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sexta-feira, 1 de setembro de 2023

Educação no atual regime da Federação Russa, reescrita da história e o controle dos meios de informação e comunicação

Educação no atual regime da Federação Russa, reescrita da história e o controle dos meios de informação  e comunicação


Ainda resta na Rússia oposição a Putin?


 


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O que aqui escrevo não são invenções mais ou menos ao sabor da corrente das redes sociais nem das emoções que sempre acompanham a política. São opiniões é certo, mas também são pontos de vista baseados e fundamentados por factos cuja origem das fontes não omito, sejam elas do ocidente, sejam da própria Federação Russa.


Do meu ponto de vista a Rússia é um grande país e em vez de ter optado por mergulhar no passado como parece estará a fazer o seu líder, o Presidente Vladimir Putin, poderia ser um grande aleado da Europa após o desmantelamento do que restava da URSS o que poderia trazer-lhe vantagens económicas sem perder a sua importância geopolítica. Mas o seu objetivo é, à semelhança de Trump quando era Presidente do EUA, o de tentar dividir e desestabilizar a União Europeia e o Mundo sem até à data o conseguir.


Putin assim não pensou, prefere o antagonismo com o ocidente que de forma esquizofrénica vê como um inimigo que pretende invadir a Rússia. Pretende construir uma ideologia onde domina uma espécie de “neo-guerra fria”. Para poder controlar as potenciais consequências da invasão da Ucrânia utiliza mecanismos de controlo social que lhe sirvam para obter uma sociedade sem qualquer tipo de comportamento oposicionista que, para ele possa ser considerado desviante. Para tal, cria sanções para quem tenda a desobedecer a normas e regras por ele estabelecidas eliminando até adversários.


Passaram cinco dias desde que a agência de notícias estatal russa RIA Novosti informou que um avião particular onde viajava o chefe do Grupo Wagner, Yevgeny Prigozhin, explodira. Terão passado dois meses entre a tentativa de golpe de Prigozhin com a marcha a Moscovo e a explosão do avião onde seguia.


No mundo alucinado das redes sociais surgiram as mais diversas especulações e teorias da conspiração, como é habitual nas mais variadas circunstâncias. Acidentes com figuras que se opõem a Vladimir Putin, ou que já não lhe são gratos tem sido recorrente. O real esclarecimento deste caso ficará em aberto até um dia. Sabemos como os ditadores são prolíficos naquele tipo de ações. Tivemos também em Portugal, no tempo da ditadura de Salazar, casos de morte de adversários políticos que se opunham ao ditador.


Tem sido recorrente no mundo das redes sociais e noutros canais de comunicação alguns alucinados grosseiros e agressivos chamarem, “rebanho” ou “manada”, a quem segue padrões da mais normal convivência e que são ordeiramente discordantes, por não aceitarem as suas razões imbuídas de falsas racionalidades e não seguirem as suas aberrantes e deturpadas ideias. Esquecem-se esses de que, nesses contextos, são eles as “ovelhas ronhosas” do rebanho a que pertencem. Diz-se erradamente “ranhosa” por confusão com “ronhosa”, isto é, que tem ronha, uma doença, uma espécie de sarna que os ataca.


Estão naquele grupo incluídos os negacionistas anómalos e, também, os que por agora nos interessa, os apoiantes da invasão da Rússia governada pelo regime autoritário e ademocrático de Vladimir Putin e da sua entourage selvática que utiliza a propaganda, vigilância em massa e doutrinação para manter o controle político e ideológico.


São as ovelhas ronhosas que defendem, justificam e desculpam os objetivos de Vladimir Putin para a “operação especial” /guerra/invasão e destruição da Ucrânia que não é mais do que uma ação de terrorismo, embora ele acuse outros de serem eles a praticá-lo.


Passou-se do facto à fantasia e à mentira cometida pelos que escrevem, cometam e dizem estar a informar-nos e que acham estar na posse da verdade absoluta que não é mais do que mentira manifestada como verdade; e há os que os leem, ouvem, acreditam e absorvem como esponjas propagando depois as mentiras que julgam ser a verdade.


Alguns querem mostrar que são cientes do que dizem e gostam que lhes aprovem (com “likes”) as suas diatribes contra os que, dizem eles, são os responsáveis pelos acontecimentos e pelas circunstâncias, o ocidente,  ainda que os factos revelem o contrário. Não fomos nós que fizemos, foram eles, não fomos nós que atacámos foram eles, os terroristas são eles não somos nós. Podemos exemplificar com o passado, por exemplo, a causa da guerra (II Guerra) não foram eles, os nazis, a causa foram os judeus.


Os panegíricos à dita “operação especial”, com narrativas justificativas e surripiadas a ditadores próprios de outras realidades servem os seus intentos. Esta gente é tão imprudente que pensa que nos impingem falsidades e argumentos rebuscados para nos conduzirem para o lado da sua manada, através de discursos retirados a outros que já os fizeram no passado. São os novos simpatizantes de autocracias totalitárias, da violência estalinista que se intitulam democratas, mas que apoiam invasões, genocídios e destruidores de um povo, quais “hitlers” do século XXI.


Recorrendo à agressão militar contra a Ucrânia, a Rússia violou normas e princípios fundamentais do direito internacional, bem como a Carta das Nações Unidas e a Ata Final de Helsínquia (1975). Também violou uma série de acordos bilaterais e multilaterais, incluindo o Memorando de Budapeste sobre Garantias de Segurança relacionadas com a adesão da Ucrânia ao Tratado de Não Proliferação de armas nucleares (1994); Acordo de Amizade, Cooperação e Parceria entre a Ucrânia e a Federação Russa (1997); Acordo entre a Ucrânia e a Federação Russa sobre a fronteira entre a Ucrânia e a Rússia (2003) e muitos outros. A ocupação temporária russa da República Autónoma da Crimeia e da cidade de Sebastopol, bem como certos territórios das regiões de Donetsk e Luhansk, enquadram-se diretamente na definição de agressão de acordo com os parágrafos а), b), c), d), e) e g) Art.3 do Anexo da Resolução da Assembleia Geral da ONU "Definição de Agressão" (3314 (XXIX)).


Sobre os propósitos agressivos subjacentes à agressão russa basta rever as intervenções do antigo primeiro-ministro da Rússia Dmitry Medvedev‎ e os selváticos apelos que faz, sem esquecer os do chefe da igreja ortodoxa russa Kirin e de Dugin um dos inspiradores filosóficos de Putin, assim como o de Vladislav Surkov, o ideólogo principal do Kremlin até fevereiro de 2020, vindo a ficar depois em prisão domiciliária. Pode ver desenvolvimento aqui ou aqui.


Enquanto se discutia a ajuda para a Ucrânia se defender dos ataques e bombardeamentos por ordem do Kremelin Medvedev‎ afirmava que «Na base da NATO em Ramstein (Alemanha, abril de 2023) os grandes líderes discutem novas táticas e estratégicas, assim como o abastecimento à Ucrânia de novas armas e sistemas de ataque. Isto acontece depois do Fórum de Davos onde foliões “atrasados mentais” repetiram como um mantra: “para se conseguir a paz, a Rússia deve perder”».


A 30 de julho de 2023 escrevia Dmitry Medvedev no Twitter que «se a contraofensiva contra a invasão em curso da Ucrânia por Moscovo capturar o território russo, não haverá alternativa ao uso de armas nucleares estratégicas» oque pode ler aqui. É bom recordarmos que nenhum dos territórios da Ucrânia que a Rússia ocupou/anexou é reconhecido internacionalmente como separado da Ucrânia ou fazendo parte da Federação Russa, incluindo a Crimeia.


Em janeiro de 2023 Dmitry Medvedev, ex-Presidente russo, alertava e mostrava-se contra o envio de mais armamento à Ucrânia e chamava “foliões”, “atrasados mentais” e “miseráveis” a líderes dos países ocidentais. Escreveu em publicações no Telegram que “a nenhum desses miseráveis lhes ocorre retirar uma conclusão elementar: a derrota de uma potência nuclear numa guerra convencional pode provocar uma guerra nuclear”.


Não se ficando por aqui, em março de 2023 na sua conta pessoal do Telegram, Medvedev ameaçou disparar o “míssil hipersónico” Oniks desde o Mar do Norte contra o edifício que funciona como sede do Tribunal Penal Internacional, na cidade holandesa de Haia e, a 30 de julho de 2023 não se intimidou ao dizer que usaria o arsenal nuclear da Rússia para ameaçar a Ucrânia e os seus apoiantes ocidentais. Mais recentemente, durante o golpe fracassado do chefe da Wagner, Yevgeny Prigozhin, Medvedev disse que a rebelião poderia levar a uma guerra nuclear.


Ao escrever-se e interpretar Putin e a invasão da Ucrânia a partir dos seus discursos e declarações públicas, temos de imaginar tanto o que ele vê (pensa) assim como o que julga ver e distinguirmos ainda o que ele pretende que os outros vejam, quer dentro, quer fora da Rússia. Mais difícil ainda é tentar ver o que está a conceber, a recordar, quais as suas representações, o que lhe poderá estará a ser contado, e, ainda, a parte que cabe à sua fantasia de autocrata. A partir destas premissas poderemos fazer uma análise procedente das suas palavras nos seus discursos e intervenções, alguns mais ou menos ficcionados, para “venda” ao povo russo e ao Mundo. Só assim poderemos chegar ao significado das expressões verbais que utiliza nas suas das narrativas.


Um primeiro passo para conseguir verificar/analisar, pela leitura, os discursos de Vladimir Putin. Lemos, por exemplo, uma parte e poderemos ser levados a ver o que ele diz como se desenrolasse perante os nossos olhos ou, pelo menos fragmentos ou pormenores do que se passa no seu pensamento individual que diz também ser o do coletivo, isto é, do povo, que dele emergem. Podemos então formar um conjunto de analogias e de contradições conceptuais que nos podem levar à intenção de dar um sentido e uma lógica (normalmente, para nós, sem sentido) ao desenvolvimento da narrativa discursiva de Putin.


A fantasia de nacionalismo extremado é criada nos povos por governantes hipócritas e mentirosos e é escolhida tendo em vista a finalidade de serem as mais favoráveis e agradáveis que o povo quer ouvir. Isto é, criam-se no povo “imagens” previamente fabricadas através da informação em massa disseminada e controlada pelo poder para sedução do povo e que mostrem, evocando, ser essa a “vontade do povo”.


Para compreender muitas das circunstâncias que podem levar a uma aceitação do poder que fala em nome do povo é necessário que se tenha uma compreensão mais profunda da psicologia do povo russo, o que não temos. Mas é sempre possível obtê-la através da sua história social. Para quem está de fora torna-se difícil compreender o povo russo, a não ser através das narrativas dos seus governantes, dos documentos escritos e dos poucos órgãos de informação independentes estes, mesmo assim, sob controle.


Da revolução bolchevique até à segunda década do século XXI os russos têm vivido sob ditaduras e autocracias sem nunca terem chegado a viver numa verdadeira democracia liberal à semelhança do ocidente. Manteve-se uma expectativa com a “Perestroika” que poderia resultar numa aproximação com a Europa, mas que se foi perdendo. A existência de eleições não significa em circunstâncias mais ou menos totalitárias que haja escolha livre e democrática, pois o poder pode arranjar estratégias para controlar um qualquer deslise que fazer perigar e possa vir a substituir o regime instalado.


Tanto quanto se sabe pela informação que nos chega através dos media ocidentais e pela consulta dos órgãos de comunicação social russos a maioria do povo vive numa espécie de universo paralelo (ou único) de informação e é-lhe ocultada a guerra na Ucrânia (a que chamam operação especial!?) da mesma forma tal como a observamos no Ocidente. Para os russos foi-lhes imposta a ideia de que a (operação especial) invasão da Ucrânia pela Rússia é:



  1. uma operação militar fácil e limitada tendo em vista a libertação do “grato povo ucraniano dos nazis, e com poucas baixas entre os militares e o povo ucraniano”.

  2. O grande causador de todos os males é o Ocidente, isto porque lhes é induzida a compreensão do mundo em que “existe um Ocidente hostil que está obcecado em humilhar e enfraquecer a Rússia".

  3. Que o ocidente pretende invadir a Rússia.


Passou a ser difícil ao povo na Rússia “entender o que é verdade e o que é falso, ou quem está certo e quem está errado”.


Assim, para os objetivos de Putin havia que criar, tal como se criou na Alemanha nazi em relação aos judeus, a imagem de um inimigo. Esta atitude é instigada pelo poder tendo segundo estudos efetuados que consideram que pode


“ser considerada inerente à natureza humana, uma característica biologicamente determinada da psicologia social e um meio universal de mobilização de multidões, especialmente em situações de crise”.


 (Mental bases of modern Russian society socio-political development; Yuriy D. Korobkov, Svetlana S. Velikanova, Irina V. Samarokova, Natalia V. Kozhushkova, Alexey Ivanov, Oksana P. Chernykh; Opción, Año 34, Nr. Especial 15 (2018): pp. 625-640).


Com a comunicação possibilitada pelas redes sociais e outros meios eletrónicos com alegações das alíneas anterior torna-se fácil a mobilização por via de notícias falsas. Passou a viver-se na era da viralidade mediática que contamina todos que a recebem um vírus por falta de ‘vacina’ que deveria passar pela análise critica e a confirmação da veracidade do que se lê, vê e ouve.


Segundo o Diário de Notícias que teve acesso à conferência "Pode a História da Rússia explicar o contexto para o entendimento da invasão da Ucrânia ou a guerra representa outro fenómeno?" organizada pelo Clube de Imprensa de Viena Concordia, o historiador russo Serguei Medvedev (nada tem a ver com Dmitry Medvedev, ex-primeiro ministro da Rússia), afirmou que «É preciso que o mundo, os países da NATO e da União Europeia percebam que estamos perante a Terceira Guerra Mundial e que a Ucrânia não é um conflito regional nas franjas da Europa porque o que está em jogo é o futuro da Europa e o futuro do Mundo. Considerou que a Ucrânia é ‘apenas um passo’ para Vladimir Putin desencadear a Terceira Guerra Mundial». «Está em jogo o futuro do Mundo. Temos de acabar o trabalho, porque 1945 é um trabalho incompleto. Na época havia duas ditaduras totalitárias (nazi e soviética) e só uma foi derrotada (Alemanha nazi) e a outra sobreviveu. Agora ressuscitou na forma tradicional.  O "mundo" tem de derrotar a segunda ditadura, referindo-se à Rússia». «Só depois podemos ter confiança em relação ao futuro», sublinhou.


Na minha perspetiva esta é uma posição demasiado pessimista, belicista e que retira espaço a quaisquer negociações de paz


Todavia, é do conhecimento geral que Vladimir Putin, tomando como modelo outros ditadores do século passado (entre outros Estaline e Hitler) insiste levar a Rússia para o totalitarismo de um e o totalitarismo bélico de outro.   


Para concretização de tais desígnios é necessário o controle da informação que são evidentes com o encerramento e a censura do que restava dos órgãos de comunicação independentes agravado com a criminalização de qualquer discurso diferente do oficial sobre a guerra. Para tal, em 4 de abril de 2022, o parlamento russo aprovou uma lei que torna a distribuição do que considerem ser "fake news" sobre a guerra. Neste caso para o Kremelin o que é verdade são "fake news". Isto é, quem publicar alguma coisa diferente da posição do Kremlin passa a ser punível até 15 anos de prisão como, por exemplo, dar nomes de guerra à guerra, sendo obrigados a usar o termo "operação militar especial" para se referir ao que acontece na Ucrânia.


As afirmações que se seguem foram feitas na Duma do Estado da Assembleia Federal da Federação Russa pelo presidente da Duma Vyacheslav Volodin que pode ver AQUI.


«Gostaria que todos entendessem – e a sociedade entende – que estamos a fazer isto para proteger os nossos soldados, oficiais, para proteger a verdade». Lembrou também que se a Rússia não tivesse lançado um exército especial numa operação de manutenção da paz, «uma guerra desencadeada pela OTAN começaria no território de Ucrânia em primeiro lugar, na linha de contato com a RPD - República Popular de Donetsk e LPR - República Popular de Lugansk o que, segundo Vyacheslav Volodin, implicaria milhões de vítimas e ajuda humanitária.»


Note-se que quer a RPD, quer a LPD apenas foram reconhecidas por três Estados membros da ONU até agora, Rússia, Síria e Coreia do Norte. Desaforo não lhes falta para mentalizarem e convencerem o povo russo das falsas verdades que eles criam.


Ainda de acordo com as alterações e segundo os proponentes da ação censória «a divulgação pública sob o pretexto de relatórios fiáveis informações conscientemente falsas e contendo dados sobre o uso das Forças Armadas da Federação Russa e a fim de proteger interesses da Federação Russa e dos seus cidadãos, mantendo a paz e a segurança internacionais, serão punidos com uma multa de 700 mil a 1,5 milhão de rublos». A prisão de até três anos também é possível.


Repare-se no argumento falacioso, entre outros, para justificação do diploma: “para proteger os cidadãos… mantendo a paz e a segurança internacionais”.


Veja-se ainda a menção de que


«Se a violação da lei foi praticada com o uso de posição oficial, por motivos de ódio político, ideológico, racial, nacional ou religioso ou por ódio ou inimizade contra qualquer grupo social, então a pena de prisão pode ser de até 10 anos. Os atos acima referidos, se tiverem acarretado graves consequências, será punível com pena de prisão de 10 a 15 anos».


Putin parece pretender construir uma espécie de “neoestalinismo” para voltar a fazer voltar a Rússia e o povo ao passado da ditadura que vigorou no tempo da URSS. Tal pode ser justificado porque, em 2017, as autoridades russas passaram a interferir e a insistir cada vez mais num discurso histórico, influenciado pela visão do Kremlin, segundo o qual, depois de ter sido abalada pela crise derivada do colapso da União Soviética, a Rússia deve ser novamente transformada num “grande Estado”.


Neste contexto parece estar em execução a lavagem dos crimes de Estaline. Num artigo da DW- Deutsche Welle, emissora internacional da Alemanha e um dos meios de comunicação internacionais mais conceituados, em 2017 afirmava: «o Kremlin defende que livros promovam a imagem de Estaline como patriota e modernizador».


As pesquisas efetuadas trouxeram-nos a confirmação de que as autoridades russas classificam de “prejudicial à saúde de crianças” um livro didático cujo autor, Andrei Suslov, professor de História na Universidade de Pedagogia e Ciências Humanas em Perm na Rússia,  em2017 numa entrevista à DW disse que «escreveu o livro didático em 2015 junto com uma colega e que a obra teria sido editada pela organização russa sem fins lucrativos pelo Centro de Educação Política e Direitos Humanos», e que inclui temas sobre campanha violenta contra opositores nos tempos do líder soviético Estaline. As autoridades russas consideraram então que Aulas de História que tenham como tema críticas ao “Grande Expurgo”, a repressão violenta a opositores na era estalinista, são nocivas e classificam a obra de consulta como “prejudicial à saúde das crianças”.


O movimento ativista do “sut vremeni” (Essência do Tempo), movimento estalinista, provocou um alvoroço de protestos contra o livro didático, com o envio de cartas às autoridades. Pavel Guryanov, do comité local do movimento Sut Vremeni salientou que saúda a decisão da entidade reguladora russa dizendo que «O trabalho do Centro de Educação Política e Direitos Humanos em tais métodos de ensino é somente uma desculpa para as lavagens cerebrais políticas e ideológicas nas crianças em Perm, que ocorre em interesse dos patrocinadores estrangeiros dessa organização». Parece que, para aquele movimento estalinista, relatar factos históricos verídicos são lavagens cerebrais ao contrário da sua omissão-


O ensino da história sobre a era estalinista está na mira do governo russo tendo em vista a recuperação da imagem de Estaline. Parece claro que há fundamentação ideológica nesta pretensão quando o governo defende que livros didáticos promovam uma “educação patriótica” no sentido entendido pelo Kremlin.


Em 2007, o presidente Vladimir Putin mandou imprimir um livro de história em que Estaline, secretário-geral do Partido Comunista da União Soviética de 1922 a 1953, é descrito como «o mais bem-sucedido líder soviético de todos os tempos». Em 2015 no jornal online Insider, edição russa escrevia-se que «em qualquer livraria você encontrará armários inteiros com livros recém-publicados elogiando Putin, Estaline e expondo a conspiração do mundo nos bastidores».


Em 19 de julho de 2023 saiu na imprensa russa que a História que iria passar a constar nos manuais para o 11º ano seria reescrita e que no novo livro ensina-se que «A Ucrânia é um Estado neonazi» e que «A Rússia é um país de heróis». É por este manual que os alunos do ensino correspondente ao nosso secundário começarão a estudar a partir de setembro do corrente ano. É o livro único onde os autores destacam a era posterior a 1945 podendo ler-se na introdução que «O desenvolvimento progressivo da economia, combinado com as conquistas da ciência e da tecnologia nas décadas de 1950 e 1970, fez do nosso país uma das duas potências mais influentes do mundo.


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A União Soviética atingiu patamares sem precedentes: abriu caminho para o espaço para a humanidade, alcançou conquistas impressionantes no desenvolvimento da ciência, da medicina e da educação». Isto é, nos novos livros didáticos sobre a história da Rússia, secções dos anos 1970, 1980, 1990 e 2000 foram completamente revistas e reescritas como afirmou Medinsky, assistente do presidente da Federação Russa e um dos autores dos livros didáticos.


 


Não se ficando por aqui a Rússia preparou este novo livro de história com uma secção sobre o que Putin chama a ‘operação especial’ o que foi confirmado em abril pelo ministro da Educação russo, Sergei Kravtsov, quando afirmou que «foi preparado um novo livro de história com seções sobre uma operação militar especial para o 11º ano».


A agência de notícias TASS que organizou em 7 de agosto do corrente uma conferência de imprensa dedicada ao lançamento do novo livro didático unificado sobre história geral e história da Rússia referiu que o ministro da educação enfatizou que «Hoje estamos a construir um sistema único de ensino soberano. Nesse sentido, o tema da história é fundamental.


Vladimir Putin, disse repetidamente que a memória histórica não deve ser distorcida porque «Devemos fazer tudo para que os filhos de hoje e em geral todos os nossos cidadãos se orgulhem de serem herdeiros, netos, bisnetos dos vencedores. Conhecemos os heróis do nosso país e da nossa família para que todos entendessem que isso faz parte da nossa vida.»


Os autores do novo livro didático afirmaram que o facto de o novo livro de história ser muito diferente daqueles que foram ensinados anteriormente na escola. Um dos autores, Vladimir Medinsky, ao apresentar o manual, anunciou que o livro "reescreveu radicalmente" a seção sobre a história da Rússia desde os anos 70.


O novo livro didático de história, é complementado não apenas com informações sobre a "Operação Militar Especial", mas também mostra a história da segunda metade do século XX de uma maneira diferente. Desde as primeiras páginas, transmite as opiniões que Vladimir Putin já havia declarado publicamente repetidamente: «Em primeiro lugar, deve-se reconhecer que o colapso da União Soviética foi a maior catástrofe geopolítica do século», escreve-se no início do livro didático.


Segundo o canal de televisão da Rússia RBC, Putin chamou à "demonização excessiva" de Estaline um ataque à Rússia


Parece que o Kremelin está a querer voltar ao passado da ex-URSS e às características dos regimes totalitários, tempo em que eram feitas nas escolas ‘lavagens cerebrais’ às crianças e jovens, (por questões politico-ideológicas), através dos conteúdos, isto, de acordo com investigações efetuadas, e sem desrespeito para com a excelente serviço prestado pela educação pública na época.


A rescrita da história de acordo com os interesses dos regimes é deturpadora de factos e enaltece apenas o passado que lhes interessa. É o que parece estar a acontecer com a reabilitação do estalinismo, época que mostra ser da simpatia de Putin, apesar dele ter afirmado em 2017 que: «É claro que algo provavelmente permanece na mente, mas isso não significa que devemos esquecer todos os horrores do estalinismo associados aos campos de concentração e à destruição de milhões de nossos compatriotas». Segundo o mesmo órgão de comunicação russo e de acordo com uma pesquisa social realizada pelo Centro Levada em janeiro de 2017, a aprovação de Estaline entre os russos atingiu um recorde histórico em 16 anos. Se em março de 2016, 37% dos cidadãos russos o tratavam com "admiração", "respeito" e "simpatia", em 2017 era já de 46%.


No entanto há ainda alguns órgãos de comunicação que mostram pontos vista mais críticos sobre a forma como factos históricos são reescritos com uma visão unilateral da realidade omitindo e deturpando factos, tais como os Estados Unidos interferirem na Rússia e que o colapso da URSS foi um desastre. O que ficou provado é o contrário, a Rússia interferiu nas eleições de 2016 quando Trump concorreu para a Casa Branca.


As reformas nas narrativas históricas impostas pelo regime de Putin não são de agora já vêm de anos anteriores. Em 2017 Estaline é retratado na Rússia como patriota e modernizador. «O imenso número de vítimas trazido pela coletivização forçada da agricultura, pela industrialização imprudente e também pelo terror em massa nos anos 1930 é minimizado. A ditadura comunista é legitimada segundo o pretexto de que ela foi necessária no contexto da época. O ensino sobre a era Estaline «está na mira do governo russo», escrevia então a DW e tem contribuído para que Estaline tenha vindo a ser mostrado ao povo russo pelas autoridades russas como um patriota e modernizador.


Segundo a mesma rede de notícias, a Deutsche Welle, em 2017, Elina Ibragimova ca alertava num artigo que o livro didático foi alvo das autoridades russas pelo Roskomnadsor, Serviço Federal de Supervisão das Comunicações, que como anteriormente já referi, classificou a obra de consulta como sendo "prejudicial à saúde das crianças". Concluíram que as aulas de História sobre o “Grande Expurgo”, a repressão violenta a opositores na era estalinista, são nocivas. Foi uma forma de oculara a realidade história duma época.


Sob influência do Kremlin as autoridades russas têm interferido, cada vez com mais frequência, sobre os escritos históricos porque, ao ser abalada por uma crise devido ao colapso da União Soviética, acham que a Rússia deve ser transformada num "grande Estado". Para fundamentar esta pretensão ideológica o governo defende que livros didáticos promovam uma “educação patriótica”. Em 2007, o presidente Vladimir Putin mandou imprimir um livro de história em que Estaline, secretário-geral do Partido Comunista da União Soviética de 1922 a 1953, é descrito como “o mais bem-sucedido líder soviético de todos os tempos”.


A narrativa do Presidente manteve-se porque, numa entrevista que deu a Oliver Stone em junho de 2017, o conhecido realizador de cinema dos EUA, Vladimir Putin disse que a demonização de Estaline é uma das formas de pressionar a Rússia, é uma das formas de "atacar a União Soviética e a Rússia". Pode confirmar AQUI a afirmação. Em março de 2022 a revista norte-americana online Deadline Hollywood que divulga notícias da indústria do espetáculo escrevia que «Após a invasão da Ucrânia em fevereiro, Oliver Stone que tinha criticado os media por usarem o termo ‘invasão’ para caracterizar os planos da Rússia, reviu a sua posição» e, em 7 de março do mesmo ano, Oliver Stone passou a utilizar «agressão de Putin na Ucrânia» depois de dizer anteriormente que «não havia provas» de que a Rússia a pretendia invadir e concluía que «Embora os Estados Unidos tenham muitas guerras de agressão na sua consciência, isso não justifica a agressão de Putin na Ucrânia. Uma dúzia de erros não faz que um esteja certo. A Rússia errou ao invadir.»


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O regime autoritário da Rússia aproxima-se mais dum regime totalitário que se caracteriza, entre outras, pela repressão política e violações dos direitos humanos onde, mais do que nos regimes autoritários, há uma absoluta falta de ideais democráticos e o culto generalizado da personalidade da pessoa que está no poder.


Com a iniciativa de um novo curso universitário através de formação online fica claro que a Rússia é um estado totalitário e que, no domínio da educação, se transformou num autêntico campo de reeducação dos jovens e das suas mentes. Este novo curso ideológico é constituído por palestras e esteve a ser preparado  para ser imposto às faculdades e universidades russas e será ministrado sob a forma de vídeo aulas que pode consultar aqui.


Alguns desses vídeo-aula têm o título de uma frase muito usada por Vladimir Putin ao descrever a Rússia quando fala da sua história. Uma delas descreveu em 2012 «a Rússia como um tipo especial de Estado-civilização. Chamou a atenção para a simples verdade de que a Rússia não surgiu em 1917 ou 1991, e que tem uma história única e contínua de mil anos». Prossegue dizendo que «a Rússia é um "guardião do equilíbrio do mundo", cujo papel especial na história tem sido objeto de pensamento filosófico e académico há séculos. E veja-se onde chega a anomalia quando no contexto “de desejo da Rússia de expulsar o exército de Napoleão não apenas de seu próprio território, mas até mesmo da Europa” salienta que


Os europeus viam os soldados russos como invasores, pois não conseguiam entender que os russos eram motivados pelo autossacrifício em prol da própria liberdade dos europeus.


Para os autores do curso «o mundo multipolar imaginado pelos autores tem um total de sete polos: Ocidental, Cristão ortodoxo, Extremo Oriente, Hinduísta, Árabe, Iraniano e Chinês.» Acrescenta então que «o Ocidente "sempre foi hostil à Rússia". A cultura europeia, diz o vídeo, há muito "reproduz clichês de russofobia" que apresentavam a Rússia como um "país enorme e selvagem, onde ursos vagueiam pelas ruas" e os naturais "arrastam a sua sopa de repolho com sapatos como colheres"».


Por aqui vemos a subjacência na filosofia marginal e a ideologia oficial com Alexander Dugin a passar a ideólogo[1] que é a chave do Kremelin. Enfim, o centro das palestras para os estudantes universitários centra-se na frase «O mundo russo não pode ser contido por fronteiras estatais» e que «a Rússia é uma civilização em si mesmo».


Se lermos extratos de artigos sobre a história da Rússia no tempo da URSS no século XX, a política oficial sobre a memória da União Soviética ou da Rússia em relação aos crimes do Estalinismo, verificamos que passou por várias fases bastante diferentes: se houve períodos onde predominava a desestalinização houve outros de reestalinização de Khrushchev e Brejnev. A resolução de 8 de outubro de 1959, relativa às aulas de história nas escolas[2], dá algumas informações interessantes sobre a política de memória daqueles dias. Embora se peça aos professores que separem o regime de Estaline da tradição e da função histórica do partido comunista a ideia e o princípio fundamentais da historiografia permaneceram intactos. As aulas de história nas escolas e universidades deveriam manter o papel das massas como os verdadeiros criadores da história e do Partido Comunista como o poder de liderança, controlo e direção da sociedade soviética, tal como os princípios marxistas-leninistas.


Uma abordagem pró-comunista no início da “glasnost”[3] e da “perestroika”[4], com ênfase na demonização de Estaline em prol do movimento comunista, foi removida por uma abordagem anticomunista o que resultou no colapso da União Soviética.


No entanto, atualmente, uma abordagem crítica ao passado da Rússia foi substituída por um “consenso patriótico” como afirma Sperling, 2001,


«A busca da sociedade russa por uma identidade pós-soviética, que durou mais de uma década, parece ter chegado ao fim e culminou no 'consenso patriótico'» e ainda sobre «o retorno nostálgico à era imperial e a crescente apropriação do passado soviético" na publicidade e no marketing antes mesmo do início da ascensão de Putin».


«Nos Estados totalitários o objetivo da história é incorporar a comunidade atual numa tradição longa e gloriosa que deverá vincular os membros da comunidade a esta tradição. Os acontecimentos históricos que apoiam estes propósitos são conservados pele moldagem cultural e por políticas de memória. Os eventos ou acontecimentos históricos que perturbam a imagem do estado totalitário são removidos e destruídos por revisões da história.»


Desde o tempo da ex-URSS para o efeito de estabelecer o culto do herói na sociedade, há longas décadas que tem sido feita a instrumentalização política e ideológica da Segunda Guerra Mundial. A Segunda Guerra Mundial, a Grande Guerra Patriótica, como é tem sido designada na Rússia, é uma forma de instrumentalização política que continua ainda a ser feita anualmente na Rússia com grande pompa de poderio militar. As mortes causadas são transformadas em estereótipos de pessoas heroicas confiando no futuro, tendo em vista o que era a ex-União Soviética e nos seus valores da supremacia cultural que continuam na Federação Russa. Os soldados tornaram-se no tema mais significativo do mito do herói soviético.


Breves pesquisas mostraram que esta ilustração dos soldados se enquadra na estrutura da memória cultural desenhada pela história da época estalinista. Acontecimentos e factos como o pacto Hitler/Estaline, o assassinato dos oficiais polacos em Katyn, o medo da morte dos soldados, a brutalização na guerra, o péssimo equipamento militar, a falta de comida e inúmeros suicídios nos esquadrões, não entram nesta escrita da história da Rússia. (Stalinism, Memory and Commemoration: Russia’s dealing with the past; Christian Volk, 2009).


 


[1] Neste arigo refere-se a influência ideológica de Dugin em Putin.


[2] Este documento tornou-se inválido no território da Federação russa em ligação com a publicação do Decreto do Governo da Federação Russa datado de 03/02/2020, nº 80


[3] Glasnost, (em russo: "abertura") política soviética de discussão aberta de questões políticas e sociais. Foi instituído por Mikhail Gorbachev no final da década de 1980 e iniciou a democratização da União Soviética.


[4] Perestroika, (russo: "reestruturação") programa instituído na União Soviética por Mikhail Gorbachev em meados da década de 1980 para reestruturar a política econômica e política soviética. Procurava equiparar a União Soviética economicamente a países capitalistas como Alemanha, Japão e Estados Unidos, Gorbachev descentralizou os controles económicos e encorajou as empresas a autofinanciarem-se.

quinta-feira, 2 de agosto de 2018

Economia de mercado ideologia e a especulação imobiliária a que só alguns querem ter direito

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A direita gosta de designar o Bloco de Esquerda como a esquerda caviar esquecendo-se de que é ela própria é toda caviar e pretende para si o melhor, o caviar “Bloco de Esquerdaluga”, daí não gostar muito de concorrência.


Vivemos numa Economia de mercado, sistema económico em que os agentes económicos (empresas, bancos, prestadoras de serviços, etc.) podem atuar com pouca interferência dos governos. É um sistema típico da economia capitalista e um dos pilares apoiados por economistas que defendem o liberalismo económico e o neoliberalismo cujas principais características são a liberdade para definição de preços de serviços e mercadorias. É a livre concorrência que regula o mercado com relação aos preços de bens e serviços estabelecidos pela interação entre procura e oferta.


Aos políticos exige-se e clama-se por seriedade, credibilidade e coerência ideológica nos atos e nas decisões.  Eles próprios, os políticos, os de esquerda e os de direita, quando lhes interessa, acusam-se uns aos outros de estarem a faltar e a negar os valores que apregoam. Mas será que estes valores estão sempre presentes de facto na prática política?


A incoerência faz parte da política e a sua prática é uma constante nos políticos sejam eles de que quadrante forem. O que dizem hoje negam na próxima oportunidade, buscando argumentos falaciosos sem medida da gravidade e das consequências dessa atitude. Sem pretender generalizar a incoerência, as meias verdades, os erros de juízo, a deturpação de verdades são atributos de muitos políticos independentemente do partido a que se encontrem afiliados.


Pelo meio surgem, com menos frequência, os atos de corrupção de diversos tipos, a fuga aos impostos, entre outros, cuja frequência se verifica no seio de militantes ou simpatizantes da direita ou dos que com ela conluiem. Mas, nas esquerdas, pelo menos nas mais ideologicamente assumidas é raro virem a público.


A questão que podemos colocar é a de saber se a ideologia, a militância, a simpatia partidária e a ocupação de cargos políticos serão incompatíveis e incoerentes com a posse de propriedades e de riqueza, desde que adquiridas por meios legais, desde que ninguém tenha sido prejudicado pela sua aquisição, seguindo o que a legalidade determina.


Há graus de incoerência dependentes do contexto, da intenção e do discurso e, consoante isto, a suposta incoerência ou não existe ou é irrelevante ou, pelo contrário, existindo será que é desgastante para quem a pratica?                                        


Tem andado na comunicação social e nas “bocas” das redes sociais o caso do vereador da Câmara Municipal de Lisboa e da sua propriedade presumivelmente lucrativa. Não sou, nem nunca fui, simpatizante nem eleitor do BE, e muito mesmo da sua ideologia por vezes demasiado radicalizada, mas não é por isso que me colocarei numa posição meramente contra ou dúbia, relativamente a este caso, acompanhando o rebanho dos que acusam, muitos deles infetados pelo vírus da já bem conhecida invejazinha portuguesa e de moralismos hipócritas. Serei talvez uma ovelha tresmalhada desse mesmo rebanho.                                                                                                         


O editorial de José Cabrita Saraiva do jornal i clama e critica Robles porque este se tinha insurgido “via redes sociais, contra a especulação imobiliária… usando os mesmos métodos que tanto criticava”.  Pela lógica, apenas os que não criticam, os de direita, é que podem utilizar os métodos, isto é, o da especulação imobiliária, ficando, por isso isentos de críticas. Mas Saraiva diz ainda que “há algo mais terrível”, sim, leram bem, TERRÍVEL, apenas e porque o vereador é militante da extrema-esquerda.     


José Saraiva exemplifica um caso, que parece mostrar simpatia por radicalismo de sinal contrário, ao buscar o exemplo do assassínio de John Lennon por Mark David Chapman a 8 de dezembro de 1980. Chapman foi o homem que disparou cinco tiros contra Lennon e que justificou o seu ato porque se sentiu desiludido, quando descobriu que Lennon, embora nas suas belas canções falasse sobre um mundo sem propriedade privada, andava num Rolls Royce personalizado e tinha um apartamento na avenida mais cara de Nova Iorque. Está visto que, segundo o editorialista, o assassínio parece ter sido mais do que justificado.


Depois há os outros, os que utilizam o caso para mostrar a sua desforra política sobre a violência verbal de que foram alvo. Está neste grupo Rui Tavares ex-bloco de esquerda que escreveu num artigo de opinião no jornal Público: «investimento especulativo em imobiliário (a não ser que acreditemos que as definições de "especulação” mudaram magicamente para a esquerda depois da notícia ter saído) — e achará que estou a evitar tocar verdadeiramente no assunto. É verdade. Estou a evitar tocar no assunto não por nenhuma das razões do costume, como evitar dar à direita pretextos para atacar alguém de esquerda (o que acaba por dar à direita o pretexto de atacar a esquerda, corretamente, por silenciar um assunto que envolva um dos seus) mas por uma razão mais pessoal: durante anos fui alvo da violência verbal de muita gente no BE que transformava diferendos políticos em ataques de carácter (“ele quer é tacho”, “vai entrar no PS”, “tem lugar prometido”, etc.), gente essa que nos últimos dias tem andado afadigada a inventar que sempre acharam que “especulação” e “incoerência” não inclui o tipo preciso de investimento que o dirigente do seu partido fez, ou de incoerência que ele revelaria, mas ainda inclui todos os outros tipos de investimento com que costumavam atacar (e mal passe a borrasca, querem continuar a atacar) outros adversários políticos, umas vezes bem, outras vezes mal. E, dado o contexto, dou a mim próprio o direito de não dizer tudo o que sinto sobre este tipo de piruetas verbais e políticas…».


Ainda há outros (as), como Rita Silva que vêm agora dar visibilidade à sua pureza ideológica e partidária mostrando o seu radicalismo anti despejos e desacordo com as políticas que apoiam ativamente a especulação e a “mercadorização da habitação”. Ataca agora os especuladores e recusa-se a suceder a Ricardo Robles na Câmara de Lisboa. Todavia, para além da sua intervenção pública de protesto, que mecanismos de engenharia política propõe num sistema de economia de mercado (dito capitalista) para acabar com aquilo a que se opõe?  


Também há aqueles que acreditavam que o Bloco de Esquerda era genuinamente um partido de ideais puros, pelo que se sentem mais magoados e desiludidos. O poder de atração do dinheiro insinua-se por todo o lado, até mesmo no seio dos partidos, até mesmo nos de extrema-esquerda há quem não lhe seja imune. Mas atenção, tomar o particular pelo geral é um perigo de raciocínio. Nem Ricardo Robles é o BE, nem o BE é Ricardo Robles, ele é apenas uma peça do todo.


Sejamos claros: vivemos numa sociedade de modo de produção capitalista, de economia de mercado, de livre concorrência onde se estimula a acumulação de riqueza, a competição em contexto de liberdade individual, cujo objetivo é a obtenção do lucro, por vezes fácil, e outras mais valias. Para eliminar o capitalismo estão os que defendem a estatização de tudo e mais alguma coisa. Estão contra o capital e o investimento privado que, segundo eles, exploram a mão de obra e são geradores de pobreza. É uma visão ideológica de limitada e totalmente em desacordo com a modernidade da conjuntura mundial .


A especulação imobiliária e as negociatas no ramo existem, estão bem à vista, mas quem, sem ser a esquerda, dita radical, se insurge?! A direita não. Assunção Cristas do CDS dá aqui e ali umas pinceladas com visitas populistas e demagógicas aos bairros, onde repete aquilo que todos já sabem. Contudo, o CDS definindo-se como um partido de centro-direita, é afinal um partido da direita extremada. A suas políticas no governo anterior, nada tiveram de democrata-cristão, quando tomou medidas com as quais agora se coloca contra. Cristas foi a promotora duma Lei das rendas e da liberalização do mercado imobiliário o que deu aos senhorios um poder discricionário face aos inquilinos, originando especulação imobiliária, aumentos nas rendas e despejos selváticos de famílias, englobando velhos que sobrevivem com pensões miseráveis. Tentando virar a agulha da bussola, fala agora hipocritamente da tribuna do social.


A lei da suspensão dos despejos de inquilinos com mais de 65 anos, com deficiências ou que estejam a viver na casa há mais de 15 anos até 2019 é agora contestada pelos proprietários dizendo que lhes retira os direitos e que é inconstitucional - não posso deixar de recordar os direitos cortados a outros, os não proprietários, pelo anterior governo. Recorda-se que a lei, que suspende os despejos nas condições anteriormente referidas, passou com a clara votação contra, do PSD e do CDS.  Apesar disto, a direita rejubila e lança para o ar palavras, propagando valores morais fingidos para mostrar que, na extrema-esquerda, também há especulação e corrupção.


As regras que regem a sociedade em que vivemos são extensíveis a todos os cidadãos, independentemente do seu quadrante ideológico. Mas, por outro lado, podemos considerar hipocrisia, ouvir partidos de direita defenderem direitos sociais, apoiar aberturas de lares públicos para os idosos, aumentos salariais, Serviço Nacional de Saúde, e por aí fora.   


Que culpa tem Robles de ser coproprietário de um prédio?! Será que Ricardo Robles e a irmã não poderiam melhorar o prédio, nem alugar para render, nem o podiam vender a compradores que lhe ofereciam um preço para essa compra? É a lei do mercado a funcionar que a direita defende.


A culpabilidade apontada a Ricardo Robles é apenas e só por pertencer ao Bloco de Esquerda.


O caso Robles é mais uma onda em que a direita, com a suas pranchas de surf pouco limpas, vai cavalgando como forma de eleitoralismo na corrida da competição partidária. O CDS com os seus pequeninos 7,4%, que uma sondagem lhe deu em julho, em comparação com os 9,5% do BE, quer ganhar terreno captando para o seu lado, quiçá, os eleitores deste partido indignados com o caso Ricardo Robles. É possível que não tenha essa sorte já que o PCP está alerta e Jerónimo de Sousa já disse que no seu partido isso nunca aconteceria.


Assim sendo, tem cabimento colocar algumas perguntas:


Poderá um capitalista (prefiro empresário) que paga ordenados decentes, oferece regalias sociais aos seus trabalhadores, transaciona propriedades e cumpre todas as suas obrigações fiscais ser acusado por ser de esquerda?!!!


Poderei eu ser acusado, criticado e apontado por atraiçoar a minha ideologia de esquerda radical, se tiver filhos ou netos numa caríssima escola privada?


Poderá um militante de um partido da esquerda, que defenda a escola pública ter os filhos num colégio privado, ou que defenda o Serviço Nacional de Saúde, ir a uma consulta médica privada?


Deverei deixar de exercer os meus direitos de cidadão como político e militante de um partido que não concorde com o sistema em que vive por possuir propriedades ou qualquer negócio rentável?


Não poderá um comunista ser possuidor de uma propriedade privada, que adquiriu ou herdou e que lhe possa vir a trazer mais-valias? E se esse comunista fizer política?


Esta polémica à volta de Ricardo Robles fez-me recordar e recolher uma passagem do Evangelho, neste caso, segundo São Mateus, 19, 16-22, que passo a transcrever:


“Um jovem aproximou-se dele (Jesus Cristo) e disse:


«Mestre, que hei de fazer de bom, para alcançar a vida eterna?».


Jesus respondeu-lhe:


«Se queres entrar na vida eterna cumpre os mandamentos…».


Jesus Cristo enuncia os mandamentos. Disse-lhe o jovem:


«Tenho cumprido tudo isto; que me falta ainda?». Jesus respondeu:


«Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens, dá o dinheiro aos pobres e terás um tesouro no Céu; depois, vem e segue-me.» Ao ouvir isto, o jovem retirou-se contristado, porque possuía muitos bens.


Nas sociedades de consumo e de competição por bens terrenos ninguém quer um qualquer tesouro no Céu em troca dos tesouros na Terra, sejam eles capitalistas ou proletários. É assim que funciona o sistema, quer queiramos, quer não.


Vejamos a circunstância da sobreposição do pragmatismo à ideologia de não deixar que o nosso sistema de crença nos impeça de fazer o que achamos certo. Um dos exemplos pode ser o de um governante fortemente católico que exija a tolerância religiosa, a fim de evitar a agitação social, ou de um ditador comunista que permite a iniciativa privada, a fim de incentivar a inovação e o progresso material. É a chamada incoerência positiva.


Se eu tivesse propriedades que transacionasse para obter ganhos e rendimentos que delas proviessem, deveria, obrigatoriamente, seguir uma ideologia ou pertencer a um partido que defendesse incondicionalmente os interesses de uma economia liberal? Ou, pelo contrário, se fizesse parte de um partido que defendesse o humanismo e os direitos sociais poderia ser acusado de incoerência?


Poderá um capitalista que explore os trabalhadores, que defenda a privatização de tudo o que seja público e lucrativo pertencer a um partido que seja ideologicamente de esquerda?  Aparentemente incoerente e improvável, mas poderia.


Quem quererá ser político num país democrático, de economia de mercado e de livre iniciativa onde partidos de direita, defensores de ideologia liberal ou neoliberal estão contra os que, sendo ideologicamente de esquerda, também são detentores de riqueza e de propriedades, obviamente regidas pelas mesmas normas e regras.


Quem quererá ser político e fazer parte de um partido num país onde defensores da economia de mercado e do capital criticam os políticos de ideologia de esquerda que sejam detentores de capital sob qualquer forma, e que o possam rentabilizar?


Quem quer ser político num país capitalista onde os de direita, exigem aos outros, os da esquerda, a rejeição do pragmatismo duma sociedade capitalista em troca do dogmatismo absoluto da ideologia de esquerda?


Há um ditado popular que diz "Em Roma, sê romano", isto é, no lugar onde estás, faz o que as pessoas fazem e imita a sua cultura. Parece que este ditado não se pode aplicar aos políticos. Ser de esquerda e ao mesmo tempo ser detentor de propriedade privada, de empresas e viver segundo as regras duma economia liberal é incompatível, incoerente e quase uma heresia para a direita.

sexta-feira, 2 de março de 2018

A virtude da direita passou a estar no centro-direita

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A direita PSD e CDS não querem ser de direita, negam que haja qualquer ideologia nas suas opções e colocam-se ambos no centro-direita do leque partidário. Alguns teóricos e militantes do PSD já o fizeram, coube agora a vez do CDS-PP.


A ideologia é um sistema de ideias, valores e princípios que definem uma determinada visão política do mundo, fundamentando e orientando a forma de agir de uma pessoa ou de um grupo social, seja partido ou movimento político, seja grupo religioso ou quaisquer outros.


O princípio que orienta certa direita portuguesa, segundo a voz de alguns dos seus militantes e apoiantes, é que atualmente a ideologia está fora de questão na governação não interessa dentro do partido. Não se pensa em termos ideológicos, mas em termos de realizações e de práticas. Como se, em política, a pragmática estivesse afastada da ideologia! Por mais que neguem existe ideologia de direita assim como há a da esquerda, do centro, seja qual for o arrumo político.


Parece-me ser isto uma iliteracia cultural, muito comum nas últimas décadas no meio de certas juventudes partidárias de direita ou em políticos delas oriundos, para além de ser também uma aberração intelectual que vai até contra o senso-comum. A ideologia é intemporal, sempre existiu e não há o exercício da política sem ideologia. As religiões têm as suas específicas ideologias de ordem teológica.


Todavia, para a direita, interessa que este tipo de mensagem passe. Há uma estratégia que vai no sentido de evitar o pensamento e a reflexão ideológicos para afastar qualquer comparação entre os conteúdos programáticos ou medidas políticas tomadas pelos partidos que não sejam apenas “pragmática”.


Fazer política sem uma base ideológica baseada apenas no pragmatismo que desemboque numa espécie de era pós-ideológica parece-me impossível. A prática e o exercício da política são direcionados para as pessoas e para as nações e afetam as suas vivências sociais e pessoais que, por si só, têm já uma carga socioideológica devido a diferentes visões do mundo. A negação da ideologia não é mais do que uma inadequação desta atitude às necessidades sociais pela prática política.


A atual negação da ideologia pelos partidos de direita relaciona-se com um preconceito porque era um conceito considerado marxista no século XIX.  Este preconceito é devido à ignorância cultural dos jovens políticos de direita e está fora do racional porque tudo o que falamos, pensamos e fazemos está marcado por um conjunto de ideias produzidas ou não por cada um de nós. Ainda que sejamos meros reprodutores de reflexões alheias, ainda aí, no âmbito do senso comum, está presente um conjunto de pensamentos que tomamos por verdades especialmente em política.


A negação da ideologia pelos partidos de direita não é mais do que uma pressuposta imposição hegemónica dum outro tipo de ideologia, não manifesta e insidiosa, porque não oculta, como única forma de pensamento possível e de valores tomados como absolutos que parte de um imutável senso-comum. É uma não-ideologia mistificada pela lógica da estabilidade política associada a uma democracia sem densidade onde dominaria o poder financeiro. Sabemos bem onde esta falta de ideologia nos poderá levar.


Assim, a direita ao mesmo tempo que pretende desvalorizar o conceito e se identifica politicamente com a área liberal está, por inclusão, a defender uma ideologia, a sua. A ideologia está em toda a parte, não vale a pena escondê-la porque mais tarde ou mais cedos ela revela-se.


Antes do congresso do congresso do PSD em novembro de 2017 discutiam-se opções ideológicas do partido e Santana Lopes falou em “liberalismo” e procurou fugir aos rótulos ideológicos. Pediu um partido que respeitasse a sua “identidade” e o seu “programa”, mas, sobretudo, “próximo das pessoas”, (confira-se com a posição de Assunção Cristas na sua moção ao congresso do CDS), houve até quem afirmasse que “O PSD é um partido catch-all. Tem vários setores”.


O CDS está a preparar o congresso para março e também, à semelhança do PSD, o CDS pretende esconder a ideologia da sua matriz inicial e substituí-la por outra o exemplo é a moção de estratégia de Assunção Cristas ao próximo congresso que situa o CDS-PP como um partido do centro-direita omitindo a sua matriz democrata-cristã.


Também a questão ideológica é rejeitada por Assunção Cristas apesar de constar na moção da líder recandidata que contrasta com outras moções globais e rejeita a acusação e assume a opção de não carregar a moção com ideologia e a preferência pelo pragmatismo argumentando que essa explicitação doutrinária já consta da sua moção ao congresso de 2016. Mas no partido há quem assuma a posição ideológica e defenda como Lino Ramos, ex-secretário-geral, que defende que “este é seguramente o momento de afirmar o CDS, de regressar às suas origens e de afirmar a democracia-cristã”. Está então aqui a assunção ideológica essencial para as políticas que defende.


A direita PSD e CDS vêm de momento desvantagem assumirem-se como partidos de direita querendo mostrar-se ao eleitorado como sendo de centro-direita.  A moção de estratégia global de Assunção Cristas ao congresso coloca o CDS-PP como uma força de “centro-direita”, mas é omissa quanto à matriz democrata-cristã do partido. Isto é, nega que haja uma questão ideológica e, ao mesmo tempo, pretende redirecionar o partido no sentido do centro-direita. Mas afinal o que é isto senão uma tomada de posição ideológica.

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Ser de direita ou ser de esquerda: há vida para além do confronto

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A direita e a esquerda são duas atitudes ideológicas de estar na política e de a praticar quer na forma quer nos procedimentos. No que se refere ao Estado Social, à economia e às finanças a direita e a esquerda posicionam-se em campos diferentes. Entre direita e esquerda a visão sobre alguns destes campos é diferente, noutros são idênticos nos objetivos, mas seguem cada um pelo seu caminho.


Antes de avançar que convém esclarecer a evidência de que, quer na direita, quer na esquerda situam-se espetros diferentes, uns com ideologias mais radicais, outros ainda com vias mais moderadas que muitos incluem no domínio dos centros: centro-esquerda ou centro-direita.


Nunca houve uma única esquerda nem uma única direita, mas várias. Os extremismos de direita e de esquerda são os filhos irreverentes, ou melhor, os filhos rebeldes, os que não são bem aceites em cada uma das duas famílias.


Para os radicais de esquerda o capitalismo é um mau sistema, para a esquerda moderada é uma forma de organização económica compatível com o Estado Social. O socialismo democrático e parlamentar e a “verdadeira” social-democracia aceitam o capitalismo e a democracia parlamentar, mas exigem que os recursos sejam distribuídos com mais equidade olhando também para os setores mais desfavorecidos.


A direita reclama o direito de ter sido a inventora da liberdade no seu sentido restrito da organização económica e afirma a sua incompatibilidade com o Estado Social que se deve situar apenas no assistencial. Certa direita entende por liberdade o direito a enriquecer. Entre a esquerda e a direita há por vezes uma confusão para o conceito de liberdade. Mário Soares defendeu logo após o 25 de abril a democracia e socialismo em liberdade para estabelecer uma linha divisória inultrapassável entre o socialismo democrático e parlamentar e o comunismo do PCP ditado pela ditadura da classe operária e de outras forças da extrema-esquerda e assim continua.


Com o neoliberalismo dos anos oitenta nos EUA com Thatcher e no Reino Unido com Reagan foi institucionalizada a guerra à assistência e, conforme tem sido demonstrado por vários economistas como Stiglitz (O Preço da Desigualdade) e Piketty (O Capital do século XXI), os americanos e os ingleses das classes médias ficaram mais pobres e os ricos ainda mais ricos.


O papel central das esquerdas, (cada uma  por vias diferentes), é o de incluir nos seus programas o papel central a redução das desigualdades sociais. Contudo, durante os últimos quarenta anos, a esquerda democrática foi perdendo a capacidade de criticar a direita, não se percebendo bem porquê, dando-lhe a primazia do controle ideológico.


A direita quando está no poder apenas acredita no mercado e afirma que os pobres apenas existem porque não querem trabalhar. Lembram-se da frase, “se vires um homem com fome não lhe dês um peixe, ensina-o a pescar?”. É o pensamento de alguma direita. Os governantes que exaltam a ganância como valor supremo estão a minar a coesão das sociedades.


No âmbito da direita são cada vez mais os que denunciam o Estado Social argumentando que este serve mais os funcionários nele integrados (os preguiçosos dos funcionários públicos) do que os utentes, e têm como objetivo deixar a cargo da caridade privada tudo o que seja de apoio social para onde, a prazo, alguma classe média seria também lançada.


A esquerda traça o retrato da direita como sectária, preconceituosa, inculta e atrasada movida pela ambição do lucro, insensível e relegando para segundo plano as preocupações o social.  


A direita, por seu lado, faz o retrato da esquerda como sendo clientelar em sentido lato, despesista, inepta a governar, isto é, acha-se única e com competência para governar. Como se a direita não fosse também clientelar.


Para a direita a esquerda é o pior dos mundos porque parasita o Estado para a partir dele distribuir lugares, subsídios à conta dos contribuintes. Ora o que temos visto ao longo dos anos de democracia são os escândalos da direita que, quando descobertos, são abafados, omitidos, esquecidos ou pouco divulgados pela comunicação social.


Para ambas, estes pontos de vista são extremados e ultrapassam o racional situando-se no campo emocional.


Devido aos atentados terroristas a esquerda, nos países com problemas, teve que tomar medidas de controle e vigilâncias devido à ameaça real aos valores da democracia que normalmente são do âmbito da direita e que apelidava de fascizantes.


A direita quando critica a esquerda apaga do seu rol as crises financeiras e económicas que possibilitou e até facilitou. Refiro-me à direita global que fez abalar a confiança no sistema liberal e neoliberal e na sua capacidade de autorregulação dos chamados mercados e falhas de supervisão, não sabemos se voluntárias ou por incompetência. A direita esquece os sucessivos escândalos financeiros que têm provado que, num sistema liberal ou neoliberal, o capitalismo sem controle não tem nada de virtuoso. Nem todos os chamados capitalistas se enquadram no perfil de virtuosidade que muitos ideólogos dizem por aí.


A esquerda democrática, ou socialismo democrático, é favorável à convivência entre o Estado e o mercados/empresas e empresários e é defensor da UE e da moeda única. A chamada centro-esquerda e o centro-direita têm vindo a diluir-se cada vez mais, como se verificou por exemplo em Portugal pela deriva da social-democracia para o neoliberalismo verificado na última década deixando o papel que era atribuído para os socialistas.


A direita fala do seu pragmatismo, coisa que as esquerdas, as da extrema, pretenderam sempre contrariar, mas assumem hoje em dia que já não são como no passado uma alternativa ao sistema passando a querer integrá-lo. O mesmo se passa com a direita e as suas extremas com a nuance de que estas querem de facto passar a tomar conta do poder vendo para tal entreabertas as portas através nas eleições, graças ao populismo, como se tem vindo a verificar por essa Europa.


A bandeira das novas extremas-esquerdas deixou de ser a revolução para a tomada do poder, mas a defesa intransigente do Estado Social e a “luta”, dos direitos dos trabalhadores e contra o neoliberalismo.


Os defensores da direita agarram-se ao argumento baseado em que, antes da crise, havia desigualdade entre rico e pobres, mas havia salários aceitáveis(?) e empregos certos. Argumento este falacioso para a manutenção dum status quo que lhes interessa: a política da manutenção de salários baixos e uma mão de obra obediente que aceite qualquer trabalho passando uma mensagem na ótica do medo do desemprego, isto é, mais vale ganhar mal e ter trabalho certo do que não o ter.


Curiosamente, o modelo da esquerda radical, inspirado pelo maio de 68, a esquerda dos intelectuais foi o que permitiu a reconstrução da Europa no pós-guerra. Era os tempos do Chanceler Adenauer na Alemanha e do tempo do trinta anos gloriosos em França,   período de crescimento forte e contínuo que deu ao país o seu lugar como grande potência industrial e, à época, quase de pleno emprego, foi o da criação do Estado Social. Na Inglaterra surgia o Relatório Beveridge, o “Report on Social  Insurance and Allied Services” conhecido como Plano Beveridge (em1942), cujo mérito foi o de ser o precursor de um plano político concreto, com propostas de reformas sociais abrangentes e universalistas (Welfare State). Assim, foi capaz de implantar um avançado regime de proteção social obtendo ampla aceitação com repercussão na aplicação prática.


O modelo económico da esquerda radical, na altura e naqueles países, era baseado no consumo e no investimento privado, na segurança no emprego, no Estado Social e numa democracia representativa.


A direita, para obtenção, de votos tende a recorrer a formas de populismo inconsequentes que se aproximam das da extrema-direita, esta, por seu lado, através das suas promessas, capta à direita moderada eleitores insatisfeitos com o sistema.


Face ao cenário do que se tem passado na Europa, não será de depreciar que, a direita liberal, para manter a sua sobrevivência, evitar a sua queda lenta, mas contínua, e subir nas sondagens nas intenções de voto, ceda à pressão e à tentação dos extremos procurando cobrir áreas mais radicais do tipo popularucho e nos domínios casuísticos que sabem explorando os domínios emocionais das populações.


A radicalização dos discursos à direita ou à esquerda ou às esquerdas radicais terá sempre efeitos perturbadores que apenas as descredibiliza e mina a confiança de todos os cidadãos.

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Um regresso ao passado através de Salazar

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Acabei de ler o este livro que foi o resultado de uma tese de doutoramento de Moisés de Lemos Martins em 1990. Esta é uma 2ª edição lançada em dezembro de 2016.


Escrita por um sociólogo que não se poupou a linguagens técnicas do discurso filosófico e sociológico torna-se, especialmente na primeira parte do livro, de leitura difícil para o comum dos cidadãos que não possua uma formação académica numa daquelas áreas.


O livro é uma análise de conteúdo do ponto de vista semiológica e interpretativo da política salazarista através dos seus discursos que o autor várias vezes cita. Os discursos de Salazar desde 1928 foram construídos para uma política redutora da sociedade portuguesa que necessitava duma regenerescência concretizada através duma construção minimalista da nação pelo somatório das células familiares que ele considerava ser essencial para o controle e manutenção da ordem social, mas que era redutor no seu conjunto e apenas como corpo da nação.


Os sistemas partidários destroem as nações são os fabricantes da mentira comparado com verdade do regime. A ordem militar prevenia a desordem civil. A nação era um corpo cujos órgãos necessitavam de regeneração e consequente de normalização.


Dizia Salazar num dos seus discursos “O lar desagrega este, separa os membros da família, torna-os um pouco estranhos uns dos outros”.  E noutro ainda “A União Nacional vincula os indivíduos a uma disciplina que previne os efeitos da divisão irracional do espaço nacional, da exploração das paixões dos indivíduos, da sua concentração doentia (espirito de grupo, de partidos, etc.)”.


Para o autor era a tecnologia da obediência, para Salazar a disciplina ética que prevenia a fragmentação nacional instaurada pela violência dos partidos. Ora, os órgãos da nação doente necessitavam de uma reordenação disciplinar através dum conjunto de táticas que combatessem a fragmentação e a irracionalidade da pátria. Mais adiante o discurso salazarista afirma implicitamente que pretende prevenir a revolução social, a luta de classes, a associação revolucionária, quer dizer, «a força ao serviço da desordem», a disciplina ética impõe o «espírito corporativo» a todos os interesses materiais e morais da nação.


Uma leitura acrítica da mensagem salazarista pode levar alguns a saudosismos ideológicos da filosofia política de Salazar que ainda andam por aí.


Enfim um livro difícil, mas interessante.

quarta-feira, 13 de abril de 2016

O ideólogo, a mobilidade social, e a sociedade sem classes

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Para quem escreve Paulo Rangel do PSD? Para quem, do povo, menos iletrado, o leia e não percebe patavina. É um discurso hermético apenas para alguns eleitos a quem provavelmente se dirige.


A sua retórica é a de alguém que procura exibir um conhecimento intelectual levando leitores a desistir da sua maçadora prosa. Eu, cá por mim, não me considerando, de todo, um desses eleitos e iluminados a quem os seus textos parecem dirigir-se lá vou tentando fazer um esforço para o ler e compreender.  


O último artigo desse supremo intelectual e ideólogo da política neoliberal por onde enveredou o PSD é um caso paradigmático do que acabo dizer. Na amálgama de conceitos sócio-político-filosófico-partidários o leitor desprevenido, e, como escrevi em parágrafo anterior, sem a formação adequada perde-se pelos diversos e complexos conceitos da política do partidarismo e da sociologia sem tirar conclusão plausível, mantendo-se em explicações e argumentos já cansativos que volvem sempre ao passado onde não se vislumbra qualquer projeto para o futuro, ainda que o seu líder tenha utilizado no último congresso o chavão “Social-democracia sempre”.


Paulo Rangel, desde qualificar o PSD como partido que não é de massas mas um “partido de eleitores” de “abertura” e de “adaptabilidade” do seu “leque ideológico” lá vai dizendo que os “eleitores e militantes não são atraídos por um programa” e devem ser os “produtores de um programa que os atrai”. Se bem se percebe aos eleitores e simpatizantes do PSD não interessa uma ideologia, um programa, um projeto, são eles que o irão construir ao votar no desconhecido.   


Mas vejamos esta complexa e ambígua frase que caracteriza o seu discurso: “Os eleitores e militantes não são o propriamente atraídos por um programa; eles foram e são – e, questão decisiva no futuro, devem novamente ser - os produtores de um programa que os atrai. Dito de um modo mais apelativo: no PSD, os simpatizantes e os militantes não veem um programa, eles revêem-se no programa - porque o programa é pela própria elasticidade genética ou constitucional (constitutiva) do partido, de algum modo, um reflexo ou uma refracção da afinidade sociológica da sua composição.”


Tudo isto para dizer que simpatizantes e militantes revêm-se no programa do PSD. Eles não veem um programa, reveem-se nele – diz ele. Fantástico!


Atenção, isto não fica assim, porque vai deambular para a sociologia eleitoral caracterizando a base de apoio do partido afirmando que, ao contrário do que escreveu anteriormente, não se pode “enganosamente” caracterizar o partido “como um partido de classe” (classe média, de feição pequena e médio burguesa ou de pequena e média propriedade rural e de uma boa parte das profissões liberais ou com formação universitária…) e que, se assim fosse, agora recorrendo a Marx, afasta o PSD desse cálice. Nada disso porque, a ser assim, o PSD seria uma instituição encarregada de politicamente zelar e velar por esse agregado de interesses e valores.


Basta olhar para as estatísticas eleitorais ao longo dos anos e para trabalhos estatísticos no âmbito da geografia eleitoral como por exemplo “Comportamento eleitoral e o voto através de indicadores regionais nas eleições de outubro de 2015: Uma análise geográfica do voto” que mostra que é precisamente nas regiões onde esses eleitores, de feição pequena e médio burguesa ou de pequena e média propriedade rural e camponeses de parcos recurso como ele diz, se concentra em maior massa o eleitorado do PSD.


Mas lá vai argumentando Rangel que, “Sem nunca desdenhar da pertinência duma análise social e até da categoria “marxiana” da classe social – análise, em todo o caso, sempre parcelar, relativa e redutora – não é esse o traço que aqui se pretende realçar. Por mais dialética que se reclame, uma análise de classe seria, hoje e irremediavelmente, uma análise estática, conservadora, imobilizadora.”. Essa categoria “marxiana” (neologismo inventado pelo super intelecto ideólogo do partido) não é mais do que um contrassenso.


Rangel vê em Marx o imobilismo? Se assim for, então qual a finalidade ideológica da contínua luta de classes que Marx preconizava senão a de potenciar, através da luta permanente, (do meu ponto de vista, hoje em dia, essa apologia da luta de classes é destrutiva e injustificada da forma como partido mas radicais a propõem), em que uma classe ascende a outra sem olhar a meios para tingir os fins, em direção a uma sociedade sem classes, essa sim conduzindo ao imobilismo? Sem que Rangel se aperceba o imobilismo talvez esteja mesmo no PSD com Passos Coelho na liderança. Mais ainda, esse tal eleitorado do PSD tem-se mostrado ao longo do tempo com uma instabilidade eleitoral conjuntural.


Poderíamos continuar por este caminho, mas o título do artigo de opinião de Paulo Rangel publicado no jornal Público de 12 do corrente diz tudo: “Mobilidade social: um desígnio para o PSD pós-troika (2)” que pode resumir-se, segundo as suas próprias e demagógicas palavras proclamadas no último congresso do PSD, a que “o partido deve fazer da mobilidade social a sua “grande bandeira para os próximos anos” e considerou que está na hora de Portugal deixar de ser “o país dos doutores” e “virar a página na estratificação social e na estrutura elitista e aristocrática da sociedade portuguesa”.


Não tenho a certeza se Rangel, licenciado em Direito pela Universidade Católica, sabe o significado do conceito sociológico de mobilidade social, algo complexo que, lançado para o ar, pode levar à confusão. Mobilidade social entendendo-a como sendo movimento de indivíduos entre diferentes posições sociais. Este mesmo conceito divide-se ainda em mobilidade vertical e mobilidade horizontal. A qual delas se refere Rangel? Será à mobilidade vertical definida como movimento ascendente ou descendente na hierarquia de posição num sistema de estratificação social? Ou refere-se à mobilidade horizontal que é o movimento físico de indivíduos ou grupos entre regiões.


Estranhamente, e se bem percebi, Rangel, com esta frase, mais parece um esquerdista radical da altura do 25 de Abril. Tece uma viragem populista do partido que nos últimos anos ficou virado para si mesmo, que foi, e é elitista, afirma agora que tem que se combater a estratificação social e a estrutura elitista e aristocrática da sociedade portuguesa, e fora com o doutorismo. Paulo Rangel mais parece um revolucionário marxista ressuscitado que defende levar Portugal no sentido da sociedade sem classe. Aonde chega o desplanto!


Afinal, quem és tu PSD?


 

quarta-feira, 6 de abril de 2016

Abandono da social-democracia pelo PSD já!

Hoje resolvi incluir aqui um e-mail que escrevi a João Miguel Tavares sobre o artigo de opinião que escreveu no jornal Públicohttps://www.publico.pt/politica/noticia/o-tempo-corre-a-favor-de-passos-1728040 relativo ao passado Congresso do PSD que tem a ver, segundo ele, com a a ultrapassada social-democracia. Posso colocar a questão das seguintes formas: social-democracia eis a questão ou, abandono da social-democracia pelo PSD já!


Boa tarde Caro  João Miguel Tavares,


Duvido que o tempo corra a favor de Passos, mas não é por isso que lhe vou fazer perder o seu.


 


Li com muita atenção o artigo de opinião publicado no jornal Público de 5 do corrente. Raramente os leio e quando o faço também raramente concordo consigo, digo isto percepcionando que isso também não lhe faz diferença alguma.


Independentemente da concordância ou não com os seus pontos de vista eles apresentam, não raras vezes, um explícito cariz de facciosismo. Não tome isto como ofensa é apenas um ponto de vista político e não pessoal.


Mas voltemos ao seu artigo. Face ao argumentário apresentado não seria despiciendo que apresentasse sugestões nos seus artigos para que o PSD – Partido Social Democrata abandonasse esta designação e fosse substituída por uma outra em que as palavras social, democracia e social-democracia deixassem de vigorar no programa já que afirma explicitamente: “Só que essa definição de social-democracia vai invariavelmente desembocar num modelo de sociedade estatista, alumiado pela eterna lamparina de São Bento, que se mostra esgotado há 20 ano. São aqueles que gostavam que o PSD fosse um bocadinho mais parecido com o PS.”. Será que deveremos concluir que, quem como eu, atribui a Passos Coelho o epíteto de liberal ou neoliberal têm razão? Senão, que outra designação se poderia atribuir ao partido que ele lidera?


Algo não bate certo. Tendo em conta as críticas que faz no seu artigo a quem não concorda com o atual líder do partido por defenderem, como diz, a ultrapassada social-democracia, como explicar então a frase “Social-democracia sempre” como slogan do congresso que Passos Coelho aceitou e recuperou? A honestidade de propor a mudança da sigla e denominação do partido evitaria confundir potenciais eleitores de estarem a ser enganados, como eu o fui em 2012, por uma sigla partidária a que está mais ou menos associada a uma ideologia política.


Claro que poderá sempre dizer-se que essas siglas e atributos são apenas chavões utilizados pelos partidos mas que propriamente não os define. Todavia, quem vota tem o direito de ser esclarecido sobre o partido em que pretende votar. É uma escolha que se traduz num programa de qualquer partido que apresente quer orientações de direita, quer de esquerda, quer de assim-assim. Se não houver orientações para opções de escolha a democracia não será mais do que palavreado para enganar. Então fora com a social-democracia do Partido Social Democrata.


 


Com os meus melhores cumprimentos,


 


Manuel Rodrigues

domingo, 27 de dezembro de 2015

Estratégia de fuga e trapalhada a continuação

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A mentira, a omissão, o engano, a falsidade e a adulteração de factos continua a ser a postura do ex-primeiro-ministro Passos Coelho e do seu grupo parlamentar, agora na oposição.


Passos Coelho ainda não despiu o fato de chefe de governo e a mesma máquina de marketing de propaganda continua ativa. Eventos "fabricados" para continuar a propalação da sua imagem, como se ainda fosse chefe de governo, para preparar atempadamente a sua candidatura a líder duma ala neoliberal que se infiltrou no PSD que, agora, oportunisticamente, defende princípios da social-democracia.


O CDS-PP, numa tentativa para a demarcação do seu anterior parceiro, votou contra um orçamento retificativo devido aos acontecimentos do BANIF que foram provocados pelo governo onde Paulo Portas foi vice primeiro-ministro. Caso estranho, já que o orçamento de 2015 foi da autoria do governo da coligação PSD.CDS-PP, sendo portanto da sua responsabilidade a necessidade urgente dum orçamento retificativo.


É sabido que a comunicação social, especificamente a televisão, pode condicionar muitas atitudes, mas daí acusarem a TVI pelo problema do Banif por ter colocado em roda pé a desvalorização das ações do Banif ser a causadora da derrocada do banco é o cúmulo do descaramento. SE não fosse grave seria para contar como anedota. À falta de melhor o disparate passou a ser o argumento do PSD e do CDS-PP.


O CDS-PP ao votar contra o orçamento retificativo pretendeu mostrar para o exterior que se demarcava do seu anterior parceiro de coligação e que nada teve a ver com o facto. Mais uma exibição para a opinião pública duma manobra de ilusionismo do ilusionista e acrobata Paulo Portas. Seria também interessante para a opinião pública dizer que solução apresentaria, nas mesmas circunstâncias para o BANIF e como o faria incluir no orçamento que é seu e do seu parceiro do PSD.


O retardar das decisões sobre o BANIF, a trapalhada e a confusão com que o governo anterior foi construindo e gerindo um processo que adiou soluções com as desculpas que em gíria popular se chamariam de esfarrapadas, pode levar a que se levantem legítimas suspeitas sobre o que estaria por detrás de todo o caso, e de como pensariam Passos e Portas resolver o problema.


Muitos outros buracos poderão aparecer e a propaganda dos cofres cheios será desmontada.


O aproveitamento de divergência normais entre partidos mais à esquerda do PS, PCP, PEV e BE, serão aproveitadas e escalpelizadas até ao milímetro pelos agora na oposição Passos Coelho e Paulo Portas mas, se a direita espera que este Governo do PS em funções seja deposto com o apoio dos votos parlamentares daqueles partidos bem pode esperar sentada porque irá cansar as pernas de tanto correr. É esta espectativa que também lhes provoca rubor nas faces quando intervêm com desvairo no parlamento.


Quanto ao Presidente Cavaco Silva, que anda por aí fazendo afirmações sem nexo e inúteis, como aquela de que a "governação ideológica” acaba sempre por ser “derrotada pela realidade” para este "sábio" do disparate é a ideologia versus pragmatismo, como se a política fosse, de todo ou em parte desligada da ideologia e esta da economia. É no mínimo risível e serve apenas para demonstração de prova de vida pelo que já nem vale a pena comentar. Camilo Lourenço disse em tempos que a história no ensino não serve para nada… Cavaco deve ser um adepto desta douta ideia.


 

domingo, 16 de fevereiro de 2014

Concursos televisivos, ignorância e os bodes expiatórios do costume


No Jornal Expresso de 01 de fevereiro passado foi publicado um artigo de opinião do editor da Gradiva Publicações, Dr. Guilherme Valente, denominado "A formação de professores e a capital do Camboja" onde criticava as conceções educativas adotadas em Portugal e punha em causa as escolas superiores de educação. Isto, porque ficou escandalizado com a ignorância de muitos dos concorrentes, e com razão, do concurso "Quem quer ser milionário" que tem passado na RTP1. Não resisti a comentar um artigo de 555 palavras com cerca de 2500, pois o assunto é de tal modo complexo que não nos podemos limitar a dar umas dicas mais ou menos ideológicas conforme o que achamos ou devemos achar sem quaisquer fundamentos credíveis.


Tenho que dar razão ao autor do artigo e fico atónito com a manifestação da ignorância revelada por parte de alguns concorrentes, por mim já constatada, nas respostas que dão no referido concurso.


As respostas ou melhor comentários dos concorrentes exemplificados no artigo não me espantam. Através de uma análise mais cuidada pode verificar-se que são uma fuga e uma forma de tentar fazer humor, embora triste, com a própria e manifesta ignorância. Inferir que tudo isto é uma consequência dos modelos construtivistas, sim, porque há vários, e das escolas superiores de educação a quem cabe a responsabilidade da formação de professores parece mais uma espécie de rancor despido de qualquer racionalidade. Talvez haja quem prefira que sejam advogados, engenheiros e outros sem qualquer formação pedagógica e didática a dar aulas a crianças.


Ao relacionar a causa das respostas e afirmações disparatadas dados por concorrentes de concursos televisivos com determinado modelo educativo põe, do meu ponto de vista, em causa a credibilidade do autor no que respeita à educação. Aliás, desconheço quaisquer investigações científicas efetuadas e publicadas pelo autor do comentário sobre temas educativos reconhecidos nacional e internacionalmente.


Do meu ponto de vista, o que é grave, é a imputação e responsabilização da ignorância dos concorrentes a um concurso televisivo atribuídos à “inspiração dos gurus que geraram” e que alguns "impuseram por cegueira", que conduziram devido à recorrência a uma espécie de "perturbação sináptica e memética que perdurará".


O tema educação no que respeita aos modelos e conceções pedagógicos e educativos adequados para a nossa população escolar não tem sido objeto de debate público a não ser em círculos especializados. Nestes últimos três anos o que se tem visto são, por um lado, as sucessivas tentativas de reduzir os recursos à escola pública e, por outro, o retirar verbas dos nossos impostos para os atribuir às escolas privadas, mesmo àquelas onde existe oferta pública mais do que suficiente. Todavia nada se sabe sobre propostas educativas concretas do atual ministro para um projeto educativo para o país. Destrói-se o que existe e pronto!


Tornar a escola pública obsoleta e à míngua de meios é o objetivo que vai ao encontro do que alguns chamam destruição da escola pública. Medidas que vão agravar ainda mais o problema que dizem existir.


Há uma revolução em curso, no sentido negativo, apoiada por iluminados e defensores de uma escola idêntica à dos 41 anos da ditadura no que se refere a programas e conceções de ensino-aprendizagem.


Fala-se da alteração dos programas e dos currículos, da exigência, dos exames como condição última da aprendizagem e da qualidade e tecem-se críticas, não fundamentadas, às escolas superiores de educação. Fala-se de mais do ensino e muito pouco de aprendizagem. O ensino tomado como mera transmissão de conhecimentos é o fim em vista. Nada se esclarece claramente sobre qual deve ser o projeto em quem deve assentar o nosso sistema educativo.


Conheci um diretor de uma escola superior que chegava a afirmar que as ciências da educação não passavam de uma moda sem interesse e que, aos futuros professores, cabia apenas a missão de ensinar a ler, a escrever e a contar. Parece ser este, felizmente apenas para muito poucos, o ponto de vista dos tempos que correm. 


Como licenciado em filosofia, seria suposto o Dr. Guilherme Valente ter um espírito aberto, embora crítico, não imbuído de um hermetismo científico obsoleto onde a ideologia se sobrepõe. Podemos aceitar, ou não, certas teorias, modelos ou conceções educativas e, com todo o direito, proferir críticas fundamentadas e colocá-las à discussão para as validar à luz de metodologias apropriadas, que não propriamente programas de entretenimento televisivo que em nada validam ou invalidam teorias e investigações científicas. Não vem agora a propósito mas o exemplo dos resultados do último PISA poderia invalidar a tese do Dr. Guilherme Valente.


Tendo tirado uma pós-graduação na Universidade Aberta, segundo penso, o Dr. Guilherme Valente deveria saber que o modelo construtivista é o adotado por aquela universidade. Assim, posso ser levado a concluir que o artigo nada mais é do que uma publicidade barata a uma determinada edição da Gradiva Publicações, sem querer colocar em causa as muito boas obras que esta editora publica e o contributo dado para cultura nacional.


Afinal acabo por não compreender e o defeito é sem dúvida meu, qual é ou quais são as propostas e conceções educativas que apresenta em substituição das tais “conceções educativas construtivistas impostas na escola há mais de 30 anos” a que se refere. Depreende-se do texto publicado uma visão ideológica tolhida por um conservadorismo retrógrado e passadista que não se adequa a uma escola dita de massas como é a do ensino obrigatório que não existia no passado.


A comparação com as experiências de Summerhill que penso eu nada têm a ver com as conceções educativas e didáticas atualmente praticadas é uma representação falsa e demagógica da realidade. Fiquei a saber, ignorância minha, que a experiência restrita de Summerhill era praticada em Portugal durante a ditadura e que continuou a sê-lo após o seu derrube porque, segundo afirma o autor, “Começa a revelar-se agora o que estas conceções educativas podem produzir quando impostas durante tanto tempo à totalidade das escolas de um país inteiro. Quarenta anos de ditadura com outros tantos de ‘eduquês` em cima” e isto tudo se conclui de um simples programa de divertimento televisivo.


Pelo que se depreende, parece que o modelo educativo passadista que nos era imposto e na base do qual estudámos, baseado apenas na memorização sem reflexão, na aceitação sem discussão, na absorção de ideias entorpecidas que nos transmitiam numa ótica de magister dixit para serem debitando de seguida numa folha de papel de exame também não eram os mais adequado.


Se as conceções educativas do passado não servem, e as praticadas no presente também não, não se compreende onde se pretende chegar. Se os quarenta e um anos de ditadura e os mais de trinta do tal “eduquês” a que o autor se refere não serviram, nem servem, e ambos são nocivos resta saber então qual é o modelo ou conceção a adotar.


O argumento da excelência sem uma base para a sua criação e surgindo do nada serve para tudo. Cabe perguntar onde está a excelência dos políticos e dos técnicos que falam sobre os temas da educação que nada propõem ou adiantam e apenas destroem. Pode estar neles a salvação da educação.


O que está em crise na educação é a autoridade democrática e a dignidade do professor que têm sido postos em causa pelos sucessivos governos, e ainda mais por este, que levaram os jovens a não os respeitar devido às políticas dos sucessivos pelouros educativos e que o atual tem agravado.


Quaisquer que sejam as conceções educativas, pedagógicas e as didáticas praticadas, se nada for feito naquele sentido bem podem continuar a chover críticas ao sistema. Não basta alterar programas e substituir palavras como competência e objetivo por metas para que algo resulte. A questão essencial é muito mais profunda. Porém, em contraposição há um claro movimento na educação que pretende repensar o papel da autoridade democrática do professor mudando algumas regras nas formas da relação educativa.


O autor afirma ainda que as conceções educativas praticadas não informaram nem ensinaram a pensar. Ora essa! Então não é o que propõe o modelo construtivistas que, ao contrário da absorção acrítica de conhecimentos, pretende que o aluno aprenda a pensar com base na resolução de problemas? Mais uma vez devo estar com problemas de compreensão porque achava que não é a mera transmissão de conhecimentos e a memorização mecânica que ensinam a pensar. Associam-se conceções educativas com facilitismo. A exigência, o rigor e a avaliação e estes devem ser os atributos de qualquer conceção.


Ensinar não é apenas transmitir conhecimento como alguns pretendem. O modelo que perfilham no fundo é que os alunos sejam apenas um reservatório acrítico dos conhecimentos transmitidos pelos professores que deverão ser debitados em exame típicos não aferido às respetivas idades mentais e cronológicas e que negam à partida os patamares de aprendizagem que diferem os indivíduos. Como se todos fossem iguais e aprendêssemos ao mesmo ritmo, tal e qual entra o porco numa fábrica e sai o chouriço. Aí muitos acabarão por ficar no caminho e pelo abandono escolar. Para resolução deste problema há solução proposta por outras áreas ideológicas, tal como seja acabar com o ensino obrigatório.


Quanto às escolas superiores de educação acho que informaram mal o Dr. Valente porque revela total desconhecimento do que se passa nestas escolas superiores quando escreve que são as “conceções educativas, cultivadas nos cursos de formação de docentes, que esses novos professores transportam para o básico e o secundário, cujos alunos, por sua vez assim formatados, entram e se profissionalizam depois naqueles mesmos cursos”. A minha compreensão ou talvez ignorância estão mais uma vez presentes porque pensava eu que o construtivismo e a aprendizagem baseada na resolução de problemas não formatava os alunos, bem pelo contrário, estimulavam à reflexão e à compreensão. Estava na escuridão e agora fez-se luz ao ler o artigo.


Talvez as propostas não explícitas do Dr. Valente sejam as conceções centradas no ensino e não na aprendizagem que defendem em geral a centralidade do papel do professor e a ênfase na transmissão dos conhecimentos.


O artigo coloca questões sem resposta, uma delas é modo como o construtivismo coloca em causa a abstração e as ciências puras pergunto? O exemplo do princípio de Arquimedes que o autor evoca não servirá com certeza os seus intuitos e pode ser facilmente desmontado já que, da forma como o coloca, somos levados a pensar que se defende uma ótica do conhecer e papaguear os princípios e não na compreensão dos seus fundamentos, traduzidos em fórmulas matemáticas aplicadas à física. O construtivismo neste caso pode ser mais eficaz e um complemento à memorização. Quando se mostrar a um aluno que ao colocar determinado objeto num recipiente com um líquido ele flutua e, de seguida, lhe perguntarmos porquê ele poderá colocar várias hipóteses e construir uma teoria sobre o que acabou de observar. As hipóteses serão então comprovadas ou não posteriormente com a ajuda do professor que ajudará à abstração e generalização através da representação e demonstração matemática do fenómeno.


Isto não é mais do que a metodologia das ciências. Será que o aluno, nestas circunstâncias não utilizará as necessárias ferramentas cognitivas que já possui e não memorizará de modo mais fácil e duradouro?


No meu modesto entendimento o currículo e as estratégias pedagógicas e didáticas que melhor preparam os alunos para serem trabalhadores produtivos e cidadão do futuro não é a de "enchê-los" com teorias e factos do presente que rapidamente ficarão desatualizados, mas as que irão mostrar-lhes como aprender autonomamente para se atualizarem e de como utilizarem a informação que adquirirem. Para tal os alunos precisam de:


 



  • Aprender uma base de conhecimentos essenciais – informação essencial.

  • Ter capacidade para utilizar eficazmente os conhecimentos em situações-problema dentro e fora da escola – compreensão.

  • Ter a capacidade de alargar ou aperfeiçoar esse conhecimento, desenvolvimento estratégias para lidar com problemas no futuro – uso do conhecimento ativo.

  • Ter capacidade de transferência, isto é, quando entre a situação de aprendizagem e a situação de aplicação há elementos comuns.


 


Há estudos que demonstram que os alunos se esforçam mais por compreender e recordar quando conseguem ver relações entre a matéria que estudam e as próprias vivências. Que professor já não se confrontou com a pergunta de alunos que o questionam sobre a necessidade de estudar um assunto ou que utilidade terá para eles. A pergunta recorrente mesmo em universidades é para que é que isto serve? Esta resposta pode ser-lhes fornecida pela aprendizagem baseada em problemas. Claro que tentar responder à questão com tudo o que é prático pode ser falacioso porque rejeita à partida tudo quanto seja do domínio da teorização e abstração. É necessário o bom senso para não se cair no facilitismos, mas isso depende de técnicas e competências a adquirir pelos professores durante a sua formação pedagógica e didática.


Princípios ideológicos estão visivelmente patentes nas atitudes anti construtivismo. Compreende-se, porque muitos dos que se lhe opõem foram educados, tal como eu, no antigo regime de ditadura tempo em que pensar e refletir sobre o mundo era coisa a evitar. Nas universidades os alunos não podiam sair fora do que o professor dizia nas aulas e nas famigeradas sebentas sem o que seria certa a reprovação.


Se alinharmos por uma lógica de que o modelo que enxameou o ensino há mais de trinta anos não contribuiu para a qualidade e a excelência e trouxe consequências nefastas, podemos então demonstrá-lo através das competências de alguns dos atuais jovens governantes, assessores e outros, que aprendendo segundo as tais conceções que são postas em causa. Neste caso poderemos estar então de acordo, porque os resultados têm estado á vista.


O que está em causa é, afinal, a menorização da escola pública. Não tenho nada contra as escolas privadas pois foi nelas que fiz o meu percurso educativo no tempo em que os dinheiros do Estado não eram desperdiçados em benesses para as clientelas do ensino privado fossem elas laicas ou religiosas. O esclarecimento cabal para as atuais distribuições de erário público pelo ensino privado nunca nos foi explicado.


Penso que os defensores do regime neoliberal deveriam considerar as escolas privadas como qualquer outra empresa e sujeitarem-se à concorrência e às leis da oferta e da procura, competindo com as suas congéneres e as de oferta pública, deixando o Estado de lhes prestar assistência financeira excluindo, claro está, as zonas onde não existe este oferta. O princípio não é o de melhor Estado, menos Estado, para poupar o erário público? O problema é que há sempre dois pesos e duas medidas.


Um dos argumentos que é apresentado é que sai mais barato subsidiar o privado do que manter escolas públicas. Algo está errado, ou fazem mal as contas ou o ministério da educação é composto por uma série de incompetentes que não sabem como fazer a rentabilização das escolas que lhe pertencem.


Não vale a pena continuar quando a cegueira evidenciada tem como pano de fundo apenas questões ideológicas. Mas quem sou eu para comentar um comentador com tal craveira intelectual?