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terça-feira, 6 de maio de 2025

Regressados do recato da política

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Aqueles que, ao longo dos anos, estavam preocupados com o estado do país e que há um ano prometiam medidas para resolver problemas antigos, não só não os resolveram, a não ser continuar com o que o anterior Governo deixou preparado, agravando tais problemas. A política foi lançar dinheiro que encontraram nos cofres do Estado para cima dos problemas.


Por mais que se deseje, os problemas que se arrastam há anos que perpassaram por diferentes Governo os quais, sucessivamente prometiam resolver, têm mostrado a evidencia que (o tal reformismo) não se faz facilmente sem desestruturar o nosso modelo económico e social o que geraria instabilidade social e, mesmo assim, tais reformas não se conseguiriam resolver nem a curto, nem a médio prazo.


É recorrente que Luís Montenegro quando é confrontado com os problemas que ele não quer esclarecer lança demagogicamente mão às emoções dos portugueses e das portuguesas, como ele diz, vitimizando-se pelo que diz lhe estão a fazer injustamente, evitando  responder às questões que lhe são colocadas.


Escrevia eu estas linhas quando me assaltou a memória, mais uma vez, a política e alguns políticos que se movimentam nas democracias e o conceito de demagogia cujo significado tem várias entradas na maior parte dos dicionários. Um deles define-a como sendo um “discurso ou ação política em que se procura conquistar apoio através da manipulação das emoções populares, em detrimento do uso de argumentos lógicos ou racionais” e noutro “discurso ou ação que visa manipular as paixões e os sentimentos do eleitorado para conquista fácil de poder político”.


Para Aristóteles a demagogia é o de arrastar o povo e descreve-a como uma forma de governar em que os argumentos são substituídos por apelos aos medos, preconceitos, amores e ódios dos cidadãos. É a abordagem dos debates através da linguagem dos sentimentos e impedir uma discussão, sem exaltação, sobre a ação política. Surgem em momentos ad crise e revelam-se como salvadores e ao conquistarem o povo, podem mudar o rumo dum regime político fazendo-o derivar para regimes autoritários. Veja-se a possibilidade do que se está a passar nos EUA com Trump no poder. O que naquele país seria uma impossibilidade pode estar a seguir para uma possibilidade.


Em momentos de campanha eleitoral surgem, especialmente da direita mais retrógrada e conservadora, ressurgindo da escuridão política ou partidária a que os votaram, ou a que eles próprios se conferiram, para se pronunciarem com as suas palavras sábias e irrepreensíveis para induzirem potenciais eleitores saudosistas de tempos passados.


Como é óbvio, cada um elogiando o líder concorrente às eleições do seu partido favorito, ainda que esse líder, novamente candidato a primeiro-ministro, tenha sido um fiasco em algumas das políticas, nomeadamente nas da saúde, e na falta de clareza das suas ligações a empresas privadas, tirando oportunisticamente proveito político das políticas implementadas pelo Governo seu antecessor.


Uma destas sumidades chega a afirmar sobre o concorrente a Primeiro-Ministro que “A minha escolha de Primeiro-Ministro fundamenta-se em três critérios: a capacidade política e técnica, a dimensão ética na vida política e a proposta de política geral do Governo”. E mais afirma que a “campanha de suspeições e insinuações movida por partidos da oposição e por alguma comunicação social contra a pessoa do primeiro-ministro” e que era “mais confusa e desinformativa do que esclarecedora”. Claro que se refere a Luís Montenegro, e, mesmo que algumas afirmações não sejam na íntegra verdadeiras elas pretendem enaltecê-lo e, sem hesitação, oferece-lhe o seu beneplácito.


O que temos observado da parte de Luís Montenegro ainda ele respondia perante o Parlamento é as suas capacidades de mimetismo serenidade de impoluto e a sua capacidade para a vitimização escondendo-se atrás dum rosto de ingenuidade manifesta.


Mas, espantemo-nos porque a coisa não fica por aqui porque com grande descaramento tal apoiante de Montenegro afirma que “…tendo procurado avaliar objetivamente os comportamentos e atitudes dos diferentes líderes partidários da oposição, não encontrei em nenhum deles qualquer superioridade em relação ao atual Primeiro-Ministro na dimensão ética e moral na vida política.” Este estilo panfletário é risível para não dizer lamentável!


A defesa de Montenegro perpetrada pela douta personagem  cai como catarata escamoteando a verdadeira razão estratégica da “coisa” que provocou uma crise fazendo cair o Governo declara-se nestes termos: “Como afirmei noutra ocasião, a campanha de suspeições e insinuações foi o pretexto de partidos da oposição para criarem um clima político de tal forma inflamado e paralisante da ação do Governo que não lhe deixou alternativa que não fosse a de confrontar a Assembleia da República com uma moção de confiança”. Risível mais uma vez, não é!


Para este douto conhecedor o facciosismo é o motor, pois que, para ele, “o atual Primeiro-Ministro, Luís Montenegro, revelou ser possuidor de boas qualidades nas principais questões técnicas dos diferentes ministérios, na liderança do Governo… qualidades que não vislumbro nem antecipo nos outros líderes partidários”. Desafio os leitores deste texto a tentar adivinhar quem é esta excelência, cujo nome não devemos pronunciar em vão, dada a sua divindade política, sabedor isento que, quando regressado do recato político surge a falar do alto da sua cátedra escreve as tábuas da sua lei e da arte de cavalgar toda a política.


Enfim, há que contribuir com distorção dos factos mostrados na comunicação social, reorganizando a verdade ao seu modo, a qual passou a ser a dele, mesmo que não no seu todo.


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Não ficamos por aqui, no almoço de celebração dos 51 anos do partido PSD juntaram-se também à mesa outros regressados do sossego da política, recordados não pelos melhores motivos, para darem uma ajudinha a Montenegro.  E lá vem Passos com a sua experiência do passado que ninguém esquece, (o tal do temos de ir para além da troika), dizer a Montenegro que “…é preciso que exista verdadeiramente um espírito reformista que possa estar ao serviço dessa estabilidade”. Enche o peito com o espírito reformista. Resta-nos saber o que entenderá ele por isso no atual contexto.


Será que pega?

sexta-feira, 8 de dezembro de 2023

Contas certas: Prof. Cavaco! Diga-nos mais sobre este conceito que diz não existir

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O Prof. Cavaco Silva precisa mais de repousar do que fazer política falsa e populista apenas por vingança e não por convicção. Entrou em desvario político quando disse que as “contas certas” foram uma manobra de diversão.


Os argumentos de Cavaco são inspirados pelos pontos de vista das extremas-esquerda esquecendo-se que o governo de José Sócrates foi criticado por ser despesista porque aumentou muito a dívida pública, o défice orçamental e as despesas do Estado e que pediu a demissão em 2011 depois de o Parlamento rejeitar o seu plano de austeridade.


A crise financeira em Portugal teve um impacto negativo na economia, no emprego, na dívida pública e nas condições de vida da população. Portugal teve de pedir um resgate financeiro à União Europeia e ao Fundo Monetário Internacional em 2011 o que implicou medidas de austeridade e reformas estruturais1.


É importante notar que Cavaco Silva, em várias ocasiões, criticou os governos socialistas, incluindo o de José Sócrates. Por exemplo, afirmou que o governo do PS liderado por José Sócrates “deixou o país na bancarrota” e o governo de António Costa, apesar dos apoios europeus, "vai deixar ao próximo Governo uma herança extremamente pesada". Que herança? As contas certas?


Aníbal Cavaco Silva parece ter entrado em delírio político e esquecimento próprios da idade causada por arteriosclerose porque se esqueceu de que   os seus governos nada foram de especial porque nas mesmas circunstâncias se uma qualquer personagem de banda desenhada fosse primeiro-ministro entre 1985 e 1995 os resultados não seriam muito diferentes e talvez esta última possibilidade nos tivesse poupado ao governo cavaquista. 


Cavaco Silva que disse estar fora das funções políticas sabe como o povo tem memória curta, mas convém recordar convém recordar as cargas policiais que estudantes do secundário e das universidades levaram, convém recordar que polícias foram obrigados a confrontar outros polícias no Terreiro do Paço, no famoso episódio de secos contra molhados.


Segundo o DN há cerca de 34 anos uma manifestação de polícias foi reprimida com bastonadas, cães e canhões de água, ficando conhecida como "secos e molhados". Os polícias manifestaram-se para exigir, sobretudo, liberdade sindical, uma folga semanal, transparência na justiça disciplinar com direito de defesa, melhores vencimentos e instalações.


E também convém recordar que, no governo do Prof. Cavaco, o dinheiro que veio de Bruxelas para aplicar na conversão e modernização da nossa agricultura foi mal aproveitado os jipes apareciam em vez de terras cultivadas. Incentivou a monocultura do eucalipto, investiu em centenas de quilómetros de autoestradas (não foi de todo mau), mas e se desinvestiu na ferrovia. Foi no seu tempo que o novo-riquismo floresceu.


Agora Cavaco Silva olha para os outros, mas assobia para o lado. Em 1995 o défice público era de -5,2% em percentagem do PIB, atualmente é de -0,3% (nº provisório).


E então, e as contas certas?


Para complementar este discurso das contas certas podem consultar aqui.


 

quarta-feira, 6 de dezembro de 2023

Porque não te calas? Não somos todos totós!

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O que escrevo na parte final do texto sobre as contas certas mostra que o Prof. Cavaco sabe muito bem não ser verdade  o que diz , mas serve para fazer de nós tótós.


Os ex-presidentes-Presidentes Cavaco Silva e Luís Montenegro talvez não tenham percebido que estão a prejudicar o PSD devido aos ímpetos do guru Prof. Cavaco.


Com ressentimentos em relação ao passado e ao situar-se nas trevas da “sua” economia e nos espaços bolorentos do seu entendimento do que é a moderna governação, tenta também enganar-nos. Curioso é que o Prof. Cavaco teça afirmações absurdas, urdidas durante os seus intervalos de letargia política. Senão vejamos. Esclareço desde já que, o que escrevo adaptar-se-ia a qualquer governo, fosse de que partido fosse em função se ao mesmo fossem dirigidas absurdas acusações opinativas.


Afirma aquele douto e ex-professor de economia que as “contas certas” foram uma armadilha montada pelo Governo socialista para “com sucesso, desviar a atenção dos órgãos de comunicação social…”. Parece ser uma afirmação sectária com alguma pinta de senilidade.


A primeira questão que Cavaco Silva não explica é se deve, ou não, qualquer governo defender contas orçamentais certas. Parece que do ponto de vista de Cavaco Silva, ao defender-se o primeiro pressuposto é uma armadilha distrativa para desviar a atenção dos governados e quem não defende o segundo pressuposto cai no despesismo e é criticado na mesma.


Segunda questão: ficamos sem saber se, conforme o ponto de vista do especialista Cavaco Silva, o Governo socialista deveria deixar, ou não, derrapar as contas públicas.


Terceira questão:  caso as contas públicas tivessem derrapado o que diria Cavaco Silva, nas circunstâncias atuais, sobre as contas do Governo?


Quarta questão: é a dúvida que nos levanta a afirmação de Cavaco Silva quando escreveu que “Nos capítulos sobre política orçamental dos tratados de Finanças Públicas, “contas certas” é um conceito que não existe”, e acrescenta “o que estará subjacente à expressão vaga e nebulosa “contas certas” inventada pelo poder socialista?” O conceito pode não existir, mas o que de certeza existe é o equilíbrio das contas públicas, o que vai dar no mesmo que sempre é recomendado. Então, e a redução da dívida pública que também foi diminuída também não interessa?


Expliquem-me por favor para ver se eu entendo: então ele e os seus seguidores da oposição de direita PSD andaram anos a criticar os governos socialistas pelo despesismo do Estado com alertas sobre a bancarrota por que o Estado, por falta de recursos financeiros, pudesse vir a não conseguir cumprir com suas obrigações financeiras. Agora o acerto das contas, as ditas contas certas são coisa que não existe?


Veja-se  o que disse o ex-Presidente da República Aníbal Cavaco Silva em maio de 2023 durante o discurso no Encontro Nacional do PSD: “os dados ‘vergonhosos’ movidos pelo PS foram salvos pelo antigo primeiro-ministro Pedro Passo Coelho que “Tirou o país da bancarrota”. Mas, então o país estava na bancarrota porque tinha contas certas ou foi por que menosprezou o problema das contas certas?


Afirmou ainda que “o governo do PS liderado por José Sócrates “deixou o país na bancarrota” e o governo de António Costa, apesar dos apoios europeus, “vai deixar ao próximo Governo uma herança extremamente pesada”. Mas, então, mais uma vez em que ficamos? Como diz o povo é preso por ter cão e preso por não ter? Não sou economista, mas o meu conhecimento penso ser suficiente para contra-argumentar escritos que facilmente caem no populismo.


Há vantagens e desvantagens do que ao equilíbrio orçamental diz respeito, assim, os déficits públicos referem-se à diferença entre as receitas e os gastos do governo em um determinado período. Existem vantagens e desvantagens associadas em função do contexto económico e político quando se analisam esses aspetos em função dos tempos de recessão ou desaceleração económica. Os déficits podem ser usados para financiar gastos públicos que estimulem a atividade económica e podem incluir investimentos em infraestrutura, programas de emprego e outros estímulos à economia como financiar investimentos em projetos de infraestrutura, educação e investigação, o que pode contribuir para o crescimento económico a longo prazo e para melhorar a competitividade do país.


Por outro lado, alguma flexibilidade orçamental permite ao governo responder a situações imprevistas, como desastres naturais, crises económicas ou emergências em saúde pública.


Em períodos de baixas receitas fiscais devido a recessões os déficits podem ser usados para manter a prestação de serviços públicos essenciais, evitando cortes severos que poderiam prejudicar a qualidade de vida.


No outro prato da balança encontramos as desvantagens dos déficits:


Endividamento, isto é, déficits frequentes podem levar a um aumento da dívida pública cujo pagamento de juros sobre essa dívida pode consumir parte significativa do orçamento do governo a longo prazo, limitando a capacidade de investir em outras áreas.


Inflação, quando circula muito dinheiro e o aumento nos níveis de preços pode prejudicar o poder de compra dos consumidores e afetar negativamente a economia.


Custos futuros quando o aumento contínuo de déficits pode resultar em custos significativos para o governo e o pagamento da dívida pode tornar-se pesado e levar os governos a ter que implementar medidas impopulares, como aumentos de impostos ou cortes de gastos. Veja-se no tempo de Passos Coelho resultado das políticas atribuídas a José Sócrates.


Necessidade de depender de crédito de empréstimos para financiar déficits e dependência de credores o que pode limitar a autonomia política e económica. Isto o Prof. Cavaco sabe muito bem, mas quer fazer de nós totós.


Por outro lado, é de salientar que a avaliação dos déficits públicos deve ser feita considerando o contexto específico de cada circunstância do país e internacionais. O equilíbrio entre vantagens e desvantagens muitas vezes depende da forma como os déficits são utilizados e da capacidade do governo em gerir suas finanças de maneira sustentável.


Mais ainda, Cavaco Silva recorre a outros economistas para defender a sua tese das ‘contas certas serem um bluff’, (palavra minhas). Um deles que já participou em eventos do BE e PCP, o que não traz mal nenhum, mas que o define como um economista de esquerda, apesar de se auto intitular como social-democrata radical.


Em agosto de 2018 o economista Ricardo Paes Mamede numa entrevista disse: “Sou economista social-democrata radical”. Na mesma entrevista afirmou que “Cavaco teve uma sorte enorme. Ele não é responsável por esse boom, e a parte em que é responsável mais-valia que não o fosse. É um momento verdadeiramente extraordinário na economia internacional, há uma quebra substancial do preço do petróleo, uma desvalorização forte do escudo face ao dólar, taxas de juro baixas e isso em simultâneo com a entrada de Portugal na então CEE, que significa um afluxo enorme de investimento direto estrangeiro ao país, de fundos europeus de coesão, para não falar do facto de que em 83 e 85 se esteve numa crise financeira profunda para haver o ajustamento externo, quando se sai da crise a tendência é para que haja crescimento. Cavaco Silva foi basicamente um sortudo dos diabos”.


Aqui está o que pensa da política cavaquista que enganou o povo durante os seus governos, mas que pretende agora enganá-lo com os seus argumentos falaciosos.


Sobre as contas certas o Prof. Cavaco sabe muito bem não ser verdade o que diz, mas serve para fazer de nós totós. É pena que alguns ainda acreditem

segunda-feira, 4 de dezembro de 2023

Dignidade e elevação, mas, porém, todavia, contudo

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Mas, por outro lado, Cavaco parece sugerir, inclusive, que nas pensões e nas áreas sociais e para causar ainda mais dificuldades do aquelas que aponta quando escreve que “o processo legislativo orçamental vigente é, ele próprio, fonte de desperdício e bastante prejudicial à eficácia da política orçamental na prossecução dos seus verdadeiros objetivos e proceda à sua reforma".


Eis o antigo e acabado ex-Presidente Cavaco Silva ao surgir na ribalta da política terá subjacente a sua ânsia de vingança contra o Partido Socialista e, sobretudo, contra António Costa a quem nunca perdoou ter conseguido um acordo entre com as esquerdas BE e PCP que lhe retirou a hipótese da governação PaF (PDS-CDS).


Cavaco Silva teria afirmado em tempo que iria afastar-se da vida política após o fim do seu mandato. O ex-presidente da República não teria intenção de intervir ou comentar os assuntos nacionais, preferindo dedicar-se à sua família e aos seus projetos pessoais. Mas, aqui está ele de novo a fazer propaganda partidária, desta vez não se abstendo de dizer asneira, o que vem contrariar a sua convicção profunda de “nunca me engano e raramente tenho dúvidas”.


Eis que escreveu um artigo de opinião no jornal Público, (será que haveria outros jornais que o teriam aceitado?), é possível que sim, mas ficamos sem saber. Mas uma coisa ficámos a saber desse douto economista que faz afirmações que pasmam mesmo quem não percebe nada de economia.


Então não foi que o ex-Presidente escreveu no artigo que “as 'contas certas' foram a armadilha que o governo socialista montou para, com sucesso, desviar a atenção dos órgãos de comunicação social e dos analistas e cronistas políticos dos graves problemas do país, que são da sua inteira responsabilidade, e condicionar a atitude dos agentes do espaço político em relação ao debate do Orçamento”.


Portanto, as contas públicas certas são uma “armadilha”. Será só para as do Governo que cessou funções ou será também uma armadilha para todos os que lhe sucederem?


Isto são teses de um Prof. de Economia?


Isto é o mesmo se qualquer um de nós pensasse que, quando tenta acertar as contas lá de casa, isto é, fazer com que o orçamento doméstico não fique desequilibrado é apenas para desviar as atenções dos vizinhos e dos credores?


Então, reduzir ou eliminar o déficit público são manobras para enganar os outros!  Podemos então colocar algumas hipóteses sob a forma de perguntas, como por exemplo:



  1. Se o PSD ou qualquer combinação de direitas for Governo e se optarem por ter políticas orçamentais de contas certas, estarão também, como diz o douto Prof. Cavaco, a “desviar a atenção dos órgãos de comunicação social e dos analistas e cronistas políticos dos graves problemas do país” e da sua incompetência?

  2. Se não tiverem políticas orçamentais com déficits e sem contas certas, estarão na mesma, nesse caso, a desviar as atenções dos tais “órgãos de comunicação social e dos analistas e cronistas políticos” da sua incompetência porque passarão a falar apenas do déficit excessivo para desviar as atenções da sua competência?


Deve ser esta a hipótese de Cavo Silva quando escreve que “espera agora que o Governo saído das eleições antecipadas coloque o saldo orçamental no seu devido lugar.”, isto é, passarmos a ter déficits?


Mas, por outro lado, Cavaco parece sugerir, que nas pensões e nas áreas sociais se causem ainda mais dificuldades do aquelas que aponta porque escreveu que “o processo legislativo orçamental vigente é, ele próprio, fonte de desperdício e bastante prejudicial à eficácia da política orçamental na prossecução dos seus verdadeiros objetivos e proceder à sua reforma".


O disparate do Ex-Presidente Cavaco chegou à meta e passou em primeiro lugar.


Vamos rever a gora a sua política no passado.


segunda-feira, 18 de setembro de 2023

As lições de Ressabiado Silva

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O nome próprio “Ressabiado” não existe, é ficcionado. Tal nome próprio nunca terá sido posto a ninguém, a não ser como alcunha. Já viram como soaria se nos dirigíssemos a alguém com tal nome? «Bom dia, senhor Ressabiado!» ou «Como está senhor Ressabiado? Tem passado bem? Há muito tempo que não o via!».


Ressabiado não é um nome próprio para designar determinada pessoa, isto é, aquela e não outra. É um adjetivo cujo significado é o de alguém que está melindrado, agastado sendo também sinónimo de zangado, por isso mantenho a designação para a personagem. O nome Silva é um apelido, e há muitos!


A estória começa quando, certo dia, Ressabiado Silva, corroendo-se interiormente e clamando por vingança - para explicação deste último sentimento seria a necessário um psicanalista - com o coração pleno de raiva e ódio que tinha contra tudo e contra todos os que com ele não concordam, nem concordaram resolveu destilar publicamente tudo o que sentia contra o seu alvo predileto que, no passado, o confrontou e quase lhe impôs aceitar condições que o contrariavam.


Por vezes vêm-lhe à memória os bons tempos da leitura do conto de Lewis Carroll “Alice no País das Maravilhas”. Recorda-se, sobretudo, da personagem do Coelho (no conto é a Lebre de Março) que, para ele, é uma personagem que possuía a verdadeira sabedoria da governação, mesmo diante dos maiores obstáculos.


Podemos imaginar Alice como sendo o povo que acaba por fazer parte do "chá de desaniversário" sem entender nada que está a acontecer. O Coelho era o fiel companheiro da hora do chá que insiste em provocar e incomodar a convidada. O Ressabiado é uma espécie de personagem como o Chapeleiro Louco que se juntam ao Coelho (Lebre de Março) e convidam Alice, o povo, para beber chá, mas sem açúcar. O Coelho é um personagem de sonho que ainda alguns continuam a procurar que regresse ao país das maravilhas.


Ressabiado Silva não convivendo bem com a imagem que ficou dele enquanto desempenhou cargos políticos, sobretudo no meio dos seus, esforça-se por colorir essa imagem. Mas a História não se reescreve e o que fez mal por erro ou omissão, obscurece a sua postura de infalível e continua a pensar que "ainda está para nascer quem seja mais honesto que ele", mas a sua atitude de ressentimento, ficarão assim inalteráveis por muitos livros que escreva e muitos discursos que faça.


Mesmo assim, Ressabiado Silva insistiu em escrever e publicar um livro, mais um, este último sobre a arte de como fazer política e nela conviver. Ressabiado, revê-se num hábil ético-moralista da política, isto é, avalia severamente os outros de acordo com os seus próprios padrões morais, desdenhando outros que sejam discordantes ou que não sigam os seus princípios político-partidários. Egocentrista convenceu-se e interiorizou o que disse no passado quando salientava que para serem mais honestos do que eles tinham de nascer duas vezes.


Para o esquadrão dos seus seguidores não é um livro qualquer. Para eles estão lá contidos altos pensamentos filosóficos no âmbito da ética política. Talvez seja uma “Bíblia”, talvez seja até um catecismo, poderá até ser um manual de instruções de como fazer e não fazer política.


Há um livro muito conhecido cujo título é “A Arte da Guerra”, obra literária do pensador chinês Sun Tzu, escrito por volta do ano 500 a.C. A obra apresenta-se como um manual estratégico para conflitos armados, mas que pode ser extrapolado para várias aplicações noutras áreas da vida e do confronto político. Terá, por acaso, Ressabiado Silva perguntado a si mesmo: Se aquele tal Tzu escreveu sobre a guerra porque não escrevo eu sobre a política? Mas o livro que escreveu é ainda mais completo, é um livro que ficará na memória do “mundo português”, uma espécie de Bíblia, com um Velho e Novo Testamento aplicados à política, mas tendo como alvo o ataque a vários dos seus inimigos figadais e a uma ideologia em especial.


O livro de Ressabiado Silva tem como base a sua sabedoria infinita. São textos que, para ele, são princípios sagrados e contêm histórias, doutrinas, códigos e tradições que devem guiar os verdadeiros políticos.


Ressabiado Silva, assim como para os seus correligionários, sempre se considerou um símbolo do país onde vive e o maior panteão do partido a que aderiu, talvez por engano, ou talvez porque não teve coragem de aderir na altura da queda do antigo regime a outro com que mais se identificasse.  


Teve sempre uma visão austera, (ainda há quem aprecie), com um perfil que aponta para um autoritarismo que mal consegue disfarçar. Poderia ter sido líder de um partido de extrema-direita, embora sem os chavões populistas inerentes. Poderia até ser líder de um partido com amostras de salazarismo, sem Salazar, em convivência com uma democracia controlada a seu modo. Foi o forno onde ele se cozinhou. A sua postura comunicacional, quer a sua retórica, quer o que defende, fazem parte de um passado que pode não estar longe de poder regressar, não na sua forma primitiva, mas revista e atualizada.


Ressabiado Silva tem uma necessidade egocêntrica e narcisista de se mostrar o melhor, o sábio, o infalível. Faz oposição a um governo cujas políticas não sejam as que ele defende e que pretenderia impor ao país onde vive. Nestas circunstâncias, tem o impulso de sair da concha onde habita, para fazer campanhas de oposição a qualquer governo que não seja o por ele idealizado,  sem, no entanto, propor soluções. Dizem os seus correligionários que ele é o símbolo de um período de crescimento no país, mas e as pessoas terão de facto também crescido? Ressabiado Silva é um saudosista do poder, mas dum poder absoluto. Ressabiado Silva parece ter-se esquecido que pensar e decidir quando se está no poder, frente a problemas atuais, concretos e complexos não é o mesmo que escrever para dar lições quando se está por fora do poder e como se o tempo tivesse parado.


 

sábado, 3 de junho de 2023

Nós, eleitores e crentes

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Nós, os eleitores e crentes que temos direito de eleger, somos os cordeiros e o “pau para toda a obra”, nas mãos de obreiros da partidarite e de influencres mais ou menos hábeis, que grassam pelo país cujo objetivo último é atrair o maior número possível de crentes e de votos, o que, na gíria popular, se designa por caça ao voto e à compra. Para este tipo de caça vale tudo o que estiver disponível para persuadir, influenciar e condicionar os eleitores de modo astucioso.


Não é só na política, mas também noutros sentidos, que a caça e a crença se desenrolam, é também no domínio dos “shows” e rituais como os das seitas evangélica ou pró-evangélicas cada uma com os seus séquitos.


A decisão dos eleitores em votarem numa ou noutra força partidária é idêntico ao processo que leva as pessoas a acreditar que mudarão de vida por causa de uma qualquer X-talks (talk-lérias) ou, ainda, pantomimices de palestras de autoajuda e motivação ao vivo assim como as pessoas são levadas a acreditar que um ou outro partido irá resolver os seus problemas ou que um certo líder é que diz as verdades, não obstante ser apanhado a mentir quase diariamente. A sensação para quem está de fora é parecida: uma profunda incredulidade com o que se passa na cabeça dos eleitores que se transformam em crentes irracionais. O oportunismo de imagens religiosas nos fatos e capas que veste são usadas como chamariz são a evidência do apelo à crendice que acarreta.


Introduzo aqui uma analogia entre política e shows pagos para ouvir uma senhora que enriquece à custa da papalvice de alguns que a idolatram e acham que lhes vai melhorar a sua vida com as suas patranhices. Este tipo de palestras descredibilizam o ato político de escolhas porque tornam implícito que a crença neste tipo de negócio para melhorar a vida das pessoas passa por abandonar a escolha política.


Mais grave ainda é haver políticos que já foram aos programas daquela que parece querer identificar-se com uma qualquer “nossa senhora” como o fez o Senhor Presidente   Marcelo Rebelo de Sousa que chegou a telefonar-lhe na estreia de um novo formato (janeiro/2023) quando essa “Nossa Senhora” estava em direto. Este tipo de intervenções de políticos ajuda ao marketing do produto que uma qualquer “guru” com uma capa com a imagem de “Nossa Senhora” pretende vender. Este tipo de intervenções funciona como uma legitimação das qualidades que a apresentadora anuncia ter, assim como a dos produtos que vende.


Os políticos, e muito menos o mais alto dignitário de Portugal, não podem fazer de figurantes publicitários que contribuam para a credibilização de vendas personalizada duma pessoa que anuncia milagres, vende sonhos e ficções perigosas aos clientes que até podem ser perigosos para a própria democracia. Isto reveste-se de gravidade. É pura e simplesmente a negação da política quando se acredita que, o que aquele, ou aquela, pensa contribui para melhores condições de vida e está disposto a lutar por elas individual e coletivamente fazendo-os acreditarem que tudo conseguem.


Nós, os eleitores, somos frágeis e crentes e, por isso, estamos sujeitos a deixarmo-nos enganar por manhas. De acordo com a Bíblia, a serpente ludibriou Eva para enganar Adão e o conduzir à desgraça da perda do paraíso e, daí, o sofrimento ao Mundo. A desculpa de Eva foi simples “foi a serpente que me enganou e eu comi”. Esta resumida passagem da Bíblia serve para mostrar como é a estratégia dos partidos políticos para atrair o voto dos cidadãos. É assim o jogo em democracia. Procuram ganhar eleições fazendo promessas em que os eleitores apostam como se fosse um jogo do poker igual aos que vendem patranhas.


Os eleitores são sujeitos a esta espécie de jogo de caça ao “tesouro do poder” pelo voto. Os bons rapazes são eles, os dos partidos, e nós, os “gajos merdosos”, que nos deixamos enganar.


Nós, os eleitores, somos por natureza volúveis nas nossas opções, ora votamos num partido, ora votamos noutro. Os eleitores pensam que ao mudarem a opção de voto lhes trará vantagens, facto de que os populistas sabem tirar vantagens. Assim, nós os eleitores, devemos estar acima do ruído onde se perde o sentido do que interessa, mas naquilo que tenha impacto na sua vida.


Em todo o mundo partidos e políticos populistas têm mostrado capacidade para usar um discurso forte para atrair adeptos e votos. Quem escreve roteiros para filmes ou gosta de avaliar filmes tem uma regra que é o “KISS” - Keep It Short And Simple, isto é, mantenha a narrativa curta e simples. Esta é uma espécie de fórmula utilizada para quando se está a contar uma história, seja ela verbal, visual ou multimédia para que seja percebida por todos e essa também é a estratégia utilizada pelo populismo. Veja-se, por exemplo, as mensagens colocadas em outdoors dos partidos.


Para seduzir eleitores, partidos da extrema-direita e também da extrema-esquerda, recorrem ao discurso populista que parece estar a resultar, não apenas em Portugal. Face a isto, os partidos políticos democráticos moderados de direita e de esquerda deixam-se contaminar e passam muitas vezes a seguir o mesmo processo de comunicação com os eleitores.  Para fazerem oposição ao Governo, (qualquer governo), criam no povo a crença errónea de que o país está sob ameaça devido à má governação e corrupção causados por forças que o estão a destruir. Quem esteja na oposição e a concorrer ao poder, aponta ao alvo que, por princípio, é sempre o partido no governo, socialista ou outro qualquer.  O argumento é que o "verdadeiro povo" precisa de ser protegido dos corruptos e da falsidade. Como anseiam o poder recorrem à injuria, à ofensa, censuram e criticam o que está mal e o que está bem, tudo no mesmo saco. Podem ser os partidos políticos, a U.E. os imigrantes, etnias, salários, pensões, etc., estratégia usada sobretudo pelos partidos da extrema-direita.


Nós, os eleitores, devemos ter esperança, dizem-nos alguns. Esperança era uma das palavras preferidas usada pelo PSD na altura da troica (Passos Coelho). Esperança foi recuperada por Luís Montenegro que, motivado por Cavaco Silva, diz que, se o partido for apoiado e chegar ao governo, dará uma nova vida aos portugueses. O líder do PSD acompanha o Professor Aníbal Cavaco Silva no “sinal de esperança para os portugueses.”. Falta clarificar a esperança em quê. Numa nova vida baseada em quê?


A propaganda do PSD avança com um fraseado próximo do populismo: “Quem é o português que não está zangado neste momento, lá em casa, quando vê o dinheiro do PRR a não chegar aos negócios e às famílias, quando vê o caos nas urgências, quando vê greves de professores umas atrás das outras?”, palavras de Cavaco. Fazer chegar o dinheiro do PPR às famílias?!! Não basta dizer ou escrever à toa. Nós, o povo, os eleitores, os crentes em alguma coisa precisamos de saber o quê e como fará o PSD para alterar o que hoje critica. Nós, o povo, os eleitores, os crentes precisamos de conhecer claramente o projeto da direita para o país. Assim o diz Francisco Mendes da Silva (CDS).


O que os portugueses precisam de ouvir é, sobretudo, como é que um governo PSD resolveria para fazer chegar dinheiro às famílias, resolver o problema do “caos” nas urgências, dar resposta às exigências dos professores e à situação da falta de médicos de família.


Veja-se como o discurso de Cavaco Silva se aproxima do populismo que é a estratégia que Luís Montenegro passou a seguir. A ideia é criar algo que todos entendam, fáceis e compreensíveis como os movimentos populistas têm utilizado eficazmente nos últimos tempos. Os “heróis”(!) combatentes patriotas populistas lançam para o “ar” a ideia de que estamos numa desgraça da política e, por isso, lutam por uma espécie de ressurreição dizendo lutar contra uma crise social por eles construída artificialmente ajudados pelos media.


Nas representações típicas dos populistas verificamos que está sempre presente uma evocação de crise ou de declínio das instituições. É um dos elementos básicos das estruturas da sua argumentação, para além do discurso falsamente moralizado e centrado em suspeições e factos hipotéticos. A aproximação à pessoa comum e aos seus problemas individuais é um ardil. Outro ainda é a passagem da noção de pessoas comuns versus os políticos que são uma elite e que o povo tem uma espécie de senso comum implícito nos seus julgamentos. Desenvolvem teorias da conspiração acerca de intrigas malignas sobre os que os criticam e desenvolvem um discurso muito moralizado. Tentam instigar os instintos mais primários das pessoas criando tensões e quebrando as normas e valores, que caracterizam a coesão social.


Os eleitores, o povo em geral, não está ciente de que não está plenamente informado do que se passa no interior dos partidos nem nos corredores da política do país a não ser pelos media. Como os eleitores só recebem fragmentos episódicos de factos, frases bombásticas dos líderes dos partidos, notícias dadas pelos media, as quais não possibilitam conhecer as causas primárias, os potenciais eleitores são confrontados grosseiramente com notícias que lhes impingem por vezes aceitando-as acriticamente.


Os momentos das várias agendas mediáticas e políticas são focados na economia que não chega aos bolsos das pessoas, na crise da habitação que não é resolvida e a que os jovens não tem acesso, na corrupção que grassa, na pessoalização de casos, etc. É isto que diariamente é repetidamente metralhado e chega pela comunicação social aos potenciais eleitores que não sabe o que, entretanto, possa ter sido melhorado e implementado de novo, e, quando o é, é “En Passant”, de forma a passar despercebido.


Os comentários são repetidamente os mesmos: o que se passa com a política e com os políticos, o país não avança, está atrasado, os salários estão baixos, etc. Quem é o culpado? Claro, são os que governam no momento, o socialismo, e, para alguns, o primeiro-ministro, e, em alguns casos, a própria democracia. Os que assim falam julgam-se os representantes executivos, diretos e únicos, da verdadeira vontade do povo. Fingem defendê-lo contra os políticos que veem como sendo todos corruptos e parasitas, exceto eles próprios, claro!


Alguns da direita extrema fazem-nos acreditar que são enviados e apoiados por Deus para defender as pessoas contra as coisas más presentes nos tempos modernos. Daí a necessidade de mostrarem publicamente a sua religiosidade e como são seguidores fiéis da Igreja Católica os órgãos de comunicação, mais ou menos simpatizantes da causa, fazem tornar públicos.


Se estivermos atentos ao que os media nos colocam à disposição diariamente sentimos que o essencial dos factos não é relevante, não é essencial para as pessoas. O irrelevante dos factos é selecionado e amplificado para que sejam acionadas as críticas que sejam mais compreensíveis pelos potenciais eleitores e se indignem com a situação. Não interessa mostrar o enquadramento da causa que, por vezes, é mais complexa do que nos mostram.


As redes sociais possibilitam a qualquer um fazer comentários sobre a situação política que se tornou, por isso, uma maneira eficaz de promover narrativas oposicionistas de cariz populista assim como a publicação de notícias falsas. Há pessoas e grupos que se organizam de modo a tentarem influenciar a opinião pública sobre temas que lhes interessa. Coloca-se material como sendo notícia acerca de factos que são falsos e que, sem filtro, são assumidos como verdadeiros.


Os eleitores que almejam paraísos fictícios são ludibriados com vãs esperanças de promessas fortuitas vindas de alguns partidos que enchem a sua alma desejosa de melhorias intangíveis.


Os canais televisivos debitam diariamente no noticiários e debates políticos onde, por vezes, é evidente a falta de clareza, a repetição diária e sistemática das mesmas imagens e notícias sobre o mesmo tema transmitidos até à exaustão. A estes acrescem comentários e opiniões que fazem parte da agenda político noticiosa de cada canal construídos para causar nas audiências desorientação e funcionam como uma espécie de lavagem cerebral política induzida pelos media mais consumidos através dos quais os potenciais eleitores absorvem informação.


Saber distinguir o trigo do joio em tudo aquilo que os media e os partidos nos “vendem” é uma arte que deve ser cultivada, sem emoções arrebatadas levantadas pelos contextos políticos e até por opções pessoais de ordem partidária ou ideológica. Nós, os eleitores, não nos podemos deixar levar por crenças misturadas neste caldeirão emocional em que os media e os partidos nos fazem viver sem discernir racionalmente, o que, por vezes, se torna difícil.

quinta-feira, 25 de maio de 2023

Estamos todos fartos até à náusea

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O artigo de opinião de Eduardo Marçal Grilo no jornal Público que abaixo transcrevo toca no ponto essencial do que pensa grande parte dos portugueses pelo que recomendo a sua leitura.


Haverá, decerto, quem não aprecie o artigo o que é compreensível, porque em democracia é normal a discordância. Devemos, contudo, distinguir os facciosos, os adeptos clubistas partidários de esquerda ou de direita, os militantes doentios anti Governo, anti PS e anti António Costa, os anti tudo, os populistas, os que absorvem o que lhe dizem, veem e ouvem, qual esponja, destituídos de qualquer espírito crítico, os que não distinguem o trigo do joio, os que acreditam que todos os políticos da direita são de uma pureza indelével e incorruptível, porque destes, raramente é feita notícia e, quando ela existe, apressadamente, transformam-na em fogo-fátuo.


A campanha repetitiva dos órgãos de comunicação social que têm a obrigação de nos informar, e não condicionar, com imparcialidade e ética giram numa espécie de roda de argumentos ad nauseam (até provocar náusea) ou ad infinitum para tentar convencer as audiências através da repetição.


Estou farto e cansado


OPINIÃO


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Eduardo Marçal Grilo


25 de maio de 2023


In Jornal Público


 Estou cansado e triste quando vejo os militantes dos partidos abdicarem de dizer o que pensam.


Sim, estou farto de quase tudo o que ouço e vejo à minha volta.


Mas também estou cansado de ouvir e ler sempre os mesmos a dizerem as mesmas coisas, como se conhecessem as soluções para todos os problemas, mas que nunca nos apresentaram uma única ideia ou proposta para a solução dos problemas com que o país se confronta.


Sim, estou farto de ver os políticos a criar conflitos inúteis, como estou farto de ver as televisões a massacrar os telespectadores com programas de futebol intermináveis e em que para entreter se criam conflitos sobre penalties, expulsões e foras-de-jogo.


Estou cansado de ler as notícias da corrupção que corrói a democracia e alimenta os populismos.


Estou cansado de ver os moderados sem voz e sem presença nos media.


Estou cansado e triste por ver pessoas “queimadas” na praça pública com notícias falsas ou com acusações infundadas.


Estou farto de ver títulos de jornais que não correspondem à notícia a que se referem.


Estou farto de conferências, colóquios e seminários em que os que falam e os que ouvem são sempre os mesmos.


Estou farto dos debates em que nós todos já sabemos o que cada um vai dizer.


Estou cansado e triste quando vejo os militantes dos partidos abdicarem de dizer o que pensam.


Estou farto de ver gente em lugares de responsabilidade comportarem-se como membros de uma associação de estudantes do ensino secundário.


Estou cansado e triste por ver deitados para o lixo trabalhos que foram feitos por organizações credíveis que só querem contribuir para melhores soluções para os problemas do país.


Estou farto da arrogância de alguns que nos querem impor as agendas das minorias.


Como também estou cansado dos excessos em torno da cultura de género.


Estou cansado das notícias que justificam que os processos judiciais se tornem intermináveis.


Estou farto dos que lucram com todo este emaranhado jurídico dos processos lançados pelo Ministério Público.


Estou também indignado com os processos lançados contra pessoas que, quando julgadas, se provou nada terem feito de mal.


Estou farto de ver incompetentes a exercer cargos para os quais não têm qualquer qualificação.


Estou cansado e farto de ver nas televisões o rigor substituído pelo espetáculo.


Estou farto de ver muita gente mais interessada em estar do lado do problema do que do lado das soluções.


E também estou cansado de ver que em certos casos são eles mesmos o problema.


Como também estou cansado dos que gostam mais de destruir do que construir.


Estou cansado de ver tanta inveja e tanta vontade de deitar abaixo os que fazem qualquer coisa que se veja.


Confesso igualmente que estou cansado das notícias sensacionais que duram menos de 24 horas, porque foram forjadas com objetivos inconfessáveis.


Estou cansado de não ver enaltecido o que de muito bom se faz em Portugal, seja nas empresas, nas universidades, nas escolas ou nos hospitais.


Como estou farto de ver aqueles que, como portugueses, gostam de se autoflagelar.


Estou cansado de ver televisão e até de ler jornais.


Sim, estou cansado de viver num país que adoro, mas que me traz grandes frustrações quase todos os dias.


Tanta frustração deve talvez ser da idade e da falta de paciência que tenho para aturar tantos disparates.


Nota final: estou triste, cansado e farto de muitas coisas, mas não sou um desistente.


Estarei sempre disponível para lutar contra os populismos e contra os inimigos da democracia, procurando que não nos toquem na liberdade e que, sem complexos ideológicos, se encontrem, com moderação, equilíbrio e bom senso, as soluções para os problemas que enfrentamos.


O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico

terça-feira, 23 de maio de 2023

Conselheiro do PSD nova função de Cavaco Silva?

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O ex-Primeiro-Ministro e ex-Presidente da República Cavaco Silva veio amparar Luís Montenegro, como se este fosse um coitadinho que não está a saber conduzir a oposição ao Governo. Dá-lhe inclusivamente conselhos (conselheiro, nova função de Cavaco?)


Cavaco Silva, apresentou-se no seu discurso como sendo o curador de Luís Montenegro, isto é, como se fosse representante de uma pessoa declarada incapaz e que, por isso, lhe deixa recados.


Encontramos, contudo, um ponto positivo quando aconselha o líder do PSD a “deixar de andar distraído com temas secundários ou com agendas de outrem não é suficiente.”


De seguida o primeiro conselho de Cavaco Silva aponta para que “é no Governo socialista que o PSD deve centrar a sua atenção”. Para Cavaco a indicação é para apontar baterias ao estado da governação, aos salários baixos e às pensões de reforma indignas, ao empobrecimento da classe média, à má qualidade dos serviços públicos, à falta de rumo e de visão estratégica. Pra Cavaco a demagogia e o descaramento não têm limites. A pergunta que nos surge é, (sobre os pontos que sublinhei): o que fizerem ele e os seus sucessores, nomeadamente Passos Coelho, para implementar o que Cavaco Silva diz agora ser necessário. Estará a dizer ao atual líder do PSD para prometer o que, em princípio, não poderá fazer, nem fará?


E mantendo o seu ímpeto conselheiro afirmou Cavaco que “O PSD não deve cometer o erro de anunciar qualquer política de coligação.” Como se pode ver este é um tema recorrente que é colocado a Luís Montenegro quando é interpelado, tendo rejeitado formar governo com políticos racistas, xenófobos, oportunistas ou populistas. O que aconselha Cavaco Silva?  Que os sociais-democratas não devem desfazer já as dúvidas sobre o que vão fazer nas próximas eleições, para não correrem o risco de ter de voltar atrás com a palavra. Ficamos a saber que após eleições Cavaco Silva deixou uma porta aberta para possíveis alianças ou coligações pós-eleitorais ou alianças com partidos da extrema-direita como o Chega. Já alertei para isto num outro texto.


 Como remate final disse que "O PSD não deve ir a reboque de moções de censura apresentadas por outros partidos mais preocupados em ser notícia." Vamos lá ver se entendo. Quem tem insistido na apresentação de moções de censura é o partido Chega. Segundo Cavaco essas propostas só servem para desviar as atenções e, por isso, interessam ao Governo. Mas, ao mesmo tempo, Cavaco abre portas à possibilidade de coligações pós-eleitorais com outros partidos e o Chega não estará fora de causa, apesar deste ser um dos partidos que está sempre preocupado em ser notícia.


Se bem nos recordamos Luís Montenegro nunca abriu a porta a moções de censura, mas, se pensava fazê-lo nos tempos mais próximos, o conselheiro Cavaco já o disse para não fazer. Mas, se for necessário, poderá chamar o Chega para coligação.


Sobre Cavaco Silva o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa fez uma apreciação sobre a frequência das intervenções públicas do ex-chefe de Estado Cavaco Silva dizendo que falou “menos” como Presidente e “mais” depois do cargo.


O ex-Presidente Cavaco Silva pode esforçar-se a dar conselhos a Luís Montenegro do PSD, mas as previsões, penso não me enganar, serão de que as perdas de votos sofridas pelo PSD, com vantagem para o Chega e para o Iniciativa Liberal, não serão recuperáveis a breve prazo. Recuperá-las apenas do PS serão uma insignificância.


Caso venha a ser Governo, e dada a falta de projeto claro do PSD, se for seguir o que o “conselheiro” Cavaco diz sobre os pontos em que é essencial “apontar baterias”, tal implicará incluir no programa de Governo o que ele indicou no seu discurso. A dúvida de tal ser possível fica no ar.

domingo, 21 de maio de 2023

Cavaco já não é uma força da natureza do PSD

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Quando falamos em força da natureza referimo-nos a forças que existem na natureza como resultado de ocorrências naturais, não devidas a quaisquer causas externas e que estão fora do controle humano.


Muitos ainda acham que Cavaco Silva é uma força da natureza do PSD. Não. Não é. Cavaco é movido pela força da vingança e do ódio. Perdeu a noção da ética em política. A sua linguagem aproximou-se da usada pelo líder do partido da extrema-direita Chega, ou não estivesse André Ventura de acordo com o essencial do discurso de Cavaco Silva quando «defendeu que as palavras de Cavaco Silva foram certeiras por dizer “o óbvio”, e considerou que «Este Governo chegou ao fim, António Costa deveria ter a coragem de se demitir e é um Governo assente em mentira e em propaganda». Mas também acrescentou que a mensagem do antigo primeiro-ministro do PSD e ex-chefe de Estado «é também incompleta e incerta».


Cavaco Silva não é uma força da política pertence a um PSD, não é do centro-direita, nem do centro-esquerda como Pinto Balsemão sugeriu. Cavaco Silva é uma força da direita radical dentro do PSD, é um político que regressou do passado e pretende que o PSD o acompanhe e, para tal, empurra Montenegro dando-lhe ânimo para que, depois, fique aprisionado. Isto é, eu dou-te um empurrão, mas depois, quando eu disser farás o que eu quero.


O discurso de Cavaco Silva no 3º Encontro dos Autarcas Sociais Democratas, em Lisboa, veio dizer que Luís Montenegro está mais bem preparado do que ele estava em 1985 para ser primeiro-ministro, ao dizer que “O doutor Luís Montenegro tem mais experiência política do que eu tinha quando eu subi a primeiro-ministro em 1985, e está tão ou mais bem preparado do que eu estava”.


Mas, então, porque terá sido necessário vir alguém das profundezas do passado, Cavaco, dizer que era pior (em experiência política) do que é hoje um outro, no presente, Luís Montenegro? Seria inevitável e necessário que alguém viesse dizer que foi menos experiente do que outro, para valorizar outro, caso o visado não fosse, de facto, inexperiente?


Será isto fazer política séria?


De um político deveria esperar-se tudo menos que aja ao tremor do ódio, da vingança e da desforra motivada por causas políticas passadas. Cavaco é um político autoritário, vingativo, desconfiado, invejoso que não perdoa. É uma espécie de Salazar que recebeu formação em democracia e lhe sobreviveu e que utiliza as ferramentas por ela disponibilizada para a sua sobrevivência.


A linguagem utilizada no último discurso não faz parte do léxico de um político de nível superior. A sua linguagem é a de um arruaceiro que se encontra muito próximo de partidos da extrema-direita como o Chega a qual nem a extrema-esquerda usa.


As afirmações para que se acredite nelas careceriam de provas. Onde estão elas? Ofende, mente, insulta sem justificação, com palavras vãs que nada dizem. E os resultados das contas públicas e da macroeconomia que têm sido apresentados, que lhe eram tão caros, e a que tantas vezes aludiu no passado, lá no tempo de Passos Coelho?


Cavaco, durante estes anos após 2015 tem guardado ressentimentos desde que António Costa o encostou à parede com a possibilidade da formação parlamentar que, na altura, deu lugar à “geringonça”. Tal é demonstrado nos discursos muito pouco éticos, por serem muitas vezes de índole vingativa, mentirosos que nos últimos meses tem andado a proferir.


Cavaco propôs um guião para Montenegro. O mais importante foi o de «não falar de coligações pré-eleitorais». Ao dizer isto, Cavaco Silva deixou uma porta aberta para possíveis alianças ou coligações pós-eleitorais com qualquer partido, mesmo os da área liberal radical e da extrema-direita como o Chega. Aqui reside a dúvida: quem nos garante que no caso de eleições se não tiver maioria não fará coligações pós-eleitorais? Fica a dúvida.

domingo, 19 de março de 2023

Presidente e comentador

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Hoje lembrei-me do filme “Oficial e Cavalheiro”, drama romântico de 1982 que teve grande sucesso que chamou a atenção sobre Richard Gere e que se não me engano foi vencedor do Óscar para melhor ator secundário Louis Gossett Jr.,Óscar para a melhor canção: "Up Where We Belong" e, ainda indicado nas categorias de melhor atriz (Debra Winger), melhor edição, melhor roteiro original e banda sonora (Jack Nitzche).


Lembrei-me deste filme quando escolhia um título adequado, talvez satírico, para o artigo do “post” que publico e que nada tem a ver com o filme.


O título escolhido, “Presidente e comentador”, parece querer antecipar sobre o quê e sobre quem escrevo. Exatamente, o nosso Presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa. Votei a primeira vez nele para o primeiro mandato, voltei a votar nele para o segundo mandato e, provavelmente, voltaria a votar nele, à falta de melhor, se pudesse candidatar-se a um terceiro mandato. Exclamarão alguns neste exato momento, “poça”, já chega, estamos fartos! OK, cada um sabe de si. Mas eu também não lhes disse que que votaria, disse que talvez votasse, isto porque não saberemos o que virá por aí nessa altura.


Quando vemos notícias na televisão ou as lemos na imprensa oscilamos entre uma visão de conjunto que temos e o momento fugitivo de ideias gerais  e acontecimentos específicos que passam nos ecrãs, sobre atores da política que nos são mostrados conforme a agenda mediática, os interesses e os alinhamentos feitos para os jornais televisivos.


Por vezes identificamo-nos com os pensamentos desses personagens e concentramos nelas a nossa atenção e tentamos ver a paisagem política circundante através dos seus comentários, de tal modo que já nem nos apercebemos do que estamos a ver e a ouvir. É como estarmos a conduzir um automóvel quando acionamos automaticamente e inconscientemente os comandos. São os espectadores e os leitores a que me atrevo a chamar ingénuos para descrever os tipos que não estão minimamente preocupados com os aspetos exatos do conteúdo e ligam mais à artificialidade, aos aspetos artificiais das mensagens. A estes ingénuos podemos opor os reflexivos os interessados no conteúdo exato e à descodificação da eventual polissemia das mensagens e para a descoberta da artificialidade, prestando atenção aos métodos utilizados pelo mensageiro da notícia, cortando, amplificando, distorcendo a mensagem do emissor.


Mas vamos recuar no tempo, não muito, para vermos o professor Marcelo Rebelo de Sousa que também tinha sido jornalista e que, sem largar a Comunicação Social, aparece como comentador político primeiro na rádio, na TSF, e depois na televisão, na TVI de 2000 a 2004, na RTP de 2005 a 2010 e de 2010 até 2015 novamente na TVI e, paralelamente, a estes percursos, Marcelo teve uma longa carreira no ensino universitário. O seu percurso enquanto comentador tornou-o numa presença habitual e afável de grande maioria dos lares portugueses e até em certas alturas parecia mais um oráculo noticioso.


O abandono do comentário político foi apenas formal porque o Presidente continua a comentar a vida política nacional de todos os ângulos. Passou de comentário semanal para comentador diário, quase horário e em qualquer lugar, sem limites. É uma presença que mostra obsessão pelos media e que chega ao limiar do exagero. Talvez por isso os jornalistas, ávidos das suas palavras, solicitam-no a comentar, sejam os temas mais importantes, sejam os mais triviais. O fulano disse, o partido fez, o que tem a dizer sobre isso – perguntam-lhe – e, solicito, o Presidente lá vai comentando, intrometendo-se dizendo o que acha sobre assuntos que deveria ser da competência do Governo. São intervenções por vezes perturbadoras da governação que os media aproveitam para fazer aberturas nos jornais televisivos.


São José Almeida escreveu hoje no jornal Público que o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa reformulou “a forma como projeta para o país a sua atitude perante o Governo, não no sentido de ser propriamente mais crítico, mas, sim, no sentido de se tornar ainda mais presente, mais incisivo” e que isso o faria “reganhar espaço no centro do palco político institucional”.


O poder de influência reclamado por outros Presidentes da República, como Cavaco Silva fazia por utilizar, pode diminuir quando há maiorias absolutas dando segurança ao primeiro-ministro. Por isso vemos o Presidente Marcelo fazer por não perder o seu poder de influência que pretende mostrar via comunicação social. Ora provoca o Governo, ora diz que está a justificar opções. E agora passou também a ser uma espécie de inspetor da execução dos projetos PRR (Plano de Recuperação e Resiliência).


A existência de uma maioria absoluta, assim como dá segurança ao primeiro-ministro, diminui o poder de influência do Presidente da República sobre o Governo. Desde que deixou de ser comentador de televisão, devido à candidatura para Presidente e ter ganhos duas eleições presidenciais nunca mais deixou de estar no ar e faz por isso.


Num comentário em 12 de março passado o Presidente da República deu uma entrevista à RTP, onde teceu algumas das mais duras críticas ao Governo, desde que foi eleito. A comentadora da CNN Portugal Alexandra Leitão analisou as palavras de Marcelo Rebelo de Sousa, que "não escondeu o seu gosto pelo comentário político".


O Presidente Marcelo parece estar num país que alterna entre sistemas de governo. Para um observador inexperiente umas vezes ele parece ser um presidencialista, outras, semipresidencialista, outras ainda, um parlamentarista. Talvez tenha razão quem em tempo disse que Marcelo Rebelo de Sousa é um cata-vento. Foi Passos Coelho, num Congresso do PSD (XXXV) em 2014, que traçou o perfil do Presidente da República como candidato onde afirmou que para o cargo não deveria ser um “protagonista catalisador de qualquer conjunto de contrapoderes ou num catavento de opiniões erráticas”. Passos Coelho terá idealizado um candidato como tinha sido Cavaco Silva, uma espécie de adepto do solipsismo que, como ironia, podemos considerar como uma pessoa que apenas reconhece a sua existência como sujeito pensante, sendo os outros apenas simples representações mentais sem existência própria.


Cavaco Silva foi um presidente que se refugiava no Palácio que é presidencial e onde, qual “monarca”, se distanciava da nação, autoanalisando o seu “eu” de político de Presidente. Raramente se expunha publicamente, exceto quando aparecia para fazer comunicações que ele achava serem relevantes. Tal e qual um monarca com tendências absolutistas, talvez até uns laivos salazaristas.


Apenas tenho presente a sua saída com mais impacto mediático, tirando os discursos de pouca isenção ideológica, foi a sua saída para ir ver as “cagarras”, pássaro dos Açores. Afirmou ele na altura, julho de 2013: “As cagarras resolveram ter muito respeito e consideração pelo Presidente da República de Portugal por ter sido o primeiro a dormir aqui. Contrariamente ao que me tinham avisado, não me incomodaram”, revelou ele, acrescentando que “foi uma noite tranquila, em que não chegou nenhuma notícia desagradável de Lisboa”.


O seu último discurso de 18 de março nos “30 Anos PER: génese e impacto nos territórios” autocentrava-se, e, como se esperava, colocou as políticas focadas nele mesmo, como sempre fez. Dos seus discursos não podemos esperar outra coisa. Como se verificou neste último aparecimento pareceu um ente imaginário que veio das catacumbas, mais uma vez, parar perorar contra o que ainda lhe está marcado na alma, o PS, (sobretudo António Costa), que o “obrigou” a “destronar” o seu partido minoritário saído, na altura, das eleições.


Antes Rebelo de Sousa!! Ao estar também, embora numa outra perspetiva, focado em si mesmo, preocupado com a sua popularidade mediática e com a produção de selfies. Numa sondagem em finais de fevereiro de 2023 do Cesop/Universidade Católica para o PÚBLICO, RTP e Antena 1, apesar de ter recebido nota positiva, igual ou superior a 10 dos 79% dos inquiridos. Mas a avaliação média estava já em queda acentuada desde o início do segundo mandato, e situava-se numa nota de 12,2, o que representa uma queda de 0,7 pontos desde julho do ano passado.


Mas, contudo, lá vai andando como Presidente e comentador. Estaremos atentos para ver o respeito que irá ter pela maioria absoluta sem se deixar influenciar pelos órgãos de comunicacional, pelas greves políticas e manifestações, convocadas pela da extrema-esquerda ansiosa por recuperar os votos perdidos, das quais se aproveita a extrema-direita.

sábado, 4 de junho de 2022

O meu lugar na História e autoelogios seguidos de presunção e água benta bebida em quantidade

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Os portugueses sempre foram sebastianistas não nos amidaremos, portanto, que andem sempre à procura de um qualquer salvador que um dia surgir. Mas, quando aparece, e começa a “tratar-lhes da saúde” assobiam para o lado e queixam-se para o vizinho do lado que nada teve a ver com o caso.


Após a eleição de Luis Montenegro para líder do PSD saiu outra vez do refúgio desta vez com o impacto que desejaria e daí esperarmos que aproveitará ou criará as oportunidades que surjam para poder sair mais vezes.


Desta vez, numa entrevista à CNN feita por uma espécie de múmia jornalística que olhava embevecida para o entrevistado que criticou a comunicação social que, disse, ter ajudado António Costa e o PS a obter maioria absoluta. Esperemos, que essa mesma comunicação social não se sinta atingida nem culpabilizada e não corra a fazer a contrição e lhe dê agora um protagonismo indevido, exagerado e imerecido, encurralada por uma múmia política fora do seu tempo. Portugal, de tempos a tempos, seja nos bons ou maus momentos, sobretudo nos de crise, refugia-se no elogio ao passado, numa espécie de purga para solução dos problemas.


Cavaco Silva saiu da inércia parcial a que se dedicou, salvo em aparecimentos pontuais para lançar memórias e outros escritos que a sua autoestima lhe dita e para conseguir algum protagonismo que acha lhe ser devido.


Cada vez que aparece à tona as suas mensagens são azedas, prenhes de pessimismo e despeito. É uma espécie de profeta e arauto da desgraça dirigida aos da sua fação, mesmo que os resultados demonstrem o contrário.


Não admira que ainda haja saudosistas dessa figura mais ou menos austera, salazarenta, pouco sociável, que se dedicou à observação das cagarras no final do seu lúgubre mandato presidencial. Este personagem que se transformou numa caricatura de político saiu ressabiado por António Costa ter conseguido formar uma maioria de esquerda de incidência parlamentar estável, contra a previsões da figura sinistra da presidência que, se o conseguisse, permitam-me a especulação, imporia uma democracia musculosa ao país, depois de ter dado descaradamente a mão a Passos Coelho para a manutenção de um governo minoritário saído das eleições legislativas de 2015.


Com a maioria absoluta do PS os traumatizados da direita vão aproveitar tudo quanto vier à tona para desclassificar, desgastar e corroer António Costa e o PS. Veja-se o que, uma tal Pipa, escreveu num comentário um artigo de opinião que Cavaco Silva escreveu para vermos ao que chega o disparate, a falsidade e as mentiras que se escrevem:


“Que grande lição! Com uma oposição em condições e uma comunicação social isenta nunca o Costa seria reeleito, muito menos com maioria. Estamos a ser ultrapassados por todos os países de leste, o povo está esmagado e empobrecido por impostos e um salário médio quase igual ao mínimo, sem crescimento, com dívida pública brutal, com uma inflação gigante e são negados aumentos de salários/pensões, uma gestão desastrosa da pandemia, um SNS de rastos, um sistema educativo miserável, uma emigração em massa ao nível dos tempos de Salazar... e mesmo assim este homem foi premiado com uma maioria absoluta? De fato controlar as TVs e a sua propaganda diária pró-PS faz milagres.”


Quem escreve uma tal verborreia pertence à fação dos que já se esqueceram do tempo do governo de Passos Coelho com o apoio, do na altura, do presidente Cavaco. Este comentário totalmente deturpado e de mentira intencional foi objeto de desmontagem num outro artigo de opinião da Bárbara Reis no jornal Público.  Se analisarmos o texto do dito comentário está próxima das palavras de ordem da extrema-esquerda que poderá estar a colar-se à direita para fazer oposição ao PS.


 


 


Para se presentear com algum protagonismo e sair da toca do esquecimento veio agitar divisões e prejuízos idênticos aos que provocou no tempo da troica fazendo com o seu dileto aprendiz Passos Coelho


Os regressos ao passado agravando divisionismos não têm dado bons resultados, mas eles continuam a ressurgir em Portugal e por essa Europa e Cavaco parece estar a surfar nessa onda.


Cavaco Silva foi muito claro ao dizer na entrevista que o PSD tem que falar para todos mesmo para aqueles que não gostam do PS (o sublinhado é meu).  É óbvio que está a conotar-se com o GHEGA e com a IL. O extremismo de direita está bem presente neste pensamento de Cavaco que não consegue disfarçar.


Saudosistas e admiradores acríticos da personagem prestam-lhe vénia com elogios à mistura sobre a sua “vasta obra de escritos” ou, no dizer de João Miguel Tavares, “vários textos marcantes ao longo da carreira”. Para alguns, felizmente poucos fiéis adeptos, Cavaco será uma figura sábia, portanto, digna de qual Prémio Nobel da literatura, da economia, da política, da democracia, isto digo eu. Isto tudo porquê? Apenas e por causa de um artigo critico que ele escreveu sobre António Costa. É que, não sei se se recordam, a memória do povo é fraca, mas a ira e a fria vingança estão instaladas nesta mesquinha personagem da política que não consegue esquecer e distanciar-se dos constrangimentos, ressentimento e revolta que António Costa lhe causou no final do seu mandato ao ter que aceitar a negociação parlamentar com o PCP e o BE que veio a ser a causa do derrube do governo de Passos Coelho e à maioria de esquerda encontrada no âmbito da Assembleia da República, a tal “geringonça”.


Cavaco não consegue ver a três dimensões, vê a política a uma dimensão, a dele.


Atualmente, por coincidência, ou não, depois de Luís Montenegro ter ganho as eleições para a liderança do PSD Cavaco, mais uma vez, saiu da sua letargia e os seus admiradores incondicionais apressaram-se a elogiar os mandatos de primeiro-ministro marcados pelo betão e pelas obras megalómanas para que ficasse na história. Momentos de reconstrução com fundos europeus que Cavaco não fez mais do que a sua obrigação, utilizá-los para desenvolver as infraestruturas de Portugal.


E, claro, Montenegro irá ser um fiel seguidor “offline” dos doutos conselhos cavaquistas. Não é por acaso que surge neste momento o artigo de opinião crítico a António Costa. Atrevo-me a dizer que irão surgir aparições e convites mais frequentes nas televisões desse santo padroeiro por parte do PSD. Aliás, não tardou e a CNN já iniciou o périplo dando-lhe voz onde começou a atirar a todos os alvos numa simbiose de ira e vingança onde teceu duras críticas à liderança de Rui Rio e elogios a Luís Montenegro.


Não terá sido por acaso que que Cavaco surge logo após a vitória de Montenegro, este sabe que sabe terá nele um precioso auxiliar na oposição ao PS que já iniciou ao sair da toca dos políticos escondidos. Cavaco sabe que é o momento para voltar ao protagonismo.


Estamos a ver que as previsões/especulações sobre Montenegro que tracei num blogue anterior começam a verificar-se. Montenegro não só é seguidor de Passos Coelho, como também vê em Cavaco o seu inspirador político.    


Cavaco Silva pretende mostrar-se como um visionário da política por antecipação e procura teorias da conspiração. Veja-se esta com base numa afirmação de Rui Rio proferida em abril de 2019 quando disse que “Nós não somos de direita. Nós somos do centro, somos moderados”. Afirmara ainda Rui Rio, líder dos sociais-democratas que “votar no PSD dá garantia de moderação”. E, claro, a douta personagem infere que “Foi um erro o PSD deixar-se enlear numa dicotomia direita esquerda”. E acrescenta que “era uma armadilha montada pelo PS e alguns órgãos de comunicação social para desqualificar o PSD e impedir alguns votantes de saírem do PS para votarem no PSD”.


Altas conspirações e conluios entre um partido e órgãos e comunicação. Mostra também a sua ira contra” alguns” órgãos de comunicação social, talvez, a SIC porque não lhe dará a papa que ele gostaria.  Num processo de avaliação não sei se não ficaria bem classificado numa escala de senilidade.  


Duvido que este político “sagaz” não consiga discernir que muitos do que não votaram PSD saíram para a IL e para o CHEGA. Mas, ao elogiar Montenegro, vem reforçar a ideia de que é um péssimo líder e vai matar o PSD. Problemático será se, como prevejo, novas lideranças venham a cheirar tanto a bafio como estes "antiquíssimos".


Em resposta ao artigo de opinião de Cavaco Silva publicado na passada quarta-feira, em que disse desafiar António Costa a “fazer mais e melhor” do que ele próprio fez nos seus governos maioritários. O atual líder do executivo afirmou na sexta-feira seguinte que está “preocupado com o futuro dos portugueses”, ao contrário de Cavaco Silva, que diz estar preocupado “com o seu lugar na história”.

sábado, 9 de outubro de 2021

O retorno dos coelhos

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O eterno retorno era uma doutrina dos estoicos retomada, em particular pelo filósofo alemão, Nietzsche segundo a qual há um eterno recomeço, isto é, uma série de acontecimentos idênticos aos precedentes. O estoicismo foi criado por Zenão de Cício, na cidade de Atenas, cerca de 300 a.C.. Os estoicos defendem a austeridade na virtude, o desprezo por todos os tipos de sentimentos externos, como a paixão e os desejos extremos e foi recuperado pelo cristianismo que afirmava e afirma que só "através da aceitação do destino e da renúncia às paixões, pelo que o homem deverá destacar-se pela indiferença face à dor e pela firmeza de ânimo perante os males e as agruras da vida”. Enfim, mais ou menos a apologia da austeridade aos níveis das agruras pessoais e bens materiais.


Não vou aqui dissertar sobre temas filosóficos, mas isto vem a propósito do que tem vindo a ser noticiado e comentado após a calma das emoções geradas pelos resultados das eleições autárquica. Interpretações que têm emanado dos comentadores políticos e fazedores de opinião, quais oráculos do tipo Pítias, sobre o futuro político, quer em relação ao partido dito perdedor, quer em relação ao partido dito ganhador oriundos da comunicação social.


Com é sabido, Carlos Moedas ganhou Lisboa, mas teve ao seu lado durante a campanha elementos que estiveram também em tempo ao lado de Passos Coelho. Moedas foi, e ainda é, um animado adepto saudosista das políticas de Passos, assim como os que o ajudaram na campanha como é o caso de Sofia Galvão, Miguel Morgado, João Marques de Almeida, António Leitão Amaro não são dedicados "passistas”.


Moedas integrou o XIX Governo Constitucional e que fez parte do Executivo durante a maior parte do seu período de vigência. Era considerado o braço-direito do anterior primeiro-ministro, facto que o colocou em destaque nas relações entre o governo português e os responsáveis da troika. Mais recentemente, a 30 de julho, Carlos Moedas, numa entrevista ao semanário NOVO, afirmou que “gostava de ver outra vez Passos Coelho num lugar de destaque". Segundo o semanário a frase é suficientemente ampla para nela caberem várias hipóteses, mas a “admiração” é indisfarçável.


Este enquadramento serve como justificação para o título do artigo e para alerta de que o retorno da direita passista ao poder pode vir a ser mais real do que virtual, caso Rui Rio não se candidate novamente à liderança do PSD ou se se candidatar não ganhar. Se assim for é certo que o poder do PSD fica novamente na mão dos neoliberais de Passos Coelho numa campanha a fazerem-se passar por sociais-democratas. Aliás, hoje o semanário Expresso publica um artigo de opinião do senhor de má memória que dá pelo nome de Cavaco Silva que o comprova: Cavaco diz que Governo de Costa “não foi capaz” de aproveitar as condições herdadas de Passos, (!?) e critica também os adversários do Governo, denunciando uma “oposição política débil e sem rumo, desprovida de uma estratégia consistente”.


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Começo por mencionar as minhas impressões sobre os comentários que se teceram e tecem em catadupa nos órgãos de comunicação social sobre o primeiro-ministro António Costa, o Governo, o PSD e Rui Rio durante a campanha eleitoral para as autárquicas e após as eleições.


António Costa desde que esteve na presidência portuguesa do Conselho da União Europeia e, tendo em conta as notícias que, entretanto, foram surgindo nos órgãos de comunicação e a que alguns socialistas chamam casos e casinhos, fica-se com a ideia de que o Governo, e sobretudo alguns ministros, entraram em roda livre, mesmo depois de junho quando do seu regresso. A coisa que já vinha de antes parece que piorou. Os casos que iam surgindo como sendo de casos e casinhos sucederam outros que o são de facto. Não é certo que algumas perdas nas autárquicas não tenham contribuído também para esses factos.


Chegado até aqui penso que António Costa deve começar a ter algum cuidado e prestar mais atenção e observar mais tudo quanto o rodeia. Ouvir neste caso não significa executar o que outros acham que deveria fazer, mas descobrir estratégias para o futuro próximo. Analisemos agora, com algum cuidado, os mais recentes comentários sobre António Costa e o seu Governo e também os comentários sobre a sucessão, ou não, de Rui Rio no PSD levantados após as eleições autárquicas. 


Quanto a António Costa e sem qualquer ordem cronológica detenho-me em algumas das afirmações que são sistematicamente repetidas nos comentários mais ou menos proféticos como a insistência na fragilidade do Governo após as eleições; remodelação do governo a ser feita após aprovação do orçamento (a única que poderá ter algum fundamento); perda de autoridade do primeiro-ministro; fadiga em relação ao Governo; o Governo está muito mais fraco após as eleições; a inversão da tendência política em Portugal; a semana tal foi um desastre para o Governo.


A somar a estes sinais amargos, as semanas a seguir às autárquicas foram um desastre para o Governo. Pedro Nuno Santos verbalizou — da forma mais bruta possível — tudo o que o opõe ao ministro das Finanças, a quem culpa pelo afastamento do presidente da CP. O descontentamento com João Leão será alargado a outros ministérios, como escreve o Expresso, mas a declaração do ministro das infraestruturas abriu a caixa de Pandora. Dificilmente os dois poderão coexistir num próximo Governo e vai ser interessante ver como se desfaz este novelo. Para somar à semana desgraçada, o ministro da Defesa decidiu aproveitar politicamente o fim do mandato do vice-almirante, louvado quase unanimemente pelo sucesso das vacinas, para despachar o Chefe de Estado-Maior da Armada e colocar Gouveia e Melo no posto.


Daqui as primeiras mexidas consequentes saídas da primeira reunião da direção socialista neste sábado que elegeu os dirigentes que integrarão a comissão política, o secretariado e a comissão permanente do PS


Quanto ao PSD e a Rui Rio parecer ser evidente a exploração jornalística de um dito “combate” dentro do PSD, que é o de “se concentrar naquele que é o combate maior que terá pela frente, que é o de se constituir como verdadeira alternativa ao Governo do Partido Socialista” como afirmou numa entrevista de Montenegro falando das rivalidades internas no partido, afastando-se estrategicamente dessas guerras. Faz-se de bom da fita, por agora, para depois atacar os despojos. Rio não está em condições de ser "alternativa sólida" ao PS. Acrescentou ainda que não pretende pôr-se já a caminho porque acha que o PSD ainda não está na hora de ganhar eleições e porque não acredita que o PSD sendo com Rui Rio ou sendo com Paulo Rangel não tem tempo de recuperar e renascer das perdas eleitorais.


Infeliz, à sua maneira, também está o PSD. A vitória de Lisboa e de Coimbra e o aumento total de câmaras deram a Rui Rio um sopro de vida, mas o combate interno intensifica-se — enquanto o PS sonha que Rio se mantenha no cargo. Com o PSD em convulsão, se Paulo Rangel conseguir ganhar as diretas a situação política muda: o curriculum de Rangel faz prever um PSD mais combativo, numa altura em que o PS ainda se encontra no cimo da colina, mas vai escorregando.


A proposição de que basta repetir uma mentira para que ela se torne verdade, uma das regras básicas da propaganda política, pode aplicar-se também num propósito de formulações hipotéticas, opiniões e suposições que sucessivamente se repetem mesmo que não sejam mentiras. Se se repetir uma ideia que não sendo mentira pode ser potencialmente uma verdade, ou seja, algo não verificado ainda, a sua repetição passada pelos “fazedores” da opinião pública pode ser vista como sendo uma verdade, embora não o seja ainda. É a chamada a ilusão da verdade.

segunda-feira, 22 de outubro de 2018

Crónicas, opiniões e Memórias II de Cavaco

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Para quem escrevem os autores de crónicas, opiniões, comentários e outras peças das mais variadas estirpes que se publicam na imprensa escrita? Para o comum do povo não será, com certeza, porque ele não compra jornais e, quando compra, prefere os tabloides de média e baixa qualidade jornalística. Mas vê televisão e compra revistas de coscuvilhices e outros assuntos do mundo caseiro com as últimas modas, ditos e mexericos das ditas “personalidades públicas”.


A pergunta mantem-se: para quem escrevem eles? Talvez para elites que compreendam o seu fraseado. São os fraseadores de opiniões, de escrita complicada lidas apenas pelos que já não precisam de ser doutrinados, isto é, algumas elites de intelectuais que entendem a linguagem rebuscada e metafórica dos escritos das opiniões dos factos mais correntes e comuns da nossa quotidiana política. Quem viveu no tempo da censura sabe que quem escrevia tinha que fazer ginástica para passar as suas ideias. Outra pergunta se pode colocar é a de saber se escrevem apenas para os seus fiéis leitores, sempre os mesmos?  


Então dirão alguns: viva a falta de qualidade e escreva-se tal e qual se fala e pensa no quotidiano popularucho! Veja-se o caso nas redes sociais como as mensagens (e fake news) passam, circulam e permanecem na memória de quem as lê.


Não, não viva a falta de qualidade!


Escrevo na casa de campo na Beira Interior, lá mesmo no meio, onde a Internet e o cabo ainda não chegam, e um modem tipo Hotspot faz o serviço pago ao dia ou ao giga. Citadino bem arreigado desde os meus cinco anos é na grande cidade onde me sinto bem, mas é aqui, rodeado de campo e de vizinhos cuja vida é passada no cultivo da terra para consumo próprio que, quando não consumido e em excessos é desperdiçado. É um modo de vida para fazer passar o tempo onde a monotonia dos dias apenas se altera nas épocas do plantio e da colheita para consumo próprio. Toda esta gente vive do que plantam num sem fim das estações do ano. É um carrocel onde os dias se sucedem sempre num ciclo infernal e espaçado pela obsessão do cultivo dos produtos das épocas. O que produzem não compram, se não compram não entra para o consumo interno. Mas compram. Compram sementes, compram os rebentos dos vegetais que plantam e regam depois do amanho da terra, mas é aqui que em algumas épocas que encontro a paz de espírito para olhar a política com outros olhares e perceber o conservadorismo destas espécies de gentes da beira interior.


Ao escrever esta pequena e simplista crónica, sim, simplista, porque nada tenho de arrogante, sou confrontado com a notícia de pré publicação cujo lançamento vai ser feito a 24 de outubro pelo ex-Presidente da República, Cavaco Silva, do segundo volume de memórias sobre os anos passados no Palácio de Belém, "Quinta-feira e outros dias". Ora aqui está o momento Zen do dia, estórias contadas ao nível do romance político contado ao seu modo. Como bom democrata se estivesse na capital não faltaria ao lançamento já que mais não fosse para fazer número para a enchente. Ficaremos a conhecer momentinhos deprimentes das historinhas de Cavaco quando foi presidente.


Nem de propósito, encontro-me na zona do que foi, em tempo, chamado o “cavaquistão”, tempo do qual muita desta gente das hortas ainda sente saudades, e salta-me esta boa notícia sobre a grande obra cavaquista que fala de Paulo Portas, António Costa, PCP, BE Passos Coelho e mais não digo.


Para terminar e agitar as águas sabem que Marco António Costa, ex-vice-presidente do PSD na anterior direção social-democrata, assume “que foi com “muito orgulho” que foi porta-voz do partido e diz esperar que Pedro Passos Coelho regresse”?

sábado, 12 de maio de 2018

Incendiários da política e ódios de estimação

1. Incêndios e incendiários da política.



 



A oposição de direita coadjuvada pela comunicação social ainda não largou os fogos da época passada, postos por incendiários cuja origem e motivos se desconhecem, e já a comunicação social e os partidos da oposição de direita estão a dar o mote para que os incendiários novamente se preparem. Portugal, como nenhum outro país da UE, é um país de incendiários por mais que nos queiram fazer ver o contrário.


Não se percebe como é possível que responsáveis partidários e políticos aparecem a falar assumindo a inevitabilidade dos incêndios em vez contribuírem com propostas para a sua prevenção.


A frase mais do que uma vez utilizada pela impressa e pela televisão é a “época dos incêndios que se avizinham”, como se estes fossem um determinismo. O pressuposto deveria ser que ninguém deita fogo às florestas, a menos que se aceite implicitamente a existência de a circunstância de há uma “causa terrorista”, e, a ser assim, haverá “interesses” a ela subjacentes para se retirarem dividendos.


Como iremos continuar a verificar durante toda a época de verão os incêndios não deixarão de ser o estribilho da oposição de direita e da comunicação social que a apoia. Partem da suposição de que eles se continuarão a verificar. E assim vai ser! Essa direita que, quando no governo, nada fez para alterar essa calamidade que assolam o país todos os anos, pretende agora que um problema de tal envergadura e complexidade seja resolvido em menos dum ano.


Pela rede da web não faltam comentários das notícias vindos da direita estão todos sintonizados na estação da culpabilização do Governo como se nada existisse antes…


Até Rui Rio já viu o filão pode explorar partidariamente e possa colher daqui e dali alguns votos.


O Presidente da República sobre os incêndios disse numa entrevista ao jornal Público que se “Voltasse a correr mal o que correu mal no ano passado, nos anos que vão até ao fim do meu mandato, isso seria só por si impeditivo de uma recandidatura”. Como se as causas dos incêndios fossem unicamente da responsabilidade deste Governo, e se, à simultaneidade da ignição dos mesmos fosse possível dar respostas imediatas.  António Costa parece ser mais sensato quando ao responder à pergunta se se demitiria se houvesse nova tragédia, diz que "Quando há um problema, a solução não é demitirmo-nos, é estarmos prontos para resolver o problema".


 


2. Sócrates e ódios de estimação


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Tocqueville, historiador e escritos francês do século XIX disse no seu tempo que, em política, a comunhão de ódios é quase sempre a base das amizades.


Nesta semana João Miguel Tavares num dos seus já habituais escritos de opinião no jornal Público veio defender uma tese muito interessante numa tentativa de desculpabilizar mais os que praticam um certo tipo de corrupção e de culpabilizar mais outros, conforme os níveis da sua prática quando se está no poder. Como se a corrupção tivesse níveis quando e como é praticada e consoante é em proveito próprio ou não. A corrupção por princípio tem como fundamento benefício próprio e ou de outrem.


João Miguel Tavares refere que “Uma das reacções mais estupidamente pavlovianas à invocação do nome de José Sócrates, e à sua cumplicidade com tantos socialistas, consiste em elencar de imediato todos os casos de Justiça envolvendo figuras da direita – e lá vem Dias Loureiro, Oliveira e Costa, Duarte Lima, o BPN, os submarinos, Paulo Portas, Miguel Relvas, a Tecnoforma, e o mais que der jeito e assomar à memória.”


Ao contrário do que acha João Miguel as reações não são pavlovianas pois estas têm como base reflexos condicionados, e as que o autor se refere são reações comportamentais ou behavioristas como se quiser. Baseiam-se no condicionamento operante que é um processo pelo qual se pretende condicionar uma resposta de um indivíduo, seja para aumentar a sua probabilidade de ocorrência ou para extingui-la. No primeiro caso, são apresentados reforços (e o reforço são as notícias sobre a Operação Marquês e Sócrates).  Vale a pena ressaltar que o conceito de reforço está diretamente ligado a ocorrência da resposta, um estímulo só pode ser considerado reforçador se aumentar a probabilidade de determinado comportamento ocorrer.


Mas voltando ao que interessa, não assomou à memória de João Miguel Tavares o caso de Aníbal Cavaco Silva. Como liberal assumido defende os seus, os que agora se encontram do lado de lá, e centra-se nos que estão do lado de cá. Tem, todavia, alguma razão quando escreve que o caso de José Sócrates é um caso singular de corrupção. E, sê-lo-á, se vier a ser provado em tribunal, ao contrário da comunicação social que acusa, julga e condena. Não há que esperar, há que fazer notícia a qualquer preço.


Lembro-lhe que na oitava eleição presidencial portuguesa, em janeiro de 2011, foi reeleito Aníbal Cavaco Silva para um segundo mandato. Conforme divulgou o jornal Expresso, no mesmo ano, uma testemunha revelou em tribunal que Oliveira e Costa vendeu, em 2001, a Cavaco Silva e à sua filha 250 mil ações da Sociedade Lusa de Negócios, a um euro cada, quando antes as adquiriu a 2,10 euros cada à offshore Merfield. Respondendo a perguntas dos juízes do julgamento do caso BPN, o inspetor tributário Paulo Jorge Silva disse "não ter explicação" para o facto de o principal arguido, José Oliveira Costa, ter perdido 1,10 euros em cada ação que vendeu a Aníbal Cavaco Silva e à filha do atual Presidente da República, Patrícia Cavaco Silva Montez.


Em 2016 a revista Sábado publica o seguinte: Luís Montez "beneficiou" das mesmas facilidades que o antigo Presidente da República no BPN, mas ao contrário do que aconteceu com Cavaco Silva, não era "permanentemente fustigado" pelo Partido Socialista. Depois de em 2011 a SÁBADO ter avançado que o genro do antigo Presidente da República tinha renegociado uma dívida de 260 mil euros com o BPN, agora é Fernando Lima, antigo assessor de imprensa de Cavaco Silva, quem o escreve em "Na sombra da Presidência", livro que hoje é citado no jornal i.


Não seria também Cavaco Silva um caso singular de corrupção por ser na altura o mais alto magistrado da nação e que, por isso, deveria ser investigada até à exaustão? E alguns desses outros a que se refere não tiveram responsabilidades governativas? Mas não, foram enviados para os arquivos mortos.


João Tavares afirma que “Muita gente tem dificuldade em perceber isto – e daí a obsessão por tentar encontrar exemplos idênticos no partido ao lado.” Para ele são casos diferentes, e são-no de facto. Será por isso que uns devam passar impunes e outros sejam sistematicamente atacados e lançados desmesuradamente para a opinião pública?


Mas João Tavares não espera, Sócrates já é culpado e sentencia que Sócrates “utilizou a sua posição de poder para promover de forma ilícita o enriquecimento pessoal”. Lembro-me outra vez do que atrás referi sobre Cavaco Silva, sujeito que esta semana, na TVI24, José Miguel Júdice considerou ser a pessoa mais honesta do país e fora de qualquer suspeita.


Pela minha parte não faço juízos de intenção nem de valor sobre ainda presumíveis factos. O facto é que, o que tem sido divulgado pelos órgãos de comunicação sobre Sócrates e sobre Operação Marquês, que “opinion makers” aproveitam para tecer as mais diversas opiniões, são considerados. sem qualquer dúvida. como verdades. Podem vir a ser dados como provados (ou não), mas deixo sempre tudo em aberto até ao julgamento.


Com uma coisa concordo com João Miguel, é que “a corrupção é um mal transversal, que não olha a ideologias”, mas se assim é então há que combatê-la afincadamente, sem diferenciar tipologias consoante os interesses, dando-lhes o mesmo destaque e fazendo as mesmas críticas, porque corrupção no mundo da política é sempre corrupção seja, ou não, no sentido convencional do termo, mesmo quando governantes ou ex-governantes sejam eles quem forem estiverem presumivelmente implicados.


Caso curioso é que, quando as televisões avançam com notícias sobre o caso Sócrates de seguida colocam umas peças relacionadas com anteriores casos sobre os quais raramente se fala. É como nos quisessem dizer:


- Estão a ver como somos isentos também falamos de outros casos.


Não brinquem connosco.