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quarta-feira, 8 de outubro de 2025

Lisboa em Transformação: Reflexões sobre Políticas Urbanas, Imigração e Identidade

Turismo em excesso.png


Estamos em plena campanha para as eleições autárquicas e, neste contexto, surge a necessidade de refletir sobre o impacto das políticas municipais dos últimos anos em Lisboa. Questiona-se o papel dos apoiantes de Carlos Moedas e dos presidentes de freguesia, desafiando-os a apresentar os reais benefícios trazidos à cidade e aos seus habitantes, para além de uma série de consequências negativas associadas à gestão do turismo, imigração e ordenamento urbano.


Consequências do Turismo e Políticas Urbanas


Durante o mandato atual de Carlos Moedas Lisboa assistiu à continuação e intensificação de um turismo descontrolado, cujos efeitos adversos se fazem sentir tanto na vida dos residentes como na identidade da cidade. O incentivo e manutenção deste modelo têm resultado na proliferação de alojamentos locais, na escassez de habitação acessível para a população e na autorização de mais hotéis, em detrimento da construção ou renovação de edifícios para fins habitacionais não especulativos. As políticas de “licenciamento zero”, por sua vez, facilitam a abertura de atividades sem a devida avaliação técnica prévia, comprometendo a segurança, higiene, mobilidade e bem-estar público, além de sobrecarregarem os serviços de fiscalização e inspeção administrativa.


Imigração e Transformação dos Bairros


Outro ponto crítico refere-se à dispersão desregulada da imigração por vários bairros, excetuando as zonas habitadas pelas elites. Muitos imigrantes, substituindo a mão-de-obra local em setores que oferecem baixo rendimento ou pouca atratividade, abriram pequenos estabelecimentos comerciais — lojas, mercearias, restaurantes — que ocuparam o espaço deixado pelo comércio tradicional, destruído pelas grandes superfícies. Estas lojas, frequentemente de licenciamento duvidoso, apresentam elevada rotatividade, com negócios que abrem e fecham rapidamente, muitas vezes mantendo a etnia entre proprietários e funcionários.


Há também um crescimento visível de cabeleireiros — masculinos, a preços irrisórios, e femininos, geridos sobretudo por brasileiros — em praticamente todas as freguesias exceto nas de maior prestígio, onde o discurso de integração raramente encontra correspondência na vivência quotidiana.


Impacto no Espaço Público e Qualidade de Vida


No dia-a-dia, a experiência de caminhar pela cidade evidencia as consequências destas políticas: ciclovias pintadas de verde tiveram a promessa de Moedas de serem removidas ou alteradas. Foram mantidas porque «Carlos Moedas (PSD), decidiu retirar a proposta para avançar com o projeto de alteração da ciclovia da Avenida Almirante Reis por considerar que “o tema é demasiado relevante para jogos partidários”». Esta ciclovia na referida avenida cria constrangimentos à circulação, inclusive de veículos de emergência. O centro de Lisboa, especialmente áreas como a Praça da Figueira, Martim Moniz e Rossio, transformou-se num “espaço turistificado”, dominado por turistas de classe média-baixa, negócios voltados para o retalho turístico e estacionamentos de tuk-tuks.


O espaço público na Baixa lisboeta é ainda pressionado por grupos de ciclistas turísticos que desrespeitam peões, e pela proliferação desordenada de bicicletas e trotinetas. A sustentabilidade urbana parece reduzida a ciclovias e discursos ambientais, sem um plano coerente que priorize os interesses da população local e a redução efetiva da dependência do automóvel.


Identidade Urbana e Desafios de Integração


O percurso pelo eixo central da cidade, da Avenida Almirante Reis até ao Bairro das Colónias, revela uma mudança significativa no perfil demográfico: imigrantes asiáticos ocupam espaços antes frequentados por africanos, substituindo a mão-de-obra local em setores menos atrativos. Esta transformação ocorre num contexto de ausência de políticas eficazes de integração, o que fomenta uma sensação de transitoriedade e alienação entre novos e antigos moradores.


Enquanto grupos políticos radicais exploram o discurso de que os imigrantes retiram empregos aos autóctones, a realidade é marcada pela recusa de muitos portugueses em aceitar determinados trabalhos, criando uma dependência de mão-de-obra estrangeira — infelizmente, sem o controlo necessário para garantir coesão social e segurança.


Conclusão: Entre Potencial Cosmopolita e Desarticulação Urbana


Lisboa encontra-se num momento de transição, oscilando entre o potencial de uma cidade cosmopolita e os desafios de uma gestão municipal desarticulada. A falta de políticas de integração, o abandono do comércio tradicional, a turistificação desenfreada e a ausência de uma estratégia que valorize a qualidade de vida e o sentido de comunidade minam a confiança dos lisboetas e diluem a identidade da cidade. Sem uma mudança de rumo, Lisboa corre o risco de se tornar um espaço marcado pela insegurança, marginalidade e alienação, onde os interesses económicos se sobrepõem ao bem-estar dos seus habitantes.

segunda-feira, 10 de março de 2025

Imigrantes e o ato de perceber pelo cidadão comum

Imigração em Lisboa3.png


Mais uma vez a propósito de imigração. Quando alguém fala ou escreve sobre imigração, já excessiva para a dimensão do nosso país e que já corresponde a 10% da população autóctone, é de imediato considerado racista e xenófobo ou, na melhor das hipóteses, simpatizante do partido Chega.


Quando alguém faz uma crítica desfavorável ou contesta a entrada exagerada de imigrantes acusam-no de ser por causa da cor da pele ou outros disparates congéneres. É evidente que há racistas e xenófobos empedernidos que se baseiam na cor da pele, mas que não reagem quando as entradas são de “raça caucasiana”, terminologia que se baseia na teoria das raças há muito tempo desatualizada e contestada. A questão não é essa, mas sim o excesso de imigração que está a afrontar o país.


Peças jornalísticas, artigos de opinião e editoriais são publicados em alguns jornais defendendo a imigração, seja clandestina ou não, seja proveniente, ou não, de redes de tráfico humano, o que interessa é que é preciso imigrantes e que haja portas abertas. E repetem-se as justificações costumeiras, tais como Portugal precisa de imigrantes, nós já fomos um país de emigração, os imigrantes vêm contribuir para o rejuvenescimento demográfico porque o país está a envelhecer, etc., etc.


Provavelmente os que defendem, com tenacidade e determinação, a imigração (que está descontrolada) é porque não residem ou não frequentam bairros onde os imigrantes do Bangladesh, Paquistão e de outras nacionalidades, sobretudo muçulmanos, já tendem a este ritmo a super a população que habita nesses bairros. O caso de Arroios, em Lisboa, tem 92 nacionalidades em cerca de dois quilómetros quadrados.


Por outro lado, esquecem-se de que a mão de obra dos imigrantes interessa mais a alguns exploradores de mão de obra porque lhes pagam menos salário do que aos trabalhadores nacionais.


Hoje, o jornal Público, e mais uma vez, publica um artigo sobre um imigrante de sucesso e dizem outros irão seguir. Certo, são exemplos raros, de sucesso, mas que não justificam a crescente proliferação de imigrantes que abundam pelo país mais concretamente em alguns bairros de Lisboa onde de juntam como bandos.


Sempre podemos encontrar uma explicação para este tipo gregário, o que, nem por isso, deixa de ser preocupante. Assim, uma hipótese para este comportamento é devido à influência dos hábitos culturais e ou necessidades económicas que origina a visibilidade que se tem dos imigrantes em espaços públicos. O caso mais comum que pode servir como exemplo são os imigrantes do Bangladesh, mas haverá com certeza outros, que tendem a reunir-se em espaços públicos ou ao abrirem pequenas empresas que são mais visíveis e que, por isso estão mais presentes nessas áreas. Aqui parece residir o problema para os habitantes dessas zonas que vivem nesses locais há décadas e que vêm os espaços públicos a serem ocupados por gente de outras nacionalidades.


Muita daquela população procura o nosso país para usufruir de regalias que lhes são concedidas. Trazem as suas mulheres subservientes que permanecem nas suas casas e que apenas servem para aumentarem a sua prole, enquanto eles trabalham ou são proprietários de minimercados, lojas de telemóveis ou outro tipo de negócios que surgem uns ao lado dos outros.


Têm-se assistido a um aumento de lojas de “souvenirs” que conseguem abrir sem licenças específicas, o que dificulta o controlo. A maior parte das vezes localizadas lado a lado do mesmo ramo. Isto devido ao “licenciamento zero” que permite a imigrantes a abertura de estabelecimentos comerciais sem qualquer aprovação da autarquia e que Carlos Moedas diz querer quer acabar com esta legislação.


O fenómeno gera a descaracterização dos centros históricos e o aumento dos preços das rendas. Grande parte das lojas é gerida por imigrantes que veem nelas uma forma de permanecer legalmente em Portugal e uma morada usada para validar mais de 1.600 atestados de residência.


Segundo o Observador o “Crescimento estimado de imigrantes sem-abrigo em Lisboa é de 25%. Chegam do Brasil, Índia, Nepal, Marrocos, Gâmbia, Senegal, Angola e outros países e alguns deixaram para trás um trabalho no Alentejo.” Que ultrapassam o número de portugueses sem-abrigo, dados de há um ano.


Por outro lado, em 2023 nasceram na Maternidade Alfredo da Costa (em Lisboa) 1.647 filhos de mães estrangeiras, o equivalente a 43% dos partos. Destes 18% são filhos de mães oriundas da Índia, Nepal, Bangladesh e Paquistão e 10% filhos de mães africanas.  Fonte: INE.


Há cerca de 500 mil estrangeiros registados na Segurança Social:  cerca de 200 mil são brasileiros, 41 mil da Índia, trabalhadores nepaleses e bengalis são cerca de 20% do total. Fonte: BP.


Há falta de informação porque há algumas instituições públicas, que continuam sem partilhar os dados que recolhem, mesmo com quem investiga este tema. Porque será? As instituições mantêm dados trancados porque defendem que essa informação pode ser útil para combater narrativas populistas que existem em torno da imigração.


“Imigrantes, descendentes de imigrantes, fazem e farão parte da nossa sociedade”, escreve o Público, “são portugueses e, como qualquer português, para vencer na vida, precisam de ter condições de trabalho, de educação, de saúde, de habitação e, claro, não ser sujeitos a discriminação ou à exploração de redes criminosas”. Todavia milhares de portugueses têm emigrado, jovens incluídos, porque não encontram condições de trabalho e de habitação, saúde que está caótica com a ministra da Saúde deste Governo.


Diferentes grupos de imigrantes podem gravitar em torno de diferentes tipos de trabalho com base em competências, oportunidades e redes sociais. Por exemplo, enquanto muitos imigrantes africanos podem estar envolvidos em trabalho manual ou trabalho de construção, os imigrantes de Bangladesh não vêm a trabalhar nesta área, contudo podem encontrar oportunidades em minimercados.

sábado, 8 de julho de 2023

Carlos Moedas, Lisboa, e o trânsito no centro da capital

Carlos Moedas_Lisboa trânsito.png


A leitura deste artigo não deve ser feita pelos que deliram por manter a manutenção da intensidade do  tânsito automóvel na baixa de Lisboa com a desculpa do turismo, do comércio e doutros delirantes argumentos. 


Moedas não tirou nem um carro


OPINIÃO COFFEE BREAK


Um dia alguém na câmara vai conseguir tirar carros de Lisboa. Tantas capitais europeias conseguiram. Deve ser possível.


Opinião Bárbara Reis | PÚBLICO


Bárbara Reis


In Jornal Público, 8 de Julho de 2023


Escrever bem é evitar advérbios, mas hoje é dia de ignorar a regra. Afinal, Carlos Moedas, presidente da Câmara de Lisboa, não tirou os carros do centro da capital. Nem um.


Moedas anunciou com pompa, mas ficou tudo na mesma. Após o anúncio, esperei uma semana, duas, três, quatro. Mais tarde ou mais cedo, a diferença seria notória. Nada. Esperei um mês, dois, três. Nada.


A história é simples: a 18 de Abril, num gesto radical e corajoso, Moedas anunciou várias medidas para melhorar a mobilidade na capital:


— no centro histórico de Lisboa só poderiam circular carros de moradores, trabalhadores locais e transportes públicos,


— seriam proibidos os TVDE, que formalmente não são transportes públicos,


— e tudo o que pese mais de 3,5 toneladas.


Aqui no PÚBLICO, escrevemos que “o controlo dos veículos que não podem circular nas zonas onde o trânsito é condicionado será feito pela polícia municipal e quem violar as regras está sujeito a uma coima por desrespeito à sinalização de trânsito existente”.


Era bom e mau ao mesmo tempo. Bom porque um dia destes Lisboa é a única capital europeia sem regras que limitem a entrada e circulação de carros na cidade. Mau porque não tinha havido debate e as novas regras iriam ser postas em prática dias depois, a 26 de Abril, e as dúvidas eram muitas.


Ninguém percebeu como iria funcionar. No dia 26, como é que um morador que tivesse saído de carro de manhã regressaria a casa? Sem distribuição de dísticos de residentes, como é que a polícia faria a triagem? Como impedir ou multar os não moradores? A polícia iria parar todos os carros e pedir comprovativos de residência? Seria de levar na mala contas da água e da luz com o nome e morada?


E como é que os “trabalhadores locais” iriam provar que trabalham na retrosaria A, na papelaria B, no cabeleireiro C e no banco D? E fazia sentido impedir a Uber ou a Bolt de circularem? Os moradores e turistas passariam a ser obrigados a usar táxis?


E onde estavam as excepções para apoio a moradores idosos ou doentes tão discutidas no mandato de Fernando Medina, o autarca anterior, quando a câmara tentou fazer uma mudança semelhante que não saiu do papel?


E onde estavam as regras para os infernais tuk-tuk, que se passeiam pelo centro histórico da capital a passo de caracol, em ritmo de safari, suavemente para não afugentar as girafas, talvez apareça uma, e estacionam em cima das passadeiras, em segunda e terceira fila, em tudo o que é esquina, e são em tão grande quantidade que andam em comboios de quatro e cinco colados em linha à procura de clientes?


Havia muitas perguntas, mas a mancha da “área de circulação condicionada” que se via no mapa feito pela câmara — uma mancha grande — dava esperança. O centro histórico poderia voltar a ser um bairro simpático para morar. Seria este o princípio do fim da Lisboa-Disneylândia, o parque temático para turistas?


Neste ponto, estamos a 26 de Abril, pensei que é melhor decidir mal do que não decidir e fiquei à espera.


Eis senão quando tudo começou a recuar logo no dia de estreia da reforma.


Moedas esclareceu que, afinal, ir de carro para a zona histórica e ribeirinha não seria só limitado aos moradores e “trabalhadores locais”. Quem tivesse “como destino esta zona” também poderia ir de carro. What?!


Parece uma piada, mas é isso que foi escrito no site da câmara: “A circulação só é permitida a transportes públicos e ao trânsito local: quem reside, trabalha ou tem como destino esta zona.”


Quem “tem como destino esta zona” são todas as pessoas que querem ir de carro para o centro histórico de Lisboa ou que querem atravessar a cidade pela zona ribeirinha. Ou seja, nada muda.


Pus-me a imaginar um diálogo entre um condutor e um polícia:


— O senhor tem autorização para circular nesta “área de circulação condicionada”?


— Sim.


— Mora aqui?


— Não.


— Trabalha aqui?


— Não.


— Então?


— Tenho como destino esta zona.


— Ah, claro, faça favor.


Também no dia 26, apareceu outro esclarecimento: afinal, os TVDE também podem circular na zona, desde que seja só para tomar e largar passageiros.


A seguir, a 31 de Maio, a câmara fez novo esclarecimento: afinal, o acesso de veículos pesados iria ser autorizado até às 10h, ou seja, o horário seria alargado em duas horas em relação ao anunciado a 18 de Abril.


Tinham estado a ver melhor e não era realista ser só entre as 20h e as 8h. E uma pessoa diz: nunca foi só até às 8h. Ao meio-dia, há sempre carrinhas e camiões parados em cima do passeio a descarregar em todo o centro da capital, a começar pelas ruas pedonais da Baixa. Isto é para enganar quem?


Pus-me então a falar com os polícias municipais. Todos os sábados falo com um ou dois e todos dizem o mesmo: não receberam instruções para controlar o acesso de carros, saber se são moradores ou trabalhadores ou multar os rebeldes. A única instrução que têm é a de impedir os autocarros de turismo grandes, os tais com mais de 3,5 toneladas. E uma pessoa diz: isso é verdade desde 2017, foi uma boa medida de Medina. Moedas anunciou o que já existia há seis anos.


A mobilidade é uma coisa complexa, mas já enerva tanto anúncio falso. É Moedas, foi Medina, foi António Costa e, se calhar, quem esteve na câmara nos anos anteriores. Pelo menos desde 2011 que são aprovadas e anunciadas Zonas de Emissões Reduzidas (ZER) de vários tipos e nada sai do papel. São postas placas de trânsito a anunciar as mudanças e, como não há nem fiscalização nem multas, nada muda. Passam uns anos, vem nova ZER e tudo se repete.


É aqui que estamos de novo. Passaram três meses e está tudo na mesma. Afinal (um advérbio), nem (outro advérbio) um carro foi impedido de circular pela zona condicionada. Ainda (terceiro advérbio). Um dia alguém na câmara vai conseguir. Tantas capitais europeias conseguiram. Deve ser possível.


 

sábado, 6 de maio de 2023

De Lisboa de portas abertas até à saturação

Lisboa e imigração.png


Qualquer cidade e Lisboa, tal como muitas outras, apresenta uma imagem pública que é dada pelo conjunto de imagens e perceções de um número muito significativo de cidadãos. São imagens de grupo que operam no meio ambiente citadino. Cada um dos indivíduos tem uma imagem própria e única que pode aproximar-se da imagem pública de uma cidade.


Estas imagens são procedentes das várias interpretações que temos da cidade que não se limitam aos elementos físicos percetíveis. Há outros fatores que influenciam a imagem duma cidade como o significado social de uma determinada área e pelas funções centrais que a ocupam. Função central urbana é o conjunto das atividades sociais, comerciais, tais como venda de bens e serviços, centro de entretenimento e de instalações desportivas, áreas comerciais, restaurante, áreas residenciais, religiosos, entre outros, que usam os vários espaços duma área urbana. Isto é, são pontos na cidade que se destacam pela intensidade de atividade, implicando a junção num mesmo local de um grande número de pessoas, veículos e serviços.


Nas cidades existem várias espécies de orientação e de reconhecimento de lugares que nos são dados por sensações visuais de cor, polarização da luz, formas, perceção pelo olfato de cheiros característicos de alguns locais e bairros, ouvido com a receção de sinais sonoros, etc.


A imagem que se tem de uma cidade ou de uma área urbana não são apenas as vias, as ruas e avenidas, os edifícios, os bairros, os cruzamentos e todos os outros pontos marcantes. São também os seus habitantes permanentes ou temporários. Cada indivíduo acrescenta também um juízo de valor sobre as condições de qualidade urbana social e ambiental que ela oferece de acordo com interesses, objetivos e expectativas de vida de cada um.


Em cada freguesia, divisões administrativas da cidade circunscritas por áreas citadinas relativamente grandes, há elementos que, frequentemente, também nos servem de pontos de referência quando as atravessamos. Cada uma destas partes da cidade é diferente de outra. Para além dos seus aspetos físicos marcantes as gentes que as atravessam e que as frequentam concorrem também para a sua caracterização e para a perceção de uma divisão étnica e de classe. As cidades são, desta forma, centros de mudanças demográficas, sociais, económicas e políticas e atração para migrantes vindos das mais diversas partes.


A caracterização e a imagem típica de alguns bairros ou áreas das cidades podem ser modificadas pela intensificação da  imigração donde de levanta uma questão que é a de saber como é que ela afeta, ou não, o ambiente urbano.


Baseando-nos numa observação apenas visual e, como tal, falível, a leitura que se fez de alguns bairros e freguesias da cidade de Lisboa, no que respeita ao elemento humano, verificámos que se vem modificando substancialmente ao longo das últimas décadas. O que qualquer observador atento verifica é que a Lisboa que se conhecia está, a cada dia que passa, diferente, não apenas quanto ao seu ambiente físico, mas sobretudo ao nível das pessoas que nela circulam.


Três freguesias de Lisboa, São Jorge de Arroios, Anjos e Santa Maria Maior são aquelas a que dediquei disponibilidade para, por observação relatada tal como foi visualizada sem traçar ideias interpretativas, mas não deixando de formular alguma conjeturas que são, como já afirmei, apenas pessoais e, como tal, falíveis, já que uma investigação criteriosa deverá ter uma metodologia de análise e de recolha de informação muito diferente. Assim, deverá, quem ler este texto, destituir quaisquer pressupostos racistas ou xenófobos da minha parte, porque não é disso que se trata.


A freguesia de Arroios com apenas dois quilómetros quadrados é a que em Lisboa tem maior concentração de moradores por metro quadrado com tendência a aumentar devido à imigração. Segundo os dados da freguesia são 79 nacionalidades numa extensão de 2,3 quilómetros quadrados. A falta de alojamentos é um problema que tem vindo a ser agravado. Já não se alugam casas, nem quartos. Alugam-se camas a preço elevado em habitações sem condições.


Lisboa, no que se refere a algumas artérias e largos nas referidas freguesias, está a ser povoada, por gentes de outras raças, outras etnias, outras culturas, outras religiões que vagueiam pelas avenidas, ruas e praças.  Sentados ou deitados pelos poucos jardins, são gente possivelmente à espera de alguma coisa ou que estarão de passagem numa fase de transição para outro país da Europa. Muitos trabalharão, outros, aparentemente, estarão desocupados ou procuram emprego. Andam «sem eira nem beira» com mochilas às costas arrastando-se pelos bancos dos jardins olhando e manipulando insistentemente os telemóveis. São na sua maioria famílias e grupos de jovens que chegam aos magotes que entram pelas portas que lhes são abertas sem controle adequado.


Em alguns locais das referidas freguesias a desproporção entre o número de passantes autóctones e migrantes é claramente visível. A maior parte vêm de regiões da Ásia, como China, India, Nepal, Bangladesh, Paquistão e outros daquelas regiões geográficas. Na sua maior parte são gente pacífica, amável, sociável movimentando-se incessantemente numa azáfama supostamente com algum destino ou objetivo.


Contrastam com os africanos, especialmente os de Angola e de Moçambique cuja postura e comportamentos denotam alguma agressividade e atitudes provocatórias, sobretudo nos mais jovens, talvez geradas por desconfiança em relação aos ex-colonos que está latente nos seus rostos. Talvez porque não encontram ocupação e um trabalho digno e rentável ou, porque quando o encontram a maior parte das vezes é precário. O seu espírito gregário, leva-os para bairros suburbanos onde, desintegrados, organizam-se em gangues agressivos que se dedicam ao tráfico de droga e à violência. Em Lisboa, e na sua Área Metropolitana, bairros degradados são predominantemente habitados por migrantes e pelos seus filhos e netos vindos das ex-colónias portuguesas na África. O Rossio e o Largo de São Domingos são os lugares do encontro preferidos pelos africanos mais velhos.


Segundo dados do SEF desde janeiro de 2013 que os nepaleses passaram a constar das 10 maiores comunidades estrangeiras em Portugal, com 23.441 cidadãos com residência legal no país, ultrapassando os chineses. Ainda de acordo com o SEF, dados de 2022, as principais comunidades estrangeiras residentes em Portugal são de cidadãos do Brasil, 233.138, do Reino Unido 36.639, de Cabo Verde 35.744, da Índia 34.232, de Itália 33.707, de Angola 30.417, de França 27.614, Ucrânia 26.898, Roménia 23.967 e Nepal 23.441.


A população negra, imigrante ou não, tem tido um inigualável contributo para o desenvolvimento de Portugal, mas o sistema perpetua uma imagem pejorativa, sendo o racismo uma das armas para legitimar a subalternidade. Grande parte dos imigrantes africanos negros e negras ou seus descendentes estão incluídos na sociedade portuguesa enquanto mão-de-obra precária, barata ou desempregada.


Juntemos a estes, outro tipo de imigrante, os brasileiros, chinelados que trouxeram a moda dos calções que os portugueses, mesmos os mais velhos, rapidamente adotaram sem ligarem ao facto de parecer ridículos.


Imigrantes brasileiros abrem negócios de cabeleireiro nos bairros que se localizam a alguns metros ou quarteirões uns dos outros. Muitos dos passantes questionam e comentam nos locais de encontro e nos cafés onde vão beber a bica, como é possível estes negócios sobrevirem e serem lucrativos tão próximos uns dos outros e com clientelas escassas. Muitos abrem e, passado pouco mais de um ano, encerram portas dando lugar a mudança de ramo.


Um outro grupo de “invasores” que fazem de Lisboa uma autêntica «babilónia» são os turistas. No Martim Moniz formam-se filas intermináveis de turistas perfilam-se, tal e qual carreiros e formigas, para apanhar lugar na conhecida carreira circular 28 do elétrico.


Turistas para carreira 28 no Martim Moniz.jpg


Os mais jovens (dizem que são do Erasmus) espalham-se pela zona da Freguesia de Arroios e também que contribuem para a insustentabilidade ambiental da cidade. Residem temporariamente em Alojamentos Locais, quartos e partes de casa que alugam, muitas vezes sem recibo possibilitando a fuga aos impostos a proprietários especuladores. À noite nos bares do sítio encharcam-se com álcool, os restaurantes enchem-se, não apenas com estrangeiros turistas, mas também com portugueses que avisam que a vida está má e que não ganham para as despesas.


Quem chega à zona do Mercado de Arroios e à Praça do Chile vindo do Areeiro e da Av. Guerra Junqueiro tem a perceção de que chegou a um país diferente, tal a proliferação de gentes que aqui aportaram vindas do Nepal, Bangladesh e regiões similares. Deslocam-se a pé, em bicicletas e em motoretas. São transportadores de empresas de entrega de comida ao domicílio (takeaway), “Uber Eats”  e “Glovos”. Cruzam-se nas ciclovias, quando as há, circulam pelos passeios perturbando pacíficos peões incumprindo e desrespeitando as mais elementares regras de trânsito seguindo o exemplo dos ciclistas que começam a ser uma outra forma de poluição visual para os lisboetas. Os portugueses gostam de ciclismo, mas na Volta a Portugal ou à França e ficam-se por aí!


Se nos dirigirmos para sul descendo a Av. Almirante Reis, passada a zona do Anjos, chegamos à Rua da Palma e ao Largo do Intendente, voltamos a ter a mesma sensação, passarmos uma fronteira para um país da Ásia que se prolonga até ao Largo de Martim Moniz. Os vindos da zona do Médio Oriente abrem em pequenos cubículos restaurantes de Kebab e outras iguarias orientais a que se juntam outros vindos de outras zonas que vendem artigos de consumo alimentar e bebidas à mistura com bugigangas para turistas. Os chineses também dominam com armazéns de artigos de vestuário e calçado para revenda e minimercados de produtos alimentares para confeção das mais variadas gastronomias. Por cada 5 transeuntes 4 são de outras nacionalidades.


Neste percurso podemos observar a proliferação de lojinhas de venda e reparação de telemóveis, barbearias e minimercados que intervalam entre si a pouca distância uns dos outros, quase lado a lado, a que se juntam minúsculos estabelecimentos que expõem no exterior frutas e legumes de segunda escolha vendidos a preços mais baixos e no interior produtos diversificados de mercearia. Estas lojas de comércio local serão alugadas ou de propriedade de negociantes asiáticos onde trabalharão familiares ou conterrâneos a troco de alojamento e de baixo salário. A propósito passou a ser habitual lojas que fecharam e que não abriram para comércio e estão a ser alugadas a imigrantes para habitação.


Desembocando no largo de Martim Moniz deparamo-nos mais uma vez com várias nacionalidades, sobretudo pequenos grupos de africanos sentados nos muros que delimitam canteiros laterais. No que antes eram lagos, deparamos agora com água estagnada, espécie de pântanos onde são despejados lixo e embalagens de plástico que por lá flutuam.


O Governo parece defender insistentemente a política de portas abertas à imigração, muita dela ilegal e aparentemente descontrolada, possibilitando que partidos radicais, populistas da extrema-direita como o CHEGA aproveitem para fazer oposição com argumentos aberrantes xenófobos e racistas sem qualquer fundamento contra a imigração, cujo objetivo é assustar as populações com a insegurança e com prejuízos advindos da política de falta de controle na entrada de migrantes. A perceção do cidadão comum politicamente iletrado é a da concordância com tais argumentos.


A imigração tem vindo a ser utilizada como arma política conduzindo a tensões e agitação acrescidas. Esta situação é exacerbada pela cobertura mediática e pela retórica política da extrema-direita como a do partido CHEGA. Algumas pessoas podem encarar os imigrantes como uma competição por postos de trabalho, o que suscita preocupações quanto à segurança do emprego e aos salários. Esta situação pode gerar ressentimento em relação aos imigrantes e pode também agravar as desigualdades económicas existentes. A perda de empregos é uma falácia que a extrema-direita aproveita. O facto é que a maior parte dos imigrantes vai ocupar postos de trabalho rejeitados pelos locais que não aceitam alguns tipos de trabalho o que é aproveitado por empregadores pouco escrupulosos que exploram a situação dos trabalhadores imigrantes muitos deles que se encontram sem autorização.


É possível que o ténue crescimento do CHEGA mostrado nas sondagens seja devido ao incómodo e à rejeição que os lisboetas sentem em algumas freguesias e bairros potenciada pela “ocupação” em edifícios onde vivem imigrantes que pagam alugueres de casas sem condições mínimas de habitabilidade e de segurança que são perturbadores para os inquilinos que há muito lá vivem. Por outro lado, com a imigração a aumentar, e caso não haja políticas de emprego, sociais e habitacionais as áreas de construção clandestinas e precária nas cidades irá aumentar problemas como condições anti-higiénicas, criminalidade, ambientais, etc. Contudo, os argumentos são contrariados pela frequência com que setores e as mesmas pessoas que criticam essa política se vão utilizando da mão-de-obra dessas comunidades.


Segundo alguns relatórios a imigração é muitas vezes percebida de forma negativa por os habitantes locais temerem a perda de empregos para os imigrantes, o aumento do custo e da sobrecarga dos serviços como se verifica no SNS e as filas que se formam em alguns serviços da administração pública. Em alguns casos, o afluxo de imigrantes coloca pressão sobre os serviços públicos, como a saúde, a educação e a habitação, o que pode levar ao aumento dos tempos de espera nos serviços, superlotação e falta de recursos com prejuízo para os utentes naturais.


Uma política de imigração de portas abertas pressupõe a criação de condições para os receber considerando as vantagens que, segundo o Governo trazem para o país. Todas as decisões têm prós e contras há que pesar cada uma delas. Para aproveitar os impactos da imigração no desenvolvimento e enfrentar os seus desafios, os governos nacionais e locais precisam de colaborar e coordenar as suas atividades nessa área para benefício de todos. Porém, políticas destinadas a restringir a imigração poderão ter um forte impacto negativo nas cidades. São estas que atraem a maioria dos imigrantes por poder vir a ser uma proporção significativa de população economicamente ativa que é crucial como força de trabalho contribuindo para o seu desenvolvimento. Por outro lado, um argumento apresentado para a receção de imigrantes é defendido por questões que se prendem com a demografia e com o crescente envelhecimento da população.


A maior diversidade cultural no país de acolhimento justificada pelas imigrações não se sobrepõe àquela em que os migrantes são vítimas de formas de segregação, discriminação ou confrontos culturais. A assimilação ocorre ao longo do tempo, à medida que os migrantes se instalam no país de acolhimento tem o contraponto de ser agente de uma alteração fenotípica da sua identidade física incluem-se neste conjunto as características morfológicas e fisiológicas de um indivíduo, que é um dos argumentos para os nacionalistas xenófobos e racistas.


Os defensores da imigração referem que tem sido um fator significativo no desenvolvimento das cidades, mas também dos seus problemas como causa de tensões e conflitos sociais devido a diferenças de língua, religião e costumes quando não há previamente um sistema que prepare a sua integração e mitigar os problemas decorrentes que são exacerbados pela insuficiência das infraestruturas e de instalações habitacionais que, aliás nas últimas semanas se agravaram com a organização de manifestações inorgânicas pela falta de habitação para os jovens e consequente mediatismo das críticas feitas às decisões tomadas pelo Governo para mitigar o problema.


As causas profundas das migrações são a pobreza e os conflitos e falta de oportunidades de emprego nos países de origem que não podem ser resolvidos por uma política de portas abertas nos países que escolhem para acolhimento. A imigração de portas abertas, mesmo promovida com integração e com políticas inclusivas deve ser normalizada, caso contrário as mudanças positivas trazidas pela imigração só causam danos e descontentamento nas sociedades de acolhimento. Ao deslocarem-se para as grandes cidades muitos migrantes são forçados a viver em condições de superlotação, com acesso limitado a comodidades básicas, como saúde, educação e habitação.


Trazem consigo culturas, línguas e tradições que enriquecem a diversidade das sociedades e contribuem para o crescimento económico ao trazerem novas competências e ideias que, no entanto, são condicionadas pelo nível de educação e profissão de origem. No entanto, a imigração também pode conduzir a conflitos entre diferentes grupos, uma vez que competem por recursos e empregos escassos, resultando por vezes em confrontos culturais e discriminação contra grupos minoritários.


 


 


 

sábado, 2 de outubro de 2021

Pela Avenida Almirante Reis ida e volta

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Tenho por hábito fazer caminhadas pelas ruas da área central da cidade Lisboa, hábito entretanto interrompido voluntariamente devido ao confinamento que me limitou ao espaço limítrofe da minha residência.


Hoje iniciei a minha dependência de exercício físico moderado que também me desperta os sentidos para a observação de lugares e pessoas que de movem pelos espaços da minha caminhada.


O trajeto definido para hoje foi a descida de toda a Av. Almirante Reis tendo como objetivo Martim Moniz, Largo de São Domingos, Rossio com regresso pelos mesmo trajeto.


Durante este meu périplo tive a oportunidade para estar atento a mudanças que se terão dado desde há quase dois anos. A atividade e o fluxo ininterrupto de pessoas pareceram-me terem recuperado para os de antes da pandemia.


As ciclovias descendente e ascendente lá estavam, lindas, pintadas a verdezinho, como Medina as sonhou, o que prova que Lisboa é uma cidade com sustentabilidade ambiental dada apenas pelo verde das ciclovias que agora Moedas quer eliminar.


Ambulâncias desciam a avenida com as sirenes a gritar para os veículos automóveis se encostarem à direita da via cujo espaço era diminuto o que as obrigou a invadir o espaço das ciclovias para poderem rapidamente progredir em direção ao ponto de socorro, suponho, do Hospital de São José.


Durante todo o meu trajeto de descida da Avenida tive oportunidade de contar os velocípedes que a desceram ou subiram por aquelas verdes ciclovias. Pasmem-se: quatro. Sim, quatro que subiam e não dei por algo que descesse. Podem perguntar durante quanto tempo. Foi o tempo que, ao meu passo de passeio, demorei a descer aquela via, ou seja, cerca de meia hora até ao Martim Moniz.  Em trinta minutos subiram aquela artéria quatro utilizadores de bicicletas, em oito horas de trabalho passariam teoricamente sessenta.


Talvez Fernando Medina me dissesse que não tenho visão de futuro porque daqui a 100 anos passarão a ser muitas mais. Temos é que acabar com os automóveis na cidade para ela ficar mais verde, exaltaria. Temos que pôr todos a andar de bicicleta, mesmo quem não saiba nem possa pedalar, crianças, homens, mulheres, idosos e idosas, doentes para irem a uma consulta hospitalar. Pois então! É assim que uma cidade fica menos poluída. Não é como esse Moedas que pretende trazer ainda mais automóveis para dentro da cidade com a promoção de preços baixos para estacionamento.


Apenas por curiosidade, Lisboa, nos censos de 2020, tem uma população dos 15-64 anos de 280124 pessoas e com 65 e mais anos apresenta 143990 pessoas, mais de metade da considerada em idade ativa (Fonte INE).   


Mas voltemos ao meu circuito. Ao chegar à Praça de Figueira deparei-me com um cenário próximo do pré-covid-19, turistas estrangeiros por todo o lado que espreitavam as ementas colocadas à porta dos restaurantes populares e baratuchos, pois os que agora para aqui viajam aparentam ser de classe média baixa e, sobretudo, mais jovens. O centro de Lisboa voltou a ser um “espaço turistificado”, desordenado. Entenda-se por turistificação, segundo alguns geógrafos, uma paisagem que pode apresentar-se destruída em decorrência do uso turístico ou da especulação imobiliária, e, para outros, especialmente os que não conheceram a paisagem antes pode ter outro valor, que gere atratividade e mereça destaque.


A articulação entre Câmara e o Governo, pode direcionar o planeamento da cidade dando prioridade a novas procuras do espaço urbano de sobrevalorizando o atendimento turístico, deixando para segundo plano os interesses da população local.


Terá sido Medina o responsável? De qualquer modo bem-vindos a Lisboa da covid (ou ex-covid?), do turismo e das bicicletas e do salve-se quem puder. Sim, das bicicletas! Como assim?


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Da Praça da Figueira dirigi-me para o largo de S. Domingos onde a Igreja do mesmo nome, arquitetura religiosa barroca, muito visitada depois do violento incêndio que quase a dizimou a 13 de agosto de 1959, mas onde ainda se podem ver as colunas corroídas pelo calor que as calcinou.


Acedi ao largo através do percurso pedestre que liga a Praça da Figueira ao referido largo pela Rua Dom Antão Vaz de Almada. Qual o meu espanto e perplexidade quando me deparo com um grupo excursionistas de mais de uma dúzia de bicicletas que transportavam estrageiros que ocupavam a maior parte do espaço pedonal e que se dirigiam em direção à referida Praça atrás de outro velocípede pedalado por um sujeito de calção e capacete que me pareceu ser o guia. Pedalavam equilibrando-se nas duas rodas sem qualquer respeito pelos peões que naquele momento se deslocavam no passeio que deveria ser apenas a eles destinado, mas que eram obrigados a desviarem-se. Pensei: bem visto ó Medina! Mas olha que eu, mesmo assim, votei em ti.


Não, Fernando Medina não perdeu por causa das bicicletas e das trotinetas em desmando pela cidade, mas ajudaram. A sustentabilidade das cidades não se faz com as bicicletas e com as trotinetas e com ciclovias pintadas de verde não, não vão salvar a cidade nem o planeta. Evitar e reduzir automóveis nas cidades é uma coisa, substituí-los por outros preferencialmente e sem critério, de costas viradas para a maioria dos cidadãos, é outra.


Era a hora de regressar seguindo o itinerário no sentido inverso, desta vez em direção a norte pelo passeio da direita, felizmente que ainda os há, mesmo que bicicletas driblando perigando peões que se passeiam pelo piso da calçada portuguesa.


O troço de Martim Moniz pela Avenida antigamente denominada Avenida D. Amélia que após a revolução republicana de 1910 mudou para a denominação atual até ao denominado Bairro das Colónias é acompanhada pela muda de gentes que se deslocam para cima e para baixo com predominância das provenientes da Ásia que se começam a sobrepor-se aos africanos que nas últimas décadas dominavam e que deverão ter escolhido novos lugares.


Estes asiáticos – chineses, paquistaneses, indianos, bangladeshianos, nepaleses - são imigrantes que vieram substituir a mão-de-obra que nega trabalho em algumas áreas e no pequeno comércio variado que dá ao português muita preocupação e pouco rendimento. Contrariamente aos que grupos racistas e nacionalistas da extrema-direita nacionalistas e neonazis que dizem que esses vieram tirar o trabalho aos autóctones, numa inversão propositada do problema. A falta de mão de obra em alguns serviços, deve-se aos autóctones que não querem trabalhar nesses serviços.  


Já próximo da Praça do Chile e passando pela Rua Morais Soares pareceu-me que tinha ultrapassado fronteiras encontrando-me nos espaços de Katmandu e de Daca a estes imensos brasileiros.


Ao regressar a casa chegou-me à memória Margarida Martins agora ex-Presidente da Junta de Freguesia resultante da agregação das antigas freguesias de São Jorge de Arroios e Pena e com a quase totalidade do território da antiga freguesia dos Anjos que terá observado, não me lembro em que circunstâncias nem em que lugar, que Arroios era a freguesia mais multicultural de Lisboa.


A propósito, em fevereiro de 2019, o Jornal de Notícias escrevia que “Passear pelo Largo do Intendente, ou Avenida Almirante Reis ilustra esta realidade. As esplanadas e os restaurantes são autênticas Torres de Babel, com clientes de todo o mundo sentados, lado a lado. A isto junta-se a diversidade de lojas, de templos religiosos e aromas que, por si só, nos transportam para outras paragens do Mundo.


Orgulhosa desta diversidade, Margarida Martins, a presidente da Junta de Freguesia de Arroios, atribui esta fraternidade à aposta na integração logo a partir dos bancos da creche. "Na maioria dos casos, há 24 nacionalidades de meninos que crescem juntos. Habituam-se a ver-se como iguais, convivendo com as diferenças, onde a língua portuguesa é sempre o elo de ligação", explicava.

quinta-feira, 30 de setembro de 2021

Programa Novos Tempos para Lisboa exequível ou não eis a questão

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Deixemos para estudos posteriores e estratégias futuras a análise dos resultados das eleições autárquicas 2021. Carlos Moedas, bem ou mal, por muito ou por pouco, o certo é que ganhou.


O que se deve agora discutir é o que disse e prometeu durante a campanha e sobre as balelas com contradições imensas que foi dizendo .


Numa entrevisto dada ao jornal público de hoje o ex-vice-presidente da bancada parlamentar do PSD António Leitão Amaro, um dos conselheiros de Carlos Moedas na campanha de Lisboa, diz que o candidato social-democrata é “o primeiro e o último responsável” pela vitória. Foi claramente uma vitória de Carlos Moedas por duas razões: primeiro, o Carlos Moedas cresceu e venceu, na expressão dele, contra tudo e todos porque apresentou esta alternativa reformista que deu esperança às pessoas. Ele soube, e foi o único, de uma forma assertiva e intransigente, mostrar os fracassos, os erros e os falhanços da governação socialista.


Estas afirmações de Leitão Amaro são facciosas e mostram a tentativa que provavelmente frustrada, para fazer uma lavagem às poucas competências que o novo autarca Moedas tem para a função e que vai ter de contrariar.


Como primeira abordagem o programa Novos Tempos enferma de enormes contradições que vão colidir entre programação e a concretização. Como tal a votação em Carlos Moedas foi mais clubista-partidária do que resultante efetiva do programa para a cidade. Alguns pontos do programa a serem concretizados poderão dar lugar à criação de mais cargos e encargos municipais, criação de novas clientelas e compadrios partidários, veja-se página Lisboa Participada do programa.


De facto, quem lê o programa de Carlos Moedas sem qualquer intuito analítico e atitude crítica fica aturdido com tanta coisa aparentemente boa e fica surpreendido pela positiva. É uma espécie de presente em que o papel de embrulho é apelativo, mas cujo conteúdo, se não for consumido de imediato, corre o risco de ficar adulterado em muito pouco tempo. Só uma enorme quantidade de conservantes o irão manter atualizado, o que me parece ser, para Moedas, empresa difícil de concretizar.


Logo no início da campanha de Carlos Moedas insurgi-me neste mesmo blogue contra as medidas de Medina em relação às ciclovias não pela ideia em si mesma, mas em relação à forma, às difientes falta de regras e procedimentos que as deveriam gerir que conduziu a uma circulação anárquica dentro e fora das mesmas, prejudicando e colocando em perigo peões e automobilistas. Mas uma coisa não pode levar a outra totalmente oposta por falta de regulamentação e controle. Limitar a circulação automóvel e incentivar o uso de ciclovias no centro da cidade parece não ser o projeto de Moedas para Lisboa e daí a contradição do seu programa no que se refere à sustentabilidade e circulação que vai em sentido contrario à sutemtabilidade que a europa está a seguir.   Vejamos o capítulo Restituir a Rua aos Lisboetas na página treze e seguintes do referido programa.  


O programa parece contradizer o que é a tendência nas grandes cidades europeias e da ideia de sustentabilidade, que é restrição da circulação automóvel nas grandes cidades, Medina parece propor medidas de promoção de mais circulação automóvel. O slogan "restituir a rua aos lisboetas" significa na verdade, restituí-la aos carros dos lisboetas quando refere “Restituir a rua aos lisboetas com o assegurar parques multifuncionais de estacionamento” para residentes em todos os bairros (falta esclarecimento do conceito) e “otimizar a oferta de estacionamento automóvel à superfície está a ir no sentido contrário.


As medidas do presidente eleito para o automóvel e os automobilistas, porque teve nas suas listas Carlos Barbosa, presidente do Automóvel Club de Portugal, tiveram que satisfazer os seus desejos automobilísticos e os dos seus elitistas sócios.


Como escreveu Fernanda Câncio no Diário de Notícias, “passamos de um autarca que queria limitar a circulação automóvel no centro para outro que anunciou descontos no estacionamento em toda a capital e vilipendiou as ciclovias enquanto diz querer "uma cidade mais sustentável" - é talvez isso que "as pessoas querem", slogans sem dor. Mas então talvez seja de aprender a não respirar.”


 O capítulo “Lisboa, uma cidade próxima de todos” de Medina parece aliciante para os desprevenidos, mas, tal como todo o programa a execução a prazo não é possível, necessitará de vários mandatos e muitos dos que nele votaram já cá não estarão para puderem ver a sua eventual realização e, para outros as espectativas verificar-se-ão frustradas.


 

sábado, 31 de julho de 2021

Lisboa é um perigo e Medina quer lá saber

 


Moda das trotinetes elétricas pode causar problemas a peões


Em Julho escrevi neste blogue sobre os candidatos à Câmara de Lisboa, Carlos Moedas e Fernando Medina a este último considerei que é o candidato dos biciclistas e trotinetistas tendo-me referido à anarquia daqueles veículos pela cidade de Lisboa. 


Hoje, ao ler na Revista Sábado de 29 de julho a coluna de opinião de Nuno Rogeiro, reparei com agrado que não estou sozinho no mesmo sentimento. Escreve então o autor que a "Falta a fiscalização do uso de trotinetes elétricas, com muitos acidentes. Cruzamento suicida de bicicletas e trânsito automóvel, com faixas mal instaldas, tudo agravado por elemntos metálicos fora do lugar. A Av. Almirante Reis, por exemplo é a balbúrdia."


 

sexta-feira, 16 de julho de 2021

Com Carlos Moedas teremos o paraíso na cidade de Lisboa

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A campanha pré-eleitoral para as autarquias começa a levantar fervura, em Lisboa prevê-se que irá entrar em ebulição com o confronto entre os dois protagonistas, Carlos Moedas e Fernando Medina. O primeiro é o homem das pessoas, o segundo o homem da Lisboa verde centrado nas bicicletas e nas trotinetas.


Desde que Medina resolveu fazer crescer e espalhar bicicletas e trotinetas de aluguer por toda a Lisboa o desregramento e o desrespeito com a circulação das ditas foi aumentando na mesma proporção. É frequente um cidadão ao deslocar-se calmamente pelo passeio que lhe está destinado para circular encontrar uma trotineta abandonada, caída ou estacionada, no meio do passeio na qual se arrisca a tropeçar, caso se distraia.   


O incentivo à deslocação por velocípedes e trotinetas com total desprezo pelas pessoas que não têm possibilidade de pedalar pelas “vias verdes” das duas rodas também tem um objetivo lucrativo para a empresa Gira que pertence à EMEL que oferece esses serviços por esta Lisboa que não é para todos.


Carlos Moedas não nos fala de pedalar por Lisboa, apresentou o programa para a cidade, mas, como os de qualquer outro candidato, o programa é eleitoralista e inexequível num período de um mandato. Moedas promete uma dúzia de medidas (à dúzia é mais barato) que sabe não poder cumprir a curto prazo se, porventura, chegar a ganhar as eleições. Promete a Lua e o Sol às pessoas, vende-lhes esperanças e ilusões.


Faz olhinhos e sorrisos aos idosos, à cultura, aos automobilistas no que se refere ao estacionamento, prometendo diferenciar os moradores na cidade dos não moradores nos preços do estacionamento cobrados pela EMEL que seja 50% mais barato na cidade. Quer fazer a transição para uma cidade verde com a criação de um seguro de saúde para pessoas maiores de 65 anos com dificuldades económicas e tornar os transportes públicos gratuitos para "avós e netos" (maiores de 65 e menores de 23). Será para alimentar as companhias de seguros privadas? Quanto ao Parque Mayer disse que tem de ser um centro nacional de Cultura, que reúna espetáculos profissionais e espaços de aprendizagem artística, chefs a começar e os melhores chefs do país a aprender e a cozinhar e espaços de co-work. Isto tudo em quatro anos?


 Caso seja eleito, promete, irá também reduzir a taxa de IRS na capital, devolvendo aos lisboetas nos primeiros cem dias de mandato os "32 milhões de euros que vão para a Câmara de Lisboa" e propõe isenção de IMT (Imposto Municipal sobre as Transmissões Onerosas de Imóveis) para jovens até 35 anos que comprem habitação própria em Lisboa.  Mas, afinal, não se tem falado na desertificação do interior e proposto incentivos para quem para lá se instalar?


Mas, há mais, pasme-se, um teatro em cada freguesia (porque, segundo o programa do candidato, "o setor cultural em Lisboa tem um problema crónico de falta de espaços acessíveis para quem está a começar").


Moedas disse que quer ainda "ligar a cidade ao Tejo desde Algés até ao Cais do Sodré", o que poderá passar pelo "enterramento parcial da linha ou um metro de superfície". "Sei que o enterramento total daquela linha é impossível, mas também sei que há partes que podem ser enterradas. Este projeto é essencial para a cidade", frisou. Mas atentem: Moedas diz que quer, mas, ao mesmo tempo, diz que o enterramento total daquela linha é impossível. Isto é, quer, mas não pode então não vale a pena prometer se não pode.


O grande banquete que Carlos Moedas oferecerá aos cidadãos da cidade de Lisboa continua e não para quando diz que irá também lançar um programa de apoio monetário à reabertura de empresas encerradas por causa da pandemia: "Os empresários precisaram de ser protegidos e a Câmara Municipal falhou-lhes. Agora, precisam de ter uma oportunidade para se voltarem a pôr de pé. O cheque Recuperar + oferece um apoio a fundo perdido para que quem investe a Lisboa volte a ter uma hipótese de criar valor na cidade, esclareceu.


O programa eleitoral deste candidato encabeça uma coligação com o CDS, PPM, MPT e Aliança, mas o que de Carlos Moedas não disse é com que dinheiro irá fazer frente às promessas e às despesas da Câmara?


O que tenho escrito sobre a candidatura de Carlos Moedas mantem-se, é uma candidatura de algum modo populista nas suas propostas ao mesmo destituída de carisma, vazia e preenchida para o momento de acordo com as necessidades e é previsível que pode mudar. A candidatura é ainda caracterizada por uma miopia no que se refere ao que é gerir uma Câmara como a de Lisboa. Não basta o currículo do candidato e a sua movimentação nos corredores das burocracias e das assessorias, sem contacto com as pessoas, com o povo, para tornar forte esta candidatura. A comunicação social poderá ter um papel num projeto populista. Um líder e o seu programa só é populista se os media lhe derem espaço necessário para a sua construção.

sexta-feira, 9 de julho de 2021

Lisboa factos associações e outras circunstâncias alheias

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O escrutínio do poder político é básico numa democracia liberal e é uma das mais importantes funções do jornalismo, daqui se infere que a defesa da liberdade de imprensa concomitantemente com os valores e os princípios por que se guia a atividade jornalística não se coadunam com dependências e seguidismos. Contrariamente a estes princípios parece ser o que se está a verificar com a pré-campanha para as eleições autárquicas.


Não tenho informação suficiente para apontar casos concretos e objetivos que fundamentem o não seguimento daqueles princípios, mas ao ler e ver notícias que surgem nos media proliferam situações em que a perceção que eu tenho e, provavelmente, muitos outros terão que são tentativas de conotações de notícias com factos políticos a elas alheias. São, sobretudo, casos pessoais e partidários que só remotamente terão entre eles qualquer associação.


A exploração de factos extrapolíticos associados a outras circunstâncias com objetivos de “facilitação” de campanha partidária, numa espécie de deixa teatral para a atuação político-partidária, são frequentemente alimentados pelos media durante dias com elementos que nada acrescentam aos casos, mas que dão às oposições matéria para os manter vivos na opinião pública.


Tirando Fernando Medina não há outro candidato moderado e do centro político para Lisboa, o que é pena. Para mim, Fernando Medina é o candidato dos quilómetros de ciclovias da pseudo ecologia lisboeta, da liberalização da impunidade dos ciclistas e das trotinetas que passam os semáforos vermelhos, que entram em sentido contrário, que circulam pelos passeios desrespeitando os peões que têm que se afastar pela intromissão abusiva do espaço que lhes está destinado. Quem tem que se afastar é também o automobilista, tal é a força que se lhes dá, até no Código da Estrada.


Caso lamentável também é a ciclovia da Av. Almirante Reis a partir da Alameda Afonso Henriques em direção à baixa que obrigou ao estreitamento das faixas de rodagem dos automóveis tornando impossível a circulação de viaturas de emergência como ambulâncias e carros de bombeiros que têm que subir para a faixa da ciclovia para poderem passar a fila imensa de viaturas. É no que dá a obsessão pelas bicicletas. Gostaria de saber em quanto contribuíram as ciclovias para a redução de viaturas automóveis, quando há cada vez mais jovens a pedir para tirar a carta de condução automóvel. Ou será para conduzirem bicicletas, trotinetas e até skates, como já de tem visto por esta cidade?


Todavia não se pense que alguma coisa irá mudar votando em Carlos Moedas e nos seus associados da direita. Não, não vai!


Situemo-nos agora na interação da Câmara Municipal de Lisboa com as embaixadas no que diz respeito às intenções de realização de manifestações que eram entregues nos governos civis e a partir de 2011, e que, com a sua extinção, passaram a ser entregues nas câmaras municipais.


A circunstância do grave incidente do envio dos nomes de promotores de manifestação às embaixadas veio imediatamente parar aos media. Desconhece-se através de que canais, mas sabe-se que, até aqui, mal ou bem, eram efetuados os mesmos procedimentos desde há muito.


Como é conhecido, na grande maioria dos casos a informação sobre o que envolve figuras públicas resulta de fugas de informação e de outras formas de acesso privilegiado concedido a jornalistas que cultivam fontes bem colocadas em diversas instituições.  São relações alimentadas durante muito tempo, criando cumplicidades e interesses comuns. A notoriedade e visibilidade que se quer dar a algumas personalidades deve-se sobretudo ao apoio que conseguem dos media. Alguns deles tornam-se depois colaboradores de órgãos de comunicação social que alimentaram antes enquanto fontes.


Porquê agora a questão da informação às embaixadas? Parece evidente que a razão parece ser óbvia: prende-se com o aproximar das eleições autárquicas e da respetiva campanha eleitoral que a pedra no sapato da oposição de direita é Fernando Medina.  


Por causa de um caso que saiu pela porta das traseiras da Câmara para entrar pela porta dianteira dos media, a oposição a Fernando Medina que devia ser feita enquanto debate entre candidatos autarcas também passou para os deputados da Assembleia da República.   É fácil de perceber. Quem tem esse papel da oposição em Lisboa, Carlos Moedas, ainda não conseguiu fazer. A sua candidatura que junta a direita tresmalhada e desorientada não se tem conseguido afirmar.


O problema de Carlos Moedas para ser eficaz na oposição é desconfiar-se se ele conseguiria mandar numa estrutura das dimensões da Câmara Municipal de Lisboa? Se Moedas lá estivesse teria notado o referido procedimento para o alterar ou teria ele tomado alguma iniciativa? Cá por mim duvido!


A fraqueza de um candidato também se pode avaliar pelos seus argumentos sólidos que não apenas os casuais que os media lhe colocam na mão e ficar-se por aí. Que iniciativas, que projetos, ou pelo menos um, que pretenda realizar e o coloque, se for eleito, como promessa ao eleitorado para Lisboa. Moedas pode ser uma boa pessoa e bom um político, mas de interiores.


Como escreveu Daniel Oliveira, com quem raramente concordo, não há comparação entre um autarca e um ministro em caso de demissão, “Os ministros não são eleitos. Como tal, não é perante os eleitores que respondem. É perante primeiro-ministro. E ele responde perante o parlamento. O Presidente da Câmara é eleito – é, seja qual for a maioria existente, o primeiro da lista mais votada. Em caso de crime, responde perante os tribunais. Em caso de responsabilidade política, só pode responder perante os que o elegeram. Isso não os torna inamovíveis. Mas torna as consequências das suas demissões diferentes das de um ministro.”


A oposição de direita, que tem agora Fernando Medina como alvo tratando-o como se fosse um perigoso denunciante e aleado secreto de Putin ou de um outro qualquer populista autocrático por causa do caso das embaixadas, pede a sua demissão a três meses das eleições que não tem qualquer significado, o que seria até um pouco mais plausível exigir se estivéssemos a meio do mandato perante um acontecimento grave, mas não se está a exigir nada que tivesse resultados objetivos, a não ser que isso implicasse ou evitasse a sua recandidatura.


A perda de mandato e interdição de candidatura conforme estipulado pela Lei Eleitoral dos Órgãos das Autarquias Locais atualizada em 2013, o que não está em causa. Quem exige que Medina não se recandidate por causa deste caso apenas quer tirar aos eleitores o poder democrático de avaliar as suas responsabilidades políticas. E essas, ao contrário das criminais, só eles podem avaliar.


Então o pedido de demissão de Medina pela oposição não é mais do que a mostra das fragilidades do candidato da oposição porque o que seria de esperar era que Fernando Medina se recandidatasse para ir a votos fragilizado facilmente era enviá-lo para o escrutínio e responsabilização política e consequente derrota eleitoral. O que a desorientada associação de direita sabe é que a única candidatura que o poderia vencer tem baixíssimas probabilidades de sucesso e por isso explora a situação até ao seu extremo folego admitindo a sua incompetência para o fazer.

quinta-feira, 1 de abril de 2021

Navegando à bolina na política – à procura de melhores ventos

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Navegar à bolina é navegar ora numa ora noutra direção, obliquamente em relação à linha do vento, de forma que o deslocamento resultante coincida com o rumo pretendido. Faz parte da arte de velejar. Por que caminho é que seguimos? Será que sabemos para onde vamos? Os ventos estão de feição? Para se chegar a bom porto é preciso saber para onde os ventos nos levam.


Os partidos, organizam-se, reorganizam-se, reconstroem-se, mudam-se, contradizem-se, puxam pela criatividade, imaginam o inimaginável, quando sentem os ventos eleitorais a aproximarem-se. Esperam e aproveitam oportunidades para navegar à bolina, numa e noutra direção, de forma que o resultado coincida com o rumo/objetivo pretendido: a obtenção de mais votos. A corrida para a conquista de presidências e de maiorias para as câmaras já começou e a direita está na linha de frente das nomeações.


Com a preparação das candidaturas e das campanhas para as eleições autárquicas, especialmente na direita PSD, vemos que o candidato deste partido está a orientar as suas escolhas para a sua campanha em figuras que emergiram nas televisões durante a pandemia com análises sobre a evolução pandémica covid-19 e as medidas a tomar.


Vejam-se o caso do PSD com Carlos Moedas, cabeça de lista da coligação PSD/CDS-PP à Câmara de Lisboa, que escolheu para seu diretor de campanha o médico de Saúde Pública e epidemiologista Ricardo Mexia que tem tido visibilidade nos ecrãs de televisão como comentador durante a pandemia. Ricardo Mexia é desde 2016 Presidente da Associação Nacional dos Médicos de Saúde Pública e integra o Departamento de Epidemiologia do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge.


Apesar de Carlos Moedas parecer uma boa escolha para o PSD fica perante uma tentativa de uma coligação forçada que é de necessidade de facto não foi uma boa aposta visto que o candidato do PSD/CDS Carlos Moedas tem a marca do contributo que deixou no Governo de Passos Coelho de coligação PSD/CDS onde a lei das rendas foi e a privatização da Carris deixou marcas nas populações.


O candidato do PSD promete apresentar “um plano que prepare Lisboa para futuras pandemias e avança que o documento será elaborado pelo virologista Pedro Simas”, outro elemento que surgiu nos ecrãs duramente a pandemia. Veja-se como a candidatura de moedas parece ficar adulterada aos ser uma candidatura que se baseia na pandemia. Parece que a ciência está a começar a ser infetada pelo partidarismo e pela ideologia.


A isto Moedas ainda acrescenta o futebol: “Podemos ter uma cidade na liga de campeões da Europa”. Prevê-se que pandemia covid-19 e futebol serão apenas os dois grandes trunfos de Carlos Moedas.


No que se refere à extrema-direita o Chega foi procurar no catálogo de cromos dos tempos idos de apresentadores de programas de entretenimento e humor me canais de televisão Nuno Graciano que enveredou, há cerca de cinco anos, pela vida de empresário, com uma marca de queijo regional.


Em março de 2021 Graciano disse: “Fui presidente da associação de estudantes do meu liceu, fui presidente da associação académica da Universidade. Portanto, sempre estive ligado à política.” Segundo Fact  Check do jornal online Observador a frase é errada. E mais, afirmou esta terça-feira que "é cedo" para falar sobre o projeto político para o concelho, mas defendeu que a cidade tem "vários problemas muito graves" e precisa de um "abanão". Mas então, é cedo fazer um projeto, mas é rápido para ver problemas muito graves para a cidade? Que espécie de charlatão está aqui representado?


 A esquerda e a direita preocupam-se a procurar fragilidades nas embarcações dos adversários para se abalroarem. É uma competição onde vale tudo. Uma espécie de wrestling de veleiros. A esquerda procura a descobrir fragilidades nos candidatos da direita. Não terá sido por coincidência que Carlos Moedas, antigo secretário de Estado adjunto do primeiro-ministro do governo de Passos Coelho, vai ser ouvido a pedido do PS na comissão de inquérito do Novo Banco na terça-feira. Na segunda-feira, o debate do requerimento do PS para ouvir o antigo secretário de Estado do governo PSD/CDS-PP e agora candidato à Câmara de Lisboa foi marcado pela troca de argumentos e acusações, sobretudo entre sociais-democratas e socialistas. A audição de Carlos Moedas -- marcada para terça-feira, às 9.30 horas - é uma das três audições desta comissão de inquérito. Surge em cobertura de Carlos Moedas a ministra das finanças e Passo Coelho, Maria Luís Albuquerque a fazer de escudo a Moedas no inquérito ao Novo Banco.


Não importa a forma como se consiga. Com estas velas navegam também no permeio das declarações, decisões, contradições que apanham aqui e ali os senhores das opiniões publicadas e os comentadores das políticas do tipo pítia com guiões de novelas do tipo mexicano, mais ou menos enredadas, que se vão enrolando ou desenrolando consoante o final de gostariam que acontecesse. Lá vão aproveitando o rumo dos ventos com determinação. Uns, para alcançarem o poder, outros para ajudarem aqueles outros a alcançá-lo.

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

A cidade, as pessoas e os elementos marcantes

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Desloco-me muitas vezes a pé pela cidade de Lisboa seguindo percursos mentalmente delineados, muitos deles de várias horas parando por vezes em um ou outro local mais marcante ou aprazível. No último percurso que efetuei, e também o mais recente, demorei mais de duas horas, observando ruas e bairros populares por onde passei pisando calçada portuguesa, algumas delas em evolução para comodidade dos peões, casas, monumentos, pessoas e outros elementos marcantes da nossa capital.


Lembrei-me que estamos em cima das eleições autárquicas e os candidatos esfalfam-se para “caçar” votos nas suas “coutadas” de influência quer seja em lugares, aldeias, vilas, cidades ou capitais de distrito.  As promessas do que irão fazer multiplicam-se e emparelham com o que dizem já terem feito.


Se viajarmos por este nosso país podemos observar, sem grande esforço, que algumas coisas do que já fizeram foi apenas para encher a vista das populações algumas de utilidade prática duvidosa. Fazem-no para competir com os seus vizinhos e camaradas autarcas do mesmo ou de outros partidos, e até com os ditos independentes, numa espécie de lógica parecida com: “não podemos ficar atrás deles”.


Esta é, portanto, uma boa altura para fazermos a leitura das cidades através do modo como as olhamos e sentimos, do que representam para nós, e da perceção e imagem que cada citadino faz a sua leitura. Pensando nisto recuperei e atualizei um texto que escrevi em tempo que mostra como as diferentes perceções que temos de uma cidade onde vivemos nos dá o panorama da sua imagem e que pode consultar aqui ou ainda aqui.

sábado, 9 de maio de 2015

Até nas árvores da cidade o PSD corta a eito

Avenida Guerra Junqueiro, antes e depois


                                                                                                                                                                


                                  


 


 


 


 


 


 


 


 


Imagem do jornal Público de 9/05/2015


A avenida Guerra Junqueiro foi despojada das copas das suas árvores frondosas que despertaram com a primavera.


Apresentando a poda radical das ramificações foi decisão do presidente da Junta de Freguesia do Areeiro, o autarca do PSD Fernando Braamcamp, que foi tomada porque as árvores perigavam a segurança das pessoas que circulavam e das viaturas estacionadas.


É verdade que os freixos ali existentes necessitavam de uma poda, como é costume, antes do início da primavera, mas o corte das árvores tem um técnica especial que, no caso, apenas se justificava aparar ramos que poderiam de facto causar perigo, aliviando a carga dos ramos que se aproximavam das janelas. Todavia, parece que de acordo com o jornal Público  "se foi um bocado longe de mais", admitiu o autarca do PSD.


O PSD quer no Governo quer nas autarquias tem uma obsessão pelos cortes excessivos quer no que se refere à vida das pessoas, quer no que ser refere à gestão urbana de freguesias da cidade de Lisboa.    


 

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Fora com as multas viva a transgressão


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Ao ler o editorial do Jornal i escrito por Luís Rosa na parte em que comenta o aumento das receitas provenientes de multas, inscritas no orçamento da câmara de Lisboa, que caracteriza como "caça à multa", fica-se com a sensação de que é a favor da ilegalidade e dos desmandos gerados pelo não cumprimento da lei.


Podemos ser levados a pensar que Luís Rosa é a favor da anarquia terceiro-mundista como sejam estacionamentos anárquicos e em locais de proibição; estacionamentos em segunda linha impedindo cidadãos, com carros bem estacionados, de utilizar as suas viaturas; estacionamento em cima das passagens de piões obrigando estes a desviarem-se a metros de distância para atravessarem uma rua ou avenida; obstrução de passeios por viaturas; utilização de telemóveis ao volante; passagens de sinais vermelhos; conduzir sobre o efeito de álcool; etc., etc.. Isto apenas no que se refere ao trânsito porque há inúmeros casos noutras áreas. Tudo isto é treta, para quê as multas, deixe-mo-nos disso porque servem apenas para arranjar receitas.


Para ele o incumprimento da lei não deve ser penalizado, nem multado, nem nada. Típico comportamento do português. Era bom que, se já foi a Espanha ou a França, por exemplo, ver como é respeitado nessas cidades o estacionamento e onde a polícia intervém de imediato em caso de transgressão.


Para Luís Rosa o resultado do não cumprimento da lei deveria ser fechar olhos. Falta de postura de cidadão. É devido a esta forma de pensar que crimes de colarinho branco andam por ai à solta.


Tornou-se evidente que para se fazer oposição agora tudo serve. Até o orçamento da câmara de Lisboa a que não davam muita importância passou agora a servir como "fonte de receitas" e arma de arremesso para a campanha eleitoral. Porque será?

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Os dias com lixo

 





O título deste "post" nada tem a ver com o livro de Pacheco Pereira,"Os dias do lixo", mas sim com a greve injustificada dos trabalhadores da limpeza urbana da Câmara de Lisboa.


A não ser o facto de ter afetado o sentido da visão e do olfato da cidade esta greve não teve, do meu ponto de vista, o incómodo e o prejuízo de outras como, por exemplo, as dos transportes que impedem os trabalhadores de chegar atempadamente aos seus postos de trabalho.


A chamada greve do lixo foi devida a uma deturpação dos motivos reais para que a mesma fosse justificada. Quando os sindicatos a convocaram foi no pressuposto, assumidamente errado, de que os trabalhadores da recolha de resíduos sólidos da cidade de Lisboa iriam passar para a competência das freguesias. Ora, o que estava em discussão era a descentralização para as juntas de freguesia da limpeza sim, mas das ruas, passeios e jardins, o que faz algum sentido. Neste caso cada junta seria responsável pela respetiva limpeza.


O que esteve em causa nesta greve não foi mais do que lutar contra a reorganização administrativa de Lisboa que prevê a transparência de competências da autarquia para as freguesias a gestão de equipamentos sociais e desportivos, pavimentos pedonais, mercados e feiras, para além de outras.  


Embora muitas das vezes possa estar de acordo com algumas posições tomadas pela CGTP desta vez estou em completo desacordo. Não me colo com um seguidismo cego a qualquer posição de direita ou de esquerda, venha ele donde vier. Talvez, por isso, tenha deixado a militância em partidos políticos desde há muitos anos a esta parte. Para mim a disciplina partidária e a ideologia política têm limites.




 


 

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Uma leitura acerca de: A Cidade de Ulisses


Se porventura tivesse dotes literários "A Cidade de Ulisses" seria o livro que eu gostaria de ter escrito tal e qual Teolinda Gersão tão excelentemente fez. O mito de Ulisses é o mote para falar de amores e desamores tendo como cenário Lisboa.


Teolinda oferece-nos uma histartesória de amor em que Lisboa também é protagonista. Não o li apenas como um romance mas também como uma digressão vivida através de múltiplos percursos que passam pela arte pictórica e pelas realidades urbana e histórica.


As metáforas e as transposições para o presente que o leitor pode, a bel-prazer, ver aplicadas ao nosso país e ao mundo são, na minha perspetiva, cinema em prosa tais as imagens nos passam na corrente de consciência. "A cidade de Ulisses" é um universo pleno de segredos, de destruições corruptas, de fachadas políticas onde o mais forte impera porque “a lei é do mais forte e de quem tem melhores armas, é, poder, dinheiro, bons conhecimentos e bons advogados disponíveis, cada um sua medida”.


A narrativa, traçada com uma clareza ímpar, flui como uma cascata em que o leitor, ao atravessá-la, retém o folego até descortinar do outro lado vivências que brotam e se entretecem com oportunas descrições de fragmentos históricos e geográficos de Lisboa, acompanhados por factos sociais e políticos de relevante importância que nos potenciam recuperações de memórias passadas e presentes.


Na literatura, como no cinema, os personagens são a vida da ação, por elas sentimos interesse, curiosidade, fascínio, carinho, desagrado, admiração, condenação, antipatia ou simpatia que, através de um processo psicológico de projeção-identificação, tornam-se parte da forma como nós nos percebemos e de como somos. É o mesmo que se sente ao ler "A cidade de Ulisses".


“Criar era, naturalmente, um exercício de poder. Sim, eu não abdicava desse ponto. Queria exercer poder sobre o espectador. Fasciná-lo, subjugá-lo, convencê-lo, assustá-lo, enervá-lo, provocá-lo, deleitá-lo – criar-lhe emoções e reações” expressão do pensamento do personagem, artista plástico. São também poderes os que a boa literatura exerce sobre os leitores como se comprova em "A Cidade de Ulisses" em que a autora exerce ainda um outro poder: o de nos cativar para a leitura.


A geografia social e urbana foi a minha primeira paixão que, apesar de a ter atraiçoado com as Ciências da Educação, nunca esqueci, mesmo durante o deleite com esta mais recente. Sendo ambas sedutoras não resisti ao encanto da primeira porque esteve presente na unidade curricular de práticas pedagógicas da história e da geografia de Portugal que, entre outras, fui chamado a lecionar em cursos superiores de educação.


Na cidade de Ulisses a geografia e a história recentes lá estão, basta descobri-las. Para além da ficção Teolinda dá-nos apontamentos reais de roteiros lisboetas que a vida agitada do dia-a-dia não nos deixa descortinar. É no entrosamento entre o romance, a geografia urbana e a história passada e recente que se move a ação deste seu livro. Numa aula de interdisciplinaridade entre literatura e geografia este romance é um dos poucos que poderia ser utilizado. Conceitos de geografia urbana descritiva como rua, vila, avenida, talvegue entre outros são utilizados com propriedade ao descrever percursos lisboetas. Arquiteturas, mobiliário urbano, descrição da paisagem urbana fizeram-me recordar a “Leitura da Cidade” de Kevin Lynch que nos fornece importantes elementos marcantes que possibilitam a leitura da paisagem urbana e a orientação de percursos. Diz Lynch logo no primeiro capítulo que "Todo o cidadão possui numerosas relações com algumas partes da sua cidade e a sua imagem está impregnada de memórias e significações.".


Paulo Vaz, protagonista do romance, descreve que em Lisboa “…era fácil embrulhar-se no traçado irregular das ruas, que se interrompiam, cruzavam, mudavam de direção inesperadamente, ou não iam ter a lugar nenhum, acabavam num impasse”. “A única certeza, na cidade velha, era que, descendo sempre, se acabaria por chegar à Baixa e ao rio, quaisquer que fossem os acidentes de percurso.”. Lisboa não é assim nada comparável com a estrutura urbana, quase toda ortogonal, de uma cidade como Nova Iorque onde tantas são as avenidas imensas que se entrecruzam perpendicularmente com monotonia e os edifícios nos esmagam, não fosse o pulsar das gentes e do trânsito insuportável num constante corrupio.


"Portugal – O Mediterrâneo e o Atlântico" de Orlando Ribeiro, livro de geografia descritivo da paisagem física e humana de Portugal, publicado pela primeira vez em 1945, desatualizado no que à geografia humana diz respeito, mas pleno de atualidade na descrição da paisagem física, surgiram imediatamente no meu pensamento quando, já nas últimas páginas de "A Cidade de Ulisses", li que “Lisboa é uma cidade atlântica, mas de configuração mediterrânica: numa enseada que lhe oferece um abrigo natural e junto a uma colina, como em Atenas a acrópole.”.


 


 


 


Outra passagem recordou-me as férias passadas na Rinchoa com os seus pinhais, hoje destruídos e ocupados por blocos de cimento de habitações dormitório, quando nos finais dos anos quarenta princípios de cinquenta do século passado se gozavam nos arredores de Lisboa. Sempre que por ali passo recordo-me dos pastéis de massa tenra que a minha tia fazia e que eu devorava uns após outros seguindo de corrida para um baloiço improvisado no pinhal das traseiras da casa alugada à época.


 


 


 


O caminho traçado pela prosa de Teolinda em "A Cidade de Ulisses" contemplou-me com uma digressão rica em recordações, vivências e reflexões políticas e sociais que virão sempre à memória.


 


 

sábado, 14 de dezembro de 2013

O luxo da pobreza



 


 


 


  







 


As fotografias que tirei no dia 4 de dezembro de 2013 pelas 16 horas no decurso das minhas deambulações por Lisboa mostram um rosto do verdadeiro Portugal que contrasta com a exibição de luxo.


É possível repousar em Portugal tendo como abrigo as montras da luxuosa marca PRADA sem nada pagar. O espaço PRADA abriu em Lisboa em junho de 2010 e tem as suas instalações na Av. da Liberdade 206-210. É umadas mais caras e luxosas loja de moda a quem apenas alguns, muito poucos, têm acesso. É, dizem outros, um orgulho para a capital ter lojas de luxo como esta entre outras que proliferam naquela avenida.


Angolanos, chineses e outros estrangeiros, mas também alguns portugueses endinheirados, são os clientes mais frequentes. Entre os portugueses haverá, por acaso, alguns que se endividam para mostrar aos amigos e amigas as suas compras na PRADA.


Num país como Portugal, onde a pobreza tem proliferado há os que aproveitam para repousar por debaixo do nome PRADA o que não é para todos, mas "O Diabo Veste PRADA".


 


 


sexta-feira, 14 de junho de 2013

Rescaldos de uma noite de Santo António


 


 


  


 



 




 


 





Nestes dias de festejos dos santos populares a política e a crise são relegadas para segundo plano e o povo centra-se nas sardinhadas, nos bailaricos e nas marchas populares de Lisboa, cada uma representando o seu bairro. Desfilam pela Avenida da Liberdade mostrando os seus dotes de marchantes, colorindo o cinzento de uma crise que nos impuseram, com os seus figurinos, cenografia, coreografia, letra e musicalidade compostas especialmente para a ocasião.


O Presidente da Câmara de Lisboa e a sua comitiva não poderiam faltar na tribuna como manda a tradição, cujo preço foi vinte beijinhos e vinte abraços das madrinhas e dos padrinhos das marchas.


Alfama foi a ganhadora deste ano. No jardim da Praça Paiva Couceiro as réstias do bailarico ficavam-se pela desilusão da perda de um lugar cimeiro para a marcha do Alto do Pina.


Manhã cedo no dia de Santo António, feriado municipal com as ruas ainda pouco movimentadas alguns dos bairros populares expõem à vista o rescaldo de uma noite de folia. Comentários soltos de passantes verbalizam para os vizinhos ou companheiro de passeio pela calçada desgastada pelo tempo o acontecimento do dia anterior. Ao telemóvel ouve-se alguém dizer:


- Nós estávamos mesmo à frente e não a vimos na marcha!… Só se estava lá mais para trás… mas claro que devia lá estar!


As marchas tinham sido o tema da noite anterior e continuavam a ser o tema do dia.


Mais adiante, já na Avenida General Roçadas, uma senhora pequenota parada à frente de um lugar de frutas e hortaliças segurava três minúsculos cães presos por uma trela comum e abespinhava-se com um deles:


- Tá quieta Maria!


Tudo está em mudança! Os cães passaram a ter nome de gente e a gente passou a ter nome de cão. Tudo em nome da evolução.


No Largo da Graça, um quiosque ambulante, àquela hora fechado, e um balcão improvisado disfarçado a toda a volta com caniços, eram os únicos vestígios do arraial da noite anterior. Gente acomodada nos poucos bancos de jardim, gastos pelo sentar da velhice, recordava a mocidade em que ainda pulavam e bebiam até de madrugada festejando o santo padroeiro.


Na Rua da Verónica, lá se encontra ainda residente o velho Liceu Gil Vicente, agora Escola Secundária requalificada. Termo pomposo que atribuíram às obras que aprimoraram o rosto e curaram as entranhas.


Quase frente ao Liceu, lá estava ainda o prédio que albergou, em tempo, os Emissores Associados de Lisboa, Rádio Graça, Clube Radiofónico de Portugal, Rádio Peninsular e Rádio Voz de Lisboa, que a Revolução dos Cravos calou para sempre.


Ao longo da suave descida copos de plástico deitados pelo chão eram os vestígios das cervejas e vinho consumidos na noite anterior. Um trabalhador camarário da limpeza varria pausadamente aqueles e outros vestígios. Não teve feriado. A limpeza dos bairros assim o impunha. Contentores de resíduos domésticos transbordando ali estavam, para mostrar que os carros de recolha não tinham passado, pois os festejos a isso obrigaram.


A noite de Santo António é para todos, pois então! Se a noite foi para todos o mesmo não se pode dizer do feriado. O aprimorar da cidade não pode esperar e alguns carros de recolha do lixo saíram para as ruas, embora tardiamente, com os seus trabalhadores de apoio limpando e carregando a mixórdia nauseabunda.


Assadores de sardinhas ainda mornos jaziam na beira dos passeios, onde algumas mesas e cadeiras de esplanada, posicionadas em locais pouco comuns, começam novamente a alinhar-se para clientes que viessem. Nestas alturas a vigilância camarária fecha os olhos.  


Ao desembocar no Campo das Flores, local de realização da Feira da Ladra, são raros os indícios. O único restaurante ali existente encontra-se fechado e cansado da noite anterior.


Ao fundo da Rua Voz do Operário, no início da Calçada de São Vicente, fazem-se os preparativos para as próximas sardinhadas com balcões e mesas improvisados na rua que se encontra engalanada com festões próprios dos festejos populares.


A subida da Rua Voz do Operário não é fácil mas nem a inclinação da rua impediu a realização de bailaricos de rua onde se encontra um coreto improvisado, a que deram o nome de “Beco de Lisboa”, encarrapitado em quatro estacas cuja parte inferior possibilitava o acesso a um portão que dava para um beco. Mais acima, mesmo frente à porta da escola da Associação Voz do Operário, um pequeno carro elétrico antigo da Carreira 28 foi ali colocado e transformado em bar.


Esta calçada também pejada de copos de plástico, acumulados nas bermas dos passeios, fez supor o que terá sido a noite do arraial. Com estes ou outros pensamentos, o que restava da subida daquela calçada, novamente até ao Largo da Graça foi menos penoso. Os ensimesmados que se encontravam sentados nos escassos bancos eram os mesmos da primeira incursão.


Pela Rua da Graça um grupo trocava impressões sobre alguém que teria participado nas marchas da noite anterior: “Via-se nitidamente na televisão”, dizia um. Um outro perguntava: “Viste como ele se abanava todo desconchavado?”. “Pois, estava muito bem!.”.


Chega-se à Rua Maria Andrade que nesta altura se encontra toda esventrada por escavadoras que lhe retiram as décadas de piso de paralelepípedos graníticos que rodeiam os railes dos elétricos da extensa carreira 28.  É época de eleições autárquicas, há que fazer e mostrar obra mesmo em tempo de crise e de contenção. Apenas para alguns.


piso de paralelepípedos graníticos que rodeiam os railes dos elétricos da extensa carreira 28.  É época de eleições autárquicas, há que fazer e mostrar obra mesmo em tempo de crise e de contenção. Apenas para alguns.