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segunda-feira, 23 de outubro de 2023

A verdade absoluta está contra o rebanho do ocidente

Rebanho do ocidente.png


Sobre a guerra Israel-Hamas tema da atualidade da veio-me à memória o tema filosófico da “guerra justa”, noção que se baseia na ideia de que o recurso à força se justifica sob certas condições e que o uso dessa força deve ser limitado a certa formas.


A teoria da guerra justa é um conceito proveniente da filosofia ocidental que é discutida desde a idade média por filósofos como São Tomás de Aquino e Santo Agostinho. Este tipo de guerra distingue-se do conceito islâmico de jihad que significa luta ou guerra santa que parte de uma base teocrática que se gere e submete a uma religião específica que, para os muçulmanos (alguns), é o único tipo de guerra justa.


É extremamente importante distinguir entre o conceito de uma guerra justa e a ideia de uma “guerra santa”. A teoria da guerra justa não apoia o conceito de travar guerras santas, cujo conceito é mais comumente expresso como uma guerra justificada com base em diferenças religiosas. De qualquer modo a teoria da guerra justa presume que há usos legítimos da guerra, mas também estabelece limites morais na condução da mesma.


Não é aceitável não tomarmos um lado do conflito e não estarmos a favor do povo palestiniano e também do povo israelita, mas, ao mesmo tempo, estarmos incondicionalmente contra o Hamas ou qualquer outro grupo terrorista. Da mesma forma deve exigir-se a Israel que cumpra as regras do Direito Internacional Humanitário de distinção, proporcionalidade, necessidade militar e humanidade, para considerarmos que seja uma guerra justa.


Como acontece com a maioria das questões do mundo atual, se um determinado conflito atende ou não a critérios de guerra é sempre objeto de debate. Assim, pode e deve discutir-se se devemos condenar ações graves no ato de defesa, ou se, pelo contrário, devemos ficar impávidos e serenos e inativos face a uma invasão por parte das forças invasoras a um país soberano ou a um ataque terrorista. O que é eticamente incorreto é ficar sem agir e desculpabilizar o invasor ou o terrorismo utilizando argumentos de desculpabilização para validar a invasão e o terror criticando o direito de à defesa como se fosse este o crime.


Claro que podemos criticar quem foi agredido, como o foi Israel, por um ataque de cobardia por parte de alguns opositores radicais e violentos como o Hamas que se entrincheirou em Gaza com mais de dois milhões de reféns palestinianos que são o seu maior escudo.


Se recorrermos a factos históricos Israel conduziu e cometeu erros vários tendo em vista a expansão do seu território e o estabelecimento de colonatos em espaços captados a outro povo. Podemos e devemos criticá-lo, mas não é por isso que deixam de ter direito a defenderem-se e à retaliação se atacados.


O distanciamento em situações como estas é difícil devido ao clima político radicalizado e à informação e contra informação, muita desta provenientes das redes sociais. Uns são o lado mau, outros o são lado bom, mas há uns que são piores do que outros. Ser independente na análise não significa ser neutro e não perdemos a objetividade   quando chamamos terrorista a um grupo que usa os métodos e os meios do terrorismo.


Ontem, 20 de outubro, publiquei aqui um texto sobre a inversão da realidades feita por partes em conflito com o título As esquerdas radicais e as narrativas de inversão do contexto. É um texto de opinião sobre como partes em conflito tentam inverter os factos em circunstâncias de guerra, trazendo cada um dos lados versões contrárias e a até antagónicas com a realidade.


Em 20 de outubro José Gil, filósofo e pensador português que, em Janeiro de 2005 a conceituada revista francesa Le Nouvel Observateur integrou José Gil no grupo dos 25 grandes pensadores do mundo, escreveu um artigo de opinião no jornal Público “O conflito Israel-Hamas: tomar partido” onde escreve: «Sobre o Hamas, o juízo que dele podemos formar parece mais simples: a sua crueldade hedionda e o seu poder político autocrático sobre a Faixa de Gaza não precisam do direito internacional para serem condenados. Basta a mais básica ética democrática. No entanto, há aqueles que fazem da comparação entre os crimes do Hamas e os crimes de Israel o critério para desculpar os primeiros – o que constitui uma aberração lógica e jurídica e testemunha um relativismo propriamente masoquista.»


É claro que o virar do avesso e a inversão dos factos é uma estratégia como então escrevi. “Assim, em política desenvolvida sobretudo em ocasião de guerra, criam-se narrativas de inversão em que os papéis dos “atores” são invertidos. O antagonista (o mau) pode tornar-se o protagonista (o bom) e o protagonista (o bom) pode tornar-se no antagonista (o mau). Isso pode levar a uma mudança na perceção do público orientando-o a reconsiderar as suas noções preconcebidas e a ter empatia pelos personagens que inicialmente consideravam vilões.”


O artigo de José Gil genialmente elaborado e escrito como eu não conseguiria escrever vem, subtil e objetivamente, corroborar, embora por outro ângulo de visão, o meu pensamento. Embora a minha posição seja crítica sobre os radicalismos de esquerda ela também cai sobre os radicalismos de direita, estejam eles de que lado do conflito estiverem.


Acedi a um blog que me pareceu ser um dos que criticam o comportamento do rebanho do ocidente, mas onde se nota haver o mesmo tipo de comportamento seguidista, mas do lado inverso.


Este tipo de rebanho ou manada de esquerda radicalizada que pretende ser original ao pôr-se sempre do lado oposto da possível razão, aproveita-se de momentos críticos para atacar tudo quanto sejam os princípios de respeito pela democracia liberal que venham do ocidente, seja da UE, seja dos EUA. Esse rebanho defende sempre quem ataca as democracias seja os que atacam a Ucrânia, sejam os terroristas que atacam pessoas indefesas como aconteceu recentemente com o Hamas a aterrorizar Israel e outros idênticos por todo o mundo. Colocam-se ao lado do Hamas escudando-se, obviamente, por detrás dos argumentos de apoio justamente devidos ao povo palestiniano. Pasme-se ainda que no referido blogue a invasão da Ucrânia é desmentida afirmando que ela foi um dos “pretensos ataques da Rússia na Ucrânia”. Veja-se até onde chega o desplante desta manada!


É um tipo de esquerda radical ( ou qualquer outra) que estão a vicejar que vivem e reclamam por democracia da qual se servem, mas com a qual, contraditoriamente, querem um dia acabar.  


Muitos afirmam que quando nos colocamos de um lado que a maioria defende por razões objetivas, há alguns que logo se apressam a escrever que todos aqueles pertencem à manada, ao rebanho ou lá o que eles chamam aos que dizem serem influenciados pela intoxicação e propaganda da informação do ocidente.


Esta é também uma forma de designar os que para eles estão errados porque não seguem os “infratores”, que ocupam e invadem, que com atos terroristas atacam gentes indefesas. Os procedem a bombardeamentos onde apenas vivem civis e invertem os factos dizendo que eram alvos militares que estavam ocultos esses é que estão certos. Isto é, os invasores, os atacantes é que estão certos, o “rebanho” do ocidente é que está errado. O que assim argumentam demonstram seguidismo ideológico e sectário onde se revela um ódio ao ocidente e, sobretudo, aos regimes livres onde se vive. O que aqueles pretendem é que os sigam as suas ideias com fé, que os venerem por serem os possuidores da verdade absoluta. Este pensamento conduzir-nos-ia ao totalitarismo, chamem-se eles fascismos, nazismos, estalinismos, sejam eles militares, civis ou teocráticos como no Irão.  


Termino com mais uma frase e uma pergunta de José Gil: «É verdade que, por detrás da impossibilidade de dar razão a uma das partes, permanece a consciência de que num lado funciona, apesar de tudo, uma democracia formal. Teria havido um tão largo apoio das democracias ocidentais a Israel se aí vigorasse um regime político totalitário e sanguinário?».

sexta-feira, 20 de outubro de 2023

As esquerdas radicais e as narrativas de inversão do contexto

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"Manifestações pró-Hamas em toda a Europa são horripilantes". "As manifestações pró-Hamas em massa nos Estados Unidos e na Europa são horríveis porque significam que há apoio positivo ao Hamas mesmo nas sociedades ocidentais". Irina Tsukerman


"Israel não está a tentar punir os civis de Gaza, está a tentar derrotar o Hamas e um exército que luta contra outra força pode privá-los de comida". Professor Eugene K..


A dialética do avesso é a dialética dos radicais de esquerda, (auto negação do negativo e negar que o ataque do Hamas não foi terrorista foi ato de libertação), ativando a intencionalidade de propagação do negativo para que se torne positivo. É a culpabilização da vítima e com apologia do agressor.


É a inversão de papéis. É o ato de virar do avesso algo que estava na posição certa. Isto é, “colocar do avesso” os factos é deixar que o que antes estava certo seja colocado de forma contrária. É criar um sentido que é contrário aos dos factos É virar do avesso as posições de cada um dos atores em presença na tentativa de modificar a aparência e a essência enquanto ideia principal da realidade.


Relatar histórias e divulgar factos que se desviam das convenções e expectativas típicas de um determinado acontecimento, sobretudo em situações de guerras ou agressões terroristas são uma forma de narrativa política verificada em contextos de confronto político e ideológico. São narrativas de inversão que visam, frequentemente, desafiar normas estabelecidas, provocar reflexão por mudança de sentido e oferecer perspetivas contrárias ao tema ou facto que se desenrolam.


Uma das formas mais comum de manifestação duma narrativa de inversão por parte da informação por organizações, movimentos ou partidos políticos é a da inversão de papéis. Esta inversão verifica-se sempre que duas fações, uma nação ou povo estão em confronto, sobretudo em situação de guerra, e também quando há uma beligerância que depende dum grupo de rebeldes dotados duma organização que controla parte de um território assim como a sua população e colocam em causa a legitimidade dum governo ou dum povo.


De acordo com os elementos duma narrativa tradicional, escrita ou verbalizada, o protagonista é normalmente o personagem com quem o público simpatiza e apoia, enquanto o antagonista se opõe aos objetivos do protagonista. Estes “atores” em cena, conforme os ângulos e perspetivas político-ideológicas, podem trocar de posições segundo os vários pontos de vista. Considerando o atual contexto de guerra de Israel contra a organização terrorista Hamas esta situação está a verificar-se.


Assim, em política desenvolvida sobretudo em ocasião de guerra, criam-se narrativas de inversão em que os papéis dos “atores” são invertidos. O antagonista (o mau) pode tornar-se o protagonista (o bom) e o protagonista (o bom) pode tornar-se no antagonista (o mau). Isso pode levar a uma mudança na perceção do público orientando-o a reconsiderar as suas noções preconcebidas e a ter empatia pelos personagens que inicialmente consideravam vilões.


É com tentativas de inversão que as esquerdas radicais em todo o Mundo, em Portugal representados pelo PCP, pelo BE e outros esquerdistas, pretendem instigar o público a colocar-se em situação crítica para com os israelitas  


Veja-se o caso da guerra da Ucrânia em que a Rússia pela voz do seu presidente Vladimir Putin e dos seus porta-vozes quando atribuem a causa da invasão daquele país ao Ocidente (EU, EUA e NATO) associada à pretensão destes pretenderem invadir e bloquear a Rússia.


As narrativas de inversão desafiam os papéis tradicionais, as normas e as dinâmicas de poder num determinado contexto e ainda subverter as expectativas sociais. Ao fazê-lo, promovem o pensamento crítico e a reflexão sobre estas normas no sentido de incentivarem o público a questionar e, potencialmente, a mudar as suas próprias perspetivas.


As narrativas de inversão podem empregar outras técnicas, como reviravoltas na enredo de opiniões e no desenvolvimentos inesperados de atitudes para desafiar as expectativas e criar surpresa ou tensão.


Os dispositivos para a inversão e adulteração de factos ocorre sob a forma de comentários, opiniões, documentários, peças jornalísticas e manifestações com narrativas que ajudam a envolver o público e a mantê-lo na dúvida sobre a ocorrência. Podem provocar reflexão, encorajar a empatia e promover uma compreensão oposta sobre questões complexas.


No geral, as narrativas de inversão em caso de guerras de agressão pretendem fornecer a visão contrária à veracidade do facto comprovado (inversão) atribuindo aos agredidos a responsabilidade de atos por eles não praticados transformando as vítimas em culpados, subvertendo as expectativas em favor de um dos lados, desafiando as abordagens convencionais. São as guerras paralelas de informação e contra informação no sentido de confundir o público.


Caso típico da inversão da narrativa é o caso do PCP que, sem condenar explicitamente o Hamas pelo ataque terrorista, tenta responsabilizar o ocidente pelo acontecido e reforçando a narrativa dos «crimes de guerra em curso na ação de massacre de Israel à Faixa de Gaza».


Nas redes sociais radicais de esquerda, sectários, antissemitas, falsos apoiantes e defensores dos palestinianos debitam frases hediondas, convocam manifestações anti Israel e clamam morte aos judeus, quais nazis do tempo de Hitler. Nas televisões são emitidos vídeos amadores captados por telemóveis em que se fazem proclamações de vingança e ódio contra Israel e o seu povo, acusando-o de barbárie ao mesmo tempo que esquecem a barbárie terrorista perpetrada pelo Hamas e o ataque ao Hospital Al-Ahli Arabi, na cidade de Gaza, que, supõe-se, terá sido efetuado pela Jihad Islâmica da Palestina, apesar de não haver a certeza de como este último facto aconteceu. A política de inversão de causas é diariamente arquitetada pelas forças hostis a Israel e emitida pelos mais diversos canais.


No dia 16 de outubro o jornal Público noticiou que Paulo Raimundo do PCP «acusa a UE de ‘hipocrisia e cinismo’ no conflito entre Israel e Hamas quando apresentou as conclusões da reunião do comité central. Paulo Raimundo criticou a ‘clamorosa hipocrisia e cinismo’ em torno do conflito entre Israel e o Hamas, considerando que aqueles que ‘estiveram calados anos sucessivos’ sobre a ocupação da Palestina por Israel ‘também se calaram’ agora perante os ‘crimes de guerra em curso na ação de massacre de Israel à Faixa de Gaza’». A pergunta que podemos fazer ao PCP é a de saber e resolver o problema que avançam e tendo a Palestina sido ocupada por Israel e ao mesmo tempo se quer devolver o território às populações originais, o que fazer ao povo de Israel?


Não venham as esquerdas radicais criticar opiniões e comentários que se fazem sobre o conflito israelo-palestiniano e que condenam o atentado terrorista do Hamas apenas porque são feitos por orientações de direita e capitalistas e que apoiam os EUA e o ocidente.  


Maria João Marques, com quem nem sempre estou de acordo escreveu no Público que «A hipocrisia da extrema-esquerda (por cá representada pelos setores ligados ao PCP e ao BE) ficou totalmente exposta. Não é possível passar a vida a gritar com estrépito supostamente em prol dos direitos humanos de minorias cada vez mais exíguas e, logo a seguir, aplaudir e defender todos os regimes onde são terraplanados os mais básicos direitos das mulheres, dos gays e lésbicas e das minorias étnicas ou religiosas. Podem dar as voltas retóricas que entenderem, que a hipocrisia fica com rabo de fora.»


Maria João continua escrevendo que a «Extrema-esquerda, manancial de ódio (e de perigo). É este o padrão da esquerda dita progressista olhando para o resto do mundo fora da Europa e Estados Unidos. Já estamos habituados. Porém, nas reações ao absolutamente desumano e absurdamente cruel ataque terrorista do Hamas a Israel, este viés hiperbolizou-se na esquerda radical para o mais acirrado ódio ao Ocidente, ao nosso modo de vida e aos nossos valores. Incluindo a democracia.»


E acrescenta que «Também percebemos: o que move esta esquerda radical não é a defesa de algo positivo (concorde-se ou não). É o ódio ao Ocidente por aquilo que é: capitalista, iluminista e rico por ser capitalista. E livre. Já dizia Orwell, no mesmo prólogo (traduzo): “A russomania corrente é só um sintoma do enfraquecimento da tradição liberal ocidental.” Não se é liberal nem democrata quando se defende regimes totalitários ou iliberais.», e que: «Em Stanford, um professor chamou aos alunos judeus “colonizadores”​ e menosprezou o Holocausto. Quanto antissemitismo. Associações de alunos de Harvard, em comunicado, culparam Israel pelos assassinatos, violações e raptos do Hamas. Manifestações antissemitas, celebrando até a “criatividade”​ do Hamas, foram avistadas em vários campus».


E termina afirmando «Que somos fracos, claro, e tão imbecis que cantamos louvores a qualquer violência não-branca. Que celebramos e nos aliamos a terroristas. Aplaudimos violência sobre quem tem modo de vida igual ao nosso — quem vai para um festival dançar, ouvir música, divertir-se, namorar, procurar parceiro para umas noites e criar boas memórias. No fundo, que merecemos a mesma violência».


Lendo os comentários ao artigo que criticam a autora ficamos a perceber da parte de onde vêm e que são absolutamente sectários. Esclareço, contudo, que não estou absolutamente do lado da política colonialista e expansionista de Israel, mas tenho em conta que atos de violência terrorista apenas agudizam os problemas. Até podemos considerar que este ato hediondo do Hamas tenha tido outras causas próximas que não tenham somente a ver com a questão israelo-palestiniana, mas que terceiros terão utlizado para gerar outros conflitos regionais para conseguirem os seus objetivos noutras áreas. Esta última parte é apenas uma hipótese, ou, se quiserem, uma espécie de teoria da conspiração que tem o valor que tem.


 

terça-feira, 15 de fevereiro de 2022

Fazer gala da violência e muito mais

Escrevi no Facebook: "E se eu especular dizendo que tudo o que se viu foi muito bem orquestrado para depois ser aproveitado para subir audiências, como escreveu Fernanda Câncio?


Este artigo de opinião vale mesmo a pena ser lido.


 


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Fernanda Câncio


in Diário de Notícias 15 Fevereiro 2022


Fazer gala da violência


Para esplendor da audimetria, a TVI decidiu fazer render uma acusação de violência doméstica sobre uma mulher confrontando, ao vivo e a cores, acusado e vítima. E, claro, teve nessa degradação o que queria - o programa mais visto do dia. Isto na era do "politicamente correto", do metoo e da "cancel culture". Olha se fosse na das cavernas.


"Alguma vez tiveste medo?"


A pergunta é de Cristina Ferreira, a diretora de programas da TVI e apresentadora da "gala" deste domingo do programa Big Brother, a uma concorrente. Em causa a sua relação com outro concorrente que fora nesse mesmo dia alvo de uma queixa pelo crime de violência doméstica contra ela - um crime público, o que significa que qualquer um que não apenas a vítima o pode denunciar às autoridades.


No caso, a denúncia foi apresentada pelo organismo público encarregado de promover a igualdade de género - a Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género - , num duplo simbolismo: o de frisar o dever de reporte de um crime com esta tipificação, responsável por grande parte dos homicídios cometidos em Portugal, e de este ter sido publicamente e publicitadamente cometido, já que foi através das imagens da interação dos dois concorrentes, divulgadas pela TVI, que dele se tomou conhecimento.


Cristina Ferreira, que várias vezes invocou, no passado recente, o feminismo a propósito de críticas e ataques de que tem sido alvo, frisando que muitos deles ocorrem por ser mulher - o que é verdade -, e que no programa garantiu até acaloradamente "lutar contra a violência doméstica", entendeu encenar, na dita gala, um tribunal, confrontando agressor e vítima com as imagens das suas interações, para a seguir lhes perguntar o que achavam do que viam. A inquirição foi precedida por um discurso inicial da apresentadora/diretora no qual anunciou que considera ter face aos concorrentes "um dever de imparcialidade e de não julgamento de qualquer tipo de comportamento". Esse dever, explicou, deriva da situação de exposição em que aquelas pessoas vivem, ao admitirem ser filmadas 24 sobre 24 horas.


Caberia perguntar se esse "dever de não julgamento" se aplicaria também a crimes, se em causa não estivesse precisamente a acusação de um crime - o que nos leva a concluir que sim, ela quer que concluamos que se aplica. Sucede que é difícil acreditar que Cristina Ferreira, que ali está na quádrupla condição de apresentadora, diretora, administradora e acionista do canal, se afirmasse imparcial e se eximisse de julgamentos caso um concorrente degolasse outro. Pelo que se calhar temos de admitir que ou não leva assim tão a sério o crime de violência doméstica ou acha que no caso não há crime nenhum. O que significa que, longe de ser imparcial e de não julgar, já julgou e decidiu, juíza na causa própria que é o seu programa no seu canal.


Só ter assim decidido explica que considerasse aceitável submeter às perguntas a que submeteu, e perante tão vasta audiência, uma mulher que pessoas muito mais habilitadas que ela (Cristina Ferreira) a reconhecer o crime em causa consideram estar a ser vítima de violência doméstica. Isto se se quiser partir do princípio - é aquele de que quero partir - de que Cristina Ferreira não está tão e apenas somente ralada com as audiências que mesmo admitindo ter ali uma vítima a quereria submeter, sob o álibi da "liberdade total" no contexto de um programa em que está 24 horas fechada com ele, à degradação de a colocar ainda mais sob o domínio do seu agressor ao afirmar publicamente que as suas manobras de controlo, a sua manipulação e agressividade física são manifestações de amor - submetendo-nos assim a todos à banalização e à desculpabilização do crime e à entronização do criminoso.


Não; acredito que simplesmente Cristina Ferreira não saiba o que é a violência doméstica, e, que como tantas outras pessoas, incluindo até, como é conhecido, juízes, ache que se não houver ossos partidos, hematomas e hemorragias, e se a vítima disser que está tudo bem, está tudo bem e não há crime algum. Que não saiba, como tão bem explicou o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos em alguns acórdãos recentes, que a violência doméstica é tortura porque visa a humilhação, o rebaixamento e o controlo absoluto da vítima, transformando-a em objeto à sua disposição.


Aliás, a apresentadora/diretora fez questão de afirmar, para justificar o facto de o acusado de violência doméstica não ter sido, como era exigido pela CIG e por tantos outros, retirado do programa, que todos os concorrentes estão a ser "avaliados diariamente" por uma equipa de médicos. Com esta afirmação, que repetiu por duas vezes, Cristina Ferreira quis certificar que não houve crime, que nenhum mal estava ali a ser causado à concorrente em causa, e que é tudo macaquinhos no sótão e "ódio" - usou esta palavra - de quem denunciou.


Para além de levantar assim uma questão deontológica interessantíssima à Ordem dos Médicos - quem raio são estes clínicos aos quais a produtora Endemol e o canal TVI imputam a decisão sobre a manutenção ou não de um acusado de violência doméstica num programa - Cristina Ferreira tornou assim claras, clarividentes, várias coisas.


Uma é que tudo o que disse sobre não se arrogar "julgar" é mesmo uma grande treta. Tão grande a treta que quem como eu seguiu ontem - por uma vez na vida, por razões profissionais, e para nunca mais, tal o nó nas tripas - toda a emissão da "gala" até ao fim teve oportunidade de ouvir a voz que faz de "grande irmão", ou seja, de ente que tudo vê e ouve, assegurar aos concorrentes que restaram após a expulsão ritual do acusado "por vontade do público" (claro, era preciso "entregar a decisão aos portugueses" para fazer render o suspense) que a concorrente alegadamente vítima estaria "com certeza" disponível para testemunhar a favor do expulso no eventual inquérito criminal.


O que nos leva a outra das evidências: ao questionar a concorrente sobre se se considera vítima, Cristina Ferreira sabia o que ela ia responder - jamais correriam, ela e o canal, o risco de serem acusados em direto de propiciarem, com a sua inação, um crime continuado.


E, por fim, que, alinhando com o discurso habitual dos agressores - que se queixam sempre de serem uns inocentes incompreendidos alvo de vinganças ou conspirações - Cristina Ferreira quis transformar a denúncia de que o concorrente e portanto o programa foram alvo numa questão de "ódio". Só faltou dizer a quem. Mas basta dar uma volta pelas redes sociais e ver as respostas dadas a quem denunciou para perceber: claro que é "ódio aos homens", "falta de peso", "frustração de mal amadas" - os insultos de sempre às feministas. "De puta para baixo", diria a Cristina Ferreira que vende livros à que faz gala da violência doméstica. Alguma vez terão falado?