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quinta-feira, 27 de fevereiro de 2025

Crescimento dos votos na extrema-direita: causa ou consequência?

Extrema direita cupula patriota.png


Eleição após eleição tem-se sentido cada vez mais os efeitos do aumento da extrema-direita no Mundo e sobretudo no continente europeu onde nos inserimos. Embora os partidos da direita moderada e os denominados conservadores tenham conquistado o apoio do eleitorado os da direita radical ou da extrema-direita populistas, soberanistas ou nacionalistas têm vindo a crescer eleição após eleição. Veja-se o caso da AfD na Alemanha nas últimas eleições.


Estes partidos que estão a evoluir na UE nas intenções de voto. Os líderes dos partidos de extrema-direita do terceiro maior bloco eleitoral do Parlamento Europeu, Patriotas pela Europa, elogiaram o regresso de Donald Trump ao poder num encontro em Madrid, no dia 8/fev/25 realizado sob o lema “Make Europe Great Again”.


Tenho-me questionado sobre o que leva o eleitorado a decidir votar em partidos cujos líderes apresentam tendências autocráticas e radicais de extrema-direita. Não se trata de esquerda ou de direita, trata-se de poderem originar e transformarem-se em ditaduras autocráticas, ou seja, regimes em que o governo está nas mãos de um indivíduo ou grupo com poder que possa vir a ser transformado em absoluto e ilimitado. Temos como exemplo o caso da Rússia de Vladimir Putin e agora o de Donald Trump que parece querer seguir os mesmos passos do primeiro. O caso da Rússia não é o medo dos russos, mas do que Putin representa, pois é sabido que ele tem aliados fiéis nas extremas-direita europeia. Sobre este tema há uma visão histórica interessante A ameaça russa em Notas à Margem.


Para tal há diversas razões complexas e interrelacionadas. Há muito a considerar e a entender sobre o contexto e a mentalidade dos eleitores em cada situação específica. Frequentemente, líderes autocráticos provenientes de partidos, ou não, possuem personalidades carismáticas que podem criar uma forte ligação emocional com os eleitores, fazendo-os sentir que esse líder é alguém que compreende os seus problemas e representa os seus interesses.


A técnicas de manipulação emocional usando a retórica nacionalista para mobilizar apoio e influenciar os seus seguidores, sobretudo os potenciais seguidores, podem incluir apelos ao medo, à esperança e à identidade nacional, contra ameaças, internas e externas por vezes infundadas tornando as pessoas mais suscetíveis para acreditar nas palavras que ouvem.


Muitas pessoas tendem a confiar em figuras de autoridade se um líder é percebido como forte e decisivo, pode atrair eleitores que anseiam por estabilidade e ordem. Esta opção pode ser devida a diversos contextos culturais e história política dum país que podem favorecer uma liderança centralizada, tornando as ideias autocráticas mais aceitáveis.


Outro fator pode ser devido a tempos de crise económica, social ou política, os eleitores aceitem apoiar representantes políticos que prometem soluções rápidas e decisivas, mesmo que isso signifique uma concentração de poder.


Há ainda fatores menos evidentes que tem a ver com equações pessoais dos eleitores. Concordar com os líderes pode ser visto como um sinal de lealdade e identidade do grupo a que pertencem ou a que julgam pertencer. Há uma necessidade de pertencimento a algo que pode levar as pessoas a aceitar opiniões e afirmações dos líderes do seu grupo social, político ou religioso (pode até ser um clube de futebol ou qualquer outro tipo de associação) e, por isso, buscam informações que se alinhem com as suas crenças preexistentes ignorando contradições.


O efeito de grupo, de bando ou de rebanho (o termo anglo-saxónico é bandwagon effect) por vezes também referido como “efeito de contágio”. Este termo denota um fenómeno de impacto da opinião pública sobre um ou vários sujeitos. Com as suas preferências e posições políticas, as pessoas juntam-se ao que consideram ser maiorias ou posições dominantes existentes ou esperadas na sociedade. Isso implica que o sucesso gera mais sucesso, e os parecem gozar de um amplo apoio popular provavelmente ganharão um apoio ainda mais forte. Tal pode conduzir a que alguns eleitores votem no candidato com maiores chances de vitória, com o objetivo de não desperdiçar o seu voto, o chamado voto útil. Temos também o voto baseado no comportamento direcionado para o candidato com menores perspetivas de ser eleito, muito devido ao “vou votar nele só por votar”.


A opinião pública percebida ganha assim a qualidade de poder e ser realizada, tal como uma espécie de vagão que carrega uma banda num desfile e atrai uma grande multidão de seguidores que marcham atrás dela para apreciar a música. Em síntese, trata-se de o eleitor decidir votar num partido ou candidato que ainda em sondagens considera apresentar valores que na sua perspetiva são injustamente baixos, ao contrário do anterior efeito que é o de votar em quem vai à frente.


As técnicas de manipulação emocional para influenciar os seus seguidores, sobretudo os potenciais seguidores, podem incluir apelos ao medo, à esperança e à identidade nacional, tornando as pessoas mais suscetíveis para acreditar nas palavras que ouvem.


As palavras e as frases simples vão de encontro ao desejo de simplicidade das pessoas que geralmente preferem explicações simples e claras em vez de frases muito complexas. As pessoas preferem a certeza à dúvida e assim acreditam em quem simplifica questões complexas e em quem oferece soluções fáceis para problemas complexos que podem parecer mais convincentes, tal é o caso de Trump nos EUA que a eliminação de tratados, a ocupação de territórios e a eliminação das teses sobre as alterações climáticas são tratados com apenas com uma assinatura de eliminação ou de abolição. Em Portugal temos o caso André Ventura quando apresenta propostas e soluções para casos complexos cuja exequibilidade seria impraticável se os quisesse colocar em prática caso estivesse no poder.


Há um outro fenómeno conhecido como efeito de ilusão de verdade em que a repetição constante de uma afirmação, mesmo que falsa, pode fazer com que ela pareça verdadeira, mesmo que o não seja. Veja-se o caso exemplar do atual presidente dos EUA Donald Trump que durante a campanha eleitoral muitas vezes usou esta técnica e ainda hoje a utiliza. Mais próximo de nós temos André Ventura do partido Chega.


Nem todos têm acesso a informações imparciais ou as competências para avaliá-las criticamente. A propaganda e o controle dos media podem moldar narrativas para fazer com que perspetivas alternativas pareçam falsas ou perigosas.


Em alguns casos as pessoas podem não ter acesso a informações alternativas ou a meios de verificar o que os políticos candidatos dizem. Isso pode ser exacerbado em regimes onde a comunicação social é controlada ou censurada.


Mas, há um outro ponto muito importante que será desenvolvido noutra ocasião e que tem a ver com desinformação, o controle dos media e com campanhas de desinformação via redes sociais que podem influenciar significativamente a opinião pública, suprimindo críticas e promovendo uma imagem positiva ou negativa dos candidatos a líderes ou até de produtos e de pessoas que são promovidas.  


Notas sobre a imagem:



  1. Apesar do objetivo declarado dos Patriotas de unificar os conservadores nacionalistas da Europa, alguns dos partidos mais influentes da UE nesse campo - como os Irmãos da Itália da primeira-ministra italiana Giorgia Meloni, a Alternativa para a Alemanha e o Lei e Justiça da Polônia – recusaram-se a participar.

  2. O líder do partido político de extrema-direita português Chega, André Ventura, o líder holandês de extrema-direita Geert Wilders, o líder do partido de extrema-direita espanhol Vox, Santiago Abascal, e a líder e deputada francesa de extrema-direita Marine Le Pen, o presidente do grupo parlamentar francês de extrema-direita Reunião Nacional (Rassemblement National - RN), o primeiro-ministro húngaro Viktor Orban, o vice-primeiro-ministro italiano Matteo Salvini e o líder grego do partido "Voz da Razão", Afroditi Latinopoulou, estão no palco do O partido espanhol de extrema-direita VOX reúne-se com outros líderes europeus de extrema-direita, em Madrid, Espanha, em 8 de fevereiro de 2025. REUTERS/Ana Beltran

domingo, 16 de fevereiro de 2025

Discurso de Vance em Munique: Críticas à Democracia Europeia

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Ontem na Conferência de Segurança de Munique é um evento anual onde líderes mundiais, ministros e outros decisores políticos se reúnem para debater os principais desafios globais. Este ano de 2025 teve como objetivo abordar questões urgentes de segurança global, incluindo a guerra em curso na Ucrânia, a crise em Gaza e a dinâmica de mudança das alianças internacionais. Serviu de plataforma para o diálogo e a cooperação de alto nível entre líderes mundiais, decisores políticos e peritos.


O discurso de JD Vance em Munique parece ter revelado o colapso da aliança transatlântica. Para o The Guardian, o discurso foi “cheio de hipocrisia risível, retratos distorcidos da democracia europeia e insensibilidade em relação ao trauma da Europa com o fascismo”.


JD Vance, o vice-presidente dos EUA, fez um discurso na conferência onde criticou a abordagem dos governos europeus à democracia. Vance criticou a abordagem dos governos europeus à democracia e disse temer que a liberdade de expressão no continente esteja a “recuar” criticou os líderes europeus e a democracia da U.E. porque não alinharem com as extremas-direitas e radicais em vez de se focar que estava em discussão que eram para a paz na Ucrânia.


Ele expressou preocupações sobre a liberdade de expressão na Europa, afirmando que muitos americanos veem na Europa “interesses entrincheirados” que se escondem atrás de termos como desinformação para suprimir pontos de vista alternativos. Fez críticas à abordagem dos países europeus à democracia e à liberdade de expressão e manifestou preocupação com o recuo da liberdade de expressão na Europa e criticou os governos europeus por lidarem com a imigração e os valores democráticos


Vance também mencionou que a maior ameaça à Europa não é externa, como a Rússia ou a China, mas sim interna, com a Europa se afastando de alguns de seus valores fundamentais compartilhados com os Estados Unidos.


Está mais do que provado que o que ele denomina pontos de vista alternativos, isto é, verdades não evidenciadas por factos, muito ao gosto de Donald Trump, como se verificou do seu anterior mandato. dar algum sentido à distopia desorientadora da pós-verdade que parece ter envolvido os Estados Unidos desde o primeiro mandato mantendo-se, agora novamente com Donald Trump na presidência americana.


A propósito do que eles chamam “pontos de vista alternativos” ou “factos alternativos” como em 2017 os seus conselheiros de Donlad Trump (ou acólitos)?) contestavam a realidade como já escrevi noutro texto. Um deles, “Kellyanne Conway, diretora de campanha presidencial de Donald Trump em 2016 e conselheira do presidente até agosto de 2020, alegava, na altura, a existência de haver “factos alternativos” para  ajudar Sean Spicer, assessor político e Secretário de Imprensa e Diretor de Comunicações interino do presidente Donald Trump que, no mesmo ano, usou seu primeiro encontro na Casa Branca para protestar contra os jornalistas devido ao que ele incorretamente chamou “reportagem deliberadamente falsa” sobre a posse de Trump na altura”.


Ainda sobre a liberdade de expressão em perigo cito as palavras de


Mas regressemos ao discurso de Vance, uma hipócrita “lição” de democracia como escreveu hoje no Público Andreia Sanches, mas, para mim, foi claramente desagregador duma aliança e, ao mesmo tempo, da democracia europeia.


Andreia Sanches escreveu ainda “Vance disse que a Europa está a suprimir a liberdade de expressão e a ignorar quem pensa diferente. Estamos a falar do vice de um país onde universidades e variadíssimas organizações financiadas pelo Estado estão, de há semanas a esta parte, a expurgar dos seus documentos oficiais palavras que se tornaram proibidas com a Administração Trump, como "diversidade", "desinformação", "activismo", "racismo" ou "género"”.


Vance afirmou que “enquanto o governo Trump está muito preocupado com a segurança europeia e acredita que podemos chegar a um acordo razoável entre a Rússia e a Ucrânia – e também acreditamos que é importante nos próximos anos que a Europa se esforce em grande escala para fornecer sua própria defesa – a ameaça que mais me preocupa em relação à Europa não é a Rússia, não é a China, não é nenhum outro ator externo. O que me preocupa é a ameaça interna. O recuo da Europa em relação a alguns dos seus valores mais fundamentais: valores partilhados com os Estados Unidos da América.”


Que ameaça interna na Europa preocupa Vance? Penso ser a democracia. O descaramento deste senhor é tal que afirmou que “Fiquei impressionado com o facto de um antigo comissário europeu ter ido recentemente à televisão e parecer satisfeito com o facto de o Governo romeno ter acabado de anular uma eleição inteira. Ele alertou que, se as coisas não saírem conforme o planejado, a mesma coisa pode acontecer na Alemanha também.” Tem memória curta porque apagou a cena que o seu líder Trump fez quando perdeu as eleições nos EUA e promoveu indiretamente o assalto ao Capitólio.


Sobre os principais partidos democratas não trabalharem com a extrema-direita, referindo-se à Alemanha, Vance defendeu que “não há espaço” (aplicou o termo firewalls-aplicar uma política de segurança a um determinado ponto, geralmente associados a redes) para cordões sanitários seja a quem for. Atente-se a isto: “But what no democracy, American, German or European will survive, is telling millions of voters that their thoughts and concerns, their aspirations, their pleas for relief, are invalid or unworthy of even being considered.


Democracy rests on the sacred principle that the voice of the people matters. There is no room for firewalls. You either uphold the principle or you don’t. Europeans, the people have a voice. European leaders have a choice. And my strong belief is that we do not need to be afraid of the future”.


Foi um discurso demagógico, de falsos valores, sobre o que ele(s) e o que entende(m) por liberdade de expressão (que, para ele e para o seu chefe Trump) deve servir para tudo inclusivamente para motivar o ódio, a promoção de fascismos, nazismos, autocracias, e outras ditaduras. Vance sabe que isso lhes interessa. Isto é, “autocratas e ditadores de todo o Mundo uni-vos”.

sábado, 7 de dezembro de 2024

Impulso e tentação para atribuição de culpa a outros



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Há uma frase interessante na série animada dos Simpsons, no episódio número 7 de 1989 cujo título é “Marge Gets a Job” onde podemos ver e ouvir Homer a dizer à Marge: “Se fizeres algo errado na fábrica da central nuclear, culpa o ‘gajo’ que não fala inglês”.


Quando emitimos opiniões contrárias ou fazemos críticas em relação a opções tomadas por um determinado governo é porque estamos a virar para a direita, para a extrema-direita ou para a direita radical conservadora. No caso inverso é porque estamos a virar para a extrema-esquerda ou para a esquerda radical.


Em síntese, concordo com soft direitinha Maria João Marques quando escreve que “se se desalinhar dos mantras da esquerda, já se está na extrema-direita; se se mencionar um problema ao qual o Chega devote atenção, está-se a sucumbir à extrema-direita.”


Quando, por exemplo, alguém emite uma crítica sobre opções ou práticas governativas do partido que está no poder é comum os votantes, simpatizantes e militantes dizerem que tudo está a correr bem e até muito melhor do que durante o governo anterior. E do que está mal a culpa é também do governo anterior.


No confronto político partidário há sempre discordâncias nos princípios e nas orientações das políticas e opções governativas garantidas por preferências ideológicas e partidárias, sejam elas mais à direita, mais à esquerda ou mais ou centro.


Há um impulso para os políticos e os seus adeptos partidários que sobrevive nas suas mentes que é a tentação de atribuir a culpa a outro ou a outros, normalmente a partidos que estiveram no poder. Esta tentação de atribuir a culpa a outro ou a outros acontece não acontece apenas entre políticos, acontece também tanto na vida privada como na vida coletiva.


Quando é manifesta a incapacidade dum governo surgem da parte de alguns comentadores e artigos de opinião da área desse executivo as mais diversas desculpas tais como está há pouco tempo a governar; as coisas vieram tão mal do anterior governo que ainda não foi possível melhorar; a oposição não os deixa governar, etc. Por vezes assim é, mas a desculpabilização das incapacidades governativas pelo que os anteriores fizerem ou deixaram de fazer é o pretexto mais comum.


Lembremo-nos da altura em que foi proferida frase «Deixem-me trabalhar!» e outra de que a oposição eram «forças de bloqueio». Ainda recentemente, em setembro do corrente, Pedro Duarte do PSD pedia no parlamento «Deixem-nos continuar a governar».


Quando surgem críticas a ministros(as) pelas decisões tomadas ou pela desorganização dos serviços que dependem dos seus ministérios, como o é nomeadamente a saúde, as justificações surgem de imediato com vozes que se libertam como se de um clube de futebol se tratasse que culpabilizam o árbitro pelo mau desempenho do jogo e com a desfaçatez de insistirem na defesa e insistência do que claramente são opções erradas.


As contradições entre o que foi prometido durante a campanha eleitoral são evidentes e a desculpa para tal repete-se: ainda não tivemos tempo, só cá estamos há 9 meses. Na campanha dizia-se que, o que estava mal, claro, por culpa do governo anterior seria resolvida nos primeiros meses. Só que, nesses mais de 9 meses muitas decisões precipitadas fizeram com que as coisas piorassem, mais ainda do que durante o governo anterior, especialmente no domínio do Serviço Nacional de Saúde. Para o lado da ministra Ana Paula Martins, o caso está agreste porque preferiu compadrios e clientelas ao saber e à competência.


Mas esses obstinados não se ficam por aqui quando as coisas não se circunscrevem ao pensamento defensivo do seu clubismo ideológico e partidário, e perante o escrutínio da comunicação social, recuperam os argumentos do costume contra os media e os jornalistas. Quando a comunicação social não corresponde às suas expectativas o jornalismo, os jornais e os jornalistas são todos de esquerda, ou são todos de direita conforme os casos e o partido que está no poder. Estes são os princípios e os argumentos duma visão única em que a razão está apenas dum lado. Claro que algumas dessas críticas poderão ter algum fundamento, mas não devemos generalizar. Geram-se atitudes maniqueístas em que só a direita, ou só a esquerda, é que estão certos. Quem não esteja no âmbito das suas perspetivas e expectativas estão errados. Acham que ideológica e politicamente estão na posse da verdade absoluta e indiscutível.


Há uma espécie de dissonância cognitiva em política, isto é, a existência dum conflito entre crenças e opiniões políticas e as ações efetuadas ou decisões tomadas o que pode gerar desconforto mental e levar a pessoa a justificar ou a racionalizar as suas ações para reduzir a dissonância. Igualmente verifica-se quando se apoia um candidato ou um governo que, posteriormente, toma decisões contrárias às suas promessas de campanha. É ainda um fenómeno comum em debates políticos, onde argumentos contraditórios podem levar os participantes a reavaliar as suas posições e, eventualmente, a mudar de opinião.



 

 

sexta-feira, 16 de agosto de 2024

O mundo kafkiano na política, no social e na justiça

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Li há alguns anos o livro “O Processo” de Franz Kafka. A releitura deste livro deixou-me apreensivo pela associação que fiz às realidades que estamos a viver em Portugal e no Mundo que mais parece um mundo kafkiano.


Transcrevo, como introdução a este texto, o início do primeiro capítulo que começa assim:


 “Alguém devia ter caluniado Josef K., porque foi preso uma manhã, sem que ele houvesse feito alguma coisa de mal. A cozinheira da Senhora Grubach, a dona da pensão, que lhe levava o pequeno-almoço todos os dias por volta das oito horas, não apareceu desta vez. Isto nunca tinha acontecido. K. aguardou mais um pouco; apoiado na almofada da cama, viu a velha senhora que morava em frente da sua casa a observá-lo com uma curiosidade completamente inacostumada; mas depois, sob o efeito simultâneo da surpresa e da fome, tocou a campainha. Bateram logo à porta e entrou um homem que ele nunca vira naquela casa. Era esbelto e, no entanto, de constituição sólida, trajava um fato preto muito justo que, à semelhança dos fatos de viagem, possuía diversas pregas, algibeiras, botões e um cinto, em consequência do que, sem que se conseguisse designar-lhe o uso, parecia particularmente prático. – Quem é o senhor? – perguntou K., soerguendo-se na cama. Mas o homem ignorou a pergunta, como se fosse obrigatório aceitar a sua aparição e respondeu simplesmente: – Chamou alguém?”


…………………………………………………………………….


“Através da janela aberta, ainda se avistava a velha senhora que, com uma curiosidade deveras senil, se havia aproximado da janela, agora mesmo em frente, para continuar a observar tudo.


– Vou dizer à Senhora Grubach... – principiou K., parecendo fugir à influência dos dois homens, todavia a boa distância dele, e quis avançar.


– Não – disse o homem próximo da janela, atirando o livro para cima de uma mesa e levantando-se. – O senhor não tem o direito de ir-se embora, porque está detido.


– Tem todo o ar disso – retorquiu K. – Mas então porquê? – perguntou em seguida.


– Não fomos encarregues de lho dizer. Vá para o seu quarto e espere. O processo judicial acaba de ser instaurado, e saberá tudo na altura oportuna. Ultrapasso a minha missão ao falar-lhe tão amistosamente. Mas espero que ninguém, exceto Franz, me ouça, e aliás também ele o trata simpaticamente, à revelia do regulamento. Se continuar a ter tanta sorte como para a designação dos seus guardas, pode ficar sossegado.”


Vivemos numa espécie de mundo “kafkiano” pelas situações por vezes desconcertantes e absurdas dum sistema complexo que mais parece ser irracional. O termo “kafkiano” entrou na linguagem para descrever experiências desnecessariamente complicada e frustrantes, como o de ser forçado a penetrar nos infinitos labirintos dos partidos, da política, da justiça, das decisões dos governos, das opiniões dos comentadores. Falemos também do acesso aos serviços públicos, seja eles da saúde ou quaisquer outros, sucessivamente ocupados e inacessíveis devido à afluência dos que, em enxurrada, entram indiscriminadamente no nosso país e a eles pretendem ter acesso.  


O que se passa é a existência de uma associação da tendência da história com a dimensão social. Há tendências na sucessão dos acontecimentos no decurso da história atual que reproduzem uma ampla dimensão social e política do mundo kafkiano. Partidos com uma progressiva concentração de poder, como é o caso da Rússia, o que também está a acontecer na Hungria e noutros países vão paulatinamente a caminho duma distopia referida como uma representação ou descrição de uma sociedade onde prevalecem condições de vida opressivas, autoritárias e desumanas e é um termo utilizado na literatura e no cinema de ficção onde se criticam aspetos negativos da sociedade atual.


Nas últimas eleições na U.E. verificou-se uma manutenção e mesmo algum crescimento de partidos tendencialmente populistas e de extrema-direita cujos princípios têm alguma dose de pré-autocratismo.


Em 2022 foi aprovado na U.E. um texto que revelava a “falta duma ação decisiva que contribuiu para o surgimento de um “regime híbrido de autocracia eleitoral”, ou seja, um sistema constitucional em que as eleições ocorrem, mas onde não há respeito pelas normas e padrões democráticos com tendência para o endeusamento dos governantes. Veja o atual caso do resultado das eleições na Venezuela as quais o PCP, astuciosamente, defende com argumentos demasiado rebuscados responsabilizando a interferência estrangeira no país. Simplesmente anedótico!


Os Estados totalitários, como concentrações extremas dessas tendências de endeusamento trouxeram à tona a estreita relação entre o romance de Kafka e a vida real. No Ocidente as pessoas não se apercebem da realidade desta relação. O processo de Kafka é apenas um exagero, uma hipérbole imaginária que pretende fazer uma aproximação a um Estado totalitário onde a realidade está presente dado o crescimento de partidos, como atrás referi, populistas e de extrema-direita cujos princípios sugerem alguma dose de pré-autocratismo.


O Mundo vive uma complexidade multifacetada e acelerada de mudanças nas relações ao nível político, social, económico e de valores a que, ao longo dos anos, não fomos acostumados e adaptados, e, para as quais não fomos preparados, e que os órgãos de comunicação social, os denominados media, não se encarregado de alertar as populações.


Os noticiários televisivos, os mais consumidos, bombardeiam as populações com crises sistemáticas, sejam económicas, climáticas, sociais, políticas e conflitos bélicos a que se junta a proliferação de comentadores de política, listas infindáveis de opiniões nos diários, semanários e nas televisões confundem os espectadores mais leigos da observação e análise política com os mais variados pontos de vista, muitos deles até contraditórios.


Pedro Adão e Silva escreveu no jornal Público que “Portugal é hoje, provavelmente, a democracia ocidental com o rácio mais elevado de canais noticiosos por habitante. Tornou-se difícil contabilizar o número de canais a emitir notícias 24 horas por dia, sem que se perceba a racionalidade económica, o propósito para o posicionamento das marcas e em que é que se pode diferenciar a oferta.”


Para acompanharmos todos os temas de política que nos impingem a toda a hora seria necessário ficar horas a fio frente ao televisor e quem tem “box” recuperar as muitas dezenas de programas a visualizar. Os temas são múltiplos o que torna impossível acompanhá-los a todos sejam eles economia, mudanças climáticas, conflitos armados, migrações, extremismos e radicalizações, governação, corrupção, entre muitos outros.


As informações que nos chegam, mesmo as provenientes de órgãos de comunicação, não nos garantem que sejam de fidelidade absoluta, nem que sejam premeditadamente falsas, como o que se passa em países de democracias duvidosas onde a distorção de informação e difusão de propaganda são recorrentes, como é o caso da Rússia com narrativas falsas de apoio à guerra de agressão contra a Ucrânia. Nestas campanhas participam organismos governamentais ou organismos membros do Estado, seja na Rússia seja noutro qualquer país.


A desinformação que se propaga em vários países do mundo com as os mais variados objetivos baseia-se em páginas falsas na Web que usurpam a identidade de meios de comunicação social nacionais e de “sites” e páginas Web dos governos e contas falsas nas redes sociais.


A tentativas de desinformação e distorção da opinião pública com a alteração que pode ser intencional do significado ou circunstâncias de um facto não são raros.


Podemos associar, como suposição, neste âmbito, casos noticiados sobre a Procuradoria-Geral da República em várias situações de inquéritos, suspeições, escutas potencialmente exageradas que depois ficam sem que a opinião pública saiba o que de facto se passou nem como terminaram sem fim de tempo limite razoável.  Os casos das buscas na Madeira Miguel Albuquerque, o caso das buscas em casa de Rui Rio e na sede do PSD. Recorde-se ainda que um dos casos mais notáveis, entre outros, foi o da Operação Influencer, que levou à demissão do então Primeiro-Ministro António Costa, é o que tem gerado um intenso debate sobre a eficácia e a transparência do sistema judicial em Portugal e do funcionamento da Procuradoria-Geral da República são típicos de processos kafkiano.


O mundo de Kafka pertence a um universo primitivo, onde a culpa é uma espécie de pecado original em que quem é acusado nem sempre sabe porquê e em que toda a acusação é sempre uma falsidade só porque o personagem é logo acusado só porque diz sempre que a acusação é injusta e que se vai defender. Tal como na personagem do livro de Kafka os processos, a que as personagens públicas são submetidas, permanecem sempre pendentes. A causa jamais é explicitada, é sempre colocada na dúvida e mantém enquanto decorrem a eternidade das investigações.  Na verdade, nenhuma causa se torna mais suspeita quando terceiras pessoas pretendem obter através dos media e pedem através das redes sociais solidariedade para os “injustiçados”. Isto é, a tentativa de defesa já constitui uma suspeita que recai sobre suspeito como se já fosse réu!


O que por vezes se passa na justiça é que quando temos conhecimento pelos órgãos de comunicação social de políticos ou de figuras públicas que são constituídos arguidos por serem supostamente suspeitos, ou quando são presos passam por processos desconcertantes, no qual nem a causa da sua suspeição ou prisão, nem a natureza dos processos judiciais são claros para ele e para quem observa. A este tipo de situação podemos chamar processos “kafkianos” porque mais parecem ser processo próximos das características da obra de Kafka.


Tudo o que se está a passar no Mundo e em Portugal do que diz respeito à economia, sociedade, justiça, luta política para estar na emergência de um mundo kafkiano senão até distópico.

terça-feira, 25 de junho de 2024

Os jovens a extrema-direita e a queda no precipício

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Há teses que apontam para que na Europa os jovens têm sido seduzidos para o voto nos partidos populistas da extrema-direita. Um artigo de Albena Azmanova publicado no diário The Guardian defende essa tese e explica os motivos para tal.


A autora refere que nas eleições europeias do dia 9 de junho as ansiedades dos jovens não têm sido ouvidas pelos partidos moderados tradicionais.


Sobre os jovens escrevi dois artigos neste blogue que podem ler e também aqui onde apresentava a minha opinião sobre a perceção sobre os jovens e os partidos que andam em busca do seu voto, e não apenas os da extrema-direita.


A atual geração de jovens que alguns partidos consideram ser até aos 35 anos de idade estão tendencialmente a votar na extrema-direita. Estes jovens europeus que sempre conheceram a paz e a democracia e sem vivências em políticas doutro tipo que não fossem estas, podem estar a enterrar o seu futuro.


O que sabem das ditaduras e das guerras apenas o conhecem pela história e por estórias que leituras revisionistas lhes são contadas com deturpação que lhes chegam via redes sociais e sites da internet que absorvem sem espírito crítico. São narrativas e teorias contadas, recontadas e revertidas de forma aliciante, mas enganadoras.


Nas últimas décadas através de eleições democráticas a direita populista tem estado em ascensão na Europa, e, como se verificou na votação de 2024 é o culminar natural de uma longa tendência, mas, apesar da subida, ainda não conseguiu ter uma maioria no Parlamento Europeu mesmo apesar de ficar a par do maior grupo, o Partido Popular Europeu de centro-direita.


Baixar a idade de voto para os 16 ou 17 anos como aconteceu na Áustria, Bélgica, Alemanha e Malta e para 17 anos na Grécia parece não ser a melhor ideia. A redução da idade de voto para 16 anos só está a aumentar a tendência para o voto nos populistas radicais de direita. Parece haver sinais duma rebeldia dos jovens com menos de 30 anos em prol dos populismos da extrema-direita.  Nas eleições europeias e nacionais, os eleitores com menos de 30 anos deram o seu apoio a partidos de extrema-direita como a Alternativa para a Alemanha (AfD) na Alemanha, o Rassemblement National (RN) em França, o Vox em Espanha, os Irmãos de Itália, o Chega em Portugal, o Vlaams Belang (Interesse Flamengo) na Bélgica e o partido finlandês na Finlândia pode vir a aumentar essa tendência.


A mudança, que ajudou a AfD-Alternativa para a Alemanha, partido de extrema-direita, a alcançar um segundo lugar histórico em todo o país, foi notável porque a decisão da Alemanha de permitir que jovens de 16 a 18 anos votassem pela primeira vez era era na expectativa de favorecer partidos de esquerda. O partido populista de extrema-direita alemão AfD tem um forte foco anti-imigração e está classificada como uma organização extremista de direita. Antes das eleições europeias, o partido enfrentou um escrutínio sobre os seus laços expostos com financeiros russos e espiões chineses.


Um artigo que a Reuters publicou em 13 de junho mostra “Como a extrema-direita ganhou força com a juventude europeia”. Os líderes desses movimento e partidos extremistas de direita estão a utilizar os novos media e as redes sociais para promover falsos prestígios desses seus líderes dominar e aliciar os mais jovens com o objetivo de promoverem uma contracultura subversiva entre alguns jovens.


Também por cá, em novembro de 2022, um projeto do PSD defendia baixar a idade do voto como medida de “equidade intergeracional” e de “combate à sub-representação dos jovens”, medida que, como seria de espera, foi também defendida pelo Bloco de Esquerda, Livre e PAN com forte apoio da Iniciativa Liberal. Não percebi porquê o Chega votou contra esta medida juntamente com o PS e o PCP. Que o PSD e o BE pretendem angaria votos venham eles donde vierem.


Quanto mais jovens mais fáceis de aliciar devido à falta de perceção, da cultura e de literacia política e à falta de leituras que lhes poderiam proporcionar. É nas redes sociais que bebem a informação, a maior parte das vezes deturpada, onde proliferam a tal contracultura que extremistas aproveitam para atrair, com falsas promessas e argumentos falaciosos, os jovens. O resultado daqueles países da redução da idade para o voto ficou evidente nas últimas eleições onde foi um facto o aumento da extrema-direita.   


Em Portugal numa sondagem à boca das urnas do ICS/ISCTE mostravam uma clara viragem à direita dos jovens entre os 18 e os 34 anos, que representaram quase um quarto do total de votantes nas eleições legislativas de março passado. “Partidos como (IL, Livre, Chega e recente, o BE) atraem os mais jovens muito mais que os partidos tradicionais (PS, CDU, AD)”.


O radicalismo dos jovens varia de acordo com vários fatores e com as várias circunstâncias. Uma delas será a rejeição de compromissos ou soluções moderadas porque os radicais acreditam que qualquer forma de compromisso ou meio-termo é ineficaz e não trará as mudanças necessárias. Do meu ponto de vista as redes sociais desempenham um papel significativo para a disseminação de ideias radicais entre os jovens porque são plataformas onde os jovens são expostos a vários pontos de vista muitas vezes enganadores para os quais podem não ter literacia política nem conhecimentos suficientes para poderem refletir sobre eles.


Devido à falta de estímulos socioeconómicos, a falta de integração social e cultural, a falta de oportunidades económicas e a falta dum futuro promissor clamados pelos partidos de direita e de esquerda, os jovens podem ser facilmente aliciados para causas radicais ao que se junta a marginalização social que pode levar ao radicalismo dos jovens.


Há uma preocupação nos jovens devido à incerteza económica manifesta e a insegurança de subsistência. Os mais velhos vivem também com o receio de perda de emprego, os mais jovens temem não conseguir emprego, mas também não estão dispostos aceitar qualquer emprego que lhe propunham refugiando-se nos quantos mestrados ou doutoramentos possuem. Criou-se o temor de não conseguir prosperidade no futuro (seja lá o que eles entendem por isso) e que, por isso, pode impulsionar uma mudança para a extrema-direita. Se o receio da pobreza pode fomentar um desejo de mudança radical e de apoio à esquerda política, o medo da perda de estatuto social alimenta instintos conservadores que o populismo da extrema-direita lhes diz oferecer, como sejam a estabilidade e a segurança.


A observação direta sobre comportamento no dia a dia destes jovens, feita na presença em alguns locais, mostram a ocorrência de situações é contraditória com as suas preocupações. Eles são a geração que mais viaja comparativamente com os seus ascendentes. São o que mais frequentam concertos de música pop, são os que também frequentam discotecas, bares e restaurantes aos fins de semana. Arrisco-me a dizer que atualmente os jovens pretendem muito divertimento, bons empregos, bem pagos e com pouco trabalho, habitação em locais centrais das grandes cidades como muita oferta a que chamam cultural, acesso a carro privado, etc..


Albena Azmanova escreveu que “A redução da idade de voto para 16 anos na Áustria, Bélgica, Alemanha e Malta e para 17 anos na Grécia” está a aumentar a tendência para voto na extrema-direita. “Na Alemanha, a ultradireita AfD goza de popularidade incomparável entre os jovens, ganhando o apoio de 17% dos jovens de 16 a 24 anos que votaram. Os estudantes franceses não têm gritado, como fizeram durante as eleições presidenciais de 2017: “Nem Le Pen nem Macron, nem o Patriota nem o Chefe: merecemos melhor do que isso”. Desta vez, 32% dos jovens franceses, independentemente do género, apoiaram o Rassemblement Nacional. Os ganhos foram tão substanciais que levaram o presidente Emmanuel Macron a convocar eleições antecipadas”.


Mas, se os jovens não votam à esquerda e está a aumentar  o apoio à extrema-direita parece ser uma contradição já que há sondagens que apontam os temas de justiça social e económica, que são característicos da esquerda, são mais importantes para os eleitores do que a questão emblemática da extrema-direita que é a da imigração. Embora os programas da esquerda possam dar respostas às preocupações de muitos jovens, contudo, a juventude europeia está a abandonar os partidos de esquerda. O mesmo se passa nos Estados Unidos onde se verifica uma tendência dos jovens que apoiam o Partido Democrata para apoiar Donald Trump.

quarta-feira, 12 de junho de 2024

Análises muito subjetivas da situação política atual

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1. Relativamente aos resultados das eleições europeias há os que dizem que não deve haver leituras internas, e há os que acham, ou defendem que essa leitura deve ter consequências. Claro que cada uma das opiniões se manifesta consoante as conveniências.



2. A ministra da saúde é um especialista em provocar demissões e substituições no sistema sem que nada daí tenham resultado melhorias para as pessoas nos serviços de saúde. Pelo menos até hoje!



3. O poder, quando exercido por alguém que tenha incompetência para um cargo muito específico e sente dificuldade na resolução no curto prazo de problemas complexos que se lhe deparam, tornam-se prepotentes e acusam os que estão sob a sua alçada de serem os causadores dessas dificuldades que, afinal, são derivadas da sua própria incompetência. Tal parece ser o caso da atual ministra da saúde do Governo AD. De formação farmacêutica, área onde se produzem e combinam químicos, alguns que curam, mas em que outros podem trazer efeitos secundários graves.



4. O que se verificou no caso da França e da Alemanha são a prova que dão razão aos que defendem a segunda opinião. Macron perde a eleições europeias e convoca eleições antecipadas. Macron vai assim dissolver o Parlamento francês após derrota esmagadora da extrema-direita. As forças nacionais conservadoras e de extrema-direita da Europa obtiveram grandes ganhos, terminando com pouco menos de um quarto dos eurodeputados na assembleia de 720 assentos que foi o maior ganho até hoje, contudo não se saíram uniformemente bem e, em alguns casos saíram pior do que o previsto.



5. Na Alemanha apesar dos escândalos da AfD sobre a “lavagem” do regime nazi a Alternativa para a Alemanha (AfD) obteve uma percentagem mais elevada de votos nacionais (16%) do que qualquer um dos três partidos que compõem a coligação liderada pelo chanceler, Olaf Scholz. O escândalo está relacionado com a circunstância do principal candidato da (AfD) para as eleições parlamentares europeias ter renunciado à liderança do partido de extrema-direita alemão. Maximilian Krah, que disse ao jornal italiano La Repubblica que as SS, a principal força paramilitar dos nazis, “não eram todas criminosas” e afirmou ainda que os seus comentários “estavam a ser usados indevidamente como pretexto para prejudicar nosso partido”. Krah, está a ser investigado por supostas ligações com a Rússia e a China, o que ele nega.


6. Era suposto que os populistas da extrema-direita tivessem uma grande ascensão no Parlamento Europeu, mas Cas Mudde, especialista em populismo e direita radical da Universidade da Geórgia, diz que “Mais do que tudo, estas eleições refletem os desenvolvimentos a nível nacional”, e acrescentou que a extrema-direita está agora “sub-representada em nível europeu”.


7. A IL pela voz de Cotrim diz que não apoia António Costa para a presidência do Conselho Europeu e alinha com André Ventura com o mesmo diapasão. Porque será apenas porque é socialista, será porque não gostam pessoalmente dele, será porque há um ressabiamento, talvez inveja do percurso ou será por último uma questão racista bem disfarçada?


8. Cotrim da IL esta pessoa altamente qualificada e experiente em governação e em assuntos europeus explica que é por que, António Costa não fez nada em Portugal em oito anos e que, por isso, também não vai fazer nada no Conselho Europeu. Não fez porque não fez como ele acha que devia fazer? Veja-se a lógica desta rara avis que diz defender Portugal, mas que, qual Ventura, infama os portugueses apenas por motivos ideológicos.


9. Sebastião Bugalho com Montenegro a coadjuvar disseram que a vitória do PS foi por “Poucochinho”. E a vitória da AD nas eleições legislativas foi uma grande vitória certo?


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10. Poucachinho, mas ficou bem claro é que não foram validadas nem valorizadas os anúncios das medidas que o Governo diz tomar. Apesar do desgaste dos socialistas após 8 anos de governo, a AD ganhou as legislativas por uma unha negra, isto é também por poucachinho. Agora, com um governo ainda fresquinho, com pacotes para todos, desde os professores aos polícias, passando pelos reformados e jovens e levado ao colo pela comunicação social e com mais uma ajudinha do Ministério Público (recorde-se os casos que se levantaram pelo MP dias antes das eleições), com um comentador oficial aos domingos na SIC e sem contraditório perde as eleições. Para onde foram os votos que o Chega perdeu? Terá a AD conseguido captar algum? Naturalmente não, a ver pela IL que subiu.


11. O PCP, como de costume, fez da derrota uma vitória porque com grande sorte conseguiu eleger um deputado tendo perdido 1 desde 2109. O BE seguiu-lhe os passos. Ambos dizem estar em boa forma. Estes dois partidos ainda não viram que cassetes e repetições dos discursos não resultam!


12. O que trama o PCP é a sua insistência no apoio encoberto à Rússia, a Putin e à invasão da Ucrânia. Falam e reptem sucessivamente que são a favor da paz. Quem, não é? Eles, o partido, deve explicitar claramente em que moldes devem ser feitos esses acordos. Será com a capitulação da Ucrânia? Ao PCP estar a favor da paz não basta, é preciso mostrar também claramente de que lado está.


13. Quando Paulo Raimundo foi eleito para a posição de secretário-geral em novembro de 2022 alterou-se de algum modo a posição do partido. Passou a falar da condenação da “intervenção e invasão russa no território ucraniano” dizendo que não menosprezavam nem relativizavam. Sentiu indispensável ter que de vir afirmar que o PCP “não tem nada a ver com o governo russo” nem que “não há nada que nos relacione com o Governo russo, nem de longe, nem de perto” e acrescentava que “não temos nada a ver com as opções de classe do Governo russo” e que “estamos no dia-a-dia no combate a essas opções”. Mas a sua oposição clássica à UE e o sentimento de rancor para com os EUA e a NATO leva-os a afirmar que a Rússia não é o único responsável pela guerra, que “o confronto político entre vários intervenientes NATO, Rússia, EUA e UE teve como ponto alto uma invasão russa”.


14. Para o PCP os grandes causadores da invasão foram a NATO, a UE e os EUA. Ao fim destes anos todos (desde 2014 com os protestos começados em novembro de 2013 e com o Governo ucraniano do Presidente pró-russo Viktor Yanukovych decidiu suspender um acordo de associação com a União Europeia porque defendia uma maior aproximação com a Rússia para se juntar à União Aduaneira Eurasiática e acusaram os EUA de ter feito um golpe. Putin lembrou-se disso só em fevereiro de 2022?!


15. As esquerdas radicais e os sindicatos a eles afetos tanto lutaram pelos professores que seria de esperar que houvesse alguns votos que lhe calhassem. Parece que não.


16. O BE e o PCP mantêm-se numa linha ideológica que pouco ou nada evoluiu ao longo do tempo não se reajustando às novas realidades. O PCP continua na inspiração marxista-leninista a da nacionalização da economia e a contradição entre trabalho e capital é central na visão de mundo que o PCP sustenta.


17. O ímpeto propagandista deste Governo liderado por Montenegro continua após as eleições para a UE. Nos tempos de antena que lhe são dedicados nas televisões mostra o que está a fazer, o que vai fazer, o que diz que faria e vai fazer, mas pouco o que já fez, concretizou ou executou, a não ser pequenos arranjos aqui e ali sem um plano, alguns até com problemas. O que nós vemos executar são demissões, saneamentos políticos, sem que daí resultem melhorias visíveis para a população. A grande batalha que se dizia ia ser feita para melhor o SNS está tão coxo como estava. Isto é, melhor do que estava não está, mas, se está, continua defeituoso. Quem precisa de alguma coisa da saúde e pode tem de pagar rios de dinheiro aos privados.

sábado, 24 de fevereiro de 2024

Partido Chega ilusão ou armadilha

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Quem neste momento está na disposição de votar no partido Chega, ou não sabe o que é a extrema-direita, nacionalista xenófoba e racista ideias que perfilhava quando foi criado, ou está desorientado com a narrativa de ser um partido que se interessa pelas pessoas. Talvez por presentemente tentar moderar o seu discurso, o que o seu líder Ventura não está a conseguir de forma clara. Para aproveitar a ingenuidade de alguns eleitores retirou do seu programa alguns pontos mais comprometedores das suas intensões.


 


Nas últimas publicações tenho-me debruçado sobre André Ventura e o seu partido, o Chega. Mas, o que é o Chega e como chegou até aqui? O partido Chega, pela voz do seu líder, nega a designação de extrema-direita que não lhe agrada e parece pretender balizá-lo como um partido populista de direita de cunho liberal-conservador. Talvez seja uma estratégia para captar o maior número de descontentes de todo o espectro político e da abstenção. Isto é, tem um discurso racista, anti-imigração, diz-se contra o sistema, mas nega veementemente ser de extrema-direita.


De acordo com Heidi Beirich, especialista em ciência política pela Universidade de Purdue sobre fascismo europeu e movimentos de extrema-direita, fundadora do GPAHE, afirmava em 26 de junho de 2023 que «o Chega é um partido profundamente anti-imigração, anti ciganos e anti-LGBTQ», e que «Demoniza os imigrantes e os seus dirigentes, incluindo o seu líder carismático, André Ventura, têm dito coisas horríveis sobre os ciganos, chamando-lhes um problema de segurança - entre outras coisas».


Ainda segundo a mesma especialista, Ventura também falou de coisas como a teoria da conspiração da grande substituição, que é uma ideia supremacista branca que defende que os imigrantes vão substituir os portugueses, em Portugal, o que está em linha com o que se passa na europa.


Contudo, e segundo a opinião de Cátia Moreira de Carvalho, investigadora na área do extremismo, terrorismo, psicologia e política na Universidade do Porto onde se dedica a estudar os processos psicossociais associados à prevenção e combate à radicalização e envolvida em projetos de investigação (contra) radicalização, afirmou à Euronews em agosto de 2023 que «de momento, o Chega é um partido populista de direita radical, e não um partido de extrema-direita». Justifica a sua afirmação porque «o Chega tem claramente uma agenda populista, uma vez que vê o “povo puro” em oposição às “elites corruptas”» slogans dos populistas. Acrescentou que o partido «defende opiniões iliberais e que o seu objetivo é estabelecer um tipo de democracia iliberal em Portugal.». A diferença está, para a mesma especialista que «A extrema-direita quer abolir toda e qualquer forma de democracia e recorre à violência para atingir os seus objetivos. Por enquanto não é isso que o Chega tem feito, nem me parece que venha a acontecer num futuro próximo», supõe Cátia Moreira.


Não me parece ser assim tão evidente porque em alguns momentos André Ventura dissimuladamente tem incitado alguns movimentos, alguns inorgânicos como o “movimento zero” e também da GNR. Em 2019 o presidente da Associação dos Profissionais da Guarda (APG/GNR) considerou “um aproveitamento político” do deputado do Chega, André Ventura, ter usado o palco e um megafone da organização da manifestação de polícias para fazer um discurso.


Passos Coelho, em novembro de 2023, afirmava que o Chega não é um partido antidemocrático e que tem toda a legitimidade de existir. De facto, o partido tem toda a legitimidade de existir face às regras da democracia. Está legalizado, participou em eleições, teve votação que lhe concedeu deputados na Assembleia da República. É certo, mas, embora na Europa ainda não se tenha verificado pergunta-se quantos países no mundo estão em declínio democrático? No passado quantos partidos em regimes democráticos aproveitaram a democracia para acabarem com ela e passaram a ditaduras.


No presente as democracias podem estar a correr riscos. De acordo com o relatório mais recente sobre o Estado Global das Democracias, relativo ao ano de 2021, do Instituto Internacional para a Democracia e a Assistência Eleitoral (IDEA), metade dos 173 países avaliados revelaram declínio em pelo menos um dos atributos democráticos. O relatório indica que o número de países democráticos em regressão é o mais elevado da última década. Além disso, o número de países a nível mundial que avançam na direção do autoritarismo excede o dobro do número de países que avançam numa direção democrática. Portanto, pode dizer-se que um grande número de países está em declínio democrático.


As perguntas que podemos colocar são as de saber como o Chega, um partido tão recente e controverso, está a ter uma ascensão vertiginosa? Como rapidamente se inseriu no vasto panorama dos partidos populistas? Como corteja a extrema-direita europeia, tem narrativas contra os migrantes, muçulmanos e ciganos, mas rejeita ser descrito como racista e xenófobo sabendo-se ainda que André Ventura é fã de Bolsonaro e de Trump?


Uma das respostas é que chegámos aqui à semelhança do que se tem passado na Europa com o crescimento de outros partidos da extrema-direita. Podemos incluir o crescimento do partido Chega no conjunto de vários fatores que se medem por uma combinação de mudanças políticas, normalização e respostas aos desafios sociais que estão a moldar a futura paisagem política do continente europeu. Os partidos populistas de extrema-direita têm vindo a ganhar terreno em toda a Europa e a sua influência está a tornar-se mais pronunciada e a ganhar apoio eleitoral.


A normalização destes partidos começou a conferir-lhes alguma respeitabilidade (excluo daqui o Chega cujo seu líder não tem contribuído para tal) e começam a estar enraizados moldando políticas e apoio eleitoral. Seja na Itália, Espanha, França ou Finlândia, partidos que já foram marginalizados ganharam respeitabilidade e até conseguiram poder em coligações e alguns até obtiveram pastas ministeriais.


São exemplo a extrema-direita que faz parte do novo governo de coligação na Finlândia e, em troca de concessões políticas importantes, o mesmo se passa na Suécia. Há aproximadamente um ano para as próximas eleições na Áustria, a extrema-direita (FPÖ-Freiheitliche Partei Österreichs, Partido da Liberdade da Áustria) está atualmente confortável à frente nas sondagens.


Têm sido impulsionadores do fenómeno a oposição à imigração proveniente do Médio Oriente e de África que alimentam o populismo de extrema-direita, o euroceticismo crescente e o descontentamento com as políticas económicas da União Europeia que também contribuem para os radicais de direita serem ouvidos.


Num artigo publicado pela RTP “O AfD partido alemão da extrema-direita, admira o estilo de governação autocrático e homofóbico de Putin como uma espécie de modelo para a Alemanha. Querem restabelecer a antiga relação germano-russa, incluindo a importação de gás e petróleo russos. Por esta razão, pedem o fim das sanções e do fornecimento de armas à Ucrânia”, segundo o professor emérito da Universidade de Bremen, em declarações à agência Lusa. Sabe-se que há outros partidos da extrema-direita europeus que tem posições pró Russia e que são ou já foram, (caso do partido de Le Pen em França) apoiados por Putin.


Acrescem ainda fatores como a política partidária fragmentada nos países e a polarização da Europa têm criado oportunidades para que aqueles partidos se tornem relevantes quando nenhum dos grandes partidos tem maioria e os pequenos movimentos ganham importância neste tipo de cenários apoiando a manutenção dos partidos de direita moderada no poder.


O sucesso da extrema-direita deve-se ainda, em parte, à sua capacidade para abandonar pontos radicais e apresentarem uma nova imagem mais "respeitável". Em Portugal temos observado exatamente o mesmo. André Ventura, apesar da gritaria e das falsidades tem vindo a adotar uma nova estratégia evitando o uso de algumas palavras numa atitude aparentemente mais moderada para eleitor ”comprar”.


Em 23 de fevereiro, disse Ventura na TVI “Fui mal compreendido em relação ao que disse sobre a comunidade cigana”. Mais uma treta para enganar os adormecidos e desatentos. Por algum motivo deixou de se referir ao que designava como um problema.


O que tem unido os partidos da extrema-direita na Europa na mesma orientação, e também o adotado pelo Chega, para além do controle da imigração, juntam-se as guerras culturais, os direitos das minorias, a crise climática e os sacrifícios injustos que os governos insistem que serão necessários para combatê-la. Os partidos de extrema-direita numa atitude oportunista, tendo em vista a captação de votos, têm moderado algumas de suas visões mais condenáveis pelo eleitorado.


Catherine Fieschi, especialista em estudos sobre o populismo e extrema-direita e diretora desde setembro de 2019 do Global Policy Institute da Queen Mary University of London, “os partidos de extrema-direita parecem agora ser um voto razoável para muitas das pessoas que, em circunstâncias anteriores, teriam votado numa esquerda popular e protetora.”. No caso português não sei se terá sido assim, embora em regiões tradicionalmente de esquerda como no Alentejo os votos no Chega tenham conseguido o quarto lugar nas últimas eleições. Ainda segundo a mesma autora “O que a esquerda pode prometer é a proteção, mas a extrema-direita promete ordem e controle. Não pode necessariamente entregá-lo, mas fala mais aos medos individuais e culturais das pessoas.”


O partido personalizado em André Ventura teve uma evolução muito própria. Depois do 25 de abril quem teria tido ligações ou era conotado com o anterior regime estava sujeito a perseguição ideológica e sujeito a críticas “abrigaram-se” em partidos de direita como o PSD e o CDS/PP. Outros dispersaram-se por pequenos partidos da direita radical então surgidos, mas que nunca chegaram a ter representação parlamentar.


Nos órgãos partidários do partido Chega encontram-se alguns outros que vieram da direita radical que se opunham à democracia do 25 de Abril. Um deles foi Diogo Pacheco de Amorim que desempenha o cargo de Vogal da Direção nacional e Coordenador da Comissão Política Nacional do partido Chega tendo exercido o cargo de Vice-Presidente da Direção Nacional do partido.  


Diogo Pacheco de Amorim esteve no setor político do movimento que coordenou e promoveu centenas de atentados bombistas e assaltos a sedes de partidos e organizações de esquerda naqueles primeiros anos de liberdade de 1975, alguns dos quais resultaram em mortes, como foi o caso do padre Max e da estudante Maria de Lurdes, na Cumieira, em Vila Real. Pode ler aqui   ou ver o livro que relata estes factos.  


Quando em 2019 o partido Chega foi constituído nas eleições desse mesmo ano conseguiu o 7º lugar a nível nacional elegendo um deputado. Nas eleições de 2022 saltou para o 3º lugar conseguindo eleger doze deputados, contudo esta subida não corresponde ao número de militantes inscritos. A sua subida eleitoral terá sido reforçada por franjas que terão sido eleitores do PSD e do CDS/PP, entre outros pequenos partidos.


O Chega parece pretender balizar um partido populista de direita de cunho liberal-conservador para captar o maior número de descontentes de todo o espectro político e da abstenção. Para tal, capitalizou a retórica populista, explorando sentimentos de insatisfação e frustração entre certos segmentos da população. O discurso de André Ventura apela aos que sentem marginalizado ou desiludido com a política tradicional utilizando palavras tipo ‘soundbites’, isto é, frases curtas facilmente apreensíveis e recordáveis para fazer passar a sua mensagem que são repetidas até à exaustão e percetíveis por franjas da população politicamente iliterata.


Idêntico à de outros movimentos populistas em toda a Europa, o Chega pretende posicionar-se como antissistema, criticando os partidos e instituições políticas tradicionais que retrata como incapazes de abordar as preocupações dos cidadãos comuns, mas, ao mesmo tempo, tenta pressionar e captar os partidos da direita democrática para alianças. Contradição evidente, partido antissistema pretende fazer parte do sistema que diz reprovar. Procura que alguns eleitores percebam que estão votados ao abandono pelos que ele chama elite política.


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Em Portugal o aproveitamento demagógico do Chega vai também no sentido de mostrar que nos últimos anos tem havido um aumento da imigração. Facto que usa para apelar ao controlo de fronteiras e para aplicação da lei indo ao encontro da corrente de opinião que se sente um incómodo com esta tendência que é também alimentada por movimentos radicais como o “nativismo” e, em alguns casos, suprematistas e racistas. Estes grupos radicais de extrema-direita pretendem a aplicação de políticas de promoção dos interesses da população nativa de um país contra os dos imigrantes, incluindo o apoio a medidas de restrição à imigração. O nativismo é uma das expressões do nacionalismo segundo o qual estrangeiros nunca são bem recebidos numa sociedade, por os considerarem diferentes, por origem geográfica, religião ou qualquer outra característica socioeconómica.


 Também neste sentido o partido Chega ganhou apoios ao defender políticas de imigração mais rígidas, e uma postura mais dura em questões de crime e segurança. Ao mesmo tempo tem tirado proveito dos receios de diluição cultural e de perda de soberania nacional, enaltecendo a nostalgia de uma perceção de época de ouro da história portuguesa, o nosso passado histórico colonialista.


Apesar de crítico de Salazar e dizer que ideologias como o fascismo e o nazismo são uma “traição ao espírito do partido” André Ventura vai adotando linguagem e símbolos no seu discurso, talvez subconscientemente, que partilham dos radicais de direita como o “ar de família” da direita radical histórica, donde provêm slogans como “Deus, Pátria, Família e Trabalho” que proveem dos parentescos da família das ditaduras europeias do século XX, nomeadamente do Estado Novo.


É provável que o crescimento do Chega tenha também origem na utilização eficaz das redes sociais e os canais de comunicação digital para divulgar a sua mensagem e mobilizar apoiantes. Isso pode ter permitido que o partido alcançasse um público mais amplo, especialmente entre os eleitores mais jovens que são mais premiáveis a ideologias simbolicamente radicais e mais ativos online.


Quem neste momento está na disposição de votar no partido Chega, ou não sabe o que é a extrema-direita, nacionalista xenófoba e racista ideias que perfilhava quando foi criado, ou está desorientado com a narrativa de ser um partido que se interessa pelas pessoas. Talvez por presentemente tentar moderar o seu discurso, o que o seu líder Ventura não está a conseguir de forma clara. Para aproveitar a ingenuidade de alguns eleitores retirou do seu programa alguns pontos mais comprometedores das suas intensões.


Saindo Ventura, o partido sobreviverá? É uma incógnita!

domingo, 18 de junho de 2023

Em defesa do discurso de ódio?!

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Alguns autores de opinião e de comentário, mais preocupados com o estilo do que com as ideias que elaboram, provocam no leitor menos preparado alguma dificuldade em os perceber. Escrevo o que penso sem preocupações estilísticas, escrevo ao correr da pena, ou melhor, do teclado. Preocupo-me mais com as ideias que pretendo passar com o possível cuidado no português.


Hoje resolvi abordar um artigo de opinião do jornal Nascer do Sol de 9 de junho, da autoria de João Brás intitulado “Discurso do ódio é o que é dito por quem eu quero calar”.


Não resisti ao comentário, no exercício de liberdade de expressão que me é devido em democracia, porque começa assim: “Em Portugal a estrela televisiva Cristina Ferreira foi a primeira subscritora da petição para a “‘Criminalização de ódio nas redes sociais’. O que políticos com propensão para a vigilância do pensamento desconforme abraçaram com entusiasmo…”


O autor do artigo mostra evidente azedume em relação à referida petição. O autor pode ser crítico de Cristina Ferreira, e até pode não gostar da senhora pelo mais vários motivos, assim como eu perfilho o mesmo sentimento. Sobre aquela senhora já escrevi textos neste blogue, que pode ver aqui, e aqui, mas, daí sair a defender com toda a gana a não limitação ao discurso de ódio vai grande distância.


A petição resultou no “Projeto de Resolução n.º 693/XV-1.ª - Medidas para combate ao discurso de ódio na internet” de 11 de maio de 2022 apresentado pelo grupo parlamentar do Partido Comunista Português e proposto por um grupo de deputados daquele partido.  Foi aprovado na generalidade em 2023-06-02 na Reunião Plenária n.º 136 com os votos contra o CH, abstenção do PS e IL e favor: PSD, PCP, BE.


Para me explicar e para que seja claro na minha pretensão de comentar o que escreve o autor do artigo, peço alguma paciência aos potenciais leitores pela extensão do texto, mas terá mesmo de ser.


Para defenderem os seus pontos de vista e sustentarem as suas opiniões, é corrente alguns autores procurarem argumentos baseados em correntes filosóficas e ideológicas que professam, ou em textos mais ou menos complexos por vezes impercetíveis apenas por eruditos e que são passíveis de interpretações contraditórias.


Os que têm as mesmas opiniões defendem-nas e defendem-se uns aos outros, embora por caminhos argumentativos diferentes. A direita, e sobretudo a extrema-direita, é useira e vezeira nisso, defende com toda a gana toda a liberdade que a democracia lhes possibilita, mas quando um dia chegam ao poder é a chuva de críticas sobre a tal dita liberdade.  Quando estes mesmos são os visados e o discurso de ódio lhes toca e ficam a braços com acusações torpes e ofensas ao seu bom nome e dignidade, a liberdade de expressão ilimitada que defendem é logo posta em causa. Elaboram discursos com propostas para se limitarem esses abusos e, perante tal libertinagem da expressão de pensamento, que defendiam/defendem colocam-se em bicos dos pés em prol da criminalização de tais discursos ofensivos.


Pela leitura do artigo de opinião de João Brás, pareceu-me ser este motivado por a proposta ter vindo do grupo parlamentar do PCP, comprovado pela referência que faz quando escreve que “Esta prática era bem conhecida no país dos sovietes e não só”, e que “No esplendor da URSS comités de camaradas controlavam os desvios burgueses”. Completa o seu argumento com “Designar os que nos contestam e criticam, que acreditam em outros modos de pensar e viver como indignos de poderem pensar ou propor outros modos de vida e rotulá-los de portadores de ‘discurso de ódio’ é neoestalinismo puro e duro”. Não me recordo de ninguém de direita ou da extrema-direita ter lutado tanto e tão veementemente pela liberdade de expressão de pensamento, quando estão no poder ou quando em regimes autocráticos e de ditadura.


O ódio àquele partido deve ser tal que lhe dificultou a lucidez da sabedoria e do espírito. Não sou simpatizante do PCP e muito menos após as suas posições relativamente à invasão da Ucrânia, mas aquelas afirmações extemporâneas e desajustadas ao tema são no mínimo ridículas.


Talvez o autor, pensador de filosofia que se acha de mente aberta considere que as limitações à liberdade de expressão em tenebrosas ditaduras de direita sejam válidas para não porem em risco a coesão política da nação e de “Deus, Pátria, Família”.


O autor parece ignorar que a liberdade de expressão não é um direito absoluto, ela encontra-se nos limites na própria constituição e na grande maioria das vezes vem sendo tolhida em nome do princípio da dignidade da pessoa humana.


O radicalismo do autor em defesa da liberdade absoluta talvez tivesse como inspiração os argumentos de John Stuart Mill, um dos pensadores liberais mais influentes do século XIX, que aborda as questões em 1859 na sua obra “Sobre a Liberdade”.


Numa entrevista na revista LePoint de 2018  um advogado de extrema-esquerda que defende a extrema-direita este afirmava que “basicamente, se a extrema-direita defende a liberdade de expressão, é para poder ser abertamente racista. Eles odeiam judeus e querem poder dizer que negros e árabes são menos inteligentes, que todos eles têm de voltar para a sua terra, etc.”


A questão de fundo é sabermos se a liberdade de expressão de pensamento e os discursos de ódio não devem ser limitados, mas que devem ser absolutos como defendem os seus apologistas.  Afinal, deve haver limites à liberdade de expressão? Quando é para interesse próprio, não, quando é para interesse de outros, sim.


Um exemplo desta discussão verificou-se em tempo na Europa, quando o líder da extrema-direita francesa Jean Marie Le Pen questionava a existência de câmaras de gás na Segunda Guerra Mundial ao afirmar que que “les chambres à gaz utlisées par les nazis lors de la Deuxième Guerre mondiale avaient été «un détail de l'histoire». Je ne dis pas que les chambres à gaz n'ont pas existé. Je n'ai pas pu moi-même en voir. Je n'ai pas étudié spécialement la question. Mais je crois que c'est un point de détail de l'histoire de la Deuxième Guerre mondiale». En 1991, il avait été condamné, par la cour d'appel de Versailles, pour « banalisation de crimes contre l'humanité» et «consentement à l'horrible».


Traduzindo: “Jean-Marie Le Pen sustentou que as câmaras de gás usadas pelos nazis durante a Segunda Guerra Mundial foram «um detalhe da história». «Não estou a dizer que as câmaras de gás não existiam. Eu mesmo não consegui ver nenhuma. Não estudei especificamente a questão. Mas acho que é um detalhe na história da Segunda Guerra Mundial.» Em 1991, foi condenado pelo Tribunal de Apelação de Versalhes por «banalizar crimes contra a humanidade" e «consentir com o horrível». Um bom exemplo para a liberdade de expressão poder ser absoluta, nem que seja para negar factos, históricos ou não.


O autor João Brás parece desconhecer que combater o discurso de ódio não é limitar ou proibir a liberdade de expressão, mas evitar que o discurso de ódio assuma proporções perigosas, incluindo incitação à discriminação, hostilidade e à violência, o que é proibido pelo direito internacional.


Para o autor a liberdade de expressão deve ser a libertinagem discursiva nas redes sociais e nas manifestações com palavras de ordem que atentem contra a dignidade humana e o caráter das pessoas, como racismo primário e violência contra os que não pensam diferente. Este tipo de pontos de vista são também eles uma espécie de pensamento único.


No decorrer do seu discurso o autor revela ignorância sobre a definição de discurso de ódio e pergunta: “quem define o que é discurso de ódio... Augusto Santos Silva? As fraturantes do PS e do Bloco? Um comité de especialistas comentadores dos média do sistema? Um consórcio de jornalistas dependentes?”. Pergunta lamentável demonstrativa da ignorância e falta de informação sobre o tema.


Não satisfeito atira também as culpas para a União Europeia. Gostaria talvez que o conceito fosse definido por filósofos de meia tigela, sobretudo da extrema-direita. O autor terá com certeza uma definição, ou nenhuma, ou então a pergunta é de retórica e pretende atingir política e ideologicamente alguns setores que sejam inconvenientes para a “sua democracia”.


Deveria saber que o conceito de discurso de ódio há muito que está caracterizado por especialistas na área, que não por filósofos de duvidosa democracia. Permitam-me também exercer aqui o meu direito ao enxovalho.


O discurso de ódio, conceito há muito caracterizado por especialistas que estudam esta problemática, é uma negação dos valores de tolerância, inclusão, diversidade e da própria essência das normas e princípios de direitos humanos. Pode expor pessoas visadas à discriminação, ao abuso e à violência, mas também à exclusão social e económica.


Apesar do conceito ainda continuar em discussão, especialmente em relação à liberdade de opinião e expressão, não discriminação e igualdade, o Plano de Ação da ONU sobre Discurso de Ódio define discurso de ódio como... "qualquer tipo de comunicação na fala, escrita ou comportamento, que ataque ou use linguagem pejorativa ou discriminatória com referência a uma pessoa ou a um grupo com base em quem ela é, ou seja, com base em sua religião, etnia, nacionalidade, raça, cor, descendência, género ou outro fator de identidade. Incluem-se entre outros imagens, desenhos animados, memes, objetos, gestos e símbolos que podem ser disseminados offline ou online.


Há questões que não devem ser apenas discutidas no foro das questões filosóficas, por vezes meramente subjetivas, cuja complexidade leva ao desinteresse por parte de população. O debate sobre o discurso de ódio deve ser mais pragmático e menos filosófico e não se limitar apenas ao âmbito da limitação, ou não, desse tipo de discurso, sobretudo nas redes sociais.


O que está em causa e que o autor do citado artigo parece estar a defender é a não limitação de qualquer forma de expressão comunicativa mesmo a do ódio que, segundo ele, atenta contra a "suas" presumíveis liberdades democráticas e de expressão. Pela minha interpretação o autor elimina à partida quaisquer possíveis restrições à liberdade de expressão. Tudo o que não se permita é contra a liberdade, defende-se assim a libertinagem discursiva pela ofensa, perseguição e ódio.


O autor tenta confundir o leitor ao colocar no mesmo baralho cartas com naipes de jogos diferentes ao levantar questões como a de que “Nada como criminalizar os que não pensam como eu, e não só demonizá-los como silenciá-los com rótulos criminosos e patológicos…”. Parece-me que estará a fazer o mesmo como aqueles que critica porque não pensarão como ele sobre a limitação sobre o discurso de ódio.


Vejamos então: ameaças de atentado à vida de pessoas, incitamento ao terrorismo e à sua concretização, seja por motivos religiosos, políticos, ideológicos ou outros devem ser tolerados. Será isto? Para o autor, qualquer discurso, seja de que forma e conteúdo for, deve ser tolerado em nome da liberdade do que chama expressão de pensamento.


Escreve ainda o autor João Brás que “As palavras não são ações e as ideias, pensamentos e opiniões devem poder ser debatidos, criticados, é esse o melhor modo de não se infantilizarem as pessoas, provarmos que há modos de viver e pensar mais decentes e dignos que outros...”. Esta é uma visão quimérica da realidade. Será que aqueles que se exprimem inicialmente por palavras para perseguirem etnias, raças e ideologias não se irão exprimir depois por ações? O ódio produzido por nazis contra judeus deveria de ser tolerado e de livre expressão porque no início não eram ações. Os factos comprovam que as palavras conduziram a ações. Mas, por outro lado, quem se manifestava contra o partido nazi através da expressão de pensamento era perseguido.


Será este o ponto de vista do autor que, justificado pela livre expressão de pensamento, se possa fazer a apologia e incitamento ao crime? Se assim for poderemos então defender publicamente que se persigam etnias, se proceda ao genocídio, fazer apologia ao nazismo, mesmo que se calcule possa levar a ações da prática de crimes e chacinas consequências da liberdade de expressão.


Não estou em crer que o autor não ficaria indignado e que não se importaria se, tal como escreve, a critica e o debate fossem “o melhor modo de não infantilizar as pessoas”, na circunstância de alguém, que não estivesse de acordo com o seu pensamento e não aceitasse a argumentação, o debate e a critica, o perseguisse, insultasse, ameaçasse de morte, injuriasse, lançasse suspeições de atos não foram por ele praticados, publicasse mensagens de ódio e ameaça à sua família, etc... E, caso esses discursos se mantivessem, qual bulling político, tal como jovens têm sido vítimas por outros colegas e outros agentes do ataque pessoal. O que pensa o autor sobre isto? Nada. Deixa campo aberto para tudo em nome da “sua liberdade de expressão” sob qualquer forma.


Continuo a questionar o autor sobre o que faria se, neste blogue, o difamasse, ofendesse, ameaçasse, acusasse, difundisse factos a seu respeito através de imagens falsas que o atingissem no seu bom nome e reputação, etc.? Se a tal procedesse e o divulgasse publicamente decerto que me poria um processo em cima dos costados. Onde estaria então o meu direito à liberdade de expressão?


Talvez através de retóricas argumentativas me demovesse de tudo o que disse e ameacei e debatesse comigo o meu pensamento e a minha opinião e fizesse a devida crítica. E, claro, logo depois, eu teria deixado os meus propósitos de ódio e retiraria tudo o que disse e passaria a ser um menino bem-comportado.  


Imagine-se que numa breve exposição de ideias se encetava uma conversa com um intolerante defensor do discurso de ódio e que, após uma breve exposição de ideias, lhe perguntamos então qual é o seu contra-argumento, e o interlocutor responde: - O meu argumento? É este o meu argumento -  mostra a arma que transporta. Penso que Karl Popper terá contado algo semelhante, não tenho a certeza.


Quando alguém lança numa rede social frases ofensivas e imagens com montagens falsamente comprometedoras de outro(a) esse(a) tem toda a liberdade de o fazer, será isto que o autor defende que não deve ser limitado? Isto parece-me ser tendencialmente uma liberdade de expressão sem limites, uma acracia da expressão.


Penso ser da mais comum racionalidade democrática que não se pode ferir a intimidade, privacidade, honra e imagem de outra pessoa. Logo, não se pode usar o argumento da liberdade de expressão para ferir outros direitos garantidos.


Termino com citações de Karl Popper sobre a tolerância em “A Sociedade Aberta e os Seus Inimigos” onde afirma que “a tolerância ilimitada leva ao desaparecimento da tolerância. Se estendermos a tolerância ilimitada mesmo aos intolerantes, e se não estivermos preparados para defender a sociedade tolerante do assalto da intolerância, então, os tolerantes serão destruídos e a tolerância com eles”.


Numa nota de rodapé ao capítulo 7 (p. 289; V.1, tradução, 1973) em "A Sociedade Aberta e os Seus Inimigos", Karl Popper escreveu que “o ‘paradoxo da liberdade’- a liberdade total leva à supressão dos fracos pelos fortes – e o "paradoxo da tolerância" - a tolerância ilimitada conduz ao desaparecimento da tolerância.”


Há países que ainda permitem uma variedade muito grande de discursos e ações com diversos espectros ideológicos. As democracias devem restringir discursos precursores de intolerância e de ódio que incitem à ação. A questão é descobrir como restringir, banir ou punir apenas e arranjar a solução certa. É difícil para as democracias centrarem-se nos discursos e grupos e partidos realmente perigosos e deixar o campo de ação o mais amplo possível do que é permitido. Numa primeira fase, algo terá de ser feito.

sábado, 13 de maio de 2023

PSD: Acreditar ou não acreditar eis a questão

Oposição PSD Acreditar.png


Na peça “Hamlet” de Shakespeare o personagem principal cita o seguinte verso:


 



Ser ou não ser, eis a questão: será mais nobre


Em nosso espírito sofrer pedras e flechas


Com que a Fortuna, enfurecida, nos alveja,


Ou insurgir-nos contra um mar de provocações


E em luta pôr-lhes fim?



A oposição de direita desempenha um papel cujo objetivo é apenas o de tentar desapear o Governo em funções para, através de eleições antecipadas ou no tempo limite, o substituir por um outro que julgam venha a ter melhor desempenho e capacidade governativa. Em democracia é assim, sem o que esta não faria sentido.


Numa democracia os governos são expostos a críticas pelos partidos que se encontram na oposição e pela avaliação da opinião pública, muitas vezes condicionada pelos media e as suas agendas mediáticas e políticas.


Na nossa democracia representativa é possibilitada a discussão entre vários pontos de vista ideológicos sobre o tipo de governo, o que, consequentemente, pressupõe argumentos e contra-argumentos das partes envolvidas no processo, partidos na oposição e governo.


A forma parlamentar de governo prevê o direito de cada indivíduo ou grupo ter uma opinião diferente. Assim, todos os pontos de vista deveriam ser expressos e discutidos pelos diversos representantes do povo escolhidos por eleições livres tendo como objetivo principal o interesse da vida dos portugueses. Isto é o que deveria ser. Mas nem sempre o é.


A oposição tem a responsabilidade de dar atenção e observar o desenvolvimento das políticas do Governo e discuti-las criticamente perante o parlamento e o povo propondo alternativas. Mas assim não procede.


O grande desafio para a oposição é a necessidade de poder ser vista como credível neste papel de crítico. Para obter essa credibilidade deveria ser responsável, respeitada e unida como partido político para propor políticas alternativas relevantes que se manifestassem para o dia-a-dia das pessoas. Mas nada disto faz a oposição.


Luís Montenegro, líder do PSD, é o principal rosto da oposição ao Governo liderado por António Costa. O líder do PSD tem criticado duramente as políticas do executivo socialista, acusando-o de falta de ambição, de irresponsabilidade orçamental e de submissão aos interesses dos partidos à sua esquerda. Esta último argumento perdeu a validade terminado o prazo da chamada “geringonça”.


As oposições de extrema-esquerda (a líder do Bloco prefere "esquerda radical") apenas podem ter como ambição a recuperação de alguns votos perdidos nas últimas eleições, o que penso ser insanável. A sua oposição baseia-se no ataque, em reivindicações sucessivas. Passado um mês da tomada de posse do Governo o BE já o acusava de ser “fraco” e de estar “em desagregação”. Comprometiam-se em combater a extrema-direita e a direita radical, mas prece que tal não está a acontecer. Reivindicam em sucessivos momentos grevistas com argumentos que mais parecem uma espécie de cassete dando margem à direita e à extrema-direita. Tal não é atípico porque no passado aconteceu que as extremas-esquerdas ajudaram a abrir as portas do poder à direita.


Como líder da oposição Luís Montenegro desvaloriza e omite das suas narrativas os pontos fortes dos resultados do Governo incidindo apenas nos pontos fracos ou falhas relacionadas com casos marginais do executivo em consonância com os media que os amplifica. O intuito é simples e propositado, mostrar que faz oposição. É oposição pela oposição. É dizer mal só para dizer mal como arma para desgaste do Governo PS.


Montenegro enfrenta agora outro desafio para além da sua oposição ao Governo PS que tem a ver com problemas internos no seu partido que começam a vir à superfície.


A perceção das pessoas é a dificuldade que a liderança do PSD mostra em não estar a conseguir afirmar-se como poder alternativo e credível ao atual Governo. Esta dificuldade surge num cenário político marcado pela polarização e pela crispação ajudados pelos partidos da extrema-esquerda, sobretudo o BE, e da extrema-direita, o Chega.


A evidência da alguma recuperação económica conseguida pelo Governo de António Costa está em contradição com as afirmações de Montenegro quando diz que o Governo PS está a conduzir o país para o declínio e que só uma mudança de rumo pode garantir um futuro melhor para os portugueses. Mas que rumo e que mudança?


Quando há números que mostram o bom desempenho do Governo em algumas áreas procuram-se argumentos e números retirados às estatísticas que são tratados para contradizer os bons resultados quando estes são evidentes. Isto faz-me recordar um livro de Nogueira Ramos “Torturem os Números que eles Confessam” onde denuncia o mau uso das estatísticas e da sua interpretação nociva. É uma forma perniciosa de servir objetivamente algum interesse ou uma visão facciosa da realidade social.


Na dita mudança de rumo que Montenegro propõe é que está a dúvida. Não basta dizer que é preciso uma mudança de rumo, complementarmente é necessário também definir qual será esse novo rumo, em que direção e em que sentido a oposição seguirá como alternativa. Quando a ponte de comando o comandante de um navio diz que vai proceder a uma mudança de rumo este deve especificar ao piloto as novas orientações, porque se tal não for indicado, aquele ficará desorientado por desconhecer o rumo e coloca em risco a embarcação.  


Um eleitor que neste momento pretendesse votar no PSD em alternativa ao PS não sabe se o deverá fazer porque desconhece o que o seu substituto terá para lhe oferecer a não ser as críticas ocasionais que faz ao executivo em funções e ao seu líder.


A oposição voa continuamente na TAP porque não têm mais nada em concreto para fazer oposição. Mas a TAP, embora seja um assunto importante que se deve tratar e resolver, não põe pão na mesa dos portugueses como alguns dizem.


Luís Montenegro para ser coerente com as críticas que faz à atuação do Governo deveria ao mesmo tempo sugerir propostas que, segundo ele, responderia melhor aos mesmos problemas. Limita-se a retóricas críticas sobre o que faz o Governo PS e António Costa, debruçando-se sobre casos avulso, alguns com alguma importância, outros irrelevantes, para quem pretenda escolher nova governação num futuro mais ou menos próximo.


Faz-se oposição comentando-se factos marginais, pessoalizando-se políticas, relevando-se casos que não concorrem para a mudança das políticas que se criticam, porque não as há. O líder do PSD faz uma oposição pessoalizada e politicamente irrelevante sem propostas objetivas.  Desta forma quem poderá confiar, acreditar, numa direita sem projeto alternativo credível?


Em dado momento era notória a ambiguidade que Luís Montenegro mostrou em relação ao não afastamento do partido Chega. Ultimamente talvez se tenha diluído um pouco devido à “nega” que lhe deu em relação ao projeto de resolução em que André Ventura, em modo oportunista e para ter visibilidade, recomendava a saída de João Galamba acusando-o de “imaturidade e de teatro político”. Claro que a rejeição de tal proposta por Luís Montenegro deu lugar a mais um “ataque” populista André Ventura ao responder que “o líder do PSD demonstra incapacidade de fazer oposição” e que “é por isso que nas sondagens 40% das pessoas dizem que é o Chega a liderar a oposição”.


O Chega de André Ventura, juntamente com a extrema-esquerda, têm sido fatores contributivos para a polarização crescente que é promovida por aqueles que se favorecem dela. Políticos, partidos e grupos mais extremistas alimentam-se do descontentamento e da intolerância para ganhar mais apoio para as suas ideias. Afinal, medidas extremas têm maior chance de aceitação quando se vê o outro grupo como um inimigo perigoso que é preciso eliminar, ao invés de um concorrente no debate.


Cada um segue o seu caminho, mas Luís Montenegro mostra que não está a conseguir capitalizar a oposição pela positiva. Contudo há quem queira o Chega e o PSD juntos, dizem para unir a direita, e outros que consideram esta ser uma união incompatível e improvável.


André Ventura não diz o que fará se ganhar eleições, embora o saibamos. Luís Montenegro também não diz o que fará, e como. O argumento para não dizer o que fará é uma espécie de tabu que se esconde ao dizer que não é ele,  é o Governo que deve governar e não a oposição. Pela sua lógica o que o eleitor deve fazer é votar no escuro e acreditar no que Montenegro não diz.


A oposição feita por Luís Montenegro é um facto alternativo. É um facto que não existe, que não é convincente, é contraditório, resultante de manobras de diversão.


Se analisarmos as afirmações que Montenegro tem proferido elas são demonstrativas do balancé da sua oposição:



  1. Quando se candidatou à liderança do PSD afiançava estar mais preocupado em "dar respostas às necessidades das pessoas" do que em debates "ideológicos ou crises existenciais". Atualmente dedica-se a comentar e a fazer oposições através de crises existenciais.

  2. Ao mesmo tempo que diz estar pronto para governar, por outro não quer eleições antecipadas.

  3. Diz que “não pedimos eleições, mas também não as recusaremos”.

  4. Montenegro afirma que o PSD é a alternativa ao Governo e que está preparado para estar quatro anos na oposição, mas não diz o que fará se lá chegar. Se o disser só quando estiver no Governo, então ao pensarmos votar no PSD devemos ficar alerta.

  5. Faz comentários sobre o que se passa na comissão de inquérito à TAP em vez de se preocupar em propostas para "dar respostas às necessidades das pessoas". A comissão de inquérito à TAP passou a ser um local de intrigas e de assuntos pessoalizados e ainda existe na opinião pública porque interessa ao media.

  6. O PS garante que Luís Montenegro está a demonstrar “incapacidade em assumir-se como alternativa”. Pela oposição que tem feito até ao momento leva-nos a creditar que sim.

  7. Luís Montenegro preocupa-se em limpar do seu discurso os bons resultados da governação as respostas que têm sido dadas a vários problemas.


O que a democracia, nem ninguém precisa é que o PSD se volte para o populismo que vive de inverdades, de meias-verdades, de mentiras e de factos alternativos, ou verdades alternativas, como se queira. Assim vai ser difícil “Acreditar” que é o slogan do PSD.