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quinta-feira, 9 de novembro de 2023

A emoção criada pela informação e pelas imagens que nos invadem

As emoções induzidas pelas imagens televisivas, assim como pelas opiniões que lemos, e pelos comentários que ouvimos sobre a guerra contra o Hamas após o ataque surpresa em modo terrorista no dia 7 de outubro condicionam a capacidade de análise sobre o tema.


Informação e imagem.png


O problema da guerra Israel-Hamas nos noticiários passou, nestes últimos dias, para segundo ou terceiro plano devido à crise política que, entretanto, se abriu no país. Todavia, não podemos esquecer que nada se alterou lá fora. Assim, publico na mesma o artigo apesar da controvérsia que se abriu no país, felizmente não de guerra com armas, mas com palavras o que, apesar dos inconvenientes, sempre é preferível. Mas a esse lá chegarei.


As emoções induzidas pelas imagens televisivas, assim como pelas opiniões que lemos, e pelos comentários que ouvimos sobre a guerra contra o Hamas após o ataque surpresa em modo terrorista no dia 7 de outubro condicionam a capacidade de análise sobre o tema.


A evidência dos factos que nos chegam pelos vários media mostram as evidências dos acontecimentos e, por isso não vale a pena afirmar-se que todos os media do mundo ocidental de direita e capitalistas mentem descaradamente. O Hamas acelerou um processo que lhe convinha porque mantinha a expectativa e sabia qual seria a resposta de Israel.


Há quem faça afirmações sem fundamento e confirmação, difunda informações e notícias falsas sobre o que se está a passar em Gaza. Dizem ser enganadoras e dadas por jornalistas da corrente dominante comprometidos com o ocidente que vão no sentido de favorecer Israel. Este tipo de informações e notícias têm o intuito de propaganda e muitas delas são falsas produzidas por sites, por bloggers controlados por apoiantes e simpatizantes do Hamas e pelas redes sociais.


Grita-se pelo fim da agressão a Gaza e pela paz. Temos de concordar, e muito bem! Referindo-me às circunstâncias históricas, mas às atuais, quem iniciou e atiçou comportamentos para a agressão? Se há motivos para que se defendam os palestinianos em relação a Israel, a defesa do povo de Israel também deve ser aceite. Há razões para que, arrastados pela emoção, ao apoiar-se o povo palestiniano como contraponto de posições extremistas contra Israel, estarmos também, face circunstâncias que deram origem ao conflito, estar a dar-se explicitamente apoio ao Hamas. Só não vê quem não quer! Parece estar a tornar-se um lugar-comum defender o atacante em detrimento do atacado, tal como tem acontecido com a guerra na Ucrânia.


Parece haver uma confusão entre o apoio que deve ser dado ao genuíno povo palestiniano e o apoio que se está a dar ao povo palestiniano assente na atividade do Hamas. O embaixador da palestina em Lisboa que representa o Estado palestiniano não é o mesmo que o Hamas.


Dizer aos palestinianos ou aos seus representantes legais que foram eles que começaram associando-os à atividade do Hamas é um erro. Se é certo que a atividade de Israel tem sido de agressão aos palestinianos e que esta tem causas remotas, e outras mais ou menos recentes, o caso é que, de facto, o Hamas foi a causa próxima que provocou as hostilidades agressivas de Israel. É inegável. Coloca-se uma pergunta do tipo La Palice: teria Israel regido como está a regir se o Hamas não tivesse desencadeado o macabro ataque terrorista de 7 de outubro?  Seria interessante obter possíveis respostas sem se recorrer ao já tantas vezes gasto argumento histórico recorrente sobre o passado e do que Israel fez, ou não, para justificação deste tipo de ataque do Hamas.


As extremas-esquerda do ocidente alinham com os radicais palestinianos e não com o setor moderado da Palestina, que reconheceu o Estado de Israel, e que o Hamas vê como traidor e inimigo. Este grupo militar defensor do terrorismo apropria-se do povo palestiniano de toda a faixa de Gaza e toma-o como sendo “seu” apelando ao extremismo que passa pelo extermínio de todos os judeus/israelitas com os aplausos das extremas-esquerdas em todo o mundo aliados ao extremismo islâmico.


Tem de haver uma intervenção da “comunidade internacional”, (boas intenções, visto a realidade mostrar ser diferente), para evitar futuros massacres macabros e antissemitas como os de 7 de outubro de 2023. Não podemos também deixar de mencionar os massacres contrários à ordem humanitária internacional como a intervenção de Israel em Gaza para se evitar uma escalada internacional caminhar para uma solução, o que do meu ponto de visita será improvável.


Como em qualquer guerra, devido a necessidades militares, mostra-se o desprezo pela vida dos outros, a maior parte das vezes dos inocentes. Apenas neste ponto a disponibilidade para matar intencionalmente pode aparece mais evidente no terrorismo do Hamas porque não foi por acidente foi intencional. Desconhecemos se os israelitas têm a intencionalidade de ir para além das necessidades militares. Pensemos que não. Não será que o Hamas, do modo como agiu e está a agir e sem que haja qualquer ação que o pare, não servirá de estímulo ao terrorismo para continuar sem limite sem haja ninguém que o trave.


As opiniões em confronto encontram-se extremadas, de um lado a defesa de incondicional de Israel, do outro a defesa incondicional do Hamas, envolto no nevoeiro por onde mostra estar em defesa do povo palestiniano. Ambos são uma ilusão porque nos dois povos há os que não são flor que se cheire. Ambos têm responsabilidades. Talvez até a maior quota de responsabilidade possa ter vindo de Israel ao longo do tempo.


É o Hamas que iniciou o conflito e é sobre ele que deve estar o centro das atenções porque não atacou militares, atacou e massacrou civis e este procedimento não tem qualquer como sendo para a libertação do povo palestiniano. Tal como a Rússia (Putin) iniciou a invasão da Ucrânia com argumentos comprovadamente forjados, também os que se dizem ser os representantes do povo palestiniano ao cometerem aquele ato indigno abriram a Caixa de Pandora que, provavelmente, Israel há muito estava desejoso para iniciar e amplificar um conflito há muito suspenso.


A extremas-esquerdas em conjunto com as extremas-direitas de índole nazi encontraram um pretexto para o que há muito procuravam, atacar diretamente Israel com o pretexto de defesa do povo palestiniano, e, indiretamente, atacar os EUA e os seus aliados do ocidente misturando o slogan anticapitalista.


Podemos perguntar onde estavam as extremas-esquerdas quando se viram imagens da cidade de Mariupol, na Ucrânia, arrasada pelas tropas de Putin a ser transformada num monte de escombros. Como a distinguir dos bairros de Gaza arrasados pelas bombas israelitas? Dois pesos e duas medidas?


O que se está a passar na maior parte dos países aproxima-se do que se passou nos anos 30 do século passado na fase inicial da atividade do Partido Nazi da Alemanha. A perseguição aos judeus pelo partido nazi também começou de forma gradual e intensificou-se ao longo do tempo com a marginalização social dos judeus que atingiu o auge com a implementação das “Leis de Nuremberg” em 1935 que impôs uma série de restrições severas aos judeus. Acresce ainda a chamada Noite dos Cristais em 9 e 10 de novembro de 1938 quando uma onda de violência em massa contra judeus na Alemanha e na Áustria marcou o início da escalada da perseguição nazi em que quase 100 judeus foram mortos durante atos de violência que abriu a porta para o Holocausto. Estas ocorrências representam alguns dos momentos mais sombrios da história humana.


As democracias começam a ficar em perigo. A proliferação do neonazismo que embora de forma tímida, estava em curso gruda-se agora às manifestações promovidas pelas extremas-esquerdas e começa a promover a sua visibilidade apoiando e lançando slogans antissemitas. Podemos perguntar se os que agora atacam Israel serão os mesmos, ou se serão os descendentes dos que antes se colocaram contra o nazismo, o fascismo e o Holocausto dos judeus?


Segundo o The Washington Post em 2 de novembro podia ler-se: «na Universidade de Washington, em Seattle, dezenas de estudantes gritaram "Só há uma solução!". Na Cooper Union, em Manhattan, um grupo de estudantes judeus foi trancado na biblioteca enquanto manifestantes pró-Hamas batiam nas portas a gritar "globalize-se a intifada de Nova York a Gaza!". Na Universidade George Washington estudantes escreveram mensagens antissemitas na parede duma biblioteca escolar que tem o nome de  benfeitores judeus. Um professor da Universidade Cornell declarou num comício que estava "entusiasmado" com a matança do Hamas. Um professor da Universidade de Columbia chamou aos ataques do Hamas de "impressionantes" e "surpreendentes". Em Harvard, onde houve várias manifestações, um orador declarou a cerca de mil manifestantes que os autores do massacre "não eram terroristas", mas "libertadores". Noutra marcha de Harvard, estudantes pró-Hamas empurraram e assediaram fisicamente um estudante judeu - ecoando o recente assédio a um jovem refém israelense em Gaza».


O radicalismo está a surgir da sombra em que encontrava e passou a vir para descoberto estando a arrastar pessoas e jovens com formação a usar a linguagem dos movimentos populares de violência, do tipo holocausto, organizados contra grupos étnicos ou religiosos e outros. Aproveitando o motivo a sua alegada defesa do povo palestiniano manifestam este ódio absoluto a judeus, só por serem judeus.


São poucos os movimentos contra o extremismo religioso muçulmano. O radicalismo e extremismo religioso muçulmano estão há muito presentes sendo estimulados por países dominados por teocracias antidemocráticas como é, por exemplo, o Irão.


As manifestações contra o regime iraniano opressor de mulheres quando da morte de Mahsa Aminida e de outra estudante iraniana, Armita Geravand, “agredida por não usar véu islâmico” foram escassas ou inexistentes, mesmo os apoiantes incondicionais no ocidente aos palestinianos. Será por o regime de Teerão ser xiita? A maior parte grande maioria da população da Palestina (93%) é muçulmana sunita. Embora exista uma forte minoria cristã (6% da população), a liberdade religiosa, especialmente em Gaza, sob o domínio do Hamas, é limitada.


O Hamas, sendo predominantemente sunita, é uma organização política e militar que defende uma série de princípios, conforme descrito na sua Carta de Princípios de 1988 que estabelecem a destruição de Israel, a oposição à existência de um Estado de Israel, a defesa da luta armada como único meio para libertar a Palestina e rejeitam qualquer negociação com Israel. É a guerra, e não a paz, assim como a rejeição de negociação pacífica que defende quem está do lado do Hamas. Quem está desse lado defende a Sharia, a chamada Lei Islâmica, defende o controle da forma como as mulheres se vestem e impõe a segregação de género em público.


As extremas-esquerda ao defenderem com unhas-e-dentes a política palestiniana (mas qual delas?) estão, implicitamente, a defender o terrorismo praticado pelos seus braços armados do Hamas que usa a população civil como proteção para se defenderem quando atacados e para os seus atos de ataque e de terror.


Este tipo de radicalismo islâmico defendido pelo Hamas está associado ideologicamente em alguns pontos a grupos como o Estado Islâmico e a Al-Qaeda que procuram estabelecer um Estado islâmico através da jihad, a chamada “guerra santa” transformando a suas ações como “banalidade do mal” de Arendt. No entanto, é de salientar que a grande maioria dos muçulmanos em todo o mundo condena o terrorismo e a violência cometida por esses grupos radicais.


Após o conflito Israel-Hamas tem sido convocada em todo o mundo manifestações de apoio ao povo palestiniano, mas esquecendo-se que este conflito é contra o Hamas, apesar de Israel ao longo de décadas ter mostrado uma política expansionista empurrando o povo palestiniano. Mas isso é outra conversa. O que me surpreende é que esquerda que é super progressista sobre tudo quanto sejam direitos das mulheres, defesa das liberdades, apoios a LGBTI+ e todos esses movimentos não convoca manifestações nem se solidariza em defesa dos direitos humanos e das mulheres nem contra as perseguições do regime iraniano ao povo, nem contra a polícia dos costumes nesses países.


 

sexta-feira, 3 de novembro de 2023

Não basta acreditar e partilhar é preciso verificar

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Quando o jornalismo sensacionalista se sobrepõe à verdade e noticia narrativas como sendo a verdade dos acontecimentos e, como no caso do hospital em Gaza, toma como verídica apenas a informação de um dos lados, o Hamas, sem o confirmar nem validar com outras fontes, então está a trabalhar no sentido da propaganda e da desinformação proveniente de apenas um dos lados fazendo com que as suas narrativas vençam.


Por entre as guerras com mais visibilidade como são a da Ucrânia e a do Israel-Hamas há uma outra guerra que se desenrola fora do campo de batalha que envolve uma disputa pela mente e pela emoção das pessoas. É uma outra guerra que passa para o meio social que reage consoante o ambiente informativo.


Em tempo de guerra a desinformação surge em enxurrada e agrava-se com a contrainformação feita pelos Estados. A desinformação, algumas vezes gerada por ignorância, outras por premeditação pelas partes em confronto na tentativa de captar para as suas razões as opiniões públicas em vários países e a maior parte das vezes toma posições antagónicas.


É uma estratégia complementar à contrainformação cuja finalidade é enganar e fornecer informações falsas ou distorcidas, para confundir, desorientar ou desmoralizar. O seu objetivo é moldar a perceção pública da realidade e influenciar o decurso das operações captando a atenção do público. Associada à desinformação tem o efeito de poder ser aproveitada por cada uma das partes para levar o público a tirar ilações e interpretações consoante os seus interesses e, em tempos de conflito, tornou-se uma tendência para aproveitar mensagens provenientes de personalidades com influência. É por isso que devemos estar atentos aos riscos e à manipulação mediática que podem atingir a democracia, os direitos humanos e até a paz mundial.


Vem ao caso o discurso do Secretário-Geral António Guterres no Conselho de Segurança da ONU, a 24 de outubro, sobre a guerra entre Israel e o Hamas onde afirmou que “um tsunami de desinformação que está a alimentar a polarização e a desumanização. Devemos enfrentar as forças do antissemitismo, do fanatismo muçulmano e de todas as formas de ódio”, palavras que levaram Israel a exigir a sua demissão do cargo de secretário-geral das Nações Unidas. A partir de um discurso ou de uma opinião é sempre possível fazerem-se várias leituras consoante os pontos de vista que se pretendam evidenciar.


Os media (órgãos de comunicação social: imprensa, rádio, televisão e internet, sobretudo as redes sociais) têm um papel fundamental na difusão da informação podendo contribuir para a manipulação da opinião pública de modo a corresponder aos pontos de vista de cada uma das partes envolvidas num conflito.


A informação, quando fornecida em termos de propaganda, assenta na difusão de ideias, valores e informações com o objetivo de influenciar a opinião pública e o comportamento das populações e, frequentemente, tem a tendência para distorcer a realidade, criando falsas expectativas ou ilusões sobre o andamento ou o possível desfecho dum conflito/guerra.


Se, por um lado, numa situação de conflito bélico a comunicação social tem o dever de informar e esclarecer sobre os acontecimentos da guerra, por outro lado, também pode servir para influenciar o moral dos militares envolvidos nas operações e da população civil assim como mobilizar apoios e denunciar atrocidades e contribuir para a difamação dos inimigos. Durante a Segunda Guerra Mundial, com meios de comunicação muito mais rudimentares comparativamente aos de hoje, foi utilizada a propaganda para influência da opinião pública sobre os vários países envolvidos.


A comunicação social, sobretudo os canais de televisão, é um elemento essencial e poderoso da propaganda que possibilita influenciar e explorar os sentimentos de patriotismo, medo, ódio, esperança e até de culpa. Por outro lado, pode gerar ansiedade, pânico, ódio, preconceito e até violência contra os inimigos ou grupos minoritários dos elementos em confronto.


Assim, surge a contrainformação com a estratégia de enganar o adversário e as opiniões públicas das nações em confronto ao fornecer informações falsas ou distorcidas, para confundir, desorientar ou desmoralizar através da rádio, jornais, panfletos, cartazes, televisão e internet. As redes digitais passaram a fazer parte das operações militares nos conflitos armados podendo interromper o funcionamento de infraestruturas essenciais e serviços vitais para a população civil. Veja-se o que está a acontecer no conflito Israel-Hamas onde foram cortadas infraestruturas de água, energia e também de redes de comunicação com consequências devastadoras associadas a danos por bombardeamentos que afetam hospitais e outros serviços que deixam de funcionar total ou parcialmente para a população civil.


Os hackers são outros elementos que estão a contribuir para a desinformação. Como não são militares não agem de acordo com instruções oficiais das autoridades, mas tornam-se elementos participantes importantes na guerra moderna, a ciberguerra, e não se abstêm de cometer crimes de guerra se consideramos as "leis da guerra cibernética” criadas pela Cruz Vermelha que parece ninguém cumprir.


Não apenas em tempos de guerra, mas também quando há polarização entre estados ou grupos sociopolíticos os hackers podem apoiar voluntariamente um lado ou outro do conflito através operações nas redes digitais globais para combater o inimigo e gerar desinformação. Pode ser, por exemplo, piratear para recolher informações ou operações de sabotagem para destruir bases de dados importantes, ou ainda espalhar desinformação. Os hackers militares podem fazer tudo isto, mas obedecem a ordens, têm comando e representam uma das partes do conflito.


Para combater a manipulação através da desinformação restaria a censura aos diversos canais de informação, como parece estar a acontecer na Federação Russa, para restringir ou proibir informações e notícias consideradas perigosas, ofensivas ou subversivas para um Estado, um governo ou para a sociedade, mas isso é algo que não se pretende. A censura pode estabelecer-se por decreto e estar implícita em algumas redações de órgãos de informação onde se evitam algumas designações como, por exemplo, as que são feitas como ser o Hamas terrorista, como é o caso da BBC.


A BBC não atribui ao Hamas a designação “terrorista” o que é justificado por um artigo no site da BBC News onde o autor escreve que: “Mas isso não significa que devamos começar a dizer que a organização cujos apoiantes os levaram a cabo é uma organização terrorista, porque isso significaria que estávamos a abandonar o nosso dever de permanecer objetivos.


Ao confundir-se isenção e neutralidade com objetividade parece de algum modo estar a confundir a opinião pública para lavar a face daquela organização. O facto é que foi mesmo um ato terrorista.


O Conselho de Segurança das Nações Unidas em outubro de 2004 na resolução 1566 considerou os atos de terrorismo “como atos criminosos, nomeadamente contra civis, cometidos com o intenção de causar morte ou lesões corporais graves, ou fazer reféns, com o propósito de provocar um estado de terror no público em geral ou num grupo de pessoas ou determinadas pessoas, intimidar uma população ou obrigar um governo ou uma organização internacional praticar ou abster-se de praticar qualquer ato que constitua crimes no âmbito e conforme definidos nas convenções internacionais e protocolos relativos ao terrorismo, não são em circunstância alguma justificáveis por considerações de ordem política, filosófica, ideológica, racial, étnica, religiosa ou outros de natureza semelhante, e apela a todos os Estados para que evitem tais atos e, se não prevenidos, para garantir que tais atos sejam punidos com penas compatíveis com a sua natureza grave.


Independentemente do que o Hamas defenda o facto é que praticou um ato terrorista no dia 7 de outubro passado. Não podemos disfarçar ou esconder uma ação explícita não a nomeando ou fazendo esquecê-la. Chamar terrorismo à ação executada pelo Hamas não é perder a objetividade. Neste caso específico, como entre outros, a independência não é ser neutro porque neste caso o ser neutro é estar a favor das atrocidades cometidas.


Num conflito como é o do confronto entre Israel e da força militar do Hamas em que este último praticou um ato de terrorismo o jornalismo e a prestação da informação ao público, seja ele que media utilize, imprensa, rádio ou televisão tem a obrigação de verificar e validar as fontes e ter a precaução necessária quando não tem certezas. Quando o jornalismo sensacionalista se sobrepõe à verdade e noticia narrativas como sendo a verdade dos acontecimentos e, como no caso do hospital em Gaza, e toma como verídica apenas a informação de um dos lados, o Hamas, sem o confirmar nem validar com outras fontes, então está a trabalhar no sentido da propaganda e da desinformação proveniente de apenas um dos lados fazendo com que as suas narrativas vençam. Um órgão de comunicação que trabalhe assim estará a trabalhar pro bono para disseminar a propaganda como pretende a organização político militar Hamas, ou, como alguns lhe chamam, Movimento da Resistência Islâmica. Se for assim, a narrativa do Hamas já venceu, e isso pode ser um enorme problema para todos nós.


Combater a desinformação é um dos maiores desafios num mundo onde proliferam informações falsas que se espalham rapidamente. Para tal, deve ser incrementar o desenvolvimento crítico do pensamento em relação à informação que consumimos. Outro ponto importante é o da verificação de fontes de uma informação antes de acreditar e compartilhar. Esta verificação deve ser conferida através de se fonte confiável e se essa informação foi corroborada por fontes independentes e respeitáveis e não partilhar informações duvidosas ou sensacionalistas.


Combater a desinformação é uma responsabilidade que requer os nossos esforços e os da comunicação social.  A atenção e o cuidado preventivo no sentido de se estar vigilante e comprometido no sentido de se promoverem informações precisas e verificadas.


 

segunda-feira, 23 de outubro de 2023

Jornalismo e cautelas da informação em tempo de guerra



Israel-Hamas.png


Apesar de terem surgido muitas imagens e relatos reais do que se passou, foram misturados com outros conteúdos com afirmações falsas, usando e manipulando vídeos de outros acontecimentos.


Artigo que vale a pena ler com distanciamento que alerta para a veracidade dos factos e as cautelas a ter quando se propaga informação, por vezes falsa, que dizem ser notícia.


Hamas vs Israel vs Verdade









Chamar terrorista a um grupo que usa os métodos e os meios do terrorismo não é perder a objetividade. Ser independente na análise não significa ser neutro.







Não é humanamente possível, nem aceitável, não tomar um lado do conflito, pois devemos estar incondicionalmente a favor do povo palestiniano e do povo israelita, e incondicionalmente contra o Hamas ou qualquer outro grupo terrorista. Assim como, devemos exigir que Israel cumpra as regras do Direito Internacional Humanitário de distinção, proporcionalidade, necessidade militar e humanidade. Esta é a única posição internacional que fará com que este conflito diminua o número de vítimas e que permite manter a nossa humanidade. Não ter esta posição é aceitar sermos controlados pela narrativa do lado errado. De nada serve estar a favor dos palestinianos e não estar contra o Hamas, porque o Hamas não está a proteger os palestinianos. Nunca o fez. Os terroristas precisam de vítimas para continuarem a ser quem são. E os palestinianos são as suas vítimas de eleição.


Esta confirmação está patente nos quartéis em zonas urbanas civis, em armamento guardado em escolas, nas barricadas colocadas na estrada para impedir a fuga dos palestinianos depois dos avisos de Israel, no elogio público ao Egito por não abrir as fronteiras, no incitamento à permanência em Gaza, mesmo com a possibilidade de bombardeamentos e no lançamento de rockets de Gaza que caem em Gaza, culpando Israel.


O Hamas entrincheirou-se em Gaza com mais de dois milhões de reféns palestinianos que são o seu maior escudo. Se os civis saírem, a causa do Hamas fica enfraquecida e é uma enorme desvantagem neste confronto assimétrico. E tendo em conta que é um grupo terrorista, o seu grande objetivo é rentabilizar o máximo possível o número de vítimas e de mortos. Quanto mais mortos houver, mais responsabilidade pode colocar em Israel. O Hamas sabe que tem tanto mais hipóteses de ganhar força quanto mais elevado for o número de mortos palestinos, porque mais comoção causa na opinião pública e mais pressão a comunidade internacional fará sobre Israel.


Chamar terrorista a um grupo que usa os métodos e os meios do terrorismo não é perder a objetividade. Ser independente na análise não significa ser neutro. Porque ser neutro neste caso é ser a favor das atrocidades praticadas. Não é possível aceitar um grupo que tem uma filosofia de extermínio e de aniquilação de um povo, seja ele qual for.


Quem atacou primeiro é, nos dias de hoje, uma sequência irrelevante, porque quem atacou já foi atacado, e quem atacou porque foi atacado também já tinha sido atacado antes. Mas os que estão a atacar e a ser atacados não são os mesmos que estão a ser atacados no sofrimento e no desespero. E é para as vítimas civis dos dois lados que deve ir a nossa indignação e compaixão.


Sabendo que o Hamas e Israel são protagonistas de um dos conflitos mais difíceis do mundo, a imprensa internacional tem a obrigação deontológica de validar as fontes de informação e guiar-se pelo princípio da precaução quando não tem certezas. Porque não é aceitável que o jornalismo sensacionalista noticie as narrativas do Hamas como sendo a verdade dos acontecimentos. Como o que aconteceu com o ataque ao hospital em Gaza.


Quando Israel noticiou o ataque a civis e os raptos feitos pelo Hamas a 7 de outubro, toda a gente pediu provas, mas quando o Hamas noticiou o ataque ao hospital em Gaza a 17 de outubro e responsabilizou Israel, isso foi assumido como uma verdade. E o Hamas foi a única fonte de informação. No decurso da divulgação dessa notícia, as contestações contra Israel estenderam-se perigosamente a vários países e a possibilidade de líderes políticos negociarem uma solução foi mais uma vez adiada. É exatamente a reação de que os terroristas estão à espera.


Neste sentido, a imprensa internacional está a trabalhar pro bono para disseminar a propaganda que o grupo Hamas pretende. Até agora a narrativa do Hamas já venceu, e isto pode ser um enorme problema para todos nós.


A autora escreve segundo o novo acordo ortográfico





 

A verdade absoluta está contra o rebanho do ocidente

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Sobre a guerra Israel-Hamas tema da atualidade da veio-me à memória o tema filosófico da “guerra justa”, noção que se baseia na ideia de que o recurso à força se justifica sob certas condições e que o uso dessa força deve ser limitado a certa formas.


A teoria da guerra justa é um conceito proveniente da filosofia ocidental que é discutida desde a idade média por filósofos como São Tomás de Aquino e Santo Agostinho. Este tipo de guerra distingue-se do conceito islâmico de jihad que significa luta ou guerra santa que parte de uma base teocrática que se gere e submete a uma religião específica que, para os muçulmanos (alguns), é o único tipo de guerra justa.


É extremamente importante distinguir entre o conceito de uma guerra justa e a ideia de uma “guerra santa”. A teoria da guerra justa não apoia o conceito de travar guerras santas, cujo conceito é mais comumente expresso como uma guerra justificada com base em diferenças religiosas. De qualquer modo a teoria da guerra justa presume que há usos legítimos da guerra, mas também estabelece limites morais na condução da mesma.


Não é aceitável não tomarmos um lado do conflito e não estarmos a favor do povo palestiniano e também do povo israelita, mas, ao mesmo tempo, estarmos incondicionalmente contra o Hamas ou qualquer outro grupo terrorista. Da mesma forma deve exigir-se a Israel que cumpra as regras do Direito Internacional Humanitário de distinção, proporcionalidade, necessidade militar e humanidade, para considerarmos que seja uma guerra justa.


Como acontece com a maioria das questões do mundo atual, se um determinado conflito atende ou não a critérios de guerra é sempre objeto de debate. Assim, pode e deve discutir-se se devemos condenar ações graves no ato de defesa, ou se, pelo contrário, devemos ficar impávidos e serenos e inativos face a uma invasão por parte das forças invasoras a um país soberano ou a um ataque terrorista. O que é eticamente incorreto é ficar sem agir e desculpabilizar o invasor ou o terrorismo utilizando argumentos de desculpabilização para validar a invasão e o terror criticando o direito de à defesa como se fosse este o crime.


Claro que podemos criticar quem foi agredido, como o foi Israel, por um ataque de cobardia por parte de alguns opositores radicais e violentos como o Hamas que se entrincheirou em Gaza com mais de dois milhões de reféns palestinianos que são o seu maior escudo.


Se recorrermos a factos históricos Israel conduziu e cometeu erros vários tendo em vista a expansão do seu território e o estabelecimento de colonatos em espaços captados a outro povo. Podemos e devemos criticá-lo, mas não é por isso que deixam de ter direito a defenderem-se e à retaliação se atacados.


O distanciamento em situações como estas é difícil devido ao clima político radicalizado e à informação e contra informação, muita desta provenientes das redes sociais. Uns são o lado mau, outros o são lado bom, mas há uns que são piores do que outros. Ser independente na análise não significa ser neutro e não perdemos a objetividade   quando chamamos terrorista a um grupo que usa os métodos e os meios do terrorismo.


Ontem, 20 de outubro, publiquei aqui um texto sobre a inversão da realidades feita por partes em conflito com o título As esquerdas radicais e as narrativas de inversão do contexto. É um texto de opinião sobre como partes em conflito tentam inverter os factos em circunstâncias de guerra, trazendo cada um dos lados versões contrárias e a até antagónicas com a realidade.


Em 20 de outubro José Gil, filósofo e pensador português que, em Janeiro de 2005 a conceituada revista francesa Le Nouvel Observateur integrou José Gil no grupo dos 25 grandes pensadores do mundo, escreveu um artigo de opinião no jornal Público “O conflito Israel-Hamas: tomar partido” onde escreve: «Sobre o Hamas, o juízo que dele podemos formar parece mais simples: a sua crueldade hedionda e o seu poder político autocrático sobre a Faixa de Gaza não precisam do direito internacional para serem condenados. Basta a mais básica ética democrática. No entanto, há aqueles que fazem da comparação entre os crimes do Hamas e os crimes de Israel o critério para desculpar os primeiros – o que constitui uma aberração lógica e jurídica e testemunha um relativismo propriamente masoquista.»


É claro que o virar do avesso e a inversão dos factos é uma estratégia como então escrevi. “Assim, em política desenvolvida sobretudo em ocasião de guerra, criam-se narrativas de inversão em que os papéis dos “atores” são invertidos. O antagonista (o mau) pode tornar-se o protagonista (o bom) e o protagonista (o bom) pode tornar-se no antagonista (o mau). Isso pode levar a uma mudança na perceção do público orientando-o a reconsiderar as suas noções preconcebidas e a ter empatia pelos personagens que inicialmente consideravam vilões.”


O artigo de José Gil genialmente elaborado e escrito como eu não conseguiria escrever vem, subtil e objetivamente, corroborar, embora por outro ângulo de visão, o meu pensamento. Embora a minha posição seja crítica sobre os radicalismos de esquerda ela também cai sobre os radicalismos de direita, estejam eles de que lado do conflito estiverem.


Acedi a um blog que me pareceu ser um dos que criticam o comportamento do rebanho do ocidente, mas onde se nota haver o mesmo tipo de comportamento seguidista, mas do lado inverso.


Este tipo de rebanho ou manada de esquerda radicalizada que pretende ser original ao pôr-se sempre do lado oposto da possível razão, aproveita-se de momentos críticos para atacar tudo quanto sejam os princípios de respeito pela democracia liberal que venham do ocidente, seja da UE, seja dos EUA. Esse rebanho defende sempre quem ataca as democracias seja os que atacam a Ucrânia, sejam os terroristas que atacam pessoas indefesas como aconteceu recentemente com o Hamas a aterrorizar Israel e outros idênticos por todo o mundo. Colocam-se ao lado do Hamas escudando-se, obviamente, por detrás dos argumentos de apoio justamente devidos ao povo palestiniano. Pasme-se ainda que no referido blogue a invasão da Ucrânia é desmentida afirmando que ela foi um dos “pretensos ataques da Rússia na Ucrânia”. Veja-se até onde chega o desplante desta manada!


É um tipo de esquerda radical ( ou qualquer outra) que estão a vicejar que vivem e reclamam por democracia da qual se servem, mas com a qual, contraditoriamente, querem um dia acabar.  


Muitos afirmam que quando nos colocamos de um lado que a maioria defende por razões objetivas, há alguns que logo se apressam a escrever que todos aqueles pertencem à manada, ao rebanho ou lá o que eles chamam aos que dizem serem influenciados pela intoxicação e propaganda da informação do ocidente.


Esta é também uma forma de designar os que para eles estão errados porque não seguem os “infratores”, que ocupam e invadem, que com atos terroristas atacam gentes indefesas. Os procedem a bombardeamentos onde apenas vivem civis e invertem os factos dizendo que eram alvos militares que estavam ocultos esses é que estão certos. Isto é, os invasores, os atacantes é que estão certos, o “rebanho” do ocidente é que está errado. O que assim argumentam demonstram seguidismo ideológico e sectário onde se revela um ódio ao ocidente e, sobretudo, aos regimes livres onde se vive. O que aqueles pretendem é que os sigam as suas ideias com fé, que os venerem por serem os possuidores da verdade absoluta. Este pensamento conduzir-nos-ia ao totalitarismo, chamem-se eles fascismos, nazismos, estalinismos, sejam eles militares, civis ou teocráticos como no Irão.  


Termino com mais uma frase e uma pergunta de José Gil: «É verdade que, por detrás da impossibilidade de dar razão a uma das partes, permanece a consciência de que num lado funciona, apesar de tudo, uma democracia formal. Teria havido um tão largo apoio das democracias ocidentais a Israel se aí vigorasse um regime político totalitário e sanguinário?».

sexta-feira, 20 de outubro de 2023

As esquerdas radicais e as narrativas de inversão do contexto

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"Manifestações pró-Hamas em toda a Europa são horripilantes". "As manifestações pró-Hamas em massa nos Estados Unidos e na Europa são horríveis porque significam que há apoio positivo ao Hamas mesmo nas sociedades ocidentais". Irina Tsukerman


"Israel não está a tentar punir os civis de Gaza, está a tentar derrotar o Hamas e um exército que luta contra outra força pode privá-los de comida". Professor Eugene K..


A dialética do avesso é a dialética dos radicais de esquerda, (auto negação do negativo e negar que o ataque do Hamas não foi terrorista foi ato de libertação), ativando a intencionalidade de propagação do negativo para que se torne positivo. É a culpabilização da vítima e com apologia do agressor.


É a inversão de papéis. É o ato de virar do avesso algo que estava na posição certa. Isto é, “colocar do avesso” os factos é deixar que o que antes estava certo seja colocado de forma contrária. É criar um sentido que é contrário aos dos factos É virar do avesso as posições de cada um dos atores em presença na tentativa de modificar a aparência e a essência enquanto ideia principal da realidade.


Relatar histórias e divulgar factos que se desviam das convenções e expectativas típicas de um determinado acontecimento, sobretudo em situações de guerras ou agressões terroristas são uma forma de narrativa política verificada em contextos de confronto político e ideológico. São narrativas de inversão que visam, frequentemente, desafiar normas estabelecidas, provocar reflexão por mudança de sentido e oferecer perspetivas contrárias ao tema ou facto que se desenrolam.


Uma das formas mais comum de manifestação duma narrativa de inversão por parte da informação por organizações, movimentos ou partidos políticos é a da inversão de papéis. Esta inversão verifica-se sempre que duas fações, uma nação ou povo estão em confronto, sobretudo em situação de guerra, e também quando há uma beligerância que depende dum grupo de rebeldes dotados duma organização que controla parte de um território assim como a sua população e colocam em causa a legitimidade dum governo ou dum povo.


De acordo com os elementos duma narrativa tradicional, escrita ou verbalizada, o protagonista é normalmente o personagem com quem o público simpatiza e apoia, enquanto o antagonista se opõe aos objetivos do protagonista. Estes “atores” em cena, conforme os ângulos e perspetivas político-ideológicas, podem trocar de posições segundo os vários pontos de vista. Considerando o atual contexto de guerra de Israel contra a organização terrorista Hamas esta situação está a verificar-se.


Assim, em política desenvolvida sobretudo em ocasião de guerra, criam-se narrativas de inversão em que os papéis dos “atores” são invertidos. O antagonista (o mau) pode tornar-se o protagonista (o bom) e o protagonista (o bom) pode tornar-se no antagonista (o mau). Isso pode levar a uma mudança na perceção do público orientando-o a reconsiderar as suas noções preconcebidas e a ter empatia pelos personagens que inicialmente consideravam vilões.


É com tentativas de inversão que as esquerdas radicais em todo o Mundo, em Portugal representados pelo PCP, pelo BE e outros esquerdistas, pretendem instigar o público a colocar-se em situação crítica para com os israelitas  


Veja-se o caso da guerra da Ucrânia em que a Rússia pela voz do seu presidente Vladimir Putin e dos seus porta-vozes quando atribuem a causa da invasão daquele país ao Ocidente (EU, EUA e NATO) associada à pretensão destes pretenderem invadir e bloquear a Rússia.


As narrativas de inversão desafiam os papéis tradicionais, as normas e as dinâmicas de poder num determinado contexto e ainda subverter as expectativas sociais. Ao fazê-lo, promovem o pensamento crítico e a reflexão sobre estas normas no sentido de incentivarem o público a questionar e, potencialmente, a mudar as suas próprias perspetivas.


As narrativas de inversão podem empregar outras técnicas, como reviravoltas na enredo de opiniões e no desenvolvimentos inesperados de atitudes para desafiar as expectativas e criar surpresa ou tensão.


Os dispositivos para a inversão e adulteração de factos ocorre sob a forma de comentários, opiniões, documentários, peças jornalísticas e manifestações com narrativas que ajudam a envolver o público e a mantê-lo na dúvida sobre a ocorrência. Podem provocar reflexão, encorajar a empatia e promover uma compreensão oposta sobre questões complexas.


No geral, as narrativas de inversão em caso de guerras de agressão pretendem fornecer a visão contrária à veracidade do facto comprovado (inversão) atribuindo aos agredidos a responsabilidade de atos por eles não praticados transformando as vítimas em culpados, subvertendo as expectativas em favor de um dos lados, desafiando as abordagens convencionais. São as guerras paralelas de informação e contra informação no sentido de confundir o público.


Caso típico da inversão da narrativa é o caso do PCP que, sem condenar explicitamente o Hamas pelo ataque terrorista, tenta responsabilizar o ocidente pelo acontecido e reforçando a narrativa dos «crimes de guerra em curso na ação de massacre de Israel à Faixa de Gaza».


Nas redes sociais radicais de esquerda, sectários, antissemitas, falsos apoiantes e defensores dos palestinianos debitam frases hediondas, convocam manifestações anti Israel e clamam morte aos judeus, quais nazis do tempo de Hitler. Nas televisões são emitidos vídeos amadores captados por telemóveis em que se fazem proclamações de vingança e ódio contra Israel e o seu povo, acusando-o de barbárie ao mesmo tempo que esquecem a barbárie terrorista perpetrada pelo Hamas e o ataque ao Hospital Al-Ahli Arabi, na cidade de Gaza, que, supõe-se, terá sido efetuado pela Jihad Islâmica da Palestina, apesar de não haver a certeza de como este último facto aconteceu. A política de inversão de causas é diariamente arquitetada pelas forças hostis a Israel e emitida pelos mais diversos canais.


No dia 16 de outubro o jornal Público noticiou que Paulo Raimundo do PCP «acusa a UE de ‘hipocrisia e cinismo’ no conflito entre Israel e Hamas quando apresentou as conclusões da reunião do comité central. Paulo Raimundo criticou a ‘clamorosa hipocrisia e cinismo’ em torno do conflito entre Israel e o Hamas, considerando que aqueles que ‘estiveram calados anos sucessivos’ sobre a ocupação da Palestina por Israel ‘também se calaram’ agora perante os ‘crimes de guerra em curso na ação de massacre de Israel à Faixa de Gaza’». A pergunta que podemos fazer ao PCP é a de saber e resolver o problema que avançam e tendo a Palestina sido ocupada por Israel e ao mesmo tempo se quer devolver o território às populações originais, o que fazer ao povo de Israel?


Não venham as esquerdas radicais criticar opiniões e comentários que se fazem sobre o conflito israelo-palestiniano e que condenam o atentado terrorista do Hamas apenas porque são feitos por orientações de direita e capitalistas e que apoiam os EUA e o ocidente.  


Maria João Marques, com quem nem sempre estou de acordo escreveu no Público que «A hipocrisia da extrema-esquerda (por cá representada pelos setores ligados ao PCP e ao BE) ficou totalmente exposta. Não é possível passar a vida a gritar com estrépito supostamente em prol dos direitos humanos de minorias cada vez mais exíguas e, logo a seguir, aplaudir e defender todos os regimes onde são terraplanados os mais básicos direitos das mulheres, dos gays e lésbicas e das minorias étnicas ou religiosas. Podem dar as voltas retóricas que entenderem, que a hipocrisia fica com rabo de fora.»


Maria João continua escrevendo que a «Extrema-esquerda, manancial de ódio (e de perigo). É este o padrão da esquerda dita progressista olhando para o resto do mundo fora da Europa e Estados Unidos. Já estamos habituados. Porém, nas reações ao absolutamente desumano e absurdamente cruel ataque terrorista do Hamas a Israel, este viés hiperbolizou-se na esquerda radical para o mais acirrado ódio ao Ocidente, ao nosso modo de vida e aos nossos valores. Incluindo a democracia.»


E acrescenta que «Também percebemos: o que move esta esquerda radical não é a defesa de algo positivo (concorde-se ou não). É o ódio ao Ocidente por aquilo que é: capitalista, iluminista e rico por ser capitalista. E livre. Já dizia Orwell, no mesmo prólogo (traduzo): “A russomania corrente é só um sintoma do enfraquecimento da tradição liberal ocidental.” Não se é liberal nem democrata quando se defende regimes totalitários ou iliberais.», e que: «Em Stanford, um professor chamou aos alunos judeus “colonizadores”​ e menosprezou o Holocausto. Quanto antissemitismo. Associações de alunos de Harvard, em comunicado, culparam Israel pelos assassinatos, violações e raptos do Hamas. Manifestações antissemitas, celebrando até a “criatividade”​ do Hamas, foram avistadas em vários campus».


E termina afirmando «Que somos fracos, claro, e tão imbecis que cantamos louvores a qualquer violência não-branca. Que celebramos e nos aliamos a terroristas. Aplaudimos violência sobre quem tem modo de vida igual ao nosso — quem vai para um festival dançar, ouvir música, divertir-se, namorar, procurar parceiro para umas noites e criar boas memórias. No fundo, que merecemos a mesma violência».


Lendo os comentários ao artigo que criticam a autora ficamos a perceber da parte de onde vêm e que são absolutamente sectários. Esclareço, contudo, que não estou absolutamente do lado da política colonialista e expansionista de Israel, mas tenho em conta que atos de violência terrorista apenas agudizam os problemas. Até podemos considerar que este ato hediondo do Hamas tenha tido outras causas próximas que não tenham somente a ver com a questão israelo-palestiniana, mas que terceiros terão utlizado para gerar outros conflitos regionais para conseguirem os seus objetivos noutras áreas. Esta última parte é apenas uma hipótese, ou, se quiserem, uma espécie de teoria da conspiração que tem o valor que tem.


 

quarta-feira, 11 de outubro de 2023

Terrorismo e Palestina: O que outros dizem



Manifestação ProPalestina após terrorismo.png


Imagem Esquerda.net site do Bloco de Esquerda


Não é pró-Palestina. É anti-Israel, antissemita e pró-terrorismo









É conveniente chamar a estas reações vindas da parte da esquerda mais à esquerda aquilo que são: desumanidade e antissemitismo.


Um artigo de 


Maria João Marques-JPúblico.png



in Jornal Público


Dos mais vis ataques que me lembro de ver. O Hamas fez uma incursão em território israelita onde deliberadamente alvejou civis. Filmou tudo: queria que o mundo não ficasse com dúvidas sobre a sua barbárie (e não ficámos). Decapitou bebés. Raptou crianças pequenas e pôs em jaulas. Caçou mulheres num festival de música e exibiu-as depois do cativeiro, umas mortas e despidas com soldados sentados em cima do corpo, outras ensanguentadas no meio das calças. Provavelmente violadas – sabemos bem, desde o ISIS, o que fazem às raparigas que sequestram. Senhoras de idade raptadas. Famílias exterminadas em casa. Jovens do festival de música massacrados.






Com este nível de crueldade e desumanidade contra civis não pode haver contemplações, certo? Errado. A esquerda do PCP e do BE entrou em mais um poço moral, tal o ódio a Israel.


Estes dias notabilizaram-se pela sua mais imoral ausência de condenação do Hamas. Pelo contrário, julgaram oportuno culpar a ocupação israelita (atualmente existe nos colonatos na Cisjordânia, que nada tem que ver com o Hamas, mas não na Faixa de Gaza). Foi o caso de Marisa Matias ou Pedro Filipe Soares. No PCP, Alma Rivera chamou “vassalos” ao Governo português por condenar o Hamas e comentou que é “preciso ser muito asqueroso” num retuíte que fez de Ursula von der Leyen.


Para evitarem dizer o óbvio – os terroristas do Hamas estão no cimo do pódio ignóbil – li, do lado esquerdo, as mais originais desculpas para o atentado. Li que o Hamas – uma criação do Irão, que, de resto, lhe deu ajuda e armamento para o ataque de sábado; eleito em eleições livres de toda a população para governar Gaza, à altura explicado nas televisões e jornais portugueses que devido à magnífica obra social (não é ironia) dos terroristas – afinal foi uma criação de Israel.


Li que havia apartheid em Israel – porventura não sabem o que significou a palavra. E limpeza étnica e genocídio aos palestinianos – quando são 20% da população de Israel, vivem dentro do país quase sem episódios de violência e têm aumentado o número.


Em Lisboa houve uma manifestação, apoiada pelo BE, chamando ao ataque terrorista “ação de resistência” e dando como legítimos “qualquer meio à disposição” dos palestinianos de alvejarem Israel e israelitas. Uma sorte o Hamas não ter umas ogivas nucleares, ou estes bondosos cidadãos aplaudiriam o seu uso. Em Sydney, uma manifestação pró-Palestina gritou o slogan Gas the jews. Calhando não sabem que já foi feito e se chamou Holocausto.


É conveniente chamar a estas reações vindas da parte da esquerda mais à esquerda aquilo que são: desumanidade e antissemitismo. Agora mascarado de luta anticolonial (como se a questão Israel-Palestina tivesse que ver com colonialismo; mas temos de lhes perdoar, é o que aprendem lendo boletins de extrema-esquerda) e assanhado, porque muitos judeus foram para os Estados Unidos e este país (origem de todo o mal) é aliado de Israel.


Não se trata aqui, da minha parte, de endeusar ou branquear Israel. Netanyahu é um político capaz de tudo, inclusive vender-se aos judeus ultraortodoxos (tão indesejáveis quanto os islâmicos conservadores) e dar cabo da democracia israelita. Tão absorvido está por manter o seu poder que permitiu a invasão de Israel, Estado ultrassecuritário, pelo Hamas. Os longos excessos militares de Israel estão documentados (os do continuado terrorismo palestiniano também).


Os israelitas árabes, formalmente com os mesmos direitos, são desconsiderados pela população judaica. São mais pobres do que os conterrâneos judeus, menos escolarizados, com menos oportunidades efetivas. (Comparam-se, no entanto, melhor com os dos países vizinhos.) A criação de colonatos na Cisjordânia (nem parada pelos bem-intencionados Yitzak Rabin, Shimon Peres ou Ariel Sharon) é um atentado à possibilidade de paz.


Mas não é o tratamento aos palestinianos que indigna a esquerda pró-Palestina. Tanto que não se incomodam com o Egito, muito alegremente impedindo a circulação dos palestinianos de Gaza no seu território. Queixam-se do bloqueio a Gaza só como retórica anti-Israel; afinal o bloqueio é tão eficaz que lá entra armamento em barda; e Gaza tem uma fronteira com o Egito, país soberano e não às ordens de Israel. (Um polícia egípcio matou turistas israelitas já depois do ataque do Hamas, para demonstrar a simpatia do país pela causa palestiniana – desde que essa fique do lado de lá da fronteira.)


A liderança corrupta e incompetente da Fatah não os move. O terrorismo do Hamas e as ligações ao Irão também não. Os líderes do Hamas vivendo luxuosamente no Qatar (agora a tentar resolver a crise dos reféns israelitas, não vá a comunidade internacional cair-lhe em cima), longe da população pobre que governam – está tudo bem para a esquerda, oh tão preocupada com os palestinianos. O uso de escudos humanos da sua própria população pelo Hamas, presumo que julguem ideia genial. (Israel nunca o faria à sua população e os tribunais proibiram o uso de escudos humanos palestinianos.)


A total ausência de solidariedade dos países islâmicos com os palestinianos de Gaza – em perigo com a resposta de Israel – também lhes é pacífica. Não houve nenhum movimento para organizarem a saída de refugiados civis de Gaza pela fronteira com o Egito e acolhimento pelos países do Médio Oriente. Mas isso não faz mal. Só o possível corte da ajuda humanitária da União Europeia (muita dela desviada) é que os agita.


A necessidade de defesa de Israel para sobreviver – invadido várias vezes por todos os vizinhos, inclusive a seguir à independência; alvo de terrorismo continuado durante décadas; sem existência reconhecida por vizinhos e Hamas – é irrelevante. Os minimalistas Acordos de Oslo não terem produzido efeito, o Roadmap de Bush (o primeiro plano americano com a solução de dois Estados) ter sido recusado pelos palestinianos e os esforços de Obama para uma paz negociada se terem esfumado em menos de nada, mostrando uma continuada inflexibilidade palestiniana para um acordo de paz, bem, quem quer saber dessas picuinhices?


A indignação da esquerda pró-Palestina é muito seletiva. Pior: convive muito bem com o terrorismo mais cruel e degradante, quando é dirigido aos alvos de estimação. Uma esquerda que não cumpre critérios de decência para configurar em qualquer solução governativa. O PS que atente.


A autora é colunista do PÚBLICO e escreve segundo o novo acordo ortográfico