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quinta-feira, 30 de maio de 2024

Ambição por visibilidade

Visibilidade e política.png


No início do mês de maio veio à tona na comunicação social um caso típico de visibilidade que envolve José Castelo Branco. Este ser híbrido, qual personagem circense autocriado para animar o espetáculo da comunicação ao longo do tempo, umas vezes mais dos que outras, tem tido a visibilidade que os media, sempre atentos a casos de escândalo, lhe concederam e agora voltam a conceder a honra de produto de venda, desta vez por causas gravosas.


Outra novidade típica que tem por detrás a visibilidade foi a surpresa da indicação pela AD de Sebastião Bugalho para cabeça de lista para as eleições europeias.


Trago estes dois casos atuais a propósito da releitura que fiz do livro de Ítalo Calvino “Seis Propostas para o Próximo Milénio”, precisamente o capítulo 4 que trata do tema “Visibilidade”, trouxe-me a ideia de escrever sobre este tema que, cada vez mais, está presente como uma necessidade absoluta de setores da nossa sociedade. Este meu texto, que nada tem a ver com a profundidade que Ítalo Calvino lhe reservou, serviu só para introduzir o propósito do meu tema.


Ítalo Calvino começa a sua conferencia sobre “visibilidade” a partir de um verso do capítulo do Purgatório da Divina Comédia de Dante onde diz que “Chove dentro da minha fantasia”.


“E qui fu la mia mente sì ristretta


Dentro da sé, che di fuor non venia


Cosa che fosse allor da lei recetta.


Poi piovve dentro all' alta fantasia


Un crocifisso dispettoso e fiero


Nella sua vista, e cotal si moria.


(Dante; Purgatorio, XVII, 25; p. 76)


Que pode ser traduzido por


“E aqui estava a minha mente tão estreita


Dentro de si, que não vem de fora


O que foi algo que ela aceitou na época.


Então choveu dentro da minha fantasia*


Um crucifixo travesso e orgulhoso


À sua vista, e assim alguém morre.”


*Tradução livre: então, choveu na mais alta imaginação.


Escreveu Calvino que a “fantasia é um lugar onde chove lá dentro”. Quer ele dizer que é uma metáfora para um buraco onde chove. Calvino interpreta que “Dante está a falar das visões que se apresentam ao autor (Dante), quase como projeções cinematográficas ou receções televisivas num visor separado daquela que para ele é a realidade objetiva de sua viagem ultraterrena.”


A metáfora de Calvino sugere uma visão da fantasia como sendo um lugar interior onde chove. É possível pensarmos que está a referir-se à capacidade da imaginação humana para criar mundos fictícios, histórias e personagens dentro da mente sobre si próprio ou sobre outros e onde “chove lá dentro". Porquê “chove lá dentro”? Porque a chuva enquanto elemento climatérico é frequentemente associada a emoções que sentimos como melancolia, tristeza ou num aspeto mais otimista como renovação, o que faz renascer a vida. Sem a água da chuva nada existiria. A metáfora de Calvino salienta a riqueza e a vitalidade da experiência fantasiosa que é uma maneira poética de descrever a capacidade humana de criar e imaginar mundos que não existem na realidade, mas podemos imaginarmo-nos neles e sermos conhecidos por isso.


Claro que a interpretação de Calvino sobre a sensibilidade e visibilidade imagética não corresponde àquela sobre a que vou debruçar-me. Vou centrar-me na corporização ou objetividade da realidade pelos media e nos artifícios de que se servem indivíduos, grupos, políticos e empresas para conseguirem visibilidade para um negócio, para efeitos de marketing, para umas eleições, para defesa de ideias, para captação de atenções, sobretudo nas emissões televisivas, redes sociais, eventos e até mesmo em manifestações das mais variadas origens e tendências.


O senso comum atribui à palavra visibilidade, conforme definição que consta dos dicionários e também no Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, o “caráter, condição, atributo do que é ou pode ser visível, ser percebido pelo sentido da vista”. Mas visibilidade é também o estado do que é visível que, no sentido figurado, corresponde ao que é percetível, manifesto, evidente ou aparente. Assim pode ser pela aparência, ou seja, pelo aspeto que julgamos pessoas ou coisas.


O anseio por visibilidade traduzida na necessidade de ser conhecido, de dar nas vistas, mesmo que por maus motivos, através dos media de grande difusão tem vindo a crescer nas últimas décadas e a proporcionar fantasias e exibicionismos cada qual a mais disparatada, tudo no sentido de dar nas vistas, de ser falado, de ser conhecido.


Seja qual for a definição que encontremos para visibilidade verificamos que é um conceito chave que está implícito na qualidade ou estado do que é visível, ou de se tornar visível, e pode conter todos os tipos de noções preconcebidas, equívocos, muitas experiências e histórias pessoais que tem o propósito e o potencial de moldar e afetar a nossa faculdade de julgar. Na política acontece o mesmo, sobretudo em épocas de campanhas eleitorais como a que atravessamos com o objetivo de influenciar potenciais eleitores.


Quando se ouve que alguém está a disputar por "visibilidade" associamos a procurar ficar conhecido por alguma coisa, projetar uma certa imagem pessoal, tornar-se publicamente visível através de qualquer suporte de difusão de informação seja rádio, televisão, imprensa, publicação na Internet, videograma e de plataformas de redes sociais, meios intermediários para transmissão de mensagens escritas, por áudio ou por imagem. Neste âmbito encontram-se os chamados influencers, mas também políticos e partidos e concorrentes a programas televisivos como “Big Brother”, entre outros.


Um influencer é alguém que é capaz de persuadir muitas pessoas, por exemplo, nas redes sociais cativando seguidores e levá-los a fazer comprar ou a usar as mesmas coisas, seja lá o que for, que dizem ter já adquirido e usado. Na política surgiu agora também um jovem lançado pela AD como cabeça de lista para as eleições europeias, Sebastião Bugalho, jovem cuja visibilidade construída tornou-se incontrolável de um dia para o outro.


Os influenciadores digitais em qualquer área nomeadamente na política usam a persuasão psicológica e a reciprocidade, para influenciar seus seguidores. Os consumidores precisam de estar atentos às táticas psicológicas usadas pelos influenciadores. Os seguidores entram numa espécie de êxtase perante os influenciadores, num desejo de querer ser como eles e adquirirem o mesmo. A estratégia é: “eu já usei e gostei muito é eficaz”; “quando experimentei esta roupa nem queria a creditar. E for barata, podem ver e comprar em XXXX”.


Estes influenciadores(as), são pagos ou recebem produtos gratuitos em troca de divulgação de produtos. Ter seguidores corresponde a ter visibilidade virtual. E se for em videograma a visibilidade pode tornar-se quase como uma identificação.


Processos imaginativos de marketing comercial, político e partidário estão por detrás de toda uma parafernália de meios servidos para obtenção de visibilidade. Esses processos imaginativos, como dizia Ítalo Calvino distinguem-se entre “os que partem da palavra e chegam à imagem visual e os que partem da imagem visual e chegam expressão verbal”.


Quando lemos num romance uma determinada passagem, lemos numa reportagem dum jornal um certo acontecimento, somos levados a ver a cena como se ela de desenrolasse aos nossos olhos. Isto porque pensamos por imagens. Daqui a importância da imagem para a visibilidade mediática. Com mais relevância ainda quando vemos e ouvimos esse acontecimento num canal de televisão.


António Damásio, neurocientista português tem estudado a relação entre emoções, sentimentos e cognição. Ele defende que a imagem mental é uma parte fundamental do pensamento humano, argumentando que a imagem mental é uma representação sensorial que nos permite simular experiências e eventos nas nossas mentes. Essas imagens mentais são criadas a partir de informações captadas pelos sentidos que recebemos do mundo ao nosso redor e são armazenadas em nossos cérebros[1].


Em certos programas televisivos, filmes, e em imagens e vídeos lançados para as redes sociais essas imagens são arquitetadas para invocar sentimentos que produzam emoções que ficam gravados na memória de quem os vê. Posteriormente podem ser solicitadas e induzir o individuo a uma compra, a uma ação ou a uma atitude idêntica ao que lhe ficou gravado na memória, tanto mais quanto mais tiver como intermediário alguém que tenha visibilidade.


A visibilidade mediática excessiva pode conduzir ao vedetismo de quem a ela for sujeito, até mesmo na política. De algum modo a visibilidade pode traduzir-se em vedetismo por cedência à tentação do exibicionismo; de dar nas vistas. O vedetismo manifesta-se nas palavras, nos atos, enfim, nas atitudes e comportamentos plenos de sentimentos de vaidade e de superioridade. O que importa é andar no topo, é aparecer nos jornais e marcar presença nas rádios e nas televisões, e, claro nas redes sociais, como o Instagram e outras, procurando ser diferente, mesmo através do disparate. É nisto que que se baseiam quem fica responsável e preparam as campanhas eleitorais dos partidos políticos.


Há também os influencers que procuram evidência e visibilidade e que, com isso, têm a capacidade de alterar, moldar opiniões, decisões ou comportamentos de outras pessoas e exercida em diferentes esferas, como política, social, económica, cultural, comercial, etc. A influência muitas vezes está ligada à visibilidade e ao poder de persuasão, assim, indivíduos ou organizações desde que tenham visibilidade podem ter maior potencial de influência.


O influencer ao passar a vedeta tem a preocupação de mostrar ser ela quem sabe e quem tem a última palavra. Para sobressair atropela regras que deveria respeitar e altera textos que deveria manter inalterados. O vedetismo leva à instrumentalização de pessoas, para que a coloquem no auge; a vedeta paga generosamente aos que dela falam e apregoam os seus feitos. Recorre ao serviço de bajuladores profissionais. Como esse é um modo fácil de levar bem a vida, há quem lhe faça o frete. É tudo uma questão de preço. Há também os media, sobretudo as televisões que ajudam à promoção de influencers concedendo-lhes visibilidade e, consequentemente ao seu negócio digital.


De facto, a visibilidade, o vedetismo e os(as) indivíduos(as) que se intitulam de influencers são um buraco onde lhes chove lá dentro isto porque servem-se das fantasias de outros que é uma espécie de local onde estão presentes as emoções onde há uma experiência íntima e profunda que os leva a serem influenciados por desejos e necessidades.


Sebastião Bugalho.png


Para finalizar sugiro que se tenha em conta que um partido ou uma pessoa que se candidata, por vezes enfadonhos, cresçam devido à importância que a comunicação social lhe concede. Não é favorecido pelo savoir faire (competência adquirida através da experiência em problemas práticos, no exercício de uma profissão), capacidade de liderança, de governo, formação dos seus intervenientes, coerência, programa político, mas tem importância na medida em que lhe dão importância. Trata-se de uma política feita de visibilidade, e não de governabilidade. A imagem vale mais que o conteúdo, e isto é uma pobre resposta coerente com uma geração que passou a valorizar mais a imagem do que o texto, a prevalência da aparência sobre o conteúdo. Será este o caso de Sebastião Bugalho?


[1] Damásio, A. (2010). O Livro da Consciência-A Construção do Cérebro Consciente. (L. O. Santos, Trad.) Círculo de Leitores.

quinta-feira, 11 de janeiro de 2024

Jornalismo sem jornalistas ou a extinção dos media

Media crise.png


É verdade que muitos, eu incluído, dizemos mal de jornalistas e dos media, mas sem eles não há democracia real. Que os media não devem estar dependentes de foças partidárias, empresas com interesses que não a informação e de ajudas estatais está muito enraizado entre muito, se não na maioria onde também me incluo.


A liberdade de imprensa é um pilar fundamental das sociedades democráticas que permite aos jornalistas informar o público sobre questões políticas, sociais e económicas, sem medo de represálias nem de censura.


O caso da Global Media detentora da TSF, Diário de Notícias e Jornal de Notícias e Jogo é o manifesto da crise em que se encontra a comunicação social em Portugal sobretudo a imprensa.


Numa democracia onde se pretende que prevaleça a liberdade de imprensa será difícil tomar decisões, mesmo que temporárias, para salvar os postos de trabalho e evitar a rarefação de órgãos de comunicação. Qualquer decisão de compra ou inclusão por outra empresa pode conduzir a uma maior concentração de media nas mãos dos que olham com ganância, e finalidades mais ou menos de cariz político e ideológico. Mas que decisões se podem tomar em casos desta natureza numa economia que pretendemos que seja democrática e liberal?


A concorrência entre empresas detentoras de órgãos de comunicação, imprensa, radio e televisão é feroz pela captação de audiências para atrair publicidade, especialmente nos casos dos canais de televisão e de rádio. Na imprensa é a competição por assinaturas, sejam elas em papel ou online.


Li dois artigos de opinião escritos por pessoas que respeito pelo seu perfil sobre o caso da Global Media. O primeiro foi o de Pedro Norton que fez parte do grupo Impresa em 1992, como assessor do presidente do conselho de administração da Controljornal e, a 1 de outubro de 2012, substituiu Francisco Pinto Balsemão como presidente executivo, cargo no qual se manteve até 2016. O segundo foi o de Ana Sá Lopes que em 2018 foi diretora-adjunta do PÚBLICO. Com a remodelação da direção editorial do mesmo jornal passou a redatora principal em setembro deste ano. Se do primeiro é da área do centro, talvez, PSD, da segunda desconheço a sua orientação ideológica ou partidária, mas para o caso o que interessa são as suas opiniões sobre os problemas gerados pela Global Média que está a causar danos ao jornalismo e aos jornalistas.


Com o que Pedro Norton escreve no seu artigo em parte coincide com o meu ponto de vista. Escreveu ele que “O jornalismo deixou de ser um negócio e isso é uma péssima notícia, o jornalismo deixou de ser um negócio sustentável. E sem modelo de negócio não é possível garantir a existência de uma multiplicidade de órgãos de comunicação social capazes de, no seu conjunto, na diversidade das suas saudáveis diferenças editoriais e ideológicas, prover o bem público que é uma Ágora plenamente funcional nas nossas democracias”.


Aqui reside um ponto importante que merecer alguma reflexão visto vivermos numa democracia liberal que alguns das esquerdas mais radicais preferem designar por capitalista.


Nas democracias liberais quando há investimento estes ficam enquadrado no princípio da livre iniciativa e como em qualquer outro negócio o objetivo e o de gerar lucro. Quanto a isso nada há de mal desde que enquadradas nas regras da concorrência, mesmo no que se refere a empresas de comunicação social ditas da área do jornalismo. No caso deste tipo de empresas jornalismo, rádio, televisão, imprensa, há sempre o risco de que a informação produzida, tal como a difusão dela decorrente, poderão tender para um controle da substância ideológica e editorial por parte dos seus investidores e administrações. Contudo, estas estruturas são encaradas como pluralidade dos media, mas face à falta de literacia por parte de grande número do público sobre os media e às agendas políticas das redações podem gerar distorções na informação produzida.


Parece-me que Pedro Norton também é deste ponto de vista pois defende que (sublinhados da minha autoria) “Quem trabalha no mundo dos media sabe bem que não existem fontes de financiamento (públicas ou privadas) que não criem relações de dependência perversa. Sabe também que essas relações são tanto mais perigosas quanto mais dominantes são. E sabe também, por fim, que a mais perversa de todas as dependências, para o efeito do tema que aqui nos ocupa, é o próprio Estado. Não porque seja, ele próprio, inerentemente perverso ou mais maléfico do que os atores privados, mas porque, como é evidente, é muito mais difícil pedir ao ecossistema jornalístico que cumpra a função de escrutinar o poder político se o próprio poder político se transformar no decisor único ou maior sobre o seu financiamento e sobrevivência.”


Para Pedro Norton os media “só conseguem cumprir a sua missão se conseguirem ser independentes e, em particular, se conseguirem ser independentes do Estado”. Este ponto é delicado porque a tutela excessiva do Estado pode levar à censura e à falta de liberdade de imprensa como está a acontecer na Federação Russa com Putin a controlar e a interferir com os media. Mas, a questão que podemos colocar é a de saber se serão também verdadeiramente independentes se forem privados.


O ponto de vista oposto é o de Ana Sá Lopes no seu artigo de opinião que escreveu no Público. Achei estranho o seu ponto de vista sobre a situação da Global Media que, de facto, apesar de estar a prejudicar centenas de jornalistas defende um ponto de vista muito corporativista. Exige ela no seu artigo, se exigir será o verbo adequando, a nacionalização pura e simples de órgãos de comunicação social, tal como o PCP defende a nacionalização dos jornais Diário de Notícias e Jornal de Notícias. Será que o ponto de vista de Ana Sá é apenas sugestão temporária para resolução do problema?


Há quem critica impetuosamente contra “meter dinheiro dos contribuintes (porque não há ouvintes e leitores suficientes) para assim simplesmente se salvarem empregos de jornalistas que, durante anos, contribuíram para a degradação do seu ‘produto jornalístico’ a ponto de hoje ser já um ‘produto comercial’ sem interesse nem préstimo”.


A 3 de maio de 2022 na página do sítio oficial de informação da Presidência da República Portuguesa o presidente recordou que as “grandes dificuldades que os órgãos de comunicação social, sejam eles locais ou nacionais vivem, como seja, na sua capacidade económico-financeira, na precaridade muitas vezes associada à profissão. Acrescentou ainda que as dificuldades pelas quais passam os órgãos de comunicação ao nível financeiro e também no literário é "um dos problemas a que temos vindo a assistir é a substituição da leitura de notícias pelo consumo de conteúdos nas redes sociais". E termina dizendo que "Estes são conteúdos, rápidos, simplistas e condicionados, muitas vezes com informação desvirtuada, sem contraditório ou mesmo falsa".


Propostas com soluções que se esperam dos especialistas nesta área para o problema são escassas ou incompletas e qualquer delas não estarão afastadas de possíveis distorções, mesmo as que Pedro Norton sugere ao escrever que “A alternativa, que precisará sempre de ser amplamente consensualizada, terá assim de passar por formas muito indiretas de apoios, seja removendo obstáculos e custos de contexto, seja criando mecanismos (fiscais ou outros) que incentivem empresas, fundações e cidadãos particulares a consumir, a apoiar e a financiar projetos de media, seja ainda, e crucialmente, separando a função de financiador do Estado da função de decisor da alocação concreta dos fundos que pode e deve ser assegurada pela sociedade civil através de associações, fundações ou até empresas, desde que diversificadas e com estruturas de governação adequadas.”


Em qualquer das soluções apresentadas corre-se o risco de uma corrida de empresas para obterem algumas vantagens, mesmo as que não necessitassem, que se reorganizariam para a obtenção desses fundos e apoios recorrendo a qualquer uma daquelas soluções.  


No atual estado em  que se encontram os meios de comunicação verificam-se casos como o noticiado em maio de uma investigação que deu lugar a  um despacho do Departamento de Investigação e Ação Penal Regional do Porto (DIAPRP),, em que o Ministério Público (MP) diz que o autarca Eduardo Vítor Rodrigues “determinou a outorga pelo Conselho de Administração da GAIURB [empresa municipal], de modo arbitrário, sem qualquer requisição de despesa, manifestação de necessidades ou proposta de contratação de serviços e/ou fornecimentos de bens emanada pelos respetivos serviços, contratos públicos com o Grupo Global Media”. Segundo o jornal ECO, o presidente da Câmara de Gaia, Eduardo Vítor Rodrigues, que por acaso é do Partido Socialista, era assim suspeito de contratar de forma ilegal e arbitrária meios de comunicação do Grupo Global Media para promoção da autarquia e dele próprio.


Segundo o Observador na altura foi emitido um comunicado em que “Os membros eleitos do Conselho de Redação da TSF manifestam, assim, o vivo repúdio pelas acusações de alegado envolvimento da direção editorial e da redação em alegadas operações de promoção de imagem, sublinhando que o trabalho desenvolvido pelos profissionais da TSF é regido sempre pela ética e deontologia do jornalismo”. E mais adiante “Sobre as notícias que têm sido divulgadas sobre o tema, o CR do JN classifica de “noticiário assente numa visão, errónea, de que, de algum modo, um acordo comercial com uma autarquia, legítimo e devidamente registado no Portal BASE, seria uma porta aberta ou uma banca self-service de notícias para algum autarca”.


A democracia não pode viver sem uma comunicação livre e independente e também fora do controle do Estado. No entanto, o aproveitamento de empresas jornalísticas, grosso modo, por possíveis interesses políticos, por vezes até por simpatias partidárias, incluem na sua agenda setting factos que possam induzir na opinião pública proveito ou desagrado em relação a partidos ou governos por vezes apresentados como factos por vezes conjeturados.


Basta estarmos atentos e fazermos leituras dos alinhamentos e dos conteúdos dos jornais dos canais televisivos, sobretudo em épocas pré-eleitorais, para nos apercebermos do marketing por parte das empresas dos media. É uma espécie de jornalismo empenhado na defesa de determinada causa ou ideologia e, por vezes, percebido como declaradamente partidário, fugindo aos princípios éticos da profissão que devem presar objetividade, isenção, clareza, verdade, interesse público. Se assim não for oferecem riscos à própria democracia, isto à parte dos artigos de opinião cujos interesses possam manifestar pontos de vista diversamente ideológicos e por vezes tendencialmente partidários.


Quando o corporativismo jornalístico e os donos de empresas de comunicação se pretendem esquivar a responsabilidades, o culpado, o bode expiatório, é sempre o Estado, ou porque não fez o que devia ter feito, ou porque fez o que não devia ter feito, e quando é assim, normalmente, a oposição de direita coloca-se sempre em ambos os lados ou do que mais lhe interessa.


O que não se pretende de todo é que casos como este ou outros aconteçam.

sexta-feira, 3 de novembro de 2023

Não basta acreditar e partilhar é preciso verificar

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Quando o jornalismo sensacionalista se sobrepõe à verdade e noticia narrativas como sendo a verdade dos acontecimentos e, como no caso do hospital em Gaza, toma como verídica apenas a informação de um dos lados, o Hamas, sem o confirmar nem validar com outras fontes, então está a trabalhar no sentido da propaganda e da desinformação proveniente de apenas um dos lados fazendo com que as suas narrativas vençam.


Por entre as guerras com mais visibilidade como são a da Ucrânia e a do Israel-Hamas há uma outra guerra que se desenrola fora do campo de batalha que envolve uma disputa pela mente e pela emoção das pessoas. É uma outra guerra que passa para o meio social que reage consoante o ambiente informativo.


Em tempo de guerra a desinformação surge em enxurrada e agrava-se com a contrainformação feita pelos Estados. A desinformação, algumas vezes gerada por ignorância, outras por premeditação pelas partes em confronto na tentativa de captar para as suas razões as opiniões públicas em vários países e a maior parte das vezes toma posições antagónicas.


É uma estratégia complementar à contrainformação cuja finalidade é enganar e fornecer informações falsas ou distorcidas, para confundir, desorientar ou desmoralizar. O seu objetivo é moldar a perceção pública da realidade e influenciar o decurso das operações captando a atenção do público. Associada à desinformação tem o efeito de poder ser aproveitada por cada uma das partes para levar o público a tirar ilações e interpretações consoante os seus interesses e, em tempos de conflito, tornou-se uma tendência para aproveitar mensagens provenientes de personalidades com influência. É por isso que devemos estar atentos aos riscos e à manipulação mediática que podem atingir a democracia, os direitos humanos e até a paz mundial.


Vem ao caso o discurso do Secretário-Geral António Guterres no Conselho de Segurança da ONU, a 24 de outubro, sobre a guerra entre Israel e o Hamas onde afirmou que “um tsunami de desinformação que está a alimentar a polarização e a desumanização. Devemos enfrentar as forças do antissemitismo, do fanatismo muçulmano e de todas as formas de ódio”, palavras que levaram Israel a exigir a sua demissão do cargo de secretário-geral das Nações Unidas. A partir de um discurso ou de uma opinião é sempre possível fazerem-se várias leituras consoante os pontos de vista que se pretendam evidenciar.


Os media (órgãos de comunicação social: imprensa, rádio, televisão e internet, sobretudo as redes sociais) têm um papel fundamental na difusão da informação podendo contribuir para a manipulação da opinião pública de modo a corresponder aos pontos de vista de cada uma das partes envolvidas num conflito.


A informação, quando fornecida em termos de propaganda, assenta na difusão de ideias, valores e informações com o objetivo de influenciar a opinião pública e o comportamento das populações e, frequentemente, tem a tendência para distorcer a realidade, criando falsas expectativas ou ilusões sobre o andamento ou o possível desfecho dum conflito/guerra.


Se, por um lado, numa situação de conflito bélico a comunicação social tem o dever de informar e esclarecer sobre os acontecimentos da guerra, por outro lado, também pode servir para influenciar o moral dos militares envolvidos nas operações e da população civil assim como mobilizar apoios e denunciar atrocidades e contribuir para a difamação dos inimigos. Durante a Segunda Guerra Mundial, com meios de comunicação muito mais rudimentares comparativamente aos de hoje, foi utilizada a propaganda para influência da opinião pública sobre os vários países envolvidos.


A comunicação social, sobretudo os canais de televisão, é um elemento essencial e poderoso da propaganda que possibilita influenciar e explorar os sentimentos de patriotismo, medo, ódio, esperança e até de culpa. Por outro lado, pode gerar ansiedade, pânico, ódio, preconceito e até violência contra os inimigos ou grupos minoritários dos elementos em confronto.


Assim, surge a contrainformação com a estratégia de enganar o adversário e as opiniões públicas das nações em confronto ao fornecer informações falsas ou distorcidas, para confundir, desorientar ou desmoralizar através da rádio, jornais, panfletos, cartazes, televisão e internet. As redes digitais passaram a fazer parte das operações militares nos conflitos armados podendo interromper o funcionamento de infraestruturas essenciais e serviços vitais para a população civil. Veja-se o que está a acontecer no conflito Israel-Hamas onde foram cortadas infraestruturas de água, energia e também de redes de comunicação com consequências devastadoras associadas a danos por bombardeamentos que afetam hospitais e outros serviços que deixam de funcionar total ou parcialmente para a população civil.


Os hackers são outros elementos que estão a contribuir para a desinformação. Como não são militares não agem de acordo com instruções oficiais das autoridades, mas tornam-se elementos participantes importantes na guerra moderna, a ciberguerra, e não se abstêm de cometer crimes de guerra se consideramos as "leis da guerra cibernética” criadas pela Cruz Vermelha que parece ninguém cumprir.


Não apenas em tempos de guerra, mas também quando há polarização entre estados ou grupos sociopolíticos os hackers podem apoiar voluntariamente um lado ou outro do conflito através operações nas redes digitais globais para combater o inimigo e gerar desinformação. Pode ser, por exemplo, piratear para recolher informações ou operações de sabotagem para destruir bases de dados importantes, ou ainda espalhar desinformação. Os hackers militares podem fazer tudo isto, mas obedecem a ordens, têm comando e representam uma das partes do conflito.


Para combater a manipulação através da desinformação restaria a censura aos diversos canais de informação, como parece estar a acontecer na Federação Russa, para restringir ou proibir informações e notícias consideradas perigosas, ofensivas ou subversivas para um Estado, um governo ou para a sociedade, mas isso é algo que não se pretende. A censura pode estabelecer-se por decreto e estar implícita em algumas redações de órgãos de informação onde se evitam algumas designações como, por exemplo, as que são feitas como ser o Hamas terrorista, como é o caso da BBC.


A BBC não atribui ao Hamas a designação “terrorista” o que é justificado por um artigo no site da BBC News onde o autor escreve que: “Mas isso não significa que devamos começar a dizer que a organização cujos apoiantes os levaram a cabo é uma organização terrorista, porque isso significaria que estávamos a abandonar o nosso dever de permanecer objetivos.”


Ao confundir-se isenção e neutralidade com objetividade parece de algum modo estar a confundir a opinião pública para lavar a face daquela organização. O facto é que foi mesmo um ato terrorista.


O Conselho de Segurança das Nações Unidas em outubro de 2004 na resolução 1566 considerou os atos de terrorismo “como atos criminosos, nomeadamente contra civis, cometidos com o intenção de causar morte ou lesões corporais graves, ou fazer reféns, com o propósito de provocar um estado de terror no público em geral ou num grupo de pessoas ou determinadas pessoas, intimidar uma população ou obrigar um governo ou uma organização internacional praticar ou abster-se de praticar qualquer ato que constitua crimes no âmbito e conforme definidos nas convenções internacionais e protocolos relativos ao terrorismo, não são em circunstância alguma justificáveis por considerações de ordem política, filosófica, ideológica, racial, étnica, religiosa ou outros de natureza semelhante, e apela a todos os Estados para que evitem tais atos e, se não prevenidos, para garantir que tais atos sejam punidos com penas compatíveis com a sua natureza grave.”


Independentemente do que o Hamas defenda o facto é que praticou um ato terrorista no dia 7 de outubro passado. Não podemos disfarçar ou esconder uma ação explícita não a nomeando ou fazendo esquecê-la. Chamar terrorismo à ação executada pelo Hamas não é perder a objetividade. Neste caso específico, como entre outros, a independência não é ser neutro porque neste caso o ser neutro é estar a favor das atrocidades cometidas.


Num conflito como é o do confronto entre Israel e da força militar do Hamas em que este último praticou um ato de terrorismo o jornalismo e a prestação da informação ao público, seja ele que media utilize, imprensa, rádio ou televisão tem a obrigação de verificar e validar as fontes e ter a precaução necessária quando não tem certezas. Quando o jornalismo sensacionalista se sobrepõe à verdade e noticia narrativas como sendo a verdade dos acontecimentos e, como no caso do hospital em Gaza, e toma como verídica apenas a informação de um dos lados, o Hamas, sem o confirmar nem validar com outras fontes, então está a trabalhar no sentido da propaganda e da desinformação proveniente de apenas um dos lados fazendo com que as suas narrativas vençam. Um órgão de comunicação que trabalhe assim estará a trabalhar pro bono para disseminar a propaganda como pretende a organização político militar Hamas, ou, como alguns lhe chamam, Movimento da Resistência Islâmica. Se for assim, a narrativa do Hamas já venceu, e isso pode ser um enorme problema para todos nós.


Combater a desinformação é um dos maiores desafios num mundo onde proliferam informações falsas que se espalham rapidamente. Para tal, deve ser incrementar o desenvolvimento crítico do pensamento em relação à informação que consumimos. Outro ponto importante é o da verificação de fontes de uma informação antes de acreditar e compartilhar. Esta verificação deve ser conferida através de se fonte confiável e se essa informação foi corroborada por fontes independentes e respeitáveis e não partilhar informações duvidosas ou sensacionalistas.


Combater a desinformação é uma responsabilidade que requer os nossos esforços e os da comunicação social.  A atenção e o cuidado preventivo no sentido de se estar vigilante e comprometido no sentido de se promoverem informações precisas e verificadas.


 

domingo, 15 de janeiro de 2023

Jornalismo e indução da opinião pública

Jornaismo opinião pública.png


…num caso há a notícia que passa e, no outro, a notícia que fica e permanece até ao seu esgotamento numa espécie de ladainha diária, numa espécie de indução da opinião pública.


Uma das profissões que admiro é a de jornalista. Admirei na minha juventude e continuo a admirar. Tenho um pequeno sentimento de inveja da profissão, talvez porque gostaria de ser profissionalmente como eles, escrever como eles, falar como eles, investigar como eles, por vezes até ser “perseguido”, pressionado (algo que, para mim, seria difícil de suportar).


Há jornalistas que são pressionados pelas redações para fazerem “cachas” jornalísticas, seja a que custo for, mesmo omitindo partes da verdade dos factos, condicionamento dos mesmos e a publicação de artigos e notícias com objetivos pré-concebidos para denegrir, acusar, enxovalhar, denunciar sem provas, etc., aí já não dou para esse peditório.


Tem-se muita das vezes a ideia de que os jornalistas não têm vertente ideológica, que são politicamente, independentes, isentos e encontrarmos por parte deles alguma resistência em aceitar o contrário. Podem ser independentes face ao poder político, mas não o serão face ao poder patronal. Habitualmente afastam a possibilidade da não isenção. Ao dizerem-se isentos e independentes do poder propõem-se afastar qualquer simpatia ideológica embora se verifique pelos comentários que produzem que ela, de facto, está presente.


Neste contexto os meios de comunicação, diria que todos, não estão isentos de valor político-ideológico. Assim, ser jornalista significa ter de se submeter e contribuir através de seus trabalhos para a manutenção da ideologia dos meios de comunicação onde exerçam a sua profissão.


Se definirmos ideologia como uma aceitação rígida, até mesmo fanática, de um conjunto de ideias e valores, não importa quais, então é coerente que os jornalistas neguem tê-los ou evitem manifestá-los por questões de ética que regem a sua conduta pessoal e profissional.


Mas, se, pelo contrário, ideologia for entendida como o conjunto de atitudes sociais, crenças políticas e valores morais que moldam a interpretação do mundo, então todos ou quase todos trabalhamos com base numa estrutura ideológica, incluindo os jornalistas. Contudo, neste tipo de ideologia a que me refiro quando estamos no âmbito da política, então, tenho dúvidas se, no exercício do seu direito de cidadania, ao votarem num partido que nos venha a governar, se não terão também, com certeza, como a maior parte de nós, uma opção político-partidária.


Para mal do jornalismo muitas pessoas dizem que podem confiar mais nas redes sociais on-line como fontes de notícias e informações não se apercebendo que por elas são influenciados ao que acresce a sua participação em discussões on-line, a maior parte da vezes insensatas e irresponsáveis provenientes de vários quadrantes ideológicos e políticos, das mais democráticas às mais extremistas, por vezes até de índole criminosa.


A informação exclusiva pelas redes sociais pode ter como consequência serem elas a decidir aquilo que iremos saber e, por isso, correndo o risco de seremos manipulados, o que também não estará fora de causa para outros órgão de comunicação.


Numa democracia liberal o escrutínio do poder é essencial e a comunicação social deve também exercer esse importante papel de escrutínio do poder para o qual o jornalismo e os jornalistas são peças fundamentais. Mas os jornalistas, como quaisquer pessoas são humanos e, como tal, possuem defeitos, virtudes, gostos, ideais, anseios, opções ideológicas e dimensões políticas várias, com diferenças de identidade. Todavia é nos relatos, nos modos de relatar uma notícia ou fazer um comentário político que as opções e diferenças político-ideológicas se manifestam, ainda que sob a pretensão de uma capa de isenção.


A seleção de notícias pelas redações dos órgãos de comunicação social, especialmente as televisões, com a urgência de dar primeiramente uma notícia pode fazer com que, sem estar completamente confirmada ou verificada, pela pressão que vai no sentido de ser dada a notícia em primeiro lugar, por motivo da concorrência entre canais e de marcar uma agenda de informação política.


Ao longo dos anos que tenho visto e ouvido noticiários televisivos percecionei que há algo que não vai bem no mundo da comunicação social. A veracidade dos factos e o tratamento das notícias são focados segundo interesses quer das redações, por vezes com alguma parcialidade, quer pelas empresas que subvencionam os media, quer pelos canais de televisão, quer pela imprensa.


Vejamos de maneira muito geral o que se tem observado ao longo dos anos nas noticiosas televisivas cuja perceção para quem esteja atento é a de que há uma predominância de escrutínio aparentemente rigoroso para com alguns partidos que estejam no Governo comparativamente com outros que estejam ou estiveram em circunstâncias idênticas.


Sem querer entrar no domínio de suspeições e de teorias da conspiração analisamos  que, quando está no poder um partido de esquerda ou centro esquerda o escrutínio pelos órgãos de comunicação aprofunda a procura de casos e são mais exigentes, rigorosos e propensos para a insistência em investigações jornalísticas com a sua repetição exaustiva de modo a comprometer o partido que está no governo sobretudo quando o mesmo é o Partido Socialista propiciando o lançamento para a opinião pública de determinadas situações, factos ou notícias que lhe sejam desfavoráveis de modo a contruir uma narrativa oposicionista aproveitada pelos partidos que encontrem no momento na oposição.


Uma das missões da investigação jornalística televisiva sob a forma de reportagem ou procura de notícia, deve ser a de informar o público sobre irregularidades públicas ou privadas, políticas, económicas e sociais. Se prolongada e repetitiva, mas, se pouco desenvolvida em relação aos factos são redutoras podem intoxicar e minar a opinião pública sendo até, por vezes, redutoras.


Não se defende que casos de corrupção, compadrio, transgressão de normas ou princípios, questões de ética, interesses pessoais ou outros verificados como factos não sejam divulgados, noticiados, escrutinados e investigados. O que se critica é a diferença na procura, nos critérios seguidos e na exigência em função do partido que esteja no Governo, seja ele o PS ou o PSD ou qualquer outro. O que passa para a opinião pública e a sensação com que se fica é a de que os atos investigados são insistentemente mais salientados quando o primeiro está no poder e que a imagem que se pretende passar é a de que a corrupção e a incompetência se encontram apenas num partido.


Se vasculharmos notícias sobre os vários governos em que tenham surgido casos de corrupção que tenham sido utilizados como arma de ataque a ministros, secretários de estado e autarcas ou outros casos que os comprometam publicamente, como prevaricações ou negociatas, ligações familiares com empresas privadas que tenham tido ou com que tenham colaborado, ligações a escritórios de advogados raramente encontramos ligações e referências a militantes ou ex-militantes da direita ao longos do anos de governação do PSD e ou CDS. Serão estes impolutos, imaculados. Se os houve, ou há, passam na comunicação social sem aprofundamento, insistências, repetições como qualquer notícia outra que passa e logo após desaparece.


Ficamos com a impressão de que casos como os antes referidos, quando se trata da direita, há uma tendência para deixarem de ser de interesse público e de investigação ou pesquisa jornalísticas e que as fontes ficam no seus esconderijos, como se tivessem o dom da invisibilidade, parecendo  carecer de informação para denúncia e, se encontram  algo inconveniente passa a ser de tratamento jornalístico superficial e pouco aprofundado, sem repetições exaustivas nos noticiários e rápida e facilmente caem no poço do esquecimento.


Explicando-me melhor, num caso há a notícia que passa e, no outro, a notícia que fica e permanece até ao seu esgotamento numa espécie de ladainha diária, numa espécie de indução da opinião pública.


É como se houvesse uma espécie de lei do efeito de Edward Thorndike tratado na psicologia. De acordo com este princípio, as ações que são seguidas por resultados desejáveis são mais suscetíveis de serem repetidas, enquanto aquelas seguidas por resultados indesejáveis são menos suscetíveis de serem repetidas. Explicando: se aplicado aos media e às notícias e, de acordo com aquele princípio, as ações (notícias) que sejam seguidas por resultados desejáveis (p. ex. algo que venha contribuir para perda ou desfavor do envolvido(s) são mais suscetíveis de serem repetidas, enquanto aquelas seguidas por resultados que não sejam desejáveis para o envolvido(s) são menos suscetíveis de serem repetidas.


Coloca-se-me então uma dúvida na perspetiva do meu fator de análise: será que nos partidos de direita os seus elementos, sejam eles, parlamentares, tenham pertencido, ou não, em governos, autarcas são ou foram sempre imaculados, virtuosos, incorruptos? Para a opinião pública talvez sejam porque não há aprofundamento nem interesse em investigações jornalísticas e, quando o há sai rapidamente das parangonas da comunicação social impressa ou televisionada. Outra dúvida que se pode colocar é a de saber se as nomeações para cargos de Governo quando a direita PSD e na altura também o CDS estão no poder são tão escrutinados quanto os do Partido Socialista.


Lembremos o caso que envolveu a ministra das finanças Maria Luís Albuquerque que em março de 2016 que segundo o DN, e conforme noticiava o Expresso, «as empresas Gesphone e Whitestar Asset Solutions S.A, adquiridas pela Arrow Global em 2015, tiveram benefícios fiscais num total de 381,7 mil euros entre 2012 e 2014, segundo informação disponibilizada pela Autoridade Tributária». «O jornal avançava que a maioria do benefício foi para a Whitestar, num total de 362,5 mil euros, dos quais 198 mil foram para a criação de emprego e os restantes 163,7 para o crédito fiscal ao investimento. Para a Gesphone - Serviços de Tratamento e Aquisição de Dívidas SA o benefício foi de apenas 19,2 mil euros em 2013, a maioria resultante do crédito fiscal ao investimento».


Em abril de 2018 o semanário Jornal Económico lança uma notícia com o título «Montenegro faturou 400 mil euros em ajustes diretos de autarquias do PSD» e noticia que «Entre 2014 e 2018, a sociedade de advogados Sousa Pinheiro & Montenegro (detida em 50% pelo deputado do PSD) obteve 10 contratos por ajuste direto das câmaras municipais de Espinho e Vagos, ambas lideradas pelo PSD». Foram fogachos que os bombeiros de serviço apagaram passado pouco tempo.


Em 11 de janeiro do corrente o Porto Canal recorda: «Luís Montenegro fez contratos por ajuste direto com autarquias de Espinho e Vagos» e a RTP afirma que «Escritório de advogados de Montenegro fez dez contratos por ajuste direto com Espinho e Vagos». Já em maio de 2022 já a SIC Notícias titulava que «Banco de Fomento contratou a empresa de Luís Montenegro por ajuste direto».


Em maio de 2022 o Diário de Notícias escrevia que «Da parte da sociedade de Montenegro, Nuno Castro Marques diz que este é um assunto sem sentido e que só surge agora devido ao momento político do PSD».


Ora, na altura, a notícia terá passado despercebida e não foi exaustivamente repetida pelos media, agora, com a Operação Vórtex, que investiga diversos crimes económicos no seio da Câmara Municipal de Espinho, traz à tona este caso em que Luís Montenegro é mencionado. Poderemos interpretar isto como uma justificativa para mostrar que não há uma “perseguição” jornalística ao PS e que também são dadas notícias de outros partidos sem o que a isenção jornalística estaria cumprida? Possivelmente não, serão apenas coincidências. Isto não invalida a perceção negativa que provoca na opinião pública devido à repetidas e insistentes notícias dos casos que envolvem o PS e o Governo.


A forma insidiosa como alguns órgãos de comunicação tratam algumas notícias é por vezes demasiado evidente a mostra da benevolência ou o desinteresse face casos ou facto noticiosos. Para melhor se perceber ao que me refiro incluo abaixo uma imagem da capa do Correio da Manhã onde é evidente a importância dada por este jornal ao facto que foram os graves acontecimentos no Brasil.


A importância/relevância dada à subjetividade de notícias de detrimento dum facto que é minimizado em noticia não é evidente em relação a outros dois cuja subjetividade é evidente. Das três notícias desta capa em 9 de janeiro de 2023 qual foi, para o leitor, o acontecimento mais importante que marcou a imprensa internacional? Claro que depende de cada um, é o resultado da subjetividade, mas parece não terem sido os acontecimentos no Brasil os mais noticiados e com relevância neste órgão de comunicação.


Página Correio da Manhã.png


O posicionamento político e ideológico dos órgãos de comunicação é evidenciado pela “Agenda Setting” (fixação de agenda) e pela hierarquização da relevância dada às notícias. Isto é, “a hipótese segundo a qual a agenda temática dos meios de comunicação impõe os temas de discussão social. Por outras palavras: as pessoas, nas suas comunicações interpessoais, discutem prioritariamente sobre os temas abordados pelos meios de comunicação”. Assim, na imprensa e nos jornais noticiosos televisivos são selecionados para a primeira página ou para a abertura sobretudo notícias que impliquem o interesse para a opinião pública. Para o Correio da manhã parece que a invasão do Congresso no Brasil não terá relevância.


Outra situação também muito recente foi a notícia do Público Montenegro fez dez contratos por ajuste direto com as câmaras de Espinho e Vagos. Entre fevereiro de 2014 e Janeiro de 2022, a sociedade de advogados de que o presidente do PSD era sócio faturou 679 mil euros em contratos com entidades públicas.


Assim, cabe aos media dizer ao público que devem pensar e é através da seleção de determinadas notícias que os editores constroem a realidade política, social, entre outras o que na maior parte é apenas absorvido pelo referido público sem quaisquer críticas a não ser pelos comentadores da política. Ver exemplo na nota final.


Conforme já afirmei antes, ao comparar os casos noticiosos relevantes que afetem os dois principais partidos da política portuguesa que alternam no poder, é manifesta a forma como as notícias, sobretudo nos canais televisivos, são mantidas ou retiradas da sua agenda pública. Estas ações determinam e influenciam o modo como nós o público entendemos e nos relacionamos com a realidade informativa, assim como também a influencia o modo como essa realidade é por nós mais ou menos valorizada.


Face ao exposto devemos estar atentos ao que órgãos de comunicação nos pretendem “vender” e o porquê desse produto dito informativo, e, sobretudo, quando a informação está sobre a égide do jornalismo de investigação.


Na minha perspetiva pelas circunstâncias e pela forma como os media atuam e produzem a informação política para a opinião pública é impossível resistir anos à erosão de poder e à estabilidade durante vários seguidos, seja qual for o líder, ou o Governo.


Nota: Exemplo do funcionamento da Agenda Setting dos media. Imaginemos que num determinado dia dum determinado ano um político de um determinado partido que iria concorrer a para umas eleições foi apanhado alcoolizado numa rua e foi e visto por uma certa pessoa que o fotografou e enviou para reações de órgãos de comunicação social. O caso foi noticiado nas primeiras páginas de alguns jornais e nas aberturas dos jornais televisivos e tornou-se um assunto muito comentado nas redes sociais.


Dias depois, uma sondagem colocou a seguinte questão numa pesquisa “Acha que se fossem hoje a eleições votaria contra ou a favor desse político nas listas e se deveria ser expulso do partido?” No dia seguinte de forma alarmante nos noticiários era noticiado: 91% dos entrevistados disse que não mais votaria naquela político e que 89% queria que fosse expulso do seu partido.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2022

Mais uma vez a ERC e o Ventura que queria ganhar umas eleições

ERC Ventura e SIC-2.png


O caso da ERC e do Programa de Ricardo Araújo Pereira "Isto é Gozar com quem Trabalha" que não convidou na altura da campanha eleitoral André Ventura para o seu programa tem dado que falar. Publiquei no post anterior um artigo de opinião de João Miguel Tavares sobre o mesmo tema. Calha agora a vez de Carmo Afonso escrever uma artigo de opinião no mesmo jornal Público.




Carmo Afonso, à semelhança do outro articulista, mas por motivos diferentes, também não é do meu agrado. Talvez porque, um vira-se demasiado para o lado direito e a outra porque se vira demasiado para o lado esquerdo (está algo muito em consonância com  PCP). 


Nesta situação, e do meu ponto de vista, ambos abordam o assunto de Ventura e da ERC embora com perspetivas diferentes. 


Assim, apresento o artigo de Carmpo Afonso que, segundo escreveu a revista Sábado em maio de 2021, seria a nova arma contra Ventura e o Chega. "Advogada de causas (e de esquerda), entrou na luta pela ilegalização do partido ao juntar-se ao processo iniciado por Ana Gomes no Tribunal Constitucional".






Também isto é gozar com quem trabalha










Ao contrário dos programas de televisão de Ricardo Araújo Pereira, as deliberações da ERC não se destinam a fazer-nos rir.







RAP gosta de tratar bem os seus convidados. Dá-lhes a oportunidade de brilhar e de se apresentarem espirituosos. Qualquer pãozinho sem sal que lá vá acaba por revelar uma faceta, que na verdade quase todos temos, que faz merecer afecto ou simpatia. Por que raio deveria fazer isso a André Ventura?


A ERC deliberou sobre o assunto e estava particularmente inspirada. Considerou que o programa de RAP, sendo de humor, não está abrangido pelo regime jurídico da cobertura jornalística em período eleitoral. Este regime aplica-se a todos os órgãos de comunicação social, mas, por razões óbvias e até instintivas, diz apenas respeito a jornalismo e não vincula programas de entretenimento. Aqui estaria a resposta jurídica para a questão da ERC. Não é jornalismo, não deve ser tratado como jornalismo e, por isso, não está obrigado ao cumprimento do princípio da igualdade de oportunidades aqui em causa.


Sucede que a ERC, inspirada como estava, muda de regime jurídico e passa a incluir programas de humor numa disposição de carácter geral, o art. 56.º da Lei Eleitoral para a Assembleia da República (LEAR). Mais, tomou o lugar da Comissão Nacional de Eleições que, tendo essa competência prevista nas suas atribuições fundamentais, deve assegurar a igualdade de oportunidades dos candidatos por parte de entidades públicas e privadas, como previsto no referido artigo.


Claro que a ERC não é clara. Considera, por exemplo, que RAP tem uma maior margem de discricionariedade na forma como aborda o período eleitoral. Ora se não está em causa a legislação que o desobriga por não fazer jornalismo, mas sim uma lei geral que diz que todas as entidades, públicas ou privadas, estão sujeitas ao princípio da igualdade de oportunidades durante a campanha eleitoral, de onde vem esta maior discricionariedade? É que a lei geral não contém essa maleabilidade. Se estivesse em causa a aplicação do art. 56.º da LEAR, o “Isto É Gozar Com Quem Trabalha” não teria mais liberdade que um teatro municipal ao disponibilizar as suas instalações durante a campanha eleitoral a diferentes forças políticas.


Daqui saltou para considerações contraditórias e turvas como considerar que o programa de RAP cruza política com entretenimento e que a escolha de determinados convidados, com a exclusão de outros, deve ser objeto de especial ponderação. Sobretudo, seriam considerações irrelevantes se, como pretende a ERC, estivéssemos perante a aplicação da LEAR.


Pergunta: em que é que ficamos?


Talvez alguns de vós se recordem do ritmo da cantilena que marcava um sketch dos Gato Fedorento em que RAP imitava Marcelo Rebelo de Sousa e a sua posição relativamente ao aborto. A conversa entre RAP (Marcelo) e José Diogo Quintela (uma convidada de Cascais) corria assim:


– Convidada residente em Cascais: Posso fazer um aborto?
– Marcelo: Pode!
– Convidada residente em Cascais: Mas não é proibido?
– Marcelo: É!
– Convidada residente em Cascais: E o que é que me acontece?
– Marcelo: Nada!



A ERC resolveu fazer parecido. O RAP tem maior discricionariedade a escolher os seus convidados? Tem! Mas não é proibido desrespeitar o princípio da igualdade de oportunidades? É! E o que é que lhe acontece? Nada! Sucede que, ao contrário dos programas de televisão do RAP, as deliberações da ERC não se destinam a fazer-nos rir.



RAP é uma bolsa de resistência no processo de normalização do partido Chega e do seu dirigente André Ventura. Uma pessoa que sabe fazer-nos rir também sabe levar-nos a sério



RAP recusa-se a convidar André Ventura para os seus programas de entretenimento e claro que é livre para o fazer. Todos nós somos igualmente livres para ter uma opinião sobre esta decisão de RAP. Tenho prazer em falar da minha: o RAP é uma bolsa de resistência no processo de normalização do partido Chega e do seu dirigente André Ventura. É um motivo de orgulho a forma como um dos principais humoristas portugueses se recusa a embalar na ideia de que devemos tratar a propagação de um ideário racista e neofascista como um fenómeno normal da vida política portuguesa, sentarmo-nos todos à mesa e fazermos umas piadas sobre isso. Uma pessoa que sabe fazer-nos rir também sabe levar-nos a sério.


Várias vezes sentimos falta de uma intervenção da ERC a propósito de intervenções de Ventura na comunicação social. Recordem que ocupou, e muito, tempo de antena expressando posições xenófobas e discriminatórias e que a sua prestação num debate televisivo com Marcelo nas presidenciais lhe valeu uma condenação judicial já transitada em julgado. Silêncio absoluto.


E, afinal, não fazia falta nenhuma.


A autora é colunista do PÚBLICO e escreve segundo o novo acordo ortográfico






 

domingo, 16 de outubro de 2022

As oposições do repete, repete

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Após a entrega do OE2023 na Assembleia da República pouco ou nada foi falado nos jornais televisivos, a semana passou com os casos e casinhos das incompatibilidades de ministros e secretários de estado devido a participações em empresas dos pais, dos maridos, das dezenas de euros com que participam, etc. Depois, seguiu-se a TAP que privatiza e não privatiza, as ameaças de greve pelos sindicatos e, por aqui, e por ali, o caso da localização, ou não, do aeroporto.


Seguiu-se, entremeado, o caso das declarações do Presidente da República sobre as queixas de abusos sexuais de menores na Igreja Católica Portuguesa que alguns partidos enfatuaram, mas com o PCP a afirmar, e bem, que "ser sustentadas, desdramatizadas, sem esquecer que é preciso fazer a investigação". Não contente com isto o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa saiu-se com a promoção de Passos Coelho não o subtraindo a  elogios e potenciais promoções a uma futura Presidência da República.


Estes casos são demasiado graves para se esquecerem e continuar as investigações, mas daí o aproveitamento político e pessoal para tirarem dividendos políticos é a prova daquilo que é a nossa política partidária, com tantos casos que afetam o país consumiram-se horas de televisão e, vai-se a ver, e nada.


As televisões repetem, repetem o já repetido.


A televisão funciona como um agente político e desempenha um papel cada vez mais ativo e por ser o mais frequentado pelas massas está sempre sob a alçada dos políticos que lhes interessa para as suas querelas partidárias e, em alternância, de oposição a governos.


Não é menosprezível que as mensagens de cariz político com o fundamento de notícias veiculadas pelas televisões e pela imprensa sejam, por vezes, apresentadas consoante alguns “atrativos/simpatias/interesses” partidários. Vamos entrar no período da discussão do OE2023 e, mais uma vez, iremos ser confrontados com os argumentos de cada um dos partidos eleitos e que estão presentes na Assembleia da República que acham que o orçamento de um Governo de maioria de um partido deveria ser ao que cada um deles acha deveria ficar conforme cada um deles achava.


Quando os partidos se encontram na oposição na luta pelo poder os argumentos vão no sentido destrutivo de tudo quanto venha do governo que e estiver em funções cujo objetivo são a obtenção de dividendos políticos tendo em vista um qualquer ato eleitoral mais ou menos próximo.


Em democracia, a votação contra um Orçamento de Estado dum Governo proposto pelo partido(os) é comum, mas uma tal decisão pode não estar em linha com os interesses do país, mas com interesses meramente de política ideológica e partidária. Se cada orçamento fosse conforme as pretensões de cada um dos partidos representados na Assembleia da República, então, deixaria de ser um orçamento do governo em funções, mas algo fictício.


As democracias possibilitam aos partidos políticos exercerem o controle e a crítica ao funcionamento dos governos. À primeira vista, no caso português, o controle exercido sobre os governos pelos partidos políticos quando na oposição não é absoluto e menos ainda quando lidam com maiorias absolutas.


Quando começa a aproximar-se a apresentação dum orçamento para o ano seguinte a comunicação social começa a espalhar as críticas dos opositores e comentadores dos opositores ao Governo preparam a opinião pública fazendo sobressair as críticas que ajudam a oposição. A evidência é que qualquer orçamento apresentado por um determinado Governo nunca poderá ser aceite pelos partidos que se encontram na oposição. Se tal fosse o caso deixaria de ser o orçamento do Governo e passaria a ser o da oposição. Não será de estranhar tanta polémica sobre o orçamento. As falhas poderão. Contudo, podem ser colmatadas por propostas de melhoramento vindas dos partidos da oposição. Não há orçamentos puros e universais, isto é, que agrade, sem exceção, a todas as correntes sociais, políticas e partidárias.


Os momentos de discussão orçamental são de maior ou menor instabilidade social, política e governativa, neste último caso quando não há maiorias absolutas e a possibilidade de consensos não sejam conseguidos. A não aprovação de um orçamento pode levar a demissões de governos. Veja-se o que se passou aqui com a demissão de António Costa, primeiro-ministro de um Governo minoritário do Partido Socialista, o que levou a eleições antecipadas causado pela rejeição de toda a oposição do Orçamento de Estado, mesmo que, no caso, tal não fosse imperativo. Não irá ser presentemente o caso por via de maioria absoluta do partido do Governo.


Todos estes casos fazem parte da prática democrática e sublinha a importância gradual que os partidos foram adquirindo no desenvolvimento da democracia em Portugal, pese embora as instabilidades governativas ao longo dos anos. A introdução de críticas à ação governativa por parte das oposições, de direita e de esquerda, é movida pelo anseio de preparação de uma potencial chegada ao poder.


A oposição aos governos não se faz apenas no Parlamento, mas também no exercício do direito à manifestações na rua demonstrativas de encenados descontentamentos e através de reivindicações grevistas. É a oposição cujo objetivo é a desestabilização social por saberem que, sem coligações e acordos, dificilmente chegarão ao poder através de eleições democráticas, assim, para além de se oporem no parlamento, manifestam-se nas ruas através dos sindicatos que controlam e fazendo “associações” parlamentares pontuais, muitas vezes contranatura ideológica.


Por considerar oportuno abordar neste artigo o papel da comunicação social no controle do poder insiro a partir deste ponto parte dum texto que anteriormente publiquei no blogue “apropositodetudo” com o título “O desgoverno das oposições ao Governo”.


Outro elemento essencial à efetividade democrática e de controle ao poder são as comunicações sociais também designadas por media. Não há democracia sem liberdade de expressão de pensamento que lhe é inerente, não apenas pelo direito de ser ouvido, mas, também, pelo direito de ouvir o que outros têm a dizer. A estes podemos ainda juntar as redes sociais veículos de informações falsas, deturpadas e muitas vezes incitadoras à instabilidade social, à violência física e psicológica e incitamento ao ódio.


Só através dos órgãos de comunicação social é possível adquirir um esclarecimento sobre a política para, sobre ela, dar opinião e a influenciar. Os meios de comunicação social contribuem para informar o cidadão pela difusão de opiniões (por vezes, também, desinformar criando entropias na informação prestada).


Ainda assim, em benefício da democracia há algumas cautelas que devemos ter em conta que é o cuidado com a formação de “fábricas mediáticas de consenso”, isto é, um poder mediático, económico e ideológico, concentrado e, mesmo disperso, que possa condicionar e controlar um governo. O eleitor pode ser influenciado pelos media de modo que, em vez de escolher, passa a ser escolhido e modelado pelos que estão a eleger.


A comunicação social mais comum é a televisão, onde a imagem prevalece e a capacidade simbólica é evidenciada pela abstração decorrente da linguagem do meio. No entanto, como a televisão se baseia, sobretudo, na imagem, há um risco claro do empobrecimento do entendimento e da compreensão. A influência da televisão sobre a opinião pública pode ser determinante para os rumos da política, do governo, até porque, com frequência, a televisão exibe-se como porta-voz de uma opinião pública que, conforme alguns investigadores é, na realidade, o eco de retorno da sua própria voz.


“Basta a democracia representativa, para funcionar, que há uma opinião pública que é verdadeiramente do público. Mas é cada vez menos verdade, dado que a videocracia está a fabricar uma opinião solidamente hetero-dirigida que, aparentemente, reforça, mas em substância esvazia, a democracia como sendo um governo de opinião. Porque a televisão é mostrada como um porta-voz de uma opinião pública que é, na verdade, o eco do regresso da própria voz.” Sartori, 1999, ed. Espanhola p. 72.


Partidos e comunicação social parecem contribuir para que Portugal seja, em democracia, um país difícil de governar, mas que, mesmo assim é a forma melhor de governo. Aliás parece ser ajustada a frase, atribuída a Júlio César e que ao longo dos anos nos tem assentado, dizia ele que “nos confins da Ibéria, há um povo que não se governa nem se deixa governar". Faz-me lembrar a banda desenhada Astérix criada em 1959 por Uderzo e Goscinny.

quinta-feira, 21 de julho de 2022

Mecanismos de influência da opinião pública nas sondagens

Opinião pública e sondagens.png


A formação e alteração de opiniões é feito através de mecanismos sociais e psicológicos por intermédio dos órgãos de comunicação social, também conhecidos por media, é raro provocarem mudanças de opinião. Há para alguns autores (Klapper) há um conjunto de mecanismos de formação de opinião que tende para a consolidação das opiniões preexistentes do público do que para a mudança de opinião. Estes mecanismos raramente atuam o que explica o facto de mudança de opiniões e de “conversão” a opiniões contrárias, isto é, mudanças de convicções, temporárias ou não, nos acontecimentos na área política. Estas mudanças de opinião parecem ser menores sobretudo nas passagens de uma opinião políticas ou partidária para outra sobre determinados fenómenos em que os media podem ter uma influência direta.


O recetor interpreta e adapta a mensagem ao seu contexto subjetivo, conhecimento e motivações, mas investigações têm demonstrado que a ação dos media na formação das opiniões de pessoas que não têm conhecimento ou motivações sobre um determinado assunto constataram que, sobretudo a televisão, afetava as ideias das pessoas sem conhecimentos prévios sobre um determinado assunto ou facto, mas não o das pessoas mais ou menos esclarecidas.


As possibilidades de condicionamento pelos media, se forem mobilizados por governos totalitários, como o de Vladimir Putin, por exemplo e, muitas vezes as mudanças que se vão alternando referem-se aos frustrados do sistema.


Condicionar sondagens para o lado que se pretende segue um processo muito simples que se relaciona com mudanças de opinião. Primeiramente começa-se pelos meios de comunicação social, televisão, imprensa e pelos seus colaboradores que fazem comentários e publicam opiniões. Para começar selecionam-se evidências negativas que possam ter impacto na opinião pública ainda que as mesmas sejam pontuais e suscetíveis de correção ou melhoria.


Responsabilizam-se pelas evidências ministérios ou pessoas e figuras do governo potencialmente envolvidas que possam ser menos gratas à oposição e aos media para serem sistematicamente criticados. Ao mesmo tempo convocam-se outros atores desejosos de protagonismo que comentem e façam oposição sobre o mesmo fazendo crer às audiências que não estão a fazer política e que são isentos.


Dá-se visibilidade a alguns protagonistas que passam desempenhar funções sindicais ou outras (ex. ordem dos médicos) e se mostram frente a manifestações anti ministros ou elementos do governo.


Diariamente repete-se a mesma matéria até à exaustão com algumas variantes de ocasião. Interrompendo-se sempre surjam outras notícias alarmantes que se sobreponham e as façam passar para segundo ou terceiro lugar no alinhamento noticioso até à recuperação do anterior tema logo que possível ou necessário. Por exemplo, durante os incêndios as referências à urgências de obstetrícia deixaram de estra em primeiro plano. Aparentemente parece que a matéria anterior deixou de ser importante. Logo após voltarão ao mesmo.


Fazem-se repetições exaustivas e desgastantes para os intervenientes e personalidades visadas. Uma ou duas semanas depois encomendam-se sondagens. Alguém tem dúvidas dos resultados? Convidam-se personalidades para entrevista nas televisões que possam ajudar a induzir as suas opiniões no público.


Está iniciado um processo de indução à opinião pública para os fins pretendidos: mostrar que o partido do governo está em queda e desgastado e que a oposição está em alta.


Estamos em democracia, não há dúvida, mas estes métodos são utilizados também em regimes totalitários. Numa democracia são aceites estes métodos desde que não haja interferência direta do poder na comunicação social. A formação da opinião pública de acordo com interesses vários atravessa todos os regimes.


Em síntese esta espécie de exposição seletiva serve para captar o público para critica e oposição podendo-se desta forma iniciar o desgaste e a oposição aos governos de modo a auxiliar também partidos da oposição a fazê-lo na luta partidária que possa levar num futuro mais ou menos próximo à ocupação do poder, através de eleições obviamente.

domingo, 9 de janeiro de 2022

O que revelam os debates: opinião de José Pacheco Pereira

 


  



Será a censura que incomoda Pacheco Pereira? | Nota da Direcção | PÚBLICO


O que revelam os debates





A racionalidade não abunda, porque coreografias e encenações, com truques habituais para gerar atrapalhação no outro e sound bites na comunicação social, são a matéria-prima dos debates.






José Pacheco Pereira num artigo de opinião publicado no jornal Públicode faz uma análise dos debates que, de certo modo, coincidem com os meus pontos de vista enquanto telespectador atento.


Os intervenientes nos debates partidários, assim como os comentadores que se lhes seguem, preocupam-se mais com pontos de vista efémeros do que com a verdade e a isenção, sobre assuntos muitas vezes longe das suas áreas de competência profissional. São uma espécie de relatores do que se viu, mas, de acordo com a sua idiossincrasia ideológica e partidária avaliam positivamente os intervenientes que mais dela se aproxima podendo assim influenciar o público o sentido de voto.


O que revelam os debates


(José Pacheco Pereira, in jornal Público, 08/01/2022)


A racionalidade não abunda, porque coreografias e encenações, com truques habituais para gerar atrapalhação no outro e sound bites na comunicação social, são a matéria-prima dos debates.


Numa campanha eleitoral que se passa quase exclusivamente na comunicação social, os debates televisivos, mais de 30, acabam por ter mais importância do que se fossem mitigados por eventos de campanha, que a pandemia hoje não permite. (*) Já escrevi e repito, apesar da fúria de alguns jornalistas e gente de agências de comunicação que precisa de os bajular: uma campanha eleitoral totalmente dependente da comunicação social abre caminho a perversidades. Não se trata de mediação, que é suposto ser uma função fundamental da comunicação social, trata-se de opinião, de manipulação, de parti-pris, simpatias e antipatias escondidos sob a intangibilidade da condição profissional. Não é preciso ir mais longe do que a recente campanha interna no PSD em que a maioria dos jornalistas e órgãos de comunicação social fez campanha por Paulo Rangel e contra Rio. A coisa foi tão evidente que não é preciso dar exemplos, mas, se for preciso, abundam.


Os debates, quando não têm um interlocutor suplementar que interfere de forma agressiva no debate, prejudicando-o (como se passou em debates da SIC em que parecia que havia um terceiro participante na campanha), na parte em que há um genuíno frente-a-frente são reveladores e podem ter um papel na opinião traduzida no voto. Eles revelam, em primeiro lugar, as qualidades e defeitos pessoais dos antagonistas, traços de carácter por detrás da encenação, o que sabem ou não sabem, a inteligência, a capacidade de clareza, a riqueza vocabular, a cultura política ou a sua ausência, a experiência e aquilo a que os sociólogos chamam background assumptions, as ideias, preconceitos, gostos, que estão por detrás do discurso público. Nisto os debates são razoavelmente eficazes, e a logomaquia dos comentários posteriores pode ser útil na sua revelação e escrutínio.




É, no entanto, verdade que essa torrente de comentários, mesmo os melhores - porque muitos não têm pés nem cabeça e resultam em “notas” absurdas para mostrar como são originais os “professores” ou são exercícios de La Palisse –, se tornam em grande parte desnecessários porque os espectadores apreendem com facilidade este aspecto da comunicação, que é empático e por isso imediatamente transmissível. Por exemplo, a frieza de Catarina Martins e Rui Tavares, o cansaço de Jerónimo, a habilidade de Costa, os labirintos em que se enreda Rio, a agressividade monocórdica de Ventura, tudo isto se percebe de imediato, seja quais forem as simpatias que se tenha por cada um deles.


Depois, há um outro nível, que é o da racionalidade, normalmente num exercício de “revelação” do outro, em que o grande e o único exemplo foi o de Rui Tavares face a Ventura. Mas a racionalidade não abunda, porque coreografias e encenações, com truques habituais para gerar atrapalhação no outro e sound bites na comunicação social, são a matéria-prima dos debates. Quando Cotrim de Figueiredo disse que o Bloco de Esquerda era o “Bloqueio de Esquerda”, designação trazida no bolso de casa, acabou por conseguir que ela fosse repetida nos títulos comunicacionais – porque era para isso que tinha sido preparada –, mas por outro lado mostrava que nada mais do que dissera valia a pena repetir.


Ventura, que foi a personagem-chave nos primeiros debates pelo estilo agressivo, pareceu dominar, mas esse aparente domínio revelou algo que lhe é prejudicial, a repetição de acusações, invectivas, afirmações de peito cheio, mas de cabeça vazia, vai perdendo eficácia à medida que os debates com ele são sempre a mesma coisa. O seu único sucesso foi com Rio, que ele enredou em directo, com todos os outros ficou a falar sozinho, sem ter nada para dizer. Também aqui o debate mais conseguido foi o de Rui Tavares.


Aquilo para que os debates pouco servem é para discutir propostas ou programas de governação, com o tempo curto de mais para pensar e discutir a sério. Numa atitude hipócrita, a comunicação social está sempre a queixar-se de que não se discutem os “problemas dos portugueses”, porém aceita um modelo que impede qualquer discussão, mas que é bastante para o espectáculo, para os truques e armadilhas preparados. A rigidez da legislação eleitoral tem também um papel, ao multiplicar de forma absurda o número de debates para assegurar artificialmente a igualdade das candidaturas.


Há também um outro aspecto que é negativo nos debates tal como estes se têm desenvolvido. A obsessão de os transformar em combates, que é comunicacionalmente mais atractivo, impede que se tracem as “linhas vermelhas” com propostas antidemocráticas que o crescendo populista está a colocar em cima da mesa. Ora o populismo é a grande novidade na vida política portuguesa.


Não adianta chamar fascista a Ventura, que não o é, mas sim um extremista de direita, que já basta como epíteto e é mais correcto, mas já se ganhava alguma coisa se ele fosse confrontado com as suas propostas antidemocráticas que ele debita como se fossem “normais”. Um exemplo é a de “cortar” os lugares de “políticos” pela metade, ou a de cortar os salários dos deputados para metade, que parecem populares, mas que são intrinsecamente antidemocráticas. Alguém lhe explica que nos milhares de lugares “políticos”, nas autarquias, por exemplo, a esmagadora maioria não são remunerados, mas o sinal de uma dedicação à causa pública, ou uma democratização da participação popular? Ou que a demagogia sobre os salários dos políticos, conduz a que haja apenas candidatos desqualificados para quem qualquer salário é bom, ou lobistas ricos com rendimentos que não precisam de ganhar um tostão para beneficiar do acesso ao poder? Ou pura e simplesmente dizer-lhe que numa democracia há o primado da lei, e que as garantias de defesa e do ónus da prova são para todos, assassinos e corruptos incluídos. E que penalizar os “crimes de colarinho branco” com o dobro das penas dos assassinos é uma perversão da justiça, por muito que os seus apoiantes salivem com os “casos” de corrupção e se revelem indiferentes aos crimes de ódio. Em tudo isto e muito mais, tem havido falta de coragem para confrontá-lo, porque estas posições só são populares quando não se combatem com a intransigência da democracia.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021

Televisões generalistas nacionais e informação

Televisões generalistas-Carta aberta.png


Porque já várias vezes me questionei sobre os pontos incluídos nesta carta aberta resolvi divulgá-la aqui, neste blogue ,apesar de, provavelmente, muitos já tomaram dela conhecimento.


Sabemos também que comentários dos críticos a esta carta aberta tentam descredibilizá-la porque os signatários, ou porque não pertencem ao mesmo ”clube” dos críticos, ou porque pretendem, como tantas vezes é habitual, defender com mentira ou desdenho da verdade dos factos que eles próprios verificam mas negam.


A carta aberta foi publicada como artigo de opinião no jornal Público em 23 de fevereiro de 2020.


 OPINIÃO


Carta aberta às televisões generalistas nacionais


Como cidadãos, exigimos uma informação que respeite princípios éticos, sobriedade e contenção. E, sobretudo, que respeite a democracia.


23 de Fevereiro de 2021, 0:30


Sabemos que há uma pandemia – e que o SARS-CoV-2, em vez de se deixar ficar a dizimar pessoas no chamado Terceiro Mundo, resolveu ser mais igualitário e fazer pesadas baixas em países menos habituados a essas crises sanitárias.


Sabemos que não há poções mágicas – as vacinas não se fazem à velocidade desejada e as farmacêuticas são poderosas entidades mercantis.


Sabemos que, mesmo cumprindo os cuidados tantas vezes repetidos – distância física, máscara a tapar boca e nariz, lavagem insistente das mãos, confinamento máximo –, qualquer um de nós, ou um dos nossos familiares e amigos, pode ser vítima da doença e que isso causa medo a todos, incluindo a jornalistas, fazedores de opinião e responsáveis de órgãos de informação.


Sabemos também que os média estão em crise, que sofrem a ameaça das redes sociais, a competição por audiências, as redações desfalcadas, os ritmos de trabalho acelerados impostos aos que nelas restam, a precariedade laboral de muitos jornalistas.


Mas mesmo sabendo tudo isto, assinalamos a excessiva duração dos telejornais, contraproducente em termos informativos. Não aceitamos o tom agressivo, quase inquisitorial, usado em algumas entrevistas, condicionando o pensamento e a respostas dos entrevistados. Não aceitamos a obsessão opinativa, destinada a condicionar a receção da notícia, em detrimento de uma saudável preocupação pedagógica de informar. E não podemos admitir o estilo acusatório com que vários jornalistas se insurgem contra governantes, cientistas e até o infatigável pessoal de saúde por, alegadamente, não terem sabido prever o imprevisível – doenças desconhecidas, mutações virais – nem antever medidas definitivas, soluções que nos permitissem, a nós, felizes desconhecedores das agruras do método científico, sair à rua sem máscara e sem medo, perspetivar o futuro.


Sabemos que há uma pandemia causada pelo SARS-CoV-2, mas também sabemos que há uma diferença entre informação, especulação e espetáculo. E entre bom e mau jornalismo


Mesmo sabendo a importância da informação sobre a pandemia, não podemos aceitar o apontar incessante de culpados, os libelos acusatórios contra responsáveis do Governo e da DGS, as pseudonotícias (que só contribuem para lançar o pânico) sobre o “caos” nos hospitais, a “catástrofe”, a “rutura” sempre anunciada, com a hipotética “escolha entre quem vive e quem morre”, a sistemática invasão dos espaços hospitalares, incluindo enfermarias, a falta de respeito pela privacidade dos doentes, a ladainha dos números de infetados e mortos que acaba por os banalizar, o tempo de antena dado a falsos especialistas, as entrevistas feitas a pessoas que nada sabem do assunto, as imagens, repetidas até à náusea, de agulhas a serem espetadas em braços, ventiladores, filas de ambulâncias, médicos, enfermeiros e auxiliares em corredores e salas de hospitais. Para não falar das mesmas imagens repetidas constantemente ao longo dos telejornais do mesmo dia ou até de vários dias, ou da omnipresença de representantes das mesmas corporações profissionais, mais interessados em promoção pessoal do que em pedagogia da pandemia.


Enfim, sabemos que há uma pandemia causada pelo SARS-CoV-2, mas também sabemos que há uma diferença entre informação, especulação e espetáculo. E entre bom e mau jornalismo.


Consideramos inaceitável a agenda política dos diversos canais televisivos generalistas, sobretudo no Serviço Público de Televisão.


Como cidadãs e cidadãos, exigimos uma informação que respeite princípios éticos, sobriedade e contenção. E, sobretudo, que respeite a democracia.


Subscritores


Abílio Hernandez, Professor universitário; Alberto Melo, Dirigente associativo; Alfredo Caldeira, Jurista; Alice Vieira, Escritora; Ana Benavente, Professora universitária; Ana Maria Pereirinha, Tradutora; António Rodrigues, Médico; António Teodoro, Professor universitário; Avelino Rodrigues, Jornalista; Bárbara Bulhosa, Editora; Diana Andringa, Jornalista; Eduardo Paz Ferreira, Professor universitário; Elísio Estanque, Professor universitário; Fernando Mora Ramos, Encenador; Graça Aníbal, Professora; Graça Castanheira, Realizadora; Helder Mateus da Costa, Encenador; Helena Cabeçadas, Antropóloga; Helena Pato, Professora; Isabel do Carmo, Médica; J.-M. Nobre-Correia, Professor universitário; Jorge Silva Melo, Encenador; José Rebelo, Professor universitário; José Reis, Professor universitário; José Vítor Malheiros, Consultor de Comunicação de Ciência; Luís Farinha, Investigador; Luís Januário, Médico; Manuel Carvalho da Silva, Sociólogo; Manuela Vieira da Silva, Médica; Maria do Rosário Gama, Professora; Maria Emília Brederode Santos, Pedagoga; Maria Manuel Viana, Escritora; Maria Teresa Horta, Escritora; Mário de Carvalho, Escritor; Paula Coutinho, Médica intensivista; Pedro Campiche, Artista multidisciplinar; Rita Rato, Directora do Museu do Aljube; Rui Bebiano, Professor universitário; Rui Pato, Médico; São José Lapa, Actriz; Tiago Rodrigues, Encenador; Vasco Lourenço, Capitão de Abril


Os autores escrevem segundo o novo acordo ortográfico