Mostrar mensagens com a etiqueta discurso de ódio. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta discurso de ódio. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 16 de outubro de 2023

Os discursos de ódio e apelo à violência propagam-se

Discurso de ódio2.png


O discurso de ódio parece estar a estender-se sem controle. Em 12 de outubro deste ano a GPAHE - Global Project Against Hate and Extremism publicou uma investigação em que verificou que o ódio antissemita e antimuçulmano aumentou online após ataques do Hamas a Israel.


Sobre este assunto podem ler o artigo publicado pelo GPAHE.


 


Violento ódio antissemita e antimuçulmano aumenta online após ataques


do Hamas a Israel


Em 48 horas, o uso de insultos e discursos violentos contra comunidades judaicas e muçulmanas no 4chan cresceu cerca de 500%.


Sempre que há conflitos, atos de violência particularmente horríveis, as comunidades atingidas em todo o mundo têm experimentado um aumento do discurso de ódio, incidentes de ódio e a possibilidade de terrorismo impulsionado pelo ódio, muitas vezes por atores individuais. Após os acontecimentos em Israel e Gaza na última semana, extremistas e propagadores de ódio usaram espaços online para atacar judeus e muçulmanos. Ambas as comunidades são alvos frequentes de atos de violência e propaganda de ódio em todo o mundo, e o aumento de incidentes infelizmente não é surpreendente, mas a escala de crescimento na última semana é alarmante.


De acordo com dados recolhidos pelo Projeto Global Contra o Ódio e o Extremismo (GPAHE) da plataforma não regulamentada 4chan, conhecida por seus fóruns preconceituosos, o uso de insultos antissemitas e antimuçulmanos explícitos, juntamente com pedidos para matar ambos os grupos, aumentou de 511 para 2.959 casos entre 6 e 8 de outubro, um aumento impressionante de 479%. Nos dias 9 e 10 de outubro, o ódio não deu sinais de desaceleração, com o uso de insultos e linguagens violentas que surgiam entre 2.537 e 2.550 ocorrências, respetivamente.


O GPAHE escolheu destacar o 4chan devido à sua ligação de longa data com tiroteios em massa com motivação racista e antissemita, como os assassinatos racistas de Buffalo em 2022. Embora esta seja uma pesquisa pouco extensa que não captou todos os insultos imagináveis, os dados demonstram a rapidez com que o ódio prolifera contra as comunidades alvo durante os momentos de conflito.


Os insultos antissemitas e os apelos à violência passaram de 484 ocorrências em 6 de outubro para 2.626 em 8 de outubro, aumentando quase cinco vezes. Os insultos antimuçulmanos e os apelos à violência passaram de 27 casos para 333 no mesmo período, aumentando 11 vezes. E os utilizadores continuaram a sua série de discursos de ódio e de violência nos dias seguintes. Nos dias 9 e 10 de outubro, as mensagens de ódio antissemita e violentas ficaram estáveis em 2.238 e 2.283 ocorrências, respetivamente. O ódio antimuçulmano também se manteve consistente, com 299 e 267 casos no mesmo período. A diferença nesses números pode refletir o nível geralmente alto de ódio antissemita do número considerável de neonazistas encontrados no 4chan.


Está claro nas mensagens no 4chan que os comentadores têm um forte ódio por ambos os grupos, expressando o seu contentamento com o conflito, e com mais muçulmanos e judeus a morrer, "todos os outros no planeta ganham" e que é um "ganha-ganha para os brancos".


Frases com popularidade recente espelham o slogan violentamente racista "TND" ("Total N***** Death") frequentemente usado por pessoas no 4chan, como "TKD" ("Total Kik* Death") e "Total Muzzie (Muslim) Death". Da mesma forma, os utilizadores estão a pedir mais violência por meio de comentários como "Morte aos kik*s. Morte a tel-aviv. Morte a Israel" e "morra por mim infiel" quando se fala em muçulmanos. Previsivelmente, os crimes de ódio contra judeus e muçulmanos estão a aumentar, com a CNN a relatar que houve pelo menos 100 incidentes antissemitas em França desde o fim de semana e relatos de incidentes contra muçulmanos em vários países.


A quantidade de ódio online que se espalhou após a perda indescritível de famílias, amigos e lares é deplorável, mas reflete a crescente onda de extremismo que o mundo enfrenta atualmente. E não é só em plataformas não regulamentadas como o 4chan. Em 11 de outubro, a UE alertou a Meta e o X/Twitter para remover conteúdo terrorista e desinformação relacionados aos eventos no Oriente Médio em 24 horas. As empresas de tecnologia devem seguir as suas próprias políticas e agir imediatamente para retirar conteúdo que inspirem violência para proteger as comunidades marginalizadas.


 


Nota do editor:


Esta matéria foi atualizada em 13 de outubro para incluir um aumento de 479% em insultos e apelos à violência, e não um aumento de 579%.

domingo, 18 de junho de 2023

Em defesa do discurso de ódio?!

Discurso de ódio.png


Alguns autores de opinião e de comentário, mais preocupados com o estilo do que com as ideias que elaboram, provocam no leitor menos preparado alguma dificuldade em os perceber. Escrevo o que penso sem preocupações estilísticas, escrevo ao correr da pena, ou melhor, do teclado. Preocupo-me mais com as ideias que pretendo passar com o possível cuidado no português.


Hoje resolvi abordar um artigo de opinião do jornal Nascer do Sol de 9 de junho, da autoria de João Brás intitulado “Discurso do ódio é o que é dito por quem eu quero calar”.


Não resisti ao comentário, no exercício de liberdade de expressão que me é devido em democracia, porque começa assim: “Em Portugal a estrela televisiva Cristina Ferreira foi a primeira subscritora da petição para a “‘Criminalização de ódio nas redes sociais’. O que políticos com propensão para a vigilância do pensamento desconforme abraçaram com entusiasmo…”


O autor do artigo mostra evidente azedume em relação à referida petição. O autor pode ser crítico de Cristina Ferreira, e até pode não gostar da senhora pelo mais vários motivos, assim como eu perfilho o mesmo sentimento. Sobre aquela senhora já escrevi textos neste blogue, que pode ver aqui, e aqui, mas, daí sair a defender com toda a gana a não limitação ao discurso de ódio vai grande distância.


A petição resultou no “Projeto de Resolução n.º 693/XV-1.ª - Medidas para combate ao discurso de ódio na internet” de 11 de maio de 2022 apresentado pelo grupo parlamentar do Partido Comunista Português e proposto por um grupo de deputados daquele partido.  Foi aprovado na generalidade em 2023-06-02 na Reunião Plenária n.º 136 com os votos contra o CH, abstenção do PS e IL e favor: PSD, PCP, BE.


Para me explicar e para que seja claro na minha pretensão de comentar o que escreve o autor do artigo, peço alguma paciência aos potenciais leitores pela extensão do texto, mas terá mesmo de ser.


Para defenderem os seus pontos de vista e sustentarem as suas opiniões, é corrente alguns autores procurarem argumentos baseados em correntes filosóficas e ideológicas que professam, ou em textos mais ou menos complexos por vezes impercetíveis apenas por eruditos e que são passíveis de interpretações contraditórias.


Os que têm as mesmas opiniões defendem-nas e defendem-se uns aos outros, embora por caminhos argumentativos diferentes. A direita, e sobretudo a extrema-direita, é useira e vezeira nisso, defende com toda a gana toda a liberdade que a democracia lhes possibilita, mas quando um dia chegam ao poder é a chuva de críticas sobre a tal dita liberdade.  Quando estes mesmos são os visados e o discurso de ódio lhes toca e ficam a braços com acusações torpes e ofensas ao seu bom nome e dignidade, a liberdade de expressão ilimitada que defendem é logo posta em causa. Elaboram discursos com propostas para se limitarem esses abusos e, perante tal libertinagem da expressão de pensamento, que defendiam/defendem colocam-se em bicos dos pés em prol da criminalização de tais discursos ofensivos.


Pela leitura do artigo de opinião de João Brás, pareceu-me ser este motivado por a proposta ter vindo do grupo parlamentar do PCP, comprovado pela referência que faz quando escreve que “Esta prática era bem conhecida no país dos sovietes e não só”, e que “No esplendor da URSS comités de camaradas controlavam os desvios burgueses”. Completa o seu argumento com “Designar os que nos contestam e criticam, que acreditam em outros modos de pensar e viver como indignos de poderem pensar ou propor outros modos de vida e rotulá-los de portadores de ‘discurso de ódio’ é neoestalinismo puro e duro”. Não me recordo de ninguém de direita ou da extrema-direita ter lutado tanto e tão veementemente pela liberdade de expressão de pensamento, quando estão no poder ou quando em regimes autocráticos e de ditadura.


O ódio àquele partido deve ser tal que lhe dificultou a lucidez da sabedoria e do espírito. Não sou simpatizante do PCP e muito menos após as suas posições relativamente à invasão da Ucrânia, mas aquelas afirmações extemporâneas e desajustadas ao tema são no mínimo ridículas.


Talvez o autor, pensador de filosofia que se acha de mente aberta considere que as limitações à liberdade de expressão em tenebrosas ditaduras de direita sejam válidas para não porem em risco a coesão política da nação e de “Deus, Pátria, Família”.


O autor parece ignorar que a liberdade de expressão não é um direito absoluto, ela encontra-se nos limites na própria constituição e na grande maioria das vezes vem sendo tolhida em nome do princípio da dignidade da pessoa humana.


O radicalismo do autor em defesa da liberdade absoluta talvez tivesse como inspiração os argumentos de John Stuart Mill, um dos pensadores liberais mais influentes do século XIX, que aborda as questões em 1859 na sua obra “Sobre a Liberdade”.


Numa entrevista na revista LePoint de 2018  um advogado de extrema-esquerda que defende a extrema-direita este afirmava que “basicamente, se a extrema-direita defende a liberdade de expressão, é para poder ser abertamente racista. Eles odeiam judeus e querem poder dizer que negros e árabes são menos inteligentes, que todos eles têm de voltar para a sua terra, etc.”


A questão de fundo é sabermos se a liberdade de expressão de pensamento e os discursos de ódio não devem ser limitados, mas que devem ser absolutos como defendem os seus apologistas.  Afinal, deve haver limites à liberdade de expressão? Quando é para interesse próprio, não, quando é para interesse de outros, sim.


Um exemplo desta discussão verificou-se em tempo na Europa, quando o líder da extrema-direita francesa Jean Marie Le Pen questionava a existência de câmaras de gás na Segunda Guerra Mundial ao afirmar que que “les chambres à gaz utlisées par les nazis lors de la Deuxième Guerre mondiale avaient été «un détail de l'histoire». Je ne dis pas que les chambres à gaz n'ont pas existé. Je n'ai pas pu moi-même en voir. Je n'ai pas étudié spécialement la question. Mais je crois que c'est un point de détail de l'histoire de la Deuxième Guerre mondiale». En 1991, il avait été condamné, par la cour d'appel de Versailles, pour « banalisation de crimes contre l'humanité» et «consentement à l'horrible».


Traduzindo: “Jean-Marie Le Pen sustentou que as câmaras de gás usadas pelos nazis durante a Segunda Guerra Mundial foram «um detalhe da história». «Não estou a dizer que as câmaras de gás não existiam. Eu mesmo não consegui ver nenhuma. Não estudei especificamente a questão. Mas acho que é um detalhe na história da Segunda Guerra Mundial.» Em 1991, foi condenado pelo Tribunal de Apelação de Versalhes por «banalizar crimes contra a humanidade" e «consentir com o horrível». Um bom exemplo para a liberdade de expressão poder ser absoluta, nem que seja para negar factos, históricos ou não.


O autor João Brás parece desconhecer que combater o discurso de ódio não é limitar ou proibir a liberdade de expressão, mas evitar que o discurso de ódio assuma proporções perigosas, incluindo incitação à discriminação, hostilidade e à violência, o que é proibido pelo direito internacional.


Para o autor a liberdade de expressão deve ser a libertinagem discursiva nas redes sociais e nas manifestações com palavras de ordem que atentem contra a dignidade humana e o caráter das pessoas, como racismo primário e violência contra os que não pensam diferente. Este tipo de pontos de vista são também eles uma espécie de pensamento único.


No decorrer do seu discurso o autor revela ignorância sobre a definição de discurso de ódio e pergunta: “quem define o que é discurso de ódio... Augusto Santos Silva? As fraturantes do PS e do Bloco? Um comité de especialistas comentadores dos média do sistema? Um consórcio de jornalistas dependentes?”. Pergunta lamentável demonstrativa da ignorância e falta de informação sobre o tema.


Não satisfeito atira também as culpas para a União Europeia. Gostaria talvez que o conceito fosse definido por filósofos de meia tigela, sobretudo da extrema-direita. O autor terá com certeza uma definição, ou nenhuma, ou então a pergunta é de retórica e pretende atingir política e ideologicamente alguns setores que sejam inconvenientes para a “sua democracia”.


Deveria saber que o conceito de discurso de ódio há muito que está caracterizado por especialistas na área, que não por filósofos de duvidosa democracia. Permitam-me também exercer aqui o meu direito ao enxovalho.


O discurso de ódio, conceito há muito caracterizado por especialistas que estudam esta problemática, é uma negação dos valores de tolerância, inclusão, diversidade e da própria essência das normas e princípios de direitos humanos. Pode expor pessoas visadas à discriminação, ao abuso e à violência, mas também à exclusão social e económica.


Apesar do conceito ainda continuar em discussão, especialmente em relação à liberdade de opinião e expressão, não discriminação e igualdade, o Plano de Ação da ONU sobre Discurso de Ódio define discurso de ódio como... "qualquer tipo de comunicação na fala, escrita ou comportamento, que ataque ou use linguagem pejorativa ou discriminatória com referência a uma pessoa ou a um grupo com base em quem ela é, ou seja, com base em sua religião, etnia, nacionalidade, raça, cor, descendência, género ou outro fator de identidade. Incluem-se entre outros imagens, desenhos animados, memes, objetos, gestos e símbolos que podem ser disseminados offline ou online.


Há questões que não devem ser apenas discutidas no foro das questões filosóficas, por vezes meramente subjetivas, cuja complexidade leva ao desinteresse por parte de população. O debate sobre o discurso de ódio deve ser mais pragmático e menos filosófico e não se limitar apenas ao âmbito da limitação, ou não, desse tipo de discurso, sobretudo nas redes sociais.


O que está em causa e que o autor do citado artigo parece estar a defender é a não limitação de qualquer forma de expressão comunicativa mesmo a do ódio que, segundo ele, atenta contra a "suas" presumíveis liberdades democráticas e de expressão. Pela minha interpretação o autor elimina à partida quaisquer possíveis restrições à liberdade de expressão. Tudo o que não se permita é contra a liberdade, defende-se assim a libertinagem discursiva pela ofensa, perseguição e ódio.


O autor tenta confundir o leitor ao colocar no mesmo baralho cartas com naipes de jogos diferentes ao levantar questões como a de que “Nada como criminalizar os que não pensam como eu, e não só demonizá-los como silenciá-los com rótulos criminosos e patológicos…”. Parece-me que estará a fazer o mesmo como aqueles que critica porque não pensarão como ele sobre a limitação sobre o discurso de ódio.


Vejamos então: ameaças de atentado à vida de pessoas, incitamento ao terrorismo e à sua concretização, seja por motivos religiosos, políticos, ideológicos ou outros devem ser tolerados. Será isto? Para o autor, qualquer discurso, seja de que forma e conteúdo for, deve ser tolerado em nome da liberdade do que chama expressão de pensamento.


Escreve ainda o autor João Brás que “As palavras não são ações e as ideias, pensamentos e opiniões devem poder ser debatidos, criticados, é esse o melhor modo de não se infantilizarem as pessoas, provarmos que há modos de viver e pensar mais decentes e dignos que outros...”. Esta é uma visão quimérica da realidade. Será que aqueles que se exprimem inicialmente por palavras para perseguirem etnias, raças e ideologias não se irão exprimir depois por ações? O ódio produzido por nazis contra judeus deveria de ser tolerado e de livre expressão porque no início não eram ações. Os factos comprovam que as palavras conduziram a ações. Mas, por outro lado, quem se manifestava contra o partido nazi através da expressão de pensamento era perseguido.


Será este o ponto de vista do autor que, justificado pela livre expressão de pensamento, se possa fazer a apologia e incitamento ao crime? Se assim for poderemos então defender publicamente que se persigam etnias, se proceda ao genocídio, fazer apologia ao nazismo, mesmo que se calcule possa levar a ações da prática de crimes e chacinas consequências da liberdade de expressão.


Não estou em crer que o autor não ficaria indignado e que não se importaria se, tal como escreve, a critica e o debate fossem “o melhor modo de não infantilizar as pessoas”, na circunstância de alguém, que não estivesse de acordo com o seu pensamento e não aceitasse a argumentação, o debate e a critica, o perseguisse, insultasse, ameaçasse de morte, injuriasse, lançasse suspeições de atos não foram por ele praticados, publicasse mensagens de ódio e ameaça à sua família, etc... E, caso esses discursos se mantivessem, qual bulling político, tal como jovens têm sido vítimas por outros colegas e outros agentes do ataque pessoal. O que pensa o autor sobre isto? Nada. Deixa campo aberto para tudo em nome da “sua liberdade de expressão” sob qualquer forma.


Continuo a questionar o autor sobre o que faria se, neste blogue, o difamasse, ofendesse, ameaçasse, acusasse, difundisse factos a seu respeito através de imagens falsas que o atingissem no seu bom nome e reputação, etc.? Se a tal procedesse e o divulgasse publicamente decerto que me poria um processo em cima dos costados. Onde estaria então o meu direito à liberdade de expressão?


Talvez através de retóricas argumentativas me demovesse de tudo o que disse e ameacei e debatesse comigo o meu pensamento e a minha opinião e fizesse a devida crítica. E, claro, logo depois, eu teria deixado os meus propósitos de ódio e retiraria tudo o que disse e passaria a ser um menino bem-comportado.  


Imagine-se que numa breve exposição de ideias se encetava uma conversa com um intolerante defensor do discurso de ódio e que, após uma breve exposição de ideias, lhe perguntamos então qual é o seu contra-argumento, e o interlocutor responde: - O meu argumento? É este o meu argumento -  mostra a arma que transporta. Penso que Karl Popper terá contado algo semelhante, não tenho a certeza.


Quando alguém lança numa rede social frases ofensivas e imagens com montagens falsamente comprometedoras de outro(a) esse(a) tem toda a liberdade de o fazer, será isto que o autor defende que não deve ser limitado? Isto parece-me ser tendencialmente uma liberdade de expressão sem limites, uma acracia da expressão.


Penso ser da mais comum racionalidade democrática que não se pode ferir a intimidade, privacidade, honra e imagem de outra pessoa. Logo, não se pode usar o argumento da liberdade de expressão para ferir outros direitos garantidos.


Termino com citações de Karl Popper sobre a tolerância em “A Sociedade Aberta e os Seus Inimigos” onde afirma que “a tolerância ilimitada leva ao desaparecimento da tolerância. Se estendermos a tolerância ilimitada mesmo aos intolerantes, e se não estivermos preparados para defender a sociedade tolerante do assalto da intolerância, então, os tolerantes serão destruídos e a tolerância com eles”.


Numa nota de rodapé ao capítulo 7 (p. 289; V.1, tradução, 1973) em "A Sociedade Aberta e os Seus Inimigos", Karl Popper escreveu que “o ‘paradoxo da liberdade’- a liberdade total leva à supressão dos fracos pelos fortes – e o "paradoxo da tolerância" - a tolerância ilimitada conduz ao desaparecimento da tolerância.”


Há países que ainda permitem uma variedade muito grande de discursos e ações com diversos espectros ideológicos. As democracias devem restringir discursos precursores de intolerância e de ódio que incitem à ação. A questão é descobrir como restringir, banir ou punir apenas e arranjar a solução certa. É difícil para as democracias centrarem-se nos discursos e grupos e partidos realmente perigosos e deixar o campo de ação o mais amplo possível do que é permitido. Numa primeira fase, algo terá de ser feito.

sábado, 5 de dezembro de 2020

Pra cima de puta ou do oportunismo com oportunidade

Cristina Ferreira-TVI (1).png


O que vou escrever não foi movido pela inveja porque nada tenho a invejar a Cristina Ferreira, não sou da profissão, nem que o fosse, não  pertenço ao seu grupo de amizades, não a conheço pessoalmente o que dela sei é somente e apenas pelos programas que ela protagoniza e o que a comunicação social vai dizendo sobre o que se passa nos bastidores dos canais onde trabalhou ou trabalha.


Pacheco Pereira pessoa que considero ser séria como escritor e que também admiro pelo seu estilo de comentário de opinião escreveu no jornal Público um artigo em defesa de Cristina Ferreira. Em epígrafe escreve “O ódio dos covardes que anda por aí” e “Sim, este elogio da denúncia de Cristina Ferreira é para vosso escarmento, vosso opróbrio, vosso desluzimento, vossa vergonha e, se tiverem de ir ao dicionário para perceber algumas palavras, ao menos ganha-se alguma coisa.”


Concordo com Pacheco Pereira unicamente enquanto elogio da denúncia que Cristina Ferreira faz no seu livro do esterco de comentários por alguma gente que se movimenta pelas redes sociais. Devemos, todavia, separar algumas águas quando se trata de pessoas a que se resolveu chamar figuras públicas, que, por princípio, têm mais visibilidade através dos canais televisivos porque a carência de protagonismo que é o seu alimento poderá conduzi-las aos mais variados e falsos altruísmos que, apesar de tudo não deixam de ser altruísmos quando praticados.


Pacheco Pereira elogia Cristina pelo seu livro porque também se indigna, com plena razão e direito, com os discursos de ódio, grosseria, de ameaças, de violência que passam impunemente pela rede sociais


O título deste meu texto “Oportunismo com oportunidade” vem mesmo a propósito e vem a propósito da publicação do livro “Pra Cima de Puta” da autoria de Cristina Ferreira, (tê-lo-á escrito?), editado em novembro de 2020 pela Contraponto Editores. A esta publicação seguiu-se, quase de imediato, a petição contra o cyberbullying para levar à Assembleia da República o que ao mesmo tempo veio servir de marketing para a promoção do livro e, sobretudo, da sua autora. Parece-me ser uma motivação exclusivamente pessoal, mas que pretende transvasar para a generalidade. Enfim, coincidências! O título do livro é sugestivo e pode levar muita gente não apenas as que frequentam as redes sociais a comprá-lo, e é isso que interessa.


As audiências dos programas por ela geridos, e alguns também apresentados, estão em baixa,  pelo que todo este movimento marketing à volta de Cristina possa vir a exercer uma espécie de alavancagem para os seus programas televisivos na TVI que  tem vindo a ter maus resultados devido à sua interferência e que, por isso, encontra-se fragilizada segundo consta nos bastidores da estação televisiva.


Os seus sorrisos para as câmaras e a aparente simpatia, que seduzem muitos espectadores, não são mais do que mera representação porque, dizem, ao vivo e em trabalho de bastidores é do piorio gritando e insultando os seus colaboradores.  


O livro, ao transcrever comentários a ela dirigidos e por ela transcritos para o seu livro poderá ser uma forma de Cristina Ferreira se vitimizar perante o público. Transformar ameaças e crises numa boa oportunidade de negócio é atributo de empreendedorismo e praticado em algumas empresas, e Cristina é uma empresa. É isso que Cristina Ferreira tenta fazer.


As ameaças que advêm da utilização imprópria das redes sociais não é de hoje, embora se tenha agravado, vem desde o seu lançamento. Ameaças, ciberbullying, notícias falsas, difamação, falsidades, maledicências, maldade, machismo, mulheres que rebaixam mulheres e outros impropérios idênticos, para tal a imaginação não falta têm sido várias vezes denunciados e objeto de debate. Esta situação tem vindo a gravar-se e o exemplo é encorajado por alguns altos responsáveis de alguns países bem conhecidos de muitos.


Não é de hoje que as redes sociais têm sido utilizadas para fazer ataques pessoais em que as emoções, boas ou más, extravasam o limite do possível. O tema ciberbullying não é novo e tem sido debatido internacionalmente, nomeadamente na União Europeia cujo Parlamento tem abordado. Tentar resolver ou mitigar o problema dos conteúdos nocivos ou ilegais online e, ao mesmo tempo, proteger a liberdade de expressão é uma das questões fundamentais que os eurodeputados querem abordar assim como a da proteção dos utilizadores contra aquele tipo de conteúdos.


A legislação sobre a informação que circula pelas redes sociais vai apresentar até final do ano uma nova legislação (‘Digital Services Act’ – Lei de Serviços Digitais) para regulamentar melhor os gigantes tecnológicos, em termos de gestão de dados, desinformação e discurso do ódio, em particular.


A Comissão Europeia está a trabalhar numa legislação para garantir que os conteúdos ilegais sejam retirados com as salvaguardas necessárias para proteger a liberdade de expressão porque o ódio não conhece fronteiras. A União Europeia tem, desde 2016, um código de conduta contra o discurso do ódio, de base voluntária, que foi assinado pelos grupos e redes sociais Facebook, Microsoft, Twitter, Youtube, Instagram, Snapchat, Dailymotion, Jeuxvideo.com e Tiktok.


Na Internet e nas redes sociais há gente infame ou que sofre de alguma psicose que difama e se alimenta destilando ódio, agredindo com facilidade e sem pudor pessoas que consideraram tomar como alvo, quer sejam políticos, quer sejam outros que se expões publicamente e Cristina Ferreira é uma dessas muitas pessoas que se expõe assumida e publicamente nas redes sociais.


Fico perplexo quando famílias e muita outra gente que, mesmo não sendo figuras públicas, se expõem através de imagens em família estimulando até os filhos a promoverem-se através de fotografia nas redes sociais. Assusta-me perceber que isso acontece sem qualquer controlo e autocrítica e que depois de serem alvos lamentam-se e julgam-se agredidos.


Não sei se o que mais preocupa Cristina se será sentir-se “Pra cima de Puta” ou se é sentir que está abaixo de puta nas redes sociais. Não percebo a metáfora, mas eis que descobri uma interpretação. Ao escrever aqui abaixo de puta, pensei que teria sido original, mas não fui porque há quem já utilizasse o termo no mesmo contexto que passo a citar e que também podem ler aqui:


 “I. Que Cristina Ferreira use a expressão como título de um livro seu, eis uma escolha inevitavelmente curiosa, tendo em conta que a autora quer evitar qualquer arbitrariedade metaforizante, esclarecendo que se trata de uma "provocação", no sentido em que o seu objetivo primordial é uma "chamada de atenção". Atenção para quê? Para uma "análise sociológica" das "agressões" nas "redes sociais" — a começar por aquelas a que ela tem sido sujeita, incluindo a classificação "pra cima de puta". 


III. Somos todos pavlovianos, eis a questão. Por um lado, Cristina Ferreira é uma personalidade pública do espaço televisivo, em grande parte apoiada nas chamadas redes sociais, o que ajudará a explicar o seu natural interesse pela sociologia. Identidade, sistema moral e estratégia empresarial, tudo nela existe arquitetado e exponenciado através de tais circuitos. Por outro lado, pressente agora que a utopia "social" que tão empenhadamente tem protagonizado pode ser uma ilusão cruel, convocando os seus seguidores "para percebermos que mulheres e homens atacam ferozmente".


Cristina é em grande parte apoiada nas chamadas redes sociais, mas desconhecem tudo quanto faz a não ser os risos e sorrisos para as câmaras, mas, do que tem vindo a público (consultar revista Sábado de 25 de novembro), é sintoma nítido de megalomania egocentrismo.


Pegar no que lhe chamam nas redes sociais, convencida, traidora, vergonhosa, manipuladora, exibicionista, gananciosa e tentar colocá-los como vantagem para si própria é o objetivo de Cristina para se vitimizar. A vitimização por vezes dá resultados face à queda das audiências.


Quem frequenta redes sociais como o Instagram pode confirmar que Cristina se expõe a tudo quanto sejam abutres do cyberbullyng e ela sabe disso porque não é nem parva, nem estúpida.


O discurso de ódio algumas vezes tem motivações induzidas por quem é o alvo movidas por comportamentos, atitudes, opções partidárias e ideológicas e que se revelam em ataques de todas as espécies que servem aos seus autores de escape que a liberdade de expressão das redes sociais proporciona.


O que me parece estranho é que Cristina Ferreira só agora tenha descoberto os ataques verbais de que tem sido alvo ache também agora que vem em auxílio de outros estão a ser alvos da mesma situação. Estranho é ainda que só ao fim alguns anos venha a insurgir-se contra as injurias, e muitas outras formas de ódio de que tem sido vítima através do cyberbullying e se atribua a si própria a grande defensora de todos e todas que dele têm sido vítimas quando o tema na sua generalidade tem sido abordado não raras vezes.


Há pelas redes sociais milhares de figura públicas, ou não, que são insultadas, enxovalhadas e vilipendiadas que não se queixam e que, com elevação moral não dão resposta a essas provocações que circula nas redes sociais, em vez de se focarem e darem valor a essa gente abjeta que se embrenha no anonimato. Todavia não são apenas insultos há também manifestações de indignação.


Há os que se põem a jeito e Cristina põe-se demais a jeito. O que dizer de quem publica vídeos e fotografias no seu Instagram fotografias com um seu protegido por ela relançado passeando-se num iate apresentando a ideia de alguma cumplicidade entre ambos para alimentar a imprensa. “Na montra do Instagram apresenta sorrisos e uma vida despreocupada financeiramente que contradiz o que se passa nos bastidores. Quem tem contacto com ela na estação descrevem a tensão que se vive na estação. Em público Cristina disfarça a desolação com as derrotas e não baixa a guarda… As fúrias são à porta fechada, fora dali…” Ler aqui.


A megalomania e declarações de “eu é que mando”, “eu é que escolhi” é uma necessidade de transmitir para se auto compensar revelam um egocentrismo patológico. Aquando da XXIV cerimónia dos Globos de Ouro da SIC recorde-se o seu discurso que recebeu críticas vindas de vários setores: "Cristina, a rainha da humildade"; "Presunção e água benta..."; "Que convencida e arrogante", foram alguns dos comentários ao discurso da apresentadora, que ganhou o prémio 'Personalidade do Ano' na área do Entretenimento.


Num fragmento do discurso que não está descontextualizado afirmava que "Eu dizia não quero, isto não faz sentido nenhum, estou lá a apresentar e depois vou lá receber o prémio... e depois percebi que quero. E quero, porque é justo", afirmou, como autoelogio e arrogância que lhe é habitual.


Ser figura pública e ambicionar por visibilidade e protagonismo para benefício próprio tem, e sempre teve os seus riscos, mesmo antes das redes sociais. Publicações como tabloides e revistas cor de rosa e outras lançavam para o público, amores, casamentos, escândalos e outros “tesourinhos” sobre vedetas ou personalidades mais conhecidas.


Portanto, não nos admiremos, Cristina Ferreira não é a vacina que vai salvar o “mundo” do discurso de ódios nas redes sociais.