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terça-feira, 9 de setembro de 2025

Dize-me com quem andas dir-te-ei quem tu és

Trump e amigos.png


Não ocupo cargos públicos nem políticos e não tenho responsabilidades diplomáticas, assim sendo, posso expressar opiniões sem poder ser acusado duma tremenda irresponsabilidade diplomática, assim, posso criticar Trump como entender ao contrário do Presidente Marcelo que foi censurado por ter classificado publicamente o Presidente dos Estados Unidos da América como um “ativo soviético da Rússia”.


Quanto às afirmações de Marcelo sobre o presidente Trump, parece que há muito medo de chatear Trump, muito medo de chatear Israel e muito pouco medo de ficar do lado errado da história. O que Marcelo disse foi numa sessão dum curso de verão partidário para jovens, não foi em nenhum ato oficial nem público, foi público porque a comunicação social o assim tornou. E se fosse numa aula privada já não haveria problema?


O Presidente Marcelo pode ter um enorme ego, mas não se aproxima, nem um pouco, do enormíssimo ego de Donald Trump. Talvez, por isso, cada um deles diga disparates à sua medida. Considero, no entanto, sem quaisquer constrangimentos que, sem dúvida, Trump aparenta ser, de facto, um ativo soviético da Rússia, conforme afirmou publicamente o Presidente.


Recordemos que os discursos de Vladimir Putin e as suas intervenções não escondem o objetivo da sua política internacional para reconquista das antigas zonas de influência que a ex-União Soviética que, tendo perdido a Guerra Fria adota agora uma política revisionista.


Margarida Mota escreveu no semanário Expresso que “O Presidente dos Estados Unidos é um confesso admirador do líder da Federação Russa. Donald Trump não enjeita usar o exemplo de Vladimir Putin para diminuir governantes norte-americanos ou desautorizar instituições do país como por exemplo os serviços secretos.


A frustração provocada pelo arrastar da guerra na Ucrânia, que ele prometeu resolver ‘em 24 horas’, levou Trump a considerar que “o problema de Putin é ter um ego muito grande que o está a tornar mais impaciente”. Diz o roto ao nu, digo eu, servindo-me do provérbio que expressa a pouca moralidade do acusador respetivamente ao acusado.


Já que falo de provérbios “Diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és”, é o título e que serviu de motivação para este artigo, significa que as pessoas que escolhemos para acompanhar e conviver revelam muito sobre os próprios valores. A ideia central deste provérbio é que as companhias de uma pessoa servem como um reflexo de quem ela é, pois, o meio em que vivemos e as amizades têm um forte poder de influência e contribuem para moldar a forma como nos tornamos e vem a propósito do presidente Trump que parece conviver bem com ditadores e autocratas. “Tudo bons rapazes é um filme de Martin Scorsese” poderia ser tabém um título adequado devido á “simpatia” de Trump por ditadores e autocratas.


A afinidade de Donald Trump com figuras autoritárias tem sido amplamente notada. Durante a sua primeira presidência e mesmo depois, elogiou frequentemente homens fortes e sem consideração pelas suas ações para com os direitos humanos, descrevia as relações pessoais com eles em termos de quase aceitação.


Para começar veja-se uma lista destes relacionamentos países e respetivos líderes e elogios feitos por Donald Trump:



  • Coreia do Norte, Kim Jong Un: «Kim escreveu-me lindas cartas e são ótimas cartas. Nós ‘apaixonamo-nos’». Elogiou ainda o potencial económico da Coreia do Norte.

  • Rússia, Vladimir Putin: Brincou com Putin à frente da imprensa sobre ‘livrar-se das fake news’; e chamou a Putin “génio” após a invasão da Ucrânia.

  • China, Xi Jinping: Descreveu Xi como um «grande amigo» e alegou que quer que “a China se saia bem”.


O elogio de Trump a Xi é de longa data e faz parte de um padrão que é o de lisonjear ditadores e líderes de braço forte durante eventos políticos e entrevistas. No ano passado, Trump chamou ao líder chinês “inteligente, brilhante, tudo perfeito”, e que governa com “punho de ferro”.


 


O que conheço da política dos EUA através da comunicação social imprensa estrangeira e também da nacional e cruzando vários artigos e opiniões vou tiro as minhas ilações.


Muitos artigos de opinião e notícias sobre política podem ser favoráveis ou desfavoráveis consoante as ideologias de cada um que as lê ou vê e conforme o que pensam e nem sempre podem estar de acordo. Assim, há opiniões para todos os gostos, concordantes ou discordantes, sobre o perfil e políticas adotadas pelo atual presidente dos EUA, Donald Trump, por mais disparatadas, contraditórias, inconcebíveis e até ameaçadoras que elas sejam.


Há críticos e observadores nos EUA que argumentam que elogiar ditadores mina os compromissos dos EUA com a democracia e os com os direitos humanos, sugerindo que Trump trata esses líderes como aliados pessoais e não como adversários. Isto pode ser um alerta para as retóricas que encorajam regimes autoritários, evidenciando que a lealdade pessoal não pode servir para superar as divergências políticas em questões como liberdade de imprensa, e dos media em geral, ou mesmo agressão territorial.


Alguns parceiros dos EUA perceberam, e foi público, que viram a abordagem de Trump na política externa como um enfraquecimento das alianças uma vez que parecia estar a valorizar o relacionamento pessoal com adversários acima dos compromissos de segurança coletiva.


Podemos colocar a seguinte pergunta: como é possível que num país que dizia ser um exemplo de democracia e de liberdade no Mundo haja uma equipa que apoia um presidente como Trump e não sinta tais afirmações como ofensas à dita liberdade dos EUA.


Não sabemos objetivamente em que moldes se efetuaram este tipo de relações que Trump fomentou com esses líderes porque o que passa para a comunicação social não conferirá exatamente com as conversas privadas que teve com eles. Essas relações poderão, ou não, afetar áreas políticas específicas tais como a coesão da NATO e as negociações comerciais. Questionou se terá havido, ou não, paralelos históricos nas relações externas como estas nos EUA? Surge então a dúvida que se pode é se a afinidade de Trump com aqueles autocratas e ditadores poderá moldar a unidade e a eficácia da NATO como foi no seu primeiro mandato e se continuará neste segundo mandato.


Segundo The Conversation, principal editora mundial de notícias e análises baseadas em pesquisas e órgão de comunicação que faz parte duma cooperação entre professores universitário e jornalistas, Donald Trump enquadrou repetidamente a adesão à NATO como uma série de transações financeiras e não como um pacto de segurança coletiva. Ele colocou publicamente a questão de os Estados Unidos se poderiam honrar os compromissos do Artigo 5 se os aliados não cumprissem as metas de gastos com defesa. O Artigo 5 da NATO, Tratado do Atlântico Norte, consagra o princípio da defesa coletiva, estipulando que um ataque armado contra um ou mais dos seus membros, na Europa ou América do Norte, é considerado um ataque contra todos os Aliados. Esta postura de “América em primeiro lugar”, com ameaças de retirada dos EUA, perturbou, para não dizer chocou, a UE e rompeu com décadas de liderança inabalável dos EUA na cooperação multilateral em matéria de defesa. Aliás os seus ataques verbais à UE quase replicam a narrativa anti UE de Putin. Basta percorrer as várias notícias dessa altura.


Para Putin estratégia seria planear antecipadamente uma “jogada” de longo prazo que procuraria o enfraquecimento dos laços dos EUA com a Europa, o desagregar da União Europeia e, por consequência, desfazer a NATO para o que, como se verá adiante, Donald Trump estava também a contribuir. A posição de Trump é que “vê a expansão da NATO como uma provocação à Rússia e um fardo para os recursos de defesa dos EUA”.


O contexto da cordialidade de Trump em relação a Vladimir Putin e Kim Jong Un e outros ditadores enviou sinais contraditórios sobre a confiabilidade dos EUA que geraram dúvidas sobre os acordos bilaterais feitos com ditadores que poderiam sobrepor-se ao consenso da NATO. Isso alimentou a suspeita de que o relacionamento pessoal com autocratas poderia superar os compromissos multilaterais.


Tal como Putin, Trump não gosta da UE. Consideram ser uma força que os impede dos seus intentos, por isso, poderia potencialmente não estar fora de causa haver uma cooperação oculta para a sua desagregação, mas seguindo estratégias diferentes. E nisso ambos poderão estar empenhados mais tarde ou mais cedo.


Contudo, é expectável que a tendência de autonomia estratégica da Europa irá durar mais do que qualquer presidência dos EUA, assim como irá remodelar o panorama de segurança transatlântica durante décadas desde que, ‘toupeiras’ como Órban da Hungria não boicotem a estratégia seguida que tem sido lenta e com avanços e recuos, porque ora está do lado russo, ora se coloca do lado da UE. Ao consultarem-se algumas notícias publicadas sobre este tema poderemos ler:


“O primeiro-ministro húngaro, Viktor Orbán, afirmou que a Europa corre o risco de ser ‘posta de lado’ se se realizar uma cimeira entre o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o presidente russo, Vladimir Putin, para discutir o fim da guerra na Ucrânia.” (08/08/2025 euro news);


“O primeiro-ministro húngaro, Viktor Orbán, voltou a rejeitar a adesão da Ucrânia à União Europeia e alertou para o impacto económico e os riscos de guerra.” (04/07/2025 semanário Expresso);


“O presidente norte-americano, Donald Trump, questionou o primeiro-ministro húngaro, Viktor Orbán, sobre as razões da sua oposição à adesão da Ucrânia à União Europeia (UE)” (20/08/2025 Agência Bloomberg).


Podemos mesmo especular sobre qual será a estratégia para o relacionamento pessoal de Trump com autocratas que serviu de marca estratégica nas suas negociações comerciais, mais concretamente através do uso seletivo de tarifas e de elogios públicos aos referidos ditadores, como anteriormente referi que serviam como moeda de troca. Para Trump parece quer a política é uma arte do negócio e não de negociação com conversações diplomáticas entre estados.


Os elogios e bajulações que enumerei anteriormente, especificamente no caso de Xi Jinping, a quem Trump repetidamente chamou ‘muito bom amigo’, mas a quem também, segundo analistas políticos, ameaçou e lançou abruptamente tarifas elevadas sobre produtos chineses quando as negociações estagnaram.


Esta mistura de elogios públicos, ameaças punitivas com taxas aduaneiras permitiu que Trump reivindicasse ‘vitórias’ fugazes ao rescindir ou reduzir tarifas depois de garantir concessões económicas ou financeiras, não sabemos se para ele ou se para os EUA.


Donald Trump faz uma diplomacia de natureza errática orientando uma propaganda para o público e muitas vezes conduzida através das redes sociais, contrastando fortemente com a política mais previsível de outros presidentes, não apenas os doa EUA.


O tipo de política de imprevisibilidade e ‘caótica’ tem sido alvo dos críticos que observaram que não foi um passo em falso tático, mas uma característica de um sistema de política externa centralizado em torno dos instintos e vinganças pessoais do presidente.


Sobre o encontro da semana de 3 a 5 de setembro entre os líderes Xi, Putin e Kim em Pequim, com direito a parada militar, Donald Trump publicou uma mensagem na sua rede social Truth Social, “Por favor, dêem os meus mais calorosos cumprimentos a Vladimir Putin e a Kim Jong Un, enquanto vocês conspiram contra os Estados Unidos da América”, escreveu Trump numa mensagem a Xi.


A CNN Politics, em 3 de setembro, declarou que aquela mensagem no Truth Social, lida em todo o mundo, significava uma coisa: se as duas grandes reuniões de líderes autoritários, adversários dos EUA e antigos aliados da China nesta semana foram planeadas como uma afronta pessoal ao presidente dos EUA, funcionou perfeitamente.


Segundo um analista do mesmo órgão de comunicação “Algumas das conversas alarmistas sobre a China e a Rússia que estariam a construir um novo eixo de resistência aos EUA são exageradas. As nações representadas numa cúpula da Organização de Cooperação de Xangai na cidade de Tianjin, no norte da China, carecem de acordos formais de defesa ou soberania económica compartilhada para comparar a grupos como a NATO ou a União Europeia.”


O certo é que Donald Trump ficou perturbado com o espetáculo que lhe foi oferecido por Xi Jinping diretamente da Praça Tiananmen, em Pequim.  Na sequência da cimeira do Alasca semanas antes, Teresa de Sousa escreveu num artigo de opinião que “tudo aquilo que Trump anunciou na cimeira do Alasca e as promessas que terá feito quando recebeu os principais líderes europeus na Casa Branca alguns dias depois esfumaram-se no ar. Putin nunca manifestou qualquer intenção de desistir da continuação da guerra. Pelo contrário, intensificou os ataques às cidades ucranianas, na mesma orgia de destruição e de morte que desencadeou com a invasão.”


O Times of India escrevia também a 3 de setembro  que “A Rússia rejeitou a alegação do presidente dos EUA, Donald Trump, de que o presidente russo, Vladimir Putin, e o líder norte coreano, Kim Jong Un, estavam ‘conspirando’ contra os Estados Unidos ao lado China XI Jinping durante um grande desfile militar em Pequim. O Kremlin esclareceu que Putin não estava envolvido em nenhuma conspiração e sugeriu que Trump pode ter falado ‘ironicamente’.


As relações do presidente Donald Trump com líderes autocráticos, segundo analistas políticos dos EUA, não foram por acaso, mas sim um “resultado consistente, lógico e previsível de uma ideologia de política externa profundamente estabelecida”. Essa política externa, tanto quanto se soube ao longo dos anos pelas comunicação social americana e europeia, durante e após a guerra fria, rejeita sistematicamente a estrutura multilateral baseada em valores que sempre nortearam a política americana por quase um século.


A aparente afinidade com autocratas é um reflexo direto da  doutrina trumpista, que vê a diplomacia como uma série de acordos, tipo negócios ad hoc para dar resposta a interesses imediatos, em vez dum meio de sustentar uma ordem global baseada em valores e instituições democráticas compartilhadas.


Parece ser uma experiência de forma de governo que aplica os princípios de engrandecer o executivo e desconsiderar os controles e legalidades institucionais, tanto no âmbito nacional quanto internacional. Os acordos internacionais e regionais foram quebrados, veja-se como exemplo próximo a invasão da Ucrânia.


Pesquisas que efetuei em documentos abaixo mencionados, revelaram uma estrutura ideológica coesa com as mesmas táticas usadas para consolidar o poder interno do tipo ditatorial que se refletem numa política externa que ignora alianças tradicionais e normas internacionais.


Este tipo de abordagem parte da premissa de que a ação unilateral e a retirada da liderança global fortalecerão os EUA ou seja a dita MAGA que, como sabemos está a ser a utilizadas por Trump, é minada pelas evidências que mostram que um há um vácuo na liderança dos EUA. Como se tem verificado esse lugar está a ser preenchido por potências que sempre foram rivais dos EUA e têm mostrado ter levado à constituição mais consolidada dum poderoso bloco antiocidental pela já referidas potencias rivais.


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Torna-se evidente que, se esta política se mantiver e for permanente da política externa levada a cabo por Donald Trump, as implicações dessa mudança na política externa dos EUA podem conduzir à erosão contínua das alianças americanas.


Existe a perseção de que há uma  convergência entre a ‘Pessoa’ de Donald Trump e a ‘Política’, que pode ser um prenúncio do desmantelamento dos sistemas que sustentaram a estabilidade global após o fim da Segunda Guerra Mundial voltando ao  enaltecimento do culto da personalidade, como o foram líderes ditatorias Mussolini, Hitler e Estaline. Já anos antes Bertie Wai num artigo de opinião escrevia no South China Morning Post em 3 de outubro de 2020: “A noção popular de que os narcisistas são dotados de um reservatório extraordinário de confiança, auto-importância e auto-estima incondicional é enganosa. Narcisistas como Trump tentam mascarar as suas deficiências e constantemente atacam os outros para proteger os seus próprios egos frágeis de serem expostos e colapsarem.”


Para finalizar, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sugeriu na segunda-feira 1 de setembro de 2025 que talvez os americanos gostassem de ter um ditador, após assinar ordens que endurecem a repressão federal em Washington e permitem processar quem queimar a bandeira do País... Num evento de mais de uma hora no Salão Oval, Trump reclamou que nem a comunicação social nem seus críticos lhe reconhecem mérito suficiente pela sua ofensiva contra o crime e a imigração, agora apoiada pela Guarda Nacional dizendo que: “dizem que: ‘Não precisamos dele. Liberdade, liberdade. É um ditador. É um ditador’. E comentou de seguida à imprensa o que muita gente diz “Talvez gostemos de um ditador”.


Fontes:


Arab Center DC, Trump Administration Guts State’s Human Rights Reports.  https://arabcenterdc.org/resource/trump-administration-guts-states-human-rights-reports/


The Economic Times, Guerra comercial: Trump começa com a China e depois atinge muitos no mundo. https://economictimes.indiatimes.com/news/international/global-trends/trade-war-trump-starts-with-china-and-then-hits-many-in-the-world/articleshow/123597132.cms


Impakter Bussinesse sustentainability, Toward Global Instability and Autocracy? A Critical Examination of the Trump Regime’s Global Impact, https://impakter.com/em-direção-à-instabilidade-global-e-à-autocracia-um-exame-crítico-do-impacto-global-dos-regimes-de-trump/


Teresa de Sousa, Make China Great Again, https://www.publico.pt/2025/09/07/mundo/analise/make-china-great-again-2146237

domingo, 2 de fevereiro de 2025

Trump e os regimes totalitários e autoritários

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A comparação entre as políticas de Trump e as do regime nazi de Hitler que levaram à Segunda Guerra Mundial é um tópico sensível, controverso, complexo e sujeito a diferentes interpretações que exige uma análise detalhada e cuidadosa que não cabe neste texto, contudo poderemos fazer só algumas possíveis apreciações, é, por isso, prematuro estabelecer qualquer relação consistente.


O regime nazi, liderado por Hitler, cometeu atrocidades inigualáveis, incluindo o Holocausto, as políticas de Trump, apesar de criticadas por muitos, não alcançam a mesma escala de horror e devastação.


Hitler implementou um regime totalitário que eliminou brutalmente qualquer oposição e perseguiu sistematicamente minorias. A presidência de Donald Trump foi marcada, (durante o seu primeiro mandato, e parece no atual continuar pela mesma via), por polarização e desconfiança significativas, tanto dentro dos Estados Unidos quanto internacionalmente. Trump minou a confiança nas instituições democráticas e durante a sua última campanha eleitoral fomentou uma atmosfera de desconfiança e polarização.


Embora as ações e consequências das políticas de Trump com as de Hitler sejam substancialmente diferentes, as técnicas de manipulação de massas e de propaganda, (hoje mais sofisticadas e eficazes), demonstram alguns paralelismos históricos que não podem ser ignorados para o que alguns fatores contribuíram para essa atmosfera. O uso por Trump de linguagem e retórica divisionista, particularmente nas redes sociais desempenhou um papel significativo na promoção da polarização. Os seus frequentes ataques à comunicação social, os chamados media, a opositores políticos, até mesmo membros da sua própria administração, criaram um ambiente de conflito constante.


Algumas políticas de Trump foram altamente controversas:


A proibição de viagens a vários países predominantemente muçulmanos, a separação de famílias na fronteira EUA-México e enquanto outras eram alienadas como a reversão das regulamentações ambientais.


A resposta de Trump à pandemia COVID-19 foi, na altura, amplamente criticada por minimizar a gravidade do vírus, promover tratamentos não comprovados e de entrar em conflito com especialistas em saúde pública. Isso levou a uma falta de confiança na forma como o seu governo lidou com a crise.


As repetidas alegações de Trump de fraude eleitoral generalizada nas eleições presidenciais de 2020, apesar da falta de evidências, minaram a confiança no processo eleitoral e contribuíram para o motim do Capitólio em 6 de janeiro.


A abordagem “América Primeiro” de Trump e as suas críticas a alianças e acordos internacionais, como a NATO e o Acordo de Paris, prejudicaram as relações com aliados tradicionais e criaram incerteza no cenário global.


Estes motivos, entre outros, contribuíram para uma atmosfera de desconfiança e polarização durante a anterior presidência de Trump. Veja-se atualmente o que a administração Trump está a fazer com os imigrantes ilegais. Donald Trump, disse na última quarta-feira (26/01/25) que ordenará ao Pentágono e ao Departamento de Segurança Interna que preparem um centro de detenção de imigrantes na Baía de Guantánamo para até 30 mil imigrantes.


É inegável a utilização em ambos de retóricas inflamadas e divisionistas em que se incluem a criação de inimigos comuns, a exploração de medos e ansiedades populares para galvanizar o apoio das suas bases estratagema que Hitler também usou na altura.  Em ambos os casos, essa abordagem teve o efeito de intensificar as divisões sociais e políticas dentro dos seus respetivos países evidentes no uso de retóricas que apelam ao nacionalismo e ao sentimento de frustração existente nos seus respetivos países. Hitler subiu ao poder explorando os medos da Alemanha pós-Primeira Guerra Mundial, enquanto Trump ganhou força política ao apelar para uma base de eleitores desiludidos com slogans como “Make America Great Again” e a sua propaganda anti-imigrantes.


Ambos criaram bodes expiatórios para os problemas dos seus países. Hitler culpou judeus, comunistas, ciganos, homossexuais e outras minorias, enquanto Trump tem como alvo os imigrantes, particularmente os mexicanos, e outras minorias étnicas e religiosas. Uma das políticas de Donald Trump foca-se na deportação de imigrantes ilegais e na implementação de medidas rigorosas para controlar a imigração, o que pode ser positivo, o problema está nas formas.


As perseguições e a forma como a administração Trump está a expulsar os imigrantes ilegais conforme prometeu têm também alguma coisa de desumano, ainda que se possa concordar com a decisão para controlar a população imigrante ilegal. Essas ações anti-imigração ilegais geraram medo e ansiedade entre as comunidades de imigrantes nos Estados Unidos. No entanto, repito, comparar essas políticas com o regime nazi pode ser exagero e até problemático, pois o contexto histórico e as intenções por trás das ações são significativamente diferentes. É crucial abordar essas questões com sensibilidade e uma compreensão clara das diferenças históricas e contextuais. É uma perseguição made soft.


Assim como  Hitler provocou o enfraquecimento das instituições democráticas e transformou a Alemanha num estado totalitário, Trump ataca a imprensa, desacredita o sistema judicial e questionou os resultados das eleições e terá estimulado o assalto ao Capitólio.


É importante lembrar que, embora as políticas de Trump tenham sido criticadas por serem desumanas e severas elas não se comparam diretamente ao genocídio e às atrocidades cometidas pelos nazis durante a Segunda Guerra Mundial.


Outro aspeto onde poderíamos sugerir haver pontos de contacto com a ideologia nazi é que esta tinha um total desprezo pela ciência e pelas artes. A posição de Donald Trump sobre a ciência tem sido um outro tópico de debate significativo. Durante a sua anterior presidência tomou várias decisões que foram percebidas como desdenhosas do conhecimento e das evidências científicas. Por exemplo, a forma como o seu governo lidou com a pandemia de COVID-19 e suas rejeições públicas de recomendações científicas levantaram preocupações entre a comunidade científica.


Apenas alguns dias se passaram desde que Trump voltou à presidência “as suas ordens executivas e nomeações fornecem pistas iniciais sobre como o segundo governo Trump poderá destruir o notável motor de ciência e tecnologia que impulsionou a economia americana por mais de três quartos de século”, escreve o Scientific American.


O ceticismo de Trump em relação às mudanças climáticas é outro exemplo notável. Ele referiu-se repetidamente às mudanças climáticas como uma “farsa” e retirou os Estados Unidos do Acordo de Paris, que visava combater o aquecimento global. O seu governo também reverteu vários regulamentos ambientais, que muitos cientistas argumentaram serem cruciais para proteger a saúde pública e o meio ambiente.


Essas ações levaram ao sentimento de que como Trump tem desdém pela ciência, particularmente quando as descobertas científicas entram em conflito com seus objetivos e agenda política.


Quanto a medidas expansionistas Donald Trump fez várias declarações controversas sobre adquirir a Gronelândia, tornar o Canadá o 51º estado dos EUA e tomar controle do Canal do Panamá. Ele também mencionou que pretender mudar o nome do Golfo do México para “Golfo da América”. Essas declarações têm gerado preocupações e especulações sobre as suas intenções e o impacto que possa ter nas relações internacionais. Nestes pontos a aproximação é mais com o regime autoritário de Vladimir Putin da Federação Russa.


As comparações que possamos fazer também com o regime autoritário de Vladimir Putin pode ser excessiva, mas ambos os líderes têm mostrado tendências expansionistas e uma abordagem agressiva nas políticas externas. Poderemos considerar, se quisermos ser otimistas, que as declarações de Trump muitas vezes são vistas como táticas de negociação ou estratégias para ganhar influência, enquanto as ações de Putin têm sido mais diretas e militarizadas. Será que poderemos ficar tranquilos quanto a possíveis ulteriores?


O jornal Público publica hoje extratos de uma entrevista do jornalista russo Pavel Zarubin, que publicou no seu canal de Telegram excertos de uma entrevista que vai ser transmitida este domingo à noite na televisão estatal russa. Ainda nessa entrevista, conforme o Público, Vladimir Putin, Presidente da Federação Russa, afirmou que “o seu homólogo norte-americano, Donald Trump, vai «restabelecer» a ordem no mundo de forma rápida e vai conseguir subjugar facilmente as «elites europeias» que, refere líder russo e segundo o mesmo diário, “tentaram boicotar «ativamente» o seu regresso à Casa Branca”. Tece ainda elogios a Trump dizendo que “os líderes europeus vão acabar por «abanar a cauda» e obedecer a Trump com o seu carácter e a sua perseverança, Trump restabelecerá rapidamente a ordem. Em breve, todos se colocarão ficarão do lado do mestre a abanar a cauda carinhosamente”.