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segunda-feira, 25 de setembro de 2023

Treta do civismo: Um artigo de opinião de Pacheco Pereira



Treta do civismo












A rua, o trânsito, pode parecer pouco relevante como sinal de agressividade, mas não é.







Já não é a primeira vez que falo disso, e se calhar não será a última, mas o grau de agressividade pessoal nas cidades, em particular em Lisboa, está cada vez maior. O incremento é significativo, tanto mais que está em aparente relação inversa com a agressividade colectiva, aquela que se manifesta algumas vezes nos movimentos sociais. As greves e as manifestações são pacíficas, e, mesmo quando os discípulos da Extinction Rebellion se prendem a uma grade ou bloqueiam uma rua, é mais um acto simbólico do que qualquer “resistência séria”.


É uma comparação imperfeita, mas mesmo assim possível. Na verdade, se a primeira forma de agressividade pode ser testemunhada por todos, a segunda existe latente, escondida, difusa, embora como uma mancha cada vez mais vasta. A primeira forma de agressividade está em alta, em pico, a segunda espalha-se mais em mancha, manifesta-se através de comportamentos menos evidentes, mas que estão lá. Talvez o melhor exemplo seja o racismo, cuja mancha se espalha para lá dos alvos tradicionais, para os imigrantes asiáticos e latino-americanos.


Explico-me quanto à agressividade individual em alta. Ela está por todo o lado e não tenho dúvida de que a violência doméstica é o seu melhor exemplo. Mas não é o mais público. A rua, o trânsito, pode parecer pouco relevante como sinal de agressividade, mas não é. O espaço público urbano torna-se muito pouco habitável, resultado de um conjunto de factos que implica ideias erradas, opções urbanas erradas, medo de actuar, muita impotência, e interesses muito poderosos em nome da “mobilidade”. O monstro cresceu à nossa porta e agora parece indomável.


O caos em que se tornaram as ruas da cidade, sem lei, nem ordem, com milhares de pessoas que não cumprem qualquer regra, trotinetas, bicicletas que circulam em sentido contrário, que passam sinais vermelhos, tuk-tuks que entopem o trânsito, motos que aparecem por todo o lado e passam entre os carros, TVDE que param em qualquer sítio com desprezo pelas filas que provocam, os milhares de transportes de comida, os passeios ocupados com carros, motos, bicicletas e trotinetas (deve ser cada vez mais difícil ser cego e andar na rua), os veículos comerciais que não cumprem horários, etc., etc. Os automobilistas parecem ser a principal vítima, embora o “carro individual” tenha má imprensa, mas o mesmo se passa com transportes públicos, peões e as vítimas inocentes apanhadas em acidentes.


O número de pessoas que em bicicletas e trotinetas se deslocam sem qualquer protecção, duas em cada trotineta, com crianças dependuradas, à frente e atrás, ao meio, numa completa irresponsabilidade dos pais, que fazem slalom a considerável velocidade, aumenta o risco de acidentes e o número de acidentes em que aparecem sempre como vítimas, porque são mais fracos do que os carros. Basta atravessar a cidade para ver como cada vez mais se buzina ao mais pequeno atraso num semáforo e como cenas de insultos e ameaças são cada vez mais comuns. É igualmente verdade que se conduz a ver o telemóvel ou a mandar mensagens. Tudo junto, alimenta o caos.


É suposto as leis e os regulamentos mitigarem a desordem e imporem regras, mas não me venham com histórias da carochinha. É muito maior a probabilidade de alguém ser multado por mau estacionamento do que uma trotineta a voar pelos passeios e a atravessar vermelhos, ou um TVDE ser posto na ordem por parar em qualquer lado, coisa que pelos vistos podem fazer. Já para não falar nessa multidão explorada por uma miséria com uma caixa de comida às costas que tem de entregar depressa para ir buscar mais e que precisa de violar as regras todas para ganhar… nada.


A verdade é que, de uma ponta à outra da nebulosa do trânsito, que é o modo como centenas de milhares de pessoas vivem o seu dia-a-dia, nem que seja de casa para o emprego, para deixar os filhos na escola, para irem ao supermercado, para trabalharem, não há lei nem ordem. Colocados perante a realidade de defrontarem a todos os momentos a lei do mais forte, do mais esperto, do mais hábil, do mais jovem, do mais violento, a resposta é agressiva, ou para fora ou engolindo para dentro. Numa altura em que muito pouca gente tem razões para estar feliz, com tudo mais caro, com pouco dinheiro, com a casa precária, com os filhos a fazerem asneiras, com os pais a fazerem asneiras, sem terem o que querem e gostam, dependentes da “raspadinha”, demasiado presos à “alegria” dos pobres, a telenovela, o futebol e o Big Brother, o que é que se espera? Civismo, boa educação, tretas!


Além disso, vem aí a chuva e o Inverno.


O autor é colunista do PÚBLICO





 

sábado, 8 de julho de 2023

Carlos Moedas, Lisboa, e o trânsito no centro da capital

Carlos Moedas_Lisboa trânsito.png


A leitura deste artigo não deve ser feita pelos que deliram por manter a manutenção da intensidade do  tânsito automóvel na baixa de Lisboa com a desculpa do turismo, do comércio e doutros delirantes argumentos. 


Moedas não tirou nem um carro


OPINIÃO COFFEE BREAK


Um dia alguém na câmara vai conseguir tirar carros de Lisboa. Tantas capitais europeias conseguiram. Deve ser possível.


Opinião Bárbara Reis | PÚBLICO


Bárbara Reis


In Jornal Público, 8 de Julho de 2023


Escrever bem é evitar advérbios, mas hoje é dia de ignorar a regra. Afinal, Carlos Moedas, presidente da Câmara de Lisboa, não tirou os carros do centro da capital. Nem um.


Moedas anunciou com pompa, mas ficou tudo na mesma. Após o anúncio, esperei uma semana, duas, três, quatro. Mais tarde ou mais cedo, a diferença seria notória. Nada. Esperei um mês, dois, três. Nada.


A história é simples: a 18 de Abril, num gesto radical e corajoso, Moedas anunciou várias medidas para melhorar a mobilidade na capital:


— no centro histórico de Lisboa só poderiam circular carros de moradores, trabalhadores locais e transportes públicos,


— seriam proibidos os TVDE, que formalmente não são transportes públicos,


— e tudo o que pese mais de 3,5 toneladas.


Aqui no PÚBLICO, escrevemos que “o controlo dos veículos que não podem circular nas zonas onde o trânsito é condicionado será feito pela polícia municipal e quem violar as regras está sujeito a uma coima por desrespeito à sinalização de trânsito existente”.


Era bom e mau ao mesmo tempo. Bom porque um dia destes Lisboa é a única capital europeia sem regras que limitem a entrada e circulação de carros na cidade. Mau porque não tinha havido debate e as novas regras iriam ser postas em prática dias depois, a 26 de Abril, e as dúvidas eram muitas.


Ninguém percebeu como iria funcionar. No dia 26, como é que um morador que tivesse saído de carro de manhã regressaria a casa? Sem distribuição de dísticos de residentes, como é que a polícia faria a triagem? Como impedir ou multar os não moradores? A polícia iria parar todos os carros e pedir comprovativos de residência? Seria de levar na mala contas da água e da luz com o nome e morada?


E como é que os “trabalhadores locais” iriam provar que trabalham na retrosaria A, na papelaria B, no cabeleireiro C e no banco D? E fazia sentido impedir a Uber ou a Bolt de circularem? Os moradores e turistas passariam a ser obrigados a usar táxis?


E onde estavam as excepções para apoio a moradores idosos ou doentes tão discutidas no mandato de Fernando Medina, o autarca anterior, quando a câmara tentou fazer uma mudança semelhante que não saiu do papel?


E onde estavam as regras para os infernais tuk-tuk, que se passeiam pelo centro histórico da capital a passo de caracol, em ritmo de safari, suavemente para não afugentar as girafas, talvez apareça uma, e estacionam em cima das passadeiras, em segunda e terceira fila, em tudo o que é esquina, e são em tão grande quantidade que andam em comboios de quatro e cinco colados em linha à procura de clientes?


Havia muitas perguntas, mas a mancha da “área de circulação condicionada” que se via no mapa feito pela câmara — uma mancha grande — dava esperança. O centro histórico poderia voltar a ser um bairro simpático para morar. Seria este o princípio do fim da Lisboa-Disneylândia, o parque temático para turistas?


Neste ponto, estamos a 26 de Abril, pensei que é melhor decidir mal do que não decidir e fiquei à espera.


Eis senão quando tudo começou a recuar logo no dia de estreia da reforma.


Moedas esclareceu que, afinal, ir de carro para a zona histórica e ribeirinha não seria só limitado aos moradores e “trabalhadores locais”. Quem tivesse “como destino esta zona” também poderia ir de carro. What?!


Parece uma piada, mas é isso que foi escrito no site da câmara: “A circulação só é permitida a transportes públicos e ao trânsito local: quem reside, trabalha ou tem como destino esta zona.”


Quem “tem como destino esta zona” são todas as pessoas que querem ir de carro para o centro histórico de Lisboa ou que querem atravessar a cidade pela zona ribeirinha. Ou seja, nada muda.


Pus-me a imaginar um diálogo entre um condutor e um polícia:


— O senhor tem autorização para circular nesta “área de circulação condicionada”?


— Sim.


— Mora aqui?


— Não.


— Trabalha aqui?


— Não.


— Então?


— Tenho como destino esta zona.


— Ah, claro, faça favor.


Também no dia 26, apareceu outro esclarecimento: afinal, os TVDE também podem circular na zona, desde que seja só para tomar e largar passageiros.


A seguir, a 31 de Maio, a câmara fez novo esclarecimento: afinal, o acesso de veículos pesados iria ser autorizado até às 10h, ou seja, o horário seria alargado em duas horas em relação ao anunciado a 18 de Abril.


Tinham estado a ver melhor e não era realista ser só entre as 20h e as 8h. E uma pessoa diz: nunca foi só até às 8h. Ao meio-dia, há sempre carrinhas e camiões parados em cima do passeio a descarregar em todo o centro da capital, a começar pelas ruas pedonais da Baixa. Isto é para enganar quem?


Pus-me então a falar com os polícias municipais. Todos os sábados falo com um ou dois e todos dizem o mesmo: não receberam instruções para controlar o acesso de carros, saber se são moradores ou trabalhadores ou multar os rebeldes. A única instrução que têm é a de impedir os autocarros de turismo grandes, os tais com mais de 3,5 toneladas. E uma pessoa diz: isso é verdade desde 2017, foi uma boa medida de Medina. Moedas anunciou o que já existia há seis anos.


A mobilidade é uma coisa complexa, mas já enerva tanto anúncio falso. É Moedas, foi Medina, foi António Costa e, se calhar, quem esteve na câmara nos anos anteriores. Pelo menos desde 2011 que são aprovadas e anunciadas Zonas de Emissões Reduzidas (ZER) de vários tipos e nada sai do papel. São postas placas de trânsito a anunciar as mudanças e, como não há nem fiscalização nem multas, nada muda. Passam uns anos, vem nova ZER e tudo se repete.


É aqui que estamos de novo. Passaram três meses e está tudo na mesma. Afinal (um advérbio), nem (outro advérbio) um carro foi impedido de circular pela zona condicionada. Ainda (terceiro advérbio). Um dia alguém na câmara vai conseguir. Tantas capitais europeias conseguiram. Deve ser possível.


 

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Léxico do politiquês


Marques Mendes na Revista Visão de quinta-feira defende a liberdade de escolha na educação que se prevê ser consubstanciada pelo governo num tal cheque-ensino ao qual nem sequer se refere, pelo menos enquanto conceito. Mas sobre este tema pode ler-se o blog seguinte.


O que achei espantoso, e apenas como um exercício de linguagem politica, foi o senhor propagandista em determinado momento do seu artigo de opinião se referir a uma coligação negativa de uma determinada direita burocrática com a esquerda mais conservadora. Espanto meu! Comecei logo a pensar em rever e reestudar toda a minha linguagem política. Estava perante uma autêntica revolução dos conceitos naquela ciência.


A literatura e jornalismo políticos sempre se referiram à direita como os conservadores (embora direita e esquerda não sejam fáceis de delimitar nos seus espectros políticos). Na Inglaterra há os Trabalhistas e os Conservadores, nos EUA os Republicanos, também denominados conservadores e os Democratas e, em qualquer dos países, segundo eles, os conservadores são assim chamados assumidamente com muita honra. Então fiquei baralhado.


A direita combate a esquerda por esta ser pelo progresso e pela evolução de uma política mais virada para o social em vez da manutenção das estruturas sociais mais clássicas e conservadoras.  Agora Marques Mendes chama-lhes conservadores. Para ele, com certeza, a palavra conservador, em política, adapta-se consoante os interesses do momento para confundir os patetas dos portugueses que este governo deve considerar mentecaptos. Pelo menos assim parece, de acordo com a baralhada das intervenções do primeiro-ministro, quer pelos termos utilizados quer pelo tipo de leis que manda elaborar e aprovar. Requalificação em vez de despedimentos, poupanças em vez de cortes, convergência em vez de cortes nas pensões, mobilidade especial em vez de deslocações forçadas… São tanta e tais que nem há paciência para escrever todas. Davam um dicionário de coelhês.


Já cá faltava também este com uma novilíngua como a do governo. 


 


 

Léxico do politiquês


Marques Mendes na Revista Visão de quinta-feira defende a liberdade de escolha na educação que se prevê ser consubstanciada pelo governo num tal cheque-ensino ao qual nem sequer se refere, pelo menos enquanto conceito. Mas sobre este tema pode ler-se o blog seguinte.


O que achei espantoso, e apenas como um exercício de linguagem politica, foi o senhor propagandista em determinado momento do seu artigo de opinião se referir a uma coligação negativa de uma determinada direita burocrática com a esquerda mais conservadora. Espanto meu! Comecei logo a pensar em rever e reestudar toda a minha linguagem política. Estava perante uma autêntica revolução dos conceitos naquela ciência.


A literatura e jornalismo políticos sempre se referiram à direita como os conservadores (embora direita e esquerda não sejam fáceis de delimitar nos seus espectros políticos). Na Inglaterra há os Trabalhistas e os Conservadores, nos EUA os Republicanos, também denominados conservadores e os Democratas e, em qualquer dos países, segundo eles, os conservadores são assim chamados assumidamente com muita honra. Então fiquei baralhado.


A direita combate a esquerda por esta ser pelo progresso e pela evolução de uma política mais virada para o social em vez da manutenção das estruturas sociais mais clássicas e conservadoras.  Agora Marques Mendes chama-lhes conservadores. Para ele, com certeza, a palavra conservador, em política, adapta-se consoante os interesses do momento para confundir os patetas dos portugueses que este governo deve considerar mentecaptos. Pelo menos assim parece, de acordo com a baralhada das intervenções do primeiro-ministro, quer pelos termos utilizados quer pelo tipo de leis que manda elaborar e aprovar. Requalificação em vez de despedimentos, poupanças em vez de cortes, convergência em vez de cortes nas pensões, mobilidade especial em vez de deslocações forçadas… São tanta e tais que nem há paciência para escrever todas. Davam um dicionário de coelhês.


Já cá faltava também este com uma novilíngua como a do governo.