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sábado, 8 de julho de 2023

Carlos Moedas, Lisboa, e o trânsito no centro da capital

Carlos Moedas_Lisboa trânsito.png


A leitura deste artigo não deve ser feita pelos que deliram por manter a manutenção da intensidade do  tânsito automóvel na baixa de Lisboa com a desculpa do turismo, do comércio e doutros delirantes argumentos. 


Moedas não tirou nem um carro


OPINIÃO COFFEE BREAK


Um dia alguém na câmara vai conseguir tirar carros de Lisboa. Tantas capitais europeias conseguiram. Deve ser possível.


Opinião Bárbara Reis | PÚBLICO


Bárbara Reis


In Jornal Público, 8 de Julho de 2023


Escrever bem é evitar advérbios, mas hoje é dia de ignorar a regra. Afinal, Carlos Moedas, presidente da Câmara de Lisboa, não tirou os carros do centro da capital. Nem um.


Moedas anunciou com pompa, mas ficou tudo na mesma. Após o anúncio, esperei uma semana, duas, três, quatro. Mais tarde ou mais cedo, a diferença seria notória. Nada. Esperei um mês, dois, três. Nada.


A história é simples: a 18 de Abril, num gesto radical e corajoso, Moedas anunciou várias medidas para melhorar a mobilidade na capital:


— no centro histórico de Lisboa só poderiam circular carros de moradores, trabalhadores locais e transportes públicos,


— seriam proibidos os TVDE, que formalmente não são transportes públicos,


— e tudo o que pese mais de 3,5 toneladas.


Aqui no PÚBLICO, escrevemos que “o controlo dos veículos que não podem circular nas zonas onde o trânsito é condicionado será feito pela polícia municipal e quem violar as regras está sujeito a uma coima por desrespeito à sinalização de trânsito existente”.


Era bom e mau ao mesmo tempo. Bom porque um dia destes Lisboa é a única capital europeia sem regras que limitem a entrada e circulação de carros na cidade. Mau porque não tinha havido debate e as novas regras iriam ser postas em prática dias depois, a 26 de Abril, e as dúvidas eram muitas.


Ninguém percebeu como iria funcionar. No dia 26, como é que um morador que tivesse saído de carro de manhã regressaria a casa? Sem distribuição de dísticos de residentes, como é que a polícia faria a triagem? Como impedir ou multar os não moradores? A polícia iria parar todos os carros e pedir comprovativos de residência? Seria de levar na mala contas da água e da luz com o nome e morada?


E como é que os “trabalhadores locais” iriam provar que trabalham na retrosaria A, na papelaria B, no cabeleireiro C e no banco D? E fazia sentido impedir a Uber ou a Bolt de circularem? Os moradores e turistas passariam a ser obrigados a usar táxis?


E onde estavam as excepções para apoio a moradores idosos ou doentes tão discutidas no mandato de Fernando Medina, o autarca anterior, quando a câmara tentou fazer uma mudança semelhante que não saiu do papel?


E onde estavam as regras para os infernais tuk-tuk, que se passeiam pelo centro histórico da capital a passo de caracol, em ritmo de safari, suavemente para não afugentar as girafas, talvez apareça uma, e estacionam em cima das passadeiras, em segunda e terceira fila, em tudo o que é esquina, e são em tão grande quantidade que andam em comboios de quatro e cinco colados em linha à procura de clientes?


Havia muitas perguntas, mas a mancha da “área de circulação condicionada” que se via no mapa feito pela câmara — uma mancha grande — dava esperança. O centro histórico poderia voltar a ser um bairro simpático para morar. Seria este o princípio do fim da Lisboa-Disneylândia, o parque temático para turistas?


Neste ponto, estamos a 26 de Abril, pensei que é melhor decidir mal do que não decidir e fiquei à espera.


Eis senão quando tudo começou a recuar logo no dia de estreia da reforma.


Moedas esclareceu que, afinal, ir de carro para a zona histórica e ribeirinha não seria só limitado aos moradores e “trabalhadores locais”. Quem tivesse “como destino esta zona” também poderia ir de carro. What?!


Parece uma piada, mas é isso que foi escrito no site da câmara: “A circulação só é permitida a transportes públicos e ao trânsito local: quem reside, trabalha ou tem como destino esta zona.”


Quem “tem como destino esta zona” são todas as pessoas que querem ir de carro para o centro histórico de Lisboa ou que querem atravessar a cidade pela zona ribeirinha. Ou seja, nada muda.


Pus-me a imaginar um diálogo entre um condutor e um polícia:


— O senhor tem autorização para circular nesta “área de circulação condicionada”?


— Sim.


— Mora aqui?


— Não.


— Trabalha aqui?


— Não.


— Então?


— Tenho como destino esta zona.


— Ah, claro, faça favor.


Também no dia 26, apareceu outro esclarecimento: afinal, os TVDE também podem circular na zona, desde que seja só para tomar e largar passageiros.


A seguir, a 31 de Maio, a câmara fez novo esclarecimento: afinal, o acesso de veículos pesados iria ser autorizado até às 10h, ou seja, o horário seria alargado em duas horas em relação ao anunciado a 18 de Abril.


Tinham estado a ver melhor e não era realista ser só entre as 20h e as 8h. E uma pessoa diz: nunca foi só até às 8h. Ao meio-dia, há sempre carrinhas e camiões parados em cima do passeio a descarregar em todo o centro da capital, a começar pelas ruas pedonais da Baixa. Isto é para enganar quem?


Pus-me então a falar com os polícias municipais. Todos os sábados falo com um ou dois e todos dizem o mesmo: não receberam instruções para controlar o acesso de carros, saber se são moradores ou trabalhadores ou multar os rebeldes. A única instrução que têm é a de impedir os autocarros de turismo grandes, os tais com mais de 3,5 toneladas. E uma pessoa diz: isso é verdade desde 2017, foi uma boa medida de Medina. Moedas anunciou o que já existia há seis anos.


A mobilidade é uma coisa complexa, mas já enerva tanto anúncio falso. É Moedas, foi Medina, foi António Costa e, se calhar, quem esteve na câmara nos anos anteriores. Pelo menos desde 2011 que são aprovadas e anunciadas Zonas de Emissões Reduzidas (ZER) de vários tipos e nada sai do papel. São postas placas de trânsito a anunciar as mudanças e, como não há nem fiscalização nem multas, nada muda. Passam uns anos, vem nova ZER e tudo se repete.


É aqui que estamos de novo. Passaram três meses e está tudo na mesma. Afinal (um advérbio), nem (outro advérbio) um carro foi impedido de circular pela zona condicionada. Ainda (terceiro advérbio). Um dia alguém na câmara vai conseguir. Tantas capitais europeias conseguiram. Deve ser possível.


 

segunda-feira, 25 de abril de 2022

Uma pequena memória do 25 de abril de 1974

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O rádio despertador, acertado para as sete da manhã, no Rádio Clube Português estação onde estava sintonizado, ouvi um comunicado alertando a população para não sair de casa. Aguardei as notícias tinha havido o que aparentemente teria sido um golpe de estado. Rapidamente dei-me conta que era muito mais do que isso. Estava em curso uma revolução cujos contornos ainda eram duvidosos.


Como habitualmente preparei-me para ir para o trabalho, na altura na Rua Serpa Pinto ao Chiado. Tomei o metropolitano e saí no Rossio e dirigi-me como sempre para subir a pé a Rua Nova do Almada mas soldados por ali atentos limitaram-me o acesso dizendo que a zona estava interdito. Lá para cima na Rua António Maria Cardoso perto do local da empresa onde trabalhava na altura.


Voltei para trás e acompanhei na televisão o cerco à sede da PIDE/DGS.


As festas e os comícios de pela liberdade eram frequentes um deles foi por mim filmado ainda com uma Câmara de filmar Super 8 mm.


 



 


No princípio deste mês de abril regressei da Beira-Alta onde estive rodeado apenas por vegetação e pequenos terrenos cultivados, dantes para subsistência mas atualmente para ocupação do tempo livre cultivando para não terem a terra a mato.


A vida decorre no seu dia-a-dia em simultâneo com o chilrear dos pássaros como se Passos Coelho e o seu Governo não existissem. É uma região politicamente conservadora e tradicionalmente votante no PSD desde a revolução do 25 de abril. Receios arcaicos que lhes foram incutidos pela ameaça da perda das suas pequenas courelas, caso na altura certos partidos ganhassem as eleições. Esses receios ainda hoje subsistem nos mais velhos porque dos poucos que ficaram os filhos que partiram há anos para as grandes cidades à procura de outras formas de vida.


Após a demissão do Governo de Santana Lopes, e pela primeira vez, o Partido Socialista, com José Sócrates, conseguiu penetrar no distrito e ganhar aqui as eleições. Embora tenha havido algumas mudanças nas mentalidades, especialmente em Viseu, grande centro urbano da região, no campo a fidelidade ao PSD manteve-se apesar de vozes discordantes sobre este que está a governar no qual não se reconhecem e em que tradicionalmente votam por mais por tradição do que por consciência política.


No “campo” votam muitas das vezes em personalidades que, na sua ingénua “forma de ver”, são muito simpáticos ou falam muito bem e prometem muito, mas que depois fazem pouco. Nas eleições autárquicas o processo refina-se pois que “os influentes” da vila, da aldeia e do local dominam e controlam com a sua influência as populações.


Hoje em dia e após o 25 de abril de 1974 o modo de vida nada se compara ao que foi no passado. Os acessos à informação e o trabalho mais valorizado trouxeram a estas populações melhorias às suas condições de vida.


Como não compram jornais porque não lhes chegam às mãos e, mesmo que assim fosse, não pagariam para os comprar já que os recursos financeiros voltaram a ser escassos. Falam sobre política, mas daquela que lhes chega pelos quatro canais da televisão e seus comentadores. Para a maior parte não há dinheiro para satélite. Sobre a política que lhes chega a reflexão que fazem “ao seu jeito” nem sempre é acrítica mas plena de de senso comum. Região de pequenos proprietários onde o sentimento de posse da propriedade está muito arreigado e ainda cheio de receios ancestrais vindos do antigo regime.


É gente com filhos e netos que deixaram o campo e foram para a cidade, capital do distrito, tirar um curso superior para terem um canudo que lhes trouxesse promoção social mas que a maior parte das vezes de nada lhes valeu por falta de ofertas emprego. Os pais procuravam dar aos filhos uma forma de vida que não fosse cavar a hortas para cultivar batatas, couves e cebolas para consumo interno.


Nestes locais interiores o acesso aos cuidados de saúde sempre foi no passado um problema mas piorou nos últimos anos. A deslocação à cidade, para quem não tem transporte próprio, para uma consulta ou tratar qualquer assunto significa a perda de um dia completo devido à escassez de transportes públicos. A “carreira” passa às sete horas da manhã e só lá para o fim da tarde regressa. É o problema que resulta das privatizações tão valorizadas por esta direita. Há transportes se for rentável, caso contrários acaba-se com esses percursos a menos que sejam subsidiados. Paga-se a passagem e também através dos impostos. Isto é, justifica-se a privatização para tornar os transportes mais eficazes e rentáveis, depois, subsidiam-se os privados para manterem certas carreiras. Dinheiro que sai dos contribuintes na mesma. Quem ganha no final não é a população.


O 25 de abril para quem não o viveu não faz ideia de como Portugal se transformou.


Muitos na idade dos entre os 30 e os 41 anos e pouco mais, que andam para aí a aquecer as cadeiras dos gabinetes a viver à custa do orçamento mas que falam à boca cheia do empreendedorismo não fazem ideia do que era viver antes do 25 de abril de 1974.