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sábado, 29 de novembro de 2025

Presidente comentador versão 2.0

Eleições Presidenciais-Marcelo-Mendes.png


No debate André Ventura com Marques Mendes o primeiro não foi novidade a nuvem de palavra costumeira fluía tocando a mesma partitura. Sobre a pergunta sobre o que faria se fosse eleito presidente como tem sido habitual a resposta nem ouvi-la. A estratégia foi a fuga para a frente.


Marques Mendes lá foi andando com alguns tropeções. Não é fácil debater com Ventura porque é entrar numa espécie de carrocel. André Ventura mostrou que, em assuntos fundamentais, na diplomacia não tem sentido de Estado. Marques Mendes foi acusado por Ventura de ser uma “marioneta de Montenegro”, que não é independente e que era o “comentador do sistema” “alinhado com o primeiro-ministro” disse.


Sobre a justiça Marques Mendes disse que convocaria uma reunião do Conselho de Estado para tratar da corrupção e da reforma da justiça ao que André Ventura, aproveitou para lhe chamar “fofinho” afirmando que preciso é acabar com eles. Ventura só não especificou como o faria.


É provável que Marques Mendes vá à segunda volta, mas se conseguir passar a essa etapa e ganhar vamos ter uma espécie do slogan que Sá Carneiro tendo em 1980 a AD uma maioria absoluta nas eleições presidenciais apoiava o General Soares Carneiro e pedia “uma maioria, um Governo e um Presidente”. Na composição atual do Parlamento há uma minoria AD um Governo e um presidente, Marcelo Rebelo de Sousa.


Parece haver uma dinâmica de comentadores TV e artigos de opinião com tendência para a promoção do candidato Marques Mendes. Já aqui escrevi um texto em relação às opções partidário- ideológicas de comentadores de política e dos candidatos à Presidência da República.


Já temos um Presidente da República em fim de prazo que veio de comentador em canais de televisão e se tornou num selfista, apresenta-se agora à candidatura do cargo uma outra personalidade que, à semelhança do primeiro, também foi comentador político poderemos vir a ter outro, embora com algumas diferenças mas da mesma área partidária. É mais do mesmo.


Analisemos então as diferenças entre as duas versões. Primeiro quanto ao percurso político. Ambos têm trajetórias semelhantes porque foram líderes do PSD e comentadores televisivos.  Marques Mendes tem sublinhado que não é uma “cópia” nem uma “imitação” afirmando que são “muito diferentes” ele e Marcelo Rebelo de Sousa. É uma verdade óbvia. São personalidades diferentes apesar da amizade, vieram do mesmo partido. Há algumas coincidências. Pois, é nas coincidências que pode estar o problema porque é um campo muito vasto para que não haja semelhanças.


Marques Mendes destaca-se pelo apoio explícito ao PSD, mas fez questão de entregar o cartão de militante como gesto simbólico de independência, tal como fez Cavaco Silva. Ora aqui está uma atitude que tem apenas um significado simbólico por que como já escrevi noutro texto sobre Marcelo Rebelo de Sousasendo militante do PSD não se desfiliou do seu partido, tendo suspendido a militância quando concorreu pela primeira vez à Presidência da República.  Não existe um requisito legal explícito que obrigue um Presidente da República a desfiliar-se do seu partido, assim, um candidato à Presidência da República pode manter a sua filiação partidária. O que está estabelecido na Constituição da República Portuguesa é que o Presidente da República deve atuar com total independência e imparcialidade para representar a unidade nacional… Contudo, a desvinculação ao partido a que pertence é uma consequência natural e necessária para garantir a sua atuação enquanto Chefe de Estado


Numa entrevista, ao ser questionado sobre as semelhanças que tem com o atual Presidente da República, Marques Mendes, devido ao facto de terem sido ambos presidentes do PSD e comentadores televisivos rejeitou ser um “filho político” de Marcelo Rebelo de Sousa. Quis demonstrar que é um candidato experiente, preparado e conhecedor sobre o que deve ser um Presidente, o que parece ser arrogância face a outros candidatos, o que pode ser demonstrativo do quanto ele está implicado com o sistema, tal como diria André Ventura se fizesse um cometário a esta afirmação.


Marques Mendes defende ainda que o presidente deve estar preparado para evitar crises e propõe pactos de regime para regenerar a política, aproximando partidos em matérias como ética e justiça. Lugar-comum a quem se candidata a presidente porque não se vislumbra diferença em relação aos outros candidatos que defendem o mesmo, PSD com o CDS-PP.


Para se destacar Mendes exprime um sentimento negativo ao afirmar depreciativamente Rebelo de Sousa dizendo que se fosse presidente reuniria mais vezes o Conselho de Estado e não manteria a prática de promulgar leis e fazer comentários públicos sobre elas, como faz Marcelo. Considera que esses comentários criam “ruído e instabilidade” e não são úteis, pois o presidente não é governo. Marques Mendes seria, portanto, um presidente fugidio, escondido, refugiado no palácio, mais ou menos «à moda» de Cavaco Silva.


Apesar das semelhanças no percurso, Marques Mendes procura afirmar uma postura mais institucional, menos mediática e mais focada na estabilidade política e na transparência. Já Marcelo Rebelo de Sousa é conhecido pelo estilo comunicativo, pelos comentários públicos e pela proximidade com o público. Mendes quer marcar diferença pela forma de exercer o cargo e pela defesa de pactos e acordos claros entre partidos.


Contudo, Marques Mendes tanto distanciamento quer ter de Marcelo Rebelo que se esqueceu, como escreve Ana Sá Lopes no Público, que Marcelo «Foi capaz, entre muitas selfies e outros exageros, de dessacralizar a instituição Presidente da República, o que era fundamental a seguir ao último mandato de Cavaco. Esteve mais perto do povo do que talvez qualquer um dos seus antecessores.». E termina sublinhando que «O excesso de demarcação de Marcelo Rebelo de Sousa pode, se calhar, não ser uma ideia assim tão boa. Ah, basta ver o plano de “paz” para a Ucrânia para ver que o Presidente tinha razão quando considerou Donald Trump “um activo russo”. Confirma-se.»


Marques Mendes defende também que o Presidente da República deve ser “experiente, preparado para evitar crises e independente”, não sendo uma “correia de transmissão” do partido.


Não ser uma “correia de transmissão” do partido surgiu-me uma dúvida filosófica: será que alguém deve demitir-se da sua ideologia enquanto político quando exerce um importante cargo público, por exemplo, como o de Presidente dum país?


Não é possível os candidatos a presidentes demitirem-se totalmente da ideologia, porque toda ação política implica valores e escolhas normativas, é possível, isso sim, suspender a identidade partidária ou suavizar a marca ideológica, apresentando-se como uma espécie de árbitro ou moderador mais ou menos pragmático. Todavia, essa suspensão é sempre parcial e provisória porque a ideologia reaparece nas decisões concretas e na perceção pública.


Prestar juramento de defender a Constituição exige dar prioridade às obrigações constitucionais acima das suas crenças pessoais ou religiosas, mas não obriga à renúncia da ideologia, mesmo que partidária, apesar dessa renúncia ser uma imposição mais de consciência do que outra.


De facto, simbolicamente, a atitude de Marques Mendes pode ser um gesto de distanciamento meramente estratégico, para se apresentar como independente ou pragmático, mas no plano prático, mesmo que rejeite rótulos, as suas decisões continuarão a refletir valores, prioridades e visões do mundo que são em si mesmos ideológicos. Cargos como o de Presidente da República exigem imparcialidade formal, mas não anulam a bagagem ideológica de quem ocupa o lugar.


Assim, a declaração de Marques Mendes de que não será correia de transmissão do partido não fazer mudar a posição dos eleitores visto que estes projetam expectativas ideológicas sobre qualquer candidato, mesmo que este se declare acima das ideologias. Também não é possível demitir-se totalmente do que defende em teores políticos visto que toda a ação política implica valores e opções que, de certo modo, são de carácter ideológico.


Isto ocorre quando a adesão dogmática à ideologia entra em conflito com o dever de servir a nação e o país, com a evidência empírica dos factos e com a racionalidade do indivíduo. O que pode estar em causa é a distinção entre oportunismo de mudança para benefício próprio e uma reavaliação de colocar acima de tudo mudança para servir o país.


A fim de melhorar as suas hipóteses de eleição e para manter a sua influência os políticos, e Marques Mendes é um deles, estão plenamente cientes de sua viabilidade eleitoral e podem modificar as suas posições para se alinhar com as mudanças no sentimento público e perceção dos eleitores fazendo por mostrar que o dever para com o bem comum deve sobrepõe-se à lealdade ideológica. Mas os eleitores que votam num determinado partido irão também votar num candidato a Presidente da República do qual conhecem o seu pensamento em termos partidário-ideológico.  Todos os candidatos a presidentes aquele que ganhar e for empossado tenta procurar distinguir-se do seu anterior e afirmar-se autonomamente perante a opinião pública, mas nem sempre é assim.


Marques Mendes será uma espécie de Marcelo mais contido, mais reflexivo, mas não deixará de ser mais do mesmo porque o “vício” do comentário televisivo não desaparece facilmente defendendo o que a sua consciência partidária lhe ditar. Se não o fizer será para si uma contrariedade como o foi a de Cavaco ao tempo em que aceitou uma “geringonça”.  


Cavaco Silva não aprovava a geringonça porque a considerava uma solução inédita, arriscada e pouco credível, tanto interna como externamente. Aceitou-a apenas por não ver alternativa viável, entre um governo de gestão ou a nomeação de Costa, e procurou reduzir os riscos impondo condições formais.

sexta-feira, 16 de maio de 2025

Os eleitores a transparência e consciência política

 


Montenegro Transparência.png


Mas há uma coisa estranha: o que levará eleitores a escolher líderes com  suspeita de pouca transparência nos seus negócios  e a votar na AD de Luís Montenegro. É um fenómeno intrigante: eleitores que, mesmo diante de suspeitas públicas sobre a falta de transparência de determinados partidos ou líderes políticos, como é o caso de Luís Montenegro que provocou instabilidade política com receio de um inquérito parlamentar, mas continua a tendência de ser apoiado nas urnas. Qual é a ética desses eleitores  Esta realidade levanta questões sobre os fatores que influenciam o comportamento eleitoral e os limites da moralidade política na prática cotidiana. Faz lembrar que o "quem não se sente não é filho de boa gente".


Não, esta não é uma apologia ao voto no CHEGA, nem pretende desviar o sentido de voto para este partido cujo programa, mesmo que bem espremido, já não deita nada.

quarta-feira, 16 de abril de 2025

Os saldos, as promoções e as ofertas da AD e de Montenegro

Montenegro e Miranda fazem promoções.png


O que é que os saldos e as promoções têm a ver com a política e com o Governo do país. Feita esta pergunta a alguém e até mesmo a especialistas a resposta seria óbvia: - Nada!


No entanto, agora que os partidos estão em campanha eleitoral talvez tenha. Comecemos por definir conceitos. Saldos são mercadorias ou até serviços que são postos à venda a um preço inferior ao normal. Quanto a promoções já podemos dar-lhe uma outra nuance. Uma promoção de vendas é uma estratégia de marketing em que uma empresa, neste caso um partido, usará campanhas de curto prazo para despertar o interesse dos clientes, os eleitores, e criar procura, os votos.


Sendo o marketing o processo de levar um produto a determinado público o que envolve analisar as necessidades dos consumidores, neste caso os eleitores, com os produtos dos concorrentes. Assim, há estratégias e técnicas que ajudam a comunicar um produto ao público, neste caso um partido político, com o objetivo de o apresentar, aumentar a procura e a diferenciá-lo de outro.


Ora, é isso que o Governo e a AD têm feito e continuam a fazer, a propaganda mais descarada, para tornar o seu “produto” mais competitivo com o do seu opositor mais concorrencial. Aliás a AD utiliza o Governo em gestão para a promover. Montenegro nos debates não apresenta o que pretende fazer ou melhorar o que já fez, apenas faz propaganda do que diz já fez, mas que afinal era o que tinha prometido, mas não fez.


O PS apresentou no início da semana passada o seu programa eleitoral, esta semana foi a vez da AD apresentar o seu. Vejam-se os pontos essências segundo a comunicação social.


“AD quer salário mínimo de 1100 euros, CSI nos 870; e já só baixa IRC para 17%. “IRS com bandeira de corte de 2000 milhões. Promessas de aumento de salários e pensões são muito parecidas com as do PS. Montenegro suaviza redução do IRC e quer contratualizar 12 mil vagas nas creches”, escreve o Público. É uma campanha promocional e uma aposta forte no bolso onde os eleitores sentem mais.


É o ver quem dá mais ofertas para ganhar votos. Já lá vai o tempo em que a cidade de Gondomar foi capa de vários jornais pelo facto de Valentim Loureiro ganhar votos para a presidência da câmara oferecendo eletrodomésticos aos habitantes. Agora arem-se os cordões à bolsa custo o que custar depois se verá. Montenegro terá sempre um escudo se tudo falhar, é a crise internacional que o obrigará a uma austeridade.


O programa eleitoral da AD tem uma falha uma espécie de “bug” informático. Especialistas de todo o mundo alertam que o cenário macroeconómico é marcado por uma “forte incerteza” e especifiquem que uma delas resulta da “possibilidade de medidas protecionistas, com impacto no comércio internacional, na inflação e na atividade económica", a AD parece não assumir potenciais consequências.


Escreveu Marta Oliveira no jornal Público que “A previsão para o PIB não revela incorporar qualquer impacto da guerra comercial e é mais optimista que outras. Se a economia mundial encolher, qual das medidas incluídas no programa cai? O alívio do IRS, avaliado numa perda de receita de 500 milhões de euros, segue, aconteça o que acontecer? A dúvida é tanto maior quanto a garantia de que com Montenegro não haverá défices.” E acrescenta que, “No entanto, também não se lê que medidas dos socialistas ficariam pelo caminho se o cenário passar a ser real. O IVA zero para um cabaz de produtos mantém-se, aconteça o que acontecer?”. Questiona Marta Oliveira.


 

terça-feira, 25 de março de 2025

Tribalismo partidário, política e falta de ética

Tribalismo partidário.png


A bandeira da corrupção e da falta de ética de alguns políticos parece não ser suficiente para convencer o eleitorado, como se verificou na Região Autónoma da Madeira.


Senão vejamos:


“O presidente do Governo Regional da Madeira, Miguel Albuquerque, foi constituído arguido esta quarta-feira, na sequência de buscas realizadas na sede do executivo madeirense. Em causa está uma megaoperação, levada a cabo pelo Ministério Público e pela Polícia Judiciária…” (Jornal de Negócios, 24/01/2024).


 “Albuquerque indiciado de oito crimes, incluindo corrupção ativa e passiva. O rol inclui ainda prevaricação, recebimento indevido de vantagem, tráfico de influência, participação económica em negócio, abuso de poder e atentado contra o Estado de direito.” (Público, 26/01/2024).


“Miguel Albuquerque é arguido por suspeitas de corrupção, prevaricação e abuso de poder no caso em que o Ministério Público e a Polícia Judiciária investigam uma alegada teia de favores entre membros do Governo Regional da Madeira (GRM), da Câmara do Funchal e empresários do grupo de construção AFA”. (Expresso, 01/03/2024).


“As suspeitas de corrupção na Madeira envolvem o círculo próximo do presidente do Governo Regional e o PSD. Um dos arguidos é o secretário-geral do partido. A Polícia Judiciária também deteve um ex-secretário regional da Agricultura dos governos de Miguel Albuquerque.” (RTP, 18/09/2024)


“Madeira. Uma década de governação do PSD sob suspeita. Investigação do DCIAP abrange os dez anos de governação Albuquerque. Há já nove arguidos nos três principais processos. PSD-M vai a votos com quatro arguidos.”. “A governação de Albuquerque envolvendo “autarcas, empresários, funcionários públicos, titulares de cargos políticos e de altos cargos públicos”, “obras inventadas”, “secretarias regionais e direções regionais”; “favores”, “pressões”, “financiamentos partidários” e “criminalidade altamente organizada” – que vai ser sufragada nas Eleições Regionais de domingo.” (DN, 16/03/2025).


Ficamos por aqui porque nada disto tem a ver com o caso de Luís Montenegro. O caso de Montenegro é diferente, ainda estará muita coisa por conhecer. Mas há os que o defendem, sem ainda terem todos os dados e informações imprescindíveis e necessários, donde, culpar ou isentar o primeiro-ministro antes de tempo é prematuro. Há que apurar, investigar e, só após tirar conclusões, se houver sobre ele as imputações de que o acusam. Deve haver transparência, mas, como tal, não podemos entrar em defesa de um lado e em acusações do outro apenas com informações que saem aos poucos porque, se assim for, entramos naquilo que podemos designar por tribalização partidária.


O tribalismo partidário ou político que é a tendência para ver o seu grupo partidário de forma mais favorável do que o dos outros tornou-se uma característica central do discurso político contemporâneo que tem como consequência a polarização política. A tendência das pessoas que se identificam como sendo de um partido e verem os do seu partido positivamente e as dos outros negativamente pode ser vista como tendência tribalista.


O tribalismo partidário na política verifica-se quando há a tendência para que pessoas ao identificarem-se com um partido político, serem levadas a agruparem-se em “tribos” político-partidárias que defendem as suas crenças e ideologias com zelo exagerado, desconsiderando e atacando, em prejuízo da razão e do diálogo, opiniões opostas quando outras pessoas defendem pontos de vista diferentes.


O tribalismo partidário está alinhado com o sectarismo partidário que se manifesta de maneira intensa entre os militantes e simpatizantes nos diferentes partidos políticos, especialmente quando se trata de criticar os próprios líderes. Esta dinâmica revela uma profunda divisão ideológica e uma lealdade exacerbada que, muitas vezes, ofusca a capacidade de análise crítica, levando à polarização que parece incluir antipatia pessoal e desconfiança em relação a outro partido. Os membros de um partido político veem os seus oponentes como hipócritas e de mente fechada.


Esta espécie de tribalismo tem vindo a crescer há algum tempo nos partidos políticos sempre que são postos em causa os seus líderes, ministros, deputados, militantes e simpatizantes, mesmo perante as evidências de quaisquer ilegalidades cometidas e mesmo quando já estão na justiça.


No caso que envolve o primeiro-ministro Luís Montenegro e a sua empresa e as eventuais ou “fortuitas” avenças que ele terá recebido, pelo que se tem verificado parece-me existir um tribalismo partidário. Até agora tudo são suspeições, algumas podem até ser fundamentadas, mas ainda estão por provar. Entre os vários partidos, uns atacam, outros defendem até à exaustão e, entre estes, uns estão na oposição os outros pertencem aos partidos no poder.


Veja-se o caso da AD (PSD e CDS-PP) cujos militantes e simpatizantes têm feito um cerco defensivo à volta de Luís Montenegro para lhe salvar a imagem. Há uma tendência para que militantes, simpatizantes e potenciais eleitores num partido, mas também comentadores e articulistas de opinião defendam (ou ataquem, consoante os casos) os líderes ou outros elementos do partido com que simpatizam, mesmo em situações relacionadas com a falta de ética ou outras já no domínio de acusação. Tal atitude pode ser vista como reflexo de uma crise interna porque a defesa cega de ideais partidários choca com a necessidade de responsabilidade e transparência.


Quando os indivíduos se sentem fortemente alinhados com um grupo, neste caso um partido político, podem estar dispostos a justificar comportamentos antiéticos ou ouros em nome da lealdade ao grupo ou ao líder partidário, incluindo difamação de adversários políticos, corrupção acompanhados pela disseminação de desinformação que é uma tática comum no tribalismo político-partidário. Líderes e militantes e até simpatizantes partidários podem espalhar informações falsas, ambíguas ou enganosas para desacreditar adversários a fim de manipularem a opinião pública.


Veja-se o caso de partidos populistas radicais de direita como o partido CHEGA que tem amplificado o caso à volta de Luís Montenegro com desinformação levada ao extremo de colocação de cartazes a que posem ser associadas falsas comparações.


Ao contrário da defesa das instituições e de ser contra a corrupção André Ventura apregoa ele, com a sua prática, mina a confiança nas instituições democráticas e dificulta o debate público informado e racional. É um caso específico de tribalismo partidário. O cartaz apresenta uma mensagem cuja conotação que podemos associar a que há que acabar com a democracia porque são 50 anos de corrupção.


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Algo, no entanto, deve ficar claro, por muito que os seus correligionários fora ou dentro do seu partido, é que não existe democracia liberal sem partidos políticos, o resto é demagogia populista.


O tribalismo partidário é mais evidente nas ditaduras e nas autocracias, mas também é verificado nas democracias liberais onde a lealdade ao partido se torna mais importante do que a ética ou a procura de justiça, sobretudo quando algum elemento partidário ou líder corrompe, infringe e transgride colocando em segundo lugar a procura por soluções eficazes para os problemas sociais e económicos. Contudo, também se observa em ditaduras, mesmo em contextos onde há eleições em que pode haver opositores, mas isso é, frequentemente, uma fachada para manter o controle do partido dominante. Essas eleições são muitas vezes manipuladas para criar uma aparência de legitimidade democrática, enquanto o poder permanece concentrado.


O tribalismo político-partidário pode ter várias consequências negativas para a sociedade. Entre as quais a polarização resultante que tende a criar um ambiente de “nós contra eles”, princípio que parece orientar o partido CHEGA de André Ventura. A polarização dificulta a cooperação e torna difícil o compromisso e decisões importantes não são tomadas devido à falta de consenso.


A corrupção é outra consequência frequente do tribalismo político-partidário. Quando a lealdade ao grupo é mais importante do que a ética, os líderes podem envolver-se em práticas corruptas para beneficiar-se a si e aos seus aliados. O nepotismo, onde posições de poder são dadas a amigos e familiares, é uma manifestação comum deste tipo de comportamento.


Especialmente quando não existem maiorias e os consensos são necessários e em fases pré-eleitorais quando os líderes políticos se envolvem em comportamentos antiéticos e promovem a desinformação, a confiança pública nas instituições políticas e democráticas é erodida, o que pode levar a um sentimento de apatia entre os cidadãos, que menosprezam a capacidade do sistema político os representar de maneira justa e eficaz levando a abstenções elevadas.

sábado, 7 de dezembro de 2024

Impulso e tentação para atribuição de culpa a outros



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Há uma frase interessante na série animada dos Simpsons, no episódio número 7 de 1989 cujo título é “Marge Gets a Job” onde podemos ver e ouvir Homer a dizer à Marge: “Se fizeres algo errado na fábrica da central nuclear, culpa o ‘gajo’ que não fala inglês”.


Quando emitimos opiniões contrárias ou fazemos críticas em relação a opções tomadas por um determinado governo é porque estamos a virar para a direita, para a extrema-direita ou para a direita radical conservadora. No caso inverso é porque estamos a virar para a extrema-esquerda ou para a esquerda radical.


Em síntese, concordo com soft direitinha Maria João Marques quando escreve que “se se desalinhar dos mantras da esquerda, já se está na extrema-direita; se se mencionar um problema ao qual o Chega devote atenção, está-se a sucumbir à extrema-direita.”


Quando, por exemplo, alguém emite uma crítica sobre opções ou práticas governativas do partido que está no poder é comum os votantes, simpatizantes e militantes dizerem que tudo está a correr bem e até muito melhor do que durante o governo anterior. E do que está mal a culpa é também do governo anterior.


No confronto político partidário há sempre discordâncias nos princípios e nas orientações das políticas e opções governativas garantidas por preferências ideológicas e partidárias, sejam elas mais à direita, mais à esquerda ou mais ou centro.


Há um impulso para os políticos e os seus adeptos partidários que sobrevive nas suas mentes que é a tentação de atribuir a culpa a outro ou a outros, normalmente a partidos que estiveram no poder. Esta tentação de atribuir a culpa a outro ou a outros acontece não acontece apenas entre políticos, acontece também tanto na vida privada como na vida coletiva.


Quando é manifesta a incapacidade dum governo surgem da parte de alguns comentadores e artigos de opinião da área desse executivo as mais diversas desculpas tais como está há pouco tempo a governar; as coisas vieram tão mal do anterior governo que ainda não foi possível melhorar; a oposição não os deixa governar, etc. Por vezes assim é, mas a desculpabilização das incapacidades governativas pelo que os anteriores fizerem ou deixaram de fazer é o pretexto mais comum.


Lembremo-nos da altura em que foi proferida frase «Deixem-me trabalhar!» e outra de que a oposição eram «forças de bloqueio». Ainda recentemente, em setembro do corrente, Pedro Duarte do PSD pedia no parlamento «Deixem-nos continuar a governar».


Quando surgem críticas a ministros(as) pelas decisões tomadas ou pela desorganização dos serviços que dependem dos seus ministérios, como o é nomeadamente a saúde, as justificações surgem de imediato com vozes que se libertam como se de um clube de futebol se tratasse que culpabilizam o árbitro pelo mau desempenho do jogo e com a desfaçatez de insistirem na defesa e insistência do que claramente são opções erradas.


As contradições entre o que foi prometido durante a campanha eleitoral são evidentes e a desculpa para tal repete-se: ainda não tivemos tempo, só cá estamos há 9 meses. Na campanha dizia-se que, o que estava mal, claro, por culpa do governo anterior seria resolvida nos primeiros meses. Só que, nesses mais de 9 meses muitas decisões precipitadas fizeram com que as coisas piorassem, mais ainda do que durante o governo anterior, especialmente no domínio do Serviço Nacional de Saúde. Para o lado da ministra Ana Paula Martins, o caso está agreste porque preferiu compadrios e clientelas ao saber e à competência.


Mas esses obstinados não se ficam por aqui quando as coisas não se circunscrevem ao pensamento defensivo do seu clubismo ideológico e partidário, e perante o escrutínio da comunicação social, recuperam os argumentos do costume contra os media e os jornalistas. Quando a comunicação social não corresponde às suas expectativas o jornalismo, os jornais e os jornalistas são todos de esquerda, ou são todos de direita conforme os casos e o partido que está no poder. Estes são os princípios e os argumentos duma visão única em que a razão está apenas dum lado. Claro que algumas dessas críticas poderão ter algum fundamento, mas não devemos generalizar. Geram-se atitudes maniqueístas em que só a direita, ou só a esquerda, é que estão certos. Quem não esteja no âmbito das suas perspetivas e expectativas estão errados. Acham que ideológica e politicamente estão na posse da verdade absoluta e indiscutível.


Há uma espécie de dissonância cognitiva em política, isto é, a existência dum conflito entre crenças e opiniões políticas e as ações efetuadas ou decisões tomadas o que pode gerar desconforto mental e levar a pessoa a justificar ou a racionalizar as suas ações para reduzir a dissonância. Igualmente verifica-se quando se apoia um candidato ou um governo que, posteriormente, toma decisões contrárias às suas promessas de campanha. É ainda um fenómeno comum em debates políticos, onde argumentos contraditórios podem levar os participantes a reavaliar as suas posições e, eventualmente, a mudar de opinião.



 

 

sábado, 12 de outubro de 2024

Ler o que outros escrevem

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Os comentários e opiniões que nos chegam pelos vários órgãos de comunicação social acerca da política são tantos e tão diversos que, por vezes, conseguem confundir mesmo os mais atentos, conhecedores e atualizados. Quantas vezes os que emitem opiniões e fazem comentários entram também em contradições. Não será o caso dos quais vou hoje fazer algumas citações.
As citações que hoje selecionei podem não corresponder à minha opinião, nem tão pouco que com elas esteja de acordo. Cada um tirará as conclusões que achar deva tirar. Essas citações são apenas exemplos de pontos de vista político que circulam por aí e achei importante que se reflita sobre elas.


A. …”o país está há seis meses mergulhado num jogo de sombras. O Governo finge governar distribuindo as mais variadas prebendas aos mais diversos grupos de interesse, uns mais legítimos do que outros. A oposição esquece-se de todas as suas linhas vermelhas para formar maiorias contranatura no Parlamento, exatamente com o mesmo fim. O propósito de uns e outros é claríssimo: todos temem uma crise política, todos fazem por estar nas melhores condições possíveis quando ela chegar.”
Pedro Norton, 1 de outubro de 2024, Jornal Público


B. … “sou capaz de acompanhar Pedro Nuno Santos no seu ceticismo e reservas profundas quanto ao IRS Jovem. A medida é, não apenas muitíssimo pesada do ponto de vista financeiro (ide ouvir o Conselho das Finanças Públicas), mas é sobretudo de uma eficácia mais do que duvidosa (prestai ainda atenção ao FMI). O próprio PSD parece, aliás, tê-lo já percebido. Foi, afinal, o próprio Hugo Soares que, num assomo de surpreendente candura, sublinhou, num debate na semana passada, o caráter absolutamente experimental da proposta. Só esta confissão dava, de resto, um tratado sobre a irresponsabilidade no desenho das políticas públicas. Mas há mais. Como se tudo isto não bastasse, têm-se ainda levantado dúvidas razoáveis sobre a constitucionalidade da medida e, no plano da equidade e da justiça relativa, parece mesmo muitíssimo problemático fazer da idade um fator determinante do esforço fiscal de cada contribuinte.”
Pedro Norton, 1 de outubro de 2024, in Jornal Público


C. “Lisboa insalubre
Acresce que muitos dos ecopontos são na realidade meros múltiplos de contentores de lixo indiferenciado que, portanto, estão sistematicamente imundos e por conseguinte atraem nuvens de varejeiras o que obriga os residentes nos apartamentos circundantes a manter as janelas permanentemente fechadas para que elas não entrem nas suas cozinhas e casas de jantar.”


D. “Eu tenho a certeza que, todos os que aqui estão, estão a sentir como eu estou a sentir, que o país nos está a escapar das mãos. Estamos a perder o controlo das nossas ruas, das nossas cidades, vilas e aldeias. Estamos a perder o controlo das terras que eram nossas”.
“Nos últimos anos, a nossa estratégia não foi receber bem. A nossa estratégia foi a de receber toda a gente e de qualquer maneira”.
André Ventura, 2 de outubro de 2024, in Diário de Notícias


E. O líder da comunidade, Rana Taslim Uddin, que vive em Portugal desde os anos 1990, contou que muitos bengalis lhe telefonaram, preocupados, e que ele respondeu a todos o mesmo: “Não se preocupem, não tenham medo. O André Ventura e o 1143 escolheram esta palavra sensível, imigrante, porque sabem que é uma palavra que dá votos. É só isso. Disse-lhes que um dia, se calhar, o André Ventura vai para o Governo, mas que não faz mal, nós vamos continuar cá, investimos muito em Portugal e Portugal precisa de nós. O dr. Marques Mendes explicou isso na televisão. Vivemos aqui com as nossas famílias, comprámos casas, lojas, temos os nossos negócios, pagamos os nossos impostos, esta é a nossa terra.”
Bárbara Reis, 5 de outubro de 2024, in Público


F. “Entretanto, todos avistaram de repente e perceberam um drama que se desenha no horizonte: o PRR, o famoso Plano de Recuperação e Resiliência, com mundos e fundos indispensáveis para a economia e a administração pública, está pelas ruas da amargura, com pouco uso e mau proveito, um dos piores registos da Europa. Com nova crise de governo e novas eleições, esta espécie de desastre seria uma calamidade. Presidente, Governo e partidos perceberam que sobre eles se abateria um justo e furioso vendaval. E de nada serve passar culpas: todos serão condenados.”
António Barreto, 5 de outubro de 2024, in Público


G. “… o Conselho de Ministros, nos momentos em que não se entretém a explorar novas possibilidades para a Legística, aprovando PowerPoints, foi aproveitando o Orçamento anteriormente apelidado de "Pipi" para aumentar a despesa, sempre que as reivindicações eram suficientemente ruidosas. Enquanto o Parlamento ia contribuindo para a festa despesista, prolongou-se uma negociação fastidiosa: umas vezes com recuos do executivo, outras com linhas vermelhas do PS, e, já no prolongamento, com piruetas irrevogáveis de Ventura.
…………………………………………………………
Na verdade, em si, aumentar despesa e reduzir impostos não é um problema. Individualmente, aliás, é o que todos desejamos e, coletivamente, é o que deve acontecer em períodos de arrefecimento económico, quando as políticas públicas devem estabilizar a economia, à custa dos equilíbrios orçamentais. Só que não é este o momento: estamos perante um comportamento pró-cíclico – ou seja, a generosidade orçamental acontece num contexto economicamente favorável, com o emprego em alta, a inflação em queda acentuada e os salários reais a crescerem. E o problema está mesmo na incerteza do futuro próximo, marcado por muitos riscos na envolvente externa (as previsões apontam para um recuo do contributo das exportações para o produto).”
Pedro Adão e Silva, 10 de outubro de 2024, in Público



H. “O Orçamento do Estado para 2025 ontem apresentado é politicamente uma proposta com bola ao centro, destinado a ser viabilizado por uma ampla maioria de AD e PS. Os sinais do Governo são inequívocos, prefere negociar com Pedro Nuno Santos do que com André Ventura, a quem ostraciza, mas Luís Montenegro já percebeu que em caso de emergência e mesmo que o líder do Chega diga pior da proposta orçamental do que um maometano diz do toucinho, o Chega acabaria por dar o sim, mesmo sem negociar.
Não há grandes novidades e nem pode haver, porque a máquina do Estado e os compromissos assumidos deixam pouca margem. E este fardo perdurará e até se agravará nos próximos anos. O peso da dívida no PIB baixa e os juros tenderão a aliviar em 2025, mas os juros da dívida pública ainda constituem um grande ‘ministério’ que os contribuintes pagam. Mas o principal sinal de alerta é a subida da despesa: num cenário de desaceleração económica, que é provável por causa da estagnação alemã e da fragilidade financeira francesa. Há riscos para a gestão das contas públicas.”
Armando Esteves Pereira, 11 de outubro de 2024, in CM



I. “Isto é, apesar da imagem de desorientação e de falta de estratégia negocial para o Orçamento do Estado, Pedro Nuno Santos pode continuar a ser líder. Para isso também contribui – e muito – o facto de o PS estar a começar o percurso de oposição, depois de ter sido governo oito anos. Seja com Pedro Nuno Santos, seja com líderes seguintes, o PS terá ainda de fazer uma travessia pela oposição, em que terá de se renovar e reconstruir. Os governos de António Costa concretizaram o final de um ciclo partidário do PS iniciado por António Guterres, líder que, a partir de 1992, mudou substancialmente o PS do ponto de vista programático e até organizativo.
A missão que a direção do PS – este secretário-geral ou outro que se lhe siga – tem pela frente é árdua e longa. Daí que seja importante que Pedro Nuno Santos ganhe uma linha de rumo e acerte o passo para a ciclópica tarefa que tem pela frente. É urgente que o PS assuma uma posição e acabe com a desorientação perante o Orçamento, que a direção se concentre em preparar as autárquicas e que sejam, finalmente, lançados os novos Estados Gerais, que serão a chave para a retoma da ligação entre o PS e a sociedade, bem como um meio de ser estabelecidos novos desafios e linhas programáticas.”


São José Almeida, 21 de outubro de 2024, in Público


J. “Não, senhor primeiro-ministro. O problema maior do jornalismo português não está nos editores que sopram perguntas aos ouvidos dos jornalistas. Está nos políticos que sopram notícias aos ouvidos de directores de publicações falidas, com accionistas misteriosos, que sobrevivem como zombies há décadas – e agora, para mal dos nossos pecados, com ajudas generosas do Estado. São esses os auriculares que me preocupam. São essas as mensagens de telemóvel que nos deveriam inquietar.”
João Miguel tavares, 21 de outubro de 2024, in Público

terça-feira, 8 de outubro de 2024

Está em andamento a pesca aos votos

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Todos sabemos que os partidos políticos pretendem, nas circunstâncias que se proporcionem, influenciar os eleitores para recolherem o máximo de votos possíveis. Faz parte das democracias. Utilizam os meios ao dispor para atrair o voto. Para tal o Governo AD tem cedido às reivindicações da maior parte das organizações profissionais, quer do setor privado, quer do setor público seguindo a estratégia de colocar dinheiro em cima das reivindicações sociais e profissionais que se tornem incomodativos. Isto não significa que que não houvesse justeza nas reivindicações.


Quando se aproximam eleições a atividade e as estratégias desenvolvidas pelos partidos entram em efervescência com muita antecedência, quer seja para a manutenção do poder, quer seja para aumentar a sua força negocial, quer seja, ainda, para alcançar o poder.


No momento atual é o OE que serve para a manutenção do poder dado a força parlamentar que apoia o Governo ser ténue e só com negociações e alianças o conseguirá.


Mas outras eleições se aproximam, as autárquicas de 2025 que poderão decidir a continuação, ou não, do Governo AD (PSD e CDS).


Imigrantes e jovens estão na moda e os segundos são um eleitorado alvo apetecível. A maior parte dos partidos fazem entrar nos seus discursos a palavra jovens. Prometem-lhes tudo. Para ficarem e para regressarem, prometem-lhes benesses como o IRS jovem, habitação, transportes, baratos, etc.


O Governo distribui pelos mais variados rendimentos e aos mais diversos grupos de interesse, uns mais legítimos do que outros, para fingir que está a governar.


No dia 5 de outubro, dia das comemorações da Implantação da República, serviu para o Presidente da Câmara de Lisboa fazer também sua propaganda. Anuncia com pompa e circunstância a retirada do espaço da Igreja do Anjos na Av. Almirante Reis dos Sem-abrigo que há anos ali se instalaram. Estes Sem-abrigo foram retirados da zona da Igreja dos Anjos e hospedados em hostels por “tempo indeterminado” a custas dos impostos autárquicos. Este tipo de campanhas de autopromoção não resolve o problema.  Tratou-se apenas duma operação cosmética muito específica no tempo e no espaço. Os que dizem que Portugal precisa ainda mais de imigrantes poderia ver nestes Sem-abrigo uma percentagem significativa de imigrantes que perderam o emprego, não conseguem trabalho ou não têm salário que lhes possibilite pagar um teto para dormir.  


Para os partidos os imigrantes e os jovens estão agora no centro da política e os segundos são um eleitorado alvo apetecível. A maior parte dos partidos têm nos seus discursos a incidência da palavra jovens. Prometem-lhes tudo: habitação, transportes, baratos, e mais um manancial. O IRS jovem é uma bandeira da AD cuja eficácia é fortemente duvidosa conforme alegam vários organismos nacionais e internacionais para além de beneficiar filhos de classe mais altas que darão o nome para a compra para usufruir desta medida e depois fazerem negócios de sublocação ou de aluguer de quartos.


Segundo uma sondagem da RTP mais de metade dos jovens portugueses dos 18 aos 35 anos pensa sair do país. Não é certo que o IRS jovem conseguisse resolver o problema já que esta sondagem de opinião conclui também que os jovens querem carreiras profissionais que permitam ter tempo livre, e conciliar com a vida familiar assim como salários elevados.


Escrevi em março do ano corrente no blogue “A Propósito de Tudo” que “os pais e avós destas gerações não tiveram a vida nada facilitada. Tinham de trabalhar para pagar a habitação a alimentação e a educação dos filhos e em alguns casos até a deles próprios. Não tinham acesso à cultura nem a espetáculos porque o salário era muitas vezes contado para as despesas obrigatórias e os passeios e férias eram condicionados pela disponibilidade financeira.”  “O que vemos nas últimas décadas, sobretudo na época de primavera verão é a organização de concertos por todo país cujos espaços se esgotam e onde há consumo desenfreado de álcool (diga-se que é mais de cerveja), para já não falar das discotecas, restaurantes onde jovens consumem álcool à discrição com dinheiro grande parte das vezes abonados pelos pais.”


Também Filipa Roseta, vereadora da Câmara Municipal de Lisboa escreveu um artigo dito de opinião que o Público aceitou, mas que não é mais do que uma espécie de folheto propagandístico duma qualquer empresa de construção. É uma vulgar propaganda promocional do atual Presidente Carlos Moedas.  Publicado como artigo de opinião, não me pareceu que tal o seja visto que, segundo os mais diversos artigos de investigação em comunicação jornalística é artigo de opinião é um texto dissertativo-argumentativo em que o autor expressa as suas perspetivas e argumentos sobre um tema específico seguido de um desenvolvimento cuja argumentação é construída, culminando numa conclusão que resume a posição do autor e, por vezes, sugere soluções ou apela à ação. Não é o caso. Este artigo é um enumerar de dados estatísticos para preparara as eleições autárquicas do próximo ano.

sexta-feira, 27 de setembro de 2024

A propaganda do diz que faz, promete, mas não faz

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Após um longo interregno de verão aqui estamos novamente com uma linguagem que todos percebam embora com opiniões com que todos concordem, mas é isso que se pretende, deste vez sobre o Governo e a sua impetuosa propaganda.


O senhor primeiro-ministro Luís Montenegro julga que os portugueses são estúpidos, mas não são. No encerramento da universidade de verão do PSD disse que não ser verdade que as medidas que o Governo tem tomado são eleitoralistas, mas que não são, porque as eleições são só daqui a quatro anos. Frase de Montenegro: “As eleições são só daqui a quatro anos”. É uma tentativa de desviar as atenções da realidade pois ele sabe muito bem, e nós também, que vai haver eleições autárquicas em 2025, importantes para o PSD, e, como tal, a estratégia eleitoralista é evidente. Aliás, a propaganda do Governo em várias frentes está em marcha é a única medida do Governo que funciona.


Em abril de 2023    José Gomes Ferreira e Bernardo Ferrão, esses partidários e vozes do dono da SIC consideravam o Executivo do então o primeiro-ministro António Costa de ter uma “máquina de propaganda”.


O que faz agora Luís Montenegro é o mesmo, mas mais primor. O que hoje observamos é a utilização exaustiva de redes sociais com sucessivos vídeos onde se passam mensagens e discursos de Luís Montenegro e de outros ministros. Os “briefings” com a comunicação social onde se gastam exaustivas e cansativas horas de apresentação de medidas do Governo pelo cansativo e monótono Ministro da Presidência Leitão Amaro, digo, ministro da propaganda, acompanhadas com visualizações em PowerPoint.


O Governo AD não conseguindo nem sabendo lidar com manifestações e contestações sociais e profissionais a única coisa que sabe é “oferecer” dinheiro para calar quem contesta e reclama independentemente das razões justas, ou não, que lhes assistam.


Os graves incêndios verificados em setembro que destruíram bens e vitimaram pessoas têm servido, também, para dar visibilidade à propaganda com iniciativas e promessas de reconstrução dos imóveis ou sua reparação e dos bens destruídos com a rapidez necessária e desejável, mas sem o controle que se impõe, face a potenciais abusos, pois as eleições autárquicas aproximam-se rapidamente.


Outra manobra de propaganda é o anúncio do Governo do plano para os media. Vamos ver o que aí vem. Uma medida de apoio governamental destinado aos media foi tentada pelo anterior Governo socialista que foi contestada por vários órgãos de comunicação social, entre eles o Observador que rejeitou, na altura, o apoio governamental concedido ao abrigo de programa destinado aos media.


 Um dos pilares em que assenta o plano para os media do Governo de Montenegro prende-se com “incentivos ao jornalismo e aos jornalistas, que é uma profissão que está em risco” e, finalmente, o outro pilar relaciona-se com o “combate à desinformação e com a literacia mediática”. Este é o que me parece ser o único que não pretende veicular os media aos interesses do Estado.


Recorde-se que na conferência dos 136 anos do Jornal de Notícias Luís Montenegro afirmou, sobre o plano de ação para os media, algo que me parece ser perigoso por se antever alguma influência do Estado nos media ao admitir financiamento público para a comunicação social. Afirmou ser “possível haver algum financiamento público” para a comunicação social, argumentando que “aqueles que cumprem serviço público naturalmente que devem esperar do Estado o reconhecimento do serviço que prestam”. Não será que isso pode conduzir no futuro ao “yes man” do media aos governos em exercício?


O caso da saúde é um caso típico de precipitações e incompetência da ministra na execução do que promete e na resolução dos problemas do SNS. Até há quem esteja a pedir que Governo tem de considerar demitir a ministra da Saúde para manter o SNS.


Distribuir dinheiro por todo o lado é a forma de fazer calar protestos sobre o que está a ser mal feito e o que não está a ser feito.


O caso do IRS jovem dirigido em proveito dos mais favorecidos é um caso que tem dado que falar e de disputas partidárias. Alguns partidos como a Iniciativa Liberal considera discriminatório. Também o FMI avalia como arriscado e sem garantias de servir para travar a emigração qualificada, havendo até quem sugira que a proposta é inconstitucional.


Outros partidos argumentam ainda que se opõem a esta medida, que é injusta porque não se aplica a 75% dos jovens que recebem mil euros. Aplica-se a quem ganha muito e deixa de fora a grande maioria das pessoas que ganham salários reais em Portugal, que são 1.000, 1.500 euros.


Enfim, há um anseio deste Governo e dos seus elementos para mostrar iniciativas e fazer promessas a executar rapidamente. Em todos os sentidos há mais uma imposição para a procura de divulgar publicamente o que fazem do que em mostrar o que já fizeram com resultados positivos.

sexta-feira, 7 de junho de 2024

Os jovens o jornalismo e a política

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A juventude pode significar muitas das vezes um pensamento conservador e antiquado embora com pretensões de mostrar uma grande abertura de pensamento. Há um exercício mental que se pode fazer: imaginar, por exemplo, Sebastião Bugalho como primeiro-ministro no lugar de Luís Montenegro. A juventude em certos cargos, que não seja a mera emissão de opiniões e comentários que por serem por vezes polémicos podem demonstrar um pensamento desarticulado com a realidade e, tanto pode ser um pensamento antiquado ou, então demasiado atrevido e progressista em alguns pontos fraturantes.


Por várias vezes tenho escrito aqui sobre a influência dos media televisivos na política partidária com a proliferação de opiniões e comentadores na política portuguesa e como tentam tomar posições ideológico-partidárias de favorecimento a partidos especialmente de direita. Conhece-se a promiscuidade entre a política e o sector privado assim como entre a política partidária e o comentário político. Chegou-se agora a uma dimensão inédita: a transição do jornalismo de comentário para o estrelato da política.


O caso da escolha de Sebastião Bugalho para cabeça de lista às eleições europeias é, no mínimo, intrigante e parece ser um destes casos. Sebastião Bugalho, parece ser um pecado original de caso da promiscuidade político-mediática.


Quem se dedica a ver e a ouvir comentários políticos nas televisões apercebe-se do aumento significativo do número crescente de comentadores, tendencialmente favoráveis à representação da direita, embora ligeira, no período em que houve uma maioria de esquerda no governo. Foi exceção o ano de 2016 em que o equilíbrio se encontrou favorável à esquerda e o ano 2023 que registou um maior desequilíbrio, com 37 comentadores identificados como de direita face de 25 como de esquerda.


No entanto, há dificuldade em identificar o posicionamento ideológico de alguns comentadores e opiniões devido ao acréscimo da categoria daqueles a quem é possível atribuir uma orientação política que se deve ao alargamento do número de comentadores e também ao destaque dado aos jornalistas nos espaços de opinião.


O estudo efetuado considerou a exclusão da análise programas que, sendo semanais e regulares, apresentam convidados pontuais de acordo com a temática da semana são exemplos “É Ou Não É?”, “Expresso da Meia-Noite” ou “Negócios da Semana”, assim como os segmentos de opinião dentro dos noticiários ou outros programas que são protagonizados por comentadores convidados.


Em março de 2024 foi publicado um estudo do ISCTE sobre aquela temática intitulado “Comentário político nos media 2023 Análise ao comentário político em Televisão, Rádio e Meios online em Portugal”. Nesse estudo foram excluídos os que, apesar de incidirem sobre temas da atualidade política que, quer pelo formato, quer pelo conteúdo, se afastavam do comentário político estruturado em torno da opinião pessoal do comentador.


O estudo mostra várias asserções que fazem uma análise sobre os espaços semanais de comentário político em televisão concluindo que tem aumentado de forma acelerada nos últimos anos, passando de 53 em 2016 e em 2019 para 78 em 2023.


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Esta evolução reflete uma aposta crescente neste registando um aumento de 47,2% em relação a 2016.


O Relatório MediaLab do ISCTE refe ainda que “ao longo de 8 anos de maioria à esquerda no governo o comentário político em televisão tem sido marcado por uma ligeira vantagem da representação da direita, com mais comentadores desse espectro político, com exceção do ano de 2016 em que o equilíbrio era favorável à esquerda”.


O ano 2023 é aquele que regista um maior desequilíbrio, com 37 comentadores de direita face a 25 de esquerda. O mesmo relatório mostra “O alargamento do número de comentadores tem aumentado a dificuldade em identificar o seu posicionamento político, crescendo a categoria daqueles a quem não foi possível atribuir uma orientação política seguindo os critérios definidos na metodologia. Este crescimento dos casos considerados “não identificável” politicamente nos últimos dois anos resulta sobretudo do maior protagonismo conferido aos jornalistas em espaços de opinião.”


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Fica demonstrado que a relação entre comentadores políticos, jornalistas e partidos políticos pode ter implicações significativas para a integridade dos meios de comunicação social, a perceção pública e os processos democráticos.


 


O caso de Sebastião Bugalho, lançado como cabeça de lista às eleições europeias pela AD, pode ser encaixado nestas tipologias. Bugalho destacou-se no cenário jornalístico e político de Portugal devido ao seu olhar crítico e detalhado sobre os acontecimentos contemporâneos. Formado em Comunicação Social, Bugalho começou a sua carreira em diversos meios de comunicação, incluindo jornais, canais de televisão e plataformas digitais.


A independência e objetividade dos meios de comunicação social ficam em causa quando comentadores políticos ou jornalistas participam ativamente em campanhas partidárias levantando questões sobre a sua independência e objetividade e os seus artigos podem ser tendenciosos ou carecer de análise crítica. Assim, comentadores políticos que alternam entre funções de campanha e funções mediáticas podem, inadvertidamente, contribuir para esta perceção.


Quando se foi ou é jornalista e se participa em campanhas de políticas partidárias cria-se uma perceção de conflito de interesses porque quando se é, ou foi, comentador pode dar-se prioridade às filiações pessoais ou partidárias próprias.


Interromper o seu processo de comentador para se candidatar a um cargo político e ao mesmo tempo partidário o seu retorno ao comentário fica comprometido na sua independência e objetividade. Quando os jornalistas são vistos como partidários, isso pode corroer a confiança nos meios de comunicação e o público pode questionar se os meios de comunicação são realmente imparciais. De qualquer modo não parece ser o que irá suceder a Sebastião Bugalho porque terá grandes hipóteses se vir a ser eleito como deputado europeu, mas doravante a sua independência enquanto jornalista passará a ficar comprometida. Tenha-se, contudo, em atenção que Sebastião Bugalho integrou as listas do CDS, como independente. Apesar de não ter aceitado assumir o cargo de deputado em 2021, coloca mesmo assim em causa a sua independência enquanto jornalista, ficando na posição do comentador partidário.


 

quarta-feira, 15 de maio de 2024

Nós os jovens e eles os velhos frente de confronto geracional?

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No documento Eurobarómetro sobre Juventude e Democracia emitido pela Comissão Europeia mostra que, em Portugal, 77% dos jovens até aos 30 anos tencionam votar nas eleições europeias de 9 de Junho, e que apenas 5% manifestam não tencionar votar.


Não é por acaso que os partidos políticos mais representativos estão a dirigir nos seus discursos mensagens e promessas para os jovens de tal modo que parece que em política passou a valer tudo. Não há ética, não há moral, não há contenção de palavras no discurso político, não há verdade, mas há simulação, há intenção de conflito, há hipocrisia.


O cabeça de lista da IL às europeias, Cotrim de Figueiredo, apresentou este domingo o manifesto para as eleições de 9 de junho que vai servir para a campanha eleitoral das europeias. Informou-nos, mal, sobre o que pretende fazer na EU. Uma das suas preocupações para atrair os mais jovens abriu a porta para um conflito mesmo que implícito e para gerar animosidades para com os mais velhos e para com os que ainda trabalham, quer no que respeita a pensões, quer no que respeita a manutenção dos postos de trabalho.


Para dar mais força ao que pretende e utilizando um seu caso pessoal fez a seguinte afirmação:  “Eu, que sou de outra geração mais velha, tenho de vos dizer isto com clareza: estamos a assistir a uma brutal transferência de riqueza dos mais jovens para os mais velhos, porque os interesses instalados não querem mudança”. E mais disse o  candidato a eurodeputado pela IL-Iniciativa Liberal defendendo que não é aceitável que “não se mexa no sistema de pensões” porque, considera Cotrim, se está a “hipotecar as pensões futuras” e acrescentou ainda que é inaceitável que “não se mexa na legislação laboral que protege os que têm emprego e ignora quem não tem, em especial os jovens”.


São palavras que geram conflitos geracionais que polarizam partes da sociedade. Há muito tempo, e já não é novidade, que se deve fazer algo no sistema de pensões, mas tal deve ser feito sem prejuízo de uns em benefício de outros.


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O que a IL pretende é que o sistema público de proteção social, nomeadamente de pensões, seja privatizado. A privatização do sistema público de pensões para o qual se contribui durante toda a vida profissional tem como finalidade a passagem para fundos privados das contribuições e de outras variáveis de desconto de que as pessoas irão beneficiar após a sua reforma sob a forma de uma pensão. É evidente que empresas privadas de gestão desses fundos têm na mira esses sistemas porque são altamente lucrativos.


Mas, os sistemas de pensões privatizados podem trazer atrás de si problemas graves. Não nos podemos esquecer, como já aconteceu noutros países, que houve situações de falcatrua e falências que prejudicaram os pensionistas. Alguns exemplos do tipo de gestão privada dos sistemas de pensões mostram haver perigos evidentes. Por exemplo, um trabalhador ou trabalhadora   que tenha contribuído durante toda sua vida para um fundo privado de pensões duma empresa e aos 64 anos, ou na proximidade da reforma, a empresa entra em dificuldades financeiras ou falir devido ao efeito de contacto global o fundo de pensões a ela ligado e o dinheiro da poupança feito durante mais de 30 anos “evapora-se”, é apagado, isto é pode ser perdido.


Um facto relacionado com esta situação foi o que aconteceu em março de 2013 foi a queda do Silicon Valley Bank nos EUA. Esta queda levou à perda de milhões de dólares pelos fundos de pensão em todo o mundo. No banco que, entretanto, faliu fora investido vários fundos, tais como o Fundo de Pensão para Funcionários Públicos da Califórnia (CalPERS), Fundo de Pensão de Professores do Estado da Califórnia (CalSTRS), Serviço Nacional de Pensões da Coreia do Sul (NPS) e o fundo de pensão sueco Alecta. Pode confirmar aqui.


O aliciamento para o voto na AD também é feito aos idosos e aos reformados que recebem pensões, por isso, Luís Montenegro anunciou que o Governo aprovou com efeitos imediatos um aumento de cerca de 50 euros do CSI-Complemento Solidário para Idosos para os 600 euros face ao valor atualmente em vigor que é de 550,67 euros, anúncio oportuno um mês antes das eleições europeias. 


Mas regressemos aos jovens a quem, como afirmei anteriormente, todos os partidos se dirigem com o intuito de os aliciar para a captação de votos e ao mesmo tempo reclamam-se precursores das suas necessidades fazendo as mais diversas promessas que não passam de intenções.


Desconhecemos qual é o conceito de jovem para os partidos, mas segundo têm afirmado parece que têm como referência para jovens o intervalo na faixa etária dos 18 aos 35 anos. Neste intervalo cabem os muito jovens que atingem a maioridade, com as mais várias ocupações e sem ocupações.


É na área fiscal que alguns partidos incidem as suas propostas no intuito de aumentar o rendimento líquido que os jovens recebem. Os que têm ocupação, parece claro. São temas recorrentes o da habitação e o da fiscalidade.  Foi promessa da AD que, se governasse, os jovens até aos 35 anos, parece excluírem-se os sem ocupação(?), que pagariam uma taxa máxima de IRS de 15% e ficariam isentos do pagamento de IMT. E justificava a AD que “não quer um país em que um terço dos jovens tem de viver fora”. Todos? Mesmo?


A habitação é outro tema central das promessas eleitorais dos partidos. AD propõe “libertar” as faixas etárias mais novas (quais?) do imposto de selo e do Imposto Municipal sobre Transmissões (IMT) na compra da primeira casa e, ainda, dar uma garantia pública para viabilizar o financiamento bancário da totalidade do preço da mesma. Faixas etárias mais novas? O que considera a coligação as mais novas no intervalo 18 aos 35 anos? Outros partidos sugerem casas do Estado em lugar ao (des)congelamento de rendas.  Quem são os jovens com pouca liquidez que assumem o risco de fazer um contrato de arrendamento para se candidatarem. Segundo a AD e com a reformulação do programa Porta 65 “Este programa deve ter como ponto de partida a garantia pública de atribuição à família do apoio, que depois procurará uma habitação compatível e verá o apoio expresso na comparticipação de rendas e eventual empréstimo de cauções”.


Linhas de crédito específicas e taxas de juro bonificadas para os empréstimos concedidos a jovens até aos 35 anos, (mais uma vez, todos?) “tornando o financiamento mais acessível e criando condições flexíveis para a concessão de crédito”.


Esta é da Iniciativa Liberal que diz que deve ser criadas “condições para que os jovens portugueses saiam mais cedo de casa dos pais”, e, por isso, propõem uma redução do IVA da construção dos atuais 23% para a taxa mínima de 6% para edificado novo, eliminar o IMT na compra de habitação própria permanente, aumentar as deduções em IRS das rendas e dos juros dos créditos à habitação, isentar o arrendamento e as transações imobiliárias de imposto de selo e reduzir o imposto sobre as rendas para uma taxa máxima de 14,5%. “Se a habitação é um bem essencial, não pode ser taxado como bem de luxo” defende a IL.


Parece-me que todas estas medidas são devem ser para proporcionar condições especiais aos filhos das famílias de posses e mais abastadas. Será que também está agora na moda housing for the boys?


Nada tenho contra os jovens, mas todos os partidos, da extrema-esquerda à extrema-direita, na última campanha eleitoral para as legislativas passaram a referir e a interessar-se pelos jovens, consideram-nos como uns coitadinhos que precisam de ser apoiados e, de facto, precisam, mas em quê? Será que é em tudo o que seja facilitismo?


Os partidos da esquerda à direita produzem discursos de pregadores que incentivam e agravam o conflito intergeracional porque, segundo eles os velhos, estes, os ditos instalados na vida, que gastaram a sua juventude e viveram uma vida de trabalho sem os facilitismos da atualidade. São esses velhos (pais e avós) que estão a proporcionar com grandes sacrifícios uma vida fácil aos jovens.


Há políticos tal com Cotrim de Figueiredo que acima referi que querem ressuscitar o tema da “peste grisalha” do tempo de Passos Coelho quando  Carlos Peixoto do PSD referiu, num artigo no jornal “i” no dia 10 de janeiro de 2013 com o título “Um Portugal de cabelos brancos” onde a dada altura, escreveu, “a nossa pátria foi contaminada com a já conhecida peste grisalha”. Justificou-se depois que foi em determinado contexto, talvez, mas disse-o.


No discurso que o agora primeiro-ministro Luís Montenegro traçou na tomada de posse, entre outras prioridades, referiu-se também aos problemas dos jovens. E, para demonstração do seu interesse por esta grupo social coloca como cabeça de lista para as eleições europeias o jovem Sebastião Bugalho de 28 anos que passa de comentador para político, isto é, arranjou um job for a young boy.


O descontentamento dos jovens é, não raras vezes, induzido pelos partidos políticos que sabem não ser fácil resolver-lhes os problemas que dizem enfrentar pretendem, na sua propaganda, mostrar interessar por eles. A extrema-direita e também a extrema-esquerda também estão em força para os mobilizar e, para tal, seguem a via mais fácil porque sabem que os extremismos fazem parte do crescimento dos jovens.


Os jovens sempre passaram e também alguns menos jovens passam por fases de extremismo, radicais até, nos seus comportamentos, atitudes, pontos de vista e luta por causas, mesmo no que à família diz respeito. Para estes os pais nada sabem, mas eles sabem tudo e pretendem tudo já, vivem no domínio do já. Contudo, temos de distinguir entre os comportamentos normais. O extremismo como atitude psicológica nos jovens deve ser avaliado com sensibilidade, considerando o contexto e a diferença entre comportamentos normais e preocupantes. Os jovens enfrentam desafios como identidade, desejos de independência, relações interpessoais e pressões sociais.


Nestes tempos conturbados e difíceis há interesses que os jovens mais apreciam e de que sentem necessidade para além da habitação e outros que consideram essenciais porque os jovens têm a cultura do imediatismo. Para eles é preferível viver o agora e a qualquer custo e nem a vontade e a necessidade das outras pessoas lhes interessa. Há uma perceção equívoca de que tudo tem de ser para agora. Para eles o presente não é consequência do passado e tanto faz o que se fizer hoje, só o agora interessa e é suficiente. Neste sentido há uma ânsia crescente por ter coisas para já e de resolver todos os problemas imediatamente.


Apesar de correr o risco de uma generalização e tirar  uma conclusão apressada, sem uma validação do universo de observação, tenho a perceção de que os jovens procuram tudo o que mais anseiam e de imediato: emprego, refiro propositadamente emprego e não trabalho, este sem esforço e com bons salários, divertimentos a que têm direito q.b. e nisso estou de acordo, habitação fácil e barata, telemóveis de topo de gama para se intoxicarem nas redes sociais e com notícias, por vezes falsas, conteúdos destituídos de qualquer ética estrategicamente compostos visando os interesses dos influencers, a procura intensiva de concertos Rock e Pop, cujos bilhetes de entrada se esgotam num piscar de olhos, concursos de shots no bares e discotecas e, nos fins de semana, restaurantes onde as bejecas e os shots saem em catadupa.


Mas, alegremo-nos, afinal, não são apenas os nossos jovens, os portugueses, os estrageiros também se misturam nesta orgia consumista que, se por um lado faz girar a economia, por outro os intoxica.

domingo, 7 de abril de 2024

Os tachos e a canção do ai chega, chega, chega chega, ó meu tacho, não te afastes do meu dedo

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1. O novo Governo da chamada AD chefiado por Luís Montenegro ainda não parou no que respeita a propaganda. A primeira medida foi uma iniciativa imprescindível para as pessoas, mudar de imediato o logotipo institucional do Governo e no desbaratar dos documentos que se perdem para passarem a ter outro mais representativo do passado.


Recorde-se que o líder do Chega não gostou que o Governo de António Costa tivesse eclipsado da imagem institucional os sete castelos que figuram no brasão de armas da bandeira nacional.


Ao mudar o logotipo o Governo de Luís Montenegro quis dizer que sim, que está com o Chega no patriotismo. Um sinal onde se poderá vir a posicionar na governação, ou melhor, está a querer dizer que não é não, mas que, talvez sim.


É verdade que uma imagem vale mais do que mil palavras. Este tipo de comunicação por sinais e símbolos mostram o que vão ser as medidas do Governo e ao quem vem. São uma cedência, embora simbólica ao Chega, um primeiro sinal do Governo à aceitação da versão Estado Novo do Chega ainda que incipiente.


Não se tratou de mudar os símbolos da nossa bandeira, nem isso se pretendia, mas somente o logotipo para comunicação da imagem institucional.


Outra medida propagandística foi a reunião simbólica do primeiro conselho de ministro em Óbidos. Evento que para Montenegro parece ser também importante para as pessoas. Assim se iniciou este trabalho exaustivo deste conselho de ministros, após a distribuição por Luís Montenegro de tachos sem que o partido de Ventura tivesse comido de algum conforme era seu desejo.


2. A propósito dos elementos do novo governo com alguns elementos do velho governo de Passos Coelho. Mas a recuperação do passado não foi apenas esta, foi também a recuperação de antigos elementos de Passo Coelho para o governo.


Assim, António Leitão Amaro vai contar com Paulo Marcelo na Presidência do Conselho de Ministros, até 2014, foi chefe de gabinete do Ministério do Ambiente no governo de Pedro Passos Coelho. Carlos Abreu Amorim, militante do PSD e deputado eleito por Viana do Castelo durante o governo de Passos Coelho.


Lídia Bulcão, foi deputada à Assembleia da República pelo círculo eleitoral dos Açores na XII legislatura, durante o governo liderado por Passos Coelho.


Jorge Campino, o novo secretário de Estado foi também, durante o Governo de Pedro Passos Coelho, chefe de gabinete do secretário de Estado da Segurança Social.


O ex-deputado do CDS Telmo Correia, que até agora só tinha assumido funções executivas enquanto ministro do Turismo no governo de Santana Lopes também foi chamado.


José Pedro Aguiar Branco foi Ministro da Defesa Nacional de Passos Coelho agora eleito presidente da Assembleia da República em negociação com o PS.


Hélder Reis, é o novo secretário de Estado do Desenvolvimento Regional foi antigo secretário de Estado Adjunto e do Orçamento do primeiro governo liderado por Pedro Passos Coelho, cargo que ocupou entre 2013 e 2015 no consulado da ministra Maria Luís Albuquerque.


Nuno Sampaio que foi consultor da Casa Civil do presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, mas também foi assessor para Assuntos Parlamentares e Autarquias Locais da Casa Civil do presidente Cavaco Silva.


3. Estou farto das retóricas de André Ventura e dos seus porta-vozes, e penso não ser só eu. Os eleitores têm todo o direito de votar em partidos que entenderem e que achem que os possam representar, é isso que a democracia nos possibilita. Mas há limites ao votar em partidos em que os seus líderes revelam nas entrevistas e perante as câmaras de televisão atitude verbais e argumentos desconexos, por vezes até ofensivos e sem qualquer sequência sobre o tema tratado.


Não creio que os votantes neste tipo de partido não percebam em quem está a votar. Talvez até o façam para ser diferente, para mostrar firmeza nas suas convicções e achar que tal partido é o que representa o seu descontentamento. Tudo bem! Mas atacar pessoas que tentam demonstrar enganos, mentiras e contradições, sobretudo estas, por eles veiculados feitas por alguns militantes ou simpatizantes empedernidos que parecem não entender o que está em causa que não está bem. Já não é a democracia a ficar em causa, são os que se dizem dela representantes sejam eles de que partidos forem e, neste caso, por maioria de razão encontramos André Ventura e seus acólitos.   


Um destes acólitos, é Pedro Frazão, vice-presidente do partido Chega que acusou Pedro Aguiar-Branco que vai ser Presidente da Assembleia da República, de ir ocupar um “tacho” com “regalias”.  


Este deputado do Chega foi eleito membro do Conselho de Administração da AR, de que também fazem parte Emídio Guerreiro do PSD, Eurídice Pereira do PS, Rui Rocha da IL, Joana Mortágua do BE, Alfredo Maia do PCP e Rui Tavares do Livre. Cada um destes deputados tem direito a um vencimento mensal ilíquido de 4.096,99 euros, ao qual se somam despesas de representação num total de 1.024,25 euros. No final do mês, Frazão auferirá no total 4.916,39 euros brutos naquilo a que o próprio apelida de “tacho” com “regalias”.


O que, entretanto, se passou é surreal. Ao ser convidado pela SIC Notícias na anterior quarta-feira para comentar a eleição de Pedro Aguiar-Branco para a Presidência da Assembleia da República Pedro Frazão aproveitou para, como de costume fazer demagogia populista tal qual o seu chefe Ventura e apelidou aquele cargo institucional de “tacho”, com a justificação de que José Pedro Aguiar-Branco só conseguiu ser eleito através de um acordo, ao contrário de Diogo Pacheco de Amorim.


Recorrendo a uma análise do jornal de fact-check Polígrafo, tanto Frazão quanto a bancada parlamentar do partido Chega assegurou haver um acordo prévio com um PSD que foi rompido unilateralmente pelo partido de direita radical, depois de Paulo Rangel e Nuno Melo terem negado a existência de tal acordo. Na lógica daquele deputado, Pacheco de Amorim fez de tudo, até um acordo com o PSD, para chegar a vice-presidente da Assembleia da República. Então pela lógica foi também um “tacho” com “regalias” que Frazão deveria também considerar inaceitáveis.


Recorri a uma citação newsletter de Bárbara Reis publicada no jornal Público em abril do corrente para melhor se perceber a sequência da entrevista:


Pedro Frazão – O que está aqui muito claro é que o PS e o PSD, quando chega à hora de dividir os cargos, os tachos...


Ana de Freitas – ... peço desculpa, mas o presidente da Assembleia da República não é nenhum tacho.


Pedro Frazão – Quando é altura para dividir os lugares das instituições entendem-se muito bem...


Ana de Freitas – Pedro Frazão: desculpe lá, são lugares institucionais, não tem nada que ver com tachos, há aqui alguma confusão.


Pedro Frazão – Isso é a sua opinião, eu posso ter outra. Não sei se está a par de todas as regalias que o presidente da Assembleia da República tem. Penso que estará a par.


Ana de Freitas – Então [o deputado do Chega Diogo] Pacheco de Amorim [eleito nesse mesmo dia vice-presidente do Parlamento] também está a ter um tacho?


Pedro Frazão – Não sabe que aconteceu o mesmo com as presidências das CCDR, em que o PS e o PSD fizeram um acordo para dividir as presidências?


Ana de Freitas – Não está a responder à minha pergunta. Pacheco de Amorim é um tacho? Ou tem dois pesos e duas medidas?


Pedro Frazão – Desculpe, não percebi.


Ana de Freitas – Pacheco de Amorim também é vice-presidente. Também está a ocupar um tacho?


Pedro Frazão – Pacheco de Amorim não fez nenhum acordo para ser eleito.


Ana de Freitas – Não é essa a questão. A questão é se é um tacho ou não é um tacho, estamos a discutir isso.


Pedro Frazão – Está a ser falaciosa.


Ana de Freitas – Não estou não, o senhor é que está.


Pedro Frazão afirma que José Pedro Aguiar-Branco do PSD, ao ser escolhido como líder da Assembleia da República, foi alvo de uma nomeação acordada com o PS. Contudo esse cargo não pode ser considerado um privilégio. Portanto, quando o Chega sugeriu Pacheco de Amorim como vice-presidente da AR há dois anos, a intenção era garantir uma posição estratégica na AR para o ideólogo do partido para simplesmente conseguir um cargo ao lado da segunda autoridade do Estado em Portugal? Haja paciência para estes tipos.


Por isso, para finalizar eu digo fazendo uma reescrita de parte dos versos da canção “A agulha e o dedal” cantada por Beatriz Costa no filme “A Canção de Lisboa” (1933) protagonizado por Beatriz Costa e António Silva cuja sequência do filme incluo abaixo. Esta canção brejeira na altura tinha uma conotação diferente daquela que hoje lhe atribuí. 


Ai chega, chega, chega


Chega, Chega o meu tacho


Ai chega, chega, chega o meu tacho


Ó não afastes, não afastes, não afastes o meu tacho


Você não seja trafulha,


Ó sim, somos a mais belo partido em Portugal!


 


Estes são os versos originais:


Ai chega, chega, chega


Chega, chega ó minha agulha


Afasta, afasta, afasta


Afasta o meu dedal


Brejeira não sejas trafulha,


Ó não, és a mais bela fresca agulha em Portugal!



 

segunda-feira, 18 de março de 2024

A propósito do jornalismo dar a papa à direita-radical

Jornalismo e direita radical.png


Montagem parcial a partir da imagem do Público do artigo "A grande família do Chega"


Os media contribuíram para a importância que hoje tem o partido Chega. Ao ajudarem os partidos direitistas a canalizar o descontentamento para o PS abriram caminho para o crescimento daquele partido. Mas não só, o PCP e o BE com a repetição contínua de palavras de ordem com ataques ao Partido Socialista ajudaram a passar a mensagem do Chega também contra o PS sem que eles próprios se auto questionassem sobre por que os votos de protesto foram para a extrema-direita, Chega. Se houve tantos votos de protesto para a extrema-direita por que apenas ela tirou proveito disso e não também à extrema-esquerda.


O partido Chega estrategicamente passou a simular o jogo democrático como uma obrigação, mas as declarações do seu líder continuarem a mostrar que era contra o sistema. Por entre a extrema-direita existem versões mais moderadas e outras mais extremistas, mas todas elas colocam em causa as conquistas civilizacionais e, em última instância, a democracia.


Já escrevi vários textos neste blogue em que me debrucei sobre os media e o jornalismo como por exemplo “Fugir das Armadilhas” e “Relação Político Mediática e Jornalismo”. No primeiro escrevi que “A dúvida instala-se sobre o que pudemos esperar do verdadeiro jornalismo quando estes, por motivos de interesses vários, se encontram enfeudados a ideologias e partidos” e mais adiante que “o problema verifica-se quando há tendenciosamente critérios de subtil favorecimento a candidatos pela utilização das mais variadas técnicas de abordagens…”. Pacheco Pereira em artigos de opinião tem abordado aquelas mesmas questões de forma clara e com um preciosismo muito próprio.


Quem vê televisão e os seus noticiários, debates e comentários opinativos durante a pré demissão do primeiro-ministro e depois de conhecidos os resultados das últimas eleições pode perceber as causas e possíveis consequências dos resultados que são lançadas para o ar. Refiro-me à televisão por ser o media através do qual a maioria das pessoas toma conhecimento do andamento da política.


Verifica-se uma ininterrupta relação entre a política e os media onde, para além dos políticos, o jornalismo tem uma carga de politização, talvez até uma partidarização subliminar, que servem de veículos de transmissão de políticas de direita através de comentadores que, ao mesmo tempo, são políticos. São os profissionais da contradição consoante os interesses e que, por vezes, agarram o que os seus adversários dizem e o tomam à letra. Tomar à letra o que se diz tem a suas dificuldades interpretativas e dificuldade em discernir pois depende do contexto em que as frases são enunciadas porque podem ser determinadas pela função da pergunta e dos contextos em que se dá a resposta.


Na política, as questões são frequentemente complexas e podem exigir mais do que um simples "sim" ou "não". Embora seja possível dar uma resposta direta, muitas vezes é necessário fornecer contexto ou explicação e depende da situação. Em todo o caso, na minha opinião, em política não pode haver apenas sim ou não!


Por outro lado, jornalistas, quais lobos famintos, procuram encontrar ininterruptamente supostas contradições que dizem ter sido proclamadas pelos políticos para os atacarem e fazerem disso aberturas de noticiários televisivos ou manchete para capa de jornal.


Verifica-se desde alguns anos um crescimento dum jornalismo politizado, maioritariamente de direita e muito, quer nas televisões, quer na imprensa, não sei se na rádio, mas nas rádios dos jornais e nos podcasts que agora estão na moda isso é certo.


Porém, do ponto de vista do líder do Chega, não há um jornalismo politizado maioritariamente de direita. Para ele, no que reporta às redações, o que se passa é o contrário. Leia-se parte da transcrição do discurso de André Ventura no dia das eleições ao festejar os ganhos eleitorais do seu partido: “…hoje houve em Portugal um ajuste de contas com a história, na nossa história do pós 25 de abril. Houve um ajuste de contas com um país que, durante décadas, foi asfixiado, dominado, manipulado, atrofiado, pela extrema-esquerda e pela esquerda que dominou redações, dominou instituições e que dominou a nossa economia…” (itálico da minha autoria). Neste mesmo dia duas militante do Chega já com alguma idade disseram a um jornalista da CNN que “fala a nossa linguagem” e, ainda por cima, “é um borracho”.


Nas agendas dos noticiários e nos seus alinhamentos os indicadores económicos, financeiros e sociais que foram bons em Portugal e foram aplaudidos internacionalmente foram apresentados de maneira fugaz e não entravam como fator importantes nas notícias.


A isto acresce o ambiente mediático negativo, a agressividade de várias ordens e sindicatos profissionais com criação acintosa de modo a criar um contexto social de caos e insegurança. Servem como exemplos as reivindicações dos sindicatos dos professores, dos médicos, dos enfermeiros, dos polícias entre outros. Acrescentemos o Serviço Nacional de Saúde com que diariamente os telespectadores eram bombardeados aquando das situações extraordinárias devidas às doenças de inverno que anualmente acontecem. Recordemos o anterior bastonário da Ordem dos Médicos, Miguel Guimarães, que fez tudo quanto era possível para subtilmente desacreditar o ministro da saúde e para fazer campanha denegrindo o SNS. Posteriormente, durante a campanha eleitoral da AD várias vezes estava ao lado de Luís Montenegro e foi, e agora é, cabeça de lista da AD pelo Porto.


Num artigo de opinião Pacheco Pereira escreve que após o resultado das eleições “Subitamente, órgãos políticos e de interesses, como a Rádio Observador, cujos orgasmos matinais contra o Governo davam o tom para as notícias de muitos outros órgãos de informação, passaram agora, como era de prever, a ensinar como é que a AD deve governar, quais as prioridades, o estilo e as alianças. Com ironia se pode perceber que o que antes era negro na acção política agora é branco, já não há falta de transparência nos silêncios, e a obrigação de responsabilidade tornou-se a dos “outros”, como mostra a chantagem comunicacional sobre a votação do PS no Orçamento.”


É fácil perceber que vai cair sobre o PS a responsabilidade por tudo o que aconteça de mal à direita. A pergunta que se coloca é a de saber se deve ser o PS a sustentar um Governo cujo partido ganhou as eleições?


De alguns pensamentos provindos de grupos de comentaristas entendedores de política salientam-se opiniões que propõem que o Chega não deve ficar na oposição porque pode crescer ainda mais. Estas razões são simplistas porque há outras razões mais complexas.   Há outras variáveis mais marcantes nos eleitores que que os levaram a presentear o Chega e que têm a ver com aspetos sócio económicos vários que nem sempre são da responsabilidade do PS, mas do jornalismo de influência direitista que preparou a população contra o PS num alinhamento com o Chega e com os partidos da extrema-esquerda.


Parece estar a haver críticas a Montenegro por causa da frase do “não é não” ao Chega, que agora lamentam, porque pôs em causa um possível entendimento com aquele partido. Contudo, do meu ponto de vista, o “não é não” ficou em suspenso para salvaguardar que, numa circunstância como a atual poderia ser adaptado a novas circunstâncias que, entretanto, surgissem. Mas, tal poderá não acontecer pois colocaria face a alguma opinião pública como falta à palavra dada.


É por isso que o “não é não” de Montenegro ao Chega poderá, ou não, ter outras nuances, digamos, mais “flexíveis”. É o mesmo que dizer “Bem, na Assembleia da República falamos o que seria a condensação e ou remoção da frase e de alguns de seus sentidos, com o objetivo de restringir o propósito do pensamento seria uma espécie de “novilíngua” orwelliana) entre todos os deputados”, o que, como é óbvio, todos não significa para a AD falar com o Bloco ou com o PCP, mas com o Chega.

quinta-feira, 7 de março de 2024

Por favor, não gozem com quem trabalha

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Que se baixem os impostos todos queremos, mas uma coisa é baixá-los outra coisa é poder fazê-lo sem pôr em causa o Estado Social como a IL e o Chega pretendem fazer, assim como o PSD, mas este de forma mais faseada e sem dar nas vistas.


Todos estes propõem dar tudo a todos sabendo que não poderão fazê-lo. Uns prometem ser já nesta legislatura, outros dizem que irão fazê-lo até ao fim da legislatura, outros será gradual outros ainda nos primeiros sessenta dias de governo. Isto é que é mesmo gozar com quem trabalha!


 Com a diminuição da receita e com um contexto internacional que pode ser adverso que pode agravar-se e colocar em causa a economia, mais tarde ou mais cedo alguém vai ter de sofrer cortes e serão sempre os mesmos. Isto é, são promessas vãs que a direita não conseguirá controlar.


Durante esta campanha eleitoral toda a direita, quer ser campeã e protagonista da baixa de impostos.


No entanto, o PSD ou com a AD, quando teve possibilidade para o fazer nunca o fez e foram vários os governos como se pode confirmar. Neste governo nunca nenhum deles baixou impostos, antes pelo contrário.


 


Governos  Período                     Primeiro-Ministro


VI Governo       1980 – 81 Sá Carneiro/Freitas do Amaral


VII Governo     1981         Francisco Pinto Balsemão


VIII Governo    1981 – 83 Francisco Pinto Balsemão


X Governo        1985 – 87        Aníbal Cavaco Silva


XI Governo       1987 – 91 Aníbal Cavaco Silva


XII Governo     1991 – 95 Aníbal Cavaco Silva


XV Governo     2002 – 04 José Manuel Durão Barroso


XVI Governo    2004 – 05 Pedro Santana Lopes


XIX Governo    2011 – 2015      Pedro Passos Coelho            


Votar num partido não radical e com sensatez na governação é o que se impõe neste momento pouco favorável internacionalmente e em que vai ter de haver aumento em despesas militares. Aventureirismos deram sempre mau resultado.

Os regressados do além e o cumprimento de promessas

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Luís Montenegro parece estar determinado em mostrar um PSD com um olhar para o futuro, mas mostra ter mais confiança no passado a que recorre na campanha eleitoral. Estes, os que ele chamou, são escolhas do passado para atrair os solitários militantes ou eis militantes do partido que nada terão para oferecer a não ser comentar políticas clubistas partidárias.


Se a AD ganhar quem vai perder seremos todos. Uma coisa é certa, a direita terá maioria na Assembleia da República, sim, porque não nos podemos que esquecer que os votos no Chega também contam.


Luís Montenegro está focado em olhar para o futuro, mas parece querer um regresso às políticas do passado. As propostas que ele diz poder executar são uma ficção tendo em conta a adversidade que pode ocorrer devido aos conflitos internacionais que poderão condicionar o Orçamento do Estado. Há que ter em conta a rubrica destinada à defesa que já foi debatida na U.E. que terá de ser aumentada restando menos para o cumprimento de promessas. Se essa adversidade acontecer, o que é o mais provável, Montenegro terá uma desculpa para não poder executar essas promessas.


Não basta dizer nem prometer, é saber se se pode fazer e cumprir. Se a velha AD ganhar a ver vamos se as promessas se cumprem! Se assim for, de qualquer modo, teremos de esperar sentados porque só lá para 2028, antes de novas eleições.