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sexta-feira, 22 de março de 2024

A propósito das eleições na Rússia e do tempo de Estaline

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O resultado das eleições na Federação Russa não foram novidade para Putin, era previsível, dado o défice democrático daquele país. O resultado eleitoral 87% obtido sem oposição credível que o conduzem ao 5º mandato não poderia ser outro. Foi e é assim que nos regimes totalitários e autocráticos onde a forma de governo está nas mãos de um governante que detém controle absoluto e poder de decisão em todos os assuntos de Estado e sobre todo o povo do país. Para tal, só com a simulação de eleições livres se prolonga o poder. Foi assim na ex-União Soviética, é a gora assim na Rússia, foi assim em Portugal no tempo de Salazar e Caetano, é assim em Cuba e noutros países como a Coreia do Norte onde o “chefe máximo” é nomeado e ou herdado como se fosse uma monarquia. Após a morte do fundador da União Soviética, Vladimir Lenin, José Estaline governou o país de forma autocrática e ditatorial.


A atual Federação Russa é uma república federal semipresidencialista e gerida por uma oligarquia. O presidente Vladimir Putin vai cumprir o seu quinto mandato como presidente da Rússia. Apesar de em anos anteriores ter feito repetidas promessas de deixar o cargo em 2024, quando o seu limite de mandato fosse atingido, Putin encabeçou no país o projeto para em 2020 fazer uma alteração constitucional que lhe permitiria permanecer no poder até 2036.


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Dizer que Vladimir Putin é um ditador é assunto que pode levantar várias questões ideológicas. Mas, de qualquer modo, num regime em que se diz haver democracia liberal no sentido de sistema partidário de liberdade política, económica, religiosa etc., não se prendem ou matam opositores, não se retira a liberdade de expressão, não se publica na imprensa e se diz nas televisões a visão única, não se reestruturam governos para se deter poder duradouro, não se detém numa única pessoa a autoridade executiva, nem o poder judicial e legislativo, nem é possível mudar a legislação para se adequar à agenda de um único poder. E não me venham dizer que isto é propaganda anti russa dos EUA e do ocidente. Basta consultar os órgãos de comunicação do próprio país através da net e ler e ouvir os discursos de Putin para o interior do país (há traduções).


 Podemos presumir que o resultado da eleição terá sido previamente decidido e que Putin seria “obrigatoriamente eleito” com a maior percentagem de sempre e com a mais baixa abstenção verificada até ao momento. Pode mesmo dizer-se, sem garantia, que terá avisado todas as autoridades do país aos vários níveis, do oriente mais longínquo da Rússia até às fronteiras com o ocidente, de ele teria de ser feito com limites máximos e mínimos e que teria de ser assim.


As eleições da Rússia e a invasão da Ucrânia fizeram-me pensar sobre as semelhanças entre o Presidente Vladimir Putin e José Estaline. Não tinha e ainda não tenho a certeza sobre tais semelhanças. No entanto, recorrendo a documentos históricos a semelhança entre eles em alguns aspetos parece ser por demais evidente. Assim é inevitável deixarmos de associar o regime de Putin ao de Estaline. Dizem alguns que são épocas diferentes e com contextos diferentes. É certo, mas, ainda assim, este ponto de vista leva-nos a recordar o passado e há alguns paralelos que podem ser traçados. Vejamos então alguns pontos de aproximação entre eles.  


Um aspeto muito importante é o da religião e das crenças do povo.  A religião e a igreja é usada para abençoar as campanhas militares, e, no atual regime de Putin, motivos religiosos, culturais e históricos combinam-se com motivos políticos, não é por acaso que Vladimir Putin tem uma associação significativa com a Igreja Ortodoxa Russa. Há um apoio mútuo entre Putin e a Igreja Ortodoxa Russa em que a Igreja confere legitimidade espiritual ao regime de Putin, enquanto Putin apoia a influência da Igreja na sociedade. Por outro lado, o patriarca Kirill, chefe da Igreja Ortodoxa Russa, é visto como um aliado próximo de Putin e tem sido um destacado defensor das políticas de Putin, incluindo a a legitimação da invasão da Ucrânia.


Se consultarmos documentos históricos sobre a governação de Estaline notaremos algumas semelhanças. Aliás, o próprio Putin está a fazer uma reescrita da história e uma lavagem da época estalinistas, porque, segundo ele, é tudo um exagero e uma invenção dos inimigos da Rússia.


Parece ser atributo de ambos a substituição de generais e comandantes que não conseguem fornecer aos militares o que eles precisam em homens e material, em nome do sacrifício pela pátria e a honra bem maior do povo russo. Recentemente, a 19 de março, foi anunciada mais uma substituição que o Presidente Putin efetuou de entre várias mudanças nos principais comandos das Forças Armadas desde que lançou a invasão militar na Ucrânia.


Antes da visita de Putin a Volgogrado para comemorar o aniversário da vitória na Segunda Guerra Mundial foi colocado um busto de Estaline para ser inaugurado. Putin não se coíbe de em entrevistas como a que deu em 2017 em que criticou a “excessiva demonização” de Estaline promovida pelo Ocidente, e que a estratégia é usada “como um meio de atacar a União Soviética e a Rússia”.


Ambos os líderes são conhecidos pelos seus esforços para centralizar o poder. Estaline criou um Estado totalitário de partido único, enquanto Putin criou organização vertical de poder, isto é, uma estrutura governativa em que existem papéis muito específicos de cima para baixo. A liderança encontra-se no topo e, à medida que se desce, a autonomia e o poder de decisão diminuem.


Quanto às políticas interna e externa também podemos encontrar algumas semelhanças. Putin também envenenou ou prendeu opositores e transformou a principal fonte de divisas da Rússia - a indústria do petróleo - numa ferramenta de política de Estado. A repressão de Putin à dissidência lembra repressão brutal da era soviética e Putin, tal como Estaline, são conhecidos pela sua repressão a opositores políticos.


Também como Estaline, Putin convenceu grande parte do povo que “o mundo está todo contra a Rússia”. Nas suas retóricas políticas Putin também faz apelo ao nacionalismo russo e à expansão e recorre ao elogio do império russo. Em ambos há uma forma semelhante na abordagem das suas políticas internas e externas. A de Estaline consistia em construir o socialismo no país e reduzir o tamanho do império alemão, a política externa de Putin tem sido a de conter o “domínio” ocidental e conseguir novos parceiros importantes para o futuro.


A chamada reeducação dos cidadãos quando eram dissidentes da política oficial foi também exercida. O regime de Putin, nas atuais circunstâncias da invasão sa Ucrânia, também tem o mesmo procedimento, pois retira crianças das suas famílais e dios seu páis enviando-as para lares russos para passarem, segundo dizem porta vozes do regime, por um processo de reeducação.  


Contudo, estas semelhanças são relativas porque é importante notar que, apesar destas semelhanças, também há diferenças significativas. O regime de Estaline foi marcado pela repressão em massa, expurgos e um regime de terror, que é bem diferente na Rússia de Putin. Além disso, a Rússia de Putin faz parte da economia global e das instituições internacionais duma forma que o difere da União Soviética de Estaline. A explicação da diferença talvez seja devida a que na altura de Estaline estava-se na terceira fase da globalização que abrange o final da Segunda Guerra Mundial, em 1945 estendendo-se até ao final da Guerra Fria e à queda do Muro de Berlim em 1989. Um dos principais acontecimentos dessa fase determinante para a atual fase da globalização foi a “terceira revolução industrial” responsável pelas inovações tecnológicas e científicas que surgiram a partir da década de 1970 e que são características do meio técnico-científico-informacional atual. Atualmente contribuem para a estratégia militar e da guerra cibernética entre países e regimes.


Em conclusão, embora existam alguns paralelos entre as políticas de Putin e de Estaline, elas são produtos de seus respetivos tempos e têm diferenças significativas. Também vale a pena notar que a interpretação das suas políticas pode variar, e esta é uma comparação simplificada.


Enfim, sobre as eleições na Rússia, Vladimir Putin terá organizado uma outra espécie de operação especial para mostrar aos russos, (e à parte do mundo que ainda está, ou diz estar, com ele), que o seu poder é absoluto. Vladimir Putin é um “czar” que faz acreditar ao povo russo que está a travar uma guerra defensiva porque está a ser atacado pela NATO, pelo EUA e pelo ocidente os que lhe estão a impor com a pretensão para mostrar ao mundo que o povo o apoia esmagadoramente, isto para quem quiser acreditar.

sábado, 30 de setembro de 2023

A posição do PCP que se revê e defende a "verdade" do presidente Putin



O PCP está enfeudado ao PCFR (Partido Comunista da Federação Russa) que segue a cartilha de Putin. As justificações do PCP são a mesmas de que Putin se serve. Mentiras, omissões , invenções e deturpações históricas. Afinal qual é o objetivo do PCP?  Tal como Putin já afirmou o PCP nunca viveu bem com a desmatelamento da União Soviética e da sua ditadura.


 


PCP volta a furar consenso do Parlamento sobre Ucrânia, desta vez sobre eleições









in Jornal Público




Assembleia da República aprova voto de condenação pela realização de eleições promovidas pela Rússia nos territórios ocupados da Ucrânia.





Foto: Paula Santos, líder parlamentar do PCP LUSA/ANTÓNIO PEDRO SANTOS






O Parlamento aprovou nesta sexta-feira um voto de condenação pela realização de eleições regionais e locais promovidas pela Federação Russa nos territórios da Ucrânia que ocupou desde o ano passado, mas o PCP voltou a ficar à margem do consenso, abstendo-se. Estas eleições "representam mais uma flagrante violação do direito internacional e uma provocação inaceitável à legítima soberania e unidade da Ucrânia", lê-se no texto que recebeu o apoio de todos os outros sete partidos com assento parlamentar.


O voto, proposto pela Comissão de Negócios Estrangeiros e Comunidades Portuguesas, considera que as eleições nos territórios ocupados da Crimeia, Sebastopol, Lugansk, Donetsk, Zaporijia e Kherson​, entre os dias 8 e 10 deste mês, foram "ilegais, coercivas e atentatórias de todas as práticas democráticas".


Considera a comissão que foi um escrutínio que "se destinou puramente a procurar legitimar politicamente a anexação ilegal destes territórios" em que participaram cinco partidos com representação no Parlamento russo, e de que saiu largo vencedor o partido Rússia Unida de Putin.


"De acordo com a União Europeia e outros organismos internacionais, as 'eleições' ilegais na Ucrânia ocorreram num contexto marcado pela concessão forçada e ilegal de passaportes por parte da Rússia, inclusive a crianças, por transferências e deportações forçadas, por violações e atropelos generalizados e sistemáticos dos direitos humanos, bem como pela intimidação e crescente repressão de cidadãos ucranianos por parte da Rússia e das autoridades ilegalmente nomeadas nos territórios ucranianos temporariamente ocupados", descreve o texto da comissão parlamentar.


Que acrescenta que estas “'eleições' ilegítimas merecem firme repúdio e condenação”, por serem apenas uma "nova tentativa da Rússia em legitimar ou normalizar o seu controlo militar ilegal e a tentativa de anexação de partes do território ucraniano". "Trata-se de mais uma violação manifesta do Direito Internacional, incluindo a Carta das Nações Unidas, assim como da independência, soberania e integridade territorial da Ucrânia".


PCP diz que territórios querem desligar-se da Ucrânia há muitos anos


Na declaração de voto que entregou sobre o assunto na Mesa do Parlamento, o PCP considera que o voto da comissão de Negócios Estrangeiros, “mais do que procurar contribuir para a solução política de uma guerra que dura há quase dez anos, com os seus múltiplos desenvolvimentos e consequências, inscreve-se numa visão que, omitindo e distorcendo elementos de natureza histórica e deturpando as raízes e causas do conflito, procura animar a guerra e quem com ela lucra”.


Os comunistas alegam que a actual situação “resulta do carácter e das consequências do golpe de Estado de 22 de Fevereiro de 2014 para unidade e integridade territorial da Ucrânia”, e que quem iniciou a guerra foi a “junta militar golpista de Kiev (…) com o recurso a grupos e formações paramilitares que reivindicam o seu passado de colaboracionismo com o nazifascismo”.


“Ao mesmo tempo, a complexa realidade destes territórios – nos planos político-territorial, económico, social, linguístico-cultural – colhe raízes no processo de desmantelamento da URSS e seus efeitos ao longo dos últimos 30 anos”, acrescenta o PCP, realçando que, em Janeiro de 1991, quando o território ucraniano ainda estava integrado na Rússia, um referendo na Crimeia teve como resultado, por 93% dos eleitores, a defesa da retirada da região da jurisdição da Ucrânia, a recuperação da República Autónoma Socialista Soviética da Crimeia (RASSC) e integração no seio da URSS.


Essa vontade popular, escrevem os deputados comunistas, foi contrariada pelo Soviete Supremo da então República Soviética da Ucrânia. As restantes regiões de população maioritariamente russófona também se rebelaram contra Kiev: no Donbass, houve a proclamação das Repúblicas Populares de Donetsk e, depois, de Lugansk. Em Sebastopol, realizou-se um referendo de reintegração na Federação Russa com taxa de aprovação superior a 90%.


No Donbass, distritos de Donetsk e Lugansk, é já depois do início pela junta de Kiev da integração das formações nazis de «batalhões voluntários», incluindo do batalhão Azov, na recém-formada Guarda Nacional da Ucrânia, que têm lugar os levantamentos populares, com a proclamação das Repúblicas Populares de Donetsk e, depois, de Lugansk.


“Não pode ser encontrada uma solução política para o conflito que os EUA e a NATO travam na Ucrânia com a Rússia, omitindo e distorcendo elementos de natureza histórica e deturpando as raízes e causas do conflito”, critica o PCP que insiste na “abertura de vias de negociação que visem alcançar uma solução política do conflito”.


Notícia actualizada às 19h30 com conteúdo da declaração de voto do PCP.





 

sexta-feira, 1 de setembro de 2023

Educação no atual regime da Federação Russa, reescrita da história e o controle dos meios de informação e comunicação

Educação no atual regime da Federação Russa, reescrita da história e o controle dos meios de informação  e comunicação


Ainda resta na Rússia oposição a Putin?


 


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O que aqui escrevo não são invenções mais ou menos ao sabor da corrente das redes sociais nem das emoções que sempre acompanham a política. São opiniões é certo, mas também são pontos de vista baseados e fundamentados por factos cuja origem das fontes não omito, sejam elas do ocidente, sejam da própria Federação Russa.


Do meu ponto de vista a Rússia é um grande país e em vez de ter optado por mergulhar no passado como parece estará a fazer o seu líder, o Presidente Vladimir Putin, poderia ser um grande aleado da Europa após o desmantelamento do que restava da URSS o que poderia trazer-lhe vantagens económicas sem perder a sua importância geopolítica. Mas o seu objetivo é, à semelhança de Trump quando era Presidente do EUA, o de tentar dividir e desestabilizar a União Europeia e o Mundo sem até à data o conseguir.


Putin assim não pensou, prefere o antagonismo com o ocidente que de forma esquizofrénica vê como um inimigo que pretende invadir a Rússia. Pretende construir uma ideologia onde domina uma espécie de “neo-guerra fria”. Para poder controlar as potenciais consequências da invasão da Ucrânia utiliza mecanismos de controlo social que lhe sirvam para obter uma sociedade sem qualquer tipo de comportamento oposicionista que, para ele possa ser considerado desviante. Para tal, cria sanções para quem tenda a desobedecer a normas e regras por ele estabelecidas eliminando até adversários.


Passaram cinco dias desde que a agência de notícias estatal russa RIA Novosti informou que um avião particular onde viajava o chefe do Grupo Wagner, Yevgeny Prigozhin, explodira. Terão passado dois meses entre a tentativa de golpe de Prigozhin com a marcha a Moscovo e a explosão do avião onde seguia.


No mundo alucinado das redes sociais surgiram as mais diversas especulações e teorias da conspiração, como é habitual nas mais variadas circunstâncias. Acidentes com figuras que se opõem a Vladimir Putin, ou que já não lhe são gratos tem sido recorrente. O real esclarecimento deste caso ficará em aberto até um dia. Sabemos como os ditadores são prolíficos naquele tipo de ações. Tivemos também em Portugal, no tempo da ditadura de Salazar, casos de morte de adversários políticos que se opunham ao ditador.


Tem sido recorrente no mundo das redes sociais e noutros canais de comunicação alguns alucinados grosseiros e agressivos chamarem, “rebanho” ou “manada”, a quem segue padrões da mais normal convivência e que são ordeiramente discordantes, por não aceitarem as suas razões imbuídas de falsas racionalidades e não seguirem as suas aberrantes e deturpadas ideias. Esquecem-se esses de que, nesses contextos, são eles as “ovelhas ronhosas” do rebanho a que pertencem. Diz-se erradamente “ranhosa” por confusão com “ronhosa”, isto é, que tem ronha, uma doença, uma espécie de sarna que os ataca.


Estão naquele grupo incluídos os negacionistas anómalos e, também, os que por agora nos interessa, os apoiantes da invasão da Rússia governada pelo regime autoritário e ademocrático de Vladimir Putin e da sua entourage selvática que utiliza a propaganda, vigilância em massa e doutrinação para manter o controle político e ideológico.


São as ovelhas ronhosas que defendem, justificam e desculpam os objetivos de Vladimir Putin para a “operação especial” /guerra/invasão e destruição da Ucrânia que não é mais do que uma ação de terrorismo, embora ele acuse outros de serem eles a praticá-lo.


Passou-se do facto à fantasia e à mentira cometida pelos que escrevem, cometam e dizem estar a informar-nos e que acham estar na posse da verdade absoluta que não é mais do que mentira manifestada como verdade; e há os que os leem, ouvem, acreditam e absorvem como esponjas propagando depois as mentiras que julgam ser a verdade.


Alguns querem mostrar que são cientes do que dizem e gostam que lhes aprovem (com “likes”) as suas diatribes contra os que, dizem eles, são os responsáveis pelos acontecimentos e pelas circunstâncias, o ocidente,  ainda que os factos revelem o contrário. Não fomos nós que fizemos, foram eles, não fomos nós que atacámos foram eles, os terroristas são eles não somos nós. Podemos exemplificar com o passado, por exemplo, a causa da guerra (II Guerra) não foram eles, os nazis, a causa foram os judeus.


Os panegíricos à dita “operação especial”, com narrativas justificativas e surripiadas a ditadores próprios de outras realidades servem os seus intentos. Esta gente é tão imprudente que pensa que nos impingem falsidades e argumentos rebuscados para nos conduzirem para o lado da sua manada, através de discursos retirados a outros que já os fizeram no passado. São os novos simpatizantes de autocracias totalitárias, da violência estalinista que se intitulam democratas, mas que apoiam invasões, genocídios e destruidores de um povo, quais “hitlers” do século XXI.


Recorrendo à agressão militar contra a Ucrânia, a Rússia violou normas e princípios fundamentais do direito internacional, bem como a Carta das Nações Unidas e a Ata Final de Helsínquia (1975). Também violou uma série de acordos bilaterais e multilaterais, incluindo o Memorando de Budapeste sobre Garantias de Segurança relacionadas com a adesão da Ucrânia ao Tratado de Não Proliferação de armas nucleares (1994); Acordo de Amizade, Cooperação e Parceria entre a Ucrânia e a Federação Russa (1997); Acordo entre a Ucrânia e a Federação Russa sobre a fronteira entre a Ucrânia e a Rússia (2003) e muitos outros. A ocupação temporária russa da República Autónoma da Crimeia e da cidade de Sebastopol, bem como certos territórios das regiões de Donetsk e Luhansk, enquadram-se diretamente na definição de agressão de acordo com os parágrafos а), b), c), d), e) e g) Art.3 do Anexo da Resolução da Assembleia Geral da ONU "Definição de Agressão" (3314 (XXIX)).


Sobre os propósitos agressivos subjacentes à agressão russa basta rever as intervenções do antigo primeiro-ministro da Rússia Dmitry Medvedev‎ e os selváticos apelos que faz, sem esquecer os do chefe da igreja ortodoxa russa Kirin e de Dugin um dos inspiradores filosóficos de Putin, assim como o de Vladislav Surkov, o ideólogo principal do Kremlin até fevereiro de 2020, vindo a ficar depois em prisão domiciliária. Pode ver desenvolvimento aqui ou aqui.


Enquanto se discutia a ajuda para a Ucrânia se defender dos ataques e bombardeamentos por ordem do Kremelin Medvedev‎ afirmava que «Na base da NATO em Ramstein (Alemanha, abril de 2023) os grandes líderes discutem novas táticas e estratégicas, assim como o abastecimento à Ucrânia de novas armas e sistemas de ataque. Isto acontece depois do Fórum de Davos onde foliões “atrasados mentais” repetiram como um mantra: “para se conseguir a paz, a Rússia deve perder”».


A 30 de julho de 2023 escrevia Dmitry Medvedev no Twitter que «se a contraofensiva contra a invasão em curso da Ucrânia por Moscovo capturar o território russo, não haverá alternativa ao uso de armas nucleares estratégicas» oque pode ler aqui. É bom recordarmos que nenhum dos territórios da Ucrânia que a Rússia ocupou/anexou é reconhecido internacionalmente como separado da Ucrânia ou fazendo parte da Federação Russa, incluindo a Crimeia.


Em janeiro de 2023 Dmitry Medvedev, ex-Presidente russo, alertava e mostrava-se contra o envio de mais armamento à Ucrânia e chamava “foliões”, “atrasados mentais” e “miseráveis” a líderes dos países ocidentais. Escreveu em publicações no Telegram que “a nenhum desses miseráveis lhes ocorre retirar uma conclusão elementar: a derrota de uma potência nuclear numa guerra convencional pode provocar uma guerra nuclear”.


Não se ficando por aqui, em março de 2023 na sua conta pessoal do Telegram, Medvedev ameaçou disparar o “míssil hipersónico” Oniks desde o Mar do Norte contra o edifício que funciona como sede do Tribunal Penal Internacional, na cidade holandesa de Haia e, a 30 de julho de 2023 não se intimidou ao dizer que usaria o arsenal nuclear da Rússia para ameaçar a Ucrânia e os seus apoiantes ocidentais. Mais recentemente, durante o golpe fracassado do chefe da Wagner, Yevgeny Prigozhin, Medvedev disse que a rebelião poderia levar a uma guerra nuclear.


Ao escrever-se e interpretar Putin e a invasão da Ucrânia a partir dos seus discursos e declarações públicas, temos de imaginar tanto o que ele vê (pensa) assim como o que julga ver e distinguirmos ainda o que ele pretende que os outros vejam, quer dentro, quer fora da Rússia. Mais difícil ainda é tentar ver o que está a conceber, a recordar, quais as suas representações, o que lhe poderá estará a ser contado, e, ainda, a parte que cabe à sua fantasia de autocrata. A partir destas premissas poderemos fazer uma análise procedente das suas palavras nos seus discursos e intervenções, alguns mais ou menos ficcionados, para “venda” ao povo russo e ao Mundo. Só assim poderemos chegar ao significado das expressões verbais que utiliza nas suas das narrativas.


Um primeiro passo para conseguir verificar/analisar, pela leitura, os discursos de Vladimir Putin. Lemos, por exemplo, uma parte e poderemos ser levados a ver o que ele diz como se desenrolasse perante os nossos olhos ou, pelo menos fragmentos ou pormenores do que se passa no seu pensamento individual que diz também ser o do coletivo, isto é, do povo, que dele emergem. Podemos então formar um conjunto de analogias e de contradições conceptuais que nos podem levar à intenção de dar um sentido e uma lógica (normalmente, para nós, sem sentido) ao desenvolvimento da narrativa discursiva de Putin.


A fantasia de nacionalismo extremado é criada nos povos por governantes hipócritas e mentirosos e é escolhida tendo em vista a finalidade de serem as mais favoráveis e agradáveis que o povo quer ouvir. Isto é, criam-se no povo “imagens” previamente fabricadas através da informação em massa disseminada e controlada pelo poder para sedução do povo e que mostrem, evocando, ser essa a “vontade do povo”.


Para compreender muitas das circunstâncias que podem levar a uma aceitação do poder que fala em nome do povo é necessário que se tenha uma compreensão mais profunda da psicologia do povo russo, o que não temos. Mas é sempre possível obtê-la através da sua história social. Para quem está de fora torna-se difícil compreender o povo russo, a não ser através das narrativas dos seus governantes, dos documentos escritos e dos poucos órgãos de informação independentes estes, mesmo assim, sob controle.


Da revolução bolchevique até à segunda década do século XXI os russos têm vivido sob ditaduras e autocracias sem nunca terem chegado a viver numa verdadeira democracia liberal à semelhança do ocidente. Manteve-se uma expectativa com a “Perestroika” que poderia resultar numa aproximação com a Europa, mas que se foi perdendo. A existência de eleições não significa em circunstâncias mais ou menos totalitárias que haja escolha livre e democrática, pois o poder pode arranjar estratégias para controlar um qualquer deslise que fazer perigar e possa vir a substituir o regime instalado.


Tanto quanto se sabe pela informação que nos chega através dos media ocidentais e pela consulta dos órgãos de comunicação social russos a maioria do povo vive numa espécie de universo paralelo (ou único) de informação e é-lhe ocultada a guerra na Ucrânia (a que chamam operação especial!?) da mesma forma tal como a observamos no Ocidente. Para os russos foi-lhes imposta a ideia de que a (operação especial) invasão da Ucrânia pela Rússia é:



  1. uma operação militar fácil e limitada tendo em vista a libertação do “grato povo ucraniano dos nazis, e com poucas baixas entre os militares e o povo ucraniano”.

  2. O grande causador de todos os males é o Ocidente, isto porque lhes é induzida a compreensão do mundo em que “existe um Ocidente hostil que está obcecado em humilhar e enfraquecer a Rússia".

  3. Que o ocidente pretende invadir a Rússia.


Passou a ser difícil ao povo na Rússia “entender o que é verdade e o que é falso, ou quem está certo e quem está errado”.


Assim, para os objetivos de Putin havia que criar, tal como se criou na Alemanha nazi em relação aos judeus, a imagem de um inimigo. Esta atitude é instigada pelo poder tendo segundo estudos efetuados que consideram que pode


“ser considerada inerente à natureza humana, uma característica biologicamente determinada da psicologia social e um meio universal de mobilização de multidões, especialmente em situações de crise”.


 (Mental bases of modern Russian society socio-political development; Yuriy D. Korobkov, Svetlana S. Velikanova, Irina V. Samarokova, Natalia V. Kozhushkova, Alexey Ivanov, Oksana P. Chernykh; Opción, Año 34, Nr. Especial 15 (2018): pp. 625-640).


Com a comunicação possibilitada pelas redes sociais e outros meios eletrónicos com alegações das alíneas anterior torna-se fácil a mobilização por via de notícias falsas. Passou a viver-se na era da viralidade mediática que contamina todos que a recebem um vírus por falta de ‘vacina’ que deveria passar pela análise critica e a confirmação da veracidade do que se lê, vê e ouve.


Segundo o Diário de Notícias que teve acesso à conferência "Pode a História da Rússia explicar o contexto para o entendimento da invasão da Ucrânia ou a guerra representa outro fenómeno?" organizada pelo Clube de Imprensa de Viena Concordia, o historiador russo Serguei Medvedev (nada tem a ver com Dmitry Medvedev, ex-primeiro ministro da Rússia), afirmou que «É preciso que o mundo, os países da NATO e da União Europeia percebam que estamos perante a Terceira Guerra Mundial e que a Ucrânia não é um conflito regional nas franjas da Europa porque o que está em jogo é o futuro da Europa e o futuro do Mundo. Considerou que a Ucrânia é ‘apenas um passo’ para Vladimir Putin desencadear a Terceira Guerra Mundial». «Está em jogo o futuro do Mundo. Temos de acabar o trabalho, porque 1945 é um trabalho incompleto. Na época havia duas ditaduras totalitárias (nazi e soviética) e só uma foi derrotada (Alemanha nazi) e a outra sobreviveu. Agora ressuscitou na forma tradicional.  O "mundo" tem de derrotar a segunda ditadura, referindo-se à Rússia». «Só depois podemos ter confiança em relação ao futuro», sublinhou.


Na minha perspetiva esta é uma posição demasiado pessimista, belicista e que retira espaço a quaisquer negociações de paz


Todavia, é do conhecimento geral que Vladimir Putin, tomando como modelo outros ditadores do século passado (entre outros Estaline e Hitler) insiste levar a Rússia para o totalitarismo de um e o totalitarismo bélico de outro.   


Para concretização de tais desígnios é necessário o controle da informação que são evidentes com o encerramento e a censura do que restava dos órgãos de comunicação independentes agravado com a criminalização de qualquer discurso diferente do oficial sobre a guerra. Para tal, em 4 de abril de 2022, o parlamento russo aprovou uma lei que torna a distribuição do que considerem ser "fake news" sobre a guerra. Neste caso para o Kremelin o que é verdade são "fake news". Isto é, quem publicar alguma coisa diferente da posição do Kremlin passa a ser punível até 15 anos de prisão como, por exemplo, dar nomes de guerra à guerra, sendo obrigados a usar o termo "operação militar especial" para se referir ao que acontece na Ucrânia.


As afirmações que se seguem foram feitas na Duma do Estado da Assembleia Federal da Federação Russa pelo presidente da Duma Vyacheslav Volodin que pode ver AQUI.


«Gostaria que todos entendessem – e a sociedade entende – que estamos a fazer isto para proteger os nossos soldados, oficiais, para proteger a verdade». Lembrou também que se a Rússia não tivesse lançado um exército especial numa operação de manutenção da paz, «uma guerra desencadeada pela OTAN começaria no território de Ucrânia em primeiro lugar, na linha de contato com a RPD - República Popular de Donetsk e LPR - República Popular de Lugansk o que, segundo Vyacheslav Volodin, implicaria milhões de vítimas e ajuda humanitária.»


Note-se que quer a RPD, quer a LPD apenas foram reconhecidas por três Estados membros da ONU até agora, Rússia, Síria e Coreia do Norte. Desaforo não lhes falta para mentalizarem e convencerem o povo russo das falsas verdades que eles criam.


Ainda de acordo com as alterações e segundo os proponentes da ação censória «a divulgação pública sob o pretexto de relatórios fiáveis informações conscientemente falsas e contendo dados sobre o uso das Forças Armadas da Federação Russa e a fim de proteger interesses da Federação Russa e dos seus cidadãos, mantendo a paz e a segurança internacionais, serão punidos com uma multa de 700 mil a 1,5 milhão de rublos». A prisão de até três anos também é possível.


Repare-se no argumento falacioso, entre outros, para justificação do diploma: “para proteger os cidadãos… mantendo a paz e a segurança internacionais”.


Veja-se ainda a menção de que


«Se a violação da lei foi praticada com o uso de posição oficial, por motivos de ódio político, ideológico, racial, nacional ou religioso ou por ódio ou inimizade contra qualquer grupo social, então a pena de prisão pode ser de até 10 anos. Os atos acima referidos, se tiverem acarretado graves consequências, será punível com pena de prisão de 10 a 15 anos».


Putin parece pretender construir uma espécie de “neoestalinismo” para voltar a fazer voltar a Rússia e o povo ao passado da ditadura que vigorou no tempo da URSS. Tal pode ser justificado porque, em 2017, as autoridades russas passaram a interferir e a insistir cada vez mais num discurso histórico, influenciado pela visão do Kremlin, segundo o qual, depois de ter sido abalada pela crise derivada do colapso da União Soviética, a Rússia deve ser novamente transformada num “grande Estado”.


Neste contexto parece estar em execução a lavagem dos crimes de Estaline. Num artigo da DW- Deutsche Welle, emissora internacional da Alemanha e um dos meios de comunicação internacionais mais conceituados, em 2017 afirmava: «o Kremlin defende que livros promovam a imagem de Estaline como patriota e modernizador».


As pesquisas efetuadas trouxeram-nos a confirmação de que as autoridades russas classificam de “prejudicial à saúde de crianças” um livro didático cujo autor, Andrei Suslov, professor de História na Universidade de Pedagogia e Ciências Humanas em Perm na Rússia,  em2017 numa entrevista à DW disse que «escreveu o livro didático em 2015 junto com uma colega e que a obra teria sido editada pela organização russa sem fins lucrativos pelo Centro de Educação Política e Direitos Humanos», e que inclui temas sobre campanha violenta contra opositores nos tempos do líder soviético Estaline. As autoridades russas consideraram então que Aulas de História que tenham como tema críticas ao “Grande Expurgo”, a repressão violenta a opositores na era estalinista, são nocivas e classificam a obra de consulta como “prejudicial à saúde das crianças”.


O movimento ativista do “sut vremeni” (Essência do Tempo), movimento estalinista, provocou um alvoroço de protestos contra o livro didático, com o envio de cartas às autoridades. Pavel Guryanov, do comité local do movimento Sut Vremeni salientou que saúda a decisão da entidade reguladora russa dizendo que «O trabalho do Centro de Educação Política e Direitos Humanos em tais métodos de ensino é somente uma desculpa para as lavagens cerebrais políticas e ideológicas nas crianças em Perm, que ocorre em interesse dos patrocinadores estrangeiros dessa organização». Parece que, para aquele movimento estalinista, relatar factos históricos verídicos são lavagens cerebrais ao contrário da sua omissão-


O ensino da história sobre a era estalinista está na mira do governo russo tendo em vista a recuperação da imagem de Estaline. Parece claro que há fundamentação ideológica nesta pretensão quando o governo defende que livros didáticos promovam uma “educação patriótica” no sentido entendido pelo Kremlin.


Em 2007, o presidente Vladimir Putin mandou imprimir um livro de história em que Estaline, secretário-geral do Partido Comunista da União Soviética de 1922 a 1953, é descrito como «o mais bem-sucedido líder soviético de todos os tempos». Em 2015 no jornal online Insider, edição russa escrevia-se que «em qualquer livraria você encontrará armários inteiros com livros recém-publicados elogiando Putin, Estaline e expondo a conspiração do mundo nos bastidores».


Em 19 de julho de 2023 saiu na imprensa russa que a História que iria passar a constar nos manuais para o 11º ano seria reescrita e que no novo livro ensina-se que «A Ucrânia é um Estado neonazi» e que «A Rússia é um país de heróis». É por este manual que os alunos do ensino correspondente ao nosso secundário começarão a estudar a partir de setembro do corrente ano. É o livro único onde os autores destacam a era posterior a 1945 podendo ler-se na introdução que «O desenvolvimento progressivo da economia, combinado com as conquistas da ciência e da tecnologia nas décadas de 1950 e 1970, fez do nosso país uma das duas potências mais influentes do mundo.


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A União Soviética atingiu patamares sem precedentes: abriu caminho para o espaço para a humanidade, alcançou conquistas impressionantes no desenvolvimento da ciência, da medicina e da educação». Isto é, nos novos livros didáticos sobre a história da Rússia, secções dos anos 1970, 1980, 1990 e 2000 foram completamente revistas e reescritas como afirmou Medinsky, assistente do presidente da Federação Russa e um dos autores dos livros didáticos.


 


Não se ficando por aqui a Rússia preparou este novo livro de história com uma secção sobre o que Putin chama a ‘operação especial’ o que foi confirmado em abril pelo ministro da Educação russo, Sergei Kravtsov, quando afirmou que «foi preparado um novo livro de história com seções sobre uma operação militar especial para o 11º ano».


A agência de notícias TASS que organizou em 7 de agosto do corrente uma conferência de imprensa dedicada ao lançamento do novo livro didático unificado sobre história geral e história da Rússia referiu que o ministro da educação enfatizou que «Hoje estamos a construir um sistema único de ensino soberano. Nesse sentido, o tema da história é fundamental.


Vladimir Putin, disse repetidamente que a memória histórica não deve ser distorcida porque «Devemos fazer tudo para que os filhos de hoje e em geral todos os nossos cidadãos se orgulhem de serem herdeiros, netos, bisnetos dos vencedores. Conhecemos os heróis do nosso país e da nossa família para que todos entendessem que isso faz parte da nossa vida.»


Os autores do novo livro didático afirmaram que o facto de o novo livro de história ser muito diferente daqueles que foram ensinados anteriormente na escola. Um dos autores, Vladimir Medinsky, ao apresentar o manual, anunciou que o livro "reescreveu radicalmente" a seção sobre a história da Rússia desde os anos 70.


O novo livro didático de história, é complementado não apenas com informações sobre a "Operação Militar Especial", mas também mostra a história da segunda metade do século XX de uma maneira diferente. Desde as primeiras páginas, transmite as opiniões que Vladimir Putin já havia declarado publicamente repetidamente: «Em primeiro lugar, deve-se reconhecer que o colapso da União Soviética foi a maior catástrofe geopolítica do século», escreve-se no início do livro didático.


Segundo o canal de televisão da Rússia RBC, Putin chamou à "demonização excessiva" de Estaline um ataque à Rússia


Parece que o Kremelin está a querer voltar ao passado da ex-URSS e às características dos regimes totalitários, tempo em que eram feitas nas escolas ‘lavagens cerebrais’ às crianças e jovens, (por questões politico-ideológicas), através dos conteúdos, isto, de acordo com investigações efetuadas, e sem desrespeito para com a excelente serviço prestado pela educação pública na época.


A rescrita da história de acordo com os interesses dos regimes é deturpadora de factos e enaltece apenas o passado que lhes interessa. É o que parece estar a acontecer com a reabilitação do estalinismo, época que mostra ser da simpatia de Putin, apesar dele ter afirmado em 2017 que: «É claro que algo provavelmente permanece na mente, mas isso não significa que devemos esquecer todos os horrores do estalinismo associados aos campos de concentração e à destruição de milhões de nossos compatriotas». Segundo o mesmo órgão de comunicação russo e de acordo com uma pesquisa social realizada pelo Centro Levada em janeiro de 2017, a aprovação de Estaline entre os russos atingiu um recorde histórico em 16 anos. Se em março de 2016, 37% dos cidadãos russos o tratavam com "admiração", "respeito" e "simpatia", em 2017 era já de 46%.


No entanto há ainda alguns órgãos de comunicação que mostram pontos vista mais críticos sobre a forma como factos históricos são reescritos com uma visão unilateral da realidade omitindo e deturpando factos, tais como os Estados Unidos interferirem na Rússia e que o colapso da URSS foi um desastre. O que ficou provado é o contrário, a Rússia interferiu nas eleições de 2016 quando Trump concorreu para a Casa Branca.


As reformas nas narrativas históricas impostas pelo regime de Putin não são de agora já vêm de anos anteriores. Em 2017 Estaline é retratado na Rússia como patriota e modernizador. «O imenso número de vítimas trazido pela coletivização forçada da agricultura, pela industrialização imprudente e também pelo terror em massa nos anos 1930 é minimizado. A ditadura comunista é legitimada segundo o pretexto de que ela foi necessária no contexto da época. O ensino sobre a era Estaline «está na mira do governo russo», escrevia então a DW e tem contribuído para que Estaline tenha vindo a ser mostrado ao povo russo pelas autoridades russas como um patriota e modernizador.


Segundo a mesma rede de notícias, a Deutsche Welle, em 2017, Elina Ibragimova ca alertava num artigo que o livro didático foi alvo das autoridades russas pelo Roskomnadsor, Serviço Federal de Supervisão das Comunicações, que como anteriormente já referi, classificou a obra de consulta como sendo "prejudicial à saúde das crianças". Concluíram que as aulas de História sobre o “Grande Expurgo”, a repressão violenta a opositores na era estalinista, são nocivas. Foi uma forma de oculara a realidade história duma época.


Sob influência do Kremlin as autoridades russas têm interferido, cada vez com mais frequência, sobre os escritos históricos porque, ao ser abalada por uma crise devido ao colapso da União Soviética, acham que a Rússia deve ser transformada num "grande Estado". Para fundamentar esta pretensão ideológica o governo defende que livros didáticos promovam uma “educação patriótica”. Em 2007, o presidente Vladimir Putin mandou imprimir um livro de história em que Estaline, secretário-geral do Partido Comunista da União Soviética de 1922 a 1953, é descrito como “o mais bem-sucedido líder soviético de todos os tempos”.


A narrativa do Presidente manteve-se porque, numa entrevista que deu a Oliver Stone em junho de 2017, o conhecido realizador de cinema dos EUA, Vladimir Putin disse que a demonização de Estaline é uma das formas de pressionar a Rússia, é uma das formas de "atacar a União Soviética e a Rússia". Pode confirmar AQUI a afirmação. Em março de 2022 a revista norte-americana online Deadline Hollywood que divulga notícias da indústria do espetáculo escrevia que «Após a invasão da Ucrânia em fevereiro, Oliver Stone que tinha criticado os media por usarem o termo ‘invasão’ para caracterizar os planos da Rússia, reviu a sua posição» e, em 7 de março do mesmo ano, Oliver Stone passou a utilizar «agressão de Putin na Ucrânia» depois de dizer anteriormente que «não havia provas» de que a Rússia a pretendia invadir e concluía que «Embora os Estados Unidos tenham muitas guerras de agressão na sua consciência, isso não justifica a agressão de Putin na Ucrânia. Uma dúzia de erros não faz que um esteja certo. A Rússia errou ao invadir.»


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O regime autoritário da Rússia aproxima-se mais dum regime totalitário que se caracteriza, entre outras, pela repressão política e violações dos direitos humanos onde, mais do que nos regimes autoritários, há uma absoluta falta de ideais democráticos e o culto generalizado da personalidade da pessoa que está no poder.


Com a iniciativa de um novo curso universitário através de formação online fica claro que a Rússia é um estado totalitário e que, no domínio da educação, se transformou num autêntico campo de reeducação dos jovens e das suas mentes. Este novo curso ideológico é constituído por palestras e esteve a ser preparado  para ser imposto às faculdades e universidades russas e será ministrado sob a forma de vídeo aulas que pode consultar aqui.


Alguns desses vídeo-aula têm o título de uma frase muito usada por Vladimir Putin ao descrever a Rússia quando fala da sua história. Uma delas descreveu em 2012 «a Rússia como um tipo especial de Estado-civilização. Chamou a atenção para a simples verdade de que a Rússia não surgiu em 1917 ou 1991, e que tem uma história única e contínua de mil anos». Prossegue dizendo que «a Rússia é um "guardião do equilíbrio do mundo", cujo papel especial na história tem sido objeto de pensamento filosófico e académico há séculos. E veja-se onde chega a anomalia quando no contexto “de desejo da Rússia de expulsar o exército de Napoleão não apenas de seu próprio território, mas até mesmo da Europa” salienta que


Os europeus viam os soldados russos como invasores, pois não conseguiam entender que os russos eram motivados pelo autossacrifício em prol da própria liberdade dos europeus.


Para os autores do curso «o mundo multipolar imaginado pelos autores tem um total de sete polos: Ocidental, Cristão ortodoxo, Extremo Oriente, Hinduísta, Árabe, Iraniano e Chinês.» Acrescenta então que «o Ocidente "sempre foi hostil à Rússia". A cultura europeia, diz o vídeo, há muito "reproduz clichês de russofobia" que apresentavam a Rússia como um "país enorme e selvagem, onde ursos vagueiam pelas ruas" e os naturais "arrastam a sua sopa de repolho com sapatos como colheres"».


Por aqui vemos a subjacência na filosofia marginal e a ideologia oficial com Alexander Dugin a passar a ideólogo[1] que é a chave do Kremelin. Enfim, o centro das palestras para os estudantes universitários centra-se na frase «O mundo russo não pode ser contido por fronteiras estatais» e que «a Rússia é uma civilização em si mesmo».


Se lermos extratos de artigos sobre a história da Rússia no tempo da URSS no século XX, a política oficial sobre a memória da União Soviética ou da Rússia em relação aos crimes do Estalinismo, verificamos que passou por várias fases bastante diferentes: se houve períodos onde predominava a desestalinização houve outros de reestalinização de Khrushchev e Brejnev. A resolução de 8 de outubro de 1959, relativa às aulas de história nas escolas[2], dá algumas informações interessantes sobre a política de memória daqueles dias. Embora se peça aos professores que separem o regime de Estaline da tradição e da função histórica do partido comunista a ideia e o princípio fundamentais da historiografia permaneceram intactos. As aulas de história nas escolas e universidades deveriam manter o papel das massas como os verdadeiros criadores da história e do Partido Comunista como o poder de liderança, controlo e direção da sociedade soviética, tal como os princípios marxistas-leninistas.


Uma abordagem pró-comunista no início da “glasnost”[3] e da “perestroika”[4], com ênfase na demonização de Estaline em prol do movimento comunista, foi removida por uma abordagem anticomunista o que resultou no colapso da União Soviética.


No entanto, atualmente, uma abordagem crítica ao passado da Rússia foi substituída por um “consenso patriótico” como afirma Sperling, 2001,


«A busca da sociedade russa por uma identidade pós-soviética, que durou mais de uma década, parece ter chegado ao fim e culminou no 'consenso patriótico'» e ainda sobre «o retorno nostálgico à era imperial e a crescente apropriação do passado soviético" na publicidade e no marketing antes mesmo do início da ascensão de Putin».


«Nos Estados totalitários o objetivo da história é incorporar a comunidade atual numa tradição longa e gloriosa que deverá vincular os membros da comunidade a esta tradição. Os acontecimentos históricos que apoiam estes propósitos são conservados pele moldagem cultural e por políticas de memória. Os eventos ou acontecimentos históricos que perturbam a imagem do estado totalitário são removidos e destruídos por revisões da história.»


Desde o tempo da ex-URSS para o efeito de estabelecer o culto do herói na sociedade, há longas décadas que tem sido feita a instrumentalização política e ideológica da Segunda Guerra Mundial. A Segunda Guerra Mundial, a Grande Guerra Patriótica, como é tem sido designada na Rússia, é uma forma de instrumentalização política que continua ainda a ser feita anualmente na Rússia com grande pompa de poderio militar. As mortes causadas são transformadas em estereótipos de pessoas heroicas confiando no futuro, tendo em vista o que era a ex-União Soviética e nos seus valores da supremacia cultural que continuam na Federação Russa. Os soldados tornaram-se no tema mais significativo do mito do herói soviético.


Breves pesquisas mostraram que esta ilustração dos soldados se enquadra na estrutura da memória cultural desenhada pela história da época estalinista. Acontecimentos e factos como o pacto Hitler/Estaline, o assassinato dos oficiais polacos em Katyn, o medo da morte dos soldados, a brutalização na guerra, o péssimo equipamento militar, a falta de comida e inúmeros suicídios nos esquadrões, não entram nesta escrita da história da Rússia. (Stalinism, Memory and Commemoration: Russia’s dealing with the past; Christian Volk, 2009).


 


[1] Neste arigo refere-se a influência ideológica de Dugin em Putin.


[2] Este documento tornou-se inválido no território da Federação russa em ligação com a publicação do Decreto do Governo da Federação Russa datado de 03/02/2020, nº 80


[3] Glasnost, (em russo: "abertura") política soviética de discussão aberta de questões políticas e sociais. Foi instituído por Mikhail Gorbachev no final da década de 1980 e iniciou a democratização da União Soviética.


[4] Perestroika, (russo: "reestruturação") programa instituído na União Soviética por Mikhail Gorbachev em meados da década de 1980 para reestruturar a política econômica e política soviética. Procurava equiparar a União Soviética economicamente a países capitalistas como Alemanha, Japão e Estados Unidos, Gorbachev descentralizou os controles económicos e encorajou as empresas a autofinanciarem-se.

terça-feira, 31 de janeiro de 2023

É o poder da guerra superior ao poder da paz?

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Voltemos à decisão unilateral de Vladimir Putin de invadir ilegalmente a Ucrânia. Putin passou a fazer parte do grupo dos senhores da guerra, aliás, parece que sempre fez, embora não reconhecido como tal. Faz parte dos que a praticam e não dos que se lhe opõem. Há quem confunda defesa com agressão, tal é o caso de Putin que, numa espécie de lenga-lenga, diz estar a ser ameaçado pelos inimigos do Ocidente.


Vladimir Putin tem a convicção adulterada de que o Ocidente está a impor os seus valores e estereótipos de consumo a tentar expandir os seus mercados. Pois bem, é muito provável que seja verdade. Então que ponha o seu país a fazer o mesmo de forma pacífica e honesta num mundo de cooperação. Putin que promova o seu país pela positiva e não pela beligerância e com invasões sem cabimento a não ser a ânsia de poder e de expansão e com tentativas para recuperar o que foi a antiga URSS em modo oligarquia.


Putin e seus aliados de elite que atualmente governam a Rússia ainda estão virados para o passado e para a guerra fria que terminou. Nunca aceitaram a perda de uma proporção significativa do território, população e dos países que saíram da influência da Rússia que a dissolução da União Soviética implicou.


A elite dominante do país anda exasperada  por ser tratada como um ator menor no sistema global e insistem que a Rússia continua a ser uma grande potência com interesses de segurança com uma área global de influência que deve ser respeitada, isto é, Putin e os atuais governantes da Rússia, nunca aceitaram a ordem internacional pós-Guerra Fria e o fim do Pacto de Varsóvia.


A invasão da Ucrânia levou-me a recordar os “senhores da guerra” cujo conceito é diversos consoante as regiões geográficas e políticas. Ao analisar-se a gama de opções disponíveis para os senhores da guerra obtemos como resultados uma compreensão complexa de variedade de motivações.


O que interessa salientar é saber se podemos considerar Putin como um dos senhores da guerra no contexto de invasão por ele iniciada. Jesse Driscoll escreveu um livro onde analisa o termo senhores da guerra centrando-se no período após a União Soviética a que deu o título Warlords and Coalition Politics in Post-Soviet States  que pode ver aqui.


O principal argumento que Driscoll apresenta é o de que os senhores da guerra conspiraram para estabelecer o estado pós-comunista, na esperança de garantir uma parcela da ajuda estrangeira.


Driscoll afirma que “não é de surpreender que as unidades militares russas tenham intervindo para resolver quase todas as batalhas militares decisivas travadas no antigo território da URSS. Foi apenas com a ajuda militar da Rússia que as milícias da Ossétia do Sul e Adjaran[1] detiveram os paramilitares georgianos. A ajuda tática de bases russas próximas acabou por tornar-se explícita quando os separatistas da Abkhaz[2] foram auxiliados pelo poder aéreo russo e combatentes paramilitares. … A artilharia da Frota Russa do Mar Negro desempenhou um papel crucial na derrota da insurgência zviadista[3] na Geórgia”.


Mas afirma ainda que “que a Rússia não nomeou ou controlou os senhores da guerra e as milícias que estavam envolvidos na luta, e que os acordos locais alcançados entre essas milícias foram realmente o que levou ao acordo da guerra civil”.


 Curioso é que forças paramilitares há época já eram utilizadas pela Rússia nas suas intervenções em várias guerras locais, como na Síria, para ajudar ditaduras opressoras tal como o Grupo Wagner, grupo de mercenários ligados à Rússia.   


Este grupo é uma empresa paramilitar privada, cujo dono é um aliado de Putin. O grupo fundado em 2014 teve uma das suas primeiras missões conhecidas na península ucraniana da Crimeia, e que, com uniformes sem identificação, ajudaram as forças separatistas apoiadas pela Rússia a tomar a região.


Em 2015, o Grupo Wagner começou a operar na Síria, lutando ao lado das forças pró-governo do ditador Bashar al-Assad. Na Líbia está desde 2016 a apoiar as forças leais ao general Khalifa Haftar, um dos mais poderosos "senhores da guerra" do país. Acredita-se que até mil mercenários do Wagner tenham participado da ofensiva de Haftar sobre o governo oficial em Trípoli em 2019. As suas tropas passaram a ser acusadas de perpetrar crimes de guerra, como massacre de prisioneiros e mortes arbitrárias.


Negando evidências dos factos e subtilmente aceitando os objetivos da invasão alguns comentadores que escrevem em redes sociais e em blogues os agressores, os que provocam a guerra, são defendidos com determinação com argumentos falaciosos apoiando-se na má política de outros países para justiçarem a invasão pela Rússia e a política beligerante de Putin. Quem se opõem à invasão, mas ajuda à defesa do país invadido são os malvados, os que não procuram a paz e incentivam a guerra. É a total inversão de valores em defesa sabe-se lá do quê.


O objetivo desses senhores que apoiam invasões ilegítimas, tal como a da Ucrânia, ao colocarem-se contra o Ocidente e procurando razões arcaicamente históricas é apenas um: alimentar o ódio contra os EUA, a U.E. e a OTAN e desacreditar os aliados históricos do Ocidente que lutaram contra o nazismo, e reatar o conflito político e ideológico do tempo da Guerra Fria, vivida durante o tempo da acabada União Soviética. Talvez haja da parte deles saudosismo que lhes alimenta a esperança de poderem voltar utilizando quaisquer meios ao dispor para atingir os fins, uma hipotética restauração, modelo século XXI, do renascimento do imperialismo soviético liderado por Putin.


Dado que estes “influenciadores” procuram sistematicamente indícios e arbitrariedades por parte daqueles que detestam para, utilizando a liberdade que o Ocidente lhes confere, poderem atacar os que a defendem.


Os senhores da guerra e os que os defendem padecerão duma patologia de pacientes paranoicos. Tal como na paranoia, conforme os manuais de foro psiquiátrico, têm a tendência para a interpretação errónea da realidade em consequência da suscetibilidade aguda, do orgulho excessivo e/ou da desconfiança extrema do indivíduo que pode até chegar ao delírio persecutório, não apenas a nível pessoal, mas ao nível de povos, grupos e governos. Exemplo será a obsessão de Putin, a nível político, por uma invasão vinda do Ocidente.


Como em política nada acontece por acaso, quando se pretende justificar determinadas ações e circunstâncias nada melhor do que fabricar um inimigo, um bode expiatório, para se justificarem manifestações de vontade que seriam considerados ilegais. É o caso que se passa com o caso sobre o qual se está a tratar, a invasão russa da Ucrânia decidida por Putin justificando que o malvado do Ocidente estará a querer cercar a Rússia que está a querer libertar e salvar o povo ucraniano dos nazis. Na Alemanha, Hitler, também quis defender e libertar o país dos judeus.


Por aqui, em Portugal, muitos dos apoiantes de Putin que escrevem nas redes sociais e noutros locais como blogues e páginas que proliferam na net difundem falsidades onde põem os seus escritos a defender exasperadamente os invasores da Ucrânia que justificam culpando o Ocidente com argumentos requintados de deslisura que Ucrânia é um país de nazis. Nazis serão os que, ultrapassando todas as leis da política e direito internacional, defendem quem começa guerras como esta apenas pelo ódio aos EUA, à OTAN e ao Ocidente onde vivem e onde podem exprimir livremente o seu pensamento.


Por princípio, e sem pretender generalizar, tenho a perceção de que entre o tipo de senhores que atrás refiro alguns estarão desagradados com a falta de visibilidade que não lhes é dada na comunicação social (sobretudo na TV) porque a sua sumidade não lhes é reconhecida. São identificados politicamente com a esquerda, mas da esquerda, da radical. Destilam veneno nas redes sociais contra o Ocidente, EUA, OTAN e UE. Contudo, há outros a quem é concedido o trono das cadeiras dos canais de televisão para perorarem subtilmente em prol dos invasores e inimigos da liberdade. Para eles os senhores da guerra são os outros o Ocidente.


Um dos últimos escritos que descobri foi de um tal senhor coronel português, reformado, que escreveu um artigo numa página de um site que é uma plataforma híbrida online para publicação de conteúdos e que se denomina jornalismo social. No jornalismo social qualquer um pode enviar e publicar histórias para uma plataforma. No entanto, alguns meios de comunicação têm filtros para garantir que um determinado padrão seja verificado. Há também plataformas (como Medium.com e Linkedin) que incorporam muito menos filtros de curadoria. Isso, por sua vez, deixa uma questão em torno da qualidade do conteúdo publicado podendo cair sob o disfarce de jornalismo.


Cito excertos do documento atrás referido onde parece claro e implícito, salvo outra interpretação, que, para o autor, os senhores da guerra são o Ocidente e os EUA que auxiliam a Ucrânia na defesa da invasão. Escreve o senhor coronel:


“Os senhores da guerra vão realizando análises de custos e benefícios ao longo das campanhas até chegar ao momento em que decidem terem mais a perder do que a ganhar com a manutenção das hostilidades, que chegou o tempo de negociar o saque. No caso da Ucrânia, estão em jogo os milhares de milhões de euros de “ajuda à reconstrução”! Os franceses deram sinal de vida e já estão em campo, de dente afiado, informa do Le Monde: “Guerre en Ukraine, en direct : 500 entreprises françaises réunies mardi à Paris pour reconstruire l’Ukraine.”


E mais adiante:


“Os Estados Unidos atingiram o seu objetivo principal: subordinar a União Europeia e bloqueá-la na sua órbita, separando-a da Rússia e destruindo a sua coesão e veleidades de autonomia.”


“Contudo os estados ocidentais irão para o saque do futuro da Ucrânia em ordem dispersa, cada um por si e contra os outros para abocanhar o que puderem dos fundos atribuídos à “reconstrução” da Ucrânia: os franceses estão a preparar-se, assim como os alemães. A Polónia deverá ser recompensada do seu apoio como base logística com uma parcela da Ucrânia, o Reino Unido servirá de sócio principal dos EUA, e a Turquia venderá caro os seus bons ofícios de intermediação e na manutenção de pontes entre as partes, que deverão ser pagos pelo Ocidente e pelos curdos. Os Estados Unidos através das suas empresas serão os grandes “reconstrutores”, como já foram no Iraque!”


Repare-se bem, “subordinar a União Europeia e bloqueá-la na sua órbita, separando-a da Rússia”! Separar a União Europeia da Rússia. Que frase ambígua! É difícil interpretar corretamente este pensamento.


A pergunta que se pode colocar é: mesmo que assim seja, quem começou a invasão, causa para que o prognóstico do autor se cumpra?


Parece não reconhecerem a hipocrisia e de que a mentira de Putin são por demais evidentes. Tenta imputar ao Ocidente tudo quanto lhe cabe a ele de responsabilidade. Putin parece sofrer de uma patologia que se pode designar por inversão psíquica a do poder pela destruição. É uma patologia psicossocial dos indivíduos com poder. São psicóticos que estão impedindo o desenvolvimento humano e pretendem destruir as sociedades e nações que não pensem ou sejam como a deles. O objetivo é dominar outros povos que lhe fugiram do encalço quando da queda da URSS. Sujeitos como este, se não forem parados, poderemos vir a assistir ao rápido desmoronamento da civilização colocando-a em perigo.


Em outubro de 2022 Teresa de Sousa escrevia que as ameaças de recurso a armas nucleares. As nomeações de novos chefes militares que ganharam fama de assassinos em outros teatros de guerra, como na Síria. A anexação ilegal de partes da Ucrânia. A deportação de populações das poucas regiões que ainda controla, incluindo crianças. O objetivo é óbvio: desmoralizar os ucranianos, intimidar os seus apoiantes ocidentais e, internamente influenciar o povo russo.


Para os mesmos objetivos recorrem a outras vias como a guerra da informação em que os dois polos do conflito estão envolvidos. Nestes dois encontram-se os que apoiam Putin que, não defendendo explicitamente a invasão da Ucrânia, atacam os países que se colocam do seu lado no auxílio da sua defesa.


Há indivíduos e grupos que divulgam a propaganda oficial do Kremlin negando a veracidade dos factos sobre a realidade da guerra e contra o Ocidente, enquanto os propagam nos seus países sendo coadjuvados por lacaios doutros países, incluído Portugal. Usam falsas razões e argumentos ao mesmo tempo que no seu país há um controle rigoroso sobre os órgãos de informação que mandam encerrar, fixam censura, perseguem e prendem quem não aceite ou desminta a “verdade” oficial.


A informação e contra informação pela quantidade inassimiláveis e confunde as opiniões públicas para o que comentadores e órgãos de comunicação por vezes também contribuem.


 


[1] Adjara, oficialmente uma República Autónoma de Adjara é uma república autónoma da Geórgia.


[2] Região no Cáucaso e uma república autônoma no norte da Geórgia que se declara independente, desde o fim da guerra civil de 1992-1993


[3] Consultar https://www.wikiwand.com/pt/Guerra_Civil_na_Ge%C3%B3rgia


 

domingo, 25 de setembro de 2022

A propósito do PCP e das suas abstratas declarações sobre paz



Por mais que me esforce não consigo compreender a posição do PCP sobre a invasão da Ucrânia. Afirma ser pela paz, mas não esclarece, nem sugere vias. É contra a guerra, mas não se refere concretamente contra a qual. Contra todas, é claro. Mas contra ela somos todos. Quando lhe é dirigida a pergunta sobre esta em especial, nem piu. Sabemos que todas são más e que há vários outros implicados. O PCP fala em escalada belicosa de quem? Também sabemos que houve, e há, vários implicados em guerras com que estamos contra. Mas, quanto a esta guerra de invasão nada. Mas, afinal, quem está a provocar uma escala belicosa? Nós, alguns, que ainda poderemos ter alguma simpatia psicológica e percetiva pelo partido que lutou e sofreu na luta antifascista, estamos na dúvida. 


O artigo de opinião de Pacheco Pereira talvez seja reacionário para o PCP, mas,  o que ele diz são factos. Tudo isto começa a ser estranho, e o pior é que começa a entranahr-se. Esclarecimentos concretos precisam-se por parte do PCP


Quando é que o PCP convoca uma manifestação pela paz contra Putin?









Se não saírem para a rua claramente contra quem faz esta escalada, pondo o nome às coisas, e Putin e a Federação Russa são os nomes, na verdade não é a paz que desejam, mas uma vitória militar russa.






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O facto de esta ser uma pergunta retórica mostra a absoluta fragilidade da posição do PCP e das organizações a ele ligadas, como o Conselho Português para a Paz e Cooperação, sobre a guerra da Ucrânia em matéria de paz. O que aconteceu nesta semana com o discurso de Putin, a sua intenção de fazer referendos-fantoches e a clara ameaça de uma guerra nuclear colocam o mundo mais perto de um conflito catastrófico do que alguma vez esteve desde a crise dos mísseis em Cuba em 1962.


Se isto não é um ataque à paz, não sei o que possa ser. E neste caso não adianta vir com duplicidades e falsas equivalências: não foram a Ucrânia, nem a NATO, nem os EUA que fizeram esta escalada, mas apenas o Presidente da Federação Russa, que não se limitou a ameaçar com um conflito nuclear, insistindo que o que estava a dizer não era um bluff, era para tomar a sério. Aliás, quem, desde o primeiro dia deste conflito, resultado de uma agressão militar da Rússia à Ucrânia, fez ameaças nucleares foram Putin, Lavrov e aquele belicista sem paralelo no lado de “cá”, Medvedev, vice-presidente do Conselho de Segurança russo. Sim, a guerra nuclear, aquela guerra que mata milhões, destrói as grandes cidades do mundo e não tem vencedores, a coisa mais próxima de nos mandar para a ficção científica catastrófica, e para a Idade da Pedra. Senhores que enchem a boca pela paz, há alguma coisa que se compare em dimensão com estas ameaças, do lado da NATO, dos EUA, da UE? Claro que não há, e não há hipócritas comparações nem duplicidades que possam ocultar este facto: se não saírem para a rua claramente contra quem faz esta escalada, pondo o nome às coisas, e Putin e a Federação Russa são os nomes, na verdade não é a paz que desejam, mas uma vitória militar russa.


A sequência perigosa está toda no discurso de Putin. Os referendos-fantoches — e uso a palavra fantoches porque é isso mesmo que são; mesmo que admita que uma parte dos habitantes do Donbass prefere ser russa a ucraniana, não é em guerra e numa ocupação militar que o seu voto tem qualquer valor — vão justificar a anexação de territórios ucranianos à Federação Russa.


Só um parêntesis: se o mesmo tipo de referendos fosse feito em certas zonas geográficas da Federação Russa, como o Cáucaso, também os habitantes votariam ou pela independência ou pela anexação, por exemplo, pela Turquia. A Tchetchénia foi mantida na Federação pela guerra, pela violência e pela repressão.


Os referendos têm apenas o papel de pseudolegitimar conquistas territoriais de um Estado sobre outro, o mais clássico motivo para uma guerra imperialista. E a reivindicação de uma espécie de “droit de regard” armado para “proteger os ‘russos’” é, neste contexto, exactamente o que Hitler fez nos Sudetas. Aliás, onde está Putin coloquem Hitler e as frases são idênticas no verbo e na substância. Logo a seguir à anexação, Putin passa a considerar esses territórios russos, que hoje vão muito para além do Donbass e se estendem a zonas onde se fala ucraniano e onde não há sentimentos pró-russos, mas que Putin quer anexar à Federação porque tem uma posição estratégica relativa à Crimeia e ao acesso da Ucrânia ao mar. E, depois, um ataque a Lugansk é um ataque à Rússia, logo a possibilidade de uma resposta nuclear é possível. “Não é um bluff.”


Repito: quando é que o PCP sai para a rua para condenar Putin por colocar o mundo perto de um conflito nuclear? Silêncio. Nem pensar. Seria “fazer o jogo da NATO”. Eu percebo-os. Não tenho dúvidas de que a última coisa que desejavam era esta guerra, porque o PCP e os seus companheiros de estrada sabem que ela teve o efeito contrário ao pretendido, não vai acabar bem para Putin e a probabilidade de ter sido o balão de oxigénio de que a NATO precisava verifica-se todos os dias. Por outro lado, neste contexto, não querem que Putin perca de forma muito evidente e clamorosa. Duvido que apoiem a escalada belicista de Putin, mas também os incomoda muito a eficaz ofensiva ucraniana. É um mecanismo não só político, mas também psicológico, daquilo que tanto pode ser interpretado como comportamento dos indivíduos quando se metem numa argumentação sem saída e, em vez de a corrigirem, sobem de tom e caminham ainda mais para o abismo. O mesmo para aquilo a que antes se chamava “psicologia de massas”. Ou seja, estão metidos num imbróglio que não tem saída feliz, mas que tem um ponto forte: não querem que a Ucrânia ganhe. Não o podem dizer, mas é exactamente isso que desejam, de desejo forte, inominável, feio.




Foto Imagem do filme O Projecto Blair Witch DR



Por isso, estão bloqueados no plano político. Já os comparei aos enfeitiçados pela Bruxa de Blair, paralisados contra uma parede numa cave em ruínas.





quinta-feira, 14 de julho de 2022

Que tipo de potência quer ser a Rússia?

A gravidade dos incêndios tem feito passar para segundo plano a guerra na Ucrânia nos alinhamentos dos jornais televisivos. Ela no entanto continua presente no terreno e nos pensamentos. Recordo aqui um artigo que Teresa de Sousa escreveu em agosto de 2018, publicado no jornal Público, que se mantem atual face à vontade de Putin para reverter todo o processo que terminou com a Guerra Fria e com a União Soviética e até que ponto Donald Trump o tem ajudado.


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A Rússia é uma potência do século XX


 que ainda não se adaptou ao século XXI


Um artigo de Teresa de Sousa


In jornal Público, 19 de Agosto de 2018


O que quer e o que pode Vladimir Putin? A resposta, difícil, provoca algumas insónias aos europeus. Donald Trump não ajudou.



  1. À primeira vista, dir-se-ia que a vida tem corrido bem a Vladimir Putin. Conseguiu transformar a Rússia de potência decadente em potência “emergente”, com direito a figurar nos BRICS. Há dez anos, pelo menos, que desafia o Ocidente, infringido as leis internacionais, ignorando fronteiras e ocupando parte de dois países independentes: primeiro a Geórgia, depois a Ucrânia. Não esconde a sua política “revisionista” da ordem internacional para reconquistar as “zonas de influência” da União Soviética, perdidas depois da derrota na Guerra Fria. Encontrou recentemente no líder da única superpotência que resta uma “alma gémea”, cujo objectivo é entender-se com ele, apesar das crescentes resistências internas nos EUA. A cimeira de Helsínquia, há um mês, correu-lhe de feição, apresentando-se ao lado de um homólogo americano desejoso de agradar-lhe, ao ponto de o desresponsabilizar pela interferência, mais do que provada, nas presidenciais americanas de 2016. Fez-lhe o favor não mencionar a Ucrânia ou a Crimeia. O seu objectivo é um entendimento com o Presidente americano por cima da “cabeça” da Europa que tenta, constantemente, dividir, para recuperar a influência sobre a sua parte Leste, da qual ainda não desistiu. Conseguiu colocar um pé firme no Médio Oriente e no Mediterrâneo, graças à guerra na Síria, salvando o regime assassino de Damasco e preparando-se para ficar. Apresentou ao mundo, no Mundial de futebol, um país organizado, capaz de levar a cabo sem problemas (visíveis) nem incidentes um campeonato desta envergadura, aproveitando uma plateia de milhares de milhões de espectadores.


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Foto Thomas Peter/REUTERS


Mas a cerimónia final do Mundial, no pódio instalado no centro do relvado, onde Putin, Emmanuel Macron e Kolinda Grabar-Kitarovic recebiam os jogadores e distribuíam as medalhas, revelou uma anomalia. De um lado, um Putin rígido, apesar do sucesso; do outro, dois Presidentes eufóricos, alegres, descontraídos, capazes de tirar todo o partido da vitória da França e do honroso segundo lugar da Croácia. De repente, uma bátega de água ameaçou estragar a festa. Os guarda-costas de Putin abriram imediatamente um chapéu-de-chuva para protegê-lo, sem a mínima intenção de fazer o mesmo aos outros dois Presidentes, indiferentes à chuva e sem guarda-costas, mantendo a euforia. A imagem era forte: dois mundos muito distantes habitaram por um momento o grandioso estádio de Moscovo.



  1. A vida corre bem a Vladimir Putin? E com que consequências para o Ocidente, até agora incapaz de evitar duas invasões a países independentes na sua fronteira Leste? Um deles, aGeórgia, queria afastar-se da influência de Moscovo e aproximar-se da União Europeia e da NATO. Foi invadida em Agosto de 2008 pelas tropas russas, alegadamente para defender as minorias russas que viviam na Abkhazia e na Ossétia do Sul. Na altura, ninguém queria imaginar o cenário com que a Aliança se depararia no caso de a Geórgia ser membro da NATO. O cenário contrário também podia ser verdadeiro: se fosse, Putin teria invadido? Era este o dilema ocidental.


A Ucrânia já foi outro caso, embora com o mesmo objectivo: expandir a influência russa e testar a reacção europeia e americana. Em 2008, Putin ainda via a NATO como o verdadeiro inimigo. Em 2014, já tinha percebido que a União Europeia, apesar de desarmada, tinha um efeito de atracção praticamente irresistível. Quando, em Dezembro de 2013, o governo pró-russo de Kiev se preparava para assinar um Tratado de Associação com a União Europeia, Putin pura e simplesmente proibiu-o. Não tardaram as manifestações na Praça central de Kiev e, depois, nas outras praças e nas outras cidades do país, contra a interferência de Moscovo.


O Presidente ucraniano fugiu para Moscovo. O pretexto para a intervenção russa teve semelhanças com a Geórgia. A população de língua russa que vivia na parte Leste da Ucrânia, a velha região industrial, mais longe do sonho europeu, precisava de protecção. Seguiu-se a anexação da Crimeia, violando todos os acordos estabelecidos depois da Guerra Fria.


A base naval russa de Sebastopol, em águas quentes do Mar Negro, continuava a ser fundamental para a estratégia expansionista do Kremlin. O facto consumado desencadeou uma reacção que não estava nos cálculos do Presidente russo. Foi a única coisa que lhe correu mal. A Europa decretou sanções logo em Março de 2014, que foram sempre em crescendo.


A queda do voo MH17, com 300 passageiro a bordo, saído de Amesterdão, derrubado por um míssil de proveniência russa disparado da Ucrânia foi a gota de água que pôs fim a quaisquer hesitações europeias. Uma linha vermelha tinha sido ultrapassada. Berlim e Paris conseguiram reunir à sua volta a maioria dos parceiros europeus para organizar a reacção.


Seguiram-se as negociações dos acordos de Minsk que Putin, até hoje, não cumpriu. Os europeus mantiveram-se unidos. As sanções têm vindo a ser sistematicamente renovadas. Os “amigos” de Putin que, entretanto, ganharam terreno na Europa, não fizeram ondas. O Presidente russo não contava com a união da Europa, como não contava com uma coordenação sem falhas entre Berlim e Washington. Obama liderou a resposta. A Rússia ficou isolada internacionalmente. As sanções doem na economia. Mas têm, como sempre, um duplo efeito: alimentam o discurso nacionalista conta a agressão ocidental, ao qual os russos são ainda sensíveis. 


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Foto Rebeldes pró-russos do Leste da Ucrânia, em 2014 Marko Djurica/REUTERS


A eleição de Donald Trump acabou por ser uma inesperada prenda para Vladimir Putin. Mas realidade ainda não traduz o seu efeito. O Congresso americano decidiu há dias aplicar novas sanções no domínio da tecnologia militar, em resposta ao “caso Skripal”, do envenenamento de um ex-espião russo com o recurso a um agente químico considerado uma “arma”, em território britânico. Washington vendeu armas a Kiev. O Pentágono aumentou o financiamento da presença militar dos EUA nos Bálticos e na Polónia, em conjunto com as forças da NATO, para prevenir qualquer tentação de Moscovo.



  1. O Guardian publicava recentemente uma opinião da reputada especialista francesa da Rússia, Marie Mendras. Vale a pena olhar para o que escreveu. “A narrativa do Kremlin assenta na noção de uma Rússia ‘patriótica’ superando constantemente uma oposição minúscula, desprezada como uma “quinta coluna” criada e manipulada por forças externas”, diz a académica francesa. Para avisar: “É tentador para os observadores externos adoptar esta visão a preto e branco, na qual o líder é dominador e admirado, enquanto os que duvidam dele são uma excepção.”


Na realidade, continua Mendras, “há três Rússias”. A primeira é a de Putin, “construída sobre uma estrutura de poder oligárquica e uma massiva máquina de propaganda.” A televisão é totalmente controlada. A segunda “são os cidadãos normais, com as suas muitas facetas mas também os seus problemas comuns”. A terceira, finalmente, “são as elites profissionais e a classe média alta, que beneficiaram do boom económico dos anos 2000 e que agora têm muito a perder”.


É uma boa descrição. A esmagadora maioria dos 140 milhões de russos preocupa-se com a queda do nível de vida, a quebra de qualidade da saúde e da educação, a insegurança e a corrupção. Os protestos, diz Mendras, são frequentes. “A situação de Putin é, de facto, o problema clássico que muitos líderes autoritários enfrentam”, conclui a académica. “Precisa de exibir legitimidade popular para convencer o seu próprio círculo próximo, bem como rivais potenciais, de que é invencível e insubstituível”.


Outro dado interessante é a imigração crescente das classes profissionais, sobretudo para a Europa, ainda que sempre com vontade de regressar. Se as coisas se complicarem internamente, a tentação será de “aumentar a repressão” interna, o que apenas alimentar a resistência. “Em última análise, a demanda do poder mundial pode não ser suficiente para unificar uma sociedade fragmentada e as suas várias elites à volta de um homem forte.” É difícil de acreditar que Putin venha a optar pela outra vida possível: a liberalização do regime. 


Há outra versão da história recente da Rússia e da culpa ocidental. George Friedman, reputado geopolítico que já dirigiu a Stratfor, dava recentemente outra visão muito mais crítica da “incompreensão” dos “liberais ocidentais” da história e da geografia do grande país de Leste. É uma visão bastante em moda em alguns meios intelectuais europeus, que vêem em Putin um notável estratego e tendem a não considerar relevante a questão da democracia.


Friedman acusa o Ocidente de um erro de raiz: “O problema é que os reformadores liberais vêem a Rússia e outros países como nações desejosas de serem como eles. É uma forma de narcisismo ocidental que conduz a uma incompreensão do mundo”. A sua frase mais reveladora: “Se Putin tivesse sido atropelado por um carro em 2000, teria sido substituído por outro Putin, com outro nome”. Tudo teria sido igual.


Os limites da tese são óbvios. Basta um exemplo dos cem que vêem ao espírito. Se Winston Churchill tivesse sido atropelado em 1940 em Picadilly Circus, a História não teria sido igual. A União Europeia foi, ela própria, a vitória dos valores políticos contra a geografia e a história. O raciocínio ocidental era mais elaborado: a ideia de que todos os povos do mundo tinham direito a viver em democracia. A polémica dura até hoje, embora cada vez mais a desfavor dos que continuam a considerar os valores ocidentais como universais. A crescente “desuniversalização dos valores e das normas das democracias ocidentais” é uma realidade, escreve Bobo Lo, do Institut Français des Relations Internationales (IFRI), de Paris. Trump deu uma forte contribuição, deixando as potências ocidentais sem um instrumento que foi estruturante da sua política externa.



  1. Também para Putin o caminho não é fácil. Alguns dados económicos ajudam a relativizar a sua força. O PIB da Rússia é inferior ao italiano, embora já tenha sido igual ao holandês. O país continua a depender de uma só fonte de riqueza: o petróleo e o gás natural. A modernização da sua economia depende do investimento estrangeiro ocidental, posto em reserva pelas sanções e pelas incertezas internacionais. Há já alguns anos, Chris Patten, último governador de Hong-Kong e actual reitor de Oxford, numa entrevista ao PÚBLICO, respondia com outra pergunta à pergunta sobre a economia russa: “Tem em casa alguma coisa a dizer made in Russia?”.


O caminho da China é oposto. E o petróleo é, cada vez menos, uma “arma”. Putin teve a vida facilitada quando o crude esteve acima dos 100 dólares por barril. Tentou a arma energética, em 2006, quando fechou a torneira do gasoduto que abastece a Ucrânia, para mostrar à Europa (sobretudo à Alemanha) o que lhe poderia acontecer num Inverno rigoroso. Desde então, os europeus trataram de diversificar as suas fontes de abastecimento. Os especialistas lembram que, sobretudo nos países do Sul, foram construídos portos para receber o gás liquefeito importado da América. Hoje, a própria Alemanha está a construir um. Trump está muito interessado no negócio. 


Amy Myers Jaffe, do Council on Foreign Relations, refere que, em Helsínquia, “Putin lembrou ao Presidente americano que ‘nenhum dos dois está interessado na queda dos preços do petróleo.’” Os EUA são hoje praticamente auto-suficientes em matéria de energia. Querem aumentar as exportações. Os gigantes russos, como a Rosneft e a Lukoil ou a Gazprom vêem-se obrigados a investir em países de grande instabilidade política como o Irão, Venezuela, Líbia ou o Iraque, correndo um risco elevado, chama à atenção a mesma analista. A realidade e sempre mais complicado do que parece. 


O que pode afinal Vladimir Putin? “Em muitos aspectos, a Rússia é uma potência do século XX a lutar por adaptar-se às realidades do século XXI”, escreve Bobo Lo. Mantém um gigantesco arsenal nuclear. Não consegue intimidar os EUA, nem sequer a China. O seu futuro não está determinado.