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domingo, 29 de março de 2026

Guerra da informação e da contrainformação

 


A guerra promovida por Israel contra os palestinianos e outros povos não é de agora, mas sem ser tão violenta como a que se desenrola com o beneplácito dos EUA de Trump.

A disputa territorial remonta à criação do Estado de Israel em 1948 que, após a partilha da Palestina pela ONU em 1947, Israel declarou independência em 1948, o que levou à Primeira Guerra Árabe-Israelense. Muitos países árabes vizinhos não aceitaram a presença de Israel, resultando num estado de conflito contínuo.

Os argumentos que Israel tenta passar para a opinião pública internacional são as “ameaças existenciais” a que está sujeito frequentemente e justifica as suas ofensivas militares como medidas de defesa contra grupos militantes como Hamas e o Hezbollah e outras nações que não lhe reconhecem direito à sua existência e, portanto, procuram a sua extinção tornou-se o eixo central da sua comunicação externa. O tipo de coligação EUA-Israel vê como uma ameaça direta o programa nuclear e a influência regional do Irão que há muito financia grupos inimigos de Israel, alguns deles terroristas, o que resulta em ataques a alvos iranianos e a aliados do Irão. Mas, do meu ponto de vista o seu verdadeiro objetivo, o fundamental, é a ganância de espaço vital para a sua expansão e também, se possível, extinguir  povos que lhe possam fazer frente e o ameaçam (pode ler aqui o trauma social da perseguição).

O facto é que estamos em presença de uma guerra, por enquanto regional, que o presidente dos EUA Donald Trump ajudou a iniciar contribuindo previsivelmente para o seu alargamento num curto espaço de tempo. Se estivermos atentos às notícias que nos chegam pelas televisões e pela imprensa as declarações das partes em litígio, e também no interior de cada uma das partes, observamos que são, a maior parte das vezes, contraditórias. É uma espécie de círculo vicioso de informação e contrainformação numa Sequência de eventos negativos que se autorreforça e repete, gerando um impasse, por vezes, de difícil compreensão.

A guerra trava-se também no plano da informação. Num mundo em rede, a velocidade com que os dados circulam transformou-se simultaneamente numa arma e num escudo. A desinformação, a propaganda, as operações psicológicas e a manipulação estratégica deixaram de ser exceções e passaram a integrar, de forma estrutural, a política externa e a gestão, e ou, a má gestão das crises internacionais como temos verificado nas contradições sobretudo do Presidente dos EUA.

O processo “informação-desinformação” e “contrainformação” em tempo de guerra circulam no espaço onde se cruzam no ar plenas de contradições e de negações. Nega-se hoje o que se disse ontem.  A contra informação e a desinformação, assim como a propaganda, as operações psicológicas e a manipulação estratégica tornaram-se parte integrante da política externa e da gestão ou má gestão das crises internacionais. Os conceitos de contra informação e a desinformação são algo distintos. A contrainformação, muitas vezes ligada ao conceito de contra-narrativa ou operações psicológicas defensivas, refere-se às medidas tomadas para combater, negar ou neutralizar a desinformação do inimigo. A desinformação segundo a ONU é a disseminação deliberada de informações falsas, manipuladas ou fora de contexto com o objetivo de enganar, causar danos, manipular a opinião pública ou desmoralizar o inimigo.

Há uma competição informacional entre EUA-Israel e o Irão que se desenrola também ao nível interno de cada país assim, cada governo empenha-se em controlar a narrativa interna, garantir a coesão social e justificar decisões militares perante a população e a gestão das perceções de ameaça.

No caso da teocracia autoritária do Irão o poder político está intrinsecamente ligado à autoridade religiosa xiita. O controle estatal dos meios de comunicação permite uma narrativa homogénea e alinhada com os interesses do regime. Em contraste, tanto em Israel como nos Estados Unidos, a pluralidade mediática, (que nem sempre é plena, pode eventualmente sofrer restrições), podendo fomentar disputas internas e divergências de opinião que podem ser exploradas por adversários externos e até internos para enfraquecer a unidade nacional ou criar instabilidade política.

Na questão do Médio Oriente, que é ao nível regional a informação é usada como instrumento estratégico para influenciar aliados e rivais, por isso os três intervenientes procuram moldar perceções sobre a legitimidade dos ataques e operações militares através de narrativas da “resistência” ou da “segurança” numa competição por uma liderança simbólica. Esta guerra de informação, desinformação e contrainformação serve para consolidar ou desafiar alianças, ampliar influência política e militar, e promover ao nível das populações interpretações que favoreçam os respetivos interesses estratégicos.

Cada um dos intervenientes tenta enquadrar o conflito em distinções conforme o seu interesse para justificarem as suas ações bélicas usando vocábulos como “defesa”, “resistência”, “terrorismo”, “agressão” ou “direito internacional” a fim de legitimarem as suas ações e deslegitimar as do adversário. O impacto desta disputa ultrapassa fronteiras, influenciando decisões diplomáticas, sanções, apoios internacionais e a própria percepção do conflito por parte de audiências globais, tornando a gestão da informação um elemento central da estratégia de cada interveniente.

Na guerra entre Israel-EUA e o Irão ainda, e por enquanto, predominantemente regional, foi claramente agravado pela ação política dos Estados Unidos, contribuindo para uma rápida escalada das tensões. A informação que chega ao público através dos meios de comunicação é frequentemente contraditória, não apenas entre as partes em litígio, mas também no interior de cada uma delas. Declarações são desmentidas, versões são revistas e o discurso oficial adapta se ao ritmo dos acontecimentos, criando um círculo vicioso de informação e contrainformação que dificulta qualquer leitura consistente da realidade. Mais do que uma guerra aberta, trata-se dum confronto permanente onde a ambiguidade estratégica é deliberadamente cultivada.

Fazendo uma breve síntese podemos afirmar que a guerra entre Israel-EUA e o Irão não se trava apenas com drones, mísseis, bombardeamentos ou sanções. Trava-se também com palavras, imagens, símbolos e interpretações. A informação tornou-se um recurso estratégico tão importante quanto o poder militar.

Num mundo saturado de informação, a capacidade de a distinguir da contrainformação é um exercício que também nos compete a nós que diariamente vemos e ouvimos as notícias nos canais dirigidas ao grande público, mas também nas redes sociais que nos mentem a cada instante com informações deturbadas e enganadoras. A disputa pela narrativa continuará a moldar não apenas a percepção do conflito, mas também as condições para a sua escalada em vez da resolução.


domingo, 8 de junho de 2025

A estratégia do embuste no diálogo político

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Uma das formas para percebermos o que alguns dos nossos interlocutores informados, sabedores, que se julgam infalíveis e exímios em dar cartas e depois baralhar de novo nos dizem é percebermos ao que se referem quando falam.


Vem isto a propósito de comentários que alguns leitores deixaram a um artigo que li há algum tempo num jornal diário relativamente à despesa pública e ao déficit mais folgados que o atual Governo herdou do anterior governo socialista que, em vão, tentei localizar, mas o que ainda tenho presente serve para o pretendido


A mentira e a desinformação são armas utilizadas para enganar alguns que, por não perceberem nada do assunto, acreditam em tudo, o que lhes dizem ou leem nas redes sociais.


Quando alguém aponta a esses referidos, plenos de verdades absolutas, algo que sai fora das suas falacias absolutas, mudam de agulha, trocam as voltas e, para confundir, utilizam outro tipo de estratégia para baralhar o seu interlocutor. Pode então verificar-se uma das seguintes situações: ou não se refuta o que diz por não termos bagagem para o contradizer, ou o argumento é tão faccioso e disparatadamente óbvio que não vale a pena contrariá-lo mais valendo deixá-lo ficar convencido de que enganou mais um papalvo que manipulou.


A forma mais comum de manipulação envolve tentar dominar ou mudar um ponto de vista ou opinião, isto é, a perspetiva ou crença que alguém mantém sobre alguma coisa e serve como ponto de referência para a visão que cada um de nós tem sobre qualquer situação.


Veja-se um exemplo. Imagine que você está a trocar impressões sobre política económica e que o seu interolocutor chama para a discussão a dívida publica e o défice. Coloque como princípio que o seu interlocutor tem como objetivo criticar a governação, por exemplo, do governo socialista, que terá cometido muitos erros, mas a quem se poderia atribuir ter conseguido baixar a dívida e o défice. Então, o seu interlocutor argumenta que esse governo socialista deixou uma dívida pública enorme e um défice também colossal. Você mostra que os valores são avaliados pelo rácio dívida/PIB, que é a medida da dívida ou do déficit como percentagem do Produto Interno Bruto, indicador utilizado por diversas entidades, que afirmam o contrário e que o governo pode vir a entrar em derrapagem orçamental por estar a gastar mais do que deveria.


Face aos dados inegáveis e como a comparação é feita em percentagem do PIB a resposta do seu interlocutor chega célere: não, não, isso é em valor relativo, em valor absoluto são milhões. Certo o seu interlocutor tem razão. Mas a comparação é sempre em valores relativos, o que facilita a comparação.


Ora, o nosso interlocutor, para defender a sua tese, ou melhor, a sua causa distorcida, utiliza esse argumento incorreto porque, ao comparar a dívida pública e os défices, é essencial reconhecer que estes indicadores são fundamentalmente diferentes na natureza e que o uso de medidas relativas geralmente fornece uma imagem mais clara do que olhar apenas para números absolutos. Isto é, não seguindo este critério o nosso interlocutor está deliberadamente a enganar-nos com a finalidade de defender o seu ponto de vista com valores absolutos que “enchem o ouvido”.


Ah! mas há as cativações exclama ainda! As cativações é outro conceito muito utilizado pelos detratores adversários e para enganar quem esteja pouco familiarizado com este tema. As cativações funcionam como se cada um de nós pegasse em parte do dinheiro que tem disponível para gastar e o guardasse numa gaveta para quando for necessário. Ou melhor, é como se o ministro das Finanças pegasse em parte do orçamento aprovado pela Assembleia da República para um determinado serviço público e guardasse o dinheiro numa gaveta.


Dizem: Ah! mas as cativações prejudicam alguns setores que necessitam de verbas. É uma meia-verdade usada pelos que são por natureza facciosos, porque isto das cativações é uma prática comum já com vários anos, aplicada quer pelos Governos socialistas quer pelos da direita ou centro-direita. Um caso concreto e mais recente é o do Governo de Luís Montenegro que tinha, em novembro de 2024, 789 milhões de euros em cativações por libertar.


As cativações são uma espécie de cautela orçamental para possibilitar que não haja derrapagens da despesa, porque ao condicionar a libertação da verba à autorização do ministro das Finanças, a fim de evitar que os serviços gastem sem ter primeiro concretizado um nível de receitas suficiente


Bem, fico por aqui, porque de finanças só percebo das minhas e, quanto à públicas é o que dizem por aí os especialistas e os trabalhos académicos de macroeconomia.


Divirtam-se e sejam facciosos porque o que está a dar para polarizar as sociedades são as verdades ditas alternativas, isto é, não factos, como dizer, a minha verdade é uma alternativa à sua que mesmo que seja um facto.


E, já agora, factos alternativos podem ser falsidades, inverdades, ilusões. Um facto é algo que realmente existe, são a realidade ou verdade. Uma alternativa é uma das escolhas em um conjunto de opções dadas e, normalmente, as opções são opostas uma da outra. Portanto, falar sobre factos alternativos é falar sobre o oposto da realidade (que é ilusão) ou o oposto da verdade (que é a mentira).


Também é usado como uma ‘interpretação alternativa’ de um facto para servir um qualquer propósito político ou ideológico.


Se essa interpretação alternativa é ou não válida normalmente depende do facto em questão e de como ele foi interpretado (ou mal interpretado).

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2025

Nem só os loucos sofrem de psicose

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Se perguntarmos a especialistas em psicologia ou em psiquiatria o que é uma psicose obteremos respostas tais como conjunto de sintomas que afetam a mente, onde houve alguma perda de contato com a realidade e dificuldade em reconhecer o que é real e o que não é, mesmo face a evidências. Ou ainda uma condição de saúde mental que se caracteriza por uma desconexão da realidade. Ou experimentar sintomas como delírios, isto é, crenças falsas firmemente mantidas apesar de evidências contrárias. Ou ainda outros sintomas que incluem perturbação da mente que causa dificuldades em determinar o que é ou não real e comportamento inapropriado para determinada situação e também perda capacidade emocional.


Posso acrescentar ainda que, a negação da realidade evidenciada pode ser um sintoma de psicose. Esses delírios podem levar à negação da realidade de diversas formas, como acreditar que eventos que não ocorreram realmente aconteceram ou que situações reais não são verdadeiras. A negação das evidências científicas sobre vários temas pode ser um dos sintomas.


Analisando atentamente declarações e fazendo uma análise de conteúdo das intervenções de Donald Trump por um especialista em psicologia ou em psiquiatria desde que concorreu pela primeira vez às eleições nos EUA detetar-se-iam alguns sintomas característicos de psicose.


Contudo, se a pessoa em questão está em estado de negação consciente, isto é, nega as evidências apenas com algum propósito então entramos noutra particularidade que é a intencionalidade do objetivo que tem um fim em vista que é a obtenção de vantagens pessoais quaisquer que sejam, que podem ser políticas e ou de poder.


A psicose não é exclusiva das pessoas que são comumente rotuladas como “loucas”. Na realidade, a psicose pode afetar pessoas de todas as esferas da vida e pode ser uma manifestação de várias condições de saúde mental. Qualquer pessoa pode experimentar um ou vários episódios psicóticos em determinadas circunstâncias como por exemplo, entre outras, experiências traumáticas, sejam emocionais, físicas ou sexuais. Situações de grande stress podem precipitar também episódios psicóticos.


Assim, negar conscientemente as evidências com o objetivo de obter vantagens pessoais que podem ser políticas ou de exercício de poder, pode ser diferente da negação da realidade observada na psicose.


Trump parece estar em estado de negação consciente, por isso, é mais provável que ele esteja a agir de forma intencional e estratégica, possivelmente com motivações egoístas, narcisistas ou a evitar consequências negativas. Essa forma de negação pode estar associada a comportamentos manipulativos ou desonestos, e não necessariamente a uma condição de saúde mental. Portanto, a negação da realidade devido à psicose é uma questão de saúde mental, enquanto a negação consciente da realidade com um propósito específico é uma questão comportamental e ética,


Donald Trump tem sido conhecido por negar várias evidências, especialmente em relação às eleições presidenciais dos Estados Unidos de 2020. Frequentemente alegou, sem apresentar provas, que houve fraude eleitoral generalizada que resultou na vitória de Joe Biden. Essas alegações foram repetidamente desmentidas por autoridades eleitorais e judiciais, incluindo membros do próprio partido republicano.


Além disso, Trump também foi acusado de interferência eleitoral e de tentar anular os resultados das eleições de 2020. Essas ações e alegações têm sido amplamente discutidas e investigadas, mas até agora, não foram apresentadas evidências concretas que sustentem suas afirmações de fraude eleitoral. Essas alegações foram desmentidas por várias investigações e revisões judiciais.


Donald Trump tem negado várias evidências em diferentes áreas, incluindo questões climáticas e saúde pública. Os exemplos são vários.


Trump chamou frequentemente “farsa” às mudanças climáticas e retirou os Estados Unidos do Acordo de Paris, que visa combater o aquecimento global; desconsiderou evidências científicas sobre o impacto das atividades humanas no clima.


Durante a pandemia, Trump minimizou a gravidade do vírus e promoveu tratamentos não comprovados, como a hidroxicloroquina, e também criticou e desacreditou especialistas em saúde pública e as suas recomendações, chamando algumas informações “notícias falsas”.  Em alguns momentos, defendeu ou mencionou tratamentos que não tinham comprovação científica, o que foi rotulado por muitos especialistas como irresponsável.


Mas há outras evidências como a deslegitimação de fontes ao chamar de “fake news” às informações que divergiam de sua visão ou que criticavam as suas ações. Trump procurou minar a credibilidade dos meios de comunicação e de instituições que apresentavam dados contrários às suas posições. 


As atitudes de Trump geraram debates intensos tanto no meio científico quanto na sociedade, levantando preocupações sobre os efeitos que a disseminação de desinformação pode ter na formulação de políticas causando desconfiança na população em relação às informações e dados credenciados.


Tudo isto tem impacto na opinião pública porque o tipo de retórica de Trump pode contribuir para que parte do público se torne menos crítico em relação à análise de evidências, aceitando passivamente informações vindas de fontes de autoridade sem uma verificação aprofundada.

domingo, 23 de fevereiro de 2025

O perigo não vem só da Rússia vem também de Trump

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António Costa alertava no Financial Times que a “a Rússia deve ser encarada como ameaça global”, para acrescentar que a Europa deve negociar uma nova arquitetura de segurança que encare Moscovo como “uma ameaça não apenas para a Ucrânia”, escreve o Público no dia 18 do corrente. Talvez omitisse os EUA de Trump por motivos diplomáticos. Mas, o perigo não vem só da Russia como diz Costa.


O presidente dos EUA gostou da declaração de Vladimir Putin quando disse que, após o seu regresso à Casa Branca, a Europa “ficará aos pés de seu mestre”. A publicação da CNBC, que incluía a citação correspondente, foi republicada por Trump na sua página da rede social, como se enfatizasse que tudo será exatamente como o presidente russo disse.


Notícias, artigos e comentários sobre negociações de paz para a terminar com guerra na Ucrânia na linha definida por Donald Trump são vários e contraditórios. Afirmações, declarações e contradições de Trump aparecem diariamente nos media de vários países que já lhe perdemos a conta.


Afinal o que devemos entender por negociações para a paz segundo a ciência política? É um tipo específico de negociação tendo em vista acabar com conflitos, guerras e estabelecer a paz a longo prazo, abordar as causas subjacentes do conflito e criar acordos que previnam violência futura. Normalmente envolve países, governos ou até fações envolvidas em conflitos armados que visam a paz, a estabilidade e a reconstrução. Assim, têm como objetivo cessar as hostilidades. Em síntese, as negociações de paz visam especificamente a resolução de conflitos e o estabelecimento de uma paz duradoura.


No conflito da Ucrânia as partes diretamente envolvida foram este país e, até ao momento, a Rússia que invadiu aquele país soberano, embora Putin o negue e agora também Trump usando argumentos falaciosos. A União Europeia, o Reino Unido e os Estados Unidos da América auxiliaram a Ucrânia, desde o início da invasão, com apoio em armamento e recursos financeiros. Com a invasão da Ucrânia o que o autocrata/ditador da Rússia pretendia era instalar na Ucrânia um governo fiel a Moscovo.


Trump, na sua rede social Truth Social de desinformação que, para ele, passou a ser palavra proibida, chamou a Zelensky um “comediante modestamente bem-sucedido”. Trump como os da sua equipa têm memória curta. Ele deve recordar-se que começou a tornar-se conhecido como proprietário dos concursos de beleza Miss Universo, Miss EUA e Miss Teen EUA e alcançou maior projeção como criador e apresentador do reality show “O Aprendiz”, do qual fez parte entre 2004 e 2015. O programa mostrava executivos competindo por uma posição numa das empresas do apresentador e produtor do programa que era Donald Trump. Assim ele foi também uma espécie de comediante num show televisivo que lhe rendeu muito dinheiro.


Mais grave ainda são as mentiras que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, disse na sua rede social ao afirmar que o presidente ucraniano é “um ditador sem eleições”, o mesmo que já tinha sido afirmado por Putin e voltou a acusar aparentemente a Ucrânia de ser responsável pela guerra com a Rússia numa onda de alegações sem fundamento e desconhecedor do tema, talvez para agradar ao seu amigo Putin. Putin também já tinha acusado a Ucrânia de ter dado início à guerra. O facto é que a Rússia lançou uma invasão em grande escala na Ucrânia em fevereiro de 2022, e já tinha anexado a Crimeia em 2014. “Foram eles que começaram a guerra em 2014”, disse o presidente russo, Vladimir Putin, numa entrevista ao apresentador de talk show americnao Tucker Carlson em fevereiro de 2024.


O que não há dúvidas é que, em 22 de fevereiro de 2022, a Rússia começou a guerra invadindo a Ucrânia. As tropas russas invadiram a fronteira com o objetivo explícito de derrubar o governo de Zelensky em Kiev que é pró-ocidente com o objetivo de poder de lá colocar um presidente fiel a Moscovo.


Neste segundo mandato Donald Trump tem adotado uma abordagem diferente em relação à ajuda à Ucrânia. Condicionou a ajuda dos EUA à Ucrânia em troca de direitos sobre recursos minerais, de terras raras, que são essenciais para a indústria eletrónica. Trump pretende bloquear verbas e o auxílio militar à Ucrânia. Apesar de ter tomado


Donald Trump tomou uma postura no sentido de iniciar conversações para a paz na Ucrânia, mas as negociações são de facto complexas e deveria envolver várias partes interessadas. Desde o início da invasão russa em 2022 houve várias tentativas de negociação que falharam. Recentemente houve vários anúncios sobre um telefonema de Trump com o presidente russo, Vladimir Putin, anunciando que as negociações de paz começariam imediatamente. Mais recentemente, houve um novo impulso diplomático com a participação de altos responsáveis dos EUA e da Rússia em reuniões na Arábia Saudita sem, no entanto, a Ucrânia não ter sido convidada para essas reuniões, o que gerou críticas de Zelensky que expressou a sua insatisfação com a exclusão da Ucrânia dessas negociações e afirmou que Kiev não reconhecerá qualquer acordo alcançado sem sua participação.


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As ações de Donald Trump de tentar negociar a paz na Ucrânia, sem a presença das outras partes interessadas e propondo negociações diretas com Vladimir Putin, tem gerado controvérsias. Este tipo de atitude de Trump pode levantar desconfiança já que se desconhece o conteúdo da conversa telefónica com Putin e porque a sua relação com ele parece ser comprometedora tendo em conta relações políticas e de amizade com ele próprio já tinha expressado anteriormente. Após a tomada de posse para o segundo mandato de Trump, Putin anunciou com entusiasmo que “os líderes europeus ficarão do lado do mestre e acabarão por abanar a cauda carinhosamente”.


Mas há mais, o presidente russo, Vladimir Putin, elogiou o seu homólogo Donald Trump numa entrevista publicada no domingo 2/2/2025, dizendo que Trump em breve “restaurará a ordem” na Europa.


A comparação de Trump com Putin aproxima-se porque ele proíbe uma agência noticias de entrar na Casa Branca. Recentemente a administração Trump proibiu a entrada de jornalistas da agência de notícias Associated Press (AP) na Casa Branca e no Air Force One. Esta decisão foi tomada porque a AP continuou a usar o termo “Golfo do México” em vez de “Golfo da América”, conforme exigido por uma ordem executiva de Trump. A Casa Branca defendeu a sua decisão, afirmando que a recusa da AP em cumprir a mudança de nome era um compromisso com a desinformação. A medida foi amplamente criticada por várias organizações de media e é vista como uma violação da Primeira Emenda. Ridículos, decisão de Trump, a proibição e os motivos.


Os EUA estão a caminho duma autocracia, nome bonito para ditadura, e ainda não sabem.


 

sexta-feira, 3 de novembro de 2023

Não basta acreditar e partilhar é preciso verificar

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Quando o jornalismo sensacionalista se sobrepõe à verdade e noticia narrativas como sendo a verdade dos acontecimentos e, como no caso do hospital em Gaza, toma como verídica apenas a informação de um dos lados, o Hamas, sem o confirmar nem validar com outras fontes, então está a trabalhar no sentido da propaganda e da desinformação proveniente de apenas um dos lados fazendo com que as suas narrativas vençam.


Por entre as guerras com mais visibilidade como são a da Ucrânia e a do Israel-Hamas há uma outra guerra que se desenrola fora do campo de batalha que envolve uma disputa pela mente e pela emoção das pessoas. É uma outra guerra que passa para o meio social que reage consoante o ambiente informativo.


Em tempo de guerra a desinformação surge em enxurrada e agrava-se com a contrainformação feita pelos Estados. A desinformação, algumas vezes gerada por ignorância, outras por premeditação pelas partes em confronto na tentativa de captar para as suas razões as opiniões públicas em vários países e a maior parte das vezes toma posições antagónicas.


É uma estratégia complementar à contrainformação cuja finalidade é enganar e fornecer informações falsas ou distorcidas, para confundir, desorientar ou desmoralizar. O seu objetivo é moldar a perceção pública da realidade e influenciar o decurso das operações captando a atenção do público. Associada à desinformação tem o efeito de poder ser aproveitada por cada uma das partes para levar o público a tirar ilações e interpretações consoante os seus interesses e, em tempos de conflito, tornou-se uma tendência para aproveitar mensagens provenientes de personalidades com influência. É por isso que devemos estar atentos aos riscos e à manipulação mediática que podem atingir a democracia, os direitos humanos e até a paz mundial.


Vem ao caso o discurso do Secretário-Geral António Guterres no Conselho de Segurança da ONU, a 24 de outubro, sobre a guerra entre Israel e o Hamas onde afirmou que “um tsunami de desinformação que está a alimentar a polarização e a desumanização. Devemos enfrentar as forças do antissemitismo, do fanatismo muçulmano e de todas as formas de ódio”, palavras que levaram Israel a exigir a sua demissão do cargo de secretário-geral das Nações Unidas. A partir de um discurso ou de uma opinião é sempre possível fazerem-se várias leituras consoante os pontos de vista que se pretendam evidenciar.


Os media (órgãos de comunicação social: imprensa, rádio, televisão e internet, sobretudo as redes sociais) têm um papel fundamental na difusão da informação podendo contribuir para a manipulação da opinião pública de modo a corresponder aos pontos de vista de cada uma das partes envolvidas num conflito.


A informação, quando fornecida em termos de propaganda, assenta na difusão de ideias, valores e informações com o objetivo de influenciar a opinião pública e o comportamento das populações e, frequentemente, tem a tendência para distorcer a realidade, criando falsas expectativas ou ilusões sobre o andamento ou o possível desfecho dum conflito/guerra.


Se, por um lado, numa situação de conflito bélico a comunicação social tem o dever de informar e esclarecer sobre os acontecimentos da guerra, por outro lado, também pode servir para influenciar o moral dos militares envolvidos nas operações e da população civil assim como mobilizar apoios e denunciar atrocidades e contribuir para a difamação dos inimigos. Durante a Segunda Guerra Mundial, com meios de comunicação muito mais rudimentares comparativamente aos de hoje, foi utilizada a propaganda para influência da opinião pública sobre os vários países envolvidos.


A comunicação social, sobretudo os canais de televisão, é um elemento essencial e poderoso da propaganda que possibilita influenciar e explorar os sentimentos de patriotismo, medo, ódio, esperança e até de culpa. Por outro lado, pode gerar ansiedade, pânico, ódio, preconceito e até violência contra os inimigos ou grupos minoritários dos elementos em confronto.


Assim, surge a contrainformação com a estratégia de enganar o adversário e as opiniões públicas das nações em confronto ao fornecer informações falsas ou distorcidas, para confundir, desorientar ou desmoralizar através da rádio, jornais, panfletos, cartazes, televisão e internet. As redes digitais passaram a fazer parte das operações militares nos conflitos armados podendo interromper o funcionamento de infraestruturas essenciais e serviços vitais para a população civil. Veja-se o que está a acontecer no conflito Israel-Hamas onde foram cortadas infraestruturas de água, energia e também de redes de comunicação com consequências devastadoras associadas a danos por bombardeamentos que afetam hospitais e outros serviços que deixam de funcionar total ou parcialmente para a população civil.


Os hackers são outros elementos que estão a contribuir para a desinformação. Como não são militares não agem de acordo com instruções oficiais das autoridades, mas tornam-se elementos participantes importantes na guerra moderna, a ciberguerra, e não se abstêm de cometer crimes de guerra se consideramos as "leis da guerra cibernética” criadas pela Cruz Vermelha que parece ninguém cumprir.


Não apenas em tempos de guerra, mas também quando há polarização entre estados ou grupos sociopolíticos os hackers podem apoiar voluntariamente um lado ou outro do conflito através operações nas redes digitais globais para combater o inimigo e gerar desinformação. Pode ser, por exemplo, piratear para recolher informações ou operações de sabotagem para destruir bases de dados importantes, ou ainda espalhar desinformação. Os hackers militares podem fazer tudo isto, mas obedecem a ordens, têm comando e representam uma das partes do conflito.


Para combater a manipulação através da desinformação restaria a censura aos diversos canais de informação, como parece estar a acontecer na Federação Russa, para restringir ou proibir informações e notícias consideradas perigosas, ofensivas ou subversivas para um Estado, um governo ou para a sociedade, mas isso é algo que não se pretende. A censura pode estabelecer-se por decreto e estar implícita em algumas redações de órgãos de informação onde se evitam algumas designações como, por exemplo, as que são feitas como ser o Hamas terrorista, como é o caso da BBC.


A BBC não atribui ao Hamas a designação “terrorista” o que é justificado por um artigo no site da BBC News onde o autor escreve que: “Mas isso não significa que devamos começar a dizer que a organização cujos apoiantes os levaram a cabo é uma organização terrorista, porque isso significaria que estávamos a abandonar o nosso dever de permanecer objetivos.


Ao confundir-se isenção e neutralidade com objetividade parece de algum modo estar a confundir a opinião pública para lavar a face daquela organização. O facto é que foi mesmo um ato terrorista.


O Conselho de Segurança das Nações Unidas em outubro de 2004 na resolução 1566 considerou os atos de terrorismo “como atos criminosos, nomeadamente contra civis, cometidos com o intenção de causar morte ou lesões corporais graves, ou fazer reféns, com o propósito de provocar um estado de terror no público em geral ou num grupo de pessoas ou determinadas pessoas, intimidar uma população ou obrigar um governo ou uma organização internacional praticar ou abster-se de praticar qualquer ato que constitua crimes no âmbito e conforme definidos nas convenções internacionais e protocolos relativos ao terrorismo, não são em circunstância alguma justificáveis por considerações de ordem política, filosófica, ideológica, racial, étnica, religiosa ou outros de natureza semelhante, e apela a todos os Estados para que evitem tais atos e, se não prevenidos, para garantir que tais atos sejam punidos com penas compatíveis com a sua natureza grave.


Independentemente do que o Hamas defenda o facto é que praticou um ato terrorista no dia 7 de outubro passado. Não podemos disfarçar ou esconder uma ação explícita não a nomeando ou fazendo esquecê-la. Chamar terrorismo à ação executada pelo Hamas não é perder a objetividade. Neste caso específico, como entre outros, a independência não é ser neutro porque neste caso o ser neutro é estar a favor das atrocidades cometidas.


Num conflito como é o do confronto entre Israel e da força militar do Hamas em que este último praticou um ato de terrorismo o jornalismo e a prestação da informação ao público, seja ele que media utilize, imprensa, rádio ou televisão tem a obrigação de verificar e validar as fontes e ter a precaução necessária quando não tem certezas. Quando o jornalismo sensacionalista se sobrepõe à verdade e noticia narrativas como sendo a verdade dos acontecimentos e, como no caso do hospital em Gaza, e toma como verídica apenas a informação de um dos lados, o Hamas, sem o confirmar nem validar com outras fontes, então está a trabalhar no sentido da propaganda e da desinformação proveniente de apenas um dos lados fazendo com que as suas narrativas vençam. Um órgão de comunicação que trabalhe assim estará a trabalhar pro bono para disseminar a propaganda como pretende a organização político militar Hamas, ou, como alguns lhe chamam, Movimento da Resistência Islâmica. Se for assim, a narrativa do Hamas já venceu, e isso pode ser um enorme problema para todos nós.


Combater a desinformação é um dos maiores desafios num mundo onde proliferam informações falsas que se espalham rapidamente. Para tal, deve ser incrementar o desenvolvimento crítico do pensamento em relação à informação que consumimos. Outro ponto importante é o da verificação de fontes de uma informação antes de acreditar e compartilhar. Esta verificação deve ser conferida através de se fonte confiável e se essa informação foi corroborada por fontes independentes e respeitáveis e não partilhar informações duvidosas ou sensacionalistas.


Combater a desinformação é uma responsabilidade que requer os nossos esforços e os da comunicação social.  A atenção e o cuidado preventivo no sentido de se estar vigilante e comprometido no sentido de se promoverem informações precisas e verificadas.


 

sábado, 27 de março de 2021

Inimigos da verdade ou os mestres do embuste

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Covid, vacinas, estão diariamente na comunicação social. Outras notícias para além das relacionadas com a covid parecem ser acessórias para os cidadãos que estão confinados, centrados nas suas preocupações que a pandemia trouxe às suas vidas e que ainda lhes vai trazer no futuro.


Movimentos pela verdade, negacionistas, ocupam as redes sociais em catadupa. Uma notícia que assomou nos últimos dias na comunicação social e nas redes foi a do juiz Rui Pedro Fonseca e Castro. Este juiz esteve também entre os organizadores do protesto negacionista do fim-de-semana do dia 20/03 e que foi suspenso do Conselho Superior da Magistratura (CSM) por “contestar o estado de emergência e de incentivar publicamente ao incumprimento das regras anticovid-19”e por ter “suspendido um julgamento de um caso urgente de violência doméstica porque o procurador e o funcionário judicial recusaram tirar as máscaras na sala de audiência”.


O CSM considerou que a conduta imputada ao juiz “é suficientemente indiciada, mostra-se prejudicial e incompatível com o prestígio e a dignidade da função judicial”, instaurando-lhe, por isso, um processo disciplinar.


Também em fevereiro de 2021 a anestesiologista Maria Margarida de Oliveira, cofundadora do movimento médicos pela verdade que que em entrevistas e nas redes sociais se manifestou contra o uso de máscaras e chegou a receitar estratégias para enganar os testes à covid-19 e dicas para manipular os resultados dos testes PCR, foram consideradas um risco para a saúde pública e, que por isso, foi suspensa por seis meses pela Ordem dos Médicos.


A negação do conhecimento e desenvolvimento científico em todas as áreas que possam ter implicações na sociedade tem como missão o embrutecimento lento, mas progressivo por meio da negação da ciência de modo a tornar-se uma mais-valia para os que pretendem a implementação de autoritarismos mais ou menos violentos, ou seja, políticas e práticas fascistas. O deficiente sistema educativo ou a sua falta em algumas áreas conduz à ignorância. É uma das estratégias dos fascistas que têm como objetivos negar realidades e a levar as pessoas a acreditarem em teorias estapafúrdias.


As narrativas negacionistas e os movimentos pela verdade (ou pela mentira, digo eu), é mais uma questão semântica, usam novas formas circulação da informação para influenciar a formação de crenças em alguns setores das populações. Apresentam-se contra o sistema e apoiam-se muitas vezes nos valores mais conservadores da sociedade e, segundo alguns especialistas, estão diretamente relacionadas ao crescimento da extrema-direita em vários países.


Esta tese também é defendida por Pacheco Pereira no jornal Público de hoje quando escreve sobre a “verdade” “nome absurdo mas revelador da pretensão destes movimentos de que são detentores de algum conhecimento especial que está a ser escondido pelo poder político e pelos cientistas, que estão a usar a pandemia como pretexto para terem mais poder e para limitar as liberdades. Estão a tentar criar uma “ditadura” em nome de interesses ocultos para o vulgo, mas bem conhecidos dos “verdadeiros”, seja a conspiração judeo-maçónica, o grupo de Bilderberg, os demónios vivos de George Soros e de Bill Gates, os que estão a encher os ares de sinais 5G, ou alienígenas maléficos. Como diz um cartaz empunhado por um senhor “verdadeiro”: “Os mafiosos da farsa covid grupo Bilderberg com a loucura da nova ordem mundial seguidos pelos lacaios políticos mundiais da maçonaria e do Opus Dei. Acordem.”


Estes grupelhos, que mais parecem seitas, negam a ciência e a história que não estejam de acordo com a sua vontade e a seu bel-prazer. Negam a eficácia das vacinas, negam as mudanças climáticas e outras evidências científicas como negam a gravidade da pandemia covid-19. O historiador francês Pierre Vidal chama aos negacionistas assassinos de memórias por aproximação aos que pretendem negar factos históricos ou ainda reescrever a história, como alguns grupos como a extrema-direita e os nazis  através de escritos destinados “a um público especializado: herdeiros ou sobreviventes dos nazis ou nacionalistas de extrema direita que, na década de 1930, eram aliados dos nazis. O "revisionismo" pode aí, de acordo com o público e de acordo com os autores, assumir a forma de uma negação radical: os nazistas não mataram nenhum judeu…”.


 Até aos dias de hoje as fake news, (notícias falsas) têm tido um papel relevante para a difusão de teorias negacionistas nomeadamente, através das redes sociais como o Facebook e o Twitter, com novas formas de circulação da informação que passaram a influenciar a formação de crenças nas pessoas. As redes sociais dão a ilusão da existência duma parcial democratização pelo acesso, por parte da população, à informação e pela produção de conteúdos por meio da internet e das redes sociais, como é o exemplo deste post que acabo de colocar na rede. Há, contudo, uma falta de regulamentação que faz com que uma pessoa possa defender qualquer ideia estapafúrdia e disseminar fake news, que ganha considerável repercussão por se apoiar exatamente na reprodução de valores conservadores, ou não.


O livro “Merchants of doubt: how a handful of scientists obscured the truth on issues from tobacco smoke to global warming” 2010, “Mercadores da Dúvida” de Naomi Oreskes e Erik Conway, que podem ver aqui no site do livro, revela as táticas de poucos e reputados cientistas que, com apoio de empresários, lóbis e políticos, para semear dúvidas e desprezar ou evitar medidas regulamentares que teriam, segundo eles na qualidade de vida. Arquitetaram um “mercado da dúvida”, fundamentalista com o objetivo de evitar qualquer regulação governamental sobre assuntos de interesses políticos e económicos obscuros. O livro mostra e auxilia a entender as campanhas difamatórias contra a ciência e os cientistas.


Os autores mostram as estratégias promovidas por parte da indústria, dos media e de alguns cientistas para negar, mitigar ou dissolver o consenso científico em torno de resultados danosos à indústria devido à relação de causalidade entre o tabaco e o cancro do pulmão ou a contribuição das indústrias de combustíveis fósseis para as mudanças climáticas.


Os chamados mercadores da dúvida são cientistas que utilizam as suas credenciais científicas para desvanecerem as diferenças entre as controvérsias científicas e as disputas de opinião na comunicação social. O primeiro capítulo daquele trabalho mostra o caso da indústria do tabaco que foi a inventora e a mais hábil praticante da estratégia de promover a dúvida quanto aos resultados da ciência. Segundo os autores nos anos 1950 estudos científicos tornaram evidente a ligação entre o fumo e o cancro. Em 1953, a American Tobacco, Benson & Hedges, Philip Morris e U.S. Tobacco contrataram uma firma de relações públicas para defender seu produto e montaram uma comissão para fornecer argumentos que desafiassem a crescente evidência científica de que fumar prejudicava a saúde. 


Estes cientistas mal-intencionados ganharam espaço na comunicação social, disseminando dúvidas e inventando debates sobre temas cientificamente consolidados. Programas de financiamento de pesquisa de empresas com somas inimagináveis, até mesmo nos dias atuais, também foram usados para estimular pesquisas que corroborassem dúvidas, incertezas e o ceticismo, promovendo uma luta velada da ciência contra a ciência. Mais recentemente temos as condutas de Trump e de Bolsonaro que têm sido amplamente divulgadas sobre temas idênticos.


Não há provas, por enquanto, de que em Portugal os negacionistas sejam financiados como o são noutros países onde há a certeza de que altos financiamentos marcam o desenvolvimento dos negacionismos.  É o caso de David Koch que, segundo The Guardian, em agosto de 2019, «foi um dos principais financiadores dos negacionistas da mudança climática, apoiando cientistas para saquear ainda mais a Terra que estava a destruir. A revelação num livro de Christopher Leonard mostra que Koch desempenhou um grande papel no financiamento da negação da mudança climática. À medida que avançamos para uma catástrofe climática que parece cada vez mais provável de acontecer nos próximos 11 anos.»  


No que se refere à covid-19, seguindo o caminho comum a outros negacionismos, os negacionistas da pandemia passaram a desqualificar e a agredir os cientistas e o discurso científico, sem terem argumentos válidos e de facto sobre as dúvidas que levantam, apresentado uma narrativa que se encaixa em valores compartilhados por determinados grupos, na sua maioria apadrinhados por algumas áreas da extrema-direita.


Num artigo de opinião no jornal Público de Maria João Marques escreveu que “As máscaras – que comprovadamente contrariam o contágio de vírus respiratórios, como se viu com a inexistência de gripe neste inverno que passou – não funcionam e são elementos de destruição populacional em massa”. Ora esta afirmação pode ser comprovada por dados publicados pela Gripnet / Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge, como mostra o gráfico da época de vigilância da síndrome gripal de 2020/21 da semana 49 de 2020 à semana 20 de 2021.  Podemos verificar a coincidência do uso de máscara com a diminuição da síndrome gripal desta época, o que contraria a tese dos negacionistas e os de “qualquer coisa” pela verdade.


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Negacionistas e outros “qualquer coisa” pela verdade, dizendo-se pela verdade, são os próprios inimigos da verdade.  Promovidos pelas extremas-direitas, autocráticos, fascistas e, em menor número, algumas extremas-esquerdas, tentam por todos os meios desacreditar a democracia. Usam todos os meios que ela lhes possibilita para a destruir desenvolvendo processos de desestabilização, instabilidade, seja porque meios forem, que lhes permita novamente captar o poder e tomar conta das decisões políticas para relegarem todos os direitos das Constituições democráticas conquistadas pelos povos.


O ressurgir de novos líderes populistas será uma primeira fase para o culminar das ditaduras. Os líderes populistas por serem antissistema, contra a corrupção, defensores da segurança que está em risco por todos os que são diferentes consideram-se heróis modernos e os interpretes da nação, e por isso, promovem nas populações, por meio das suas narrativas, necessidades de uma autoridade vertical que ponha cobro seja lá ao que for.


Ao acreditarem nas suas próprias mentiras e propaganda projetam em outros as suas próprias ações, isto é, a disseminação de mentiras, sendo os governos os mestres da mentira. Os negacionistas de criar inimigos e defini-los como corporizações vivas de inverdade que os ajuda a assumi-los como únicos detentores da verdade.


Enfim são os mestres do embuste.