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domingo, 7 de abril de 2024

Os tachos e a canção do ai chega, chega, chega chega, ó meu tacho, não te afastes do meu dedo

Ventura e os tachos.png


1. O novo Governo da chamada AD chefiado por Luís Montenegro ainda não parou no que respeita a propaganda. A primeira medida foi uma iniciativa imprescindível para as pessoas, mudar de imediato o logotipo institucional do Governo e no desbaratar dos documentos que se perdem para passarem a ter outro mais representativo do passado.


Recorde-se que o líder do Chega não gostou que o Governo de António Costa tivesse eclipsado da imagem institucional os sete castelos que figuram no brasão de armas da bandeira nacional.


Ao mudar o logotipo o Governo de Luís Montenegro quis dizer que sim, que está com o Chega no patriotismo. Um sinal onde se poderá vir a posicionar na governação, ou melhor, está a querer dizer que não é não, mas que, talvez sim.


É verdade que uma imagem vale mais do que mil palavras. Este tipo de comunicação por sinais e símbolos mostram o que vão ser as medidas do Governo e ao quem vem. São uma cedência, embora simbólica ao Chega, um primeiro sinal do Governo à aceitação da versão Estado Novo do Chega ainda que incipiente.


Não se tratou de mudar os símbolos da nossa bandeira, nem isso se pretendia, mas somente o logotipo para comunicação da imagem institucional.


Outra medida propagandística foi a reunião simbólica do primeiro conselho de ministro em Óbidos. Evento que para Montenegro parece ser também importante para as pessoas. Assim se iniciou este trabalho exaustivo deste conselho de ministros, após a distribuição por Luís Montenegro de tachos sem que o partido de Ventura tivesse comido de algum conforme era seu desejo.


2. A propósito dos elementos do novo governo com alguns elementos do velho governo de Passos Coelho. Mas a recuperação do passado não foi apenas esta, foi também a recuperação de antigos elementos de Passo Coelho para o governo.


Assim, António Leitão Amaro vai contar com Paulo Marcelo na Presidência do Conselho de Ministros, até 2014, foi chefe de gabinete do Ministério do Ambiente no governo de Pedro Passos Coelho. Carlos Abreu Amorim, militante do PSD e deputado eleito por Viana do Castelo durante o governo de Passos Coelho.


Lídia Bulcão, foi deputada à Assembleia da República pelo círculo eleitoral dos Açores na XII legislatura, durante o governo liderado por Passos Coelho.


Jorge Campino, o novo secretário de Estado foi também, durante o Governo de Pedro Passos Coelho, chefe de gabinete do secretário de Estado da Segurança Social.


O ex-deputado do CDS Telmo Correia, que até agora só tinha assumido funções executivas enquanto ministro do Turismo no governo de Santana Lopes também foi chamado.


José Pedro Aguiar Branco foi Ministro da Defesa Nacional de Passos Coelho agora eleito presidente da Assembleia da República em negociação com o PS.


Hélder Reis, é o novo secretário de Estado do Desenvolvimento Regional foi antigo secretário de Estado Adjunto e do Orçamento do primeiro governo liderado por Pedro Passos Coelho, cargo que ocupou entre 2013 e 2015 no consulado da ministra Maria Luís Albuquerque.


Nuno Sampaio que foi consultor da Casa Civil do presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, mas também foi assessor para Assuntos Parlamentares e Autarquias Locais da Casa Civil do presidente Cavaco Silva.


3. Estou farto das retóricas de André Ventura e dos seus porta-vozes, e penso não ser só eu. Os eleitores têm todo o direito de votar em partidos que entenderem e que achem que os possam representar, é isso que a democracia nos possibilita. Mas há limites ao votar em partidos em que os seus líderes revelam nas entrevistas e perante as câmaras de televisão atitude verbais e argumentos desconexos, por vezes até ofensivos e sem qualquer sequência sobre o tema tratado.


Não creio que os votantes neste tipo de partido não percebam em quem está a votar. Talvez até o façam para ser diferente, para mostrar firmeza nas suas convicções e achar que tal partido é o que representa o seu descontentamento. Tudo bem! Mas atacar pessoas que tentam demonstrar enganos, mentiras e contradições, sobretudo estas, por eles veiculados feitas por alguns militantes ou simpatizantes empedernidos que parecem não entender o que está em causa que não está bem. Já não é a democracia a ficar em causa, são os que se dizem dela representantes sejam eles de que partidos forem e, neste caso, por maioria de razão encontramos André Ventura e seus acólitos.   


Um destes acólitos, é Pedro Frazão, vice-presidente do partido Chega que acusou Pedro Aguiar-Branco que vai ser Presidente da Assembleia da República, de ir ocupar um “tacho” com “regalias”.  


Este deputado do Chega foi eleito membro do Conselho de Administração da AR, de que também fazem parte Emídio Guerreiro do PSD, Eurídice Pereira do PS, Rui Rocha da IL, Joana Mortágua do BE, Alfredo Maia do PCP e Rui Tavares do Livre. Cada um destes deputados tem direito a um vencimento mensal ilíquido de 4.096,99 euros, ao qual se somam despesas de representação num total de 1.024,25 euros. No final do mês, Frazão auferirá no total 4.916,39 euros brutos naquilo a que o próprio apelida de “tacho” com “regalias”.


O que, entretanto, se passou é surreal. Ao ser convidado pela SIC Notícias na anterior quarta-feira para comentar a eleição de Pedro Aguiar-Branco para a Presidência da Assembleia da República Pedro Frazão aproveitou para, como de costume fazer demagogia populista tal qual o seu chefe Ventura e apelidou aquele cargo institucional de “tacho”, com a justificação de que José Pedro Aguiar-Branco só conseguiu ser eleito através de um acordo, ao contrário de Diogo Pacheco de Amorim.


Recorrendo a uma análise do jornal de fact-check Polígrafo, tanto Frazão quanto a bancada parlamentar do partido Chega assegurou haver um acordo prévio com um PSD que foi rompido unilateralmente pelo partido de direita radical, depois de Paulo Rangel e Nuno Melo terem negado a existência de tal acordo. Na lógica daquele deputado, Pacheco de Amorim fez de tudo, até um acordo com o PSD, para chegar a vice-presidente da Assembleia da República. Então pela lógica foi também um “tacho” com “regalias” que Frazão deveria também considerar inaceitáveis.


Recorri a uma citação newsletter de Bárbara Reis publicada no jornal Público em abril do corrente para melhor se perceber a sequência da entrevista:


Pedro Frazão – O que está aqui muito claro é que o PS e o PSD, quando chega à hora de dividir os cargos, os tachos...


Ana de Freitas – ... peço desculpa, mas o presidente da Assembleia da República não é nenhum tacho.


Pedro Frazão – Quando é altura para dividir os lugares das instituições entendem-se muito bem...


Ana de Freitas – Pedro Frazão: desculpe lá, são lugares institucionais, não tem nada que ver com tachos, há aqui alguma confusão.


Pedro Frazão – Isso é a sua opinião, eu posso ter outra. Não sei se está a par de todas as regalias que o presidente da Assembleia da República tem. Penso que estará a par.


Ana de Freitas – Então [o deputado do Chega Diogo] Pacheco de Amorim [eleito nesse mesmo dia vice-presidente do Parlamento] também está a ter um tacho?


Pedro Frazão – Não sabe que aconteceu o mesmo com as presidências das CCDR, em que o PS e o PSD fizeram um acordo para dividir as presidências?


Ana de Freitas – Não está a responder à minha pergunta. Pacheco de Amorim é um tacho? Ou tem dois pesos e duas medidas?


Pedro Frazão – Desculpe, não percebi.


Ana de Freitas – Pacheco de Amorim também é vice-presidente. Também está a ocupar um tacho?


Pedro Frazão – Pacheco de Amorim não fez nenhum acordo para ser eleito.


Ana de Freitas – Não é essa a questão. A questão é se é um tacho ou não é um tacho, estamos a discutir isso.


Pedro Frazão – Está a ser falaciosa.


Ana de Freitas – Não estou não, o senhor é que está.


Pedro Frazão afirma que José Pedro Aguiar-Branco do PSD, ao ser escolhido como líder da Assembleia da República, foi alvo de uma nomeação acordada com o PS. Contudo esse cargo não pode ser considerado um privilégio. Portanto, quando o Chega sugeriu Pacheco de Amorim como vice-presidente da AR há dois anos, a intenção era garantir uma posição estratégica na AR para o ideólogo do partido para simplesmente conseguir um cargo ao lado da segunda autoridade do Estado em Portugal? Haja paciência para estes tipos.


Por isso, para finalizar eu digo fazendo uma reescrita de parte dos versos da canção “A agulha e o dedal” cantada por Beatriz Costa no filme “A Canção de Lisboa” (1933) protagonizado por Beatriz Costa e António Silva cuja sequência do filme incluo abaixo. Esta canção brejeira na altura tinha uma conotação diferente daquela que hoje lhe atribuí. 


Ai chega, chega, chega


Chega, Chega o meu tacho


Ai chega, chega, chega o meu tacho


Ó não afastes, não afastes, não afastes o meu tacho


Você não seja trafulha,


Ó sim, somos a mais belo partido em Portugal!


 


Estes são os versos originais:


Ai chega, chega, chega


Chega, chega ó minha agulha


Afasta, afasta, afasta


Afasta o meu dedal


Brejeira não sejas trafulha,


Ó não, és a mais bela fresca agulha em Portugal!



 

terça-feira, 24 de novembro de 2015

Votos de sucesso

Votos de sucesso.png


 


Embora contrariado, o Presidente da República Cavaco Silva, finalmente, indigitou António Costa como primeiro-ministro do novo Governo de Portugal.


A responsabilidade é enorme. Ninguém lhe vai perdoar se falhar e voltar a défices excessivos que eventualmente possam dar lugar a novos resgates. Os partidos que se comprometeram dar apoio parlamentar ao governo PS não podem falhar. A direita que perdeu votos vai andar por aí atenta a tudo e tudo sirva para fazer oposição, por mais sórdida que seja. Aliás, como já tem vido a ser seu hábito.


Logo que a decisão do Presidente da República foi conhecida alguns partidos, nomeadamente o BE através de Catarina Martins perfilou-se frente às câmeras das televisões falando como se o seu partido fosse o principal e único protagonista das mudanças que constam do programa de Governo do Partido Socialista, esquecendo-se que houve outros parceiros na negociação. Nesse aspeto o PCP foi mais comedido. Esperemos que isto não sirva para começar a gerar conflitos tendo como base a propaganda partidária, que a oposição de direita irá aproveitar em pleno. Não é estratégico os partidos que assinaram o acordo iniciarem uma competição onde cada um pretende chamar a brasa à sua sardinha, o que apenas servirá para dar argumentos e razão à direita.


Das centrais sindicais e dos sindicatos nelas filiados espera-se uma contenção reivindicativa responsável.


Ao presidente da CGTP, Arménio Carlos, pede-se uma outra atitude e contenção verbal e parar com a contínua guerra aberta respeitando os outros dirigentes quer da UGT quer das associações patronais, da mesma forma que o respeitam a ele. Refiro-me, neste caso, ao presidente da CIP.


Arménio Carlos, quando fala, parece estar sempre em guerra aberta com todo e qualquer representante das confederações patronais quando em negociação ou em debates. Não negoceia, exige, reivindica, vendo apenas e só um lado da questão, esquecendo-se que existe uma economia para crescer e gerar postos de trabalho. Torna-se por vezes inconveniente, o que pode conduzir a ruturas que, nem agora, nem num futuro próximo, interessam a qualquer das partes, nem aos portugueses. Gerar conflitos apenas ajuda a direita. Não é o momento de vanguardismos de esquerda, mas de calma e consensos. Se assim não for quem ganha sempre é a direita. E, nas próximas eleições, se a direita volta a ganhar, as vítimas serão sempre os mesmos, os que afinal pretendem defender!


Pensem nisto.