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sábado, 6 de janeiro de 2024

Um verdadeiro Ano Novo precisa-se

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Já passaram as festas de Natal e do Ano Novo e o seu início desde já promete ficar cada vez mais corrompido pelo debate confronto político que se degrada à medida que se aproximam as datas das eleições previstas para este ano, penso eu.


Pelo início deste novo ano nada faz prever que mude, diz o meu oráculo. Comentadores políticos com a redundância assumida aceleram nas suas teses. São horóscopos que defendem com argumentos bem delineados, mas enganadores e intencionalmente dirigidos para defesa dos seus pontos de vista. Imaginam estes oráculos cenários, os piores possíveis, críticas a todas as políticas, sem exceção, de quem cessa funções e preconizam o nascer de sóis resplandecentes e alinham com a execução das promessas dos que se perfilam para a obtenção do poder, mesmo sabendo que elas são inexequíveis por um governo que pertença às suas filiações ou simpatias partidárias.


Os vaticínios que me são transmitidos são cantos enaltecidos e apologéticos. São promessas transitórias das direitas e das extremas-direita a elevarem-se na imprensa e nos espaços televisivos das notícias selecionadas e rigorosamente alinhadas com o que foi “dito”, mais do que o não “dito” e omitido, pelas intervenções dos responsáveis partidários das oposições de direita, tendencialmente contra o ainda Governo que cessa as suas funções exatamente a 7 de janeiro do presente ano.


O meu oráculo diz-me que os media recorrerão ao passado martelando e martirizando os ouvidos e os olhos dos telespectadores com as “maldades” várias do governo anterior e as mesmas “tags” (etiquetas) de sempre: corrupção, compadrio, favores, peculato, acompanhadas com fragmentos de peças do passado com casos e figuras mostrados insistentemente e escolhidos a dedo consoante os interesses partidários e orientações das vozes dos donos para garantia de influência mediática, em favor dos seus interesses partidários.


A saúde, sobretudo as urgências hospitalares, cuja principal causa está da epidemia gripal, terão diariamente palco, até à exaustão, nas aberturas dos jornais televisivos, como se isso fosse resolver os problemas que a direita não se atreve a dizer como resolver, porque sabe que não o conseguirá.  


Segundo o meu oráculo, as oposições, sobretudo as de direita, com a cooperação de denominados jornalistas de investigação, irão à busca de casos triviais mesmo que criticáveis são lançados para a opinião pública como sendo casos extraordinários mostrados ao modo de investidas dramáticas.


 O PCP fará dessas trivialidades ouvidos moucos porque, para eles, os desse partido, não são esses os principais problemas de que o país e o povo enfermam. Para eles o povo, os trabalhadores, os salários e as pensões são uma espécie de cassete em contínuo.


Dizem-me os meus oráculos que neste novo ano, até às eleições, continuarão comentadores e “opinadores” de serviço, sobretudo os simpatizantes da direita a direcionar as suas críticas pessoalizadas aos atores do adversário que mais os faz tremer. No entanto passam a achar que os jornalistas devem escavar, para escavacar a vida pessoal dos políticos, mas apenas quando calha a outros que não os da sua simpatia político-partidária. Se assim não for passarão logo a defender o escrutínio justiceiro pelos media e a considerar que esse deve ser também o seu papel. Assim falam porque Montenegro ultimamente está sob suspeita. João Miguel Tavares assim escreveu primeiro num ato de justificação, e depois Paulo Rangel do PSD a entrar no ato da defesa do líder.


O primeiro coloca em comparação Pedro Nunes Santos com Luís Montenegro porque, escreveu ele, que “Como eleitor, essas informações interessam-me, porque me ajudam a construir o perfil de um candidato”. Para tal desenvolve sobre os bens pessoais de cada um como sendo indicadores indispensáveis do perfil dos candidatos, Para Miguel Tavares parece que o perfil dos políticos em evidência de avaliasse pelos bens pessoais que possuem ou já possuíam ou como se o miserabilismo fosse o perfil adequado para o exercício da atividade política. Compara o que um tem e gosta com o que o outro tem e gosta, tornando-se óbvio e claro qual a intenção e o objetivo.


Ao analisarmos o artigo de João Miguel Tavares verificamos que, para atestar algo contra o Governo PS, defende o escrutínio rigoroso pelos media sobre a vida pessoal e posses dos políticos.


Paulo Rangel, numa entrevista que deu à Rádio Renascença e divulgada pelo jornal Público veio em defesa do líder do seu partido e afirmou sobre o caso Montenegro que “estranha “coincidências” e que “há” mão invisível contra Montenegro”.


Torna-se evidente a desculpabilização de Montenegro por Rangel já que atribui a culpa ao Governo. Vejam-se as perguntas e as respostas:


“O inquérito teve origem em denúncias anónimas. Há aqui uma mão invisível para atrapalhar a vida do líder do PSD?”


“Acho que há. Isto começou a surgir quando houve grandes problemas com o Governo.”


“Faz essa associação?”


“Estou a fazer uma associação puramente objetiva. A verdade é que aconteceu. Ao mesmo tempo é uma coincidência temporal, mas depois cada um interpreta como quiser. Mas o que mais admirei na posição de Luís Montenegro foi a não-vitimização, aguardar o inquérito e não fazer pressões para que decorra depressa ou devagar ou à tarde ou à noite.”


À pergunta sobre se “O líder do Chega dizia que Luís Montenegro tem de dar uma explicação cabal sobre o que está em causa no inquérito, inclusivamente mostrar os documentos. Como é que responde a isso? Luís Montenegro disse que não ia mostrar nada e entregar ao Ministério Público”.


“Uma comunicação social responsável não devia dar palco a esse tipo de populismo. É evidente que as vidas das pessoas, especialmente os seus detalhes, não têm que estar na comunicação social.”


Afirma o meu oráculo que o fator da crise das democracias, e também no caso português, é a política democrática estar sujeita a uma transformação pela sucessão contínua entre os media e a política. A autonomia das decisões políticas fica em risco e é condicionada pelos mecanismos dos media.


 


 


o domínio da política democrática pela sua transformação num contínuo político-mediático, que diminui a autonomia da decisão política e a torna cada vez mais dependente dos mecanismos da comunicação social e da sua evolução.


A atual necessidade de rapidez competitiva entre os media leva necessariamente à falta de rigor, à agressividade, à culpabilização antes da prova, à falta de racionalidade no que é escrito, dito e mostrado leva ao superficial, ao vulgar que arrasta neste círculo vicioso a própria política.


Verifica-se um fenómeno que é o de não se ter a política, os partidos e os políticos temos uma espécie de mescla o que é política, partidos e políticos com os media, neste caso considerando a imprensa, a rádio e a televisão que se influenciam mutuamente pela opinião pública.


Não foi o meu oráculo que me murmurou ao ouvido que “os factos, as opiniões, as interpretações são moldados por mecanismos mediáticos em que participam políticos e jornalistas, cada vez mais com uma cultura de acção semelhante e dependente de efeitos comunicacionais tais como a novidade, o timing, o tipo de resposta, a rapidez, a frase assassina, a falta de estudo e de rigor. As redes sociais e novas formas de acesso àquilo que passa por ser informação…”, foi Pacheco Pereira que escreveu no Público.


O meu oráculo diz-me que os que escrevinham artigos de opinião nos principais órgãos de comunicação, assim como os comentadores de serviço que são inspirados por “divindades intermediárias” irão traçar destinos maléficos, ou benéficos, consoante os interesses, tendentes a influenciar os votantes nas próximas eleições. Uns irão assinalar os recados enviados indiretamente nas intervenções da mais alta individualidade da nação que irão tomar como críticas ao Governo já em processo de demissão, mesmo que não o sejam e irão continuar a responsabilizá-lo por nada fazer. Utilizarão estribilhos muito queridos às esquerdas radicais e farão críticas, sem apresentarem soluções, centrando-se nos discursos do acesso à saúde, habitação e educação à qual acrescentam a justiça cuja reforma não lhes interessa, mas que nas bancadas gritam por não ter sido feita. Ouço eu. E, quando chegados ao poder, nada fazem. Interessa-lhes que tudo se mantenha na mesma, penso eu.


Quando as direitas usam nas suas intervenções aqueles slogans fazem-me recordar as palavras da canção de Sérgio Godinho (1974), palavras de ordem da extrema-esquerda após o 25 de Abril, estimulantes à rebelião popular,


Só há liberdade a sério


Quando houver


A paz, o pão, habitação


Saúde, educação


Só há liberdade a sério quando houver


Liberdade de mudar e decidir


Só lhes falta acrescentar:


Quando pertencer ao povo o que o povo produzir


E quando pertencer ao povo o que o povo produzir


 


Recuperar e revigorar o passado passará a ser o foco das direitas que, vendo reduzir ou desaparecer o seu espaço eleitoral, vão juntar-se na mesa para decidirem e tecerem estratégias para o banquete eleitoralista no sentido de obterem uma maioria parlamentar, ou senão, ocuparem o poder e dividir pelouros num futuro governo.


Uma Aliança Democrática versão 2024, PSD+CDS+PPM, parece destinada ao fracasso e poderá não ter efeito significante nos resultados eleitorais, digo eu. A dinâmica dos saudosos Francisco Sá Carneiro, Diogo Freitas do Amaral e Gonçalo Ribeiro Telles, quando a política era mesmo política e não era induzida pelos media, falha nesta AD forçada com líderes, especialmente como o do CDS, não vai resultar.


Poderemos vir a ficar surpreendidos ao percebermos o efeito marginal que esta aliança terá no eleitorado se mantiver o até agora discurso partidário pela negativa e pelo ataque sem nada para oferecer, sem programa claro e objetivo, com as promessas do costume se forem um potencial governo utilizando as mesmas capacidades retóricas populistas próximas do CHEGA.


O meu prenúncio para a justiça, e mais concretamente, para o desempenho do Ministério Público e da PGR não é animador devido à série de coincidências que se tem verificado entre o tempo da política e o tempo da justiça. A PGR não faz política, mas há muitas formas de manifestar os seus pareceres sobre política e as circunstâncias e as ocasiões e a forma como lança para a comunicação social o que está a investigar, e a escolha do tempo para o fazer pode vir a dar lugar a dúvidas sobre os métodos de que se serve.


Precisamente na véspera do dia da demissão do Governo que se limitará à prática dos atos estritamente necessários para assegurar a gestão dos negócios públicos os media tornam público dados que consideram serem novos e, estranhamente, sobre António Costa, exatamente no dia do início do 24.º Congresso Nacional do Partido Socialista. Estranhas coincidências na justiça, disse-me o oráculo.


Na política internacional continuarão muitos continuarão a perorar nas redes sociais (mas também alguns generais comentadores de política de guerra), talvez dissimuladamente defensores da invasão da Ucrânia pelo ditador Putin, a que tecem elogios.


À pergunta porquê responde-me a pítia do oráculo que é tudo por causa   da expansão da NATO ao Leste Europeu, à possibilidade de adesão da Ucrânia àquela aliança militar, à contestação ao direito da Ucrânia à soberania independente da Rússia e ao desejo de Vladimir Putin de restabelecer a zona de influência da antiga União Soviética, mas esquecem-se aqueles que  e é importante lembrar que a invasão violou o direito internacional e a soberania da Ucrânia, além de ter causado muitas mortes e deslocamentos . Tudo com a ajuda da influência da opinião pública por fatores como os media, a propaganda e a desinformação que Putin consegue por no terreno.


E acrescenta o oráculo porque aquelas pessoas são contra o imperialismo ocidental, mas que, ao mesmo tempo, apoiam o imperialismo estalinista de Putin na Rússia, digo eu. Estes mesmos também dizem ser defensores do povo palestiniano, sem que saibamos se, afinal, estão do lado da ala militar para a libertação da Palestina, o Hamas, organização, pró-terrorista que dizem estar do lado do povo e que, por isso, praticam atos terroristas e porque são contra os EUA. Esta organização é entendida por muitas nações como terrorista, e controla a Faixa de Gaza de maneira autoritária, dizem alguns analistas.


A pitonisa que profetisa o oráculo que consultei disse-me que o povo judeu, após o fim do holocausto e depois do Estado de Israel ter sido criado, graças à proposta da ONU de dividir o território da Palestina em duas nações, passou de vítima a agressor. São agora apontados por genocídio dos palestinianos, dizem uns, é o direito à defesa que a isso os obriga, dizem outros.


Israel ocupa indevidamente o território que devia ser de ambos os povos, no conceito de dois povos dois estados. Através duma violência que dizem ser pacífica, como se qualquer violência é pacífica, e a que chamam colunatos, expressão invasiva de território potencial e possivelmente palestiniano. Diz-me o meu oráculo que em novembro deste ano os EUA e o Mundo poderão estar em perigo se um certo senhor de perfil ditador nazi venha a ocupar o cargo mais importante daquele país.  Contudo, e pelo seu passado no anterior mandato o senhor Trump diz uma coisa e o seu contrário num curto espaço de tempo, digo eu.


Em 2022 elogiou as ações de Putin em relação à Ucrânia e reconheceu a independência de duas províncias separatistas da


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Ucrânia, além do envio de tropas russas para entrar no país e para supostamente proteger os enclaves, disse ele,  a ação de Putin era “genial” e Putin entraria na Ucrânia como um pacificador, dizia ele,  condenou a invasão da Ucrânia pela Rússia, que estava orando pelos ucranianos, passou ele a dizer, talvez por estratégia eleitoral, sobre isto o meu oráculo nada diz.


Para a Paz entre Israel e Palestina teve um plano em 2020 rejeitado pelos palestinos, propunha ele e uma solução de dois estados para o conflito, como ele resolveria o conflito face aos atuais cenários, ele não diz.

sexta-feira, 3 de novembro de 2023

Não basta acreditar e partilhar é preciso verificar

Faces da desinformação.png


Quando o jornalismo sensacionalista se sobrepõe à verdade e noticia narrativas como sendo a verdade dos acontecimentos e, como no caso do hospital em Gaza, toma como verídica apenas a informação de um dos lados, o Hamas, sem o confirmar nem validar com outras fontes, então está a trabalhar no sentido da propaganda e da desinformação proveniente de apenas um dos lados fazendo com que as suas narrativas vençam.


Por entre as guerras com mais visibilidade como são a da Ucrânia e a do Israel-Hamas há uma outra guerra que se desenrola fora do campo de batalha que envolve uma disputa pela mente e pela emoção das pessoas. É uma outra guerra que passa para o meio social que reage consoante o ambiente informativo.


Em tempo de guerra a desinformação surge em enxurrada e agrava-se com a contrainformação feita pelos Estados. A desinformação, algumas vezes gerada por ignorância, outras por premeditação pelas partes em confronto na tentativa de captar para as suas razões as opiniões públicas em vários países e a maior parte das vezes toma posições antagónicas.


É uma estratégia complementar à contrainformação cuja finalidade é enganar e fornecer informações falsas ou distorcidas, para confundir, desorientar ou desmoralizar. O seu objetivo é moldar a perceção pública da realidade e influenciar o decurso das operações captando a atenção do público. Associada à desinformação tem o efeito de poder ser aproveitada por cada uma das partes para levar o público a tirar ilações e interpretações consoante os seus interesses e, em tempos de conflito, tornou-se uma tendência para aproveitar mensagens provenientes de personalidades com influência. É por isso que devemos estar atentos aos riscos e à manipulação mediática que podem atingir a democracia, os direitos humanos e até a paz mundial.


Vem ao caso o discurso do Secretário-Geral António Guterres no Conselho de Segurança da ONU, a 24 de outubro, sobre a guerra entre Israel e o Hamas onde afirmou que “um tsunami de desinformação que está a alimentar a polarização e a desumanização. Devemos enfrentar as forças do antissemitismo, do fanatismo muçulmano e de todas as formas de ódio”, palavras que levaram Israel a exigir a sua demissão do cargo de secretário-geral das Nações Unidas. A partir de um discurso ou de uma opinião é sempre possível fazerem-se várias leituras consoante os pontos de vista que se pretendam evidenciar.


Os media (órgãos de comunicação social: imprensa, rádio, televisão e internet, sobretudo as redes sociais) têm um papel fundamental na difusão da informação podendo contribuir para a manipulação da opinião pública de modo a corresponder aos pontos de vista de cada uma das partes envolvidas num conflito.


A informação, quando fornecida em termos de propaganda, assenta na difusão de ideias, valores e informações com o objetivo de influenciar a opinião pública e o comportamento das populações e, frequentemente, tem a tendência para distorcer a realidade, criando falsas expectativas ou ilusões sobre o andamento ou o possível desfecho dum conflito/guerra.


Se, por um lado, numa situação de conflito bélico a comunicação social tem o dever de informar e esclarecer sobre os acontecimentos da guerra, por outro lado, também pode servir para influenciar o moral dos militares envolvidos nas operações e da população civil assim como mobilizar apoios e denunciar atrocidades e contribuir para a difamação dos inimigos. Durante a Segunda Guerra Mundial, com meios de comunicação muito mais rudimentares comparativamente aos de hoje, foi utilizada a propaganda para influência da opinião pública sobre os vários países envolvidos.


A comunicação social, sobretudo os canais de televisão, é um elemento essencial e poderoso da propaganda que possibilita influenciar e explorar os sentimentos de patriotismo, medo, ódio, esperança e até de culpa. Por outro lado, pode gerar ansiedade, pânico, ódio, preconceito e até violência contra os inimigos ou grupos minoritários dos elementos em confronto.


Assim, surge a contrainformação com a estratégia de enganar o adversário e as opiniões públicas das nações em confronto ao fornecer informações falsas ou distorcidas, para confundir, desorientar ou desmoralizar através da rádio, jornais, panfletos, cartazes, televisão e internet. As redes digitais passaram a fazer parte das operações militares nos conflitos armados podendo interromper o funcionamento de infraestruturas essenciais e serviços vitais para a população civil. Veja-se o que está a acontecer no conflito Israel-Hamas onde foram cortadas infraestruturas de água, energia e também de redes de comunicação com consequências devastadoras associadas a danos por bombardeamentos que afetam hospitais e outros serviços que deixam de funcionar total ou parcialmente para a população civil.


Os hackers são outros elementos que estão a contribuir para a desinformação. Como não são militares não agem de acordo com instruções oficiais das autoridades, mas tornam-se elementos participantes importantes na guerra moderna, a ciberguerra, e não se abstêm de cometer crimes de guerra se consideramos as "leis da guerra cibernética” criadas pela Cruz Vermelha que parece ninguém cumprir.


Não apenas em tempos de guerra, mas também quando há polarização entre estados ou grupos sociopolíticos os hackers podem apoiar voluntariamente um lado ou outro do conflito através operações nas redes digitais globais para combater o inimigo e gerar desinformação. Pode ser, por exemplo, piratear para recolher informações ou operações de sabotagem para destruir bases de dados importantes, ou ainda espalhar desinformação. Os hackers militares podem fazer tudo isto, mas obedecem a ordens, têm comando e representam uma das partes do conflito.


Para combater a manipulação através da desinformação restaria a censura aos diversos canais de informação, como parece estar a acontecer na Federação Russa, para restringir ou proibir informações e notícias consideradas perigosas, ofensivas ou subversivas para um Estado, um governo ou para a sociedade, mas isso é algo que não se pretende. A censura pode estabelecer-se por decreto e estar implícita em algumas redações de órgãos de informação onde se evitam algumas designações como, por exemplo, as que são feitas como ser o Hamas terrorista, como é o caso da BBC.


A BBC não atribui ao Hamas a designação “terrorista” o que é justificado por um artigo no site da BBC News onde o autor escreve que: “Mas isso não significa que devamos começar a dizer que a organização cujos apoiantes os levaram a cabo é uma organização terrorista, porque isso significaria que estávamos a abandonar o nosso dever de permanecer objetivos.”


Ao confundir-se isenção e neutralidade com objetividade parece de algum modo estar a confundir a opinião pública para lavar a face daquela organização. O facto é que foi mesmo um ato terrorista.


O Conselho de Segurança das Nações Unidas em outubro de 2004 na resolução 1566 considerou os atos de terrorismo “como atos criminosos, nomeadamente contra civis, cometidos com o intenção de causar morte ou lesões corporais graves, ou fazer reféns, com o propósito de provocar um estado de terror no público em geral ou num grupo de pessoas ou determinadas pessoas, intimidar uma população ou obrigar um governo ou uma organização internacional praticar ou abster-se de praticar qualquer ato que constitua crimes no âmbito e conforme definidos nas convenções internacionais e protocolos relativos ao terrorismo, não são em circunstância alguma justificáveis por considerações de ordem política, filosófica, ideológica, racial, étnica, religiosa ou outros de natureza semelhante, e apela a todos os Estados para que evitem tais atos e, se não prevenidos, para garantir que tais atos sejam punidos com penas compatíveis com a sua natureza grave.”


Independentemente do que o Hamas defenda o facto é que praticou um ato terrorista no dia 7 de outubro passado. Não podemos disfarçar ou esconder uma ação explícita não a nomeando ou fazendo esquecê-la. Chamar terrorismo à ação executada pelo Hamas não é perder a objetividade. Neste caso específico, como entre outros, a independência não é ser neutro porque neste caso o ser neutro é estar a favor das atrocidades cometidas.


Num conflito como é o do confronto entre Israel e da força militar do Hamas em que este último praticou um ato de terrorismo o jornalismo e a prestação da informação ao público, seja ele que media utilize, imprensa, rádio ou televisão tem a obrigação de verificar e validar as fontes e ter a precaução necessária quando não tem certezas. Quando o jornalismo sensacionalista se sobrepõe à verdade e noticia narrativas como sendo a verdade dos acontecimentos e, como no caso do hospital em Gaza, e toma como verídica apenas a informação de um dos lados, o Hamas, sem o confirmar nem validar com outras fontes, então está a trabalhar no sentido da propaganda e da desinformação proveniente de apenas um dos lados fazendo com que as suas narrativas vençam. Um órgão de comunicação que trabalhe assim estará a trabalhar pro bono para disseminar a propaganda como pretende a organização político militar Hamas, ou, como alguns lhe chamam, Movimento da Resistência Islâmica. Se for assim, a narrativa do Hamas já venceu, e isso pode ser um enorme problema para todos nós.


Combater a desinformação é um dos maiores desafios num mundo onde proliferam informações falsas que se espalham rapidamente. Para tal, deve ser incrementar o desenvolvimento crítico do pensamento em relação à informação que consumimos. Outro ponto importante é o da verificação de fontes de uma informação antes de acreditar e compartilhar. Esta verificação deve ser conferida através de se fonte confiável e se essa informação foi corroborada por fontes independentes e respeitáveis e não partilhar informações duvidosas ou sensacionalistas.


Combater a desinformação é uma responsabilidade que requer os nossos esforços e os da comunicação social.  A atenção e o cuidado preventivo no sentido de se estar vigilante e comprometido no sentido de se promoverem informações precisas e verificadas.


 

segunda-feira, 23 de outubro de 2023

Jornalismo e cautelas da informação em tempo de guerra



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Apesar de terem surgido muitas imagens e relatos reais do que se passou, foram misturados com outros conteúdos com afirmações falsas, usando e manipulando vídeos de outros acontecimentos.


Artigo que vale a pena ler com distanciamento que alerta para a veracidade dos factos e as cautelas a ter quando se propaga informação, por vezes falsa, que dizem ser notícia.


Hamas vs Israel vs Verdade









Chamar terrorista a um grupo que usa os métodos e os meios do terrorismo não é perder a objetividade. Ser independente na análise não significa ser neutro.







Não é humanamente possível, nem aceitável, não tomar um lado do conflito, pois devemos estar incondicionalmente a favor do povo palestiniano e do povo israelita, e incondicionalmente contra o Hamas ou qualquer outro grupo terrorista. Assim como, devemos exigir que Israel cumpra as regras do Direito Internacional Humanitário de distinção, proporcionalidade, necessidade militar e humanidade. Esta é a única posição internacional que fará com que este conflito diminua o número de vítimas e que permite manter a nossa humanidade. Não ter esta posição é aceitar sermos controlados pela narrativa do lado errado. De nada serve estar a favor dos palestinianos e não estar contra o Hamas, porque o Hamas não está a proteger os palestinianos. Nunca o fez. Os terroristas precisam de vítimas para continuarem a ser quem são. E os palestinianos são as suas vítimas de eleição.


Esta confirmação está patente nos quartéis em zonas urbanas civis, em armamento guardado em escolas, nas barricadas colocadas na estrada para impedir a fuga dos palestinianos depois dos avisos de Israel, no elogio público ao Egito por não abrir as fronteiras, no incitamento à permanência em Gaza, mesmo com a possibilidade de bombardeamentos e no lançamento de rockets de Gaza que caem em Gaza, culpando Israel.


O Hamas entrincheirou-se em Gaza com mais de dois milhões de reféns palestinianos que são o seu maior escudo. Se os civis saírem, a causa do Hamas fica enfraquecida e é uma enorme desvantagem neste confronto assimétrico. E tendo em conta que é um grupo terrorista, o seu grande objetivo é rentabilizar o máximo possível o número de vítimas e de mortos. Quanto mais mortos houver, mais responsabilidade pode colocar em Israel. O Hamas sabe que tem tanto mais hipóteses de ganhar força quanto mais elevado for o número de mortos palestinos, porque mais comoção causa na opinião pública e mais pressão a comunidade internacional fará sobre Israel.


Chamar terrorista a um grupo que usa os métodos e os meios do terrorismo não é perder a objetividade. Ser independente na análise não significa ser neutro. Porque ser neutro neste caso é ser a favor das atrocidades praticadas. Não é possível aceitar um grupo que tem uma filosofia de extermínio e de aniquilação de um povo, seja ele qual for.


Quem atacou primeiro é, nos dias de hoje, uma sequência irrelevante, porque quem atacou já foi atacado, e quem atacou porque foi atacado também já tinha sido atacado antes. Mas os que estão a atacar e a ser atacados não são os mesmos que estão a ser atacados no sofrimento e no desespero. E é para as vítimas civis dos dois lados que deve ir a nossa indignação e compaixão.


Sabendo que o Hamas e Israel são protagonistas de um dos conflitos mais difíceis do mundo, a imprensa internacional tem a obrigação deontológica de validar as fontes de informação e guiar-se pelo princípio da precaução quando não tem certezas. Porque não é aceitável que o jornalismo sensacionalista noticie as narrativas do Hamas como sendo a verdade dos acontecimentos. Como o que aconteceu com o ataque ao hospital em Gaza.


Quando Israel noticiou o ataque a civis e os raptos feitos pelo Hamas a 7 de outubro, toda a gente pediu provas, mas quando o Hamas noticiou o ataque ao hospital em Gaza a 17 de outubro e responsabilizou Israel, isso foi assumido como uma verdade. E o Hamas foi a única fonte de informação. No decurso da divulgação dessa notícia, as contestações contra Israel estenderam-se perigosamente a vários países e a possibilidade de líderes políticos negociarem uma solução foi mais uma vez adiada. É exatamente a reação de que os terroristas estão à espera.


Neste sentido, a imprensa internacional está a trabalhar pro bono para disseminar a propaganda que o grupo Hamas pretende. Até agora a narrativa do Hamas já venceu, e isto pode ser um enorme problema para todos nós.


A autora escreve segundo o novo acordo ortográfico





 

sexta-feira, 20 de outubro de 2023

As esquerdas radicais e as narrativas de inversão do contexto

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"Manifestações pró-Hamas em toda a Europa são horripilantes". "As manifestações pró-Hamas em massa nos Estados Unidos e na Europa são horríveis porque significam que há apoio positivo ao Hamas mesmo nas sociedades ocidentais". Irina Tsukerman


"Israel não está a tentar punir os civis de Gaza, está a tentar derrotar o Hamas e um exército que luta contra outra força pode privá-los de comida". Professor Eugene K..


A dialética do avesso é a dialética dos radicais de esquerda, (auto negação do negativo e negar que o ataque do Hamas não foi terrorista foi ato de libertação), ativando a intencionalidade de propagação do negativo para que se torne positivo. É a culpabilização da vítima e com apologia do agressor.


É a inversão de papéis. É o ato de virar do avesso algo que estava na posição certa. Isto é, “colocar do avesso” os factos é deixar que o que antes estava certo seja colocado de forma contrária. É criar um sentido que é contrário aos dos factos É virar do avesso as posições de cada um dos atores em presença na tentativa de modificar a aparência e a essência enquanto ideia principal da realidade.


Relatar histórias e divulgar factos que se desviam das convenções e expectativas típicas de um determinado acontecimento, sobretudo em situações de guerras ou agressões terroristas são uma forma de narrativa política verificada em contextos de confronto político e ideológico. São narrativas de inversão que visam, frequentemente, desafiar normas estabelecidas, provocar reflexão por mudança de sentido e oferecer perspetivas contrárias ao tema ou facto que se desenrolam.


Uma das formas mais comum de manifestação duma narrativa de inversão por parte da informação por organizações, movimentos ou partidos políticos é a da inversão de papéis. Esta inversão verifica-se sempre que duas fações, uma nação ou povo estão em confronto, sobretudo em situação de guerra, e também quando há uma beligerância que depende dum grupo de rebeldes dotados duma organização que controla parte de um território assim como a sua população e colocam em causa a legitimidade dum governo ou dum povo.


De acordo com os elementos duma narrativa tradicional, escrita ou verbalizada, o protagonista é normalmente o personagem com quem o público simpatiza e apoia, enquanto o antagonista se opõe aos objetivos do protagonista. Estes “atores” em cena, conforme os ângulos e perspetivas político-ideológicas, podem trocar de posições segundo os vários pontos de vista. Considerando o atual contexto de guerra de Israel contra a organização terrorista Hamas esta situação está a verificar-se.


Assim, em política desenvolvida sobretudo em ocasião de guerra, criam-se narrativas de inversão em que os papéis dos “atores” são invertidos. O antagonista (o mau) pode tornar-se o protagonista (o bom) e o protagonista (o bom) pode tornar-se no antagonista (o mau). Isso pode levar a uma mudança na perceção do público orientando-o a reconsiderar as suas noções preconcebidas e a ter empatia pelos personagens que inicialmente consideravam vilões.


É com tentativas de inversão que as esquerdas radicais em todo o Mundo, em Portugal representados pelo PCP, pelo BE e outros esquerdistas, pretendem instigar o público a colocar-se em situação crítica para com os israelitas  


Veja-se o caso da guerra da Ucrânia em que a Rússia pela voz do seu presidente Vladimir Putin e dos seus porta-vozes quando atribuem a causa da invasão daquele país ao Ocidente (EU, EUA e NATO) associada à pretensão destes pretenderem invadir e bloquear a Rússia.


As narrativas de inversão desafiam os papéis tradicionais, as normas e as dinâmicas de poder num determinado contexto e ainda subverter as expectativas sociais. Ao fazê-lo, promovem o pensamento crítico e a reflexão sobre estas normas no sentido de incentivarem o público a questionar e, potencialmente, a mudar as suas próprias perspetivas.


As narrativas de inversão podem empregar outras técnicas, como reviravoltas na enredo de opiniões e no desenvolvimentos inesperados de atitudes para desafiar as expectativas e criar surpresa ou tensão.


Os dispositivos para a inversão e adulteração de factos ocorre sob a forma de comentários, opiniões, documentários, peças jornalísticas e manifestações com narrativas que ajudam a envolver o público e a mantê-lo na dúvida sobre a ocorrência. Podem provocar reflexão, encorajar a empatia e promover uma compreensão oposta sobre questões complexas.


No geral, as narrativas de inversão em caso de guerras de agressão pretendem fornecer a visão contrária à veracidade do facto comprovado (inversão) atribuindo aos agredidos a responsabilidade de atos por eles não praticados transformando as vítimas em culpados, subvertendo as expectativas em favor de um dos lados, desafiando as abordagens convencionais. São as guerras paralelas de informação e contra informação no sentido de confundir o público.


Caso típico da inversão da narrativa é o caso do PCP que, sem condenar explicitamente o Hamas pelo ataque terrorista, tenta responsabilizar o ocidente pelo acontecido e reforçando a narrativa dos «crimes de guerra em curso na ação de massacre de Israel à Faixa de Gaza».


Nas redes sociais radicais de esquerda, sectários, antissemitas, falsos apoiantes e defensores dos palestinianos debitam frases hediondas, convocam manifestações anti Israel e clamam morte aos judeus, quais nazis do tempo de Hitler. Nas televisões são emitidos vídeos amadores captados por telemóveis em que se fazem proclamações de vingança e ódio contra Israel e o seu povo, acusando-o de barbárie ao mesmo tempo que esquecem a barbárie terrorista perpetrada pelo Hamas e o ataque ao Hospital Al-Ahli Arabi, na cidade de Gaza, que, supõe-se, terá sido efetuado pela Jihad Islâmica da Palestina, apesar de não haver a certeza de como este último facto aconteceu. A política de inversão de causas é diariamente arquitetada pelas forças hostis a Israel e emitida pelos mais diversos canais.


No dia 16 de outubro o jornal Público noticiou que Paulo Raimundo do PCP «acusa a UE de ‘hipocrisia e cinismo’ no conflito entre Israel e Hamas quando apresentou as conclusões da reunião do comité central. Paulo Raimundo criticou a ‘clamorosa hipocrisia e cinismo’ em torno do conflito entre Israel e o Hamas, considerando que aqueles que ‘estiveram calados anos sucessivos’ sobre a ocupação da Palestina por Israel ‘também se calaram’ agora perante os ‘crimes de guerra em curso na ação de massacre de Israel à Faixa de Gaza’». A pergunta que podemos fazer ao PCP é a de saber e resolver o problema que avançam e tendo a Palestina sido ocupada por Israel e ao mesmo tempo se quer devolver o território às populações originais, o que fazer ao povo de Israel?


Não venham as esquerdas radicais criticar opiniões e comentários que se fazem sobre o conflito israelo-palestiniano e que condenam o atentado terrorista do Hamas apenas porque são feitos por orientações de direita e capitalistas e que apoiam os EUA e o ocidente.  


Maria João Marques, com quem nem sempre estou de acordo escreveu no Público que «A hipocrisia da extrema-esquerda (por cá representada pelos setores ligados ao PCP e ao BE) ficou totalmente exposta. Não é possível passar a vida a gritar com estrépito supostamente em prol dos direitos humanos de minorias cada vez mais exíguas e, logo a seguir, aplaudir e defender todos os regimes onde são terraplanados os mais básicos direitos das mulheres, dos gays e lésbicas e das minorias étnicas ou religiosas. Podem dar as voltas retóricas que entenderem, que a hipocrisia fica com rabo de fora.»


Maria João continua escrevendo que a «Extrema-esquerda, manancial de ódio (e de perigo). É este o padrão da esquerda dita progressista olhando para o resto do mundo fora da Europa e Estados Unidos. Já estamos habituados. Porém, nas reações ao absolutamente desumano e absurdamente cruel ataque terrorista do Hamas a Israel, este viés hiperbolizou-se na esquerda radical para o mais acirrado ódio ao Ocidente, ao nosso modo de vida e aos nossos valores. Incluindo a democracia.»


E acrescenta que «Também percebemos: o que move esta esquerda radical não é a defesa de algo positivo (concorde-se ou não). É o ódio ao Ocidente por aquilo que é: capitalista, iluminista e rico por ser capitalista. E livre. Já dizia Orwell, no mesmo prólogo (traduzo): “A russomania corrente é só um sintoma do enfraquecimento da tradição liberal ocidental.” Não se é liberal nem democrata quando se defende regimes totalitários ou iliberais.», e que: «Em Stanford, um professor chamou aos alunos judeus “colonizadores”​ e menosprezou o Holocausto. Quanto antissemitismo. Associações de alunos de Harvard, em comunicado, culparam Israel pelos assassinatos, violações e raptos do Hamas. Manifestações antissemitas, celebrando até a “criatividade”​ do Hamas, foram avistadas em vários campus».


E termina afirmando «Que somos fracos, claro, e tão imbecis que cantamos louvores a qualquer violência não-branca. Que celebramos e nos aliamos a terroristas. Aplaudimos violência sobre quem tem modo de vida igual ao nosso — quem vai para um festival dançar, ouvir música, divertir-se, namorar, procurar parceiro para umas noites e criar boas memórias. No fundo, que merecemos a mesma violência».


Lendo os comentários ao artigo que criticam a autora ficamos a perceber da parte de onde vêm e que são absolutamente sectários. Esclareço, contudo, que não estou absolutamente do lado da política colonialista e expansionista de Israel, mas tenho em conta que atos de violência terrorista apenas agudizam os problemas. Até podemos considerar que este ato hediondo do Hamas tenha tido outras causas próximas que não tenham somente a ver com a questão israelo-palestiniana, mas que terceiros terão utlizado para gerar outros conflitos regionais para conseguirem os seus objetivos noutras áreas. Esta última parte é apenas uma hipótese, ou, se quiserem, uma espécie de teoria da conspiração que tem o valor que tem.


 

quarta-feira, 11 de outubro de 2023

Terrorismo e Palestina: O que outros dizem



Manifestação ProPalestina após terrorismo.png


Imagem Esquerda.net site do Bloco de Esquerda


Não é pró-Palestina. É anti-Israel, antissemita e pró-terrorismo









É conveniente chamar a estas reações vindas da parte da esquerda mais à esquerda aquilo que são: desumanidade e antissemitismo.


Um artigo de 


Maria João Marques-JPúblico.png



in Jornal Público


Dos mais vis ataques que me lembro de ver. O Hamas fez uma incursão em território israelita onde deliberadamente alvejou civis. Filmou tudo: queria que o mundo não ficasse com dúvidas sobre a sua barbárie (e não ficámos). Decapitou bebés. Raptou crianças pequenas e pôs em jaulas. Caçou mulheres num festival de música e exibiu-as depois do cativeiro, umas mortas e despidas com soldados sentados em cima do corpo, outras ensanguentadas no meio das calças. Provavelmente violadas – sabemos bem, desde o ISIS, o que fazem às raparigas que sequestram. Senhoras de idade raptadas. Famílias exterminadas em casa. Jovens do festival de música massacrados.






Com este nível de crueldade e desumanidade contra civis não pode haver contemplações, certo? Errado. A esquerda do PCP e do BE entrou em mais um poço moral, tal o ódio a Israel.


Estes dias notabilizaram-se pela sua mais imoral ausência de condenação do Hamas. Pelo contrário, julgaram oportuno culpar a ocupação israelita (atualmente existe nos colonatos na Cisjordânia, que nada tem que ver com o Hamas, mas não na Faixa de Gaza). Foi o caso de Marisa Matias ou Pedro Filipe Soares. No PCP, Alma Rivera chamou “vassalos” ao Governo português por condenar o Hamas e comentou que é “preciso ser muito asqueroso” num retuíte que fez de Ursula von der Leyen.


Para evitarem dizer o óbvio – os terroristas do Hamas estão no cimo do pódio ignóbil – li, do lado esquerdo, as mais originais desculpas para o atentado. Li que o Hamas – uma criação do Irão, que, de resto, lhe deu ajuda e armamento para o ataque de sábado; eleito em eleições livres de toda a população para governar Gaza, à altura explicado nas televisões e jornais portugueses que devido à magnífica obra social (não é ironia) dos terroristas – afinal foi uma criação de Israel.


Li que havia apartheid em Israel – porventura não sabem o que significou a palavra. E limpeza étnica e genocídio aos palestinianos – quando são 20% da população de Israel, vivem dentro do país quase sem episódios de violência e têm aumentado o número.


Em Lisboa houve uma manifestação, apoiada pelo BE, chamando ao ataque terrorista “ação de resistência” e dando como legítimos “qualquer meio à disposição” dos palestinianos de alvejarem Israel e israelitas. Uma sorte o Hamas não ter umas ogivas nucleares, ou estes bondosos cidadãos aplaudiriam o seu uso. Em Sydney, uma manifestação pró-Palestina gritou o slogan Gas the jews. Calhando não sabem que já foi feito e se chamou Holocausto.


É conveniente chamar a estas reações vindas da parte da esquerda mais à esquerda aquilo que são: desumanidade e antissemitismo. Agora mascarado de luta anticolonial (como se a questão Israel-Palestina tivesse que ver com colonialismo; mas temos de lhes perdoar, é o que aprendem lendo boletins de extrema-esquerda) e assanhado, porque muitos judeus foram para os Estados Unidos e este país (origem de todo o mal) é aliado de Israel.


Não se trata aqui, da minha parte, de endeusar ou branquear Israel. Netanyahu é um político capaz de tudo, inclusive vender-se aos judeus ultraortodoxos (tão indesejáveis quanto os islâmicos conservadores) e dar cabo da democracia israelita. Tão absorvido está por manter o seu poder que permitiu a invasão de Israel, Estado ultrassecuritário, pelo Hamas. Os longos excessos militares de Israel estão documentados (os do continuado terrorismo palestiniano também).


Os israelitas árabes, formalmente com os mesmos direitos, são desconsiderados pela população judaica. São mais pobres do que os conterrâneos judeus, menos escolarizados, com menos oportunidades efetivas. (Comparam-se, no entanto, melhor com os dos países vizinhos.) A criação de colonatos na Cisjordânia (nem parada pelos bem-intencionados Yitzak Rabin, Shimon Peres ou Ariel Sharon) é um atentado à possibilidade de paz.


Mas não é o tratamento aos palestinianos que indigna a esquerda pró-Palestina. Tanto que não se incomodam com o Egito, muito alegremente impedindo a circulação dos palestinianos de Gaza no seu território. Queixam-se do bloqueio a Gaza só como retórica anti-Israel; afinal o bloqueio é tão eficaz que lá entra armamento em barda; e Gaza tem uma fronteira com o Egito, país soberano e não às ordens de Israel. (Um polícia egípcio matou turistas israelitas já depois do ataque do Hamas, para demonstrar a simpatia do país pela causa palestiniana – desde que essa fique do lado de lá da fronteira.)


A liderança corrupta e incompetente da Fatah não os move. O terrorismo do Hamas e as ligações ao Irão também não. Os líderes do Hamas vivendo luxuosamente no Qatar (agora a tentar resolver a crise dos reféns israelitas, não vá a comunidade internacional cair-lhe em cima), longe da população pobre que governam – está tudo bem para a esquerda, oh tão preocupada com os palestinianos. O uso de escudos humanos da sua própria população pelo Hamas, presumo que julguem ideia genial. (Israel nunca o faria à sua população e os tribunais proibiram o uso de escudos humanos palestinianos.)


A total ausência de solidariedade dos países islâmicos com os palestinianos de Gaza – em perigo com a resposta de Israel – também lhes é pacífica. Não houve nenhum movimento para organizarem a saída de refugiados civis de Gaza pela fronteira com o Egito e acolhimento pelos países do Médio Oriente. Mas isso não faz mal. Só o possível corte da ajuda humanitária da União Europeia (muita dela desviada) é que os agita.


A necessidade de defesa de Israel para sobreviver – invadido várias vezes por todos os vizinhos, inclusive a seguir à independência; alvo de terrorismo continuado durante décadas; sem existência reconhecida por vizinhos e Hamas – é irrelevante. Os minimalistas Acordos de Oslo não terem produzido efeito, o Roadmap de Bush (o primeiro plano americano com a solução de dois Estados) ter sido recusado pelos palestinianos e os esforços de Obama para uma paz negociada se terem esfumado em menos de nada, mostrando uma continuada inflexibilidade palestiniana para um acordo de paz, bem, quem quer saber dessas picuinhices?


A indignação da esquerda pró-Palestina é muito seletiva. Pior: convive muito bem com o terrorismo mais cruel e degradante, quando é dirigido aos alvos de estimação. Uma esquerda que não cumpre critérios de decência para configurar em qualquer solução governativa. O PS que atente.


A autora é colunista do PÚBLICO e escreve segundo o novo acordo ortográfico