrubar, culpabilizam os que defendem o Estado Social,  fomentam o descontentamento devido à falta de transparência na tomada de decisões políticas e assim por diante.


A intervenção de Passos Coelho foi perigosa e tinha a capacidade para abrir uma Caixa de Pandora”. O PSD só foi radical quando seguiu a política neoliberal de Passos Coelho. Embora digam que era necessário, mas o “ir para além da troika” não foi esquecido e a forma como ele se tem referido ao partido de Ventura também não. Passos Coelho teve com a sua intervenção na campanha da Aliança Democrática o acordo de André Ventura.


Em dezembro de 2023 questionado sobre se o PSD precisava do Chega para ter força para governar, Passos Coelho respondeu que um acordo entre os sociais-democratas e o partido de André Ventura depende das “estratégias partidárias e dos votos dos portugueses”, mas nunca excluiu a possibilidade desse acordo.


Sobre o mesmo tema pode ler a opinião de Helena Pereira


 


 

terça-feira, 27 de fevereiro de 2024

Em curso a substituição da AD por uma AnD?

AD e PSD-Chega.png


Será que Passos Coelho foi dar a bênção à negociação da AD com o Chega, isto é, uma AnD-Aliança não Democrática?


Vejamos os factos:



  • Passos Coelho foi participar com Luís Montenegro no segundo dia de campanha da Aliança Democrática. O antigo primeiro-ministro discursou num comício da AD em Faro e Luís Montenegro agradeceu o “trabalho patriótico” nos tempos da troika.

  • Neste mesmo comício Passos Coelho deixou uma porta aberta para que o PSD faça acordos com o Chega. Ao fazer isso Passos Coelho atestou e validou uma abertura para que a chamada AD possa fazer uma negociação com o Chega, seja de que modo for. Aliás, esta atitude de Passos não é recente. Em novembro de 2023 Passos Coelho afirmava que o Chega não é um partido antidemocrático e que tem toda a legitimidade de existir.

  • Por diversas vezes, ao longo dos anos, André Ventura elogiou o antigo primeiro-ministro. Depois do comício da AD em Faro, que mais parece uma aliança unipartidária, Ventura deu um recado a Montenegro: “se me estiveres a ouvir, convida Passos Coelho mais vezes.” Afirmou ainda que “Em 20 minutos, Passos Coelho explicou a Montenegro como é que há dois anos devia fazer no PSD”.

  • Sobre isto como deve reagir Montenegro à porta que Passos Coelho deixou aberta? Claro que Ventura aproveitou, sem hesitação, a abertura dessa porta e disse “O que Pedro Passos Coelho disse hoje foi 'ponham os olhos no Chega'”.


Ficaram abertasportas para caso da AD ganhe as eleições termos uma aliança alargada com o partido Chega com uma maioria apoiada pela extrema-direita, arriscando-se e para o PSD perder a sua identidade.


Passos Coelho usou a palavra espírito da AD o que nos faz recuar a 1979, talvez até um pouco antes, 1973, digo eu!


As ideias de Passos sobre a política neoliberal a aplicar em Portugal não mudou. Ele será um fiel seguidor das suas ideias. A dúvida fica em saber se Montenegro também não as irá seguir. O que eles, da aliança PSD-AD, dizem antes das eleições é uma coisa, depois é outra. Se um Não é Não ao Chega pode passar a um SIM é SIM logo se verá. Há que se estar atento.


 

sábado, 22 de outubro de 2022

A parcialidade intencional de quem comenta a pobreza

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A primeira página do semanário Expresso desta semana 22 de outubro coloca em primeira página que “As pessoas estão desesperadas, escondem latas de atum e leite para comer ou dar aos filhos”: furtos de alimentos disparam nos supermercados. Desenvolve então que “Supermercados estão a colocar alarmes em produtos alimentares básicos, como latas de atum ou garrafas de azeite. Os furtos estão a aumentar “desde o início de setembro”, escreve-se, por “pessoas que já não conseguem sobreviver só com o seu salário e pensão”. Quase 2 milhões de portugueses vivem com menos de €554.” Ninguém dúvida de que tal esteja a acontecer.


É lamentável que isto se esteja a verificar no nosso país e, pior ainda, que sirva de motivo de chamariz para a venda de jornais. Mais preocupante é que o semanário refere que piorou a partir do início de setembro. Isto é, menciona-se uma data específica para o facto, como se a pobreza, a necessidade de sobrevivência, as pensões e a inflação tivesse uma data, a partir da qual o fenómeno se passou a verificar, e, por acaso, até foi o fim de férias. Como se o fenómeno da pobreza não se verificasse anteriormente e com tanta ou mais intensidade.


Segundo o que tem sido divulgado pela comunicação social sem os apoios sociais, 4,4 milhões de pessoas são pobres ou têm rendimentos abaixo do limiar da pobreza, aproximadamente 554 euros mensais. Segundo a Pordata os valores preliminares em Portugal a população apurada na última atualização de 26/09/2022 com 14 anos e mais é de 9.0283.406 e a população total na mesma data é de 10.344.802. Isto significa que fazendo uma análise comparativa, embora imperfeita, 48,7% da população daquelas faixas etárias encontra-se abaixo do limiar de pobreza, e cerca de 42,5% da população total, ou seja, quase metade da população total. Número impressionante que nos envergonha. Quando este processo de empobrecimento se agravou seria também interessante dar a conhecer em que circunstâncias se terá agravado.


A comunicação social divulga insistentemente esta situação quando, por coincidência, ou não, o Partido Socialista está no Governo. É um facto que em dezembro de 2021 de acordo com os dados do Instituto Nacional de Estatística (INE) divulgados em dezembro de 2021 a desigualdade no país agravou-se durante a pandemia e o risco de pobreza em Portugal aumentou para 18,4% em 2020, naquilo que foi uma subida de 2,2 pontos percentuais relativamente ao ano anterior.


Se observarmos o gráfico seguinte verificamos que a taxa de pobreza entre 2003 e 2020 aumentou substancialmente entre 2010 e 2014 começando a descer a partir de 2015 voltando a aumentar no início da pandemia covid 19 em 2019.


Pobreza2.png


A percentagem de população em risco de pobreza e exclusão social entre 2011 e 2014 governação do PSD e CDS, com Passos Coelho como primeiro-ministro, aumentou consideravelmente para níveis de 27,5% em 2014 diminuindo substancialmente em 2020.



Período de referência dos dados (1)



População residente em risco de pobreza ou exclusão social (%) por Sexo e Grupo etário; Anual (2)



Sexo



HM



H



M



Grupo etário



Total



%



%



%



2020



19,8



19,4



20,2



2014



27,5



26,7



28,1



2013



27,5 *



27,5



27,4



2012



25,3



24,6



25,9



2011



24,4



23,8



25,1



Nota(s):                                                                                                       


(1) População residente em risco de pobreza ou exclusão social: Indivíduos em risco de pobreza e/ou em situação de privação material severa e/ou a viver em agregados com intensidade laboral per capita muito reduzida.                                                                                                                    


(2) Por convenção, este indicador é referenciado ao ano do inquérito. O indicador População residente em risco de pobreza ou exclusão social combina dois indicadores construídos com base em informação relativa ao ano de referência do rendimento (Taxa de risco de pobreza após transferências sociais e Intensidade laboral per capita muito reduzida) com um indicador com informação relativa ao ano do inquérito (Taxa de privação material severa).                                                                                                                                                  


Sinais convencionais:                                                                                                              


*: Dado retificado                                                                                                                                                 


Última atualização destes dados: 07 de maio de 2021                                                                                  


Na tabela anterior permite-nos comparar com o período do Governo de direita PSD-CDS com Passos Coelho na chefia. Nessa altura o problema da pobreza era minimizado e os roubos nos supermercados varria-se para debaixo do tapete. Era tudo discretamente depurado pelos órgãos de comunicação. Apenas alguns comentários nas televisões, nomeadamente da presidente da Federação dos Bancos Alimentares, (instituição que deve ter toda a nossa solidariedade), Isabel Jonet garantia em novembro de 2018 que continua a haver muita "pobreza envergonhada" e que a recuperação económica não chegou às famílias mais pobres. Todavia reafirmou que não se arrepende de ter dito (na altura do Governo de Passos Coelho) que os portugueses não podem comer bifes todos os dias.


O desespero da direita é mostrado por mais um artigo do semanário cuja independência e isenção merecem alguma dúvidas e mostra que se agarra a tudo quanto possa manchar a imagem do atual Governo.


É evidente que a conjuntura pós-covid 19, o aumento dos combustíveis crescente a partir de outubro de 2021, com valores que será difícil de regressarem aos daquela, a invasão da Ucrânia pelo exército selvático de Putin, que teve como consequência as sanções à Rússia cuja retaliação não se fez esperar com consequências e condicionamento do fornecimento de energia com os eu encarecimento, a inflação na Europa, EUA e, obviamente em Portugal, que tem tido como resultado a queda do poder de compra, encarecimento dos bens de primeira necessidade, fenómenos não controláveis por qualquer governo.


A questão que se pode colocar é a de saber se, nas mesmas circunstâncias, a direita, o PSD, ou qualquer outro partido, teriam mecanismos mágicos para controlar a situação, aqui, em Portugal.


Tudo quanto digam não passa de conversa da treta. Também não basta que António Filipe do PCP escreva no Twitter que “Lamenta-se a pobreza como se fosse uma inevitabilidade, caída do céu como a chuva. Não é. A pobreza vem dos baixos salários e pensões em contraste com o aumento dos lucros e das desigualdades. É o capitalismo.”, viu-se o fracasso que foi a União Soviética e dos países próximos do comunismo.  Daqui decorre que não devemos estranhar que a credibilidade do sistema democrático esteja em queda em direção à extrema-direita devido à atuação dos partidos que, em vez de olharem para o país, olham para os umbigos partidários no sentido anteciparem uma potencial contagem de votos dos que antevendo ao poder em próximas eleições ficam com o olhar nos pequenos poderes que lhes caberão.


 


 

segunda-feira, 25 de abril de 2022

Uma pequena memória do 25 de abril de 1974

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O rádio despertador, acertado para as sete da manhã, no Rádio Clube Português estação onde estava sintonizado, ouvi um comunicado alertando a população para não sair de casa. Aguardei as notícias tinha havido o que aparentemente teria sido um golpe de estado. Rapidamente dei-me conta que era muito mais do que isso. Estava em curso uma revolução cujos contornos ainda eram duvidosos.


Como habitualmente preparei-me para ir para o trabalho, na altura na Rua Serpa Pinto ao Chiado. Tomei o metropolitano e saí no Rossio e dirigi-me como sempre para subir a pé a Rua Nova do Almada mas soldados por ali atentos limitaram-me o acesso dizendo que a zona estava interdito. Lá para cima na Rua António Maria Cardoso perto do local da empresa onde trabalhava na altura.


Voltei para trás e acompanhei na televisão o cerco à sede da PIDE/DGS.


As festas e os comícios de pela liberdade eram frequentes um deles foi por mim filmado ainda com uma Câmara de filmar Super 8 mm.


 



 


No princípio deste mês de abril regressei da Beira-Alta onde estive rodeado apenas por vegetação e pequenos terrenos cultivados, dantes para subsistência mas atualmente para ocupação do tempo livre cultivando para não terem a terra a mato.


A vida decorre no seu dia-a-dia em simultâneo com o chilrear dos pássaros como se Passos Coelho e o seu Governo não existissem. É uma região politicamente conservadora e tradicionalmente votante no PSD desde a revolução do 25 de abril. Receios arcaicos que lhes foram incutidos pela ameaça da perda das suas pequenas courelas, caso na altura certos partidos ganhassem as eleições. Esses receios ainda hoje subsistem nos mais velhos porque dos poucos que ficaram os filhos que partiram há anos para as grandes cidades à procura de outras formas de vida.


Após a demissão do Governo de Santana Lopes, e pela primeira vez, o Partido Socialista, com José Sócrates, conseguiu penetrar no distrito e ganhar aqui as eleições. Embora tenha havido algumas mudanças nas mentalidades, especialmente em Viseu, grande centro urbano da região, no campo a fidelidade ao PSD manteve-se apesar de vozes discordantes sobre este que está a governar no qual não se reconhecem e em que tradicionalmente votam por mais por tradição do que por consciência política.


No “campo” votam muitas das vezes em personalidades que, na sua ingénua “forma de ver”, são muito simpáticos ou falam muito bem e prometem muito, mas que depois fazem pouco. Nas eleições autárquicas o processo refina-se pois que “os influentes” da vila, da aldeia e do local dominam e controlam com a sua influência as populações.


Hoje em dia e após o 25 de abril de 1974 o modo de vida nada se compara ao que foi no passado. Os acessos à informação e o trabalho mais valorizado trouxeram a estas populações melhorias às suas condições de vida.


Como não compram jornais porque não lhes chegam às mãos e, mesmo que assim fosse, não pagariam para os comprar já que os recursos financeiros voltaram a ser escassos. Falam sobre política, mas daquela que lhes chega pelos quatro canais da televisão e seus comentadores. Para a maior parte não há dinheiro para satélite. Sobre a política que lhes chega a reflexão que fazem “ao seu jeito” nem sempre é acrítica mas plena de de senso comum. Região de pequenos proprietários onde o sentimento de posse da propriedade está muito arreigado e ainda cheio de receios ancestrais vindos do antigo regime.


É gente com filhos e netos que deixaram o campo e foram para a cidade, capital do distrito, tirar um curso superior para terem um canudo que lhes trouxesse promoção social mas que a maior parte das vezes de nada lhes valeu por falta de ofertas emprego. Os pais procuravam dar aos filhos uma forma de vida que não fosse cavar a hortas para cultivar batatas, couves e cebolas para consumo interno.


Nestes locais interiores o acesso aos cuidados de saúde sempre foi no passado um problema mas piorou nos últimos anos. A deslocação à cidade, para quem não tem transporte próprio, para uma consulta ou tratar qualquer assunto significa a perda de um dia completo devido à escassez de transportes públicos. A “carreira” passa às sete horas da manhã e só lá para o fim da tarde regressa. É o problema que resulta das privatizações tão valorizadas por esta direita. Há transportes se for rentável, caso contrários acaba-se com esses percursos a menos que sejam subsidiados. Paga-se a passagem e também através dos impostos. Isto é, justifica-se a privatização para tornar os transportes mais eficazes e rentáveis, depois, subsidiam-se os privados para manterem certas carreiras. Dinheiro que sai dos contribuintes na mesma. Quem ganha no final não é a população.


O 25 de abril para quem não o viveu não faz ideia de como Portugal se transformou.


Muitos na idade dos entre os 30 e os 41 anos e pouco mais, que andam para aí a aquecer as cadeiras dos gabinetes a viver à custa do orçamento mas que falam à boca cheia do empreendedorismo não fazem ideia do que era viver antes do 25 de abril de 1974. 

sábado, 27 de novembro de 2021

Rui Rio a esperança não morre e o sebastianismo nas eleições no PSD

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A propósito das eleições diretas no PSD, independentemente de quem as ganhe, é fácil antecipar que, durante as próximas semanas, ouviremos falar de entrevistas e comunicações até à saturação sobre a derrota ou a vitória de um dos ainda candidatos.


Permito-me fazer um prognóstico sobre quem vai liderar o PSD, se Rio ou Rangel. Com a esperança de me enganar acho que Rangel será o ganhador. E, se o for, é válido o pensamento de quem considera que foram comentadores na maior parte da comunicação social que para isso contribuíram.


Para os militantes do PSD, se não a maioria, o partido está há cerca de seis   anos fora da governação do país, e a saudade é muita, e muitos dos seus boys anseiam por cargos. Muitos embarcam no mito tipo sebastianista, isto é, delírio sentimental e ideológico, para eles verdadeiro, embora racionalmente falso. O “passismo”, é o motor dos militantes e adeptos do PSD que os força a acreditar na personificação de Passos Coelho e do seu ideário em Paulo Rangel.


 Como também salientei no  blogue com o título “As eleições diretas no PSD que podem transformar-se em indiretas” Sousa Tavares escreveu no semanário Expresso: “Rangel recusa-se a dizer o que fará se ganhar sem maioria absoluta ou que lhe permita governar em coligação à direita ou o que fará se o mesmo acontecer ao PS; Rio diz que o interesse do país e da governabilidade está à frente do interesse do partido e, portanto, facilitaria um Governo do PS minoritário, esperando que o PS fizesse o mesmo a um Governo PSD minoritário.”


A grande diferença é que Passos Coelho quando primeiro-ministro era pouco palavroso, nada meloso, pouco demagógico, transmitia segurança mesmo a quem não aderia às suas ideias neoliberais e, sobretudo, não era propagandista de ideias falsas, fazia o que estava nos seus projetos mesmo sabendo que desagradava, ao contrário de Rangel cujo discurso é perigosamente demagógico e falacioso e vive num ideal só dele sobre o que acha deve ser será um opositor e um primeiro-ministro.


Desde então a verdadeira identidade política do PSD foi-se perdendo com o Governo de Passos em coligação com Paulo Portas sob supervisão da troika. Estava a reajustar-se com Rui Rio quando apareceram os antigos apoiantes das políticas de Passos como Luís Montenegro e, recentemente, Paulo Rangel que irá contribui para a lavagem daqueles anos que tem estado em curso, para gáudio dos nostálgicos passistas.

sábado, 9 de outubro de 2021

O retorno dos coelhos

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O eterno retorno era uma doutrina dos estoicos retomada, em particular pelo filósofo alemão, Nietzsche segundo a qual há um eterno recomeço, isto é, uma série de acontecimentos idênticos aos precedentes. O estoicismo foi criado por Zenão de Cício, na cidade de Atenas, cerca de 300 a.C.. Os estoicos defendem a austeridade na virtude, o desprezo por todos os tipos de sentimentos externos, como a paixão e os desejos extremos e foi recuperado pelo cristianismo que afirmava e afirma que só "através da aceitação do destino e da renúncia às paixões, pelo que o homem deverá destacar-se pela indiferença face à dor e pela firmeza de ânimo perante os males e as agruras da vida”. Enfim, mais ou menos a apologia da austeridade aos níveis das agruras pessoais e bens materiais.


Não vou aqui dissertar sobre temas filosóficos, mas isto vem a propósito do que tem vindo a ser noticiado e comentado após a calma das emoções geradas pelos resultados das eleições autárquica. Interpretações que têm emanado dos comentadores políticos e fazedores de opinião, quais oráculos do tipo Pítias, sobre o futuro político, quer em relação ao partido dito perdedor, quer em relação ao partido dito ganhador oriundos da comunicação social.


Com é sabido, Carlos Moedas ganhou Lisboa, mas teve ao seu lado durante a campanha elementos que estiveram também em tempo ao lado de Passos Coelho. Moedas foi, e ainda é, um animado adepto saudosista das políticas de Passos, assim como os que o ajudaram na campanha como é o caso de Sofia Galvão, Miguel Morgado, João Marques de Almeida, António Leitão Amaro não são dedicados "passistas”.


Moedas integrou o XIX Governo Constitucional e que fez parte do Executivo durante a maior parte do seu período de vigência. Era considerado o braço-direito do anterior primeiro-ministro, facto que o colocou em destaque nas relações entre o governo português e os responsáveis da troika. Mais recentemente, a 30 de julho, Carlos Moedas, numa entrevista ao semanário NOVO, afirmou que “gostava de ver outra vez Passos Coelho num lugar de destaque". Segundo o semanário a frase é suficientemente ampla para nela caberem várias hipóteses, mas a “admiração” é indisfarçável.


Este enquadramento serve como justificação para o título do artigo e para alerta de que o retorno da direita passista ao poder pode vir a ser mais real do que virtual, caso Rui Rio não se candidate novamente à liderança do PSD ou se se candidatar não ganhar. Se assim for é certo que o poder do PSD fica novamente na mão dos neoliberais de Passos Coelho numa campanha a fazerem-se passar por sociais-democratas. Aliás, hoje o semanário Expresso publica um artigo de opinião do senhor de má memória que dá pelo nome de Cavaco Silva que o comprova: Cavaco diz que Governo de Costa “não foi capaz” de aproveitar as condições herdadas de Passos, (!?) e critica também os adversários do Governo, denunciando uma “oposição política débil e sem rumo, desprovida de uma estratégia consistente”.


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Começo por mencionar as minhas impressões sobre os comentários que se teceram e tecem em catadupa nos órgãos de comunicação social sobre o primeiro-ministro António Costa, o Governo, o PSD e Rui Rio durante a campanha eleitoral para as autárquicas e após as eleições.


António Costa desde que esteve na presidência portuguesa do Conselho da União Europeia e, tendo em conta as notícias que, entretanto, foram surgindo nos órgãos de comunicação e a que alguns socialistas chamam casos e casinhos, fica-se com a ideia de que o Governo, e sobretudo alguns ministros, entraram em roda livre, mesmo depois de junho quando do seu regresso. A coisa que já vinha de antes parece que piorou. Os casos que iam surgindo como sendo de casos e casinhos sucederam outros que o são de facto. Não é certo que algumas perdas nas autárquicas não tenham contribuído também para esses factos.


Chegado até aqui penso que António Costa deve começar a ter algum cuidado e prestar mais atenção e observar mais tudo quanto o rodeia. Ouvir neste caso não significa executar o que outros acham que deveria fazer, mas descobrir estratégias para o futuro próximo. Analisemos agora, com algum cuidado, os mais recentes comentários sobre António Costa e o seu Governo e também os comentários sobre a sucessão, ou não, de Rui Rio no PSD levantados após as eleições autárquicas. 


Quanto a António Costa e sem qualquer ordem cronológica detenho-me em algumas das afirmações que são sistematicamente repetidas nos comentários mais ou menos proféticos como a insistência na fragilidade do Governo após as eleições; remodelação do governo a ser feita após aprovação do orçamento (a única que poderá ter algum fundamento); perda de autoridade do primeiro-ministro; fadiga em relação ao Governo; o Governo está muito mais fraco após as eleições; a inversão da tendência política em Portugal; a semana tal foi um desastre para o Governo.


A somar a estes sinais amargos, as semanas a seguir às autárquicas foram um desastre para o Governo. Pedro Nuno Santos verbalizou — da forma mais bruta possível — tudo o que o opõe ao ministro das Finanças, a quem culpa pelo afastamento do presidente da CP. O descontentamento com João Leão será alargado a outros ministérios, como escreve o Expresso, mas a declaração do ministro das infraestruturas abriu a caixa de Pandora. Dificilmente os dois poderão coexistir num próximo Governo e vai ser interessante ver como se desfaz este novelo. Para somar à semana desgraçada, o ministro da Defesa decidiu aproveitar politicamente o fim do mandato do vice-almirante, louvado quase unanimemente pelo sucesso das vacinas, para despachar o Chefe de Estado-Maior da Armada e colocar Gouveia e Melo no posto.


Daqui as primeiras mexidas consequentes saídas da primeira reunião da direção socialista neste sábado que elegeu os dirigentes que integrarão a comissão política, o secretariado e a comissão permanente do PS


Quanto ao PSD e a Rui Rio parecer ser evidente a exploração jornalística de um dito “combate” dentro do PSD, que é o de “se concentrar naquele que é o combate maior que terá pela frente, que é o de se constituir como verdadeira alternativa ao Governo do Partido Socialista” como afirmou numa entrevista de Montenegro falando das rivalidades internas no partido, afastando-se estrategicamente dessas guerras. Faz-se de bom da fita, por agora, para depois atacar os despojos. Rio não está em condições de ser "alternativa sólida" ao PS. Acrescentou ainda que não pretende pôr-se já a caminho porque acha que o PSD ainda não está na hora de ganhar eleições e porque não acredita que o PSD sendo com Rui Rio ou sendo com Paulo Rangel não tem tempo de recuperar e renascer das perdas eleitorais.


Infeliz, à sua maneira, também está o PSD. A vitória de Lisboa e de Coimbra e o aumento total de câmaras deram a Rui Rio um sopro de vida, mas o combate interno intensifica-se — enquanto o PS sonha que Rio se mantenha no cargo. Com o PSD em convulsão, se Paulo Rangel conseguir ganhar as diretas a situação política muda: o curriculum de Rangel faz prever um PSD mais combativo, numa altura em que o PS ainda se encontra no cimo da colina, mas vai escorregando.


A proposição de que basta repetir uma mentira para que ela se torne verdade, uma das regras básicas da propaganda política, pode aplicar-se também num propósito de formulações hipotéticas, opiniões e suposições que sucessivamente se repetem mesmo que não sejam mentiras. Se se repetir uma ideia que não sendo mentira pode ser potencialmente uma verdade, ou seja, algo não verificado ainda, a sua repetição passada pelos “fazedores” da opinião pública pode ser vista como sendo uma verdade, embora não o seja ainda. É a chamada a ilusão da verdade.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

Voltar ao passado, não obrigado

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Todos queremos tudo, esquecendo-nos que ainda somos devedores de parte dos empréstimos que a troika nos trouxe em troca de medidas que a todos prejudicaram.


Quem está atento ao desenvolvimento das notícias ao longo dos anos, ou dos meses, sobre a política em Portugal acha, decerto, estranho alguns desenvolvimentos noticiosos que se vão repetindo exaustiva e sucessivamente ao longo de tempos bem definidos que nos podem levar a pensar num possível objetivo estratégico.


Poucas semanas após a tomada de posse do novo Governo os media TV iniciaram uma campanha de procura de “notícias” negativas sobre o SNS emitidas vezes sem fim, o Tejo sem a água que deveria vir de Espanha, os olivais do Alentejo e a degradação dos solos, as plantações em estufas e os abrigos contentores para os trabalhadores, a falta de médicos e enfermeiros nos hospitais, a falta de funcionárias auxiliares nas escolas, um rol sem fim. A estas e outras notícias acrescente-se ainda as greves para aumentos na função pública, reivindicações da PSP e da GNR, à esquerda e à direita do PS exige-se baixar o IVA da eletricidade de 23% para 6%, atrasos nos pagamentos do estado a empresas, enfim, a falta disto e daquilo, pressões para baixar impostos, aumentar a despesa, exige-se investimentos que faltam aqui e ali, e reivindicam-se subsídios para tudo e mais alguma coisa.


Todos queremos tudo e cada vez mais fazendo passar a imagem de que os recursos não são finitos e que há prioridades. O desconhecimento desta realidade parece ser intencional. A direita, em especial os dois candidatos à liderança do PSD, dizem que tudo está por fazer, mas que eles tudo poderem fazer pelo país. Prometem reformas do Estado nada dizendo como, nem quais, nem com que recursos.


É por demais conhecido o que a direita prometeu durante a campanha eleitoral se fosse poder: baixar impostos, fazer mais investimento, melhorar o SNS, o que é de facto, necessário, sem apresentar um projeto concreto, sem dizer como, nem como obter o financiamento para tais aventuras. Rui Rio apresentava na altura uma contas atabalhoadas em nada convincentes.


Porque as contas públicas estão certas e o défice diminuiu e há uma pequena margem orçamental passámos a reivindicar mais do que é possível ameaçando o que todos conseguimos com o nosso esforço ao longo dos últimos quatro anos e meio.  


Um apagador parece ter passado pela nossa memória coletiva, social e histórica, somatório de todas as memórias individuais, pelo menos de algumas, a maioria.  O esquecimento da tragédia do passado que pode representar um alívio pode voltar a repetir-se novamente no futuro. Para que tal não aconteça é necessário que as lembranças sejam reconstruídas e reconhecidas por todos.


Há reivindicações justas, necessárias, obrigatórias até, mas também acho que ninguém pretende voltar a um passado constrangedor causado por pressões sucessivas sobre os governos com reivindicações por vezes irrealistas e oportunistas sem ter em conta que todos, mesmo os que reivindicam, vão pagar com impostos tudo aquilo que obtiverem.


Para quem quiser reavivar a memória abaixo faço uma síntese, ainda que incompleta do passado relativamente recente que nos levou a uma austeridade desenfreada. O despesismo foi o mote para outros que a seguir nos governaram poderem retirar o pouco que já tinha sido conseguido, elegendo como meta o empobrecimento da maioria e o enriquecimento de poucos, é o que as estatísticas e estudos nos dizem. Penso que ninguém quer novamente voltar a um tempo como esse.


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Para contextualizar é inevitável regressar um pouco ao passado ainda presente nas nossas memórias antes da troika atracar em Portugal para corrigir desmandos da governação de Sócrates com a aceitação implícita do então seu ministro das finanças Teixeira dos Santo que quase nos conduziram á bancarrota. Desmandos despesistas e gastos desnecessários em contrapartida com cortes em salários, despesas necessárias e aumentos de impostos não nos salvaram dum governo de direita em comunhão com a intervenção externa.


Tudo começou com cedências sucessivas às pressões dos vários lóbis de modo semelhante aos pedidos e exigências de modo idêntico ao que agora se passa.


Ao apresentar o Orçamento de Estado para 2009 dizia o primeiro-ministro José Sócrates garantir programas para o alargamento da rede de creches e lares de idosos. Sobre o Orçamento de Estado de 2009 dizia o então primeiro-ministro que as instituições particulares de solidariedade social beneficiariam de transferências de meios públicos na ordem dos 1,2 milhões de euros. Além destas áreas sociais, Sócrates referiu que o Orçamento investiria na melhoria dos cuidados de saúde Na sua intervenção, José Sócrates procurou também evidenciar que, no ano seguinte, 2009, os funcionários públicos seriam aumentados acima da inflação (2,9 por cento) e afirmava que “o Governo fará do sector da educação ‘uma prioridade’, a par da ciência”.


Durante o seu segundo mandato, iniciado em outubro de 2009 e que não chegou ao fim, o primeiro-ministro José Sócrates anunciava em setembro de 2010 um novo pacote de medidas de austeridade como o aumento do IVA para 23% e um corte de até 10% na despesa total de salários do sector público, entre outras medidas de austeridade aprovadas em Conselho de Ministros extraordinário como o aumento de impostos, corte de salários e prestações sociais, congelamento de todo o investimento público até ao final do ano e redução do número de contratados na função pública. Entre as dez principais medidas de abate da despesa destacadas pelo primeiro-ministro conta-se a redução média da massa salarial dos funcionários públicos em 5% nos vencimentos entre 1.500 e 2.000 euros, a redução será de 3,5% nos escalões mais elevados, o corte chega aos 10%.


Estimava então que iria reduzir a despesa do estado em 3.400 milhões de euros e aumentar a receita em 1.700 milhões de euros.


O primeiro-ministro, na altura José Sócrates assumiu perante os portugueses que as medidas do pacote eram “difíceis e exigentes”, com a necessidade de honrar compromissos internacionais e enviar «sinais convincentes e claros» aos mercados, que nas últimas semanas tinham colocado Portugal sob fortes restrições à obtenção de crédito e afirmava que «estas medidas só são tomadas quando um político entende em consciência que não há nenhuma outra alternativa. foi essa a conclusão a que cheguei agora e não em maio». Teixeira dos Santos desafiava quem achasse que se deve cortar mais na despesa para evitar aumento de impostos que apresente propostas adicionais.


Face a estas medidas a CGTP, UGT e STE (Sindicatos dos Quadros Técnicos) ficam contra cortes de salários na função pública e dizem que são sempre os mesmos a pagar a crise.


As estruturas sindicais da administração pública, da CGTP e da UGT, em uníssono diziam que o corte em 5% nos salários da função pública anunciados pelo Governo iria suscitar protestos por parte dos trabalhadores porque para a coordenadora da Frente Comum da Administração Pública (CGTP) Ana Avoila, as novas medidas de austeridade eram «provocatórias e inaceitáveis».


«O descontentamento dos trabalhadores vai decerto culminar numa greve». O secretário coordenador da Frente Sindical da Administração Pública (UGT), Nobre dos Santos, também se mostrou preocupado com as «medidas anunciadas pelo Governo, porque levam a uma perda efetiva de rendimento dos trabalhadores». São os mesmos argumentos de sempre «mais uma vez quem paga a crise são os trabalhadores portugueses: os da administração pública e de uma forma, e os do sector privado de outra».


Para o ministro das finanças Teixeira dos Santos as remunerações iriam ser reduzidas e seriam mesmo para continuar e as reformas que até ali não eram tributadas em IRS passariam a sê-lo com a frase na altura “…mas por que é que os reformados não hão de pagar IRS?...”.


Apesar da grave situação económica (e agora também política) que o país enfrentava, as medidas de austeridade apresentadas pelo XVIII Governo não convenceram o Parlamento e a oposição alega que este novo Programa de Estabilidade e Crescimento vai prejudicar ainda mais os já desfavorecidos. A votação contra o PEC 4 do PSD, CDS, PCP e BE fizeram com que o primeiro-ministro viesse demitir-se e a afirmar que a oposição rejeitou não o PEC4, mas "as medidas que o Governo propôs para evitar que Portugal tivesse de recorrer a um programa de assistência financeira externa."


José Sócrates apresenta a demissão em 23 de março de 2011, devido à rejeição do novo Programa de Estabilidade e Crescimento (PEC) 2011-2014. Manteve-se em funções como Governo de gestão até 21 de junho de 2011. Foi ainda este XVIII Governo Constitucional a negociar com a “troika” o pedido de ajuda financeira internacional.


Rematou com a passagem de culpas para Passos Coelho e para os outros partidos ao dizer que a “crise política, neste momento, tem consequências gravíssimas sobre a confiança que Portugal precisa de ter junto das instituições e dos mercados financeiros. E, por isso, os que a provocaram, sem qualquer fundamento sério e sem alternativas, são responsáveis pelas suas consequências."


O que se passou então com a tomada de posse do XIX Governo Constitucional depois da demissão de José Sócrates e das eleições que elegeram uma maioria absoluta em que dois partidos, PSD e CDS, se coligaram para formar governo?


Várias foram as causas que antecederam este desfecho: no dia 12 de março, Pedro Passos Coelho, presidente do PSD, afirmava que as novas medidas do PEC que previa, entre outros, a revisão em alta da taxa de desemprego de 10.8% para 11.2% e o corte nas pensões acima dos 1500€ através da aplicação da Contribuição Extraordinária de Solidariedade, não contariam com o voto dos sociais-democratas.


José Sócrates, em entrevista à SIC, advertia na altura que a inviabilização do PEC abriria uma crise política com consequências «terríveis» para Portugal e falou do FMI e das suas consequências a 23 de março, o Parlamento aprovou os projetos de resolução que rejeitaram o PEC por parte da oposição a o país.


Sócrates classificou a atual crise como «desnecessária, evitável e inoportuna», a acontecer no pior momento para Portugal. Culpou os cinco partidos da oposição que apelidou de «coligação negativa», lamentando que nenhuma força política tenha estado disponível para a negociação do PEC, acusando os partidos de nunca terem querido comprometer-se com a governação


Em Bruxelas, Jean-Claude Juncker, presidente do Eurogrupo, não vê «nenhuma razão» para alterações ao PEC e afirmou que obteve garantias claras de Pedro Passos Coelho de que as metas do programa de estabilidade acordado entre Portugal e a Zona Euro serão cumpridas caso o PSD venha a liderar o próximo Governo. Isto é, a rejeição do PEC 4 que serviu para a demissão do primeiro-ministro e lançar eleições antecipadas foi o conteúdo do mesmo PEC 4 que Passos Coelho assumiu como metas a cumprir para coma U.E.


Em julho de 2011 Passos Coelho, já primeiro-ministro, admitiu que o Governo foi além das medidas incluídas no acordo com a troika, mas salientava que isso era essencial para o regresso de Portugal mais cedo aos mercados internacionais e admitia que o Governo tinha incluído no seu programa não apenas as orientações que estavam incorporadas no memorando de entendimento mas também "como várias outras que, não estando lá, são essenciais para o sucesso desta transformação" do país.


Passos Coelho referiu-se, na ocasião às medidas a antecipar de 2014 para esse ano com o objetivo de reduzir a despesa pública em "cerca de 600 milhões de euros", tendo informado na sua comunicação ao país que seriam centradas nas áreas da segurança social, saúde, educação e empresas públicas.


Não se ficando por aqui tratou dos cortes de salários e pensões. Cerca de dez dias após ter tomado posse, o novo primeiro-ministro anunciou a criação de uma sobretaxa de IRS, equivalente a 50% do subsídio de Natal que fique acima do salário mínimo (485 euros) que afinal verificou tal medida tinha sido desnecessária porque a meta do défice para esse ano, na altura 4,2% tinha sido cumprida.


Houve ainda mais, anunciou também a eliminação dos subsídios de férias e de Natal para os funcionários públicos e pensionistas que ganhassem mais de 1100 euros (o corte progressivo começa para quem recebe mais de 600 euros) e esta medida teria efeitos em 2012, 2013 e 2014., tendo todavia esclarecidos que o retorno dos subsídios seria provisório e que voltariam a ser pagos na totalidade apenas a partir de 2018. Se nessa altura viesse ser governo o que não se verificou seria a promessa cumprida. Desculpem-me a minha desconfiança, mas duvido.


Haveria muito mais para continuar, acho, todavia, que esta amostra é suficiente para termos todos cautela com o que se pretende impor ao Executivo pressionando no domínio do despesismo acelerado como aqueles com que somos diariamente confrontados nos jornais televisivo. Todos queremos tudo, esquecendo-nos que ainda somos devedores de parte dos empréstimos que a troika nos trouxe em troca de medidas que a todos prejudicaram.

quarta-feira, 9 de outubro de 2019

Como chegámos ao CHEGA

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A entrada do “Chega” na Assembleia da República pode ser um rastilho para a xenofobia, o racismo e o populismo, esta última prática política também querida ao Iniciativa Liberal.


Se bem nos recordamos a personagem política André Ventura começou a ter visibilidade quando foi chamado para ser candidato do PSD à Câmara de Loures nas últimas autárquicas cuja responsabilidade podemos atribuir a Pedro Passos Coelho que, contrariamente aos valores a que estávamos habituados no PSD não retirou a candidatura a André Ventura quando este começou obsessivamente a fazer declarações racistas sobre os ciganos e outras enormidades, atributos do perfil das extremas-direita.


Imagem jornal Expresso junho de 2017


Façamos justiça ao CDS ao retirar-se da candidatura que tinha em coligação com o PSD que Pedro Passos Coelho ignorou. Passos Coelho não retirou o tapete partidário àquela figura moralmente condenável.  Partidos da extrema-direita como o de Ventura com discursos populistas e de índole racista e anti etnias poderão levar outros partidos da direita a uma inclinação para um discurso também populista para captarem alguma atenção da faixa de eleitores que, desnorteados, foram capturados pelo radicalismo extremista.


Não sei se o futebol influencia ou não alguns eleitores, o que se sabe é que Ventura é benfiquista e que desde há algum tempo faz no CMTV comentário desportivo, digo, futebolístico, e escreve artigos de opinião para o Correio da Manhã que, por norma, acolhe sempre de bom agrado todos quantos sejam do leque político e ideológico das direitas.


Não terá sido um caso pontual que, no concelho de Alvito no distrito de Beja, um sujeito questionado por uma equipa da TVI no Jornal das 8, em 8 de outubro, ao perguntarem-lhe porque votou no Chega ele tenha respondido: “primeiro porque o Ventura é do Benfica e segundo porque está contra os ciganos”.


Não me admiraria que alguns dos que o escutam naquele canal de televisão e que sejam do seu clube possam ter-se deixado influenciar devido, por um lado, à sua personalidade benfiquista e, por outro, pelo seu xenófobo-populismo. Atenção, este epíteto nada tem a ver com o clube de que ele é fã. Que fique bem claro.


Ventura é “um oportunista, levado ao colo pela comunicação social, cheio de dinheiro, com outdoors em todo o país, apropriando-se de parte do nosso discurso - sem convicção - rouba-nos anos de trabalho” quem afirmou isto foi o seu opositor e ao mesmo tempo concorrente do PNR. “É muito triste” terminou ele.


Ontem no Prós e Contras assistimos a André Ventura, essa pessoa(?) não apenas anti ciganos, mas, quiçá, imbuído também pelo ódio para com outros setores sociais mais fragilizados e outras etnias, a insurgir-se, indignado, contra a imprensa internacional que se tinha referido a ele e ao seu partido como sendo de extrema-direita (podem ver aqui o vídeo aos 44 minutos) e não se referiram à extrema esquerda. Acrescentou ainda que, a comunicação social portuguesa deu cobertura a essas notícias. Será que para André Ventura a censura será o meio para os fazer calar? Ou será também um princípio a encarar no chamado projeto desse abjeto partido. A cegueira política de Ventura é tão evidente que nem se dá conta do que diz, nem do que diz pretender fazer.


A perda de votos do CDS e a pouca ou nenhuma dinâmica que Cristas imprimiu ao partido e até alguns neoliberais descontentes com o PSD terão optado por colocar o seu voto de protesto no Chega e, também, no da Iniciativa Liberal. A mensagem que foi sendo passada de que os partidos tradicionais eram todos a mesma coisa e onde grassava a corrupção contribuiu para a eleição de partidos envoltos em nebulosas contradições nas propostas a maior parte, senão todas, demagógicas, disparatadas e inexequíveis.


O PCP e o BE não terão sido responsáveis pela ascensão de partidos da extrema direita, mas noutro sentido o PCP deve fazer a sua autocrítica. Se perdeu votos nos grandes centros urbanos aos sindicatos por ele controlados o deve. Os portugueses não gostam de greves e manifestações sistemática de cariz mais ou menos corporativa desencadeados por Mário Nogueira da FENPROF com os professores, e da CGTP com o radical anti patrões Arménio Carlos. Veja-se também o caso dos sindicatos de direita como a dos motoristas de matérias perigosos cujo seu representante Pardal Henriques candidato pelo PDR que obteve 0,18% a nível nacional. Será a condução desta greve não terá tido influência.  


Até o PAN, o partido dos animais e dos vegans juntamente com uma miscelânea de ideias ecológicas, conseguiu aumentar substancialmente o número de deputados. Irá este contribuir para o desenvolvimento do país e as das pessoas? Penso que não. O que poderá acontecer é andar em círculos e saltitante durante a legislatura se ela chegar ao fim dos quatro anos.


Como é possível compreender que no nosso país o Partido Aliança de Santana Lopes que, apesar de ser da direita liberal é um democrata cujas ideias já são bem conhecidas e que poderia dar um contributo positivo no parlamento ficassem de fora e partidos com um discurso sem consistência e com mensagens fora do baralho como o da Iniciativa Liberal e outros como o Chega elegessem deputados?

sexta-feira, 30 de agosto de 2019

O diabo da ficção

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O jornal Público publicou um artigo de opinião que parece querer fazer dos leitores daquele diário ignorantes e patetas no que à política se refere, totós ou outros com idêntica terminação.


Não será por ignorância, mas por ideias preconcebidas que o artigo tenta baralhar e misturar os dois diabos a que se refere no que, decerto, estão também na cabeça da autora. Existe apenas um diabo o de Passos, o outro está a ficcioná-lo.


O “diabo” a que Passos se referia, cuja imagem parece querer adocicar, era outro, e noutro contexto. Não era o da recessão económica que viria com aquela solução, até porque, o executivo a que ele presidia,  na altura, disse várias vezes que a recessão estava a acabar e que  era a vez do crescimento económico.


O diabo a que Passos se referia era o que iria acontecer com medidas que poderiam vir a ser tomadas pelo governo então constituído pelo PS com o apoio parlamentar de partidos à sua esquerda (PCP e BE). Como por exemplo o regresso aodespesismo. Por favor, não queiram transformar Passos num adivinho que previu, na altura, o que está a acontecer agora, ao fim de cinco anos! 


Ao que António Costa refere não é nenhum diabo, é sobre a realidade que os organismos internacionais e a União Europeia preveem e que a Alemanha também já assumiu pelo que está a tomar medidas.


Se vai aparecer um diabo é uma recessão que nada tem a ver com os diabos internos e assombrações de Passos por a direita ter perdido o seu lugar na governação.


É um artigo de opinião e, como tal, vale o que vale. Mas isto é uma pequena amostra de potencial manipulação de leitores.


É este o jornalismo que temos e, cuja parte a que me refiro poderia muito bem ser colocada numa rede social com o objetivo de baralhar opiniões.

quinta-feira, 23 de maio de 2019

Regresso ao passado e a cereja em cima do bolo

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Rui Rangel é um dos representantes de um passado triste do PSD e cuja estratégia errada nesta campanha eleitoral manteve sem qualquer mutação. Rangel é a personificação do liberalismo de Passos trazido para 2019 e a recusa da social-democracia que Rui Rio defendeu no início do seu mandato. Rangel quer manter-se à tona, mas a boia que usa parece já estar furada.


O PSD e Paulo Rangel tentaram envolver Cavaco Silva na campanha para as eleições europeias vindo para o terreiro fazer afirmações sobre familiares, tendo sido arrasado achou melhor remeter-se novamente ao silêncio.


Falhada esta tentativa foram buscar Passo Coelho para salvar alguma coisa que pudesse ser salva como pretexto para lançarem acusações ao PS de esconder o passado. De facto, o caso Sócrates foi um anátema que marcou o passado do partido. Passos Coelho por seu lado é outro anátema do passado do PSD que  a pretesto de salvar Portugal deixou marcas profundas na população e caso não se tivesse encontrado outra alternativa estaríamos na mesma, senão pior, dento e no âmbito da U.E.


Passos Coelho é, de facto, a cereja colocada em cima dum bolo estragado que serviu apenas para recordar e comemorar nesta campanha um passado triste. Portugal e a população não querem recordar nem um, nem outro passado, ambos tristes cada um à sua maneira.


Paulo Rangel será visto sempre como o mentor do plano péssimo que tem prejudicado o PSD nesta campanha eleitoral. Aliás, todos sabemos que Rangel é uma espécie de rolha de cortiça que consegue vir à superfície sempre que oportuno. Rangel também não é a flor que se cheire no passado do PSD. Ele mesmo foi um grande defensor das medidas de Passos Coelho no tempo da troika.


Se o PSD ficar abaixo dos 25% há dois culpados: o primeiro Rui Rio por ter escolhido Paulo Rangel para cabeça de lista às eleições europeias e o segundo o próprio Paulo Rangel por insistir em temas já desgastado ao longo dos último quatro anos. Rui Rio, em vez de um bolo fresco e bem decorado para mostrar renovação insistiu em oferecer a fatia do mesmo bolo já congelado.


Paulo Rangel, em 2010, foi candidato à presidência do PSD perfilando-se desta forma como primeiro oponente de Pedro Passos Coelho. Esta candidatura serviu para dar imagem de democracia interna porque, de facto, a linha, e a proposta de Paulo Rangel eram muto idênticas. Rangel foi uma espécie de peão para passar uma imagem de concorrência interna. Após o PSD ter ganho as eleições e durante toda a vigência de Passos Coelho ele foi um dos seus mais acérrimos defensores.

segunda-feira, 22 de outubro de 2018

Crónicas, opiniões e Memórias II de Cavaco

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Para quem escrevem os autores de crónicas, opiniões, comentários e outras peças das mais variadas estirpes que se publicam na imprensa escrita? Para o comum do povo não será, com certeza, porque ele não compra jornais e, quando compra, prefere os tabloides de média e baixa qualidade jornalística. Mas vê televisão e compra revistas de coscuvilhices e outros assuntos do mundo caseiro com as últimas modas, ditos e mexericos das ditas “personalidades públicas”.


A pergunta mantem-se: para quem escrevem eles? Talvez para elites que compreendam o seu fraseado. São os fraseadores de opiniões, de escrita complicada lidas apenas pelos que já não precisam de ser doutrinados, isto é, algumas elites de intelectuais que entendem a linguagem rebuscada e metafórica dos escritos das opiniões dos factos mais correntes e comuns da nossa quotidiana política. Quem viveu no tempo da censura sabe que quem escrevia tinha que fazer ginástica para passar as suas ideias. Outra pergunta se pode colocar é a de saber se escrevem apenas para os seus fiéis leitores, sempre os mesmos?  


Então dirão alguns: viva a falta de qualidade e escreva-se tal e qual se fala e pensa no quotidiano popularucho! Veja-se o caso nas redes sociais como as mensagens (e fake news) passam, circulam e permanecem na memória de quem as lê.


Não, não viva a falta de qualidade!


Escrevo na casa de campo na Beira Interior, lá mesmo no meio, onde a Internet e o cabo ainda não chegam, e um modem tipo Hotspot faz o serviço pago ao dia ou ao giga. Citadino bem arreigado desde os meus cinco anos é na grande cidade onde me sinto bem, mas é aqui, rodeado de campo e de vizinhos cuja vida é passada no cultivo da terra para consumo próprio que, quando não consumido e em excessos é desperdiçado. É um modo de vida para fazer passar o tempo onde a monotonia dos dias apenas se altera nas épocas do plantio e da colheita para consumo próprio. Toda esta gente vive do que plantam num sem fim das estações do ano. É um carrocel onde os dias se sucedem sempre num ciclo infernal e espaçado pela obsessão do cultivo dos produtos das épocas. O que produzem não compram, se não compram não entra para o consumo interno. Mas compram. Compram sementes, compram os rebentos dos vegetais que plantam e regam depois do amanho da terra, mas é aqui que em algumas épocas que encontro a paz de espírito para olhar a política com outros olhares e perceber o conservadorismo destas espécies de gentes da beira interior.


Ao escrever esta pequena e simplista crónica, sim, simplista, porque nada tenho de arrogante, sou confrontado com a notícia de pré publicação cujo lançamento vai ser feito a 24 de outubro pelo ex-Presidente da República, Cavaco Silva, do segundo volume de memórias sobre os anos passados no Palácio de Belém, "Quinta-feira e outros dias". Ora aqui está o momento Zen do dia, estórias contadas ao nível do romance político contado ao seu modo. Como bom democrata se estivesse na capital não faltaria ao lançamento já que mais não fosse para fazer número para a enchente. Ficaremos a conhecer momentinhos deprimentes das historinhas de Cavaco quando foi presidente.


Nem de propósito, encontro-me na zona do que foi, em tempo, chamado o “cavaquistão”, tempo do qual muita desta gente das hortas ainda sente saudades, e salta-me esta boa notícia sobre a grande obra cavaquista que fala de Paulo Portas, António Costa, PCP, BE Passos Coelho e mais não digo.


Para terminar e agitar as águas sabem que Marco António Costa, ex-vice-presidente do PSD na anterior direção social-democrata, assume “que foi com “muito orgulho” que foi porta-voz do partido e diz esperar que Pedro Passos Coelho regresse”?

domingo, 23 de setembro de 2018

Senhor contente e senhor feliz ou as lideranças para a destruição

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O senhor Santana sonhou há muito em ter o seu próprio partido e surgiu agora a sua oportunidade. A maneira mais fácil que encontrou para tal foi a fragilidade e a divisão que encontrou no seu partido o PPD/PSD como ele gosta de chamar.


No seio do PSD encontra-se bem instalada a sucia admiradora e seguidora de Passos Coelho que apesar da sua saída continua a manter-se no ativo. Não admira que, portanto, logo a seguir à constituição do partido Aliança do senhor Santana causou um cisma no partido mais pela emoção da perda para Rui Rio do comando.


Entretanto, pelo meio das convulsões provocadas pelo cisma os que ainda não foram convencidos pelo senhor Santana organizam-se para tentarem acabar com o que restará dos destroços do PSD.


Nesta linha encontra-se o movimento “Chega” à frente do qual se encontra André Ventura, anti cigano, “passista” neoliberal de tendência anti étnica e pro racista que foi candidato pelo PSD à Câmara de Loures.


O movimento “Chega” lançado pelo atual vereador do PSD em Loures destina-se a substituir Rui Rio na liderança e colocar o partido no "espectro ideológico do centro-direita português", com grande objetivo da eleição de uma nova liderança do PSD e a apresentação, a todas as distritais do partido, de um documento global de compromisso com os valores da social-democracia portuguesa (?). Será quer podermos esperar de gente como esta que o PSD restabeleça os valores da social-democracia. Todos nos recordamos como o slogan para reeleição de Passos Coelho no congresso era “Social-democracia, sempre!”, coisa que, ele e o seu grupo que deixou como semente, nunca foram.


Vem agora este falso social-democrata contribuir para mais divisões no PSD. Não é gente como esta, senhor Santana e senhor Ventura que farão que o PSD seja uma oposição credível. O que está em causa para aquele “senhor feliz” e para este “senhor contente”  são questões de projetos pessoais e de visibilidade política, ou, então, são apenas títeres de forças internas no partido, mais fortes do que se pensa que Passos Coelho deixou plantados e que não se mostram publicamente.


Aliás, no artigo de opinião contra a não nomeação de Joana Marques no cargo de PGR, escrito de Passos Coelho, publicado no órgão oficioso da direita encontramos alguns sinais se lido nas entrelinhas.

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

Resistência à mudança no PSD

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Verifica-se no interior do PSD uma tendência para opiniões mais ou menos radicalizadas quanto a orientações de política partidária, mas que deveriam ser mais de reflexão ideológica interna. A exaustão neoliberal de partidários da linha seguida por Passos Coelho não abandonou o aquartelamento derivados da síndrome da perda do poder. Isto agrava-se pelo facto da tendência para resistir à mudança de opinião derivada das mudanças de opinião sobre o que ser o partido deve ser no futuro, mas há várias camarilhas, isto é, grupos colocados em lugares de influência que os utilizaram, ou não, em seu benefício e no dos seus protegidos lesando interesses mais gerais criados durante os longos anos de governação neoliberal do PSD de Passos Coelho.


No interior do PSD está formalmente estabelecida a resistência ao novo líder do partido, cometida pela direita neoliberal infiltrada durante o mandato de Passos Coelho, contra o restabelecimento ideológico dos princípios da social democracia.


Ouvem-se por aí militantes de destaque do PSD em debates a tentarem depreciar os aspetos ideológicos do partido que, por inerência, estão presentes em todos os partidos consignados nos seus programas que são, ou deveriam ser, uma orientação para os seus eleitores. Não se percebe, portanto, porque aqueles senhores afirmam que as questões ideológicas do partido não estão presentes. Esta tomada de posição serve os intentos das alas mais neoliberais do partido para nos fazerem crer que são um partido pragmático onde a ideologia não está presente.


Com Passos Coelho o partido virou radicalmente à direita, agora, Rui Rio pretende virar-se contra a ortodoxia da oposição interna deixada pelo anterior líder e centrar o partido, isto é, colocá-lo no centro direita. O caso da bancada parlamentar do PSD é a outra parte oposicionista da oposição interna a Rui Rio conforme foi demonstrado pela a eleição atribulada dos votos em Fernando Negrão para líder da bancada.


Com Rui Rio as pressões internas irão manifestar-se ainda mais e no segredo dos corredores do partido para não se assumir o posicionamento ideológico da social-democracia que há muito perdeu, não havendo a certeza se alguma vez o tenha sido. Rio está a tentar retirar o partido do acantonamento neoliberal onde o colocaram a reboque da troica, ou melhor, aproveitando-a para os seus objetivos governativos cujos projetos e promessas pré-eleitorais vieram posteriormente a abandonar sempre a pretexto da intervenção externa. Os comentadores afetos ao PSD, quando atualmente pretendem referir-se ao governo da aliança PSD-CDS enquanto tal, em vez da utilização do nome do partido preferem mencionar apenas governo do tempo da troica. É o mesmo que ocultar o sol com a peneira.


Face à tentativa de Rui Rio pretender recentrar o partido para o retirar do seu acantonamento neoliberal o CDS reivindica agora que as ideias de Rui Rio são as mesmas do CDS chegando Assunção Cristas a afirmar que as prioridades de Rui Rio “já fazem parte do ADN do CDS”. O CDS quer mostrar uma viragem à esquerda e, ao mesmo tempo, mostrar que é de direita. No congresso que se vai realizar-se em março quer apresentar-se por um lado como um partido com preocupações sociais e, por outro, que é um partido de direita reformista para tentar captar os votos dos adeptos mais à direita e adeptos das políticas de Passos Coelho. O CDS,  depois de ter apoiando o discurso neoliberal e anti geracional de Passos, e de ter ultrapassado todas as linhas vermelhas quando esteve em coligação com o PSD, tem o descaramento de denominar o texto a apresentar ao congresso “Portugal: compromisso de gerações” e que pode ler no jornal Expresso. Segundo indica a moção, é livrar o CDS de “preconceitos” para se apresentar como um partido não de “quadros” e “ricos”, mas de todos, e até como a escolha mais fresca, “irreverente”.


Ao CDS pelo menos atrevimento e descaramento não lhe faltam. Para eles o que é hoje pode já não o ser amanhã.

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Pedro e Rio a carga do passado e o trampolim para o futuro

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A) O Pedro


O 37º Congresso do PSD abriu a porta com o já esperado discurso de Passos Coelho que, dito à laia dum mestre-escola do passado, foi enfadonho e não trouxe nada de novo. Foi uma volta e uma revolta com desabafos sobre o passado, foi a declaração da síndrome de perda de poder e a tentativa para capitalizar (para o seu ego) os sucessos do atual Governo com a demonstração de alguns laivos de usurpação descarada.


Mais uma vez Passos Coelho utilizou um apagador de giz para apagar o que foi gravado, pelo seu governo, com ferros em brasa na memória da maioria das pessoas. Mais uma vez, e como já nos habituou, omitiu, alterou, deturpou, misturou realidades diferentes, enfim, utilizou a demagogia para se autojustificar das políticas que conscientemente praticou e continuaria a praticar caso viesse a ser novamente governo.  A síndrome da perda de poder continua a fazer dele um político do passado, neoliberal, com uma ilusão doentia e persistente que também passou aos seus fiéis diletos, a de que poderia ter governado durante uma legislatura completa com uma minoria de direita da Assembleia da República.


Para demonstrar a sua tese do diabo apresentou uma lista de países com índices de crescimento muito superiores ao nosso para ignorante iludir. Uma comparação linear, sem sequer tomar em conta outros indicadores, com países de realidades políticas e sociais diferentes das nossas, com governos de direita cujas práticas democráticas levantam sérias dúvidas, alguns deles até com governos próximos da extrema direita. Terá sido uma projeção/ identificação com as políticas que Passos gostaria de ver implementadas no nosso país?  Por outro lado, são países que não estiveram sujeitos a intervenção financeira nem tiveram durante esses períodos governos que destruíram a economia em nome do que chamavam reformas estruturais.


Mas tanto se fala no PSD de reformas estruturais que se esquecem de que estiveram cerca de dez anos consecutivos no poder com Cavaco Silva mais cinco consecutivos com Passos Coelho que como já disse várias vezes, fez promessas que não cumpriu e mentiu ao prometê-las e omitiu sobre o que pensava fazer quando estivesse no governo, isto entre 2011 e 2015.


Enfim, um lamento do poder perdido e o anseio pela vinda do diabo que o ajudasse.


 


B) O Rio


Rui Rio no seu discurso de abertura foi mais coerente e forte do que o seu antecessor. Não agitou as águas do congresso com aplausos e é compreensível. Nas eleições diretas Rui Rio não obteve uma vitória retumbante, ganhou com escassa margem tendo obtido 54,3% dos votos relativamente a Santana que obteve 45,6%. A vantagem de apenas 8,7% dos votos não lhe irá dar margem de manobra suficiente para poder agradar à ala neoliberal apoiante de Passos Coelho que foi muito aplaudido.


O partido está radicalmente dividindo entre duas forças que se querem fazer ouvir uma com potencial matriz social-democrata e outra de direita neoliberal com saudosismos dum passado e que, como Passos Coelho ainda não se purificou do trauma das eleições ganhas, mas perdidas no Parlamento.


Tenho afirmado neste blogue que o PSD com Passos Coelho perdeu a sua identidade como partido social-democrata, embora saiba que não foi bem assim. O que se passou foi a radicalização do partido à direita que, por si mesmo, já era de direita. Aliás no Parlamento Europeu o PSD está inserido na família dos liberais e não dos sociais-democratas. Este conceito voltou a aparecer com Passos Coelho no último congresso quando surgiu o slogan “Social-democracia sempre!”. Volta agora a surgir com Rui Rio como uma espécie de libertação do passado neoliberal preconizado pelo anterior líder.


Não nos iludamos, o PSD continuará a ser um partido de direita que se radicalizou, basta ver o germe deixado por Passos Coelho que não deixarão que Rio faça uma ligeira inclinação mais para o centro. Nem tao pouco o discurso conciliador de Santana Lopes irá possibilitar isso. Está como afirmei infiltrado o vírus do “passismo”. O descontentamento dessa “pedra mental” que é Hugo Soares e a intervenção de Luís Montenegro, entre outros não manifestos, são disso a prova. Rui Rio ainda sem começar já tem a cabeça a prémio e sofre ameaças cuja origem está definida: os eis passista ressabiados. Disse Montenegro que, à semelhança do seu mentor dileto, também anseia pela chegada dos diabos, mas desta vez dos externos e dos internos e recomenda ao atual líder para “se afastar da intrigalhada”. Sabe do que fala, porque ela virá por certo, e sabe-se qual poderá ser a sua origem.


Rui Rio quis dar sinais de abertura para as duas correntes em “confronto”, porque é disso que se trata, e tenta, com o convite a Santana Lopes agradar aos “troianos” e co Elina Fraga para agradar aos “gregos”, mas a tentativa de unidade foi ensombrada e confronto esteve patente com Montenegro, muito aplaudido, sabemos porque ala, e por motivo contrário Elina Fraga apupada pela mesma ala. A surpresa polémica foi a escolha de Elina Fraga para uma das vice-presidências. A ex-bastonária dos advogados atacou o Governo PSD de Passos Coelho com um processo devido ao mapa judiciário, em 2014.


Nada mais a acrescentar na ocorrência que foi este congresso do PSD. Abertura de Rui Rio, para o interior e para o exterior do partido, radicalização da ala neoliberal, ameaças de candidaturas à atual liderança do partido caso esta não ganhe as eleições em 2019. Em conclusão: Rui Rio vai ter uma dura tarefa pela frente porque não vai ser fácil expurgar a ideologia, que os neoliberais dizem não existir. Foi muita a retórica, mas com pouco conteúdo objetivo, nem por parte dos seus aposentes e muito menos dos seus opositores que continuam na bancada parlamentar à espreita e cuja estratégia vai ser, mesmo com um novo líder de bancada, e até á eleições, mais do mesmo.