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quarta-feira, 12 de junho de 2024

Análises muito subjetivas da situação política atual

Política análise subjetiva.png


1. Relativamente aos resultados das eleições europeias há os que dizem que não deve haver leituras internas, e há os que acham, ou defendem que essa leitura deve ter consequências. Claro que cada uma das opiniões se manifesta consoante as conveniências.



2. A ministra da saúde é um especialista em provocar demissões e substituições no sistema sem que nada daí tenham resultado melhorias para as pessoas nos serviços de saúde. Pelo menos até hoje!



3. O poder, quando exercido por alguém que tenha incompetência para um cargo muito específico e sente dificuldade na resolução no curto prazo de problemas complexos que se lhe deparam, tornam-se prepotentes e acusam os que estão sob a sua alçada de serem os causadores dessas dificuldades que, afinal, são derivadas da sua própria incompetência. Tal parece ser o caso da atual ministra da saúde do Governo AD. De formação farmacêutica, área onde se produzem e combinam químicos, alguns que curam, mas em que outros podem trazer efeitos secundários graves.



4. O que se verificou no caso da França e da Alemanha são a prova que dão razão aos que defendem a segunda opinião. Macron perde a eleições europeias e convoca eleições antecipadas. Macron vai assim dissolver o Parlamento francês após derrota esmagadora da extrema-direita. As forças nacionais conservadoras e de extrema-direita da Europa obtiveram grandes ganhos, terminando com pouco menos de um quarto dos eurodeputados na assembleia de 720 assentos que foi o maior ganho até hoje, contudo não se saíram uniformemente bem e, em alguns casos saíram pior do que o previsto.



5. Na Alemanha apesar dos escândalos da AfD sobre a “lavagem” do regime nazi a Alternativa para a Alemanha (AfD) obteve uma percentagem mais elevada de votos nacionais (16%) do que qualquer um dos três partidos que compõem a coligação liderada pelo chanceler, Olaf Scholz. O escândalo está relacionado com a circunstância do principal candidato da (AfD) para as eleições parlamentares europeias ter renunciado à liderança do partido de extrema-direita alemão. Maximilian Krah, que disse ao jornal italiano La Repubblica que as SS, a principal força paramilitar dos nazis, “não eram todas criminosas” e afirmou ainda que os seus comentários “estavam a ser usados indevidamente como pretexto para prejudicar nosso partido”. Krah, está a ser investigado por supostas ligações com a Rússia e a China, o que ele nega.


6. Era suposto que os populistas da extrema-direita tivessem uma grande ascensão no Parlamento Europeu, mas Cas Mudde, especialista em populismo e direita radical da Universidade da Geórgia, diz que “Mais do que tudo, estas eleições refletem os desenvolvimentos a nível nacional”, e acrescentou que a extrema-direita está agora “sub-representada em nível europeu”.


7. A IL pela voz de Cotrim diz que não apoia António Costa para a presidência do Conselho Europeu e alinha com André Ventura com o mesmo diapasão. Porque será apenas porque é socialista, será porque não gostam pessoalmente dele, será porque há um ressabiamento, talvez inveja do percurso ou será por último uma questão racista bem disfarçada?


8. Cotrim da IL esta pessoa altamente qualificada e experiente em governação e em assuntos europeus explica que é por que, António Costa não fez nada em Portugal em oito anos e que, por isso, também não vai fazer nada no Conselho Europeu. Não fez porque não fez como ele acha que devia fazer? Veja-se a lógica desta rara avis que diz defender Portugal, mas que, qual Ventura, infama os portugueses apenas por motivos ideológicos.


9. Sebastião Bugalho com Montenegro a coadjuvar disseram que a vitória do PS foi por “Poucochinho”. E a vitória da AD nas eleições legislativas foi uma grande vitória certo?


Sebastião Bugalho4.png


10. Poucachinho, mas ficou bem claro é que não foram validadas nem valorizadas os anúncios das medidas que o Governo diz tomar. Apesar do desgaste dos socialistas após 8 anos de governo, a AD ganhou as legislativas por uma unha negra, isto é também por poucachinho. Agora, com um governo ainda fresquinho, com pacotes para todos, desde os professores aos polícias, passando pelos reformados e jovens e levado ao colo pela comunicação social e com mais uma ajudinha do Ministério Público (recorde-se os casos que se levantaram pelo MP dias antes das eleições), com um comentador oficial aos domingos na SIC e sem contraditório perde as eleições. Para onde foram os votos que o Chega perdeu? Terá a AD conseguido captar algum? Naturalmente não, a ver pela IL que subiu.


11. O PCP, como de costume, fez da derrota uma vitória porque com grande sorte conseguiu eleger um deputado tendo perdido 1 desde 2109. O BE seguiu-lhe os passos. Ambos dizem estar em boa forma. Estes dois partidos ainda não viram que cassetes e repetições dos discursos não resultam!


12. O que trama o PCP é a sua insistência no apoio encoberto à Rússia, a Putin e à invasão da Ucrânia. Falam e reptem sucessivamente que são a favor da paz. Quem, não é? Eles, o partido, deve explicitar claramente em que moldes devem ser feitos esses acordos. Será com a capitulação da Ucrânia? Ao PCP estar a favor da paz não basta, é preciso mostrar também claramente de que lado está.


13. Quando Paulo Raimundo foi eleito para a posição de secretário-geral em novembro de 2022 alterou-se de algum modo a posição do partido. Passou a falar da condenação da “intervenção e invasão russa no território ucraniano” dizendo que não menosprezavam nem relativizavam. Sentiu indispensável ter que de vir afirmar que o PCP “não tem nada a ver com o governo russo” nem que “não há nada que nos relacione com o Governo russo, nem de longe, nem de perto” e acrescentava que “não temos nada a ver com as opções de classe do Governo russo” e que “estamos no dia-a-dia no combate a essas opções”. Mas a sua oposição clássica à UE e o sentimento de rancor para com os EUA e a NATO leva-os a afirmar que a Rússia não é o único responsável pela guerra, que “o confronto político entre vários intervenientes NATO, Rússia, EUA e UE teve como ponto alto uma invasão russa”.


14. Para o PCP os grandes causadores da invasão foram a NATO, a UE e os EUA. Ao fim destes anos todos (desde 2014 com os protestos começados em novembro de 2013 e com o Governo ucraniano do Presidente pró-russo Viktor Yanukovych decidiu suspender um acordo de associação com a União Europeia porque defendia uma maior aproximação com a Rússia para se juntar à União Aduaneira Eurasiática e acusaram os EUA de ter feito um golpe. Putin lembrou-se disso só em fevereiro de 2022?!


15. As esquerdas radicais e os sindicatos a eles afetos tanto lutaram pelos professores que seria de esperar que houvesse alguns votos que lhe calhassem. Parece que não.


16. O BE e o PCP mantêm-se numa linha ideológica que pouco ou nada evoluiu ao longo do tempo não se reajustando às novas realidades. O PCP continua na inspiração marxista-leninista a da nacionalização da economia e a contradição entre trabalho e capital é central na visão de mundo que o PCP sustenta.


17. O ímpeto propagandista deste Governo liderado por Montenegro continua após as eleições para a UE. Nos tempos de antena que lhe são dedicados nas televisões mostra o que está a fazer, o que vai fazer, o que diz que faria e vai fazer, mas pouco o que já fez, concretizou ou executou, a não ser pequenos arranjos aqui e ali sem um plano, alguns até com problemas. O que nós vemos executar são demissões, saneamentos políticos, sem que daí resultem melhorias visíveis para a população. A grande batalha que se dizia ia ser feita para melhor o SNS está tão coxo como estava. Isto é, melhor do que estava não está, mas, se está, continua defeituoso. Quem precisa de alguma coisa da saúde e pode tem de pagar rios de dinheiro aos privados.

quarta-feira, 11 de outubro de 2023

Terrorismo e Palestina: O que outros dizem



Manifestação ProPalestina após terrorismo.png


Imagem Esquerda.net site do Bloco de Esquerda


Não é pró-Palestina. É anti-Israel, antissemita e pró-terrorismo









É conveniente chamar a estas reações vindas da parte da esquerda mais à esquerda aquilo que são: desumanidade e antissemitismo.


Um artigo de 


Maria João Marques-JPúblico.png



in Jornal Público


Dos mais vis ataques que me lembro de ver. O Hamas fez uma incursão em território israelita onde deliberadamente alvejou civis. Filmou tudo: queria que o mundo não ficasse com dúvidas sobre a sua barbárie (e não ficámos). Decapitou bebés. Raptou crianças pequenas e pôs em jaulas. Caçou mulheres num festival de música e exibiu-as depois do cativeiro, umas mortas e despidas com soldados sentados em cima do corpo, outras ensanguentadas no meio das calças. Provavelmente violadas – sabemos bem, desde o ISIS, o que fazem às raparigas que sequestram. Senhoras de idade raptadas. Famílias exterminadas em casa. Jovens do festival de música massacrados.






Com este nível de crueldade e desumanidade contra civis não pode haver contemplações, certo? Errado. A esquerda do PCP e do BE entrou em mais um poço moral, tal o ódio a Israel.


Estes dias notabilizaram-se pela sua mais imoral ausência de condenação do Hamas. Pelo contrário, julgaram oportuno culpar a ocupação israelita (atualmente existe nos colonatos na Cisjordânia, que nada tem que ver com o Hamas, mas não na Faixa de Gaza). Foi o caso de Marisa Matias ou Pedro Filipe Soares. No PCP, Alma Rivera chamou “vassalos” ao Governo português por condenar o Hamas e comentou que é “preciso ser muito asqueroso” num retuíte que fez de Ursula von der Leyen.


Para evitarem dizer o óbvio – os terroristas do Hamas estão no cimo do pódio ignóbil – li, do lado esquerdo, as mais originais desculpas para o atentado. Li que o Hamas – uma criação do Irão, que, de resto, lhe deu ajuda e armamento para o ataque de sábado; eleito em eleições livres de toda a população para governar Gaza, à altura explicado nas televisões e jornais portugueses que devido à magnífica obra social (não é ironia) dos terroristas – afinal foi uma criação de Israel.


Li que havia apartheid em Israel – porventura não sabem o que significou a palavra. E limpeza étnica e genocídio aos palestinianos – quando são 20% da população de Israel, vivem dentro do país quase sem episódios de violência e têm aumentado o número.


Em Lisboa houve uma manifestação, apoiada pelo BE, chamando ao ataque terrorista “ação de resistência” e dando como legítimos “qualquer meio à disposição” dos palestinianos de alvejarem Israel e israelitas. Uma sorte o Hamas não ter umas ogivas nucleares, ou estes bondosos cidadãos aplaudiriam o seu uso. Em Sydney, uma manifestação pró-Palestina gritou o slogan Gas the jews. Calhando não sabem que já foi feito e se chamou Holocausto.


É conveniente chamar a estas reações vindas da parte da esquerda mais à esquerda aquilo que são: desumanidade e antissemitismo. Agora mascarado de luta anticolonial (como se a questão Israel-Palestina tivesse que ver com colonialismo; mas temos de lhes perdoar, é o que aprendem lendo boletins de extrema-esquerda) e assanhado, porque muitos judeus foram para os Estados Unidos e este país (origem de todo o mal) é aliado de Israel.


Não se trata aqui, da minha parte, de endeusar ou branquear Israel. Netanyahu é um político capaz de tudo, inclusive vender-se aos judeus ultraortodoxos (tão indesejáveis quanto os islâmicos conservadores) e dar cabo da democracia israelita. Tão absorvido está por manter o seu poder que permitiu a invasão de Israel, Estado ultrassecuritário, pelo Hamas. Os longos excessos militares de Israel estão documentados (os do continuado terrorismo palestiniano também).


Os israelitas árabes, formalmente com os mesmos direitos, são desconsiderados pela população judaica. São mais pobres do que os conterrâneos judeus, menos escolarizados, com menos oportunidades efetivas. (Comparam-se, no entanto, melhor com os dos países vizinhos.) A criação de colonatos na Cisjordânia (nem parada pelos bem-intencionados Yitzak Rabin, Shimon Peres ou Ariel Sharon) é um atentado à possibilidade de paz.


Mas não é o tratamento aos palestinianos que indigna a esquerda pró-Palestina. Tanto que não se incomodam com o Egito, muito alegremente impedindo a circulação dos palestinianos de Gaza no seu território. Queixam-se do bloqueio a Gaza só como retórica anti-Israel; afinal o bloqueio é tão eficaz que lá entra armamento em barda; e Gaza tem uma fronteira com o Egito, país soberano e não às ordens de Israel. (Um polícia egípcio matou turistas israelitas já depois do ataque do Hamas, para demonstrar a simpatia do país pela causa palestiniana – desde que essa fique do lado de lá da fronteira.)


A liderança corrupta e incompetente da Fatah não os move. O terrorismo do Hamas e as ligações ao Irão também não. Os líderes do Hamas vivendo luxuosamente no Qatar (agora a tentar resolver a crise dos reféns israelitas, não vá a comunidade internacional cair-lhe em cima), longe da população pobre que governam – está tudo bem para a esquerda, oh tão preocupada com os palestinianos. O uso de escudos humanos da sua própria população pelo Hamas, presumo que julguem ideia genial. (Israel nunca o faria à sua população e os tribunais proibiram o uso de escudos humanos palestinianos.)


A total ausência de solidariedade dos países islâmicos com os palestinianos de Gaza – em perigo com a resposta de Israel – também lhes é pacífica. Não houve nenhum movimento para organizarem a saída de refugiados civis de Gaza pela fronteira com o Egito e acolhimento pelos países do Médio Oriente. Mas isso não faz mal. Só o possível corte da ajuda humanitária da União Europeia (muita dela desviada) é que os agita.


A necessidade de defesa de Israel para sobreviver – invadido várias vezes por todos os vizinhos, inclusive a seguir à independência; alvo de terrorismo continuado durante décadas; sem existência reconhecida por vizinhos e Hamas – é irrelevante. Os minimalistas Acordos de Oslo não terem produzido efeito, o Roadmap de Bush (o primeiro plano americano com a solução de dois Estados) ter sido recusado pelos palestinianos e os esforços de Obama para uma paz negociada se terem esfumado em menos de nada, mostrando uma continuada inflexibilidade palestiniana para um acordo de paz, bem, quem quer saber dessas picuinhices?


A indignação da esquerda pró-Palestina é muito seletiva. Pior: convive muito bem com o terrorismo mais cruel e degradante, quando é dirigido aos alvos de estimação. Uma esquerda que não cumpre critérios de decência para configurar em qualquer solução governativa. O PS que atente.


A autora é colunista do PÚBLICO e escreve segundo o novo acordo ortográfico





 

segunda-feira, 4 de setembro de 2023

O patrocínio da palavra Paz no comício do PCP na Festa do Avante

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Ontem foi o encerramento da 47ª Festa do Avante organizada pelo Partido Comunista Português continuando ensombrada pela invasão da Ucrânia pela Rússia de Putin e que o Partido Comunista da Federação Russa aplaudiu e aplaude.


O novo secretário-geral do PCP Paulo Raimundo, muito contido no que se refere à invasão da Ucrânia, nada avançou de novo sobre a questão da invasão do território ucraniano pela Rússia. Sobre o tema centrou-se e refugiou-se apenas na palavra ‘paz’ que na voz do PCP e no contexto em quem é abordada é muito vaga e generalista.


Se analisarmos as suas declarações no comício de encerramento nada de novo é dito. «O povo quer a paz, não quer a guerra», lança o dirigente do PCP o que não é mais do que a afirmação do óbvio. Avança, no entanto, que «para ter a paz tem de forçar que os órgãos de soberania invistam na paz e não na guerra». Aparentemente, por aqui nada poderemos apontar à sua retórica que é apenas para povo adepto escutar, mas que adiante desenvolvo.   


Sobre a ida do Presidente da República à Ucrânia o secretário-geral assumiu  que não lhe viu utilidade a não ser se fosse usada para procurar a paz, e lamentou que «O Presidente fez uma opção de reafirmar todos os caminhos que têm instigado a guerra» e que não deixou à Ucrânia «nem uma palavra da paz».


Mais uma vez uma avaliação sobre a atitude do PCP em relação aquele conflito confirma o seu ponto de vista demagógico com o intuito de se afastar da questão de fundo sobre a causa da invasão e da defesa da Ucrânia face ao agressor.


A questão de fundo é a de sabermos são os caminhos possíveis que o PCP considera para um potencial o estabelecimento de uma paz duradoura. Até ao momento nenhuns, são apenas palavras vãs não sustentadas por qualquer opção concreta.


Todos queremos a paz, não é apenas o PCP. A dúvida que nos persegue é a de saber como é que PCP acha que deva ser conseguida. Aparentemente a resposta é dada quando afirma que (o povo) «para ter a paz tem de forçar que os órgãos de soberania invistam na paz e não na guerra.» Não sabemos que órgãos de soberania se devem forçar a investir na paz. Os de Portugal? Os da Federação Russa? Os da União Europeia? Os dos EUA? Todos?  São apenas afirmações para comicieiros ouvirem.


Perguntas a que o PCP claramente não responde e que já foram formuladas noutros posts e que continuam a fica no ar:



  1. a) Será que, para o PCP, os órgãos de soberania da Ucrânia deveriam abdicar do seu território, sem condições, a favor da Rússia de Putin?

  2. b) Que condições para a Ucrânia e para a Federação Russa seriam aceitáveis para o estabelecimento da paz do ponto de vista do PCP?

  3. c) Será que para o PCP Putin está aberto a negociações de paz e espera para tal, mas a Ucrânia e o ocidente não querem?

  4. d) Acha o PCP que o ocidente está a investir no prolongamento da guerra em vez da paz porque está a enviar armamento para a Ucrânia se defender?

  5. e) Acha o PCP que se a Ucrânia não tivesses ajuda do ocidente a Rússia do autocrata Putin parava a invasão a que chama “operação militar especial”?

  6. f) Qual a posição do PCP face aos pontos de vista do Presidente Vladimir Putin para justificar a invasão da Ucrânia?

  7. g) O PCP acha que um país invadido tem que se conformar com uma invasão que não provocou?


Não venham com a gasta questão de que não querem interferir nas questões internas de outros países, porque o PCP sempre o fez em relação a Portugal e no início da revolução de abril também se pronunciou bastas vezes. Quem professa uma ideologia pode e deve orientar linhas de pensamento e ao PCP ideologia não lhe falta.


Aquela são apenas algumas das questões a que o PCP e a sua direção deveriam responde sem se refugiar em palavras de ordem e de ocasião que todos querem ouvir, como a do alcançar a paz, palavra cujos valor é muito fortes.


A paz é um compromisso com as normas e instituições jurídicas internacionais, tais como a dos tribunais penais internacionais. Quem pretende abordar o objetivo da paz de forma realista deve encarar este problema com bastante sobriedade e de acordo  a ordem internacional, mas não é isto o que o Presidente da Federação Russa fez e tem vindo a fazer e que parece o PCP está a acompanhar.


Aliás, parece ser manifesta a simpatia do PCP pelo PCFR – Partido Comunista da Federação Russa apoia na Duma o regime de Vladimir Putin.

quinta-feira, 16 de março de 2023

As greves não são todas iguais

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Aproveitado o início da legislatura para pressionar o Governo socialista de maioria absoluta com o objetivo de atrair trabalhadores do Estado como potencial investimento para, no futuro, recuperara as perdas de votos que penalizaram as extremas-esquerdas (BE e PCP e agora, parece também para “elevar” o MAS).


Desde o dia 9 de dezembro que os meses têm sido essencialmente marcados por greves diárias dos professores, seguidas por outras setoriais, como transportes, enfermeiros e médicos. Mais recentemente, pelas mãos de Mário Nogueira docentes e investigadores do ensino superior vão manifestar-se em frente ao ministério e aderir à greve da Administração Pública marcada para esta próxima sexta-feira.


A convergência de contestações e greves em vários setores parece ser orquestrada por uma agenda sindical-partidária aproveitada para fazer oposição à maioria absoluta do Partido Socialista e cuja intenção é mais dinheiro que virá dos recursos financeiro públicos descontrolando o déficit e que não nascem por geração espontânea.


A greve é um recurso crucial para os sindicatos e um importante instrumento de pressão, mas que são também contaminadas por populismos e pelas formas que utilizam para atrair trabalhadores. Por princípio obedecem ao aceno da possibilidade de obtenção de mais dinheiro e regalias independentemente de se questionar a justeza das razões que decorram para tal. 


As greves podem não ser apenas um recurso de luta dos trabalhadores para melhores condições de trabalho e de salário que denomino por greves na sua pureza inicial. Porém estas pode ter uma natureza estritamente política (e até partidária) simuladas através reivindicações de direitos e aumentos salariais ou outros idênticos. São greves como estas não possuem nenhuma base profissional, visam apenas o protesto contra atos do governo e de órgãos de poder público. Contudo, quando se trata de oposição clara a um governo elas transformam-se em greves políticas camufladas por motivos reivindicativos como já afirmei.


Por outro lado, as greves com finalidades profissionais definem-se como a que pretende protestar por melhores relações de trabalho no que diz respeito à relação trabalho-empregador. Visto que uma greve ao ser considerada apenas como política poderia vir a ser reconhecida pela sua ilicitude, logo, inaceitável, há que, portanto, dar-lhe formas que possam ser reconhecidas como legais. Isto porque uma greve política pode ser contestada pelos empresários e empresas que alegam não terem nada que suportar prejuízos decorrentes de conflitos que eles próprios não ocasionaram e não estar nas suas mãos soluções para sua a resolução.


Greves, movimentos e instabilidade social são por vezes artificialmente convocadas por sindicatos, alguns correias de transmissão de partidos com finalidades políticas, direi mais, partidárias, recorrem a pretextos que até poderão ser justificados, mas que servem para fazer oposição a governos e perturbar o percurso governativo. A inflação e a maioria absoluta do PS podem ser uma explicação das escaladas grevistas e de manifestações estrategicamente organizadas, passado apenas um ano e poucos meses da realização de eleições.


As oposições ao Governo originadas por partidos das extremas esquerdas apoiadas pelos seus dirigentes, (uns são coordenadores, outros são secretários-gerais), nomeadamente o PCP e o BE não se conformaram com as enormes perdas nas urnas nas eleições legislativas de janeiro de 2022. Desta forma os sindicatos a eles afetos e recentemente também o MAS (organização política trotskista) com o seu simpatizante e sindicalista André Pestana dirigente do STOP, na tentativa de angariar alguns votos dos professores, tomaram iniciativas oposicionistas. A estes junta-se o beneplácito das respetivas centrais sindicais, algumas delas por arrasto, como a UGT, que também apoiam e promovem greves e instigadores e animadores de contestações nas ruas.


Quem fica a ver de lado é a direita, sobretudo a extrema-direita, que, mais ou menos com afirmações ambíguas, aplaude a ajuda as extremas do lado “gauche”, dizendo hoje, desdizendo amanhã. Estas direitas apostam na instabilidade por falta de propostas objetivas e concreta do Governo dizendo ter, caso sejam governo, a solução para resolução dos problemas identificados.  


Não é por acaso que greves manifestações como as dos professores e de outros profissionais da função pública são convocados sendo também uma caldeação com intuitos políticos. Estes trabalhadores que pertencem à Administração Pública gerida pelo Estado, seu patrão, contrariam o voto dado pelo povo ao pretenderem fazer cair um Governo. Será este o objetivo último dos sindicatos ao fomentarem greves que, por muito que clamem não são espontâneas. Os trabalhadores públicos têm pouco a perder com exceção da perda de salário, o que não é pouco, para além de que não serão prejudicados perdendo o posto de trabalho. A mesma situação no setor privado, embora tal situação seja ilegal, a possibilidade é considerada a prazo pelo empregador.


As extremas esquerdas, face a uma maioria absoluta do Partido Socialista, não se conformaram e marcaram uma agenda sindical reivindicativa, nomeadamente na classe dos professores que avançaram com agendas partidárias coordenadas e aproveitadas pela agenda mediática.


Outro ponto é o apoio indireto que fazem à oposição da extrema-direita, o que é demonstrado pelo crescimento dessas forças constatado pelas últimas sondagens, cuja tendência vai no sentido de haver uma maioria de direita caso houvesse eleições no momento. Diria que, se por um lado, algumas greves são feitas para a obtenção de regalias, por vezes imparáveis, consonante com interesses sindicais que têm como efeito prejudicar a entidade empregadora, por outro lado, não deveriam poder, no seu "livre exercício" constituir uma "violência" contra a coletividade. Estão neste caso as greves dos professores, médicos, enfermeiros e transportes coletivos nos moldes em que são geridas pelos sindicatos que, como já afirmei anteriormente, serão muitas vezes de categoria política aproveitada para reivindicações.

sábado, 28 de janeiro de 2023

Má governação, maioria absoluta ou os professores em greve

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A pergunta coloca-se com algum espanto: será que tudo acontece após a maioria absoluta do Partido Socialista é meramente coincidente ou advém da má governação?


A resposta não a tenho e duvido que alguém, fora dos corredores da política, por vezes obscuros, a tenha. Quem vê o que é fornecido pelos noticiários das televisões e os bebe voluptuosamente sem acesso a outra fonte de informação, perceciona a política do país como caótica, como estando restringida aos casos diários pessoalizados sobre elementos do governo, autarcas e suas ligações a empresas e por aqui fora, diariamente os mesmos numa constante repetição.


Os cães pisteiros chamadas fontes direcionam-se para tipos de busca muito específicos e bem definidos, num sentido único, rebuscando, à falta de melhor, processos há muito não falados, alguns deles, ainda em investigação que fazem regressar pela mão dos noticiários como se fosse novos factos. Também, por coincidência, as greves oportunistas mobilizadas por sindicatos dos professores que aproveitam a onda induzida pela direita unida à esquerda, única coisa que têm para fazer oposição e desviar as atenções do que realmente o Governo está a fazer e que mereça de facto oposição.


No portal do PSD, pode ler-se numa espécie de propaganda para captar votos, a posição de Luís Montenegro a considerar que “a política de educação do Governo merece a reprovação, o chumbo”, numa semana em que os professores prosseguem com a contestação e iniciaram uma greve nas escolas de todo o país.  Defendendo implicitamente uma greve que prejudica os alunos e as suas famílias, mas que, durante anos da sua governação, em nada contribuiu para o que agora defende.


A acrescentar trazem para controvérsia um novo agora emergente devido à Jornada Mundial da Juventude e os orçamentos exorbitantes para a construção dos altar e bancadas para o evento onde o Papa Francisco irá celebrar a missa final. Visto a tendência ser de ataques sistemáticos sobre casos vários para atingirem o PS e o Governo, este poderá vir a ser, se o conseguirem, mais uma acha para a fogueira, daí se dedicaram só agora o valor exorbitante.  


O esquema poderá ser furado porque se poderá virar o feitiço contra o feiticeiro. Recordemos onde assenta a base orçamental para a tal construção por ajuste direto e cuja notícia tem sido divulgada com uma narrativa confusa nas explicações e pouca clara eventualmente com o intuito de confundir o espectador que absorve tudo sem reserva o que a televisão diz. Até ao momento temos ouvido apenas as justificações do Presidente da Câmara de Lisboa, Carlos Moedas. O Presidente da República Marcelo e o bispo auxiliar de Lisboa e presidente da Fundação Jornada Mundial da Juventude, D. Américo Aguiar confessou sentir-se “magoado” com os cerca de 5 milhões de euros destinados ao altar-palco do Parque Tejo e o Presidente diz ser muito, ambos tentam colocar-se fora do enredo dos cinco milhões.


Vejamos alguns antecedentes. Quando foi votado na especialidade o Orçamento do Estado para 2022, no ponto que dizia respeito à formação de contratos no âmbito da já referida Jornada Mundial da Juventude, o PS e o PSD foram os únicos a aprovar. O PCP, BE e PAN abstiveram-se e o IL e o Chega votaram contra.


Na votação do mesmo Orçamento para 2023, o partido Iniciativa Liberal alterou a sua posição e votou favoravelmente o artigo que visava a formação dos tais contratos.


O BE responsabilizou na passada quinta feira responsabilizou o PSD, PS e IL pela "decisão política" de terem votado favoravelmente no orçamento o aumento dos limites dos ajustes diretos para a Jornada Mundial da Juventude, que tem agora como consequência um "altar vergonhoso". O BE, que se tinha abstido em 2022, Mortágua defendia que os ajustes diretos tivessem limites maiores. PCP e PAN mantiveram a abstenção, enquanto o BE votou contra, assim como o Chega. Por seu lado, os deputados do PS, PSD e IL votaram a favor.


O Chega votou contra, ao lado de um partido da extrema-esquerda. Será que a sua postura contra um evento que envolve altos custos, mas é importante para a Igreja Católica em Portugal o poderá favorecer face ao eleitorado profundamente católico? A Igreja Católica, o Patriarcado, o presidente da Fundação Jornada Mundial da Juventude e o Presidente Marcelo estão implicitamente envolvidos e com os mesmos pontos de vista em relação à verba.


O Presidente distancia-se e coloca-se dum ponto de vista austero no que se refere às despesas orçamentadas e pede altar adequado aos tempos de crise e à “visão simples” do Papa e envia recado a autarquias, Estado e Igreja Católica, mas segundo o DN o “Patriarcado diz que Marcelo sabia dos custos do palco. PR nega ter sido informado.” O jornal Observador apresenta uma versão idêntica ao escrever que o “Presidente diz que soube "informalmente", através de jornalistas, dos custos do altar-palco e que não recebeu qualquer informação”.  Foi muito evidente na altura que o Presidente foi um dos que mais entusiasmo mostrou pela vinda deste evento.


Não há almoços grátis e a segurança e a dignidade da mais alta individualidade da instituição Igreja Católica no evento deviam saber teriam de ser asseguradas.


Pois bem. Agora temos declarações, atrás de declarações, pedidos de assinaturas contra os gastos, espera-se que seja só do lado das esquerdas cujo argumento é que estas despesas não devem ter o contributo num Estado que é laico.


Como na aprovação do Orçamento do Estado para 2023 a verba para o evento também teve aprovação da direita talvez o ataque ao PS não siga por aí, mas como o projeto foi entregue à Mota-Engil, vamos ver o que virá por aqui!

segunda-feira, 7 de novembro de 2022

A não mudança do PCP no editorial de Manuel Carvalho



Manuel Carvalho




Paulo Raimundo, a continuação de uma era










Quem acreditou que o PCP aproveitaria o fim de ciclo para se reinventar enganou-se. Raimundo é mais um apparatchik da luta de classes do que um protagonista de uma ideia para o mundo digital.






Jerónimo de Sousa sai do PCP e da sua bancada e deixa como rasto uma onda de complacência simpática que se explica por duas razões: porque ele é um homem genuíno e coerente que, como o próprio disse, procurou “sempre fazer o melhor que sabia (...) nos valores éticos da honestidade, franqueza, fraternidade”; e porque o PCP se tornou com o curso da História uma fera envelhecida e amansada, incapaz de ameaçar direitos fundamentais da democracia liberal, papel que caiu nas mãos da extrema-direita.


Paulo Raimundo vai substituí-lo e promete continuar a trilhar as mesmas vias que levaram o PCP à quase irrelevância – o partido que em 1976 elegeu 40 deputados e teve força para pôr em causa a criação de uma democracia liberal está hoje reduzido a seis lugares no Parlamento. Quem acreditou que aproveitaria o fim de ciclo de Jerónimo de Sousa para se actualizar ou para se reinventar enganou-se. Raimundo é mais um “apparatchik do velho mundo da luta de classes do que um protagonista de uma ideia para o mundo digital.


Até na tentativa de vender aos eleitores o perfil de um operário se percebe esse esforço de conservar a mitologia – a classe operária já não usa o boné com fuligem e Paulo Raimundo é um produto do circuito fechado da Soeiro Pereira Gomes. O PCP vive há anos nessa terrível angústia de saber que, se mudar, arrisca perder o seu pequeno lugar no mundo e, se não mudar, está condenado a adiar a decadência.


Para a continuidade, Paulo Raimundo parece bem. Basta ouvir o seu discurso no 101.º aniversário do partido para se perceber que a “luta”, os “inimigos de classe”, a “exploração” como “instrumento do capitalismo”, ou, numa citação reveladora, que a “teoria do passado continua a explicar a luta do presente” para perceber ao que vem. É essa “teoria” que impede o PCP de ver a Europa como um projecto de paz, é isso que o impele a proteger tiranias como a da Coreia do Norte ou da Venezuela, é isso que associa a “luta pela paz” ao apoio discreto à Rússia na agressão â Ucrânia.


Hoje, o PCP não tem força para impor uma ditadura do proletariado, nem para matar a liberdade de iniciativa. O “espectro” que Marx profetizou tornou-se uma extravagância, como a moda “soviet chic”. Paulo Raimundo dirá coisas importantes, manterá os seus trunfos nos sindicatos ou no Estado e o PCP continuará a dar voz a uma parte importante da sociedade portuguesa. Não deixará de ser o reflexo de um passado. Uma força do folclore que não faz mal a ninguém.






domingo, 25 de setembro de 2022

A propósito do PCP e das suas abstratas declarações sobre paz



Por mais que me esforce não consigo compreender a posição do PCP sobre a invasão da Ucrânia. Afirma ser pela paz, mas não esclarece, nem sugere vias. É contra a guerra, mas não se refere concretamente contra a qual. Contra todas, é claro. Mas contra ela somos todos. Quando lhe é dirigida a pergunta sobre esta em especial, nem piu. Sabemos que todas são más e que há vários outros implicados. O PCP fala em escalada belicosa de quem? Também sabemos que houve, e há, vários implicados em guerras com que estamos contra. Mas, quanto a esta guerra de invasão nada. Mas, afinal, quem está a provocar uma escala belicosa? Nós, alguns, que ainda poderemos ter alguma simpatia psicológica e percetiva pelo partido que lutou e sofreu na luta antifascista, estamos na dúvida. 


O artigo de opinião de Pacheco Pereira talvez seja reacionário para o PCP, mas,  o que ele diz são factos. Tudo isto começa a ser estranho, e o pior é que começa a entranahr-se. Esclarecimentos concretos precisam-se por parte do PCP


Quando é que o PCP convoca uma manifestação pela paz contra Putin?









Se não saírem para a rua claramente contra quem faz esta escalada, pondo o nome às coisas, e Putin e a Federação Russa são os nomes, na verdade não é a paz que desejam, mas uma vitória militar russa.






Foto Imagem do filme <iDR</i







O facto de esta ser uma pergunta retórica mostra a absoluta fragilidade da posição do PCP e das organizações a ele ligadas, como o Conselho Português para a Paz e Cooperação, sobre a guerra da Ucrânia em matéria de paz. O que aconteceu nesta semana com o discurso de Putin, a sua intenção de fazer referendos-fantoches e a clara ameaça de uma guerra nuclear colocam o mundo mais perto de um conflito catastrófico do que alguma vez esteve desde a crise dos mísseis em Cuba em 1962.


Se isto não é um ataque à paz, não sei o que possa ser. E neste caso não adianta vir com duplicidades e falsas equivalências: não foram a Ucrânia, nem a NATO, nem os EUA que fizeram esta escalada, mas apenas o Presidente da Federação Russa, que não se limitou a ameaçar com um conflito nuclear, insistindo que o que estava a dizer não era um bluff, era para tomar a sério. Aliás, quem, desde o primeiro dia deste conflito, resultado de uma agressão militar da Rússia à Ucrânia, fez ameaças nucleares foram Putin, Lavrov e aquele belicista sem paralelo no lado de “cá”, Medvedev, vice-presidente do Conselho de Segurança russo. Sim, a guerra nuclear, aquela guerra que mata milhões, destrói as grandes cidades do mundo e não tem vencedores, a coisa mais próxima de nos mandar para a ficção científica catastrófica, e para a Idade da Pedra. Senhores que enchem a boca pela paz, há alguma coisa que se compare em dimensão com estas ameaças, do lado da NATO, dos EUA, da UE? Claro que não há, e não há hipócritas comparações nem duplicidades que possam ocultar este facto: se não saírem para a rua claramente contra quem faz esta escalada, pondo o nome às coisas, e Putin e a Federação Russa são os nomes, na verdade não é a paz que desejam, mas uma vitória militar russa.


A sequência perigosa está toda no discurso de Putin. Os referendos-fantoches — e uso a palavra fantoches porque é isso mesmo que são; mesmo que admita que uma parte dos habitantes do Donbass prefere ser russa a ucraniana, não é em guerra e numa ocupação militar que o seu voto tem qualquer valor — vão justificar a anexação de territórios ucranianos à Federação Russa.


Só um parêntesis: se o mesmo tipo de referendos fosse feito em certas zonas geográficas da Federação Russa, como o Cáucaso, também os habitantes votariam ou pela independência ou pela anexação, por exemplo, pela Turquia. A Tchetchénia foi mantida na Federação pela guerra, pela violência e pela repressão.


Os referendos têm apenas o papel de pseudolegitimar conquistas territoriais de um Estado sobre outro, o mais clássico motivo para uma guerra imperialista. E a reivindicação de uma espécie de “droit de regard” armado para “proteger os ‘russos’” é, neste contexto, exactamente o que Hitler fez nos Sudetas. Aliás, onde está Putin coloquem Hitler e as frases são idênticas no verbo e na substância. Logo a seguir à anexação, Putin passa a considerar esses territórios russos, que hoje vão muito para além do Donbass e se estendem a zonas onde se fala ucraniano e onde não há sentimentos pró-russos, mas que Putin quer anexar à Federação porque tem uma posição estratégica relativa à Crimeia e ao acesso da Ucrânia ao mar. E, depois, um ataque a Lugansk é um ataque à Rússia, logo a possibilidade de uma resposta nuclear é possível. “Não é um bluff.


Repito: quando é que o PCP sai para a rua para condenar Putin por colocar o mundo perto de um conflito nuclear? Silêncio. Nem pensar. Seria “fazer o jogo da NATO”. Eu percebo-os. Não tenho dúvidas de que a última coisa que desejavam era esta guerra, porque o PCP e os seus companheiros de estrada sabem que ela teve o efeito contrário ao pretendido, não vai acabar bem para Putin e a probabilidade de ter sido o balão de oxigénio de que a NATO precisava verifica-se todos os dias. Por outro lado, neste contexto, não querem que Putin perca de forma muito evidente e clamorosa. Duvido que apoiem a escalada belicista de Putin, mas também os incomoda muito a eficaz ofensiva ucraniana. É um mecanismo não só político, mas também psicológico, daquilo que tanto pode ser interpretado como comportamento dos indivíduos quando se metem numa argumentação sem saída e, em vez de a corrigirem, sobem de tom e caminham ainda mais para o abismo. O mesmo para aquilo a que antes se chamava “psicologia de massas”. Ou seja, estão metidos num imbróglio que não tem saída feliz, mas que tem um ponto forte: não querem que a Ucrânia ganhe. Não o podem dizer, mas é exactamente isso que desejam, de desejo forte, inominável, feio.




Foto Imagem do filme O Projecto Blair Witch DR



Por isso, estão bloqueados no plano político. Já os comparei aos enfeitiçados pela Bruxa de Blair, paralisados contra uma parede numa cave em ruínas.





segunda-feira, 19 de setembro de 2022

O desgoverno das oposições ao Governo

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Os partidos na oposição têm propensão para criticarem e para se oporem sistematicamente a tudo quanto dele venha, mesmo que oportuno, acertado e a favor das populações, o que é demonstrativo do mau serviço que prestam à democracia portuguesa, com mais relevância dos que fazem parte da alternância de poder.  


A democracia, é um poder que, por direito, possibilita ao povo a escolha dos seus representantes políticos que tem o dever de garantir os direitos inerentes à cidadania, a liberdade de expressão e possibilitar uma maior participação popular no que refere à política.


É ainda o exercício da democracia criticar e controlar os governos.  Também sabemos que, qualquer tomada decisão política, por mais criteriosa, bem avaliada, analisada e discutida nunca é garantido ser excelente, infalível, porque se encontrarão na legislação promulgada pontos de escape voluntários ou involuntários, distorções e falhas. Qualquer que seja o partido escolhido para formar governo, nunca será infalível. Mas, quando na oposição tentam demonstrar, segundo o seu ponto de vista ideológico, que fariam mais e melhor ao criticarem, quase como uma obrigação, as propostas ou decisões do governo em exercício.  


Um exemplo recente têm sido as críticas às medidas que o atual Governo tomou para tentar mitigar os efeitos da inflação e da crise energética nas famílias e nas empresas, sobretudo por parte do que mais poderá vir a aproximar-se do poder.


Todos os partidos, cada um à sua medida, fazem oposição, uns com mais razão do que outros, às medidas anunciadas com fogachos que utilizam as mais variadas retóricas e narrativas populistas e demagógicas. Dizem uns serem poucas, dizem outros, quase todos, que são tardias, e, ainda outros, mostram a centram-se apenas na baixa de impostos. Defendem estes que em vez de ajudas diretas ou créditos se deveria antes baixar impostos.  Mostram eles insensatez por não olharem às possibilidades financeiras do país não pensando nas contas públicas que devem ter em conta a dívida e o déficit a que dão importância apenas quando estão no poder e defendem a austeridade. Tivemos experiência disso. Agora chamam às contas públicas certas austeridade. Parecem ter-se esquecido dos tempos em que acusavam o PS de ser perdulário e de quando Teixeira dos Santos, ministro das finanças de José Sócrates, deixou que o Governo da altura fizesse derrapar as contas públicas até ao descalabro.


A Iniciativa Liberal é a mais coerente cuja tónica se mantém na bandeira menos Estado, melhor Estado, com a defesa da baixa de impostos para resolver os problemas da inflação e da energia. Dizem eles que o que faria sentido era um conjunto de reformas estruturais e defendem que as boas empresas não precisam de subsídios do Estado. O que é necessário, segundo a IL, é que as empresas possam crescer e desenvolver-se para que possam estar capitalizadas durante os períodos bons para fazer face aos períodos maus e isso passa pela redução de impostos (ou será eliminação dos ditos?). Mas, como para eles tudo dever privado a despesa pública seria substancialmente reduzida com o desinvestimento nos serviços públicos nomeadamente na saúde e na assistência social e assim deixaria de haver necessidade de serviços públicos porque a iniciativa privada daria resposta e a que apenas os ricos poderiam ter acesso. Baixavam-se impostos e deixavam de pagar crises, seria o povo a suportá-las.


O outro partido de direita, o PSD, parece ter virado socialista e alguns até se aproxima dos pontos de vista defendidos pelas esquerdas mais radicais. Na Assembleia da República as intervenções dos deputados, da esquerda à direita, os argumentos, tirando alguns dos que são mais ou menos repetitivos como o PCP e o BE, não divergem muito. A extrema-direita do Chega, que sempre foi contra os impostos e se tem mostrado contra os subsídios critica agora o Governo por não dar mais dinheiros às famílias. São medidas “tardias” e “vazias” e que são “migalhas” face às necessidades dos portugueses de menos recursos, comparando com o aumento do custo de vida e propôs aumentos de sete milhões. Se é contra os impostos reivindicando a sua baixa, e contra para pagamento de subsídios, onde iria arranjar recursos para satisfazer as pretensões. Nesta altura a estratégia de todos os partidos é a de falarem em defesa dos portugueses desvalidos e desfavorecidos num posicionamento à esquerda.


O xadrez partidário transformou-se num jogo competitivo em que, quem vence é quem mais defender as classes desfavorecidas, os pensionistas e os reformados, as pequenas e as médias empresas.


O PSD, após eleição do seu líder Luis Montenegro de sorriso forçado, que mostra uma simpatia que se prevê efémera se chegar ao poder é o que mais se tem destacado nesta competição. Com o slogan de cartaz “Acreditar” não sabemos em quê ou em quem, o líder promete o sol primaveril da esperança e pretende mostrar um partido renovado que se transformou, qual camaleão da política, cujo comportamento e atitude mudou para tirar proveito das circunstâncias. Na tentativa de captar o eleitorado que lhe escapou nas últimas eleições expõe-se como um partido que virou à esquerda e é defensor das classes mais necessitadas.


Com o slogan “Acreditar” Montenegro parece ele próprio não acreditar que o eleitorado que lhe escapou pode não ser transitório e pode até prever-se que seja definitivo com algumas nuances.


Segundo num estudo de março de 2022 sobre a transferência de votos nas eleições legislativas comparando com 2019 o PSD ganha mais votos do que aqueles que perdeu para a abstenção, e foi buscar votos à categoria Outros/ Brancos e Nulos e ao CDS-PP. Contudo, o PSD perdeu votos em primeiro lugar para a Iniciativa Liberal, em segundo lugar para o PS, e em terceiro para o Chega. Isto é, com alguma margem de erro, o eleitorado que o PSD perdeu foi alimentar, juntamente como o CDS, os partidos à sua direita, o Iniciativa Liberal e o Chega e também, alguns, para o PS. São os mais idosos que terão votado PS que Montenegro tenta agora atrair na espectativa de um regresso.


Luís Montenegro passou a ser líder de um partido que defendia a sustentabilidade da Segurança Social como Passos Coelho fazia quando em 2015 dizia que a sustentabilidade da Segurança Social não é "um papão" e no mesmo ano a então ministra das Finanças Maria Luís Albuquerque explicava, sem esclarecer como pretendia fazê-lo, que o Governo previa "poupar 600 milhões de euros em 2016 com uma reforma do sistema de pensões". Em maio de 2015, alterou o discurso e afirmou mesmo ser "honesto dizer aos portugueses que vai ser preciso fazer alguma coisa sobre as pensões para garantir a sustentabilidade da Segurança Social" e que poderia passar, "se for essa a opção, por alguma redução, mesmo nos atuais pensionistas". Parece que atualmente o PS com António Costa, com mais ou menos artifício, pretende fazer o mesmo


Recorde-se que Montenegro em abril deste ano disse, claramente, numa entrevista, que tinha orgulho do tempo da governação de Passos Coelho. “Tenho orgulho no Governo de Pedro Passos Coelho”, afirmou Luís Montenegro. Questionado se teme ser visto como um candidato ligado a Pedro Passos Coelho, disse ter orgulho e não vergonha do seu passado.


Quem tem orgulho num passado que chamou “peste grisalha” aos pensionistas e reformados, que cortou reformas e pensões e previa agravá-los, é porque aceita as políticas praticadas nesse passado.


Mais sério ainda é que nas próximas eleições pode não estar fora de questão por parte do PSD uma abertura de solução com o Chega se atentarmos  nas palavras de Rui Gomes da Silva: "Dizer que não há governabilidade com o Chega como dizia Rui Rio para afastar acordos com André Ventura é autoexcluir-se de qualquer solução governativa nos tempos mais próximos. Isso é permitir à esquerda sempre governar.”


Portanto, a surpresa surge-nos quando passou a defender políticas de aumentos de pensões e de reformas, a considerar que o Governo está a enganar os pensionistas, que acha as medidas insuficientes, ilusórias e tardias e até uma sugere abertura despesista. Mesmo que possamos dar-lhe razão estranha-se a alteração opcional de políticas demasiado enlevada.


Nós, eleitores, não podemos deixar-nos embarcar pelas boas intenções de partidos quando, ao mesmo tempo, dizem que pretendem e irão ganhar as próximas eleições e, então, entram num jogo do vale tudo.


No caso das extremas esquerdas, BE e PCP, as intervenções dos deputados destes partidos são previsíveis, são uma repetição por palavras diferentes de intervenções anteriores, são uma espécie de leituras panfletárias, são o déjà entendu da cassete centrada no aumento dos salários e pensões, no ataque aos grandes grupos económicos, na fixação e tabelamento de preços, nas reivindicações demagógicas e populistas da taxação dos lucros acumulados pelas empresas.


O tabelamento de preços por entre os efeitos, salienta-se o desincentivo à produção e este, por consequência, pode gerar desabastecimento no mercado.  Preços congelados não incentivam a produção pela retirada da liberdade do ponto de vista da produção, já que a margem de custos e de lucro fica limitada. Assim, muito possivelmente, num cenário de preços congelados, os produtores não estão dispostos a empenhar esforços segundo critérios fixados pela autoridade pública o que resulta numa crise de abastecimento do mercado. Estas medidas pelo contrário poderia favorecer a concentração de mercado pelas empresas que já praticavam preços máximos. E ainda, as multas impostas em caso de descumprimento do preço tabelado, poderiam ser passadas para o consumidor.


Em síntese, embora os partidos da oposição tenham alguma margem de razão nas críticas que fazem ao Governo, nomeadamente na questão das pensões e das reformas, também é evidente que as críticas que agora fazem, nomeadamente o PSD, se fossem governo não hesitariam como no passado a pôr em prática as soluções que, segundo eles, seriam as necessárias mesmo que em prejuízo daqueles que agora dizem defender.

segunda-feira, 8 de agosto de 2022

Uma opinião acerca dum artigo de Boaventura Sousa Santos

Apesar de estar de férias a contemplar o mar não conseguiu desligar-me dos temas da política nem resistir a comentar os que apostam em estar contra o lado de uma razão sensata de ilibarem o invasor e condenarem o invadido apresentando razões que apenas a eles, os invadidos dizem respeito. Muitos deles, especialistas credenciados que, do alto da sua cátedra, tergiversam para o seu campo ideológico, borrifando-se para a isenção da ciência que professam.


Parece ser o caso de Boaventura Sousa Santos, emérito sociólogo, que, parece mostrar uma visão estreita no que a opiniões políticas se refere. Daí que, a sua obsessão pelo radicalismo ideológico de esquerda que é contra a democracia do ocidente e tudo quanto dele venha lhes turve a sensatez. De um lado a proximidade com o Bloco de Esquerda, partido alojamento de alguma intelectualidade da nossa praça e do outro o PCP que nem pode ouvir falar na União Europeia, nem nos EUA, nem na NATO e cuja orientação que, mesmo após o fim da URSS os bons ventos parecem ainda soprar-lhe daquele lado.


Daí que incorporo um artigo de Rita Seabra, quadro superior em funções públicas que achei ser uma crítica ao pensamento conservador de esquerda radical do professor Sousa Santos que se cola ao PCP nesta campanha pro-Putin. O PCP após a revolução de abril titulava de fascista e de reacionário quem não era por eles. Agora quem não é por eles é anticomunista, e acrescentam "primário". Por favor, tenham tento.


 Opinião de 


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Rita Seabra


In Público, 6 de agosto de 2022


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Uma “guerra fantasma”? “Merece a pena” repudiar


No seu último artigo, Mereceu a pena?, Boaventura de Sousa Santos aborda um conjunto de questões que vale mesmo a pena debatermos.


Boaventura de Sousa Santos tem opiniões que eu estimo, concordando ou discordando, dependendo das matérias, e que leio sempre com atenção. Pois no seu último artigo Mereceu a pena?, aborda um conjunto de questões que vale mesmo a pena debatermos.


Diz ele que “bastou uma guerra fantasma – travada na Europa, mas não protagonizada pela Europa e nem sequer no interesse dos europeus – para pôr tudo a perder” (a paz e o desenvolvimento). Inaceitável, esta frase. Porque a guerra não é fantasma, nem para as centenas de milhares de vítimas e as suas famílias, ucranianas e russas, nem para os milhões de deslocados que já totalizam mais de 30% da população do país. Sim, há vítimas dos dois lados, que as guerras ceifam a direito, mas a forma como a balança pende para a Ucrânia...


Esta guerra “fantasma” é inaceitável porque é a segunda em duas décadas, depois da assinatura do Memorando de Budapeste em 1994, em que três países, Rússia, Reino Unido e Estados Unidos, garantiram à Ucrânia, então terceira potência nuclear mundial, que se abdicasse das suas armas nucleares não sofreria ataques militares ou qualquer tipo de coerção económica. E a quem cedeu a Ucrânia as suas armas nucleares? À Rússia. A mesma Rússia que assinou a garantia de não atacar e respeitar as fronteiras do país, para que a Ucrânia aceitasse desnuclearizar-se.


Boaventura Sousa Santos fala em “derrotados. Não se sabe ainda quem ganhará esta guerra (…) mas já se sabe quem mais perde com ela”. Não nos enganemos sobre isto: quem mais perde com a guerra são em primeiro lugar as vítimas, que perdem a vida, ou pedaços de corpo, ou os seus haveres e o seu quotidiano de normalidade. São os anónimos individuais de que ninguém se lembrará depois, recordados apenas pelas suas famílias.


Mas há também dois coletivos que perdem em toda a linha (e isso nem sequer é justo, porque um coletivo não devia pagar pela maldade de um homem). A Ucrânia, que vê o seu país arrasado; e a Rússia, que também já perdeu, qualquer que seja o resultado da guerra, pela falta de palavra, pela forma como fez tábua rasa dos seus compromissos de honra, assinados há menos de três décadas. Perdeu pela falta de honra com que faz a guerra, com crimes de guerra documentados diariamente. Perdeu pelo discurso inaceitável das “realidades alternativas” com que nos brinda todos os dias, num desrespeito feroz pela humanidade e pelo resto do mundo.


À semelhança do que sucedeu após a II Guerra Mundial, um coletivo terá que carregar uma culpa coletiva pelas más ações de um homem e do conjunto de cobardes que o rodeiam e sancionam as atrocidades que ele congemina.


Quanto à Europa e ao resto do mundo, só perderam por intervir demasiado tarde. Mesmo que isso tenha impacto no bem-estar europeu e na nossa riqueza. Nos últimos 30 anos, a Rússia teve mais de uma dúzia de conflitos com países da União Soviética, dos quais porventura o mais recordado pelos contornos de bestialidade foi o da Chechénia. Sobre intervenção noutras partes do mundo, destaque para a mais recente, na Síria, da qual muito se escreveu sobre crimes de guerra e a carnificina em Alepo. Se tivéssemos tomado posição mais cedo, mais firme, talvez não estivéssemos hoje onde estamos.


Boaventura Sousa Santos fala em “normalização do nazismo [e da] forte presença de grupos neonazis na Ucrânia”. Caríssimo, não há desculpa para os grupos neonazis, ucranianos, portugueses ou outros, que vão surgindo um pouco por todo o lado e que devem ser tratados como ameaça pelos governos dos países onde se desenvolvem. Mas, neste conflito, o único comportamento nazi a que temos assistido é o de Putin e do seu entorno, que decidem que, à falta de uma vitória fácil, a guerra se faz exterminando civis e arrasando economia, cultura e tudo o que faz de um país uma nação.


Sobre o “governo das mulheres" escreve que "à frente da União Europeia está uma mulher com instintos belicistas, e as primeiras-ministras da Finlândia e da Suécia não parecem ficar-lhe atrás”. Parece uma afirmação sexista, talvez? Porque a escolha é interessante. Não me consta que Biden ou Boris Johnson, ou Emanuel Macron, ou... a lista é interminável, tenham mudado de sexo. Até Guterres, que, como todos se lembram, é o homem dos diálogos (e por isso está onde está), escolheu um lado. É instinto belicista lutar pelo que está correto e ficar do lado de quem tem razão, não obstante ser mais fraco? Ou tentar proteger o seu país, que já sofreu ameaças veladas várias vezes? O mundo civilizado está todo errado sobre quem tem razão numa invasão de fronteiras? E porque é que três mulheres corporizam o instinto belicista? Porque não foram suficientemente “femininas” na sua assertividade? Ou porque foram menos calculistas sobre eventuais perdas nas escolhas ou interpretaram melhor o sentimento de repúdio de quem as elegeu?


Porque é que três mulheres corporizam o instinto belicista? Porque não foram suficientemente 'femininas' na sua assertividade? Ou porque foram menos calculistas sobre eventuais perdas nas escolhas ou interpretaram melhor o sentimento de repúdio de quem as elegeu? Última palavra para o “anticomunismo fantasma": “O ódio anti-russo que se exacerbou na Europa por via da invasão da Ucrânia contém subliminarmente o ódio anticomunista”, refere Boaventura de Sousa Santos. Que raio de discurso de vitimização do PCP! Pois se até a China já representa um florescente “comunismo de mercado”... Caro, toda a gente sabe que a Rússia não é comunista há muito tempo e, muitos anos antes da queda do muro de Berlim, o comunismo russo teve laivos fortes de outras coisas, para dizer o mínimo. O que é inaceitável, do meu ponto de vista, é que o PCP assuma a defesa bacoca de uma posição indefensável como é a da Rússia, que vai contra muitas das suas bandeiras habituais, com destaque para a defesa dos mais fracos e dos oprimidos. Faz pensar sobre o que motiva o PCP, não faz? É pena que um partido com a história e a tradição do PCP fique refém de uma aliança com um país cujo governante ficará possivelmente para a história como o “carniceiro do século XXI”.

quinta-feira, 28 de julho de 2022

Coitadinho do PCP que tem sido uma vítima

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A ERC - Entidade Reguladora para a Comunicação repreende a SIC, qual menina malcomportada, porque o menino PCP fez queixinha e disse que aquela menina o tratou mal. Fez o papel de donzela ofendida. O PCP quer tentar demonstrar que anda a ser perseguido, o que é no mínimo patético para não dizer caricato.


O PCP e os seus dirigentes entraram em delírio e vitimizam-se. Coitadinho do PCP fez queixinha porque a cobertura noticiosa do comício do 101.º aniversário no Campo Pequeno em março teve um “registo opinativo, que desvaloriza e ridiculariza a posição” do partido, o que contrariou o rigor informativo e a isenção a que a SIC está obrigada por lei, escreveu na altura a ERC.


O que a voz off ao dar notícia do acontecimento disse foi que “Aos 101 anos, o PCP já tem idade suficiente para dizer sempre a mesma coisa”. Eu, que desde o 25 de Abril e no tempo de líder Álvaro Cunhal tenho ouvido sempre o PCP reproduzir sempre a mesma cassete, com mais ou menos variantes consoante os momentos.


Para melhor compreender o que desvairou o PCP reproduzo o que o jornal Público publicou sobre o que foi afirmado no comício: “o PCP não apoia a guerra” e que “não tem nada a ver com o Governo russo e o seu Presidente”. Acrescenta a notícia citando a voz off que “… isso não significa que o partido apoie Zelensky, antes o critica, e afirmou ainda que Jerónimo de Sousa “repete a cartilha” quando fala da responsabilidade dos Estados Unidos na promoção da guerra. “E assim se chega aos 101 anos”, remata a voz off.


A ERC parece ter entrado no jogo do PCP pois que no comunicado diz que embora realce que não se exige que as notícias “sejam um relato neutro e acrítico dos factos noticiados” e que podem integrar uma “componente analítica e interpretativa”, considera que os comentários feitos na peça não são uma interpretação, mas uma opinião que “desvaloriza e ridiculariza a posição do PCP” assente numa “avaliação pessoal e preconcebida do jornalista”. Coitadinho do PCP!


Por fim o segundo o mesmo diário o PCP congratulou-se com a decisão da ERC e aproveitou para lamentar que este não seja um caso isolado, antes um “exemplo de práticas recorrentes de manipulação e deturpação deliberadas das posições” do partido “particularmente presentes” no grupo Impresa, nomeadamente nas coberturas eleitorais. Mas o partido também considera “incompreensível que não sejam retiradas quaisquer consequências” da decisão do regulador, que se limita a “instar” a SIC a cumprir a lei. Mais, uma vez coitadinho do PCP que é uma vítima de uma empresa de comunicação.


Quem costuma ouvir os porta-voz e os dirigentes do PCP pode confirmar que, quer nos comícios, quer ao falar aos órgãos de comunicação, são, de facto, uma espécie de cassetes repetitivas.


Sobre a questão da Ucrânia o PCP bem pode gritar e dizer em abstrato que é contra a guerra e pela paz, (era mais o que faltava dizer o contrário), e que não tem nada a ver com o Governo russo e com o seu Presidente, ao mesmo tempo que responsabiliza os EUA pela guerra.


O PCP nunca afirmou claramente que rejeita a invasão da Ucrânia pela Rússia. Limita-se a falar, tal como o Kremlin, na operação especial, agora já mudou um pouco este discurso. De facto, não houve formalmente uma declaração de guerra, mas houve, objetivamente, uma invasão para ocupação de território de outro país. Se alguém leu ou ouviu alguma declaração de rejeição clara e concreta da invasão da Ucrânia por parte da Rússia de Putin agradeço que me informe quando e onde! Pode ser falha minha.


O PCP bem pode dizer que nada tem a ver com o Governo russo nem com Putin, mas deve saber muito bem que o Partido Comunista da Federação Russa, o PCFR, apoia Putin na questão da Ucrânia.


Tudo isto sobre a queixinha do PCP à ERC é uma espécie de faz de conta para enganar incautos que também serviu para mobilizar e motivar as suas hostes internas que devem andar um pouco desmobilizadas e tristonhas. Voltou a salientar que se houver algum militante ou simpatizante do PCP que leia este “post” e que ache que o partido oficialmente condena a invasão da Ucrânia pelo Presidente da Rússia que o escreva claramente nos comentários.


Se partidos da extrema-direita lhe apanham o jeito, aliás parece que já o apanharam, como se viu na peixeirada que fizeram na Assembleia da República aquando da discussão do Estado da Nação e que ameaçaram fazer queixinha ao Presidente da República. Ou será que o PCP os quer imitar?


Por favor, senhores do PCP, não façam por perder a dignidade que sempre tiveram e que o povo português sempre respeitou, mesmo os que, racionalmente, não concordam com as suas posições políticas e ideológicas.

sábado, 28 de maio de 2022

Com o PCP nada acontece por acaso, nada se perde e tudo se transforma

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A estratégia que o PCP - Partido Comunista Português tem vindo a seguir após o desaire das eleições, e, mais recentemente, com a invasão da Ucrânia está a desenvolver-se em três frentes.


A primeira frente, a mais recente, é a manutenção da culpabilização da invasão da Ucrânia pelo ocidente tratando o invadido e o ocidente como sendo os agressores. A desculpabilização do agressor é também defendida pelos que, reivindicam um pensamento alternativo, para eles indiscutível, em contraponto ao que eles denominam de pensamento único, que é contra a invasão e que é o errado. Para essa corrente, a Europa, enfeudada aos EUA e à NATO, são os geradores de uma escalada militar belicista.


Pela análise dos argumentos de Vladimir Putin e dos seus seguidores, o ocidente é o meio privilegiado da expansão dos valores negativos da cultura ocidental para a Rússia. É, pois, em nome da autodeterminação dos povos, e não apenas do povo russo, que Vladimir Putin diz prosseguir a sua política externa de forma a romper com os constrangimentos da hegemonia ocidental (ver discursos e intervenções). Ao mesmo tempo insiste em querer preservar a influência de Moscovo no “estrangeiro próximo” que se perdeu com o colapso da URSS (a retórica do PCP está próxima). Todavia a invasão da Ucrânia é demonstrativa da sua contradição por não lhe reconhecer o seu direito à autodeterminação.


A segunda frente do PCP é ideológica e processa-se no âmbito da sua política interna. No partido nada acontece por acaso. O “interior” do partido está rodeado pela discrição onde está enraizada uma ideologia dogmática com certos postulados não sujeitos a crítica e em que é o comité central que faz o ditame do posicionamento ideológico-partidário do momento que obedece a uma liturgia própria. O PCP debate-se, por isso, com o dilema de simultaneamente ter de responder à necessidade de manutenção da sua identidade, cujos valores e princípios são submetidos à ideologia internacionalista do comunismo mais ortodoxo e a vontade do eleitorado que pretende recuperar.


As narrativas produzidas pelo PCP têm vindo a competir com outros discursos existentes no espaço político. Ao longo do tempo, no que se refere a evolução discursiva, desenvolveu algumas alterações na sua terminologia linguística reprimindo algumas expressões e a aceitação de outras pela reformulação de elementos linguísticos que deixaram de ser utilizados na sua antiga formulação com a entrada e a participação do partido no diálogo político que se encetou em Portugal após o estabelecimento do regime democrático, ficando numa espécie de letargia de que tem custado a sair, mas a que parece pretender regressar.


Todavia, ao longo dos anos, ao escutar e ao ler alguns dos discursos dos líderes do PCP tenho verificado que, desde o tempo da URSS e do PCUS (Partido Comunista da União Soviética), até à atualidade, alguns dos pressupostos do PCP mantiveram-se. A NATO continua a ser uma organização agressiva, os EUA capitalistas, imperialistas e agressores e a União Europeia está ao seu mando. Deste modo, faça a Rússia  o que fizer, (leia-se antes Putin), para o PCP estará sempre certa, no pressuposto de que, todos os que considerem como inimigos os de quem sou inimigo, são meus amigos.


Apesar da confusa barracada causada por declarações por figuras do PCP, algumas delas contraditórias, sobre a invasão da Ucrânia por Vladimir Putin que pode ver aqui e aqui, e em que o líder Jerónimo de Sousa tem afirmado que o PCP garante “não ter nada a ver com o governo russo” nem com Putin o certo é que, os seus militantes e adeptos ao colocarem-se do lado contrário de quem está contra Putin colocam-se, indiretamente, do lado do agressor.


No 101º aniversário do PCP Jerónimo de Sousa afirmou ser “uma calúnia” dizer que o partido apoia a invasão da Ucrânia. Apesar da tentativa de se demarcar do regime de Putin, não foi a ele quem mais atacou. Foi aos EUA que mais apontou o dedo. No mesmo comício, em março, a defesa indireta do agressor que é Vladimir Putin deu-se pelo ataque aos que ajudam o agredido, foi o Ocidente, sobretudo aos EUA, que mais responsabilizou. Narrativa que também tem passado pelas redes sociais pelos seus adeptos. Jerónimo de Sousa apontou “todo um caminho de ingerência, violência e confrontação” que diz ter começado no “golpe de Estado de 2014, promovido pelos EUA, que instaurou um poder xenófobo e belicista”, e que provocou “a recente intervenção militar da Rússia na Ucrânia e a intensificação da escalada belicista dos EUA, da NATO e da União Europeia.” Afinal o que é isto senão a lavagem da política de Putin em relação à Ucrânia? Basta agora acrescentarmos o termo “operação militar especial” que Jerónimo já utilizou para se referir à invasão da Ucrânia. A colagem torna-se ainda mais evidente quando não refere Putin como imperialista nem o coloca em causa pelo que deveria ser para o PCP a tradição leninista da autodeterminação dos povos, já que, Putin responsabiliza Lenine pela independência da Ucrânia por ser o seu "autor e criador".


Os argumentos vindos do Kremlin para a invasão da Ucrânia são apontados ao ocidente, sobretudo à U.E., EUA e NATO o que parece terem dado ao PCP um novo alento. Não é por acaso que os seus capangas ideológicos andam pelas redes sociais e blogues a apoiar indiretamente Putin criticando e colocando-se contra o ocidente. Para o PCP a U.E. e a NATO foram e são uns empecilhos ao avanço estratégico da Rússia para ocidente e um bloqueio à progressão dos desígnios de expansão do comunismo na esperança de que um dia a URSS ou algo parecido regressem.


O PCP, embora esteja contra as políticas capitalistas do Kremlin como diz, ao mesmo tempo está em consonância com a sua política externa. A ambição do Kremlin pelo controle da Europa, pelo menos dos países que pertenceram ao Pacto de Varsóvia, é a hegemonia económica e geopolítica que passa também pelo desmembramento da União Europeia e a NATO que tem sido (e sempre foi) uma pedra no sapato de Putin e que também fazem parte de uma das lutas do PCP.


A terceira frente que não é independente das duas anteriores resulta da pesada derrota nas últimas eleições legislativas que está a fazer com que o PCP regresse ao “show de rua” com reivindicações e greves, com palavras de ordem mais do desgastadas e com o costumeiro radicalismo arcaico e ortodoxo.


As palavras de ordem do PCP voltaram a ser as de um populismo de esquerda para captar as massas populares para a sua luta. Palavras de ordem, as mesmas de sempre, como “aumentar os salários”, “valorizar o trabalho”, “desenvolver o país” às quais acrescentam a inflação e o custo de vida que vieram, em boa-hora, ajudar a direita e a extrema-direita a fazer oposição, como já vimos no Parlamento o PSD a defender aumento na função pública quando anteriormente falava no peso do Estado na economia.


Aprovado o OE para 2022 que o PCP votou contra, juntamente com a direita e com a extrema-direita, pela mão dos sindicatos que controla irá tentar instalar uma instabilidade social artificial com greves, paralisações e manifestações. O seu objetivo é fazer uma oposição de ataque cerrado e de desacreditação da maioria absoluta do Governo do Partido Socialista.


As únicas propostas que o PCP apresenta para melhorar o país são o aumento das pensões, dos salários, a fixação de preços contra o grande capital. Fixação de preço que resultaria em faltas nos abastecimentos de produtos básicos essenciais para as populações, sobretudo as urbanas, em filas para a compra de produtos essenciais como se verificava na ex-URSS da chamada economia planificada do regime comunista.


A economia da URSS era tão planificada que, depois da sua dissolução as privatizações de grandes empresas foram parar à mãos de quadros, antes fiéis do PCUS-Partido Comunista da URSS e “gestores” dessas mesmas empresas do Estado, que são atualmente os grandes oligarcas da Federação Russa e cuja maioria ainda está do lado de Putin.


Ainda no sentido desta terceira frente e aproveitando a atual conjuntura internacional devido à invasão da Ucrânia seguida do pedido de adesão à U.E., o PCP luta com as armas desestabilizadoras que tem ao seu dispor para dar apoio, mal disfarçado, à política de Vladimir Putin. Esta posição é coerente com a nota do gabinete de imprensa do PCP de 22 de fevereiro deste ano.


Há ainda a salientar a despropositada conferência que o PCP organizou no ISCTE na passada terça-feira, em Lisboa, para analisar as “consequências do uso do euro para o país se este rumo se mantiver” e as “possibilidades para concretizar uma rutura”. Parece-me que Putin terá ficado agradecido, assim como o PCFR.


O PCP faz um balanço negativo da adesão ao euro e destes 20 anos em que a moeda esteve a circular baseia-se na perda de soberania sobre a sua política monetária, cambial e orçamental; nos períodos de recessão ou estagnação económica, tornou-se mais endividado e dependente, perdeu capacidade produtiva, e não convergiu com a média da União Europeia. “Temos o dever de perguntar: como serão os próximos 20 anos? Vamos resignar-nos a este cenário?” questiona o PCP. Os argumentos parecem ser idênticos aos da extrema-direita quando está contra a U.E.


Os comunistas realçaram na conferência, organizada pelos eurodeputados do PCP, que “A permanência no euro já é suficientemente longa para se tirar conclusões independentes das conjunturas e dos governos. Este é o tempo de recordar a propaganda e as promessas então feitas e de as conformar com os impactos reais da adesão. Mas é sobretudo o tempo de pensarmos o presente e o futuro. Este debate assume recusar inevitabilidades”.


A proposta e a estratégia do PCP ao adotar uma estratégia anacrónica para criticar a presença de Portugal no Euro vai no sentido de que Portugal fique novamente “orgulhosamente só”, tal como proferiu Salazar num discurso em 1965 quando o mundo se opunha à manutenção do colonialismo. É lamentável que após 57 anos, embora num contexto distinto, mas igualmente severo, o PCP esteja a querer encaminhar Portugal para o desastre.


A discussão veio facilitar a abertura do tema que está no alinhamento com Putin ao aperceber-se de uma Europa Unida pelo que há que estilhaçar esta perigosa união. Não nos admiremos se a extrema-direita vier também a alinhar com a ladainha comunista sobre a U.E. Temos visto nos últimos anos como a extrema-direita na Europa tem trazido para a discussão populista a verborreia contra a União Europeia.


Enquanto continua a haver países de leste, nomeadamente a Moldávia, que pretendem entrar para a U.E. e para a NATO/OTAN e para zona Euro, coisa que o presidente Vladimir Putin vê como um cerco à Rússia, e o Reino Unido acha que terá sido um erro a sua saída da U.E. o PCP continua a propor a saída de Portugal do Euro. Não é novidade, a sua coerência reside no facto de ter estado sempre contra a entrada de Portugal para a U.E. e para a zona Euro que, para aquele partido, é uma organização “defensora do grande capital”. Aliás, em 2016, o PCP defendia “derrotar a União Europeia, criar ‘outra Europa’ dos trabalhadores”. Qual? A da ex-URSS?


De facto, parece-me estranho que o PCP nas atuais circunstâncias esteja novamente a levantar a discussão e a colocar em causa o Euro e a U.E. Caso fosse desmantelada a U.E. esta ficaria dividida e a porta ficaria aberta ao imperialismo de Vladimir Putin. Neste aspeto o PCP é coerente porque sempre foi contra a U.E., mas, saído das “amarras” de compromissos de apoio parlamentar com o PS encontrou novamente o folego e a oportunidade para, ao arrepio da guerra da Ucrânia, se aproximar dos pontos de vista de Vladimir Putin cuja filosofia é contra a E.U. e contra o Euro por ver neles um empecilho apesar de a ter enfeudado ao fornecimento de gás e petróleo da Rússia.


Este debate sobre o Euro não surge por acaso e regressa com os mesmos estribilhos já bem conhecidos.


Convém também não esquecer que este espírito anti U.E. e anti NATO foi também a do anterior presidente dos EUA Donald Trump que esteve empenhado no seu enfraquecimento como realçou o Presidente francês Emmanuel Macron em 2019: “O que estamos a assistir é a morte cerebral da NATO", devido às decisões do presidente norte-americano sobre a Aliança Atlântica e também pelo comportamento do presidente turco”. A invasão russa da Ucrânia ocorreu num momento de enfraquecimento da NATO e não de um ostensivo e concreto alargamento até à fronteira russa.


O PCP sabe que a política externa de Vladimir Putin se pauta pelo confronto com os países ocidentais como se tem verificado há algum tempo. Os comunistas do PCP encontraram agora uma oportunidade de fazer eclodir uma discussão sobre o Euro porque a conjuntura da invasão da Ucrânia, a que também Jerónimo de Sousa chamou “operação militar especial”, e a que, claramente, nunca se opuseram, a não ser em falar em abstrato na paz que dizem pretender.


O presidente Vladimir Putin, para justificar os seus objetivos argumenta que se está a criar um “cerco estratégico”, o que é falso, e, de acordo com esta narrativa, traçou uma política externa que diz ser defensiva. Independentemente da avaliação que possamos fazer quanto a esta linha de argumentação, há uma verdade inequívoca: as ações de Moscovo ao longo dos últimos anos quer na Moldávia, na Geórgia, na Crimeia e agora na Ucrânia, as ações de Moscovo desfizeram dúvidas quanto à postura bélica assumida pelo presidente Putin.


 

sexta-feira, 13 de maio de 2022

Afinal as cassetes ainda existem

“A conversa dos políticos ocidentais sobre liberdade e democracia é pura conversa”. (Palavras do líder do Partido Comunista da Federação Russa, numa reunião dos ativistas do partido realizada em Moscovo a 3 de abril de 2022)


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O grande perigo para a Europa e para o Mundo não vem da NATO, nem dos EUA, mas do presidente Vladimir Putin. A pergunta que se coloca é a de saber se a Suécia e a Finlândia teriam pedido com brevidade a entrada na NATO caso Putin não tivesse invadido a Ucrânia. Putin passou a ser um fator de instabilidade também para a União Europeia que, segundo ele, teria a pretensão de desagregar.


Agora um ditador candidato a “imperador” quer pressionar a Finlândia, país autónomo, soberano e independente, a não aderir à NATO e, por isso, ameaça tudo quanto mexe. Desde quando um país obriga outro a seguir os seus ditames com a justificação de se sentir ameaçado. Por aqui vê-se quem ameaça o Mundo e qual a sua estratégia para o enfraquecimento dos mecanismos de proteção e defesa dos países que os rodeiam.


Putin nunca viu com bons olhos que Helsínquia aderisse em 1995 e encontrasse na União Europeia o seu espaço estratégico preferencial. A questão da adesão à NATO nunca se tinha colocado apesar de ser essa a preferência de grande maioria dos finlandeses.


Vamos ver se a Turquia deixará, ou melhor, não se oporá!


Putin, em vez de fazer uma aproximação à Europa e ao ocidente optou por se dispersar com divagações pouco credíveis conforme é citado no Kremlin: "O nosso dever comum é impedir o renascimento do nazismo, (o sublinhado é meu), que trouxe tanto sofrimento aos povos de vários países. É necessário preservar e transmitir (...) a verdade sobre os acontecimentos da guerra, valores espirituais comuns e tradições de amizade e irmandade". Palavras vazias sem sentido e que contrariam as suas ações pois atua pior do aqueles que diz estar a combater.


No dia 8 de maio Vladimir Putin, por ocasião do 77º aniversário da “Vitória na Grande Guerra Patriótica”, enviou mensagens de congratulações para vários países onde declarava, repetindo qual cassete gravada, que "Hoje, o dever comum é evitar o renascimento do nazismo, que trouxe tanto sofrimento para as pessoas de diferentes países. É preciso preservar e passar aos descendentes a verdade sobre os acontecimentos dos anos de guerra, valores espirituais comuns e tradições de amizade fraterna".


Que valores são estes a que se refere vindos de quem agride, ameaça, causa sofrimento com falsas justificações através de uma retórica mentirosa como a de “impedir o renascimento do nazismo” quando os seus atos, práticas e discursos contradizem o que ele diz querer evitar?


A utilização de forma genérica, mas específica, das palavras nazismo e desnazificação aplicados ao caso da Ucrânia não surgem por acaso. Foram escolhidas porque ele sabe que a nível mundial, estas palavras estão ainda bem presentes nas memórias coletivas dos povos e têm uma carga muito negativa. Daí a insistência no apelo demagógico contra o renascimento do nazismo passando a mensagem de que ele é o libertador das nações oprimidas pelo nazismo.


Falar de desnazificação e acusar a NATO de ser a responsável pela agressão à Ucrânia é, pelo menos, risível. São estratégias de desvirtuar informação apontando a outros, erros, falhas, atitudes e intenções que não servem senão para ocultar as do agente emitente. Como em qualquer totalitarismo, na Rússia de Putin a desinformação, a mentira, a mentira por omissão e a deturpação de factos são a regras aplicadas ao povo.


Porém, podemos questionar em que diferem as atuações de Putin daqueles que ele diz querer libertar os povos.  Nazismo é um tipo de fascismo totalitário com forte natureza nacionalista, agravado por radicalismos racistas, étnicos e xenófobos. A Rússia do presidente Vladimir Putin é uma autocracia com uma forte componente totalitária que se estende à regulação de todos os aspetos da vida pública e privada da Rússia, conforme informações que vão chegando ao nosso conhecimento. A Rússia é governada, na prática, pelo poder de uma única pessoa política e de fação personalizado em Vladimir Putin cuja autoridade não tem limites. A Duma (câmara baixa da Assembleia Federal da Rússia), não passa de um conjunto de deputados que são uma espécie de “Yes men”, até mesmo o Partido Comunista da Federação Russa, de que irei escrever mais adiante.


Como nos regimes totalitários e no nazismo Vladimir Putin tem implementado no seu país, repressão, perseguição a opositores, censura obstinada que proíbe publicação de informação que lhe seja desfavorável tornando-a inacessível às populações, etc.. Por outro lado, Putin tem apoiado financeiramente partidos xenófobos e racistas da extrema-direita na Europa. O que é isto afinal?


Lamentável é também haver em alguns países do ocidente partidos e pessoas que, dizendo-se democratas, apoiam ditaduras e um ditador que invade um país soberano. Neste alinhamento também se encontram os que dizem estar a favor do povo e da cultura russa, o que é indubitavelmente aceitável, mas são também esses os que defendem, tipo "copy paste", o pensamento presente nos argumentos discursivos de Vladimir Putin.


Tudo isto conduz-me, mais uma vez, aos argumentos do PCP em relação à invasão da Ucrânia. Em primeiro lugar, é preciso também que se entenda o pensamento do PCFR - Partido Comunista da Federação Russa que “aplaude” a decisão de Putin sobre a “intervenção militar” na Ucrânia, basta ler os discursos de Gennady Zyuganov, líder daquele partido.


Recuemos então seis anos, 2016, e recordemos o que o líder do PCP disse no discurso de abertura do XX Congresso do PCP, em Almada, acerca da União Europeia e do Euro a quem não poupou críticas por serem, segundo ele, a “fonte dos maiores males dos portugueses”. Dizia então Jerónimo de Sousa, referindo-se a um discurso feiro no Parlamento Europeu sobre o Estado da União Europeia que, segundo ele, não se tratava de "maquilhar, refundar ou democratizar" a União Europeia (UE). Nem "mudar alguma coisa para ficar tudo na mesma". Disse que os comunistas não estão aqui para isso. Querem mesmo mudar o mundo e, quanto à UE, "articular ruturas que permitam construir uma outra Europa". Isso mesmo, mudar o mundo para que lado? O que pretenderia ele dizer na altura com a construção de uma nova Europa? Seria uma espécie de premonição do que se iria passar?


Mesmo com uma pequena margem de erro é o que, atualmente, o presidente Vladimir Putin e o seu partido Rússia Unida acolitado pelo Partido Comunista da Federação Russa, têm afirmado. Cada um que tire as ilações que entender.


Recentemente as palavras de Jerónimo de Sousa também não levantam dúvidas sobre o seu alinhamento com o seu congénere da Rússia, o PCFR,  e com Putin ao considerar que não houve uma invasão nem que há uma guerra na Ucrânia causada pela Rússia, mas sim “uma operação militar” embora acrescente que o PCP “condena”.


A subtileza passa a  evidência quando se refere a “operação militar” em vez de guerra (de facto, não houve formalmente uma declaração de guerra),  mas enfileira com a retórica de Putin apesar de, como disse, ser capitalista, única verdade.


Jerónimo de Sousa, no entanto, admite, contradizendo-se, que “Há uma guerra, isso é incontornável”, e esclarece que “é claro para o PCP que estamos perante uma Rússia capitalista” da qual “o PCP claramente se demarca”, “não tendo nada a ver” com Putin. Jerónimo de Sousa é muito hábil só que, por acaso, não deve ter lido os discursos de Putin e do secretário-geral do PCFR, ou, se os leu, fez-se de esquecido.


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Vamos lá ver então se eu entendo: “não houve uma invasão”; “houve uma operação militar”; “há uma guerra e isso é incontornável”.


Analisemos então qual a aproximação das narrativas do PCP com a intervenção do líder do PCFR - Partido Comunista da Federação Russa, Gennady Zyuganov, em 3 de abril de 2022 numa reunião dos ativistas do partido realizada em Moscou sob o tema “Temos que resistir e vencer.”, onde o líder do Partido Comunista da Federação Russa recordou a solidariedade das forças patrióticas de esquerda do mundo. A ortodoxia no seu melhor.


Gennady Zyuganov tem a certeza de que o objetivo “é derrotar o nazismo e o fascismo, caso contrário, se espalhará por toda a Europa "e muitos jovens terão que usar sobretudos". Nazismos e fascismo são palavras coincidentes nos discursos de Putin e de Zyuganov. O chefe da fação comunista afirmou ainda na Duma do Estado da Federação Russa que "Se todos nós – a Duma, o Conselho da Federação e o Conselho de Segurança – apoiamos a operação especial, devemos explicar às pessoas o que estamos a perseguir, por que é que apoiamos ativamente os que defendem fielmente o mundo russo, a nossa língua, dignidade e Donbass, e a nossa amizade com a Ucrânia."


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Em 19 de abril já tinha afirmado algo sobre a “mentalização” pró militarista agressiva dos jovens russos ao dizer que "acreditava que nas escolas e nas universidades haveria muito trabalho para explicar a situação em que todos nós nos encontramos. Mas não vejo e não sinto isso nem nas atividades de ministros, professores, diretores de escolas ou figuras culturais", disse Gennady Zyuganov.


Zyuganov chega a lembrar as palavras do presidente Putin numa reunião com jornalistas estrangeiros em outubro de 2021 onde disse, (no contexto dos problemas socioeconómicos da humanidade que pioraram e que houve turbulências em escala global) que "O modelo existente de capitalismo na grande maioria dos países esgotou-se". Zyuganov acrescenta ainda que "Olhando para Biden, esta múmia ambulante, que ameaça todos, torna-se assustadora para a América". O líder do PCFR disse ter tirado uma conclusão ao observar que a Alemanha começou novamente a apoiar o nazismo, e a França está totalmente dançando ao som americano. O segredo foi revelado, é o ódio aos EUA. É assim que as coisas começam, agressões imaginárias, ódios, seja ao que for, como etnias, raças, nações, países que servem como bodes expiatórios para justificarem agressões e perseguições. É assim o nazismo!


Zyuganov afirmou ainda que “vamos ter de lidar com todos os desafios, porque, na sua maioria, os cidadãos do espaço pós-soviético já entenderam quem é o organizador da nova agressão. E toda a conversa dos políticos ocidentais sobre liberdade e democracia é pura conversa. "Estamos presentes no final do conto de fadas sobre o mercado, sobre o livre comércio, sobre a liberdade de expressão", continuou o líder comunista (os sublinhados são meus). Sobre política externa da Rússia Zyuganov observou ainda a importância da interação da Rússia com a China, Índia, Vietname, Irão, Paquistão e Turquia.


Terminou prometendo que “Faremos de tudo para trazer paz à Ucrânia fraternal. Faremos tudo para desenvolver a nossa união", e que "vem uma nova etapa no processo de integração. E tenho certeza de que o Partido Comunista e as forças patrióticas de esquerda estarão na vanguarda deste trabalho, preparando-se para o centenário da formação da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas", concluiu o líder do Partido Comunista da Federação Russa. A mensagem de agressividade deste senhor líder de um partido que fala em paz, amizade e fraternidade está patente no seu discurso no “Dia da Vitória na Grande Guerra Patriótica”.


A razão por que inclui estas passagens do discurso de Zyuganov é por que, nas entre linhas, encontram-se pontos de vista aproximados aos de Putin que o PCP parece perfilhar fazendo-o através de narrativas travestidas que não evidenciam substância e cuja conversa é apenas o que está na superfície para convencerem e apelar a potenciais adeptos.


Mais recentemente numa intervenção num comício no dia 1º de Maio de 2022 o líder do PCFR, Gennady Zyuganov, afirmou que “agora na Ucrânia, a Rússia está a lutar principalmente por um mundo multipolar. “Estamos lutando pelo mundo russo, porque o mundo russo não está nos planos deles”.


A propaganda de Putin tem conseguido ter eficácia junto dos seus agentes e adeptos no ocidente e tem como grande aliado o Partido Comunista de Federação Russa. Comparando tantas opiniões, até da esquerda, que se indignam contra a incapacidade de alguns em condenar uma agressão imperialista assinada por um regime autocrático, verifica-se de facto quem está a fazer uma “tentativa de impor, à escala do povo, um pensamento único”, na Rússia e também aqui em Portugal.


Há pessoas que parecem ser crédulas por vontade própria que se deixam contaminar por invenções demasiado extraordinárias para que sejam autênticas veiculadas pelos canais de propaganda de Putin, tais como a da necessidade de desnazificar a Ucrânia, os laboratórios onde se preparam armas químicas na proximidade da Rússia, o genocídio dos que falam russo. O que está a acontecer é que, na minha opinião, a invasão da Ucrânia, serviu para mascarar as fraquezas internas da Rússia por ele causadas. Quem nos pode garantir que os que escrevem contra o ocidente apoiando as retóricas de Putin é que estão na posse da verdade e que todas as outras são mentiras?