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domingo, 20 de julho de 2025

Os grunhidos

Chega-redes sociais-grunhidos.png


O artigo de opinião de Pacheco Pereira publicado no jornal Público em 12 de julho mostra, claramente, a falta de educação e a estupidez do que se escreve, acrescida de ignorância, que prolifera neste país ao que acresce um absoluto sectarismo.


O ambiente político em Portugal tem assistido a uma polarização cada vez mais acentuada, refletida tanto no discurso público quanto no espaço digital. As redes sociais tornaram-se palco frequente de debates inflamados e, por vezes, de ataques pessoais que extravasam todos os limites do respeito democrático. Exemplos recentes ilustram como a retórica agressiva e as insinuações depreciativas têm sido usadas para minar adversários e alimentar divisões profundas dentro da sociedade.


É uma mostra da estupidez dos que, coitadinhos, não sabendo argumentar com “classe” e racionalidade agarram-se a armas vocabulares sem qualquer critério.  Não pretendo com isto proceder à em defesa do autor do artigo, do qual não pretendo ser procurador, que foi escrito acerca do programa “o Princípio da Incerteza” onde ele interveio.  


Quem faz comentários como aqueles que foram publicados mostra que, supostamente, serão simpatizantes, ou quiçá, militantes que, afinal, servem para descredibilizar ainda mais o próprio partido Chega, tal como tem feito a deputada deste partido Rita Matias. Podemos questionar se terá idoneidade suficiente para ser deputada. Quando abre a boca é como estivesse numa rede social a dialogar com os da sua laia a mentir descaradamente. Quem tem as responsabilidades que lhes foram dadas pelos eleitores e mente em pleno Parlamento devia ser sancionado. Assim, transcrevo do referido artigo os nomes e as frases desses idiotas que escreveram comentários no Facebook da CNN.


O Chega tem verificou que lhe é útil fazer desencadear todo o racismo e preconceito que, no fundo, existia na sociedade portuguesa. Era uma panela de pressão à espera de ter um instrumento que lhe permitisse ficar “à vontadinha”. Tomar uma posição contra a imigração excessiva e abusiva que se permitiu e começar a fazer o seu controle e alterar as leis que tal possibilitam, que nada têm a ver com racismo nem com xenofobia. O problema do Chega é que não se fica por aí.


Aqui vão as mensagens mencionadas no referido artigo que mostram que é uma matilha composta, como afirmei no início inculta, ignorante, estúpida, idiota, que se arrastam pelas redes sociais com grunhidos incompreensíveis.


Segue a transcrição dos grunhidos dos personagens redatores das mensagens na rede social Facebook da CNN sem qualquer correção ortográfica.


 A mama e o tacho


Carlos Da Silva
Mais um que pensa que sabe tudo
Acho que estam todos com medo de perder a mama


Carlos Pereira
Outro xuxalista com medo de se acabar a mama


Jose Figueira Dos Santos
Mais um chulo do sistema sempre a mamar a 50 anos


Daniel Calôba
Todo povo que é contra o CHEGA so tenho a dizer 2 coisas , ou anda a a viver as custas dos outros e teem medo da mama acabar ou querem arruinar Portugal , pessoas que nao teem um palmo de testa que nao veem que este Pais esta a ficar perigoso para nossos filhos e netos , cultivem se pessoas


António Silva
O Pacheco mama no sistema e está a ver a teta a acabar se o chega governar a mama vai acabar por isso viva o chega viva ventura viva Portugal sempre


Jose Cardoso
Estavas habituado a mama valia mais estares calado.devias estar na toca


Ribeiro Ribeiro
Vergonha é esse gajo a mamar durante 50anos a conta do povo sem fazer nada


Carlos Calvo
Mais um que andou somente a vida toda a encher o NALGUEIRO á costa do Zé Tuga. Parece que os tachos estão a ficar menores e as tampas a desaparecer


Antonio Margarido
Não consegues ser o último dos últimos.És um inútil faccioso e chupista do sistema.


Xéxé e dinossaúrio


Jose Carlos Conde
Este PP está senil!


Vasco Pina Cabral
PP já não e ouvido em lado nenhum...apenas um caquético velho do Restelo!


Fatimamedeiros Morais
Eu não acredito que estes velhos ultrapassados pela mentalidade tacanha, ainda venham dar palpites.chulos do sistema.


Filipe Silva
Pacheco Pereira, todos temos um tempo, e o teu já passou, estás senil, trata-se, e abstém-te de opinar, a tua geração foi a mais corrupta da democracia.


Mario Pestana
Cala-te velho do sistema,a tua reforma tambem devia ser cortada,para pagar os subsidios aos emigrantes


Charles AP
Este velho a apoiar a estrangeirada.


A nulificação do outro


António Silva
Mais um parasita à procura de poiso…..nunca foi nem fez nada na vida a não ser viver à conta dos papos que manda…agora que começa a ver o cerco apertar está à procura de alguém que acolha…(à esquerda pois claro)


Mario Barreto
Não vales um cigarro


Vitor Almeida
Viveu como um Lord, apesar de pertencer há ocmlp,MRPP, depois procurou o seu sustento, agora destila ódio e protagonismo, qualquer dia cândidate-se a presidente da República


Armando Saramago
Historiador de marretas !


Victor Mendes
Gostaria de saber quanto este senhor recebeu do estado para ter o projeto efemera


A censura


Miguel Ribeiro
Olá. Eu acho vergonhoso certas alarvidades que este senhor Pacheco Pereira brucifera. Não percebo como é que é possível tê-lo como comentador, há semelhança de muitos outros. O nosso dinheiro chega para todos?


Emilia Bastos
Para dizeres umas nugices na TV.


Carlos Silva
Pacheco zurra para outro lado que já não te ouço


Eugénio Assis Alberto
Outro que só está de bem com ele próprio.
Renovem os "comentadeiros". Este já está podre...


Teresa Ferreira
Um ditador comuna disfarçado ,nem deviam ter direito a comentar essa corja ,depois de tudo o que fizeram ao país e aos portugueses,,,sao uns ridiculos


O pseudotudo


Francisco Santos
Eh mano, vai lá limpar o pó dos.teus livros, nao chateies a gente
Pacheco Pereira mais um chulo da política que agora vem dar uma de historiador. Vai nanar, tu e a CNN Portugal.


Vítor Timóteo
Vergonha.,foi teres desrrtado...abandonado os teus homens....e teres teabalhado com o inimigo da altura contta o teu povo


Burro


Jose António Pereira
Fostes sempre um tinhoso ,e não mudas nada!quando foi feita a distribuição da inteligência faltas-te à formatura. ÉS um triste.


Rui Loução
Deviam de ouvir este senhor.
Esse escroque não vale meio tostão furado. Não lhe passei credêcial para dizer que me vem defender
Vá dar banho ao cão


Comunista


Jose Goncalves Ferreira
Pois e um comunistas a cara dele mostra tudo


Henrique Carvalho
CNN tem um padrão nos seus comentadores estão senis ou são comunas. Só falta irem buscar a outra louca que está na SIC. O NOW vai limpar as audiência.


Manuel Gomes
Qur quer esse Cömuna ? Chega sempre Chega


Alexandre Branco
Assim se vê o caráter das pessoas  um Marxista de extrema esquerda que virou "Democrata" a dizer mal da Direita como que a envergonhar o seu passado moralista de vão de escada 


Jose Lima Oliveira
Este Pacheco é comunista está com pena das criancinhas que as leve pra casa dele


Puro insulto


Ligia Fernandes
Pacheco Pereira vai lamber sabão! Ora dá uma no cravo outra na ferradura.


Lelo Alberto Nunes
Se este porco quiser pode ligar-me terei muito gosto em compará-la publicamente com a dele .


Paulo Brito
Este palhaço e os da mentalidade dele deveriam todos ser enviados para Sibéria...


Jorge Nogueira
Pacheco Pereira era so quem te desse com um gato morto nos cornos ate ele miar corrupto , esquerdalha


Vitor Gaspar Lopes
Sanguessuga


Jose Manuel Nunes
Mete menos tabaco


Orlando Ricardo Prata Leal
Quando apalparem uma das tuas netas na primária, assobias para o lado como se nada acontece&se


Jonas Alexandre
Porcoooooooooooooooooooooooooooossssssss este pacheco pereira e este elenco no estudio é so porcoooooooooooooooooooossssssssssssssssssssss


Mmgf Freitas
Este Pacheco que va comer bolota p o alentejo

sábado, 19 de julho de 2025

O mundo é dos brutos - um artigo de opinião de Pacheco Pereira



O mundo é dos brutos — a ascensão da violência e a queda da empatia


Um artigo de Pacheco Pereira









A “civilização” como a conhecemos no mundo democrático ocidental está a acabar diante dos nossos olhos.







Qualquer pessoa que conheça história sabe que aquilo a que chamamos “civilização” é muito mais frágil do que a crueldade, a violência, a prepotência, a vingança, o poder absoluto e brutal. Não é preciso sequer escolher grandes períodos da história, a “civilização” é uma raridade, acontece por pequenos períodos, torna a vida dos que vivem nesses tempos melhor e depois esgota-se e acaba. Não me interessa fazer grandes exercícios analíticos sobre qualquer das palavras que estou a usar, seja civilização, seja barbárie, toda a gente sabe a diferença entre um mundo, imperfeito que seja, desigual, muitas vezes injusto, mas onde as pessoas são senhoras do seu destino pelo voto, vivem no primado da lei, têm liberdade religiosa, acedem a condições mínimas de existência. Para contrariar o meu argumento podem vir com mil exemplos de imperfeição, de injustiça, de exclusão, mas o que sobra é melhor do que um mundo com pena de morte, tortura, censura, ausência de direitos, em que todos são indefesos face aos mais fortes.


A “civilização” como a conhecemos no mundo democrático ocidental está a acabar, diante dos nossos olhos, pela ascensão da brutalidade, da educação dos jovens pela distracção, da ignorância e do valor da força, do individualismo agressivo, do culto da ignorância e do pseudo-igualitarismo das redes sociais. A violência torna-se a regra nas relações como “outro” e o “outro” é fácil de encontrar nas nossas ruas, os imigrantes.


Não adianta virem-me dar lições de que este catastrofismo civilizacional é recorrente em certos momentos da história cultural, o que é verdade. Mas também é verdade que a catástrofe já ocorreu várias vezes, uma das quais nos anos 20-30 do século passado. O mundo que filósofos como Comte entendiam ter entrado numa senda de “progresso”, com a revolução técnico-científica do final do século XIX, entrou na barbárie da I e da II Guerra com milhões de mortos e anos de brutalidade em vários países “civilizados” da Europa e na URSS.


Há muitas explicações socioeconómicas para esta crise civilizacional, muito sérias, mas a guerra cultural dos nossos dias tem um papel fundamental. O culto imberbe pela modernidade, assente num deslumbramento tecnológico que oculta muita preguiça e manipulação, em que meia dúzia de gestos num telemóvel, explorando três ou quatro funções simples, passam por um saber semelhante ao falar português sem um erro ortográfico a cada palavra, a arrogância de dar opiniões sobre coisas que não se viram, ouviram e leram — tudo isto ajuda a erodir a frágil democracia porque “molda” a cabeça. É o que já cá está e o que vem aí.


Basta ver o X para se perceber o impacto em quem vive dependurado nas redes do que lá encontra: cenas de violência em que velhos, mulheres e brancos são atacados por imigrantes, em que mulheres de burka reclamam a conversão da Europa ao Islão, cenas de pancadaria para “punir” um ladrão ou um molestador apanhado em flagrante por “cidadãos verdadeiros”, acidentes de automóvel com pancadaria, uma sucessão elogiosa de enormes explosões na Síria, no Líbano, em Gaza, com origem nos “amigos de Israel”, a generalização da palavra “traidor” para designar quem não participa da fúria anti-imigrante e não quer participar na chamada “remigração” (e porque não organizar uns pogroms?), etc., etc.


No Instagram e no TikTok, um bom exemplo da platitude intelectual dos nossos dias é a classificação de “influenciadores”. Uma pequena multidão compete por essa “influência” nas redes sociais, alguns/algumas com alguma imaginação e esperteza, mas, por regra, com uma absoluta indigência intelectual, gigantesca ignorância, muito mau carácter, e truques de ganância que é, nos nossos dias, o principal motivador dinâmico do comportamento. Esses “influenciadores”, na sua maioria do sexo feminino, actuam para um público adolescente, também na sua maioria feminino, mas atingindo um público muito mais vasto e para além do nível etário da adolescência, embora, como se saiba, nos dias de hoje é-se jovem até aos 35 anos.


Alguns/algumas já cometeram crimes, desde violência sobre crianças (a história do banho de água fria para calar os berros da filha) ao atropelamento e fuga de um “criador de conteúdos”, forcado e apoiante do Chega. Ambos gabaram-se destes feitos, porque tudo é bom para terem os célebres 15 minutos de fama, e acabaram em tribunal. O facto de terem feito estas violências sem qualquer hesitação moral significa que olharam para elas como olham milhares de pessoas cuja principal preocupação, quando assistem a uma qualquer violência sobre os mais fracos, é puxar do telemóvel e filmar, para terem material” para colocar nas redes sociais, e não ajudar.




Foto


Von Reyneken Vosse (1550) DR


No plano político, nestes “influenciadores”, predominam os homens e o Chega. Produzem uns comentários indigentes, mas sublinhando os temas da propaganda do partido, e fazem quase de imediato uns pequenos filmes em que qualquer das personagens da direita radical que tenha um debate com alguém à esquerda “arrasa”, “esmaga”, com imagem a condizer. As redes sociais, o YouTube, o Instagram, o TikTok estão cheios destes produtos, que funcionam como multiplicadores e são consumidos por um público jovem e adulto, o jovem mais atraído pela distracção que dá o confronto, quem “ganha” e quem “perde”, o adulto procurando um espelho daquilo que já pensa.


Este submundo é hoje o mundo. Sem princípios, sem saber, sem mediação, com apologia da força, elogio da violência e hostilidade aos mais fracos. Já estão a ganhar e, se os justos não lhes respondem alto e bom som, ainda vai ser pior.


O autor é colunista do PÚBLICO





 

domingo, 23 de fevereiro de 2025

O perigo não vem só da Rússia vem também de Trump

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António Costa alertava no Financial Times que a “a Rússia deve ser encarada como ameaça global”, para acrescentar que a Europa deve negociar uma nova arquitetura de segurança que encare Moscovo como “uma ameaça não apenas para a Ucrânia”, escreve o Público no dia 18 do corrente. Talvez omitisse os EUA de Trump por motivos diplomáticos. Mas, o perigo não vem só da Russia como diz Costa.


O presidente dos EUA gostou da declaração de Vladimir Putin quando disse que, após o seu regresso à Casa Branca, a Europa “ficará aos pés de seu mestre”. A publicação da CNBC, que incluía a citação correspondente, foi republicada por Trump na sua página da rede social, como se enfatizasse que tudo será exatamente como o presidente russo disse.


Notícias, artigos e comentários sobre negociações de paz para a terminar com guerra na Ucrânia na linha definida por Donald Trump são vários e contraditórios. Afirmações, declarações e contradições de Trump aparecem diariamente nos media de vários países que já lhe perdemos a conta.


Afinal o que devemos entender por negociações para a paz segundo a ciência política? É um tipo específico de negociação tendo em vista acabar com conflitos, guerras e estabelecer a paz a longo prazo, abordar as causas subjacentes do conflito e criar acordos que previnam violência futura. Normalmente envolve países, governos ou até fações envolvidas em conflitos armados que visam a paz, a estabilidade e a reconstrução. Assim, têm como objetivo cessar as hostilidades. Em síntese, as negociações de paz visam especificamente a resolução de conflitos e o estabelecimento de uma paz duradoura.


No conflito da Ucrânia as partes diretamente envolvida foram este país e, até ao momento, a Rússia que invadiu aquele país soberano, embora Putin o negue e agora também Trump usando argumentos falaciosos. A União Europeia, o Reino Unido e os Estados Unidos da América auxiliaram a Ucrânia, desde o início da invasão, com apoio em armamento e recursos financeiros. Com a invasão da Ucrânia o que o autocrata/ditador da Rússia pretendia era instalar na Ucrânia um governo fiel a Moscovo.


Trump, na sua rede social Truth Social de desinformação que, para ele, passou a ser palavra proibida, chamou a Zelensky um “comediante modestamente bem-sucedido”. Trump como os da sua equipa têm memória curta. Ele deve recordar-se que começou a tornar-se conhecido como proprietário dos concursos de beleza Miss Universo, Miss EUA e Miss Teen EUA e alcançou maior projeção como criador e apresentador do reality show “O Aprendiz”, do qual fez parte entre 2004 e 2015. O programa mostrava executivos competindo por uma posição numa das empresas do apresentador e produtor do programa que era Donald Trump. Assim ele foi também uma espécie de comediante num show televisivo que lhe rendeu muito dinheiro.


Mais grave ainda são as mentiras que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, disse na sua rede social ao afirmar que o presidente ucraniano é “um ditador sem eleições”, o mesmo que já tinha sido afirmado por Putin e voltou a acusar aparentemente a Ucrânia de ser responsável pela guerra com a Rússia numa onda de alegações sem fundamento e desconhecedor do tema, talvez para agradar ao seu amigo Putin. Putin também já tinha acusado a Ucrânia de ter dado início à guerra. O facto é que a Rússia lançou uma invasão em grande escala na Ucrânia em fevereiro de 2022, e já tinha anexado a Crimeia em 2014. “Foram eles que começaram a guerra em 2014”, disse o presidente russo, Vladimir Putin, numa entrevista ao apresentador de talk show americnao Tucker Carlson em fevereiro de 2024.


O que não há dúvidas é que, em 22 de fevereiro de 2022, a Rússia começou a guerra invadindo a Ucrânia. As tropas russas invadiram a fronteira com o objetivo explícito de derrubar o governo de Zelensky em Kiev que é pró-ocidente com o objetivo de poder de lá colocar um presidente fiel a Moscovo.


Neste segundo mandato Donald Trump tem adotado uma abordagem diferente em relação à ajuda à Ucrânia. Condicionou a ajuda dos EUA à Ucrânia em troca de direitos sobre recursos minerais, de terras raras, que são essenciais para a indústria eletrónica. Trump pretende bloquear verbas e o auxílio militar à Ucrânia. Apesar de ter tomado


Donald Trump tomou uma postura no sentido de iniciar conversações para a paz na Ucrânia, mas as negociações são de facto complexas e deveria envolver várias partes interessadas. Desde o início da invasão russa em 2022 houve várias tentativas de negociação que falharam. Recentemente houve vários anúncios sobre um telefonema de Trump com o presidente russo, Vladimir Putin, anunciando que as negociações de paz começariam imediatamente. Mais recentemente, houve um novo impulso diplomático com a participação de altos responsáveis dos EUA e da Rússia em reuniões na Arábia Saudita sem, no entanto, a Ucrânia não ter sido convidada para essas reuniões, o que gerou críticas de Zelensky que expressou a sua insatisfação com a exclusão da Ucrânia dessas negociações e afirmou que Kiev não reconhecerá qualquer acordo alcançado sem sua participação.


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As ações de Donald Trump de tentar negociar a paz na Ucrânia, sem a presença das outras partes interessadas e propondo negociações diretas com Vladimir Putin, tem gerado controvérsias. Este tipo de atitude de Trump pode levantar desconfiança já que se desconhece o conteúdo da conversa telefónica com Putin e porque a sua relação com ele parece ser comprometedora tendo em conta relações políticas e de amizade com ele próprio já tinha expressado anteriormente. Após a tomada de posse para o segundo mandato de Trump, Putin anunciou com entusiasmo que “os líderes europeus ficarão do lado do mestre e acabarão por abanar a cauda carinhosamente”.


Mas há mais, o presidente russo, Vladimir Putin, elogiou o seu homólogo Donald Trump numa entrevista publicada no domingo 2/2/2025, dizendo que Trump em breve “restaurará a ordem” na Europa.


A comparação de Trump com Putin aproxima-se porque ele proíbe uma agência noticias de entrar na Casa Branca. Recentemente a administração Trump proibiu a entrada de jornalistas da agência de notícias Associated Press (AP) na Casa Branca e no Air Force One. Esta decisão foi tomada porque a AP continuou a usar o termo “Golfo do México” em vez de “Golfo da América”, conforme exigido por uma ordem executiva de Trump. A Casa Branca defendeu a sua decisão, afirmando que a recusa da AP em cumprir a mudança de nome era um compromisso com a desinformação. A medida foi amplamente criticada por várias organizações de media e é vista como uma violação da Primeira Emenda. Ridículos, decisão de Trump, a proibição e os motivos.


Os EUA estão a caminho duma autocracia, nome bonito para ditadura, e ainda não sabem.


 

domingo, 16 de fevereiro de 2025

Discurso de Vance em Munique: Críticas à Democracia Europeia

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Ontem na Conferência de Segurança de Munique é um evento anual onde líderes mundiais, ministros e outros decisores políticos se reúnem para debater os principais desafios globais. Este ano de 2025 teve como objetivo abordar questões urgentes de segurança global, incluindo a guerra em curso na Ucrânia, a crise em Gaza e a dinâmica de mudança das alianças internacionais. Serviu de plataforma para o diálogo e a cooperação de alto nível entre líderes mundiais, decisores políticos e peritos.


O discurso de JD Vance em Munique parece ter revelado o colapso da aliança transatlântica. Para o The Guardian, o discurso foi “cheio de hipocrisia risível, retratos distorcidos da democracia europeia e insensibilidade em relação ao trauma da Europa com o fascismo”.


JD Vance, o vice-presidente dos EUA, fez um discurso na conferência onde criticou a abordagem dos governos europeus à democracia. Vance criticou a abordagem dos governos europeus à democracia e disse temer que a liberdade de expressão no continente esteja a “recuar” criticou os líderes europeus e a democracia da U.E. porque não alinharem com as extremas-direitas e radicais em vez de se focar que estava em discussão que eram para a paz na Ucrânia.


Ele expressou preocupações sobre a liberdade de expressão na Europa, afirmando que muitos americanos veem na Europa “interesses entrincheirados” que se escondem atrás de termos como desinformação para suprimir pontos de vista alternativos. Fez críticas à abordagem dos países europeus à democracia e à liberdade de expressão e manifestou preocupação com o recuo da liberdade de expressão na Europa e criticou os governos europeus por lidarem com a imigração e os valores democráticos


Vance também mencionou que a maior ameaça à Europa não é externa, como a Rússia ou a China, mas sim interna, com a Europa se afastando de alguns de seus valores fundamentais compartilhados com os Estados Unidos.


Está mais do que provado que o que ele denomina pontos de vista alternativos, isto é, verdades não evidenciadas por factos, muito ao gosto de Donald Trump, como se verificou do seu anterior mandato. dar algum sentido à distopia desorientadora da pós-verdade que parece ter envolvido os Estados Unidos desde o primeiro mandato mantendo-se, agora novamente com Donald Trump na presidência americana.


A propósito do que eles chamam “pontos de vista alternativos” ou “factos alternativos” como em 2017 os seus conselheiros de Donlad Trump (ou acólitos)?) contestavam a realidade como já escrevi noutro texto. Um deles, “Kellyanne Conway, diretora de campanha presidencial de Donald Trump em 2016 e conselheira do presidente até agosto de 2020, alegava, na altura, a existência de haver “factos alternativos” para  ajudar Sean Spicer, assessor político e Secretário de Imprensa e Diretor de Comunicações interino do presidente Donald Trump que, no mesmo ano, usou seu primeiro encontro na Casa Branca para protestar contra os jornalistas devido ao que ele incorretamente chamou “reportagem deliberadamente falsa” sobre a posse de Trump na altura”.


Ainda sobre a liberdade de expressão em perigo cito as palavras de


Mas regressemos ao discurso de Vance, uma hipócrita “lição” de democracia como escreveu hoje no Público Andreia Sanches, mas, para mim, foi claramente desagregador duma aliança e, ao mesmo tempo, da democracia europeia.


Andreia Sanches escreveu ainda “Vance disse que a Europa está a suprimir a liberdade de expressão e a ignorar quem pensa diferente. Estamos a falar do vice de um país onde universidades e variadíssimas organizações financiadas pelo Estado estão, de há semanas a esta parte, a expurgar dos seus documentos oficiais palavras que se tornaram proibidas com a Administração Trump, como "diversidade", "desinformação", "activismo", "racismo" ou "género"”.


Vance afirmou que “enquanto o governo Trump está muito preocupado com a segurança europeia e acredita que podemos chegar a um acordo razoável entre a Rússia e a Ucrânia – e também acreditamos que é importante nos próximos anos que a Europa se esforce em grande escala para fornecer sua própria defesa – a ameaça que mais me preocupa em relação à Europa não é a Rússia, não é a China, não é nenhum outro ator externo. O que me preocupa é a ameaça interna. O recuo da Europa em relação a alguns dos seus valores mais fundamentais: valores partilhados com os Estados Unidos da América.”


Que ameaça interna na Europa preocupa Vance? Penso ser a democracia. O descaramento deste senhor é tal que afirmou que “Fiquei impressionado com o facto de um antigo comissário europeu ter ido recentemente à televisão e parecer satisfeito com o facto de o Governo romeno ter acabado de anular uma eleição inteira. Ele alertou que, se as coisas não saírem conforme o planejado, a mesma coisa pode acontecer na Alemanha também.” Tem memória curta porque apagou a cena que o seu líder Trump fez quando perdeu as eleições nos EUA e promoveu indiretamente o assalto ao Capitólio.


Sobre os principais partidos democratas não trabalharem com a extrema-direita, referindo-se à Alemanha, Vance defendeu que “não há espaço” (aplicou o termo firewalls-aplicar uma política de segurança a um determinado ponto, geralmente associados a redes) para cordões sanitários seja a quem for. Atente-se a isto: “But what no democracy, American, German or European will survive, is telling millions of voters that their thoughts and concerns, their aspirations, their pleas for relief, are invalid or unworthy of even being considered.


Democracy rests on the sacred principle that the voice of the people matters. There is no room for firewalls. You either uphold the principle or you don’t. Europeans, the people have a voice. European leaders have a choice. And my strong belief is that we do not need to be afraid of the future”.


Foi um discurso demagógico, de falsos valores, sobre o que ele(s) e o que entende(m) por liberdade de expressão (que, para ele e para o seu chefe Trump) deve servir para tudo inclusivamente para motivar o ódio, a promoção de fascismos, nazismos, autocracias, e outras ditaduras. Vance sabe que isso lhes interessa. Isto é, “autocratas e ditadores de todo o Mundo uni-vos”.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2025

É o tempo para uma oligarquia autocrática nos EUA?

Trump_oligarquia.png


Dada a robustez das instituições democráticas americanas e a longa tradição de direitos civis e políticos a ideia de uma oligarquia autocrática nos Estados Unidos pode parecer distante. No entanto, eventos recentes têm levado muitos a reconsiderar a possibilidade de uma concentração de poder nas mãos de poucos, com tendências autoritárias. Movimentos populistas e líderes carismáticos que desafiam as normas democráticas, como o observado na presidência de Donald Trump, têm levantado questões sobre a resiliência do sistema democrático dos EUA e a vulnerabilidade às influências oligárquicas e autocráticas.


Daqui a tentação fácil de intuir e associar à palavra alemã “führer” cuja tradução pode ser “guia”, “líder” ou “chefe”. A palavra permanece ainda ligado a Adolf Hitler, que a usou para se auto designar como o líder supremo da Alemanha Nazi que terminou com a democracia alemã. Guiados por ideias racistas e autoritárias, os nazis aboliram direitos básicos e inventaram uma comunidade populacional de origem alemã, o “Volk”.


A possibilidade de um líder, tipo “führer”, autoritário nos Estados Unidos parece ser duvidoso ou até impossível para alguns apesar do slogan de propaganda MAGA – Make America Great Again muitas vezes usado por Donald Trump. Este ponto de vista justifica-se porque a história e a política dos EUA têm sido marcadas, pelo que conhecemos ao longo do tempo, por uma forte tradição democrática e instituições robustas que estão despertas para prevenir a ascensão de líderes autoritários. No entanto, nada garante que os valores democráticos sejam mantidos, o que parece não estar a acontecer naquele país e o partido democrático parece andar à aranhas porque não está a ser capaz de se movimentar ou de encontrar a saída neste conjunto de dificuldades.


 Há tempo atrás seria inconveniente, na melhor das hipóteses, e absurdo na pior das hipóteses, mencionar o fascismo ou o autoritarismo numa conversa sobre a política americana. Este ponto de vista nada tem a ver com opções ideológicas que se professem, mesmo que casualmente, contrárias à política até agora dominante nos EUA.


Tem-se verificado que políticos, académicos, comentaristas e jornalistas nos EUA compararem regularmente a ascensão de Trump à de líderes fascistas e autoritários. A situação agrava-se nas redes sociais com a discussão continua de que Hitler esteja a ser invocado como comparação destinada a criticar o extremismo de outra pessoa. Como escrevi num anterior artigo é “prematuro estabelecer qualquer relação consistente”, agora, parece cada vez mais que epítetos como "Hitler" ou "nazi" ou "autoritário" são suficientemente plausíveis para atrair uma ansiedade razoável e crescente.


Basta pesquisar alguns dos media dos EUA para ver as medidas que Trump, comprovadamente, tomou desde a sua tomada de posse em janeiro de 2025:



  • assinou várias ordens executivas, incluindo a retirada dos EUA do Acordo de Paris sobre o Clima e da Organização Mundial da Saúde e revogou 78 políticas do governo Biden;

  • ordenou uma repressão à imigração, incluindo a deportação de imigrantes ilegais e o cancelamento de um programa que permitia que os migrantes entrassem legalmente nos EUA por meio de um agendamento;

  • ofereceu incentivos para 2 milhões de trabalhadores federais e implementou um congelamento de contratações, exceto para militares, fiscalização de imigração, segurança nacional e empregos de segurança pública e restabeleceu uma ordem executiva para facilitar a demissão de funcionários federais;

  • perdoou cerca de 1.500 pessoas acusadas no ataque de 6 de janeiro de 2021 ao Capitólio dos EUA;

  • anunciou planos para aumentar as tarifas sobre produtos importados de vários países, incluindo Canadá, México, China, Brasil e Índia;

  • assinou ordens para reduzir as regulamentações ambientais e aumentar a produção de combustíveis fósseis;

  • intensificou a proteção da liberdade de expressão e da liberdade religiosa, embora as suas ações tenham provocado reações mistas de vários quadrantes.


Estas são apenas algumas das medidas que tomou até agora.  


Há personagens sinistras, ameaçadoras, assustadoras ou mal-intencionadas que são levadas ao poder eleitos pelo povo porque não são percebidas como tal e mascaram-se e dissimulam muito bem.


O termo sinistro é também frequentemente usado para descrever indivíduos que exibem comportamentos ou características que causam medo ou desconfiança nas pessoas ao seu redor. Pode referir-se a personagens fictícios em filmes, livros ou séries, bem como a pessoas reais que são vistas como perigosas ou moralmente questionáveis. Contudo, o termo “sinistro” pode ser considerado bastante subjetivo.


No que se refere a presidentes dos EUA, alguns poderão ser considerados sinistros devido às suas ações ou políticas controversas. Embora alguns presidentes dos EUA possam ter sido vistos negativamente devido às suas ações ou políticas, não há conhecimento que tenha havido presidentes com características propriamente sinistras.  


Há alguns exemplos mencionados pelo USNews como Richard Nixon com o seu envolvimento no escândalo Watergate e a subsequente demissão em 1974 que deixou uma mancha duradoura no seu legado. Andrew Johnson com sua oposição, reconstrução quanto aos direitos civis dos escravos libertos após a Guerra Civil o que o levou a ser classificado como um dos piores presidentes. James Buchanan e o seu fracasso em lidar com a escalada de tensões que levaram à Guerra Civil também lhe rendeu uma má reputação. Esses presidentes são frequentemente criticados por suas ações ou falta de ação em momentos críticos da história, mas na minha opinião não podem ser considerados sinistro.


No que se refere ao Presidente Trump se amplificarmos o conceito de sinistro para desastroso, ameaçador, cruel, assustador, desastroso as dúvidas esbatem-se.


Não é absolutamente necessário viver nos EUA para percebermos o que lá se passa, basta consumir várias horas e dias de leitura e visionamentos para podermos observar o que por lá se diz e vê nos media e em artigos académicos.


Alguns consideram as ideias apresentadas por Donald Trump como sendo “fora da caixa”. Esta expressão que pode ser considerada como inteligente e inovador na procura de soluções extraordinárias para problemas comuns, é tentar ir além das coisas óbvias ou do que todo mundo vê. No caso das ideias lançadas por Donald Trump são fora da caixa porque demonstram um certo grau de loucura derivada da sua egomania. São exemplos disso os Estados Unidos assumirem o controlo da Faixa de Gaza; os dois milhões de palestinianos que lá vivem serem recebidos noutros países para nunca mais voltarem; e sobre as ruínas dos edifícios e de todas as infraestruturas arrasadas por Israel construir uma aprazível “Riviera do Médio Oriente” aberta a uma população “internacional”.


Na atividade incansável e a quente, de teorias ao nível popular, análises académicas e narrativas partidárias confundem-se e minimizam o esforço para dar algum sentido à distopia desorientadora da pós-verdade que parece ter envolvido os Estados Unidos desde o primeiro mandato mantendo-se, agora novamente com Donald Trump na presidência americana.


Não estaremos muito distantes da verdade se dissermos, embora com algumas reservas, que os EUA estão a ser governados por um partido que colocou no poder um sinistro, egomaníaco/egocêntrico, narcisista que veio do mundo dos “reality shows” e, possivelmente, com algum grau de loucura. Que precedentes, profetizações ou sinais do passado histórico que possam explicar as causas e as circunstâncias que permitiram um tal Presidente no poder.


Em 20 de janeiro de 2017, após a tomada de posse do primeiro mandato de Donald Trump, o livro mais vendido na Amazon.com foi o livro “1984”, escrito por George Orwell editado pela primeira vez em 1949. Segundo o jornal Público, “As vendas aumentaram depois das declarações (consideradas “pouco factuais”) do Presidente norte-americano e de alguns membros da sua administração”. “Os “factos alternativos” invocados pela Administração Trump estão a reavivar a popularidade daquela obra”, escreve o mesmo jornal. Os “factos alternativos” invocados pela Administração Trump reavivaram a popularidade daquela obra onde o autor apresenta um estado de pesadelo de controle de pensamento e de ficções de propaganda.


A propósito dos “factos alternativos” em 2017 os seus conselheiros (ou acólitos)?) contestavam a realidade. Um deles, Kellyanne Conway, diretora de campanha presidencial de Donald Trump em 2016 e conselheira do presidente até agosto de 2020, alegava, na altura, a existência de haver “factos alternativos” para  ajudar Sean Spicer, assessor político e Secretário de Imprensa e Diretor de Comunicações interino do presidente Donald Trump que, no mesmo ano, usou seu primeiro encontro na Casa Branca para protestar contra os jornalistas devido ao que ele incorretamente chamou “reportagem deliberadamente falsa” sobre a posse de Trump na altura. Dizia ele que os jornalistas alegavam falsamente, que um número recorde de pessoas não terão comparecido ao seu juramento do presidente.


Esta situação carrega uma contundente crítica ao autoritarismo e à manipulação da verdade. A narrativa pró-governo tem a função principal de alterar registos para que estes passem para a opinião pública como versão oficial da história (reescrita da história) promovida pelo partido do Governo e do seu líder de modo a garantir que a instituição esteja sempre certa e a sua narrativa seja a única verdade.


Andreia Sanches num artigo no jornal Público designa como “grotesca, delirante, sinistra, criminosa que são alguns dos adjetivos usados nas análises publicadas nos últimos dois dias, um pouco por todo o mundo”.


Donal Trump, EUA, política, autoritarismo, oligarquia, egomania, Casa Branca, política internacional, democracia, populismo,


tendências autoritárias. Na pior das hipóteses, as palavras e ações dele e dos seus apoiantes são desconcertantes e estão muito perto da espécie mais virulenta e nacionalista do autoritarismo, o fascismo.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2025

A presidência do sobressalto ou o perigoso mandato do narcisismo?

Trump mandato da loucura.png


O século XXI tem trazido à superfície líderes cujos comportamentos, atitudes e decisões parecem desafiar os princípios fundamentais da liderança democrática, da ética e da moral. Estes líderes, na sua procura por incessante poder e reconhecimento, muitas vezes procura formas de governo ditatoriais e autocráticas e exibem características narcisistas que prejudicam não apenas os indivíduos em seu redor, mas também as instituições que governam.


Procurei nos meus manuais de psicologia educacional dos meus tempos de professor, em qualquer deles se caracteriza o conceito narcisismo como sendo uma forma de transtorno de personalidade. É uma condição de saúde mental na qual as pessoas têm um senso excessivamente alto de sua própria importância. Eles precisam e buscam muita atenção e querem que as pessoas os admirem. As pessoas com esse transtorno podem não ter a capacidade de entender ou se preocupar com os sentimentos dos outros.


Os populismos e os partidos de extrema-direita vão-se instalando progressivamente gerando-se no seio das democracias liberais e aproveitando-se delas. Os políticos que as lideram parecem não dar importância ao fenómeno, considerando-o como normal, e atribuindo-lhe pouco valor, apesar do seu crescimento, sem tentarem procurar as causas que o alimentam. Algumas forças mais à esquerda têm alertado para a situação de que as democracias, mesmo as aparentemente mais consolidadas, são frágeis.


Autocracias, oligarquias, cleptocracias e ditaduras têm vindo a ser estabelecidas em países por todo o Mundo e, cujos líderes ocupam o poder e tendem a manter-se pela repressão das oposições e pelo controle da informação. São membros de redes que se encontram interligados apenas no interior das autocracias, mas com redes existentes noutros países.


Estes autocratas têm a convicção de que o mundo exterior não lhes pode tocar, que as opiniões de outras nações são irrelevantes e que nunca serão julgados pela opinião pública. Eles não pretendem defender mais nada do que o seu próprio enriquecimento e a manutenção do poder.


Várias interpretações podem alguns tirar da afirmação que foi feita por Trump durante a campanha eleitoral quando disse que “Daqui a quatro anos, não terão de votar novamente. Vamos ter tudo tão bem arranjado que não vão ter de votar”.


Atualmente, 34% da população mundial vive num país com regime autoritário. Segundo o Índice da Democracia, 52 países são classificados como autocracias, incluindo Venezuela, Rússia, China, Coreia do Norte, Síria, Irão e Arábia Saudita. Além disso, um estudo do Instituto V-Dem da Universidade de Gotemburgo mostra que cerca de 5,7 biliões de pessoas, ou 72% da população mundial, vivem em autocracias eleitorais ou autocracias fechadas. Países como a Índia, Paquistão, Bangladesh, Rússia, Filipinas e Turquia são exemplos de autocracias eleitorais.


Segundo um artigo do jornal Público o relatório do IDEA, “as ameaças abarcam desde democracias tradicionalmente fortes a outras bem mais frágeis os riscos mantêm-se concretos. Em matéria de credibilidade das eleições, liberdades civis e igualdade política, o relatório mostra que os números ainda não chegam aos anteriores a 2016, a primeira vez que Trump concorreu à presidência e ganhou as eleições a Hillary Clinton.


Os ditadores sempre estiveram contra a democracia com formas parlamentares. Aliás um dos piores ditadores da humanidade escreveu no seu único livro conhecido, referindo-se ao parlamentarismo, que “A sua participação em uma tal instituição só pode ter o objetivo de destruir o parlamento, que deve ser visto como um dos mais graves sintomas da decadência da humanidade” (Mein Kampf).


O que conheço da política dos EUA é apenas pela imprensa estrangeira e também pela nacional, mas cruzando vários artigos e opiniões, tiro as minhas ilações. Muitos artigos de opinião e artigos sobre política podem ser considerados para alguns como desfavoráveis e para outros como favoráveis conforme o que cada um pensa e nem sempre podem estar de acordo com o que pensamos. Há opiniões para todos os gostos que podem ser favoráveis ou desfavoráveis, concordantes ou discordantes consoante cada pessoa como é no caso das decisões tomadas pelo atual presidente dos EUA, Donald Trump, por mais disparatadas, contraditórias, inconcebíveis e até ameaçadoras que elas sejam.


As táticas dos potenciais ditadores são convergentes, pregam valores liberais nos seus países recorrendo a slogans da democracia enquanto sorrateiramente edificam regimes iliberais como Putin fez na Rússia. O regime político atual da Rússia é amplamente considerado uma autocracia. Embora o presidente Vladimir Putin tenha feito declarações sobre a importância da democracia e dos direitos humanos, as suas ações e políticas, como a implementação de leis restritivas e repressão à dissidência, indicam uma prática que não se alinha com esses princípios democráticos.


 Leia-se um dos discursos de Vladimir Putin em que disse que “Só um Estado democrático pode assegurar um equilíbrio entre os interesses da personalidade e da sociedade, e conjugar a iniciativa privada com as tarefas nacionais.” (julho de 2000).


Em 2002, Vladimir Putin fez declarações salientando que um Estado democrático deve centrar-se no “primado do direito, eleições livres e a prioridade aos direitos humanos”, isto é, a importância do Estado de Direito, eleições livres e direitos humanos. No entanto, as suas ações e políticas têm sido frequentemente criticadas por não se alinharem com esses princípios. Por exemplo, houve posteriormente inúmeros relatos de leis restritivas e repressão à dissidência na Rússia. A situação levantou preocupações sobre o estado da democracia e dos direitos humanos no país.


A eleição de Trump em 2016 foi um marco significativo na política americana e suscitou debates acalorados sobre a direção que os Estados Unidos poderiam tomar sob a sua administração, e trouxe à discussão várias questões controversas.


A reeleição de Trump em 2024 reacendeu o debate sobre a zona cinzenta das autocracias. A jornalista Anne Applebaum, (Anne Applebaum, Autocracia, Inc, - “Os ditadores que querem governar o mundo”), destacou que muitos países vivem na zona cinzenta entre democracias e ditaduras, e a vitória de Trump define onde os Estados Unidos ficam nesse espectro.


Anne Applebaum escreveu “Quem não conseguir entender o que se passa no mundo que o rodeia não se vai juntar a grandes movimentos pró-democracia, nem seguir um líder que diga a verdade, nem prestar atenção quando alguém lhe falar de mudanças políticas positivas. Em vez disso, vai-se afastar da vida política. A propagação deste cinismo e desânimo é do maior interesse para autocratas, não só nos seus países, mas também no resto do mundo.”.


Agora, novamente, a ascensão ao poder de Donald Trump é um tema que tem gerado e continuará a gerar muitos debates e análises. A administração de Trump já provocou controvérsia e preocupação significativas. Alguns dos aspetos mais controversos e potencialmente perigosos incluem: políticas de imigração em que Trump tem uma atitude agressiva incluindo deportações em massa e militarização da fronteira que levantam preocupações humanitárias; o negacionismo e a sua ignorância aceite subservientemente pelos seus acólitos escolhidos à medida, por medo, ou também por ignorância, em vários pontos nomeadamente quanto às mudanças climáticas leva-o aos seus planos de se retirar do Acordo Climático de Paris e a reverter as regulamentações climáticas que podem vir a agravar os impactos ambientais; iniciativas como a Diversidade, Equidade e Inclusão (DEI) que Trump reverteu e que atraiu críticas por minar a diversidade no local de trabalho e as oportunidades económicas. O DEI foi criado porque as comunidades marginalizadas nem sempre tiveram oportunidades iguais de emprego ou sentiram um sentimento de pertencimento em ambientes corporativos de maioria branca; intervenções económicas radicais, como a imposição de altas tarifas e a deportação de milhões de imigrantes que podem desestabilizar a economia; a política externa segundo a abordagem “America First” de Trump, inclui a retirada de acordos internacionais e a reformulação de alianças, pode vir a ter implicações globais significativas.


Estes são apenas alguns exemplos das controvérsias em torno da administração de Trump que têm sido noticiados. Os impactos totais dessas políticas só se vislumbrarão ao longo do tempo.


Nunca na história dos EUA se viu um presidente malcriado e narcisista patológico como Donald Trump o que é demasiado perigoso para todos, para o mundo, e muitos colocam-se descaradamente ao seu lado por medo ou por subserviência.


Trump emergiu da política vindo do mundo dos negócios e dos reality shows televisivos e a sua ascensão à política, e depois à presidência, desafiou todos os pressupostos da sabedoria convencional e da opinião pública.


Algumas personalidades do media, sobretudo da Fox como Tucker Carlson tem uma relação significativa e influente com Donald Trump. Carlson, ex-apresentador da Fox News, continua a ser uma figura-chave nos bastidores da política republicana, mesmo após a sua saída da emissora. Ele tem o ouvido de Trump e a capacidade de influenciar posições-chave, como a escolha de JD Vance que tomou posse como vice-presidente dos Estados Unidos nesta segunda-feira como amigo próximo de Trump.


Carlson também desempenhou um papel importante na exclusão de Mike Pompeo e Nikki Haley de cargos no governo de Trump, mostrando sua influência nas decisões de pessoal. Além disso, ele tem se envolvido em uma espécie de diplomacia paralela, entrevistando figuras proeminentes da direita em todo o mundo e mantendo uma linha direta com Trump.


O que se conhece sobre Trump e o que a sua prática tem demonstrado tem sido frequentemente criticado pelas suas relações e simpatias com regimes autoritários, autocracias e oligarquias. É do conhecimento público que durante seu mandato anterior, ele expressou admiração por líderes como Vladimir Putin, da Rússia, e Kim Jong-un, da Coreia do Norte e foi também acusado de tentar transformar os Estados Unidos em uma oligarquia, especialmente com as suas políticas e nomeações que favorecem os ricos e poderosos, aliás como se tem constatado logo após ter ganho as eleições em 2024 e aos a tomada de posse.


Durante a sua anterior presidência, Trump foi também frequentemente criticado pela suas atitudes e declarações que pareciam apoiar líderes autoritários e regimes não democráticos. Tem demonstrado simpatia por ditaduras e apoio a líderes autoritários como Vladimir Putin entre outros.


Durante seu mandato, Trump elogiou Putin em várias ocasiões, chamando-o de “inteligente” e “pragmático”. As táticas dos potenciais ditadores são convergentes, pregando valores liberais enquanto edificam o que poderá vir a ser uma ditadura, como Putin fez na Rússia.


Para além disso Trump tem sido criticado por estar associado a práticas autocráticas, como a tentativa de minar a confiança nas eleições e a promoção de teorias da conspiração através das redes sociais, pela sua retórica de divisão e por tentar consolidar o poder de maneira que alguns consideram antidemocrática.


“Acho que vamos fazer coisas que deixariam as pessoas chocadas”, declarou o presidente Donald Trump no seu segundo dia no cargo. Foi uma das poucas coisas verdadeiras que ele disse durante toda a semana, escreveu The Washington Post.


Trump tem um projeto de poder ilimitado que se alimenta do ressentimento e da vingança. O movimento de Trump MAGA - Make America Great Again poderá vir a ser o projeto MAGA - Make Authoritarianism Great Again.

segunda-feira, 26 de agosto de 2024

Papel da oposição na política - deve a oposição ajudar a governar?

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Desde abril de 2024 que o primeiro-ministro Luís Montenegro disse contar com a “responsabilidade” da oposição, especialmente do PS, para o “deixar trabalhar” este mantra da “responsabilidade” tem sido sistematicamente repetido nas mais variadas circunstâncias e tem vindo em crescendo à medida que se aproxima a apresentação e a discussão do Orçamento de Estado.


Na mesma altura Pedro Nunes Santos do Partido Socialista afirmava que o “PS será ‘oposição de alternativa’ e não ‘bota-abaixo ou muleta’ e em maio avisava que o PS não estaria na oposição “a fazer figura de corpo presente”. Foi a resposta ao desafio do Governo AD. Acrescentou ainda que a “Responsabilidade de apresentar OE e garantir condições de viabilização é do Governo e não do PS.” É evidente que assim deverá ser ou, então, a oposição passaria a ser apenas um coadjuvante do Governo.


Todavia como segundo sondagens ninguém pretende eleições antecipadas há que haver algum sentido de responsabilidade sem desvirtuar o papel que deve ter a oposição. Ninguém pretende uma crise política nem eleições antecipadas, contudo a perceção que temos do que se passa é a de que o Governo parece querer que seja aberta.


Cada partido tem o seu projeto de governo, o seu programa próprio, as suas estratégias, (seja ela boas ou más conforme as perspetivas), o Governo não pode, por isso, impor à oposição que siga propostas e o programa que não seja o seu e acusá-la de bloquear governação.


A oposição tem o dever de questionar e de criticar o Governo pelo que faz e pelas medidas que toma, caso contrário teríamos uma governação AD monolítica com uma oposição de fachada.


Se analisarmos qual deve ser o papel da oposição ou das oposições, como lhe queiramos chamar, nos regimes democráticos liberais verifica-se que depende de diferentes pontos de vista e das finalidades na execução dessa oposição. Em democracias e nos regimes parlamentares pluripartidários a oposição é essencial. Em países onde existem simulacros de eleições e onde a oposição é apenas manobra de fachada ou onde se eliminam liminarmente os adversários políticos não podemos dizer que haja democracia.


Numa determinada legislatura os partidos que se encontram na oposição são frequentemente colocados no quadro de irresponsabilidade pelo governo ou pelos partidos que o apoiam. Este tipo de mensagem é normalmente passado pelos apoiantes do Governo, isto por que, não acatam seguir a mesma linha de atuação decisória seguida pelo governo em funções.


No geral, podemos concluir que a responsabilidade da oposição se desdobra em torno do desempenho da responsabilidade do governo e em torno dos objetivos estratégicos partidários da oposição.


Em sistemas democráticos parlamentares não existe um sistema onde o governo possa sobreviver contra a vontade do parlamento. A existência de representantes eleitos que se opõem ao governo é uma marca da democracia parlamentar moderna quer no que se refere à responsabilidade do governo, quer face ao parlamento que em Portugal é designado por Assembleia da República.


A oposição parlamentar critica o governo, expressa dissidência em relação às suas ações e serve como uma voz para as opiniões minoritárias relativamente ao Governo. O que distingue da oposição parlamentar, no entanto, é que, ela procura desafiar, o governo. O mecanismo mais direto durante uma legislatura pelo qual a oposição pode acabar com o governo é o voto de desconfiança, mas nem sempre isso é viável.


Espera-se que dos partidos políticos que estão na oposição que desenvolvam uma alternativa política ao Governo. Os eleitores que olham para uma oposição que decide cooperar com o Governo, esta a deve ser capaz de explicar porquê e em que medida essa cooperação faz sentido no contexto do seu programa político.


Em Matos Correia do PSD escrevia no Expresso que “Luís Montenegro tem deixado claro que a missão do PSD, enquanto principal partido da oposição, não é constituir muleta do governo socialista. É afirmar uma alternativa.” Ora aqui está, veja-se agora o reverso da medalha, o PS deve, e bem, seguir o mesmo slogan.


O que se passa com o Governo AD é que pôs em funcionamento uma máquina propagandista que chega à saturação. Tomou medidas de cópia pegando no que o PS deixou em aberto e não executou e noutras que copiou como foi o caso daquelas do bónus a alguns pensionistas valendo-se dos excedentes orçamentais dos governos PS.


Quanto à crise na saúde nada de novo, continua o descalabro devida à incompetência de uma ministra arrogante que tenta face às críticas, perante a câmaras das televisões fazer esgares de sorrisos simpáticos.


A oposição não serve para dar abraços ao Governo, mas para criticar as suas medidas no sentido da melhoria e fazê-lo cumprir o que prometeu desde que não colida com o próprio programa da oposição. Não queremos um parlamento do tipo  União Nacional, mas também não queremos sem mais dar aquela palha eleições sem uma forte justificação plausível.

segunda-feira, 22 de abril de 2024

O que mudou com a Revolução dos Cravos

Um soldado com um cravo em seu fuzil em primeiro plano em meio a multidões na rua abaixo dele


Fotografia do Jornal The Guardian


O que mudou com a Revolução dos Cravos


Uma simples homenagem


Cinquenta anos atrás, uma notável cadeia de eventos desencadeada pela transmissão de uma série de canções levou à queda de uma ditadura


Nada melhor do que comparar o antes e o depois do 25 de Abril, a Revolução do Cravos



Muitas coisas mudaram  As que se indicam a  são apenas algumas das mudanças mais importantes
ANTES DEPOIS
Só havia um partido político, a Acção Nacional Popular, que apoiava o governo Passou a haver muitos partidos políticos
Não havia eleições livres Cada um pode votar no partido que quiser
As mulheres só podiam votar se tivessem concluído o curso secundário Toda a gente pode votar
As mulheres não podiam viajar sozinhas para fora do País sem autorização escrita do marido Mulheres e homens têm os mesmos direitos
Havia uma polícia política, com milhares de informadores em toda a parte, que escutava praticamente todas as conversas. As pessoas que tinham opiniões contrárias ao Governo eram presas Não existe polícia política e passou a haver liberdade de opinião
As pessoas casadas pela Igreja não se podiam divorciar O divórcio estendeu-se a toda a população
Cada patrão pagava o que queria aos seus trabalhadores Passou a haver um salário mínimo nacional

As notícias só podiam sair nos jornais depois de terem sido lidas e autorizadas pelos Serviços de Censura
A Imprensa é livre
Os jovens passavam quatro anos da tropa, dois dos quais na guerra

Acabou a Guerra Colonial. Uns anos mais tarde, o serviço militar deixou mesmo de ser obrigatório

Para saber mais sobre a Revolução do 25 de Abril pode 25 de Abril.


 


sexta-feira, 15 de março de 2024

A propósito de porcos e de poder

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O perigo dos resultados que nos levam de um extremo que é o de passar da liberdade, sistema que para alguns, tendencialmente adeptos das ditaduras dizem ser o pior dos mundos, para outro onde tudo é prometido através da perigosa manipulação das massas.


O livro Triunfo dos Porcos (ou Os Animais da Quinta) de George Orwell, publicado no Reino Unido em 17 de agosto de 1945, mostra-nos como somos enganados, como acreditamos e, consequentemente, como até nos esquecemos das nossas próprias dúvidas, porque achamos que não as temos.


Entretanto vemos a ânsia de poder e os limites a serem ultrapassados e apagados e já não é possível voltar atrás, pois as mentiras, para quem as escolhe, há muito que se tornaram verdades. No final, muitos se tornam naquilo que juraram destruir.


A revolução populista que inicialmente prometia justiça e dizia lutar contra a corrupção, os “porcos” que a denunciavam e diziam poder resolver os problemas da quinta mudam de rumo e acabam por se instalar. No final os “animais”, os “porcos” ficam assim sem saber se estão numa posição igual ou pior que a inicial. Isto por que, assim como acontece com os humanos, os dois porcos líderes que se aliaram mostram as suas verdadeiras cores quando estão em uma posição de poder. Enfrentam as mesmas tentações de reprimir ameaças ao seu governo, e fazem-no de forma cruel. Os dois “porcos líderes” voltam-se um contra o outro, e fica claro que eles não fizeram uma revolução e que a resistência foi inútil. Os animais da fazenda ficaram numa posição em que antes se encontravam, mas quase retornam a uma posição diminuída, pois agora também perderam a esperança numa mudança de situação que melhore as suas vidas.


O perigo das revoltas populares mesmo que iniciadas pelo poder do voto, podem levar-nos de um extremo ao outro e a passar da opressão para uma suposta liberdade onde tudo é permitido e vice-versa, mas também nos mostra o perigo da apatia das massas manipuladas.


A quinta onde se passa a trama do livro de Orwell mostra-nos como somos enganados, como acreditamos e, consequentemente, como toleramos individualmente o que uma sociedade aceita como um todo esquecendo as nossas próprias dúvidas porque já mais ninguém as tem.


A política de hoje reflete uma mentalidade semelhante: o que estamos a fazer não está a funcionar, e devemos encontrar uma maneira de mudar os nossos destinos, mudando os nossos fundamentos e a maneira como abordamos o processo democrático.


Isso não significa que devemos eliminar tudo, ou seguir aqueles que afirmam querer subverter o presente sem um caminho claro para o futuro. Os líderes que se procuram devem depender da sua capacidade de nos fornecer uma missão, e não aqueles em que julgamos acreditar e dizem que nos afastarão do caminho que estamos a pisar agora. É a verdadeira paixão que está por trás duma mudança bem-sucedida que é o que falta aos líderes como aqueles “porcos” patetas que assumiram o disfarce e que depois os mesmos que o construíram o perderam.  plano se perdeu.


há algo na importância da integridade da missão e na crença de quem assume a posição de poder e um aviso sobre o que pode acontecer quando os motivos não são puros, mas herdados ou forjados.


Como nota final para os mais jovens não devemos esquecer-nos que Hitler não conquistou o poder pela força, mas através de eleições. A Quinta dos Animais é, no fundo, uma fábula ambientada nos conceitos de tirania e revolução.

quarta-feira, 24 de janeiro de 2024

Relação político-mediática e jornalismo

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Os meus pontos de vista sobre assuntos da atualidade política não se ajustam completamente às opiniões e comentários que leio nos jornais e sintonizo nas televisões, venham eles da direita, ou da esquerda. Por vezes há alguns pontos com que poderei estar de acordo tomando atenção à subjetividade inerente a cada um.


Hoje, ao ler um artigo de opinião de Pacheco Pereira no jornal Público, tive uma surpresa. Pacheco Pereira escolheu um tema sobre o qual tenho vindo a refletir e fê-lo de uma forma que eu não conseguiria, isto com alguma pena minha. Assim, resta-me tecer alguns comentários ao meu modo, de forma corriqueira, correndo o risco da possibilidade de alguma interpretação menos cuidada da minha parte.


Os media, nomeadamente nos noticiários das televisões, podem fazer com que, por exemplo, o agressor pareça o oprimido e o oprimido pareça o agressor, o que pode aumentar ou diminuir a gravidade duma circunstância, mensagem ou facto conforme os interesse ou conveniências.


Uma coisa que sempre pensei é a forma como as notícias são dadas e que são uma das manifestações do contínuo político-mediático que Pacheco Pereira, num outro artigo de opinião, descreve como sendo “um dos fatores que penso estar na origem da crise das democracias, o domínio da política democrática pela sua transformação num contínuo político-mediático, que diminui a autonomia da decisão política e a torna cada vez mais dependente dos mecanismos da comunicação social e da sua evolução.” E a “colocação da racionalidade como uma coisa do passado e de velhos, sem capacidade de competir com o glamour da superficialidade, tudo puxando para baixo, a política foi pelo mesmo caminho de vulgaridade e comodismo.”


Do artigo depreende-se que “a crise da democracia está a ser afetada entre outras coisas por um jornalismo a ser dominado pelo “jornalismo de baixo” que prejudica o “jornalismo de cima” e em que o “jornalismo de baixo”, é sobrevalorizado e que não é jornalismo, mas é muitas vezes citado como produtor de notícias sem qualquer cumprimento de regras da profissão.” “Um jornalista que usa as redes sociais como fonte está a suicidar-se como jornalista como se frases sem edição ou contexto, pseudofactos ou fake news pudessem ser consideradas fontes noticiosas”.


Uma outra consequência para crise da democracia está na “crescente politização do ´jornalismo, assim como “a subordinação do discurso jornalístico a lugares-comuns, modas, superficialidade, incompetências, estereótipos, que faz com que a politização seja muitas vezes involuntária, pela dificuldade de se sair do rebanho, e ter autonomia de julgamento.”


Atualmente verificamos que não existe uma distinção entre os comentadores que fazem comentários dos comentários dos jornalistas, isto é, “hoje o comentário não separa os jornalistas que o fazem dos restantes comentadores de direita ou esquerda conforme as conveniências dos autores de mensagens nas redes sociais”.


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Vejamos agora o caso das aberturas dos noticiários durante as primeiras semanas de janeiro, altura de grande afluência fora do normal às urgências hospitalares devido à gripe que pululava. Diariamente, à mesma hora, os dois jornais televisivos dos principais canais generalistas passavam uma parte significativa das notícias de abertura com imagens captadas nas urgências com as “voz off” a insistirem nos problemas a que se acrescentavam outro do internamento. Faziam-se entrevistas a utentes que, devido à ansiedade das esperas, não teriam nada de animador a dizer, antes pelo contrário, esquecendo tudo o que antes teriam considerado ter sido bom. Interessava politicamente que tudo quanto fosse alimentar a oposição contra o governo já demitido, mas que até se esgotar a última gota do governo mesmo que em gestão corrente.


Passaram depois, mais recentemente, a sintonizar o tema sobre as mortes em excesso como nunca dantes verificadas, e escolhem umas datas de anos anteriores para fazerem comparação. Esquecem as causas recentes e tentam associar ao que antes anunciaram sobre as urgências sem apontar as possíveis causas para tal.


A questão sobre o jornalismo é a de saber como se colocam as questões para se obter uma resposta desejada. Colocar os problemas do aumento da mortalidade como sendo devida aos problemas do SNS é tentar salientar um facto escondendo outro ou outros mais graves.  Porque não associa esse aumento de mortalidade à greve dos médicos? É certo que um dos problemas do SNS tem sido o da greve dos médicos, mas a forma como a causalidade da mortalidade não é associada também não está isenta de culpas, mas não aparece como uma possível causa.


Sobre este assunto escreveu Pacheco Pereira no referido artigo que passo a transcrever:


 “Vejamos alguns exemplos actuais. Por exemplo, quando se está a discutir o aumento significativo de mortalidade nos últimos meses a pergunta que ouvi feita a um especialista que estava a falar de vários factores explicativos foi a seguinte: “Não se deverá esse aumento de mortalidade aos problemas do SNS?” Essa pergunta tem sentido em abstracto, mas imaginemos que ela era formulada de outra maneira: “Não se deverá esse aumento de mortalidade à greve dos médicos?” Na verdade, a greve dos médicos é um “problema do SNS”, mas a forma como é apresentada a causalidade da mortalidade não é inocente. Aliás, a greve dos médicos nunca aparece como causa, ao contrário da greve dos ferroviários para as paragens de comboios. No entanto, nunca houve tantos simpatizantes das greves e de movimentos como o dos polícias desde que contribuam para atacar o Governo. Imagino que, se a “Aliança Democrática” governar, as greves e movimentos reivindicativos de trabalhadores tornar-se-ão de novo malditos e outras greves como a dos médicos não existirão.


Mais adiante acrescenta Pacheco Pereira fazendo uma comparação com os hospitais privados:


Aliás quase todas as peças sobre os “problemas do SNS” que abrem noticiários, muitas vezes de formas casuística para ter um feito cumulativo, não têm qualquer paralelo com a informação comparativa com o sector privado. Os tempos de espera nos hospitais privados raramente são citados, nem referido como é feita a triagem de doentes não rentáveis devolvidos aos hospitais públicos, e o que aconteceu durante a pandemia.


Não foi raro o anterior bastonário da Ordem dos Médicos, Miguel Guimarães, aparecer frequentemente na hora dos noticiários a tecer críticas ao Governo no que respeitava ao SNS e à saúde sempre numa espécie de oposição crítica. A crítica é, em democracia, normal e necessária, mas a atitude e as narrativas do bastonário funcionavam aos olhos dos espectadores mais atentos como se fosse um político a fazer oposição que mais o aproximava ser um militante do PSD. 


A minha suspeita sobre o tipo de intervenções veio a confirmar-se no dia 7 de janeiro quando o Expresso noticia que o antigo bastonário da Ordem dos Médicos discursaria nessa tarde, ao lado de Montenegro, Melo e Câmara Pereira e que seria um dos nomes apontados para as listas de deputados do PSD, hipótese para a qual já se mostraria “disponível”.


Diariamente somos confrontados com dualidade de critérios nos noticiários numa variedade de casos o que contribui para a crise da democracia com a polarização e radicalização e por factos intencionalmente evidenciados em ponto conforma as conveniências do memento ou das agendas partidárias, tal como se fossem trabalhados nas redes sociais e não da forma jornalística. Sobre este tema da independência dos jornalistas já escrevi neste mesmo blogue.

domingo, 18 de junho de 2023

Em defesa do discurso de ódio?!

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Alguns autores de opinião e de comentário, mais preocupados com o estilo do que com as ideias que elaboram, provocam no leitor menos preparado alguma dificuldade em os perceber. Escrevo o que penso sem preocupações estilísticas, escrevo ao correr da pena, ou melhor, do teclado. Preocupo-me mais com as ideias que pretendo passar com o possível cuidado no português.


Hoje resolvi abordar um artigo de opinião do jornal Nascer do Sol de 9 de junho, da autoria de João Brás intitulado “Discurso do ódio é o que é dito por quem eu quero calar”.


Não resisti ao comentário, no exercício de liberdade de expressão que me é devido em democracia, porque começa assim: “Em Portugal a estrela televisiva Cristina Ferreira foi a primeira subscritora da petição para a “‘Criminalização de ódio nas redes sociais’. O que políticos com propensão para a vigilância do pensamento desconforme abraçaram com entusiasmo…”


O autor do artigo mostra evidente azedume em relação à referida petição. O autor pode ser crítico de Cristina Ferreira, e até pode não gostar da senhora pelo mais vários motivos, assim como eu perfilho o mesmo sentimento. Sobre aquela senhora já escrevi textos neste blogue, que pode ver aqui, e aqui, mas, daí sair a defender com toda a gana a não limitação ao discurso de ódio vai grande distância.


A petição resultou no “Projeto de Resolução n.º 693/XV-1.ª - Medidas para combate ao discurso de ódio na internet” de 11 de maio de 2022 apresentado pelo grupo parlamentar do Partido Comunista Português e proposto por um grupo de deputados daquele partido.  Foi aprovado na generalidade em 2023-06-02 na Reunião Plenária n.º 136 com os votos contra o CH, abstenção do PS e IL e favor: PSD, PCP, BE.


Para me explicar e para que seja claro na minha pretensão de comentar o que escreve o autor do artigo, peço alguma paciência aos potenciais leitores pela extensão do texto, mas terá mesmo de ser.


Para defenderem os seus pontos de vista e sustentarem as suas opiniões, é corrente alguns autores procurarem argumentos baseados em correntes filosóficas e ideológicas que professam, ou em textos mais ou menos complexos por vezes impercetíveis apenas por eruditos e que são passíveis de interpretações contraditórias.


Os que têm as mesmas opiniões defendem-nas e defendem-se uns aos outros, embora por caminhos argumentativos diferentes. A direita, e sobretudo a extrema-direita, é useira e vezeira nisso, defende com toda a gana toda a liberdade que a democracia lhes possibilita, mas quando um dia chegam ao poder é a chuva de críticas sobre a tal dita liberdade.  Quando estes mesmos são os visados e o discurso de ódio lhes toca e ficam a braços com acusações torpes e ofensas ao seu bom nome e dignidade, a liberdade de expressão ilimitada que defendem é logo posta em causa. Elaboram discursos com propostas para se limitarem esses abusos e, perante tal libertinagem da expressão de pensamento, que defendiam/defendem colocam-se em bicos dos pés em prol da criminalização de tais discursos ofensivos.


Pela leitura do artigo de opinião de João Brás, pareceu-me ser este motivado por a proposta ter vindo do grupo parlamentar do PCP, comprovado pela referência que faz quando escreve que “Esta prática era bem conhecida no país dos sovietes e não só”, e que “No esplendor da URSS comités de camaradas controlavam os desvios burgueses”. Completa o seu argumento com “Designar os que nos contestam e criticam, que acreditam em outros modos de pensar e viver como indignos de poderem pensar ou propor outros modos de vida e rotulá-los de portadores de ‘discurso de ódio’ é neoestalinismo puro e duro”. Não me recordo de ninguém de direita ou da extrema-direita ter lutado tanto e tão veementemente pela liberdade de expressão de pensamento, quando estão no poder ou quando em regimes autocráticos e de ditadura.


O ódio àquele partido deve ser tal que lhe dificultou a lucidez da sabedoria e do espírito. Não sou simpatizante do PCP e muito menos após as suas posições relativamente à invasão da Ucrânia, mas aquelas afirmações extemporâneas e desajustadas ao tema são no mínimo ridículas.


Talvez o autor, pensador de filosofia que se acha de mente aberta considere que as limitações à liberdade de expressão em tenebrosas ditaduras de direita sejam válidas para não porem em risco a coesão política da nação e de “Deus, Pátria, Família”.


O autor parece ignorar que a liberdade de expressão não é um direito absoluto, ela encontra-se nos limites na própria constituição e na grande maioria das vezes vem sendo tolhida em nome do princípio da dignidade da pessoa humana.


O radicalismo do autor em defesa da liberdade absoluta talvez tivesse como inspiração os argumentos de John Stuart Mill, um dos pensadores liberais mais influentes do século XIX, que aborda as questões em 1859 na sua obra “Sobre a Liberdade”.


Numa entrevista na revista LePoint de 2018  um advogado de extrema-esquerda que defende a extrema-direita este afirmava que “basicamente, se a extrema-direita defende a liberdade de expressão, é para poder ser abertamente racista. Eles odeiam judeus e querem poder dizer que negros e árabes são menos inteligentes, que todos eles têm de voltar para a sua terra, etc.”


A questão de fundo é sabermos se a liberdade de expressão de pensamento e os discursos de ódio não devem ser limitados, mas que devem ser absolutos como defendem os seus apologistas.  Afinal, deve haver limites à liberdade de expressão? Quando é para interesse próprio, não, quando é para interesse de outros, sim.


Um exemplo desta discussão verificou-se em tempo na Europa, quando o líder da extrema-direita francesa Jean Marie Le Pen questionava a existência de câmaras de gás na Segunda Guerra Mundial ao afirmar que que les chambres à gaz utlisées par les nazis lors de la Deuxième Guerre mondiale avaient été «un détail de l'histoire». Je ne dis pas que les chambres à gaz n'ont pas existé. Je n'ai pas pu moi-même en voir. Je n'ai pas étudié spécialement la question. Mais je crois que c'est un point de détail de l'histoire de la Deuxième Guerre mondiale». En 1991, il avait été condamné, par la cour d'appel de Versailles, pour « banalisation de crimes contre l'humanité» et «consentement à l'horrible».


Traduzindo: “Jean-Marie Le Pen sustentou que as câmaras de gás usadas pelos nazis durante a Segunda Guerra Mundial foram «um detalhe da história». «Não estou a dizer que as câmaras de gás não existiam. Eu mesmo não consegui ver nenhuma. Não estudei especificamente a questão. Mas acho que é um detalhe na história da Segunda Guerra Mundial.» Em 1991, foi condenado pelo Tribunal de Apelação de Versalhes por «banalizar crimes contra a humanidade" e «consentir com o horrível». Um bom exemplo para a liberdade de expressão poder ser absoluta, nem que seja para negar factos, históricos ou não.


O autor João Brás parece desconhecer que combater o discurso de ódio não é limitar ou proibir a liberdade de expressão, mas evitar que o discurso de ódio assuma proporções perigosas, incluindo incitação à discriminação, hostilidade e à violência, o que é proibido pelo direito internacional.


Para o autor a liberdade de expressão deve ser a libertinagem discursiva nas redes sociais e nas manifestações com palavras de ordem que atentem contra a dignidade humana e o caráter das pessoas, como racismo primário e violência contra os que não pensam diferente. Este tipo de pontos de vista são também eles uma espécie de pensamento único.


No decorrer do seu discurso o autor revela ignorância sobre a definição de discurso de ódio e pergunta: “quem define o que é discurso de ódio... Augusto Santos Silva? As fraturantes do PS e do Bloco? Um comité de especialistas comentadores dos média do sistema? Um consórcio de jornalistas dependentes?”. Pergunta lamentável demonstrativa da ignorância e falta de informação sobre o tema.


Não satisfeito atira também as culpas para a União Europeia. Gostaria talvez que o conceito fosse definido por filósofos de meia tigela, sobretudo da extrema-direita. O autor terá com certeza uma definição, ou nenhuma, ou então a pergunta é de retórica e pretende atingir política e ideologicamente alguns setores que sejam inconvenientes para a “sua democracia”.


Deveria saber que o conceito de discurso de ódio há muito que está caracterizado por especialistas na área, que não por filósofos de duvidosa democracia. Permitam-me também exercer aqui o meu direito ao enxovalho.


O discurso de ódio, conceito há muito caracterizado por especialistas que estudam esta problemática, é uma negação dos valores de tolerância, inclusão, diversidade e da própria essência das normas e princípios de direitos humanos. Pode expor pessoas visadas à discriminação, ao abuso e à violência, mas também à exclusão social e económica.


Apesar do conceito ainda continuar em discussão, especialmente em relação à liberdade de opinião e expressão, não discriminação e igualdade, o Plano de Ação da ONU sobre Discurso de Ódio define discurso de ódio como... "qualquer tipo de comunicação na fala, escrita ou comportamento, que ataque ou use linguagem pejorativa ou discriminatória com referência a uma pessoa ou a um grupo com base em quem ela é, ou seja, com base em sua religião, etnia, nacionalidade, raça, cor, descendência, género ou outro fator de identidade. Incluem-se entre outros imagens, desenhos animados, memes, objetos, gestos e símbolos que podem ser disseminados offline ou online.


Há questões que não devem ser apenas discutidas no foro das questões filosóficas, por vezes meramente subjetivas, cuja complexidade leva ao desinteresse por parte de população. O debate sobre o discurso de ódio deve ser mais pragmático e menos filosófico e não se limitar apenas ao âmbito da limitação, ou não, desse tipo de discurso, sobretudo nas redes sociais.


O que está em causa e que o autor do citado artigo parece estar a defender é a não limitação de qualquer forma de expressão comunicativa mesmo a do ódio que, segundo ele, atenta contra a "suas" presumíveis liberdades democráticas e de expressão. Pela minha interpretação o autor elimina à partida quaisquer possíveis restrições à liberdade de expressão. Tudo o que não se permita é contra a liberdade, defende-se assim a libertinagem discursiva pela ofensa, perseguição e ódio.


O autor tenta confundir o leitor ao colocar no mesmo baralho cartas com naipes de jogos diferentes ao levantar questões como a de que “Nada como criminalizar os que não pensam como eu, e não só demonizá-los como silenciá-los com rótulos criminosos e patológicos…”. Parece-me que estará a fazer o mesmo como aqueles que critica porque não pensarão como ele sobre a limitação sobre o discurso de ódio.


Vejamos então: ameaças de atentado à vida de pessoas, incitamento ao terrorismo e à sua concretização, seja por motivos religiosos, políticos, ideológicos ou outros devem ser tolerados. Será isto? Para o autor, qualquer discurso, seja de que forma e conteúdo for, deve ser tolerado em nome da liberdade do que chama expressão de pensamento.


Escreve ainda o autor João Brás que “As palavras não são ações e as ideias, pensamentos e opiniões devem poder ser debatidos, criticados, é esse o melhor modo de não se infantilizarem as pessoas, provarmos que há modos de viver e pensar mais decentes e dignos que outros...”. Esta é uma visão quimérica da realidade. Será que aqueles que se exprimem inicialmente por palavras para perseguirem etnias, raças e ideologias não se irão exprimir depois por ações? O ódio produzido por nazis contra judeus deveria de ser tolerado e de livre expressão porque no início não eram ações. Os factos comprovam que as palavras conduziram a ações. Mas, por outro lado, quem se manifestava contra o partido nazi através da expressão de pensamento era perseguido.


Será este o ponto de vista do autor que, justificado pela livre expressão de pensamento, se possa fazer a apologia e incitamento ao crime? Se assim for poderemos então defender publicamente que se persigam etnias, se proceda ao genocídio, fazer apologia ao nazismo, mesmo que se calcule possa levar a ações da prática de crimes e chacinas consequências da liberdade de expressão.


Não estou em crer que o autor não ficaria indignado e que não se importaria se, tal como escreve, a critica e o debate fossem “o melhor modo de não infantilizar as pessoas”, na circunstância de alguém, que não estivesse de acordo com o seu pensamento e não aceitasse a argumentação, o debate e a critica, o perseguisse, insultasse, ameaçasse de morte, injuriasse, lançasse suspeições de atos não foram por ele praticados, publicasse mensagens de ódio e ameaça à sua família, etc... E, caso esses discursos se mantivessem, qual bulling político, tal como jovens têm sido vítimas por outros colegas e outros agentes do ataque pessoal. O que pensa o autor sobre isto? Nada. Deixa campo aberto para tudo em nome da “sua liberdade de expressão” sob qualquer forma.


Continuo a questionar o autor sobre o que faria se, neste blogue, o difamasse, ofendesse, ameaçasse, acusasse, difundisse factos a seu respeito através de imagens falsas que o atingissem no seu bom nome e reputação, etc.? Se a tal procedesse e o divulgasse publicamente decerto que me poria um processo em cima dos costados. Onde estaria então o meu direito à liberdade de expressão?


Talvez através de retóricas argumentativas me demovesse de tudo o que disse e ameacei e debatesse comigo o meu pensamento e a minha opinião e fizesse a devida crítica. E, claro, logo depois, eu teria deixado os meus propósitos de ódio e retiraria tudo o que disse e passaria a ser um menino bem-comportado.  


Imagine-se que numa breve exposição de ideias se encetava uma conversa com um intolerante defensor do discurso de ódio e que, após uma breve exposição de ideias, lhe perguntamos então qual é o seu contra-argumento, e o interlocutor responde: - O meu argumento? É este o meu argumento -  mostra a arma que transporta. Penso que Karl Popper terá contado algo semelhante, não tenho a certeza.


Quando alguém lança numa rede social frases ofensivas e imagens com montagens falsamente comprometedoras de outro(a) esse(a) tem toda a liberdade de o fazer, será isto que o autor defende que não deve ser limitado? Isto parece-me ser tendencialmente uma liberdade de expressão sem limites, uma acracia da expressão.


Penso ser da mais comum racionalidade democrática que não se pode ferir a intimidade, privacidade, honra e imagem de outra pessoa. Logo, não se pode usar o argumento da liberdade de expressão para ferir outros direitos garantidos.


Termino com citações de Karl Popper sobre a tolerância em “A Sociedade Aberta e os Seus Inimigos” onde afirma que “a tolerância ilimitada leva ao desaparecimento da tolerância. Se estendermos a tolerância ilimitada mesmo aos intolerantes, e se não estivermos preparados para defender a sociedade tolerante do assalto da intolerância, então, os tolerantes serão destruídos e a tolerância com eles”.


Numa nota de rodapé ao capítulo 7 (p. 289; V.1, tradução, 1973) em "A Sociedade Aberta e os Seus Inimigos", Karl Popper escreveu que “o ‘paradoxo da liberdade’- a liberdade total leva à supressão dos fracos pelos fortes – e o "paradoxo da tolerância" - a tolerância ilimitada conduz ao desaparecimento da tolerância.”


Há países que ainda permitem uma variedade muito grande de discursos e ações com diversos espectros ideológicos. As democracias devem restringir discursos precursores de intolerância e de ódio que incitem à ação. A questão é descobrir como restringir, banir ou punir apenas e arranjar a solução certa. É difícil para as democracias centrarem-se nos discursos e grupos e partidos realmente perigosos e deixar o campo de ação o mais amplo possível do que é permitido. Numa primeira fase, algo terá de ser feito.