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sexta-feira, 1 de setembro de 2023

Educação no atual regime da Federação Russa, reescrita da história e o controle dos meios de informação e comunicação

Educação no atual regime da Federação Russa, reescrita da história e o controle dos meios de informação  e comunicação


Ainda resta na Rússia oposição a Putin?


 


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O que aqui escrevo não são invenções mais ou menos ao sabor da corrente das redes sociais nem das emoções que sempre acompanham a política. São opiniões é certo, mas também são pontos de vista baseados e fundamentados por factos cuja origem das fontes não omito, sejam elas do ocidente, sejam da própria Federação Russa.


Do meu ponto de vista a Rússia é um grande país e em vez de ter optado por mergulhar no passado como parece estará a fazer o seu líder, o Presidente Vladimir Putin, poderia ser um grande aleado da Europa após o desmantelamento do que restava da URSS o que poderia trazer-lhe vantagens económicas sem perder a sua importância geopolítica. Mas o seu objetivo é, à semelhança de Trump quando era Presidente do EUA, o de tentar dividir e desestabilizar a União Europeia e o Mundo sem até à data o conseguir.


Putin assim não pensou, prefere o antagonismo com o ocidente que de forma esquizofrénica vê como um inimigo que pretende invadir a Rússia. Pretende construir uma ideologia onde domina uma espécie de “neo-guerra fria”. Para poder controlar as potenciais consequências da invasão da Ucrânia utiliza mecanismos de controlo social que lhe sirvam para obter uma sociedade sem qualquer tipo de comportamento oposicionista que, para ele possa ser considerado desviante. Para tal, cria sanções para quem tenda a desobedecer a normas e regras por ele estabelecidas eliminando até adversários.


Passaram cinco dias desde que a agência de notícias estatal russa RIA Novosti informou que um avião particular onde viajava o chefe do Grupo Wagner, Yevgeny Prigozhin, explodira. Terão passado dois meses entre a tentativa de golpe de Prigozhin com a marcha a Moscovo e a explosão do avião onde seguia.


No mundo alucinado das redes sociais surgiram as mais diversas especulações e teorias da conspiração, como é habitual nas mais variadas circunstâncias. Acidentes com figuras que se opõem a Vladimir Putin, ou que já não lhe são gratos tem sido recorrente. O real esclarecimento deste caso ficará em aberto até um dia. Sabemos como os ditadores são prolíficos naquele tipo de ações. Tivemos também em Portugal, no tempo da ditadura de Salazar, casos de morte de adversários políticos que se opunham ao ditador.


Tem sido recorrente no mundo das redes sociais e noutros canais de comunicação alguns alucinados grosseiros e agressivos chamarem, “rebanho” ou “manada”, a quem segue padrões da mais normal convivência e que são ordeiramente discordantes, por não aceitarem as suas razões imbuídas de falsas racionalidades e não seguirem as suas aberrantes e deturpadas ideias. Esquecem-se esses de que, nesses contextos, são eles as “ovelhas ronhosas” do rebanho a que pertencem. Diz-se erradamente “ranhosa” por confusão com “ronhosa”, isto é, que tem ronha, uma doença, uma espécie de sarna que os ataca.


Estão naquele grupo incluídos os negacionistas anómalos e, também, os que por agora nos interessa, os apoiantes da invasão da Rússia governada pelo regime autoritário e ademocrático de Vladimir Putin e da sua entourage selvática que utiliza a propaganda, vigilância em massa e doutrinação para manter o controle político e ideológico.


São as ovelhas ronhosas que defendem, justificam e desculpam os objetivos de Vladimir Putin para a “operação especial” /guerra/invasão e destruição da Ucrânia que não é mais do que uma ação de terrorismo, embora ele acuse outros de serem eles a praticá-lo.


Passou-se do facto à fantasia e à mentira cometida pelos que escrevem, cometam e dizem estar a informar-nos e que acham estar na posse da verdade absoluta que não é mais do que mentira manifestada como verdade; e há os que os leem, ouvem, acreditam e absorvem como esponjas propagando depois as mentiras que julgam ser a verdade.


Alguns querem mostrar que são cientes do que dizem e gostam que lhes aprovem (com “likes”) as suas diatribes contra os que, dizem eles, são os responsáveis pelos acontecimentos e pelas circunstâncias, o ocidente,  ainda que os factos revelem o contrário. Não fomos nós que fizemos, foram eles, não fomos nós que atacámos foram eles, os terroristas são eles não somos nós. Podemos exemplificar com o passado, por exemplo, a causa da guerra (II Guerra) não foram eles, os nazis, a causa foram os judeus.


Os panegíricos à dita “operação especial”, com narrativas justificativas e surripiadas a ditadores próprios de outras realidades servem os seus intentos. Esta gente é tão imprudente que pensa que nos impingem falsidades e argumentos rebuscados para nos conduzirem para o lado da sua manada, através de discursos retirados a outros que já os fizeram no passado. São os novos simpatizantes de autocracias totalitárias, da violência estalinista que se intitulam democratas, mas que apoiam invasões, genocídios e destruidores de um povo, quais “hitlers” do século XXI.


Recorrendo à agressão militar contra a Ucrânia, a Rússia violou normas e princípios fundamentais do direito internacional, bem como a Carta das Nações Unidas e a Ata Final de Helsínquia (1975). Também violou uma série de acordos bilaterais e multilaterais, incluindo o Memorando de Budapeste sobre Garantias de Segurança relacionadas com a adesão da Ucrânia ao Tratado de Não Proliferação de armas nucleares (1994); Acordo de Amizade, Cooperação e Parceria entre a Ucrânia e a Federação Russa (1997); Acordo entre a Ucrânia e a Federação Russa sobre a fronteira entre a Ucrânia e a Rússia (2003) e muitos outros. A ocupação temporária russa da República Autónoma da Crimeia e da cidade de Sebastopol, bem como certos territórios das regiões de Donetsk e Luhansk, enquadram-se diretamente na definição de agressão de acordo com os parágrafos а), b), c), d), e) e g) Art.3 do Anexo da Resolução da Assembleia Geral da ONU "Definição de Agressão" (3314 (XXIX)).


Sobre os propósitos agressivos subjacentes à agressão russa basta rever as intervenções do antigo primeiro-ministro da Rússia Dmitry Medvedev‎ e os selváticos apelos que faz, sem esquecer os do chefe da igreja ortodoxa russa Kirin e de Dugin um dos inspiradores filosóficos de Putin, assim como o de Vladislav Surkov, o ideólogo principal do Kremlin até fevereiro de 2020, vindo a ficar depois em prisão domiciliária. Pode ver desenvolvimento aqui ou aqui.


Enquanto se discutia a ajuda para a Ucrânia se defender dos ataques e bombardeamentos por ordem do Kremelin Medvedev‎ afirmava que «Na base da NATO em Ramstein (Alemanha, abril de 2023) os grandes líderes discutem novas táticas e estratégicas, assim como o abastecimento à Ucrânia de novas armas e sistemas de ataque. Isto acontece depois do Fórum de Davos onde foliões “atrasados mentais” repetiram como um mantra: “para se conseguir a paz, a Rússia deve perder”».


A 30 de julho de 2023 escrevia Dmitry Medvedev no Twitter que «se a contraofensiva contra a invasão em curso da Ucrânia por Moscovo capturar o território russo, não haverá alternativa ao uso de armas nucleares estratégicas» oque pode ler aqui. É bom recordarmos que nenhum dos territórios da Ucrânia que a Rússia ocupou/anexou é reconhecido internacionalmente como separado da Ucrânia ou fazendo parte da Federação Russa, incluindo a Crimeia.


Em janeiro de 2023 Dmitry Medvedev, ex-Presidente russo, alertava e mostrava-se contra o envio de mais armamento à Ucrânia e chamava “foliões”, “atrasados mentais” e “miseráveis” a líderes dos países ocidentais. Escreveu em publicações no Telegram que “a nenhum desses miseráveis lhes ocorre retirar uma conclusão elementar: a derrota de uma potência nuclear numa guerra convencional pode provocar uma guerra nuclear”.


Não se ficando por aqui, em março de 2023 na sua conta pessoal do Telegram, Medvedev ameaçou disparar o “míssil hipersónico” Oniks desde o Mar do Norte contra o edifício que funciona como sede do Tribunal Penal Internacional, na cidade holandesa de Haia e, a 30 de julho de 2023 não se intimidou ao dizer que usaria o arsenal nuclear da Rússia para ameaçar a Ucrânia e os seus apoiantes ocidentais. Mais recentemente, durante o golpe fracassado do chefe da Wagner, Yevgeny Prigozhin, Medvedev disse que a rebelião poderia levar a uma guerra nuclear.


Ao escrever-se e interpretar Putin e a invasão da Ucrânia a partir dos seus discursos e declarações públicas, temos de imaginar tanto o que ele vê (pensa) assim como o que julga ver e distinguirmos ainda o que ele pretende que os outros vejam, quer dentro, quer fora da Rússia. Mais difícil ainda é tentar ver o que está a conceber, a recordar, quais as suas representações, o que lhe poderá estará a ser contado, e, ainda, a parte que cabe à sua fantasia de autocrata. A partir destas premissas poderemos fazer uma análise procedente das suas palavras nos seus discursos e intervenções, alguns mais ou menos ficcionados, para “venda” ao povo russo e ao Mundo. Só assim poderemos chegar ao significado das expressões verbais que utiliza nas suas das narrativas.


Um primeiro passo para conseguir verificar/analisar, pela leitura, os discursos de Vladimir Putin. Lemos, por exemplo, uma parte e poderemos ser levados a ver o que ele diz como se desenrolasse perante os nossos olhos ou, pelo menos fragmentos ou pormenores do que se passa no seu pensamento individual que diz também ser o do coletivo, isto é, do povo, que dele emergem. Podemos então formar um conjunto de analogias e de contradições conceptuais que nos podem levar à intenção de dar um sentido e uma lógica (normalmente, para nós, sem sentido) ao desenvolvimento da narrativa discursiva de Putin.


A fantasia de nacionalismo extremado é criada nos povos por governantes hipócritas e mentirosos e é escolhida tendo em vista a finalidade de serem as mais favoráveis e agradáveis que o povo quer ouvir. Isto é, criam-se no povo “imagens” previamente fabricadas através da informação em massa disseminada e controlada pelo poder para sedução do povo e que mostrem, evocando, ser essa a “vontade do povo”.


Para compreender muitas das circunstâncias que podem levar a uma aceitação do poder que fala em nome do povo é necessário que se tenha uma compreensão mais profunda da psicologia do povo russo, o que não temos. Mas é sempre possível obtê-la através da sua história social. Para quem está de fora torna-se difícil compreender o povo russo, a não ser através das narrativas dos seus governantes, dos documentos escritos e dos poucos órgãos de informação independentes estes, mesmo assim, sob controle.


Da revolução bolchevique até à segunda década do século XXI os russos têm vivido sob ditaduras e autocracias sem nunca terem chegado a viver numa verdadeira democracia liberal à semelhança do ocidente. Manteve-se uma expectativa com a “Perestroika” que poderia resultar numa aproximação com a Europa, mas que se foi perdendo. A existência de eleições não significa em circunstâncias mais ou menos totalitárias que haja escolha livre e democrática, pois o poder pode arranjar estratégias para controlar um qualquer deslise que fazer perigar e possa vir a substituir o regime instalado.


Tanto quanto se sabe pela informação que nos chega através dos media ocidentais e pela consulta dos órgãos de comunicação social russos a maioria do povo vive numa espécie de universo paralelo (ou único) de informação e é-lhe ocultada a guerra na Ucrânia (a que chamam operação especial!?) da mesma forma tal como a observamos no Ocidente. Para os russos foi-lhes imposta a ideia de que a (operação especial) invasão da Ucrânia pela Rússia é:



  1. uma operação militar fácil e limitada tendo em vista a libertação do “grato povo ucraniano dos nazis, e com poucas baixas entre os militares e o povo ucraniano”.

  2. O grande causador de todos os males é o Ocidente, isto porque lhes é induzida a compreensão do mundo em que “existe um Ocidente hostil que está obcecado em humilhar e enfraquecer a Rússia".

  3. Que o ocidente pretende invadir a Rússia.


Passou a ser difícil ao povo na Rússia “entender o que é verdade e o que é falso, ou quem está certo e quem está errado”.


Assim, para os objetivos de Putin havia que criar, tal como se criou na Alemanha nazi em relação aos judeus, a imagem de um inimigo. Esta atitude é instigada pelo poder tendo segundo estudos efetuados que consideram que pode


ser considerada inerente à natureza humana, uma característica biologicamente determinada da psicologia social e um meio universal de mobilização de multidões, especialmente em situações de crise”.


 (Mental bases of modern Russian society socio-political development; Yuriy D. Korobkov, Svetlana S. Velikanova, Irina V. Samarokova, Natalia V. Kozhushkova, Alexey Ivanov, Oksana P. Chernykh; Opción, Año 34, Nr. Especial 15 (2018): pp. 625-640).


Com a comunicação possibilitada pelas redes sociais e outros meios eletrónicos com alegações das alíneas anterior torna-se fácil a mobilização por via de notícias falsas. Passou a viver-se na era da viralidade mediática que contamina todos que a recebem um vírus por falta de ‘vacina’ que deveria passar pela análise critica e a confirmação da veracidade do que se lê, vê e ouve.


Segundo o Diário de Notícias que teve acesso à conferência "Pode a História da Rússia explicar o contexto para o entendimento da invasão da Ucrânia ou a guerra representa outro fenómeno?" organizada pelo Clube de Imprensa de Viena Concordia, o historiador russo Serguei Medvedev (nada tem a ver com Dmitry Medvedev, ex-primeiro ministro da Rússia), afirmou que «É preciso que o mundo, os países da NATO e da União Europeia percebam que estamos perante a Terceira Guerra Mundial e que a Ucrânia não é um conflito regional nas franjas da Europa porque o que está em jogo é o futuro da Europa e o futuro do Mundo. Considerou que a Ucrânia é ‘apenas um passo’ para Vladimir Putin desencadear a Terceira Guerra Mundial». «Está em jogo o futuro do Mundo. Temos de acabar o trabalho, porque 1945 é um trabalho incompleto. Na época havia duas ditaduras totalitárias (nazi e soviética) e só uma foi derrotada (Alemanha nazi) e a outra sobreviveu. Agora ressuscitou na forma tradicional.  O "mundo" tem de derrotar a segunda ditadura, referindo-se à Rússia». «Só depois podemos ter confiança em relação ao futuro», sublinhou.


Na minha perspetiva esta é uma posição demasiado pessimista, belicista e que retira espaço a quaisquer negociações de paz


Todavia, é do conhecimento geral que Vladimir Putin, tomando como modelo outros ditadores do século passado (entre outros Estaline e Hitler) insiste levar a Rússia para o totalitarismo de um e o totalitarismo bélico de outro.   


Para concretização de tais desígnios é necessário o controle da informação que são evidentes com o encerramento e a censura do que restava dos órgãos de comunicação independentes agravado com a criminalização de qualquer discurso diferente do oficial sobre a guerra. Para tal, em 4 de abril de 2022, o parlamento russo aprovou uma lei que torna a distribuição do que considerem ser "fake news" sobre a guerra. Neste caso para o Kremelin o que é verdade são "fake news". Isto é, quem publicar alguma coisa diferente da posição do Kremlin passa a ser punível até 15 anos de prisão como, por exemplo, dar nomes de guerra à guerra, sendo obrigados a usar o termo "operação militar especial" para se referir ao que acontece na Ucrânia.


As afirmações que se seguem foram feitas na Duma do Estado da Assembleia Federal da Federação Russa pelo presidente da Duma Vyacheslav Volodin que pode ver AQUI.


«Gostaria que todos entendessem – e a sociedade entende – que estamos a fazer isto para proteger os nossos soldados, oficiais, para proteger a verdade». Lembrou também que se a Rússia não tivesse lançado um exército especial numa operação de manutenção da paz, «uma guerra desencadeada pela OTAN começaria no território de Ucrânia em primeiro lugar, na linha de contato com a RPD - República Popular de Donetsk e LPR - República Popular de Lugansk o que, segundo Vyacheslav Volodin, implicaria milhões de vítimas e ajuda humanitária.»


Note-se que quer a RPD, quer a LPD apenas foram reconhecidas por três Estados membros da ONU até agora, Rússia, Síria e Coreia do Norte. Desaforo não lhes falta para mentalizarem e convencerem o povo russo das falsas verdades que eles criam.


Ainda de acordo com as alterações e segundo os proponentes da ação censória «a divulgação pública sob o pretexto de relatórios fiáveis informações conscientemente falsas e contendo dados sobre o uso das Forças Armadas da Federação Russa e a fim de proteger interesses da Federação Russa e dos seus cidadãos, mantendo a paz e a segurança internacionais, serão punidos com uma multa de 700 mil a 1,5 milhão de rublos». A prisão de até três anos também é possível.


Repare-se no argumento falacioso, entre outros, para justificação do diploma: “para proteger os cidadãos… mantendo a paz e a segurança internacionais”.


Veja-se ainda a menção de que


«Se a violação da lei foi praticada com o uso de posição oficial, por motivos de ódio político, ideológico, racial, nacional ou religioso ou por ódio ou inimizade contra qualquer grupo social, então a pena de prisão pode ser de até 10 anos. Os atos acima referidos, se tiverem acarretado graves consequências, será punível com pena de prisão de 10 a 15 anos».


Putin parece pretender construir uma espécie de “neoestalinismo” para voltar a fazer voltar a Rússia e o povo ao passado da ditadura que vigorou no tempo da URSS. Tal pode ser justificado porque, em 2017, as autoridades russas passaram a interferir e a insistir cada vez mais num discurso histórico, influenciado pela visão do Kremlin, segundo o qual, depois de ter sido abalada pela crise derivada do colapso da União Soviética, a Rússia deve ser novamente transformada num “grande Estado”.


Neste contexto parece estar em execução a lavagem dos crimes de Estaline. Num artigo da DW- Deutsche Welle, emissora internacional da Alemanha e um dos meios de comunicação internacionais mais conceituados, em 2017 afirmava: «o Kremlin defende que livros promovam a imagem de Estaline como patriota e modernizador».


As pesquisas efetuadas trouxeram-nos a confirmação de que as autoridades russas classificam de “prejudicial à saúde de crianças” um livro didático cujo autor, Andrei Suslov, professor de História na Universidade de Pedagogia e Ciências Humanas em Perm na Rússia,  em2017 numa entrevista à DW disse que «escreveu o livro didático em 2015 junto com uma colega e que a obra teria sido editada pela organização russa sem fins lucrativos pelo Centro de Educação Política e Direitos Humanos», e que inclui temas sobre campanha violenta contra opositores nos tempos do líder soviético Estaline. As autoridades russas consideraram então que Aulas de História que tenham como tema críticas ao “Grande Expurgo”, a repressão violenta a opositores na era estalinista, são nocivas e classificam a obra de consulta como “prejudicial à saúde das crianças”.


O movimento ativista do “sut vremeni” (Essência do Tempo), movimento estalinista, provocou um alvoroço de protestos contra o livro didático, com o envio de cartas às autoridades. Pavel Guryanov, do comité local do movimento Sut Vremeni salientou que saúda a decisão da entidade reguladora russa dizendo que «O trabalho do Centro de Educação Política e Direitos Humanos em tais métodos de ensino é somente uma desculpa para as lavagens cerebrais políticas e ideológicas nas crianças em Perm, que ocorre em interesse dos patrocinadores estrangeiros dessa organização». Parece que, para aquele movimento estalinista, relatar factos históricos verídicos são lavagens cerebrais ao contrário da sua omissão-


O ensino da história sobre a era estalinista está na mira do governo russo tendo em vista a recuperação da imagem de Estaline. Parece claro que há fundamentação ideológica nesta pretensão quando o governo defende que livros didáticos promovam uma “educação patriótica” no sentido entendido pelo Kremlin.


Em 2007, o presidente Vladimir Putin mandou imprimir um livro de história em que Estaline, secretário-geral do Partido Comunista da União Soviética de 1922 a 1953, é descrito como «o mais bem-sucedido líder soviético de todos os tempos». Em 2015 no jornal online Insider, edição russa escrevia-se que «em qualquer livraria você encontrará armários inteiros com livros recém-publicados elogiando Putin, Estaline e expondo a conspiração do mundo nos bastidores».


Em 19 de julho de 2023 saiu na imprensa russa que a História que iria passar a constar nos manuais para o 11º ano seria reescrita e que no novo livro ensina-se que «A Ucrânia é um Estado neonazi» e que «A Rússia é um país de heróis». É por este manual que os alunos do ensino correspondente ao nosso secundário começarão a estudar a partir de setembro do corrente ano. É o livro único onde os autores destacam a era posterior a 1945 podendo ler-se na introdução que «O desenvolvimento progressivo da economia, combinado com as conquistas da ciência e da tecnologia nas décadas de 1950 e 1970, fez do nosso país uma das duas potências mais influentes do mundo.


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A União Soviética atingiu patamares sem precedentes: abriu caminho para o espaço para a humanidade, alcançou conquistas impressionantes no desenvolvimento da ciência, da medicina e da educação». Isto é, nos novos livros didáticos sobre a história da Rússia, secções dos anos 1970, 1980, 1990 e 2000 foram completamente revistas e reescritas como afirmou Medinsky, assistente do presidente da Federação Russa e um dos autores dos livros didáticos.


 


Não se ficando por aqui a Rússia preparou este novo livro de história com uma secção sobre o que Putin chama a ‘operação especial’ o que foi confirmado em abril pelo ministro da Educação russo, Sergei Kravtsov, quando afirmou que «foi preparado um novo livro de história com seções sobre uma operação militar especial para o 11º ano».


A agência de notícias TASS que organizou em 7 de agosto do corrente uma conferência de imprensa dedicada ao lançamento do novo livro didático unificado sobre história geral e história da Rússia referiu que o ministro da educação enfatizou que «Hoje estamos a construir um sistema único de ensino soberano. Nesse sentido, o tema da história é fundamental.


Vladimir Putin, disse repetidamente que a memória histórica não deve ser distorcida porque «Devemos fazer tudo para que os filhos de hoje e em geral todos os nossos cidadãos se orgulhem de serem herdeiros, netos, bisnetos dos vencedores. Conhecemos os heróis do nosso país e da nossa família para que todos entendessem que isso faz parte da nossa vida.»


Os autores do novo livro didático afirmaram que o facto de o novo livro de história ser muito diferente daqueles que foram ensinados anteriormente na escola. Um dos autores, Vladimir Medinsky, ao apresentar o manual, anunciou que o livro "reescreveu radicalmente" a seção sobre a história da Rússia desde os anos 70.


O novo livro didático de história, é complementado não apenas com informações sobre a "Operação Militar Especial", mas também mostra a história da segunda metade do século XX de uma maneira diferente. Desde as primeiras páginas, transmite as opiniões que Vladimir Putin já havia declarado publicamente repetidamente: «Em primeiro lugar, deve-se reconhecer que o colapso da União Soviética foi a maior catástrofe geopolítica do século», escreve-se no início do livro didático.


Segundo o canal de televisão da Rússia RBC, Putin chamou à "demonização excessiva" de Estaline um ataque à Rússia


Parece que o Kremelin está a querer voltar ao passado da ex-URSS e às características dos regimes totalitários, tempo em que eram feitas nas escolas ‘lavagens cerebrais’ às crianças e jovens, (por questões politico-ideológicas), através dos conteúdos, isto, de acordo com investigações efetuadas, e sem desrespeito para com a excelente serviço prestado pela educação pública na época.


A rescrita da história de acordo com os interesses dos regimes é deturpadora de factos e enaltece apenas o passado que lhes interessa. É o que parece estar a acontecer com a reabilitação do estalinismo, época que mostra ser da simpatia de Putin, apesar dele ter afirmado em 2017 que: «É claro que algo provavelmente permanece na mente, mas isso não significa que devemos esquecer todos os horrores do estalinismo associados aos campos de concentração e à destruição de milhões de nossos compatriotas». Segundo o mesmo órgão de comunicação russo e de acordo com uma pesquisa social realizada pelo Centro Levada em janeiro de 2017, a aprovação de Estaline entre os russos atingiu um recorde histórico em 16 anos. Se em março de 2016, 37% dos cidadãos russos o tratavam com "admiração", "respeito" e "simpatia", em 2017 era já de 46%.


No entanto há ainda alguns órgãos de comunicação que mostram pontos vista mais críticos sobre a forma como factos históricos são reescritos com uma visão unilateral da realidade omitindo e deturpando factos, tais como os Estados Unidos interferirem na Rússia e que o colapso da URSS foi um desastre. O que ficou provado é o contrário, a Rússia interferiu nas eleições de 2016 quando Trump concorreu para a Casa Branca.


As reformas nas narrativas históricas impostas pelo regime de Putin não são de agora já vêm de anos anteriores. Em 2017 Estaline é retratado na Rússia como patriota e modernizador. «O imenso número de vítimas trazido pela coletivização forçada da agricultura, pela industrialização imprudente e também pelo terror em massa nos anos 1930 é minimizado. A ditadura comunista é legitimada segundo o pretexto de que ela foi necessária no contexto da época. O ensino sobre a era Estaline «está na mira do governo russo», escrevia então a DW e tem contribuído para que Estaline tenha vindo a ser mostrado ao povo russo pelas autoridades russas como um patriota e modernizador.


Segundo a mesma rede de notícias, a Deutsche Welle, em 2017, Elina Ibragimova ca alertava num artigo que o livro didático foi alvo das autoridades russas pelo Roskomnadsor, Serviço Federal de Supervisão das Comunicações, que como anteriormente já referi, classificou a obra de consulta como sendo "prejudicial à saúde das crianças". Concluíram que as aulas de História sobre o “Grande Expurgo”, a repressão violenta a opositores na era estalinista, são nocivas. Foi uma forma de oculara a realidade história duma época.


Sob influência do Kremlin as autoridades russas têm interferido, cada vez com mais frequência, sobre os escritos históricos porque, ao ser abalada por uma crise devido ao colapso da União Soviética, acham que a Rússia deve ser transformada num "grande Estado". Para fundamentar esta pretensão ideológica o governo defende que livros didáticos promovam uma “educação patriótica”. Em 2007, o presidente Vladimir Putin mandou imprimir um livro de história em que Estaline, secretário-geral do Partido Comunista da União Soviética de 1922 a 1953, é descrito como “o mais bem-sucedido líder soviético de todos os tempos”.


A narrativa do Presidente manteve-se porque, numa entrevista que deu a Oliver Stone em junho de 2017, o conhecido realizador de cinema dos EUA, Vladimir Putin disse que a demonização de Estaline é uma das formas de pressionar a Rússia, é uma das formas de "atacar a União Soviética e a Rússia". Pode confirmar AQUI a afirmação. Em março de 2022 a revista norte-americana online Deadline Hollywood que divulga notícias da indústria do espetáculo escrevia que «Após a invasão da Ucrânia em fevereiro, Oliver Stone que tinha criticado os media por usarem o termo ‘invasão’ para caracterizar os planos da Rússia, reviu a sua posição» e, em 7 de março do mesmo ano, Oliver Stone passou a utilizar «agressão de Putin na Ucrânia» depois de dizer anteriormente que «não havia provas» de que a Rússia a pretendia invadir e concluía que «Embora os Estados Unidos tenham muitas guerras de agressão na sua consciência, isso não justifica a agressão de Putin na Ucrânia. Uma dúzia de erros não faz que um esteja certo. A Rússia errou ao invadir.»


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O regime autoritário da Rússia aproxima-se mais dum regime totalitário que se caracteriza, entre outras, pela repressão política e violações dos direitos humanos onde, mais do que nos regimes autoritários, há uma absoluta falta de ideais democráticos e o culto generalizado da personalidade da pessoa que está no poder.


Com a iniciativa de um novo curso universitário através de formação online fica claro que a Rússia é um estado totalitário e que, no domínio da educação, se transformou num autêntico campo de reeducação dos jovens e das suas mentes. Este novo curso ideológico é constituído por palestras e esteve a ser preparado  para ser imposto às faculdades e universidades russas e será ministrado sob a forma de vídeo aulas que pode consultar aqui.


Alguns desses vídeo-aula têm o título de uma frase muito usada por Vladimir Putin ao descrever a Rússia quando fala da sua história. Uma delas descreveu em 2012 «a Rússia como um tipo especial de Estado-civilização. Chamou a atenção para a simples verdade de que a Rússia não surgiu em 1917 ou 1991, e que tem uma história única e contínua de mil anos». Prossegue dizendo que «a Rússia é um "guardião do equilíbrio do mundo", cujo papel especial na história tem sido objeto de pensamento filosófico e académico há séculos. E veja-se onde chega a anomalia quando no contexto “de desejo da Rússia de expulsar o exército de Napoleão não apenas de seu próprio território, mas até mesmo da Europa” salienta que


Os europeus viam os soldados russos como invasores, pois não conseguiam entender que os russos eram motivados pelo autossacrifício em prol da própria liberdade dos europeus.


Para os autores do curso «o mundo multipolar imaginado pelos autores tem um total de sete polos: Ocidental, Cristão ortodoxo, Extremo Oriente, Hinduísta, Árabe, Iraniano e Chinês.» Acrescenta então que «o Ocidente "sempre foi hostil à Rússia". A cultura europeia, diz o vídeo, há muito "reproduz clichês de russofobia" que apresentavam a Rússia como um "país enorme e selvagem, onde ursos vagueiam pelas ruas" e os naturais "arrastam a sua sopa de repolho com sapatos como colheres"».


Por aqui vemos a subjacência na filosofia marginal e a ideologia oficial com Alexander Dugin a passar a ideólogo[1] que é a chave do Kremelin. Enfim, o centro das palestras para os estudantes universitários centra-se na frase «O mundo russo não pode ser contido por fronteiras estatais» e que «a Rússia é uma civilização em si mesmo».


Se lermos extratos de artigos sobre a história da Rússia no tempo da URSS no século XX, a política oficial sobre a memória da União Soviética ou da Rússia em relação aos crimes do Estalinismo, verificamos que passou por várias fases bastante diferentes: se houve períodos onde predominava a desestalinização houve outros de reestalinização de Khrushchev e Brejnev. A resolução de 8 de outubro de 1959, relativa às aulas de história nas escolas[2], dá algumas informações interessantes sobre a política de memória daqueles dias. Embora se peça aos professores que separem o regime de Estaline da tradição e da função histórica do partido comunista a ideia e o princípio fundamentais da historiografia permaneceram intactos. As aulas de história nas escolas e universidades deveriam manter o papel das massas como os verdadeiros criadores da história e do Partido Comunista como o poder de liderança, controlo e direção da sociedade soviética, tal como os princípios marxistas-leninistas.


Uma abordagem pró-comunista no início da “glasnost”[3] e da “perestroika”[4], com ênfase na demonização de Estaline em prol do movimento comunista, foi removida por uma abordagem anticomunista o que resultou no colapso da União Soviética.


No entanto, atualmente, uma abordagem crítica ao passado da Rússia foi substituída por um “consenso patriótico” como afirma Sperling, 2001,


«A busca da sociedade russa por uma identidade pós-soviética, que durou mais de uma década, parece ter chegado ao fim e culminou no 'consenso patriótico'» e ainda sobre «o retorno nostálgico à era imperial e a crescente apropriação do passado soviético" na publicidade e no marketing antes mesmo do início da ascensão de Putin».


«Nos Estados totalitários o objetivo da história é incorporar a comunidade atual numa tradição longa e gloriosa que deverá vincular os membros da comunidade a esta tradição. Os acontecimentos históricos que apoiam estes propósitos são conservados pele moldagem cultural e por políticas de memória. Os eventos ou acontecimentos históricos que perturbam a imagem do estado totalitário são removidos e destruídos por revisões da história.»


Desde o tempo da ex-URSS para o efeito de estabelecer o culto do herói na sociedade, há longas décadas que tem sido feita a instrumentalização política e ideológica da Segunda Guerra Mundial. A Segunda Guerra Mundial, a Grande Guerra Patriótica, como é tem sido designada na Rússia, é uma forma de instrumentalização política que continua ainda a ser feita anualmente na Rússia com grande pompa de poderio militar. As mortes causadas são transformadas em estereótipos de pessoas heroicas confiando no futuro, tendo em vista o que era a ex-União Soviética e nos seus valores da supremacia cultural que continuam na Federação Russa. Os soldados tornaram-se no tema mais significativo do mito do herói soviético.


Breves pesquisas mostraram que esta ilustração dos soldados se enquadra na estrutura da memória cultural desenhada pela história da época estalinista. Acontecimentos e factos como o pacto Hitler/Estaline, o assassinato dos oficiais polacos em Katyn, o medo da morte dos soldados, a brutalização na guerra, o péssimo equipamento militar, a falta de comida e inúmeros suicídios nos esquadrões, não entram nesta escrita da história da Rússia. (Stalinism, Memory and Commemoration: Russia’s dealing with the past; Christian Volk, 2009).


 


[1] Neste arigo refere-se a influência ideológica de Dugin em Putin.


[2] Este documento tornou-se inválido no território da Federação russa em ligação com a publicação do Decreto do Governo da Federação Russa datado de 03/02/2020, nº 80


[3] Glasnost, (em russo: "abertura") política soviética de discussão aberta de questões políticas e sociais. Foi instituído por Mikhail Gorbachev no final da década de 1980 e iniciou a democratização da União Soviética.


[4] Perestroika, (russo: "reestruturação") programa instituído na União Soviética por Mikhail Gorbachev em meados da década de 1980 para reestruturar a política econômica e política soviética. Procurava equiparar a União Soviética economicamente a países capitalistas como Alemanha, Japão e Estados Unidos, Gorbachev descentralizou os controles económicos e encorajou as empresas a autofinanciarem-se.

terça-feira, 7 de março de 2023

Que outros objetivos de Putin?

Questiono-me várias vezes porque será que andam nas redes sociais muitos “personagens” a divulgar propaganda do Kremelin/Putin difundindo notícias falsas anti Ucrânia em sintonia com as mesmas que Vladimir Putin e os seus seguidores russos fazem em sucessivas lavagens cerebrais ao povo. A estes que, aqui, em liberdade, defendem as ideias de Putin pergunto porque não vão viver para esse extraordinário país sob o seu domínio e deixam de viver cá onde recebem salários à custa dos impostos que todos pagamos? É a liberdade de expressão a funcionar dirão, mas será que nesse regime que tanto defendem não haverá a mesma liberdade para dizerem o que pensam?


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Podemos conjeturar se a invasão da Ucrânia não será apenas o início de outros objetivos imperialistas e mais ambiciosos de Putin, se conseguisse ocupar parte ou a totalidade da Ucrânia. Por agora bastar-lhe-ia bloquear o acesso da Ucrânia ao Mar de Azov e ao Mar Negro, caso consiga dominar toda a área que vai da Kharkiv a Odessa passando por Zaporizhia, Kherson e Mikolaiv, o que, até à data, não foi conseguido.


O caso da Crimeia, república autónoma da Ucrânia, anexada pela Rússia em 2014, que gerou um conflito na região que dura até hoje. A crise na Crimeia foi motivada pela deposição do presidente ucraniano Viktor Ianukovitch, (que fugiu de seguida para a Rússia), alinhado com as políticas russas de Putin que foi seguida de um referendo fantoche que aprovou a sua união com a Rússia, não sendo, contudo, reconhecida por Kiev nem pela comunidade internacional.


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Fonte: Institute for the Study of War


O ponto de vista da preparação a de uma possível invasão da Europa em larga escala, planeada a longo prazo, a começar pela Polónia através da Bielorrússia, estaria em linha com o discurso do presidente Vladimir Putin antes da invasão da Ucrânia.


Não se sabe se, atualmente, a Rússia terá ou não capacidade militar para lançar um ataque contra a Polónia ou qualquer outro país da NATO, mas Putin tem ambições imperialistas, de longo prazo, ele próprio não o nega,  e está a procurar, numa primeira fase territórios vizinhos e próximos das suas fronteiras. É um processo contínuo a Rússia tentar invadir algumas das regiões que ela reivindica, pela voz de Putin, como sendo suas.


Dias antes da publicação deste “post”  o presidente da República Russa da Chechénia, Ramzan Kadyrov, sugeriu, numa entrevista na televisão do estatal daquele país, que o exército russo invadisse a “Alemanha Oriental”, como era chamado o território da antiga RDA (República Democrática Alemã) antes da queda do império soviético. O motivo de tal ataque verbal teria a ver com a entrega de tanques à Ucrânia, anunciada pela Alemanha. Também aquele radical terá sugerido que a Rússia atacasse a Ucrânia com armas nucleares.


Mais descarada ainda, e até ridícula, foi a afirmação do ministro dos negócios estrangeiros da Rússia, Lavrov, numa conferência na India, (3 de março), quando lhe perguntaram como é que a guerra afetou a estratégia energética da Rússia e como isso poderia beneficiar a Rússia, Lavrov respondeu: “A guerra que estamos tentando impedir foi lançada contra nós” o que suscitou gargalhada na plateia que pode ver aqui ou aqui. Este mesmo sujeito já afirmou em fevereiro do corrente ano que a Rússia deveria procurar "desnazificar" a Polónia, usando a mesma linguagem e argumento que Putin usou para justificar a invasão da Ucrânia.


Tem-se escrito e falado muito sobre a equiparação dos propósitos de Putin com os que Hitler para começara a guerra: a expansão da Alemanha e a disseminação da política nazi; depois de, no tempo da União Soviética de Estaline este ter feito um pacto em 23 de agosto de 1939 com a  Alemanha nazi de Hitler, Putin diz agora querer combater o nazismo na Ucrânia.  O governo de Hitler tinha em mente a criação de um império vasto, um “espaço vital” como ele lhe chamava então conducente à expansão germânica no leste europeu. Vladimir Putin tem a mesma ambição, mas para ocidente para criação dum império, conforme as suas próprias palavras. A efetivação da dominação russa sobre a Europa, como têm dito os seus correligionários, requereria uma nova guerra. Como já várias vezes escrevi neste mesmo local Putin nunca aceitou a dissolução da União Soviética e descreveu o seu colapso como uma “grande tragédia do século XX".


Putin recorre a uma narrativa sobre eventos passados para dar, no presente, um significado especial que sirva para fortalecer a sua autoridade como detentor do poder e reavivar no povo antigos mitos políticos do  culto de personalidade. É isto que Putin pretende criar um novo, mas retrogrado, um culto à sua personalidade, de inspiração estalinista que remeta para uma forma de propaganda que eleve a sua figura  a político de dimensões quase religiosas cujos discursos procurem promover, de forma exagerada, os seus méritos e qualidades, fazendo ocultar críticas ou defeitos que possam vir a ameaçar o seu poder e a condição de grande líder e guia da pátria russa.


O presidente Vladimir Putin, que muitas vezes invocou e  a história para alimentar sentimentos nacionalistas, comparou-se ao czar Pedro, o imperador que expandiu o território russo através de conflitos prolongados no século XVIII.


Logo após a invasão da Ucrânia de fevereiro, no dia 9 de junho de 2022, num discurso do 350º aniversário do nascimento de Pedro, Putin pareceu fazer uma ligação da sua sangrenta invasão da Ucrânia com o passado imperial da Rússia. Segundo um jornal russo “o presidente russo Vladimir Putin, durante uma reunião com jovens empresários, engenheiros e cientistas na VDNKh em Moscovo, comparou a situação atual na Ucrânia com a Guerra do Norte (1700-1721) com a Suécia, que foi liderada por Pedro I”.


O jornal MKRU escrevia na altura que “o presidente Vladimir Putin traçou analogias com Pedro I. Segundo o presidente, “o imperador "não tirou nada" dos suecos durante a Guerra do Norte, mas devolveu os territórios que historicamente pertenciam à Rússia. E também coube à nossa parte retornar e fortalecer". Confirmava assim que, no pano de fundo ideológico da “operação especial” na Ucrânia, subsistia a ideia de reunir ao que ele chama mundo russo e recriar a “Novorossiya”.


Putin elogiou a construção do império de Pedro I e sugeriu que as terras tomadas pelo czar pertenciam legitimamente à Rússia. "O que Pedro estava fazendo?" De acordo com a Associated Press Putin disse na altura que o que Pedro fez foi segundo ele "Retomar e reforçar. Foi o que ele fez. E parece que nos coube também retomar e reforçar." Os comentários foram amplamente vistos como uma referência ao ataque de Putin à Ucrânia, que há muito vê como parte da esfera de influência da Rússia.


Em 24 de fevereiro, Vladimir Putin chocou o mundo ao iniciar uma guerra com a invasão da Ucrânia. No período que antecedeu a invasão russa, Putin fez discursos de longo alcance e escreveu um artigo para legitimar as suas ações que estava repleto de intensa retórica sobre a história imperial e a história soviética. No entanto, isso não é algo novo. Putin tem consistentemente instrumentalizado a história para alcançar os seus objetivos políticos desde o dia em que se tornou presidente.


Ao longo dos anos, tem-se referido cada vez mais, e repetidamente, à história do Império Russo, como se pode verificar nos seus discursos. A história nas suas mãos tem-se transformado gradualmente numa arma. Putin pratica essa retórica dentro do país e para o exterior para justificar as suas ações, garantir a sua posição de poder e a legitimação da invasão que foi sua e apenas sua, culminar da sua estratégia. Por outro lado parece haver também, por parte de Putin, uma espécie de saudosismo que reside numa espécie de esperança profética assente na crença de que é possível um retorno ao antigo regime soviético numa versão século XXI.


Putin parece ter adaptado à atualidade a frase que Estaline escreveu em 1924 no seu livro “Foundations of Leninism”  onde afirmava que o mundo estava dividido em dois campos hostis «a frente mundial do imperialismo» e «a frente comum do movimento revolucionário em todos os países»; afirmava ainda Estaline, de modo particular, que «na presente fase do capitalismo as guerras não se podem evitar». Na linha interpretativa de Putin o mundo continua dividido em dois campos, o ocidente e a NATO que fazem parte da maquinação do campo hostil e invasor da Rússia, e o dele, pacifista, defensivo. Mas é ele que mostra uma agressividade bélica, expansionista, no sentido de regressar ao anterior império czarista. É o pensamento dos totalitaristas.


A solução adotada pelos ditadores totalitários é dirigir a hostilidade latente do povo contra inimigos reais ou imaginários. É este último caso o de Putin contra a Ucrânia e o Ocidente. Hitler escolheu primeiro os judeus para alvo da agressividade alemã; uma vez arranjado um alvo não ficou satisfeitos e, mais tarde, outros povos e personalidades tomaram o lugar dos judeus. No caso de Putin parece ser o povo ucraniano e, segundo ele, um produtor de fake news, passa para o povo russo a ideia de que os invasores são o ocidente e  a NATO que estão a cercar e a invadir a Rússia.


A Rússia é um país localizado na Europa e na Ásia com os montes Urais frequentemente vistos como a fronteira entre os dois continentes e é amplamente considerado política e culturalmente europeu. Segundo as estatísticas mais recentes, em janeiro de 2023, tem aproximadamente três quartos da população que vive a oeste dos montes Urais, na Europa portanto, geograficamente fronteira entre os dois continentes.


Se observarmos o mapa seguinte que nos mostra as atuais fronteiras da Rússia comparadas com as de 1914 podemos supor até onde poderá ir o sonho imperial de Putin, que tenta comparar-se ao czar Pedro, com uma ideologia irracionalista, pretensamente mítica que mostra uma colocação política irracional tendente a  voltar a consolidar as suas posições em direção ao sul e leste do país.


 


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Putin parece não se ter desligado, nem esquecido do mundo russo soviético em que viveu e em que participou que implodiu em dezembro de 1991. Entre 1922 e 1991 a ex-URSS era formada por 15 nações diferentes: Rússia, Ucrânia, Bielorrússia, Estónia, Letónia, Lituânia, Arménia, Geórgia, Moldávia, Azerbaijão, Cazaquistão, Tajiquistão, Quirguistão, Turquemenistão, Uzbequistão. Sob o domínio de Estaline e durante a Segunda Guerra a URSS combateu ao lado dos Países Aliados, e fez da Alemanha o seu principal alvo militar. Nesse contexto, o Exército da URSS invadiu a Alemanha e os territórios sob a sua zona de influência e formou estados-satélite como a República Popular da Polónia, República Popular da Hungria, República Popular da Roménia, República Popular da Bulgária, República Popular da Albânia, República Socialista da Checoslováquia (atualmente República Checa e Eslovénia) e, no fim do conflito, a parte leste da Alemanha que passou a ser denominada por República Democrática Alemã.


Questiono-me várias vezes porque será que andam nas redes sociais muitos “personagens” a divulgar propaganda do Kremelin/Putin difundindo notícias falsas anti Ucrânia em sintonia com as mesmas que Vladimir Putin e os seus seguidores russos fazem em sucessivas lavagens cerebrais ao povo. A estes que, aqui, em liberdade, defendem as ideias de Putin pergunto porque não vão viver para esse extraordinário país sob o seu domínio e deixam de viver cá onde recebem salários à custa dos impostos que todos pagamos? É a liberdade de expressão a funcionar dirão, mas será que nesse regime que tanto defendem não haverá a mesma liberdade para dizerem o que pensam?

domingo, 20 de março de 2022

Por Putin com amor ou os nossos agentes de Moscovo

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Facciosos que pretendem desviar as atenções das responsabilidades de Putin nesta guerra insistem no que os EUA e a NATO fizeram no passado, mas omitem que o presidente russo já foi acusado de financiar vários partidos da extrema-direita na Europa; omitem ter interferido nas eleições norte-americanas, procurando beneficiar Donald Trump; omitem que Putin não esconde as suas preferências na Europa por Órban, Le Pen, Salvini, Santiago Abascal.


Nas últimas semanas tem-se multiplicado uma infinidade de artigo de opinião e de comentários numa dicotomia entre os que revelam claramente estar contra a invasão e os outros, os pró Putin.


Antes de continuar, e porque parece estar a haver alguma animosidade contra os russos, devo esclarecer que nada tenho contra o povo russo nem contra a sua cultura, a minha opinião é a de estar contra as políticas de um líder autocrático e oligárquico que impôs ao povo russo uma democracia(?) iliberal belicista.


Uma democracia iliberal visa um poder executivo forte, controlando e manipulando os limites das instituições garantes da democracia tais como tribunais e outras instituições democráticas do estado. Para o justificar argumentam que essas instituições, garantes dos valores democráticos e de liberdade não possuem atribuições eleitorais e, como tal, impedem a vontade da soberania do povo. Desta forma a narrativa social é construída ganhando, assim, legitimidade dentro do cenário democrático. Sobre democracia iliberal ver aqui.


Ao escrever este texto veio-me à memória “From Russia with Love” com a tradução em português “Da Rússia com Amor”, filme de espionagem lançado em 1963 que permanece relativamente fiel ao romance de Ian Fleming, escritor britânico e autor do livro com o mesmo nome.


Questionei-me sobre o porquê deste filme surgir na minha memória. A memória recente deu-me a resposta: foi o nome do comentador Alexandre Guerreio que ouvi recentemente seguir o mesmo relato da propaganda de Putin e dos seus mandatários que podem ver aqui.


Em tempos de guerra surge sempre quem se colocam de um lado, ou de outro, dos intervenientes do conflito. Foi assim também na segunda guerra mundial quando, por estranho que pareça, também houve quem estivesse do lado III Reich, no início não só os alemães.


Instalou-se com esta guerra um conjunto de gente, felizmente pouca, antiamericana e anti NATO às quais acrescentam o seu antieuropeísmo irracional. Os apoiantes desta corrente não são recentes, agitaram-se a pretexto da invasão da Ucrânia por Putin e colocam-se do lado de um Estado que agride militarmente outro povo soberano e que o massacra. Esta é a realidade e não há argumentos que o justifiquem por mais rebuscados que sejam.


Esta gente reanima ódios antigos que vêm do tempo da URSS e da Guerra Fria que agora estão a ser aproveitados para a sua ressurreição com novos contornos. Daí as teses do PCP contra os EUA, a NATO e a União Europeia em favor da defesa das posições do Kremlin.


O colapso da URSS que foi recalcado por uma espécie de catarse saiu do seu subconsciente ideológico. A retórica da paz que proclamam, com omissões de princípio, em relação à invasão da Ucrânia, vem das palavras de Jerónimo de Sousa que vinculam o PCP e está nas críticas feitas ao governo ucraniano em linha com as de Moscovo. Ao mesmo tempo que diz apoiar o apelo “à solidariedade e ajuda humanitárias às populações”, acusa a Ucrânia de dar apoio a grupos fascistas ou neonazis, alinhando com uma das narrativas usadas por Putin para justificar a invasão daquele país.


Os argumentos recorrem a históricos condenatórios de outras guerras em que intervieram outros Estados, mas cujos contornos e circunstâncias não se encaixam com as atuais. Seria bom que o PCP em vez de falar em golpes recordasse o que se passou na Ucrânia.


Sem me alargar em história porque isso compete a outros debruço-me apenas sobre alguns factos da atualidade da última década para nos situarmos.


Yanukovych foi presidente da Ucrânia de 25 de fevereiro de 2010 a 22 de fevereiro de 2014 que formalmente rejeitou um acordo de cooperação com a União Europeia que há muito tinha sido negociado e que poderia, no futuro, fazer passar a Ucrânia a ser um dos seus membros e integrar o bloco dos 28 países. Este mesmo presidente, na mesma altura, terá recebido uma série de empréstimos oferecidos pelo governo russo de Putin iniciando um processo de aproximação política com o Kremelin. Esta situação levou a uma série de protestos no oeste da Ucrânia denominados "Euromaidan" que já tido início em 21 de novembro de 2013. Protestos públicos que evoluíram para apelos à renúncia do presidente Viktor Yanukovych e do seu governo.


Além da questão da integração com a Europa havia ainda acusações de corrupção contra elementos do governo, pró-Rússia, que também motivou os protestos.


A análise da situação concluiu que Yanukovych estaria sob pressão direta da Rússia e que o anúncio brusco de que o acordo com a União Europeia não seria assinado por os russos de Putin ameaçarem impor sanções à Ucrânia tendo sido Yanukovych chamado de urgência para um encontro em Moscovo com o presidente Vladimir Putin.


Mas voltemos à atualidade recente. O estilo fascizante de Putin está presente na organização de um comício político disfarçado de concerto no passado 18 de março do corrente que e cujo seu discurso podemos considerar como sendo para a obtenção de apoio à guerra, de exaltação patriótica e de celebração dos feitos militares da Federação Russa na Ucrânia ao velho estilo nazi.


Do meu ponto de vista há os que dizem defender a paz e ao mesmo se colocam do lado de Putin. Esses que dizem defender a paz são os que sustentam que a culpa da guerra é de outros. Sem o dizerem claramente alinham com o pensamento do presidente Vladimir Putin que, em dezembro de 2021, lamentou o colapso da União Soviética há três décadas a que ele chamou "Rússia histórica", conforme noticiou na altura a agência Reuters.


Os comentários de Putin, em tempo divulgados pela TV do Estado Russo (RT-Russia Today), terão provavelmente alimentado ao que chamaram especulação sobre as suas intenções em política externa que os críticos internos, (não sei se hoje ainda existem), aproveitaram para o acusar de projetar a recriação da União Soviética e de contemplar um ataque à Ucrânia, ação que na altura o Kremlin de Putin considerou como sendo ousada.


 Não há dúvida de que a Rússia de Putin é uma democracia iliberal autocrática tendencialmente expansionista que parece estra a pretender provocar uma crise idêntica à que a Alemanha Nazi colocou em prática em 1938. Há mesmo quem chame a Putin czar e o compare a Stalin e a Ivan, o Terrível, quando na Polónia em 2009 falavam de Putin.


Escrevia-se então em setembro de 2009 aquando das comemorações do início da Segunda Guerra Mundial em Gdansk que “Putin passou a última década a procurar restaurar a grandeza russa, em parte através da reabilitação de Josef Stalin e a encorajar uma narrativa heroica e nacionalista dentro do país”.


Estas afirmações são preocupantes pela tentativa de recuperar um passado tenebroso utilizando táticas semelhantes através da utilização de armamento mais sofisticados e com novas estratégias.


Há um erro quando se pensa que a Rússia, em 1939, trouxe a liberdade à Europa central. Estaline atraiçoou a Polónia depois da invasão nazi invadindo-a pelo Leste. Hoje as ambições imperiais de Putin continuam a ser um perigo, como foi demostrado pela guerra contra a Geórgia em 2008.


Foi em Gdansk onde começou a invasão da Polónia pela Alemanha de Hitler.  No dia 1 de setembro de 1939 iniciou uma guerra de seis anos. A Polónia foi dividida em 1939 pelas tiranias gémeas de Hitler e Estaline e foi onde ocorreu o assassinato em massa de judeus no Holocausto nazi e terá sido o principal alvo de campanhas de propaganda concertada russa do Kremlin.


Relativamente à Ucrânia podemos supor que todas as tentativas para chegar a um acordo de paz com Putin serão do ponto de vista moral do direito internacional e do ponto de vista prático e político serão infrutíferos, prejudiciais e perigosos tal e qual o foram todas as tentativas de apaziguar as nazis realizadas entre 1934 e 1939 ao fazer vários acordos e pactos que resultaram em fracassos e não foram respeitados.


Elísio Estaque, sociólogo, professor da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra escreveu num artigo de opinião mo jornal Publico que “O facto de a NATO ter sido criada como força de oposição à URSS num contexto de Guerra Fria, de profunda divisão ideológica no mundo ocidental (capitalismo versus socialismo), associado à imagem do exército soviético no pós-guerra, visto como força libertadora no confronto contra a Alemanha nazi, contribuiu para perpetuar a simpatia das “vanguardas” com a “pátria do socialismo” durante décadas. Desde a Revolução de Outubro, com Lenine e Trotsky, passando por Estaline, Krushtchov, Brejnev, etc, mesmo após a implosão do regime, muitos continuaram a ver no poder russo a força capaz de se opor aos EUA, o locus do poder hegemónico num mundo unipolar.


Na sua cegueira dogmática já veem nesta guerra as trombetas a anunciar o fim do capitalismo ocidental e a consequente queda do império americano.


Fazer comparações com outras ações belicistas da NATO, no passado, ou apresentar contabilidades da mortandade em várias outras latitudes que não a Europa, são de uma insensatez intolerável. Nenhuma ação bélica desta natureza pode ser relativizada, seja onde for e por quem for”.


Facciosos que pretendem desviar as atenções das responsabilidades de Putin nesta guerra insistem no que os EUA e a NATO fizeram no passado, mas omitem que o presidente russo já foi acusado de financiar vários partidos da extrema-direita na Europa; omitem ter interferido nas eleições norte-americanas, procurando beneficiar Donald Trump; omitem que Putin não esconde as suas preferências na Europa por Órban, Le Pen, Salvini, Santiago Abascal.


Há quem esteja com uma venda nos olhos espreitando por alguns orifícios causados pelo desgaste ou que não queira ver por néscia teimosia, e menos por ignorância, e que, por isso, insistem na retórica discursiva do prisioneiro inocente que se defende dizendo que foram outros que o quiseram tramar. 

terça-feira, 8 de março de 2022

O que se diz e o que não se diz, o que se escreve e o que não se escreve, o que se ouve e aquilo em que se acredita

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Centremo-nos primeiro no mais recente percurso político da Ucrânia e nas suas tensões com a Rússia que começaram em 2019 com a onda conservadora nas urnas para a presidência em que Zelensky ganhou com 73% dos votos a Poroshenko que concorria à reeleição. Poroshenko, admitiu na altura a derrota após a publicação das primeiras contagens dizendo que não deixaria a política. Zelensky aproveitou a sua popularidade em alta, prometeu reformas no sistema político, dissolveu o parlamento e anunciou a convocação de eleições legislativas.


Ao apresentar um plano de governo levou para a discussão pública as críticas feitas na televisão aos "oligarcas" da política ucraniana e defendeu a entrada da Ucrânia para a União Europeia e para a NATO (Organização do Tratado do Atlântico Norte - OTAN) que era a questão central e levou ao atual conflito com a Rússia.


Nos dias que se seguiram à invasão muitos que apoiam a agressão bélica utilizaram uma linguagem com uma gíria cujo objetivo é o de confundir as opiniões públicas seguindo o Presidente Vladimir Putin que também tem recorrido a esse processo de utilizar as palavras nacionalistas, neonazistas, libertação do país da extrema direita, limpeza étnica, etc., quando se refere à Ucrânia.


Acusam Zelensky de fomentar o crescimento do neonazismo e da conivência com o grupo neonazi Batalhão de Azov. Este grupo de milícias foi criado em 2014 para conter separatistas russos nas regiões de Donetsk e Lugansk, tendo sido esta milícia de extrema-direita incorporada em 2015 no exército ucraniano que os pró-russos dizem ainda hoje perdura. É por isso que Putin fala em "desnazificação" para justificar as suas metas no avanço militar de ocupação da Ucrânia. Mas essa situação é interna e compete ao povo desse país soberano pressionar o governo se, para tal, quiser resolver o problema.


Mas nesta equação entrou uma nova variável já conhecida que é Donald Trump. No primeiro ano de presidência, Zelensky esteve na base de uma "trapalhada" de Donald Trump que quase levou o então presidente norte-americano a um processo para impeachment. Em 2019, ano de eleições na UJcrânia, Donald Trump ligou para Zelensky a pedir para que o filho de Joe Biden, seu adversário na corrida à eleição, fosse investigado e que na altura fazia parte do conselho de administração numa empresa ucraniana de gás natural. Trump foi então apanhado num telefonema a reter a ajuda militar à Ucrânia, já em curso, dizendo que ("Gostaria que você nos fizesse um favor, no entanto") dizia, em troca de Zelensky comprometer Biden, rival de Trump às eleições. Trump "poluiu a Ucrânia com sua  negociação política" como se pode ler num artigo na revista The Atlantic. Foi acusado de tentar recrutar poder estrangeiro para interferir a seu favor na disputa eleitoral. Trump chegou a ter a interrupção do mandato aprovada pela Câmara, mas foi barrada pelo Senado americano.


Centremo-nos agora em segundo lugar sobre o que se observa nas redes sociais, em artigos de opinião, comentadores, comentários na comunicação social, comunicados de partidos.


Começo com a perturbante reação do PCP que teima em defender um regime que é criminoso à luz do direito internacional. O PCP agarra-se ao passado soviético mantendo uma linha de defesa de Moscovo disfarçada de rejeição do capitalismo de Putin ao mesmo tempo que culpabiliza o capitalismo dos EUA e a NATO pela invasão da Ucrânia. Não se aperceber que a Rússia já não é aquilo que formou o seu ideário, mas que é um projeto de poder de um homem que alimenta e subsidia muitos partidos da extrema-direita europeia ao mesmo tempo que se queixa da extrema-direita na Ucrânia.


Por seu lado o Bloco de Esquerda anda numa roda-viva para ver se consegue distanciar-se das posições do PCP numa dança intermitente que ora critica, ora desvaloriza, ou, a dizer, como ontem aconteceu, que “O Bloco de Esquerda defende que é dever das autoridades portuguesas identificar e investigar os oligarcas russos” e a deputada Mariana Mortágua sublinha que os interesses económicos não podem sobrepor-se às sanções contra Vladimir Putin. Mas, sobre a votação do empréstimo financeiro à Ucrânia, a deputada do Bloco de Esquerda diz que acusar o partido de votar contra é querer confundir o debate”.


Nas redes sociais parece-me que ser-se contracorrente às evidências começa a dar jeito para os que desejam feedbacks a todos o custo aos seus posts e opiniões publicadas na imprensa.


Ser polémico está na moda, “vende”. Falem mal de mim ou sobre mim, mas é preciso que falem. Alguns colocam-se em pontos de vista que tentam contrariar factos e evidências recorrendo aos mais artificiosos argumentos, virando do avesso a realidade dos factos, buscando no passado longínquo as causas para justificar hoje a agressão de Putin contribuindo, assim, para a lavagem da sua imagem. Justificar a agressão à Ucrânia comparando-a com outros casos que se verificaram no passado e noutros contextos parece-me caricato. Também neste domínio há negacionistas da realidade de facto, como os há nas mais absurdas situações e circunstâncias.


Pensamentos apressados que sugerem tomadas de decisões, em momentos de emoção e nervosismo, como apelar à provocação ao adversário, à confrontação e à guerra têm o risco de agravar conflitos em vez de os acalmarem. Recorro a uma frase da radical Ana Gomes, senhora que se candidatou a Presidente da República, que afirmou na SIC Notícias “Para que serve a NATO se não consegue travar massacres contra populações na Europa?” e acrescenta que a zona de exclusão aérea no país invadido pela Rússia “tem de estar em cima da mesa”, mesmo que Vladimir Putin considere isso um ato de guerra. Entrámos na zona da paranoia.


Pensarmos que conhecemos bem e confiamos no adversário que se tem pela frente é no mínimo ingenuidade. Putin não é de confiança recorde-se quando disse que o ocidente estava em histeria quando Biden apontava uma data para a invasão da Ucrânia. Muitos gozaram com a data marcada para início da guerra. Passados dias deu-se a invasão.


Putin deve estar com problemas internos e, por isso, a censura que instituiu na Rússia passou a ser obrigatória e foi agravada.  A censura é necessária como fator para a formação e consolidação do "putinismo”. Putin tem plena consciência da importante função destinada à censura. É a guerra da informação e da contra informação, da opinião e da contraopinião que se agudizam em tempos de guerra.  O controlo da informação e a censura desde sempre desempenharam um papel fundamental na formação e para a consolidação dos estados totalitários.


Putin pretende mostrar que só existe politicamente o que o público sabe que existe. Daí as mentiras, os cortes e as inversões dos factos à boa maneira estalinista. Serve-se da guerra para controlar ainda mais o espaço da informação e bloquear os principais meios de comunicação independentes que possam gerar movimentos que, normalmente, levam a grandes protestos.‎


Seis dias depois das tropas russas atacarem a Ucrânia, a Rússia (leia-se Putin) bloqueou a Dozhd TV e a Ekho Moskvy por supostamente espalharem, segundo ele, "informações deliberadamente falsas" sobre a invasão da Ucrânia por Moscovo tendo ficado indisponíveis na Rússia logo após o anúncio.


‎‎A Echo of Moscow, uma estação de notícias russa independente que transmite desde 1991, anunciou que encerraria na quinta-feira depois de se recusar a cumprir as regras de censura exigida em reportagens sobre a guerra na Ucrânia sendo obrigada a utilizar apenas fontes militares oficiais do Kremlin.‎ Outra estação foi a TV Rain, a principal emissora de televisão independente do país que encerrou temporariamente também na quinta-feira as suas transmissões em desacordo com regras semelhantes.‎


Nos jornais russos, talvez a maior parte, os artigos publicados são um vómito de inverdades de propaganda. E só acredita neles quem quiser acreditar. Como não vivenciamos os momentos "in loco" podemos ser tentados a acreditar que a comunicação do ocidente é que está errada e que a verdade, a dele (a de Putin), é que está certa. Foi assim no passado com Hitler, com Estaline e também o foi com Salazar aqui, no nosso canto junto ao mar.


Não se compreende porque um grupo de pessoas, felizmente pequeno, se tenha colocado do lado de Putin contra a Ucrânia apenas com o argumento de serem contra a NATO, os U.E. e os EUA. Dizem que são pela paz, mas não dizem em que termos. Falam em negociação, mas que negociação? O que pretendem será a capitulação incondicional da Ucrânia, país soberano, para que fique na órbitra da Rússia de Putin? Será a dissolução da NATO deixando Putin livrfe para o controle total da Europa? Se assim não é então que manifestem sobre qual será para eles a alternativa para a paz.


 

domingo, 6 de março de 2022

A guerra da comunicação que agora também começou

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Na guerra da informação, das opiniões, comentários e outras emotivas representações escritas começam a desabrochar na imprensa, nos blogs, nas redes sociais. A dicotomia “putinsófilos” e “ucranisófilos” juntam-se, por um lado os pró NATO, EUA e U.E. e, por outro, os do anti NATO, EUA e U.E. E assim se vai lançando a confusão no espírito das massas, nome dileto que líderes bolcheviques como Lenin davam ao povo.


Depois do primeiro impacto devido à surpresa comentadores, desenhadores de opiniões, jornalista e especialistas em política internacional que a tudo estão atentos e que de tudo sabem recuperaram da surpresa e, cá vai disto, lançam artigos desde os mais curtos aos mais extensos, recorrem à história que escrevem à sua maneira com propaganda contra a NATO, a União Europeia, o regime ucraniano que dizem sustentado por esquadrões da morte nazis saudosos de Hitler. Seguem a nomenclatura lexical de Putin desculpabilizando-o. Muito deles com afinidades com as extremas-esquerdas que, dizendo-se contra o capital e o imperialismo ocidental, apoiam o capitalismo-imperialista-autocrático de Putin e que nada tem a ver com o povo russo.  Para estes senhores parece que, quem estiver a apoiar a Ucrânia são uma cambada de nazis.


Ser-se anticapitalista e anti-imperialista e, ao mesmo tempo, defender outro tipo de capitalismo e de imperialismo como o de Putin, apenas, porque ideologicamente se é contra organizações e uniões que apenas servem para defesa de países que se sentem ameaçados por outros imperialismos, isso é prevenção contra-ataques de outros. São pelo regresso de uma nova e mais complicada guerra fria que ninguém quer. Defendem a paz sem entenderem a incoerência porque, ao mesmo tempo parecem estar do lado do que recorrem à guerra para ocupação do povo da Ucrânia personalizados pelo tirano Putin. Esses bem podem cantar hinos à paz que ninguém os ouve porque a alternativa que eles apoiam é a guerra. Ainda há muitos que preferem a guerra, que nunca viveram, na expectativa de que Putin possa eliminar o eixo do mal a que chamam NATO, EUA e a União Europeia.


Será o capitalismo russo de esquerda? O PCP parece achar que sim, embora no seu comunicado tente enganar o povo, assim como Putin tem feito com as suas intervenções. Segundo se pode ler num comunicado do PCP “a Rússia é um país capitalista, o seu posicionamento é determinado no essencial pelos interesses das suas elites e dos detentores dos seus grupos económicos”, mas apesar disso o PCP defende que a Rússia não é um agressor, mas uma vítima para a qual não é aceitável que um inimigo “esteja acampado nas suas fronteiras” que faz “um cerco militar por via de um ainda maior alargamento da NATO”. Já que o PCP gosta tanto do passado o que dizia na altura quanto ao Pacto de Varsóvia, uma aliança militar firmada entre os países comunistas do leste europeu ocupados (Hungria, Roménia, Alemanha Oriental, Albânia, Bulgária, Checoslováquia e Polónia) com a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS).


Aliás o PCP deve estar no mesmo registo de “Os países ocidentais que tentam implementar sanções contra a Rússia são um "império de mentiras", disse o presidente Vladimir Putin numa reunião dedicada à crise económica na Rússia segundo o PRAVDA.


A perda de alguns países chamados do Leste após a queda do regime soviético está atravessada na garganta de Putin e de alguns partidos comunistas. Esses países passaram a ser livres e, como tal, puderam fazer as suas opções de aderiram á U.E e à NATO, até como defesa para sua própria sobrevivência enquanto países e nações.


Putin com a sua ânsia de poder absoluto que carateriza os ditadores, não terá percebido que teria mais a ganhar negociando antes da guerra. Como ele já houve outros que também quiseram ser donos da Europa e do Mundo, mas acabaram por finar.


Numa entrevista ao “Politico” Fiona Hill, uma das mais claras especialistas russas, que estudou Putin ao longo de vários anos trabalhou com administrações republicanas e democratas afirmou que “Putin esteve nos arquivos do Kremlin durante a Covid a olhar para mapas e tratados antigos e todas as diferentes fronteiras que a Rússia teve ao longo dos séculos. Ele disse, repetidamente, que as fronteiras russas e europeias mudaram muitas vezes. E nos seus discursos, ele foi verificar vários ex-líderes russos e soviéticos, assim como Lenin e dos comunistas, porque na sua opinião eles romperam com o império russo, perderam terras russas na revolução, e sim, Estaline trouxe de volta alguns deles novamente para o grupo como os Estados Bálticos e algumas das terras da Ucrânia que haviam sido divididas durante a Segunda Guerra Mundial, mas que foram novamente perdidos com a dissolução da URSS. A opinião de Putin é que as fronteiras mudam, e assim as fronteiras do antigo império russo ainda estão em jogo para Moscou dominar agora.”


A questão que se coloca é a de saber se alguma vez se esperaria que países da NATO fossem alguma vez atacar a Rússia? O que está em causa é o ocidente poder defender-se do imperialismo expansionista russo, ou melhor, de Putin, porque o povo não entra nessas aventuras. 


As intenções expansionistas de Putin estão claras.  Segundo a Rus-News de 1 de março de 2022 o presidente Vladimir Putin disse em 5 de dezembro do ano passado que “Nas próximas décadas, a Rússia crescerá, é claro, com o Ártico e os territórios do Norte, são coisas completamente óbvias” o que incluía a exploração mineira. O anúncio foi feito durante uma reunião com voluntários e finalistas do concurso “Voluntário da Rússia”. Salientou ainda que mais de 70% do território da Rússia está localizado nas latitudes do Norte e tudo o que acontece no Norte é de "interesse e valor especial". “Nem estou a falar o desenvolvimento da Rota do Mar do Norte”, acrescentou. O Norte para Putin é indefinido pode ir até ao norte da Finlândia. O desenvolvimento nessa direção, segundo o presidente, é o futuro da Rússia em termos de extração de recursos naturais para o país. Só não ouve e não percebe quem não quer.


Parece não haver dúvidas de que Putin está a ser apoiado por grupos de extrema-direita


Putin não tem aliados só à esquerda. Na Europa, há partidos que podem ter recebido financiamento por investidores russos ligados a Putin. Marine Le Pen, líder da Frente Nacional francesa da extrema-direita francesa foi recebida pelo Presidente russo Vladimir Putin, encorajando a sua candidatura às presidenciais para a primeira volta a 23 de Abril de 2017. É acusada de ter recebido fundos de um banco russo para financiar a sua campanha eleitoral.


Matteo Salvini, líder da Lega, partido italiano de extrema-direita, é também apoiante de Putin, surgindo numa ocasião com uma t-shirt vestida que ilustrava a cara do Presidente russo. O mais recente é o do aliado nos tempos é Jair Bolsonaro, presidente do Brasil, que se reuniu com Putin no mês passado, em Moscovo, e que não condenou, tanto quanto se saiba, as ações do presidente russo face à Ucrânia.


Todavia, Europa alguns partidos da mesma extrema-direita ficaram numa situação desconfortável pelo ataque de Vladimir Putin à Ucrânia. A líder do RN - Rassemblement National, antiga FN - Front National (Frente Nacional), e Matteo Salvini, da Liga de direita da Itália, que passaram anos a divulgar a sua afinidade com o presidente russo, aceitando empréstimos russos à medida que a Rússia reunia tropas ao redor das fronteiras da Ucrânia, alguns desses amigos de Putin minimizaram a ameaça ou acusaram o Ocidente de aumentar as tensões. Ainda outros como o Presidente da República Checa, o primeiro-ministro da Hungria, quando Putin declarou guerra à Ucrânia e mísseis balísticos caíram sobre alvos ucranianos, essa atitude tornou-se mais difícil o que levou muitos a recuar a sua simpatia e apressaram-se com declarações a condenar o ataque.


As dúvidas se é que as havia no apoio e simpatias das extremas direitas por Putin e pela invasão da Ucrânia foi dissipada. “A imagem de "homem forte" do presidente russo e o desdém pelos liberais transformaram-no num herói para os nacionalistas brancos”, escreve Sergio Olmos no The Guardian em 5 de março de 2022.


Num evento nacionalista realizado na semana passada na Florida, EUA, um organizador e líder supremacista branco pediu “uma salva de palmas para a Rússia", no meio de um rugido de aplausos para o presidente russo, poucos dias depois de este invadir a Ucrânia e muitos participantes responderam gritando: "Putin! Putin!".


A WABE uma estação de televisão pública de Atlanta na Georgia no dia 1 de março de 2022 pode ler-se que líderes republicanos no Congresso estão divididos sobre o que fazer com a deputada Marjorie Taylor Greene depois desta congressista ter discursado num evento de fim de semana organizado por um nacionalista branco em que se dizia maravilhada com a invasão da Rússia à Ucrânia enquanto a multidão eclodiu em cânticos de "Putin!”


A guerra na Ucrânia expôs a afinidade da extrema-direita americana com Putin. Como também já escrevi no anterior blogue, aquela afinidade é complicada e mostra a dificuldade que os líderes republicanos têm para combater a tendência do partido em direção ao autoritarismo ao estilo de Trump em abraçar o extremismo de direita.


A esperança do ocidente, Europa e EUA, de que após a queda do regime soviético e do muro de Berlim tudo iria ser um mar de rosas foi um erro tremendo. A desmilitarização do ocidente leia-se U.E. foi um erro de cálculo e de estratégia de que Putin, após ter tomado o poder, veio a aproveitar-se. O autoritarismo e as ambições imperialistas de Putin surgidas após a queda do regime soviético podem agravar-se. 


Putin com o êxito da tomada da Ucrânia que irá ser seguido pela substituição de um governo fantoche a soldo de Moscovo, não irá parar. Países que saíram do domínio soviético e que aderiram á U.E. estarão na mira de um autocrata com a paranoia do poder e da riqueza.


O ceticismo deve ser nestas alturas a atitude mais sensata. O comentário político nos órgãos de comunicação, podem não ser absolutamente credíveis porque há muitos comentadores políticos e personagens muito conhecidas que publicam na Internet informações que não são propriamente mentiras, mas imprecisas, e cabe a quem as lê abordar cada mensagem com cuidado.


Recorre à evocação da história e a outros contextos para justificar a ação de Putin de hoje de invadir a Ucrânia, ou apara atacar os imperialistas do ocidente, os EUA, a NATO e a U.E. Num desvario sectário alegam com o belicismo do ocidente justificações para de agressões e da guerra desde tudo seja contra o ocidente. Recorrem a outros conflitos descontextualizados para o justificarem. Nãoo compreendo estes pontos de vista.


Na verdade, o Partido Comunista Português (PCP) à semelhança de Putin ainda não conseguiu ultrapassar, e acho que jamais ultrapassará, o trauma do fim da União Soviética e vai morrer com esse pesar. Por outro lado, já alguém do PCP, há muito tempo, classificou a Coreia do Norte como uma democracia. Também sabemos que Hitler e Estaline fizeram um pacto por via do qual invadiram e dividiram entre eles países como a Polónia. Mas os tempos passaram, a História condenou essas atitudes e hoje as atitudes das nações e dos povos são outras, mas neste outro contexto surgiu, qual reencarnação, um novo apocalíptico que pretende restaurar os velhos tempos da guerra. Apesar disso, alguns como o PCP, nada mudaram e, mesmo às portas da morte, dá-nos este espetáculo.