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sexta-feira, 22 de março de 2024

A propósito das eleições na Rússia e do tempo de Estaline

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O resultado das eleições na Federação Russa não foram novidade para Putin, era previsível, dado o défice democrático daquele país. O resultado eleitoral 87% obtido sem oposição credível que o conduzem ao 5º mandato não poderia ser outro. Foi e é assim que nos regimes totalitários e autocráticos onde a forma de governo está nas mãos de um governante que detém controle absoluto e poder de decisão em todos os assuntos de Estado e sobre todo o povo do país. Para tal, só com a simulação de eleições livres se prolonga o poder. Foi assim na ex-União Soviética, é a gora assim na Rússia, foi assim em Portugal no tempo de Salazar e Caetano, é assim em Cuba e noutros países como a Coreia do Norte onde o “chefe máximo” é nomeado e ou herdado como se fosse uma monarquia. Após a morte do fundador da União Soviética, Vladimir Lenin, José Estaline governou o país de forma autocrática e ditatorial.


A atual Federação Russa é uma república federal semipresidencialista e gerida por uma oligarquia. O presidente Vladimir Putin vai cumprir o seu quinto mandato como presidente da Rússia. Apesar de em anos anteriores ter feito repetidas promessas de deixar o cargo em 2024, quando o seu limite de mandato fosse atingido, Putin encabeçou no país o projeto para em 2020 fazer uma alteração constitucional que lhe permitiria permanecer no poder até 2036.


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Dizer que Vladimir Putin é um ditador é assunto que pode levantar várias questões ideológicas. Mas, de qualquer modo, num regime em que se diz haver democracia liberal no sentido de sistema partidário de liberdade política, económica, religiosa etc., não se prendem ou matam opositores, não se retira a liberdade de expressão, não se publica na imprensa e se diz nas televisões a visão única, não se reestruturam governos para se deter poder duradouro, não se detém numa única pessoa a autoridade executiva, nem o poder judicial e legislativo, nem é possível mudar a legislação para se adequar à agenda de um único poder. E não me venham dizer que isto é propaganda anti russa dos EUA e do ocidente. Basta consultar os órgãos de comunicação do próprio país através da net e ler e ouvir os discursos de Putin para o interior do país (há traduções).


 Podemos presumir que o resultado da eleição terá sido previamente decidido e que Putin seria “obrigatoriamente eleito” com a maior percentagem de sempre e com a mais baixa abstenção verificada até ao momento. Pode mesmo dizer-se, sem garantia, que terá avisado todas as autoridades do país aos vários níveis, do oriente mais longínquo da Rússia até às fronteiras com o ocidente, de ele teria de ser feito com limites máximos e mínimos e que teria de ser assim.


As eleições da Rússia e a invasão da Ucrânia fizeram-me pensar sobre as semelhanças entre o Presidente Vladimir Putin e José Estaline. Não tinha e ainda não tenho a certeza sobre tais semelhanças. No entanto, recorrendo a documentos históricos a semelhança entre eles em alguns aspetos parece ser por demais evidente. Assim é inevitável deixarmos de associar o regime de Putin ao de Estaline. Dizem alguns que são épocas diferentes e com contextos diferentes. É certo, mas, ainda assim, este ponto de vista leva-nos a recordar o passado e há alguns paralelos que podem ser traçados. Vejamos então alguns pontos de aproximação entre eles.  


Um aspeto muito importante é o da religião e das crenças do povo.  A religião e a igreja é usada para abençoar as campanhas militares, e, no atual regime de Putin, motivos religiosos, culturais e históricos combinam-se com motivos políticos, não é por acaso que Vladimir Putin tem uma associação significativa com a Igreja Ortodoxa Russa. Há um apoio mútuo entre Putin e a Igreja Ortodoxa Russa em que a Igreja confere legitimidade espiritual ao regime de Putin, enquanto Putin apoia a influência da Igreja na sociedade. Por outro lado, o patriarca Kirill, chefe da Igreja Ortodoxa Russa, é visto como um aliado próximo de Putin e tem sido um destacado defensor das políticas de Putin, incluindo a a legitimação da invasão da Ucrânia.


Se consultarmos documentos históricos sobre a governação de Estaline notaremos algumas semelhanças. Aliás, o próprio Putin está a fazer uma reescrita da história e uma lavagem da época estalinistas, porque, segundo ele, é tudo um exagero e uma invenção dos inimigos da Rússia.


Parece ser atributo de ambos a substituição de generais e comandantes que não conseguem fornecer aos militares o que eles precisam em homens e material, em nome do sacrifício pela pátria e a honra bem maior do povo russo. Recentemente, a 19 de março, foi anunciada mais uma substituição que o Presidente Putin efetuou de entre várias mudanças nos principais comandos das Forças Armadas desde que lançou a invasão militar na Ucrânia.


Antes da visita de Putin a Volgogrado para comemorar o aniversário da vitória na Segunda Guerra Mundial foi colocado um busto de Estaline para ser inaugurado. Putin não se coíbe de em entrevistas como a que deu em 2017 em que criticou a “excessiva demonização” de Estaline promovida pelo Ocidente, e que a estratégia é usada “como um meio de atacar a União Soviética e a Rússia”.


Ambos os líderes são conhecidos pelos seus esforços para centralizar o poder. Estaline criou um Estado totalitário de partido único, enquanto Putin criou organização vertical de poder, isto é, uma estrutura governativa em que existem papéis muito específicos de cima para baixo. A liderança encontra-se no topo e, à medida que se desce, a autonomia e o poder de decisão diminuem.


Quanto às políticas interna e externa também podemos encontrar algumas semelhanças. Putin também envenenou ou prendeu opositores e transformou a principal fonte de divisas da Rússia - a indústria do petróleo - numa ferramenta de política de Estado. A repressão de Putin à dissidência lembra repressão brutal da era soviética e Putin, tal como Estaline, são conhecidos pela sua repressão a opositores políticos.


Também como Estaline, Putin convenceu grande parte do povo que “o mundo está todo contra a Rússia”. Nas suas retóricas políticas Putin também faz apelo ao nacionalismo russo e à expansão e recorre ao elogio do império russo. Em ambos há uma forma semelhante na abordagem das suas políticas internas e externas. A de Estaline consistia em construir o socialismo no país e reduzir o tamanho do império alemão, a política externa de Putin tem sido a de conter o “domínio” ocidental e conseguir novos parceiros importantes para o futuro.


A chamada reeducação dos cidadãos quando eram dissidentes da política oficial foi também exercida. O regime de Putin, nas atuais circunstâncias da invasão sa Ucrânia, também tem o mesmo procedimento, pois retira crianças das suas famílais e dios seu páis enviando-as para lares russos para passarem, segundo dizem porta vozes do regime, por um processo de reeducação.  


Contudo, estas semelhanças são relativas porque é importante notar que, apesar destas semelhanças, também há diferenças significativas. O regime de Estaline foi marcado pela repressão em massa, expurgos e um regime de terror, que é bem diferente na Rússia de Putin. Além disso, a Rússia de Putin faz parte da economia global e das instituições internacionais duma forma que o difere da União Soviética de Estaline. A explicação da diferença talvez seja devida a que na altura de Estaline estava-se na terceira fase da globalização que abrange o final da Segunda Guerra Mundial, em 1945 estendendo-se até ao final da Guerra Fria e à queda do Muro de Berlim em 1989. Um dos principais acontecimentos dessa fase determinante para a atual fase da globalização foi a “terceira revolução industrial” responsável pelas inovações tecnológicas e científicas que surgiram a partir da década de 1970 e que são características do meio técnico-científico-informacional atual. Atualmente contribuem para a estratégia militar e da guerra cibernética entre países e regimes.


Em conclusão, embora existam alguns paralelos entre as políticas de Putin e de Estaline, elas são produtos de seus respetivos tempos e têm diferenças significativas. Também vale a pena notar que a interpretação das suas políticas pode variar, e esta é uma comparação simplificada.


Enfim, sobre as eleições na Rússia, Vladimir Putin terá organizado uma outra espécie de operação especial para mostrar aos russos, (e à parte do mundo que ainda está, ou diz estar, com ele), que o seu poder é absoluto. Vladimir Putin é um “czar” que faz acreditar ao povo russo que está a travar uma guerra defensiva porque está a ser atacado pela NATO, pelo EUA e pelo ocidente os que lhe estão a impor com a pretensão para mostrar ao mundo que o povo o apoia esmagadoramente, isto para quem quiser acreditar.

terça-feira, 7 de março de 2023

Que outros objetivos de Putin?

Questiono-me várias vezes porque será que andam nas redes sociais muitos “personagens” a divulgar propaganda do Kremelin/Putin difundindo notícias falsas anti Ucrânia em sintonia com as mesmas que Vladimir Putin e os seus seguidores russos fazem em sucessivas lavagens cerebrais ao povo. A estes que, aqui, em liberdade, defendem as ideias de Putin pergunto porque não vão viver para esse extraordinário país sob o seu domínio e deixam de viver cá onde recebem salários à custa dos impostos que todos pagamos? É a liberdade de expressão a funcionar dirão, mas será que nesse regime que tanto defendem não haverá a mesma liberdade para dizerem o que pensam?


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Podemos conjeturar se a invasão da Ucrânia não será apenas o início de outros objetivos imperialistas e mais ambiciosos de Putin, se conseguisse ocupar parte ou a totalidade da Ucrânia. Por agora bastar-lhe-ia bloquear o acesso da Ucrânia ao Mar de Azov e ao Mar Negro, caso consiga dominar toda a área que vai da Kharkiv a Odessa passando por Zaporizhia, Kherson e Mikolaiv, o que, até à data, não foi conseguido.


O caso da Crimeia, república autónoma da Ucrânia, anexada pela Rússia em 2014, que gerou um conflito na região que dura até hoje. A crise na Crimeia foi motivada pela deposição do presidente ucraniano Viktor Ianukovitch, (que fugiu de seguida para a Rússia), alinhado com as políticas russas de Putin que foi seguida de um referendo fantoche que aprovou a sua união com a Rússia, não sendo, contudo, reconhecida por Kiev nem pela comunidade internacional.


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Fonte: Institute for the Study of War


O ponto de vista da preparação a de uma possível invasão da Europa em larga escala, planeada a longo prazo, a começar pela Polónia através da Bielorrússia, estaria em linha com o discurso do presidente Vladimir Putin antes da invasão da Ucrânia.


Não se sabe se, atualmente, a Rússia terá ou não capacidade militar para lançar um ataque contra a Polónia ou qualquer outro país da NATO, mas Putin tem ambições imperialistas, de longo prazo, ele próprio não o nega,  e está a procurar, numa primeira fase territórios vizinhos e próximos das suas fronteiras. É um processo contínuo a Rússia tentar invadir algumas das regiões que ela reivindica, pela voz de Putin, como sendo suas.


Dias antes da publicação deste “post”  o presidente da República Russa da Chechénia, Ramzan Kadyrov, sugeriu, numa entrevista na televisão do estatal daquele país, que o exército russo invadisse a “Alemanha Oriental”, como era chamado o território da antiga RDA (República Democrática Alemã) antes da queda do império soviético. O motivo de tal ataque verbal teria a ver com a entrega de tanques à Ucrânia, anunciada pela Alemanha. Também aquele radical terá sugerido que a Rússia atacasse a Ucrânia com armas nucleares.


Mais descarada ainda, e até ridícula, foi a afirmação do ministro dos negócios estrangeiros da Rússia, Lavrov, numa conferência na India, (3 de março), quando lhe perguntaram como é que a guerra afetou a estratégia energética da Rússia e como isso poderia beneficiar a Rússia, Lavrov respondeu: “A guerra que estamos tentando impedir foi lançada contra nós” o que suscitou gargalhada na plateia que pode ver aqui ou aqui. Este mesmo sujeito já afirmou em fevereiro do corrente ano que a Rússia deveria procurar "desnazificar" a Polónia, usando a mesma linguagem e argumento que Putin usou para justificar a invasão da Ucrânia.


Tem-se escrito e falado muito sobre a equiparação dos propósitos de Putin com os que Hitler para começara a guerra: a expansão da Alemanha e a disseminação da política nazi; depois de, no tempo da União Soviética de Estaline este ter feito um pacto em 23 de agosto de 1939 com a  Alemanha nazi de Hitler, Putin diz agora querer combater o nazismo na Ucrânia.  O governo de Hitler tinha em mente a criação de um império vasto, um “espaço vital” como ele lhe chamava então conducente à expansão germânica no leste europeu. Vladimir Putin tem a mesma ambição, mas para ocidente para criação dum império, conforme as suas próprias palavras. A efetivação da dominação russa sobre a Europa, como têm dito os seus correligionários, requereria uma nova guerra. Como já várias vezes escrevi neste mesmo local Putin nunca aceitou a dissolução da União Soviética e descreveu o seu colapso como uma “grande tragédia do século XX".


Putin recorre a uma narrativa sobre eventos passados para dar, no presente, um significado especial que sirva para fortalecer a sua autoridade como detentor do poder e reavivar no povo antigos mitos políticos do  culto de personalidade. É isto que Putin pretende criar um novo, mas retrogrado, um culto à sua personalidade, de inspiração estalinista que remeta para uma forma de propaganda que eleve a sua figura  a político de dimensões quase religiosas cujos discursos procurem promover, de forma exagerada, os seus méritos e qualidades, fazendo ocultar críticas ou defeitos que possam vir a ameaçar o seu poder e a condição de grande líder e guia da pátria russa.


O presidente Vladimir Putin, que muitas vezes invocou e  a história para alimentar sentimentos nacionalistas, comparou-se ao czar Pedro, o imperador que expandiu o território russo através de conflitos prolongados no século XVIII.


Logo após a invasão da Ucrânia de fevereiro, no dia 9 de junho de 2022, num discurso do 350º aniversário do nascimento de Pedro, Putin pareceu fazer uma ligação da sua sangrenta invasão da Ucrânia com o passado imperial da Rússia. Segundo um jornal russo “o presidente russo Vladimir Putin, durante uma reunião com jovens empresários, engenheiros e cientistas na VDNKh em Moscovo, comparou a situação atual na Ucrânia com a Guerra do Norte (1700-1721) com a Suécia, que foi liderada por Pedro I”.


O jornal MKRU escrevia na altura que “o presidente Vladimir Putin traçou analogias com Pedro I. Segundo o presidente, “o imperador "não tirou nada" dos suecos durante a Guerra do Norte, mas devolveu os territórios que historicamente pertenciam à Rússia. E também coube à nossa parte retornar e fortalecer". Confirmava assim que, no pano de fundo ideológico da “operação especial” na Ucrânia, subsistia a ideia de reunir ao que ele chama mundo russo e recriar a “Novorossiya”.


Putin elogiou a construção do império de Pedro I e sugeriu que as terras tomadas pelo czar pertenciam legitimamente à Rússia. "O que Pedro estava fazendo?" De acordo com a Associated Press Putin disse na altura que o que Pedro fez foi segundo ele "Retomar e reforçar. Foi o que ele fez. E parece que nos coube também retomar e reforçar." Os comentários foram amplamente vistos como uma referência ao ataque de Putin à Ucrânia, que há muito vê como parte da esfera de influência da Rússia.


Em 24 de fevereiro, Vladimir Putin chocou o mundo ao iniciar uma guerra com a invasão da Ucrânia. No período que antecedeu a invasão russa, Putin fez discursos de longo alcance e escreveu um artigo para legitimar as suas ações que estava repleto de intensa retórica sobre a história imperial e a história soviética. No entanto, isso não é algo novo. Putin tem consistentemente instrumentalizado a história para alcançar os seus objetivos políticos desde o dia em que se tornou presidente.


Ao longo dos anos, tem-se referido cada vez mais, e repetidamente, à história do Império Russo, como se pode verificar nos seus discursos. A história nas suas mãos tem-se transformado gradualmente numa arma. Putin pratica essa retórica dentro do país e para o exterior para justificar as suas ações, garantir a sua posição de poder e a legitimação da invasão que foi sua e apenas sua, culminar da sua estratégia. Por outro lado parece haver também, por parte de Putin, uma espécie de saudosismo que reside numa espécie de esperança profética assente na crença de que é possível um retorno ao antigo regime soviético numa versão século XXI.


Putin parece ter adaptado à atualidade a frase que Estaline escreveu em 1924 no seu livro “Foundations of Leninism”  onde afirmava que o mundo estava dividido em dois campos hostis «a frente mundial do imperialismo» e «a frente comum do movimento revolucionário em todos os países»; afirmava ainda Estaline, de modo particular, que «na presente fase do capitalismo as guerras não se podem evitar». Na linha interpretativa de Putin o mundo continua dividido em dois campos, o ocidente e a NATO que fazem parte da maquinação do campo hostil e invasor da Rússia, e o dele, pacifista, defensivo. Mas é ele que mostra uma agressividade bélica, expansionista, no sentido de regressar ao anterior império czarista. É o pensamento dos totalitaristas.


A solução adotada pelos ditadores totalitários é dirigir a hostilidade latente do povo contra inimigos reais ou imaginários. É este último caso o de Putin contra a Ucrânia e o Ocidente. Hitler escolheu primeiro os judeus para alvo da agressividade alemã; uma vez arranjado um alvo não ficou satisfeitos e, mais tarde, outros povos e personalidades tomaram o lugar dos judeus. No caso de Putin parece ser o povo ucraniano e, segundo ele, um produtor de fake news, passa para o povo russo a ideia de que os invasores são o ocidente e  a NATO que estão a cercar e a invadir a Rússia.


A Rússia é um país localizado na Europa e na Ásia com os montes Urais frequentemente vistos como a fronteira entre os dois continentes e é amplamente considerado política e culturalmente europeu. Segundo as estatísticas mais recentes, em janeiro de 2023, tem aproximadamente três quartos da população que vive a oeste dos montes Urais, na Europa portanto, geograficamente fronteira entre os dois continentes.


Se observarmos o mapa seguinte que nos mostra as atuais fronteiras da Rússia comparadas com as de 1914 podemos supor até onde poderá ir o sonho imperial de Putin, que tenta comparar-se ao czar Pedro, com uma ideologia irracionalista, pretensamente mítica que mostra uma colocação política irracional tendente a  voltar a consolidar as suas posições em direção ao sul e leste do país.


 


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Putin parece não se ter desligado, nem esquecido do mundo russo soviético em que viveu e em que participou que implodiu em dezembro de 1991. Entre 1922 e 1991 a ex-URSS era formada por 15 nações diferentes: Rússia, Ucrânia, Bielorrússia, Estónia, Letónia, Lituânia, Arménia, Geórgia, Moldávia, Azerbaijão, Cazaquistão, Tajiquistão, Quirguistão, Turquemenistão, Uzbequistão. Sob o domínio de Estaline e durante a Segunda Guerra a URSS combateu ao lado dos Países Aliados, e fez da Alemanha o seu principal alvo militar. Nesse contexto, o Exército da URSS invadiu a Alemanha e os territórios sob a sua zona de influência e formou estados-satélite como a República Popular da Polónia, República Popular da Hungria, República Popular da Roménia, República Popular da Bulgária, República Popular da Albânia, República Socialista da Checoslováquia (atualmente República Checa e Eslovénia) e, no fim do conflito, a parte leste da Alemanha que passou a ser denominada por República Democrática Alemã.


Questiono-me várias vezes porque será que andam nas redes sociais muitos “personagens” a divulgar propaganda do Kremelin/Putin difundindo notícias falsas anti Ucrânia em sintonia com as mesmas que Vladimir Putin e os seus seguidores russos fazem em sucessivas lavagens cerebrais ao povo. A estes que, aqui, em liberdade, defendem as ideias de Putin pergunto porque não vão viver para esse extraordinário país sob o seu domínio e deixam de viver cá onde recebem salários à custa dos impostos que todos pagamos? É a liberdade de expressão a funcionar dirão, mas será que nesse regime que tanto defendem não haverá a mesma liberdade para dizerem o que pensam?

domingo, 20 de março de 2022

Por Putin com amor ou os nossos agentes de Moscovo

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Facciosos que pretendem desviar as atenções das responsabilidades de Putin nesta guerra insistem no que os EUA e a NATO fizeram no passado, mas omitem que o presidente russo já foi acusado de financiar vários partidos da extrema-direita na Europa; omitem ter interferido nas eleições norte-americanas, procurando beneficiar Donald Trump; omitem que Putin não esconde as suas preferências na Europa por Órban, Le Pen, Salvini, Santiago Abascal.


Nas últimas semanas tem-se multiplicado uma infinidade de artigo de opinião e de comentários numa dicotomia entre os que revelam claramente estar contra a invasão e os outros, os pró Putin.


Antes de continuar, e porque parece estar a haver alguma animosidade contra os russos, devo esclarecer que nada tenho contra o povo russo nem contra a sua cultura, a minha opinião é a de estar contra as políticas de um líder autocrático e oligárquico que impôs ao povo russo uma democracia(?) iliberal belicista.


Uma democracia iliberal visa um poder executivo forte, controlando e manipulando os limites das instituições garantes da democracia tais como tribunais e outras instituições democráticas do estado. Para o justificar argumentam que essas instituições, garantes dos valores democráticos e de liberdade não possuem atribuições eleitorais e, como tal, impedem a vontade da soberania do povo. Desta forma a narrativa social é construída ganhando, assim, legitimidade dentro do cenário democrático. Sobre democracia iliberal ver aqui.


Ao escrever este texto veio-me à memória “From Russia with Love” com a tradução em português “Da Rússia com Amor”, filme de espionagem lançado em 1963 que permanece relativamente fiel ao romance de Ian Fleming, escritor britânico e autor do livro com o mesmo nome.


Questionei-me sobre o porquê deste filme surgir na minha memória. A memória recente deu-me a resposta: foi o nome do comentador Alexandre Guerreio que ouvi recentemente seguir o mesmo relato da propaganda de Putin e dos seus mandatários que podem ver aqui.


Em tempos de guerra surge sempre quem se colocam de um lado, ou de outro, dos intervenientes do conflito. Foi assim também na segunda guerra mundial quando, por estranho que pareça, também houve quem estivesse do lado III Reich, no início não só os alemães.


Instalou-se com esta guerra um conjunto de gente, felizmente pouca, antiamericana e anti NATO às quais acrescentam o seu antieuropeísmo irracional. Os apoiantes desta corrente não são recentes, agitaram-se a pretexto da invasão da Ucrânia por Putin e colocam-se do lado de um Estado que agride militarmente outro povo soberano e que o massacra. Esta é a realidade e não há argumentos que o justifiquem por mais rebuscados que sejam.


Esta gente reanima ódios antigos que vêm do tempo da URSS e da Guerra Fria que agora estão a ser aproveitados para a sua ressurreição com novos contornos. Daí as teses do PCP contra os EUA, a NATO e a União Europeia em favor da defesa das posições do Kremlin.


O colapso da URSS que foi recalcado por uma espécie de catarse saiu do seu subconsciente ideológico. A retórica da paz que proclamam, com omissões de princípio, em relação à invasão da Ucrânia, vem das palavras de Jerónimo de Sousa que vinculam o PCP e está nas críticas feitas ao governo ucraniano em linha com as de Moscovo. Ao mesmo tempo que diz apoiar o apelo “à solidariedade e ajuda humanitárias às populações”, acusa a Ucrânia de dar apoio a grupos fascistas ou neonazis, alinhando com uma das narrativas usadas por Putin para justificar a invasão daquele país.


Os argumentos recorrem a históricos condenatórios de outras guerras em que intervieram outros Estados, mas cujos contornos e circunstâncias não se encaixam com as atuais. Seria bom que o PCP em vez de falar em golpes recordasse o que se passou na Ucrânia.


Sem me alargar em história porque isso compete a outros debruço-me apenas sobre alguns factos da atualidade da última década para nos situarmos.


Yanukovych foi presidente da Ucrânia de 25 de fevereiro de 2010 a 22 de fevereiro de 2014 que formalmente rejeitou um acordo de cooperação com a União Europeia que há muito tinha sido negociado e que poderia, no futuro, fazer passar a Ucrânia a ser um dos seus membros e integrar o bloco dos 28 países. Este mesmo presidente, na mesma altura, terá recebido uma série de empréstimos oferecidos pelo governo russo de Putin iniciando um processo de aproximação política com o Kremelin. Esta situação levou a uma série de protestos no oeste da Ucrânia denominados "Euromaidan" que já tido início em 21 de novembro de 2013. Protestos públicos que evoluíram para apelos à renúncia do presidente Viktor Yanukovych e do seu governo.


Além da questão da integração com a Europa havia ainda acusações de corrupção contra elementos do governo, pró-Rússia, que também motivou os protestos.


A análise da situação concluiu que Yanukovych estaria sob pressão direta da Rússia e que o anúncio brusco de que o acordo com a União Europeia não seria assinado por os russos de Putin ameaçarem impor sanções à Ucrânia tendo sido Yanukovych chamado de urgência para um encontro em Moscovo com o presidente Vladimir Putin.


Mas voltemos à atualidade recente. O estilo fascizante de Putin está presente na organização de um comício político disfarçado de concerto no passado 18 de março do corrente que e cujo seu discurso podemos considerar como sendo para a obtenção de apoio à guerra, de exaltação patriótica e de celebração dos feitos militares da Federação Russa na Ucrânia ao velho estilo nazi.


Do meu ponto de vista há os que dizem defender a paz e ao mesmo se colocam do lado de Putin. Esses que dizem defender a paz são os que sustentam que a culpa da guerra é de outros. Sem o dizerem claramente alinham com o pensamento do presidente Vladimir Putin que, em dezembro de 2021, lamentou o colapso da União Soviética há três décadas a que ele chamou "Rússia histórica", conforme noticiou na altura a agência Reuters.


Os comentários de Putin, em tempo divulgados pela TV do Estado Russo (RT-Russia Today), terão provavelmente alimentado ao que chamaram especulação sobre as suas intenções em política externa que os críticos internos, (não sei se hoje ainda existem), aproveitaram para o acusar de projetar a recriação da União Soviética e de contemplar um ataque à Ucrânia, ação que na altura o Kremlin de Putin considerou como sendo ousada.


 Não há dúvida de que a Rússia de Putin é uma democracia iliberal autocrática tendencialmente expansionista que parece estra a pretender provocar uma crise idêntica à que a Alemanha Nazi colocou em prática em 1938. Há mesmo quem chame a Putin czar e o compare a Stalin e a Ivan, o Terrível, quando na Polónia em 2009 falavam de Putin.


Escrevia-se então em setembro de 2009 aquando das comemorações do início da Segunda Guerra Mundial em Gdansk que “Putin passou a última década a procurar restaurar a grandeza russa, em parte através da reabilitação de Josef Stalin e a encorajar uma narrativa heroica e nacionalista dentro do país”.


Estas afirmações são preocupantes pela tentativa de recuperar um passado tenebroso utilizando táticas semelhantes através da utilização de armamento mais sofisticados e com novas estratégias.


Há um erro quando se pensa que a Rússia, em 1939, trouxe a liberdade à Europa central. Estaline atraiçoou a Polónia depois da invasão nazi invadindo-a pelo Leste. Hoje as ambições imperiais de Putin continuam a ser um perigo, como foi demostrado pela guerra contra a Geórgia em 2008.


Foi em Gdansk onde começou a invasão da Polónia pela Alemanha de Hitler.  No dia 1 de setembro de 1939 iniciou uma guerra de seis anos. A Polónia foi dividida em 1939 pelas tiranias gémeas de Hitler e Estaline e foi onde ocorreu o assassinato em massa de judeus no Holocausto nazi e terá sido o principal alvo de campanhas de propaganda concertada russa do Kremlin.


Relativamente à Ucrânia podemos supor que todas as tentativas para chegar a um acordo de paz com Putin serão do ponto de vista moral do direito internacional e do ponto de vista prático e político serão infrutíferos, prejudiciais e perigosos tal e qual o foram todas as tentativas de apaziguar as nazis realizadas entre 1934 e 1939 ao fazer vários acordos e pactos que resultaram em fracassos e não foram respeitados.


Elísio Estaque, sociólogo, professor da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra escreveu num artigo de opinião mo jornal Publico que “O facto de a NATO ter sido criada como força de oposição à URSS num contexto de Guerra Fria, de profunda divisão ideológica no mundo ocidental (capitalismo versus socialismo), associado à imagem do exército soviético no pós-guerra, visto como força libertadora no confronto contra a Alemanha nazi, contribuiu para perpetuar a simpatia das “vanguardas” com a “pátria do socialismo” durante décadas. Desde a Revolução de Outubro, com Lenine e Trotsky, passando por Estaline, Krushtchov, Brejnev, etc, mesmo após a implosão do regime, muitos continuaram a ver no poder russo a força capaz de se opor aos EUA, o locus do poder hegemónico num mundo unipolar.


Na sua cegueira dogmática já veem nesta guerra as trombetas a anunciar o fim do capitalismo ocidental e a consequente queda do império americano.


Fazer comparações com outras ações belicistas da NATO, no passado, ou apresentar contabilidades da mortandade em várias outras latitudes que não a Europa, são de uma insensatez intolerável. Nenhuma ação bélica desta natureza pode ser relativizada, seja onde for e por quem for”.


Facciosos que pretendem desviar as atenções das responsabilidades de Putin nesta guerra insistem no que os EUA e a NATO fizeram no passado, mas omitem que o presidente russo já foi acusado de financiar vários partidos da extrema-direita na Europa; omitem ter interferido nas eleições norte-americanas, procurando beneficiar Donald Trump; omitem que Putin não esconde as suas preferências na Europa por Órban, Le Pen, Salvini, Santiago Abascal.


Há quem esteja com uma venda nos olhos espreitando por alguns orifícios causados pelo desgaste ou que não queira ver por néscia teimosia, e menos por ignorância, e que, por isso, insistem na retórica discursiva do prisioneiro inocente que se defende dizendo que foram outros que o quiseram tramar.