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sexta-feira, 22 de março de 2024

A propósito das eleições na Rússia e do tempo de Estaline

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O resultado das eleições na Federação Russa não foram novidade para Putin, era previsível, dado o défice democrático daquele país. O resultado eleitoral 87% obtido sem oposição credível que o conduzem ao 5º mandato não poderia ser outro. Foi e é assim que nos regimes totalitários e autocráticos onde a forma de governo está nas mãos de um governante que detém controle absoluto e poder de decisão em todos os assuntos de Estado e sobre todo o povo do país. Para tal, só com a simulação de eleições livres se prolonga o poder. Foi assim na ex-União Soviética, é a gora assim na Rússia, foi assim em Portugal no tempo de Salazar e Caetano, é assim em Cuba e noutros países como a Coreia do Norte onde o “chefe máximo” é nomeado e ou herdado como se fosse uma monarquia. Após a morte do fundador da União Soviética, Vladimir Lenin, José Estaline governou o país de forma autocrática e ditatorial.


A atual Federação Russa é uma república federal semipresidencialista e gerida por uma oligarquia. O presidente Vladimir Putin vai cumprir o seu quinto mandato como presidente da Rússia. Apesar de em anos anteriores ter feito repetidas promessas de deixar o cargo em 2024, quando o seu limite de mandato fosse atingido, Putin encabeçou no país o projeto para em 2020 fazer uma alteração constitucional que lhe permitiria permanecer no poder até 2036.


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Dizer que Vladimir Putin é um ditador é assunto que pode levantar várias questões ideológicas. Mas, de qualquer modo, num regime em que se diz haver democracia liberal no sentido de sistema partidário de liberdade política, económica, religiosa etc., não se prendem ou matam opositores, não se retira a liberdade de expressão, não se publica na imprensa e se diz nas televisões a visão única, não se reestruturam governos para se deter poder duradouro, não se detém numa única pessoa a autoridade executiva, nem o poder judicial e legislativo, nem é possível mudar a legislação para se adequar à agenda de um único poder. E não me venham dizer que isto é propaganda anti russa dos EUA e do ocidente. Basta consultar os órgãos de comunicação do próprio país através da net e ler e ouvir os discursos de Putin para o interior do país (há traduções).


 Podemos presumir que o resultado da eleição terá sido previamente decidido e que Putin seria “obrigatoriamente eleito” com a maior percentagem de sempre e com a mais baixa abstenção verificada até ao momento. Pode mesmo dizer-se, sem garantia, que terá avisado todas as autoridades do país aos vários níveis, do oriente mais longínquo da Rússia até às fronteiras com o ocidente, de ele teria de ser feito com limites máximos e mínimos e que teria de ser assim.


As eleições da Rússia e a invasão da Ucrânia fizeram-me pensar sobre as semelhanças entre o Presidente Vladimir Putin e José Estaline. Não tinha e ainda não tenho a certeza sobre tais semelhanças. No entanto, recorrendo a documentos históricos a semelhança entre eles em alguns aspetos parece ser por demais evidente. Assim é inevitável deixarmos de associar o regime de Putin ao de Estaline. Dizem alguns que são épocas diferentes e com contextos diferentes. É certo, mas, ainda assim, este ponto de vista leva-nos a recordar o passado e há alguns paralelos que podem ser traçados. Vejamos então alguns pontos de aproximação entre eles.  


Um aspeto muito importante é o da religião e das crenças do povo.  A religião e a igreja é usada para abençoar as campanhas militares, e, no atual regime de Putin, motivos religiosos, culturais e históricos combinam-se com motivos políticos, não é por acaso que Vladimir Putin tem uma associação significativa com a Igreja Ortodoxa Russa. Há um apoio mútuo entre Putin e a Igreja Ortodoxa Russa em que a Igreja confere legitimidade espiritual ao regime de Putin, enquanto Putin apoia a influência da Igreja na sociedade. Por outro lado, o patriarca Kirill, chefe da Igreja Ortodoxa Russa, é visto como um aliado próximo de Putin e tem sido um destacado defensor das políticas de Putin, incluindo a a legitimação da invasão da Ucrânia.


Se consultarmos documentos históricos sobre a governação de Estaline notaremos algumas semelhanças. Aliás, o próprio Putin está a fazer uma reescrita da história e uma lavagem da época estalinistas, porque, segundo ele, é tudo um exagero e uma invenção dos inimigos da Rússia.


Parece ser atributo de ambos a substituição de generais e comandantes que não conseguem fornecer aos militares o que eles precisam em homens e material, em nome do sacrifício pela pátria e a honra bem maior do povo russo. Recentemente, a 19 de março, foi anunciada mais uma substituição que o Presidente Putin efetuou de entre várias mudanças nos principais comandos das Forças Armadas desde que lançou a invasão militar na Ucrânia.


Antes da visita de Putin a Volgogrado para comemorar o aniversário da vitória na Segunda Guerra Mundial foi colocado um busto de Estaline para ser inaugurado. Putin não se coíbe de em entrevistas como a que deu em 2017 em que criticou a “excessiva demonização” de Estaline promovida pelo Ocidente, e que a estratégia é usada “como um meio de atacar a União Soviética e a Rússia”.


Ambos os líderes são conhecidos pelos seus esforços para centralizar o poder. Estaline criou um Estado totalitário de partido único, enquanto Putin criou organização vertical de poder, isto é, uma estrutura governativa em que existem papéis muito específicos de cima para baixo. A liderança encontra-se no topo e, à medida que se desce, a autonomia e o poder de decisão diminuem.


Quanto às políticas interna e externa também podemos encontrar algumas semelhanças. Putin também envenenou ou prendeu opositores e transformou a principal fonte de divisas da Rússia - a indústria do petróleo - numa ferramenta de política de Estado. A repressão de Putin à dissidência lembra repressão brutal da era soviética e Putin, tal como Estaline, são conhecidos pela sua repressão a opositores políticos.


Também como Estaline, Putin convenceu grande parte do povo que “o mundo está todo contra a Rússia”. Nas suas retóricas políticas Putin também faz apelo ao nacionalismo russo e à expansão e recorre ao elogio do império russo. Em ambos há uma forma semelhante na abordagem das suas políticas internas e externas. A de Estaline consistia em construir o socialismo no país e reduzir o tamanho do império alemão, a política externa de Putin tem sido a de conter o “domínio” ocidental e conseguir novos parceiros importantes para o futuro.


A chamada reeducação dos cidadãos quando eram dissidentes da política oficial foi também exercida. O regime de Putin, nas atuais circunstâncias da invasão sa Ucrânia, também tem o mesmo procedimento, pois retira crianças das suas famílais e dios seu páis enviando-as para lares russos para passarem, segundo dizem porta vozes do regime, por um processo de reeducação.  


Contudo, estas semelhanças são relativas porque é importante notar que, apesar destas semelhanças, também há diferenças significativas. O regime de Estaline foi marcado pela repressão em massa, expurgos e um regime de terror, que é bem diferente na Rússia de Putin. Além disso, a Rússia de Putin faz parte da economia global e das instituições internacionais duma forma que o difere da União Soviética de Estaline. A explicação da diferença talvez seja devida a que na altura de Estaline estava-se na terceira fase da globalização que abrange o final da Segunda Guerra Mundial, em 1945 estendendo-se até ao final da Guerra Fria e à queda do Muro de Berlim em 1989. Um dos principais acontecimentos dessa fase determinante para a atual fase da globalização foi a “terceira revolução industrial” responsável pelas inovações tecnológicas e científicas que surgiram a partir da década de 1970 e que são características do meio técnico-científico-informacional atual. Atualmente contribuem para a estratégia militar e da guerra cibernética entre países e regimes.


Em conclusão, embora existam alguns paralelos entre as políticas de Putin e de Estaline, elas são produtos de seus respetivos tempos e têm diferenças significativas. Também vale a pena notar que a interpretação das suas políticas pode variar, e esta é uma comparação simplificada.


Enfim, sobre as eleições na Rússia, Vladimir Putin terá organizado uma outra espécie de operação especial para mostrar aos russos, (e à parte do mundo que ainda está, ou diz estar, com ele), que o seu poder é absoluto. Vladimir Putin é um “czar” que faz acreditar ao povo russo que está a travar uma guerra defensiva porque está a ser atacado pela NATO, pelo EUA e pelo ocidente os que lhe estão a impor com a pretensão para mostrar ao mundo que o povo o apoia esmagadoramente, isto para quem quiser acreditar.

sexta-feira, 1 de setembro de 2023

Educação no atual regime da Federação Russa, reescrita da história e o controle dos meios de informação e comunicação

Educação no atual regime da Federação Russa, reescrita da história e o controle dos meios de informação  e comunicação


Ainda resta na Rússia oposição a Putin?


 


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O que aqui escrevo não são invenções mais ou menos ao sabor da corrente das redes sociais nem das emoções que sempre acompanham a política. São opiniões é certo, mas também são pontos de vista baseados e fundamentados por factos cuja origem das fontes não omito, sejam elas do ocidente, sejam da própria Federação Russa.


Do meu ponto de vista a Rússia é um grande país e em vez de ter optado por mergulhar no passado como parece estará a fazer o seu líder, o Presidente Vladimir Putin, poderia ser um grande aleado da Europa após o desmantelamento do que restava da URSS o que poderia trazer-lhe vantagens económicas sem perder a sua importância geopolítica. Mas o seu objetivo é, à semelhança de Trump quando era Presidente do EUA, o de tentar dividir e desestabilizar a União Europeia e o Mundo sem até à data o conseguir.


Putin assim não pensou, prefere o antagonismo com o ocidente que de forma esquizofrénica vê como um inimigo que pretende invadir a Rússia. Pretende construir uma ideologia onde domina uma espécie de “neo-guerra fria”. Para poder controlar as potenciais consequências da invasão da Ucrânia utiliza mecanismos de controlo social que lhe sirvam para obter uma sociedade sem qualquer tipo de comportamento oposicionista que, para ele possa ser considerado desviante. Para tal, cria sanções para quem tenda a desobedecer a normas e regras por ele estabelecidas eliminando até adversários.


Passaram cinco dias desde que a agência de notícias estatal russa RIA Novosti informou que um avião particular onde viajava o chefe do Grupo Wagner, Yevgeny Prigozhin, explodira. Terão passado dois meses entre a tentativa de golpe de Prigozhin com a marcha a Moscovo e a explosão do avião onde seguia.


No mundo alucinado das redes sociais surgiram as mais diversas especulações e teorias da conspiração, como é habitual nas mais variadas circunstâncias. Acidentes com figuras que se opõem a Vladimir Putin, ou que já não lhe são gratos tem sido recorrente. O real esclarecimento deste caso ficará em aberto até um dia. Sabemos como os ditadores são prolíficos naquele tipo de ações. Tivemos também em Portugal, no tempo da ditadura de Salazar, casos de morte de adversários políticos que se opunham ao ditador.


Tem sido recorrente no mundo das redes sociais e noutros canais de comunicação alguns alucinados grosseiros e agressivos chamarem, “rebanho” ou “manada”, a quem segue padrões da mais normal convivência e que são ordeiramente discordantes, por não aceitarem as suas razões imbuídas de falsas racionalidades e não seguirem as suas aberrantes e deturpadas ideias. Esquecem-se esses de que, nesses contextos, são eles as “ovelhas ronhosas” do rebanho a que pertencem. Diz-se erradamente “ranhosa” por confusão com “ronhosa”, isto é, que tem ronha, uma doença, uma espécie de sarna que os ataca.


Estão naquele grupo incluídos os negacionistas anómalos e, também, os que por agora nos interessa, os apoiantes da invasão da Rússia governada pelo regime autoritário e ademocrático de Vladimir Putin e da sua entourage selvática que utiliza a propaganda, vigilância em massa e doutrinação para manter o controle político e ideológico.


São as ovelhas ronhosas que defendem, justificam e desculpam os objetivos de Vladimir Putin para a “operação especial” /guerra/invasão e destruição da Ucrânia que não é mais do que uma ação de terrorismo, embora ele acuse outros de serem eles a praticá-lo.


Passou-se do facto à fantasia e à mentira cometida pelos que escrevem, cometam e dizem estar a informar-nos e que acham estar na posse da verdade absoluta que não é mais do que mentira manifestada como verdade; e há os que os leem, ouvem, acreditam e absorvem como esponjas propagando depois as mentiras que julgam ser a verdade.


Alguns querem mostrar que são cientes do que dizem e gostam que lhes aprovem (com “likes”) as suas diatribes contra os que, dizem eles, são os responsáveis pelos acontecimentos e pelas circunstâncias, o ocidente,  ainda que os factos revelem o contrário. Não fomos nós que fizemos, foram eles, não fomos nós que atacámos foram eles, os terroristas são eles não somos nós. Podemos exemplificar com o passado, por exemplo, a causa da guerra (II Guerra) não foram eles, os nazis, a causa foram os judeus.


Os panegíricos à dita “operação especial”, com narrativas justificativas e surripiadas a ditadores próprios de outras realidades servem os seus intentos. Esta gente é tão imprudente que pensa que nos impingem falsidades e argumentos rebuscados para nos conduzirem para o lado da sua manada, através de discursos retirados a outros que já os fizeram no passado. São os novos simpatizantes de autocracias totalitárias, da violência estalinista que se intitulam democratas, mas que apoiam invasões, genocídios e destruidores de um povo, quais “hitlers” do século XXI.


Recorrendo à agressão militar contra a Ucrânia, a Rússia violou normas e princípios fundamentais do direito internacional, bem como a Carta das Nações Unidas e a Ata Final de Helsínquia (1975). Também violou uma série de acordos bilaterais e multilaterais, incluindo o Memorando de Budapeste sobre Garantias de Segurança relacionadas com a adesão da Ucrânia ao Tratado de Não Proliferação de armas nucleares (1994); Acordo de Amizade, Cooperação e Parceria entre a Ucrânia e a Federação Russa (1997); Acordo entre a Ucrânia e a Federação Russa sobre a fronteira entre a Ucrânia e a Rússia (2003) e muitos outros. A ocupação temporária russa da República Autónoma da Crimeia e da cidade de Sebastopol, bem como certos territórios das regiões de Donetsk e Luhansk, enquadram-se diretamente na definição de agressão de acordo com os parágrafos а), b), c), d), e) e g) Art.3 do Anexo da Resolução da Assembleia Geral da ONU "Definição de Agressão" (3314 (XXIX)).


Sobre os propósitos agressivos subjacentes à agressão russa basta rever as intervenções do antigo primeiro-ministro da Rússia Dmitry Medvedev‎ e os selváticos apelos que faz, sem esquecer os do chefe da igreja ortodoxa russa Kirin e de Dugin um dos inspiradores filosóficos de Putin, assim como o de Vladislav Surkov, o ideólogo principal do Kremlin até fevereiro de 2020, vindo a ficar depois em prisão domiciliária. Pode ver desenvolvimento aqui ou aqui.


Enquanto se discutia a ajuda para a Ucrânia se defender dos ataques e bombardeamentos por ordem do Kremelin Medvedev‎ afirmava que «Na base da NATO em Ramstein (Alemanha, abril de 2023) os grandes líderes discutem novas táticas e estratégicas, assim como o abastecimento à Ucrânia de novas armas e sistemas de ataque. Isto acontece depois do Fórum de Davos onde foliões “atrasados mentais” repetiram como um mantra: “para se conseguir a paz, a Rússia deve perder”».


A 30 de julho de 2023 escrevia Dmitry Medvedev no Twitter que «se a contraofensiva contra a invasão em curso da Ucrânia por Moscovo capturar o território russo, não haverá alternativa ao uso de armas nucleares estratégicas» oque pode ler aqui. É bom recordarmos que nenhum dos territórios da Ucrânia que a Rússia ocupou/anexou é reconhecido internacionalmente como separado da Ucrânia ou fazendo parte da Federação Russa, incluindo a Crimeia.


Em janeiro de 2023 Dmitry Medvedev, ex-Presidente russo, alertava e mostrava-se contra o envio de mais armamento à Ucrânia e chamava “foliões”, “atrasados mentais” e “miseráveis” a líderes dos países ocidentais. Escreveu em publicações no Telegram que “a nenhum desses miseráveis lhes ocorre retirar uma conclusão elementar: a derrota de uma potência nuclear numa guerra convencional pode provocar uma guerra nuclear”.


Não se ficando por aqui, em março de 2023 na sua conta pessoal do Telegram, Medvedev ameaçou disparar o “míssil hipersónico” Oniks desde o Mar do Norte contra o edifício que funciona como sede do Tribunal Penal Internacional, na cidade holandesa de Haia e, a 30 de julho de 2023 não se intimidou ao dizer que usaria o arsenal nuclear da Rússia para ameaçar a Ucrânia e os seus apoiantes ocidentais. Mais recentemente, durante o golpe fracassado do chefe da Wagner, Yevgeny Prigozhin, Medvedev disse que a rebelião poderia levar a uma guerra nuclear.


Ao escrever-se e interpretar Putin e a invasão da Ucrânia a partir dos seus discursos e declarações públicas, temos de imaginar tanto o que ele vê (pensa) assim como o que julga ver e distinguirmos ainda o que ele pretende que os outros vejam, quer dentro, quer fora da Rússia. Mais difícil ainda é tentar ver o que está a conceber, a recordar, quais as suas representações, o que lhe poderá estará a ser contado, e, ainda, a parte que cabe à sua fantasia de autocrata. A partir destas premissas poderemos fazer uma análise procedente das suas palavras nos seus discursos e intervenções, alguns mais ou menos ficcionados, para “venda” ao povo russo e ao Mundo. Só assim poderemos chegar ao significado das expressões verbais que utiliza nas suas das narrativas.


Um primeiro passo para conseguir verificar/analisar, pela leitura, os discursos de Vladimir Putin. Lemos, por exemplo, uma parte e poderemos ser levados a ver o que ele diz como se desenrolasse perante os nossos olhos ou, pelo menos fragmentos ou pormenores do que se passa no seu pensamento individual que diz também ser o do coletivo, isto é, do povo, que dele emergem. Podemos então formar um conjunto de analogias e de contradições conceptuais que nos podem levar à intenção de dar um sentido e uma lógica (normalmente, para nós, sem sentido) ao desenvolvimento da narrativa discursiva de Putin.


A fantasia de nacionalismo extremado é criada nos povos por governantes hipócritas e mentirosos e é escolhida tendo em vista a finalidade de serem as mais favoráveis e agradáveis que o povo quer ouvir. Isto é, criam-se no povo “imagens” previamente fabricadas através da informação em massa disseminada e controlada pelo poder para sedução do povo e que mostrem, evocando, ser essa a “vontade do povo”.


Para compreender muitas das circunstâncias que podem levar a uma aceitação do poder que fala em nome do povo é necessário que se tenha uma compreensão mais profunda da psicologia do povo russo, o que não temos. Mas é sempre possível obtê-la através da sua história social. Para quem está de fora torna-se difícil compreender o povo russo, a não ser através das narrativas dos seus governantes, dos documentos escritos e dos poucos órgãos de informação independentes estes, mesmo assim, sob controle.


Da revolução bolchevique até à segunda década do século XXI os russos têm vivido sob ditaduras e autocracias sem nunca terem chegado a viver numa verdadeira democracia liberal à semelhança do ocidente. Manteve-se uma expectativa com a “Perestroika” que poderia resultar numa aproximação com a Europa, mas que se foi perdendo. A existência de eleições não significa em circunstâncias mais ou menos totalitárias que haja escolha livre e democrática, pois o poder pode arranjar estratégias para controlar um qualquer deslise que fazer perigar e possa vir a substituir o regime instalado.


Tanto quanto se sabe pela informação que nos chega através dos media ocidentais e pela consulta dos órgãos de comunicação social russos a maioria do povo vive numa espécie de universo paralelo (ou único) de informação e é-lhe ocultada a guerra na Ucrânia (a que chamam operação especial!?) da mesma forma tal como a observamos no Ocidente. Para os russos foi-lhes imposta a ideia de que a (operação especial) invasão da Ucrânia pela Rússia é:



  1. uma operação militar fácil e limitada tendo em vista a libertação do “grato povo ucraniano dos nazis, e com poucas baixas entre os militares e o povo ucraniano”.

  2. O grande causador de todos os males é o Ocidente, isto porque lhes é induzida a compreensão do mundo em que “existe um Ocidente hostil que está obcecado em humilhar e enfraquecer a Rússia".

  3. Que o ocidente pretende invadir a Rússia.


Passou a ser difícil ao povo na Rússia “entender o que é verdade e o que é falso, ou quem está certo e quem está errado”.


Assim, para os objetivos de Putin havia que criar, tal como se criou na Alemanha nazi em relação aos judeus, a imagem de um inimigo. Esta atitude é instigada pelo poder tendo segundo estudos efetuados que consideram que pode


“ser considerada inerente à natureza humana, uma característica biologicamente determinada da psicologia social e um meio universal de mobilização de multidões, especialmente em situações de crise”.


 (Mental bases of modern Russian society socio-political development; Yuriy D. Korobkov, Svetlana S. Velikanova, Irina V. Samarokova, Natalia V. Kozhushkova, Alexey Ivanov, Oksana P. Chernykh; Opción, Año 34, Nr. Especial 15 (2018): pp. 625-640).


Com a comunicação possibilitada pelas redes sociais e outros meios eletrónicos com alegações das alíneas anterior torna-se fácil a mobilização por via de notícias falsas. Passou a viver-se na era da viralidade mediática que contamina todos que a recebem um vírus por falta de ‘vacina’ que deveria passar pela análise critica e a confirmação da veracidade do que se lê, vê e ouve.


Segundo o Diário de Notícias que teve acesso à conferência "Pode a História da Rússia explicar o contexto para o entendimento da invasão da Ucrânia ou a guerra representa outro fenómeno?" organizada pelo Clube de Imprensa de Viena Concordia, o historiador russo Serguei Medvedev (nada tem a ver com Dmitry Medvedev, ex-primeiro ministro da Rússia), afirmou que «É preciso que o mundo, os países da NATO e da União Europeia percebam que estamos perante a Terceira Guerra Mundial e que a Ucrânia não é um conflito regional nas franjas da Europa porque o que está em jogo é o futuro da Europa e o futuro do Mundo. Considerou que a Ucrânia é ‘apenas um passo’ para Vladimir Putin desencadear a Terceira Guerra Mundial». «Está em jogo o futuro do Mundo. Temos de acabar o trabalho, porque 1945 é um trabalho incompleto. Na época havia duas ditaduras totalitárias (nazi e soviética) e só uma foi derrotada (Alemanha nazi) e a outra sobreviveu. Agora ressuscitou na forma tradicional.  O "mundo" tem de derrotar a segunda ditadura, referindo-se à Rússia». «Só depois podemos ter confiança em relação ao futuro», sublinhou.


Na minha perspetiva esta é uma posição demasiado pessimista, belicista e que retira espaço a quaisquer negociações de paz


Todavia, é do conhecimento geral que Vladimir Putin, tomando como modelo outros ditadores do século passado (entre outros Estaline e Hitler) insiste levar a Rússia para o totalitarismo de um e o totalitarismo bélico de outro.   


Para concretização de tais desígnios é necessário o controle da informação que são evidentes com o encerramento e a censura do que restava dos órgãos de comunicação independentes agravado com a criminalização de qualquer discurso diferente do oficial sobre a guerra. Para tal, em 4 de abril de 2022, o parlamento russo aprovou uma lei que torna a distribuição do que considerem ser "fake news" sobre a guerra. Neste caso para o Kremelin o que é verdade são "fake news". Isto é, quem publicar alguma coisa diferente da posição do Kremlin passa a ser punível até 15 anos de prisão como, por exemplo, dar nomes de guerra à guerra, sendo obrigados a usar o termo "operação militar especial" para se referir ao que acontece na Ucrânia.


As afirmações que se seguem foram feitas na Duma do Estado da Assembleia Federal da Federação Russa pelo presidente da Duma Vyacheslav Volodin que pode ver AQUI.


«Gostaria que todos entendessem – e a sociedade entende – que estamos a fazer isto para proteger os nossos soldados, oficiais, para proteger a verdade». Lembrou também que se a Rússia não tivesse lançado um exército especial numa operação de manutenção da paz, «uma guerra desencadeada pela OTAN começaria no território de Ucrânia em primeiro lugar, na linha de contato com a RPD - República Popular de Donetsk e LPR - República Popular de Lugansk o que, segundo Vyacheslav Volodin, implicaria milhões de vítimas e ajuda humanitária.»


Note-se que quer a RPD, quer a LPD apenas foram reconhecidas por três Estados membros da ONU até agora, Rússia, Síria e Coreia do Norte. Desaforo não lhes falta para mentalizarem e convencerem o povo russo das falsas verdades que eles criam.


Ainda de acordo com as alterações e segundo os proponentes da ação censória «a divulgação pública sob o pretexto de relatórios fiáveis informações conscientemente falsas e contendo dados sobre o uso das Forças Armadas da Federação Russa e a fim de proteger interesses da Federação Russa e dos seus cidadãos, mantendo a paz e a segurança internacionais, serão punidos com uma multa de 700 mil a 1,5 milhão de rublos». A prisão de até três anos também é possível.


Repare-se no argumento falacioso, entre outros, para justificação do diploma: “para proteger os cidadãos… mantendo a paz e a segurança internacionais”.


Veja-se ainda a menção de que


«Se a violação da lei foi praticada com o uso de posição oficial, por motivos de ódio político, ideológico, racial, nacional ou religioso ou por ódio ou inimizade contra qualquer grupo social, então a pena de prisão pode ser de até 10 anos. Os atos acima referidos, se tiverem acarretado graves consequências, será punível com pena de prisão de 10 a 15 anos».


Putin parece pretender construir uma espécie de “neoestalinismo” para voltar a fazer voltar a Rússia e o povo ao passado da ditadura que vigorou no tempo da URSS. Tal pode ser justificado porque, em 2017, as autoridades russas passaram a interferir e a insistir cada vez mais num discurso histórico, influenciado pela visão do Kremlin, segundo o qual, depois de ter sido abalada pela crise derivada do colapso da União Soviética, a Rússia deve ser novamente transformada num “grande Estado”.


Neste contexto parece estar em execução a lavagem dos crimes de Estaline. Num artigo da DW- Deutsche Welle, emissora internacional da Alemanha e um dos meios de comunicação internacionais mais conceituados, em 2017 afirmava: «o Kremlin defende que livros promovam a imagem de Estaline como patriota e modernizador».


As pesquisas efetuadas trouxeram-nos a confirmação de que as autoridades russas classificam de “prejudicial à saúde de crianças” um livro didático cujo autor, Andrei Suslov, professor de História na Universidade de Pedagogia e Ciências Humanas em Perm na Rússia,  em2017 numa entrevista à DW disse que «escreveu o livro didático em 2015 junto com uma colega e que a obra teria sido editada pela organização russa sem fins lucrativos pelo Centro de Educação Política e Direitos Humanos», e que inclui temas sobre campanha violenta contra opositores nos tempos do líder soviético Estaline. As autoridades russas consideraram então que Aulas de História que tenham como tema críticas ao “Grande Expurgo”, a repressão violenta a opositores na era estalinista, são nocivas e classificam a obra de consulta como “prejudicial à saúde das crianças”.


O movimento ativista do “sut vremeni” (Essência do Tempo), movimento estalinista, provocou um alvoroço de protestos contra o livro didático, com o envio de cartas às autoridades. Pavel Guryanov, do comité local do movimento Sut Vremeni salientou que saúda a decisão da entidade reguladora russa dizendo que «O trabalho do Centro de Educação Política e Direitos Humanos em tais métodos de ensino é somente uma desculpa para as lavagens cerebrais políticas e ideológicas nas crianças em Perm, que ocorre em interesse dos patrocinadores estrangeiros dessa organização». Parece que, para aquele movimento estalinista, relatar factos históricos verídicos são lavagens cerebrais ao contrário da sua omissão-


O ensino da história sobre a era estalinista está na mira do governo russo tendo em vista a recuperação da imagem de Estaline. Parece claro que há fundamentação ideológica nesta pretensão quando o governo defende que livros didáticos promovam uma “educação patriótica” no sentido entendido pelo Kremlin.


Em 2007, o presidente Vladimir Putin mandou imprimir um livro de história em que Estaline, secretário-geral do Partido Comunista da União Soviética de 1922 a 1953, é descrito como «o mais bem-sucedido líder soviético de todos os tempos». Em 2015 no jornal online Insider, edição russa escrevia-se que «em qualquer livraria você encontrará armários inteiros com livros recém-publicados elogiando Putin, Estaline e expondo a conspiração do mundo nos bastidores».


Em 19 de julho de 2023 saiu na imprensa russa que a História que iria passar a constar nos manuais para o 11º ano seria reescrita e que no novo livro ensina-se que «A Ucrânia é um Estado neonazi» e que «A Rússia é um país de heróis». É por este manual que os alunos do ensino correspondente ao nosso secundário começarão a estudar a partir de setembro do corrente ano. É o livro único onde os autores destacam a era posterior a 1945 podendo ler-se na introdução que «O desenvolvimento progressivo da economia, combinado com as conquistas da ciência e da tecnologia nas décadas de 1950 e 1970, fez do nosso país uma das duas potências mais influentes do mundo.


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A União Soviética atingiu patamares sem precedentes: abriu caminho para o espaço para a humanidade, alcançou conquistas impressionantes no desenvolvimento da ciência, da medicina e da educação». Isto é, nos novos livros didáticos sobre a história da Rússia, secções dos anos 1970, 1980, 1990 e 2000 foram completamente revistas e reescritas como afirmou Medinsky, assistente do presidente da Federação Russa e um dos autores dos livros didáticos.


 


Não se ficando por aqui a Rússia preparou este novo livro de história com uma secção sobre o que Putin chama a ‘operação especial’ o que foi confirmado em abril pelo ministro da Educação russo, Sergei Kravtsov, quando afirmou que «foi preparado um novo livro de história com seções sobre uma operação militar especial para o 11º ano».


A agência de notícias TASS que organizou em 7 de agosto do corrente uma conferência de imprensa dedicada ao lançamento do novo livro didático unificado sobre história geral e história da Rússia referiu que o ministro da educação enfatizou que «Hoje estamos a construir um sistema único de ensino soberano. Nesse sentido, o tema da história é fundamental.


Vladimir Putin, disse repetidamente que a memória histórica não deve ser distorcida porque «Devemos fazer tudo para que os filhos de hoje e em geral todos os nossos cidadãos se orgulhem de serem herdeiros, netos, bisnetos dos vencedores. Conhecemos os heróis do nosso país e da nossa família para que todos entendessem que isso faz parte da nossa vida.»


Os autores do novo livro didático afirmaram que o facto de o novo livro de história ser muito diferente daqueles que foram ensinados anteriormente na escola. Um dos autores, Vladimir Medinsky, ao apresentar o manual, anunciou que o livro "reescreveu radicalmente" a seção sobre a história da Rússia desde os anos 70.


O novo livro didático de história, é complementado não apenas com informações sobre a "Operação Militar Especial", mas também mostra a história da segunda metade do século XX de uma maneira diferente. Desde as primeiras páginas, transmite as opiniões que Vladimir Putin já havia declarado publicamente repetidamente: «Em primeiro lugar, deve-se reconhecer que o colapso da União Soviética foi a maior catástrofe geopolítica do século», escreve-se no início do livro didático.


Segundo o canal de televisão da Rússia RBC, Putin chamou à "demonização excessiva" de Estaline um ataque à Rússia


Parece que o Kremelin está a querer voltar ao passado da ex-URSS e às características dos regimes totalitários, tempo em que eram feitas nas escolas ‘lavagens cerebrais’ às crianças e jovens, (por questões politico-ideológicas), através dos conteúdos, isto, de acordo com investigações efetuadas, e sem desrespeito para com a excelente serviço prestado pela educação pública na época.


A rescrita da história de acordo com os interesses dos regimes é deturpadora de factos e enaltece apenas o passado que lhes interessa. É o que parece estar a acontecer com a reabilitação do estalinismo, época que mostra ser da simpatia de Putin, apesar dele ter afirmado em 2017 que: «É claro que algo provavelmente permanece na mente, mas isso não significa que devemos esquecer todos os horrores do estalinismo associados aos campos de concentração e à destruição de milhões de nossos compatriotas». Segundo o mesmo órgão de comunicação russo e de acordo com uma pesquisa social realizada pelo Centro Levada em janeiro de 2017, a aprovação de Estaline entre os russos atingiu um recorde histórico em 16 anos. Se em março de 2016, 37% dos cidadãos russos o tratavam com "admiração", "respeito" e "simpatia", em 2017 era já de 46%.


No entanto há ainda alguns órgãos de comunicação que mostram pontos vista mais críticos sobre a forma como factos históricos são reescritos com uma visão unilateral da realidade omitindo e deturpando factos, tais como os Estados Unidos interferirem na Rússia e que o colapso da URSS foi um desastre. O que ficou provado é o contrário, a Rússia interferiu nas eleições de 2016 quando Trump concorreu para a Casa Branca.


As reformas nas narrativas históricas impostas pelo regime de Putin não são de agora já vêm de anos anteriores. Em 2017 Estaline é retratado na Rússia como patriota e modernizador. «O imenso número de vítimas trazido pela coletivização forçada da agricultura, pela industrialização imprudente e também pelo terror em massa nos anos 1930 é minimizado. A ditadura comunista é legitimada segundo o pretexto de que ela foi necessária no contexto da época. O ensino sobre a era Estaline «está na mira do governo russo», escrevia então a DW e tem contribuído para que Estaline tenha vindo a ser mostrado ao povo russo pelas autoridades russas como um patriota e modernizador.


Segundo a mesma rede de notícias, a Deutsche Welle, em 2017, Elina Ibragimova ca alertava num artigo que o livro didático foi alvo das autoridades russas pelo Roskomnadsor, Serviço Federal de Supervisão das Comunicações, que como anteriormente já referi, classificou a obra de consulta como sendo "prejudicial à saúde das crianças". Concluíram que as aulas de História sobre o “Grande Expurgo”, a repressão violenta a opositores na era estalinista, são nocivas. Foi uma forma de oculara a realidade história duma época.


Sob influência do Kremlin as autoridades russas têm interferido, cada vez com mais frequência, sobre os escritos históricos porque, ao ser abalada por uma crise devido ao colapso da União Soviética, acham que a Rússia deve ser transformada num "grande Estado". Para fundamentar esta pretensão ideológica o governo defende que livros didáticos promovam uma “educação patriótica”. Em 2007, o presidente Vladimir Putin mandou imprimir um livro de história em que Estaline, secretário-geral do Partido Comunista da União Soviética de 1922 a 1953, é descrito como “o mais bem-sucedido líder soviético de todos os tempos”.


A narrativa do Presidente manteve-se porque, numa entrevista que deu a Oliver Stone em junho de 2017, o conhecido realizador de cinema dos EUA, Vladimir Putin disse que a demonização de Estaline é uma das formas de pressionar a Rússia, é uma das formas de "atacar a União Soviética e a Rússia". Pode confirmar AQUI a afirmação. Em março de 2022 a revista norte-americana online Deadline Hollywood que divulga notícias da indústria do espetáculo escrevia que «Após a invasão da Ucrânia em fevereiro, Oliver Stone que tinha criticado os media por usarem o termo ‘invasão’ para caracterizar os planos da Rússia, reviu a sua posição» e, em 7 de março do mesmo ano, Oliver Stone passou a utilizar «agressão de Putin na Ucrânia» depois de dizer anteriormente que «não havia provas» de que a Rússia a pretendia invadir e concluía que «Embora os Estados Unidos tenham muitas guerras de agressão na sua consciência, isso não justifica a agressão de Putin na Ucrânia. Uma dúzia de erros não faz que um esteja certo. A Rússia errou ao invadir.»


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O regime autoritário da Rússia aproxima-se mais dum regime totalitário que se caracteriza, entre outras, pela repressão política e violações dos direitos humanos onde, mais do que nos regimes autoritários, há uma absoluta falta de ideais democráticos e o culto generalizado da personalidade da pessoa que está no poder.


Com a iniciativa de um novo curso universitário através de formação online fica claro que a Rússia é um estado totalitário e que, no domínio da educação, se transformou num autêntico campo de reeducação dos jovens e das suas mentes. Este novo curso ideológico é constituído por palestras e esteve a ser preparado  para ser imposto às faculdades e universidades russas e será ministrado sob a forma de vídeo aulas que pode consultar aqui.


Alguns desses vídeo-aula têm o título de uma frase muito usada por Vladimir Putin ao descrever a Rússia quando fala da sua história. Uma delas descreveu em 2012 «a Rússia como um tipo especial de Estado-civilização. Chamou a atenção para a simples verdade de que a Rússia não surgiu em 1917 ou 1991, e que tem uma história única e contínua de mil anos». Prossegue dizendo que «a Rússia é um "guardião do equilíbrio do mundo", cujo papel especial na história tem sido objeto de pensamento filosófico e académico há séculos. E veja-se onde chega a anomalia quando no contexto “de desejo da Rússia de expulsar o exército de Napoleão não apenas de seu próprio território, mas até mesmo da Europa” salienta que


Os europeus viam os soldados russos como invasores, pois não conseguiam entender que os russos eram motivados pelo autossacrifício em prol da própria liberdade dos europeus.


Para os autores do curso «o mundo multipolar imaginado pelos autores tem um total de sete polos: Ocidental, Cristão ortodoxo, Extremo Oriente, Hinduísta, Árabe, Iraniano e Chinês.» Acrescenta então que «o Ocidente "sempre foi hostil à Rússia". A cultura europeia, diz o vídeo, há muito "reproduz clichês de russofobia" que apresentavam a Rússia como um "país enorme e selvagem, onde ursos vagueiam pelas ruas" e os naturais "arrastam a sua sopa de repolho com sapatos como colheres"».


Por aqui vemos a subjacência na filosofia marginal e a ideologia oficial com Alexander Dugin a passar a ideólogo[1] que é a chave do Kremelin. Enfim, o centro das palestras para os estudantes universitários centra-se na frase «O mundo russo não pode ser contido por fronteiras estatais» e que «a Rússia é uma civilização em si mesmo».


Se lermos extratos de artigos sobre a história da Rússia no tempo da URSS no século XX, a política oficial sobre a memória da União Soviética ou da Rússia em relação aos crimes do Estalinismo, verificamos que passou por várias fases bastante diferentes: se houve períodos onde predominava a desestalinização houve outros de reestalinização de Khrushchev e Brejnev. A resolução de 8 de outubro de 1959, relativa às aulas de história nas escolas[2], dá algumas informações interessantes sobre a política de memória daqueles dias. Embora se peça aos professores que separem o regime de Estaline da tradição e da função histórica do partido comunista a ideia e o princípio fundamentais da historiografia permaneceram intactos. As aulas de história nas escolas e universidades deveriam manter o papel das massas como os verdadeiros criadores da história e do Partido Comunista como o poder de liderança, controlo e direção da sociedade soviética, tal como os princípios marxistas-leninistas.


Uma abordagem pró-comunista no início da “glasnost”[3] e da “perestroika”[4], com ênfase na demonização de Estaline em prol do movimento comunista, foi removida por uma abordagem anticomunista o que resultou no colapso da União Soviética.


No entanto, atualmente, uma abordagem crítica ao passado da Rússia foi substituída por um “consenso patriótico” como afirma Sperling, 2001,


«A busca da sociedade russa por uma identidade pós-soviética, que durou mais de uma década, parece ter chegado ao fim e culminou no 'consenso patriótico'» e ainda sobre «o retorno nostálgico à era imperial e a crescente apropriação do passado soviético" na publicidade e no marketing antes mesmo do início da ascensão de Putin».


«Nos Estados totalitários o objetivo da história é incorporar a comunidade atual numa tradição longa e gloriosa que deverá vincular os membros da comunidade a esta tradição. Os acontecimentos históricos que apoiam estes propósitos são conservados pele moldagem cultural e por políticas de memória. Os eventos ou acontecimentos históricos que perturbam a imagem do estado totalitário são removidos e destruídos por revisões da história.»


Desde o tempo da ex-URSS para o efeito de estabelecer o culto do herói na sociedade, há longas décadas que tem sido feita a instrumentalização política e ideológica da Segunda Guerra Mundial. A Segunda Guerra Mundial, a Grande Guerra Patriótica, como é tem sido designada na Rússia, é uma forma de instrumentalização política que continua ainda a ser feita anualmente na Rússia com grande pompa de poderio militar. As mortes causadas são transformadas em estereótipos de pessoas heroicas confiando no futuro, tendo em vista o que era a ex-União Soviética e nos seus valores da supremacia cultural que continuam na Federação Russa. Os soldados tornaram-se no tema mais significativo do mito do herói soviético.


Breves pesquisas mostraram que esta ilustração dos soldados se enquadra na estrutura da memória cultural desenhada pela história da época estalinista. Acontecimentos e factos como o pacto Hitler/Estaline, o assassinato dos oficiais polacos em Katyn, o medo da morte dos soldados, a brutalização na guerra, o péssimo equipamento militar, a falta de comida e inúmeros suicídios nos esquadrões, não entram nesta escrita da história da Rússia. (Stalinism, Memory and Commemoration: Russia’s dealing with the past; Christian Volk, 2009).


 


[1] Neste arigo refere-se a influência ideológica de Dugin em Putin.


[2] Este documento tornou-se inválido no território da Federação russa em ligação com a publicação do Decreto do Governo da Federação Russa datado de 03/02/2020, nº 80


[3] Glasnost, (em russo: "abertura") política soviética de discussão aberta de questões políticas e sociais. Foi instituído por Mikhail Gorbachev no final da década de 1980 e iniciou a democratização da União Soviética.


[4] Perestroika, (russo: "reestruturação") programa instituído na União Soviética por Mikhail Gorbachev em meados da década de 1980 para reestruturar a política econômica e política soviética. Procurava equiparar a União Soviética economicamente a países capitalistas como Alemanha, Japão e Estados Unidos, Gorbachev descentralizou os controles económicos e encorajou as empresas a autofinanciarem-se.

terça-feira, 7 de março de 2023

Que outros objetivos de Putin?

Questiono-me várias vezes porque será que andam nas redes sociais muitos “personagens” a divulgar propaganda do Kremelin/Putin difundindo notícias falsas anti Ucrânia em sintonia com as mesmas que Vladimir Putin e os seus seguidores russos fazem em sucessivas lavagens cerebrais ao povo. A estes que, aqui, em liberdade, defendem as ideias de Putin pergunto porque não vão viver para esse extraordinário país sob o seu domínio e deixam de viver cá onde recebem salários à custa dos impostos que todos pagamos? É a liberdade de expressão a funcionar dirão, mas será que nesse regime que tanto defendem não haverá a mesma liberdade para dizerem o que pensam?


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Podemos conjeturar se a invasão da Ucrânia não será apenas o início de outros objetivos imperialistas e mais ambiciosos de Putin, se conseguisse ocupar parte ou a totalidade da Ucrânia. Por agora bastar-lhe-ia bloquear o acesso da Ucrânia ao Mar de Azov e ao Mar Negro, caso consiga dominar toda a área que vai da Kharkiv a Odessa passando por Zaporizhia, Kherson e Mikolaiv, o que, até à data, não foi conseguido.


O caso da Crimeia, república autónoma da Ucrânia, anexada pela Rússia em 2014, que gerou um conflito na região que dura até hoje. A crise na Crimeia foi motivada pela deposição do presidente ucraniano Viktor Ianukovitch, (que fugiu de seguida para a Rússia), alinhado com as políticas russas de Putin que foi seguida de um referendo fantoche que aprovou a sua união com a Rússia, não sendo, contudo, reconhecida por Kiev nem pela comunidade internacional.


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Fonte: Institute for the Study of War


O ponto de vista da preparação a de uma possível invasão da Europa em larga escala, planeada a longo prazo, a começar pela Polónia através da Bielorrússia, estaria em linha com o discurso do presidente Vladimir Putin antes da invasão da Ucrânia.


Não se sabe se, atualmente, a Rússia terá ou não capacidade militar para lançar um ataque contra a Polónia ou qualquer outro país da NATO, mas Putin tem ambições imperialistas, de longo prazo, ele próprio não o nega,  e está a procurar, numa primeira fase territórios vizinhos e próximos das suas fronteiras. É um processo contínuo a Rússia tentar invadir algumas das regiões que ela reivindica, pela voz de Putin, como sendo suas.


Dias antes da publicação deste “post”  o presidente da República Russa da Chechénia, Ramzan Kadyrov, sugeriu, numa entrevista na televisão do estatal daquele país, que o exército russo invadisse a “Alemanha Oriental”, como era chamado o território da antiga RDA (República Democrática Alemã) antes da queda do império soviético. O motivo de tal ataque verbal teria a ver com a entrega de tanques à Ucrânia, anunciada pela Alemanha. Também aquele radical terá sugerido que a Rússia atacasse a Ucrânia com armas nucleares.


Mais descarada ainda, e até ridícula, foi a afirmação do ministro dos negócios estrangeiros da Rússia, Lavrov, numa conferência na India, (3 de março), quando lhe perguntaram como é que a guerra afetou a estratégia energética da Rússia e como isso poderia beneficiar a Rússia, Lavrov respondeu: “A guerra que estamos tentando impedir foi lançada contra nós” o que suscitou gargalhada na plateia que pode ver aqui ou aqui. Este mesmo sujeito já afirmou em fevereiro do corrente ano que a Rússia deveria procurar "desnazificar" a Polónia, usando a mesma linguagem e argumento que Putin usou para justificar a invasão da Ucrânia.


Tem-se escrito e falado muito sobre a equiparação dos propósitos de Putin com os que Hitler para começara a guerra: a expansão da Alemanha e a disseminação da política nazi; depois de, no tempo da União Soviética de Estaline este ter feito um pacto em 23 de agosto de 1939 com a  Alemanha nazi de Hitler, Putin diz agora querer combater o nazismo na Ucrânia.  O governo de Hitler tinha em mente a criação de um império vasto, um “espaço vital” como ele lhe chamava então conducente à expansão germânica no leste europeu. Vladimir Putin tem a mesma ambição, mas para ocidente para criação dum império, conforme as suas próprias palavras. A efetivação da dominação russa sobre a Europa, como têm dito os seus correligionários, requereria uma nova guerra. Como já várias vezes escrevi neste mesmo local Putin nunca aceitou a dissolução da União Soviética e descreveu o seu colapso como uma “grande tragédia do século XX".


Putin recorre a uma narrativa sobre eventos passados para dar, no presente, um significado especial que sirva para fortalecer a sua autoridade como detentor do poder e reavivar no povo antigos mitos políticos do  culto de personalidade. É isto que Putin pretende criar um novo, mas retrogrado, um culto à sua personalidade, de inspiração estalinista que remeta para uma forma de propaganda que eleve a sua figura  a político de dimensões quase religiosas cujos discursos procurem promover, de forma exagerada, os seus méritos e qualidades, fazendo ocultar críticas ou defeitos que possam vir a ameaçar o seu poder e a condição de grande líder e guia da pátria russa.


O presidente Vladimir Putin, que muitas vezes invocou e  a história para alimentar sentimentos nacionalistas, comparou-se ao czar Pedro, o imperador que expandiu o território russo através de conflitos prolongados no século XVIII.


Logo após a invasão da Ucrânia de fevereiro, no dia 9 de junho de 2022, num discurso do 350º aniversário do nascimento de Pedro, Putin pareceu fazer uma ligação da sua sangrenta invasão da Ucrânia com o passado imperial da Rússia. Segundo um jornal russo “o presidente russo Vladimir Putin, durante uma reunião com jovens empresários, engenheiros e cientistas na VDNKh em Moscovo, comparou a situação atual na Ucrânia com a Guerra do Norte (1700-1721) com a Suécia, que foi liderada por Pedro I”.


O jornal MKRU escrevia na altura que “o presidente Vladimir Putin traçou analogias com Pedro I. Segundo o presidente, “o imperador "não tirou nada" dos suecos durante a Guerra do Norte, mas devolveu os territórios que historicamente pertenciam à Rússia. E também coube à nossa parte retornar e fortalecer". Confirmava assim que, no pano de fundo ideológico da “operação especial” na Ucrânia, subsistia a ideia de reunir ao que ele chama mundo russo e recriar a “Novorossiya”.


Putin elogiou a construção do império de Pedro I e sugeriu que as terras tomadas pelo czar pertenciam legitimamente à Rússia. "O que Pedro estava fazendo?" De acordo com a Associated Press Putin disse na altura que o que Pedro fez foi segundo ele "Retomar e reforçar. Foi o que ele fez. E parece que nos coube também retomar e reforçar." Os comentários foram amplamente vistos como uma referência ao ataque de Putin à Ucrânia, que há muito vê como parte da esfera de influência da Rússia.


Em 24 de fevereiro, Vladimir Putin chocou o mundo ao iniciar uma guerra com a invasão da Ucrânia. No período que antecedeu a invasão russa, Putin fez discursos de longo alcance e escreveu um artigo para legitimar as suas ações que estava repleto de intensa retórica sobre a história imperial e a história soviética. No entanto, isso não é algo novo. Putin tem consistentemente instrumentalizado a história para alcançar os seus objetivos políticos desde o dia em que se tornou presidente.


Ao longo dos anos, tem-se referido cada vez mais, e repetidamente, à história do Império Russo, como se pode verificar nos seus discursos. A história nas suas mãos tem-se transformado gradualmente numa arma. Putin pratica essa retórica dentro do país e para o exterior para justificar as suas ações, garantir a sua posição de poder e a legitimação da invasão que foi sua e apenas sua, culminar da sua estratégia. Por outro lado parece haver também, por parte de Putin, uma espécie de saudosismo que reside numa espécie de esperança profética assente na crença de que é possível um retorno ao antigo regime soviético numa versão século XXI.


Putin parece ter adaptado à atualidade a frase que Estaline escreveu em 1924 no seu livro “Foundations of Leninism”  onde afirmava que o mundo estava dividido em dois campos hostis «a frente mundial do imperialismo» e «a frente comum do movimento revolucionário em todos os países»; afirmava ainda Estaline, de modo particular, que «na presente fase do capitalismo as guerras não se podem evitar». Na linha interpretativa de Putin o mundo continua dividido em dois campos, o ocidente e a NATO que fazem parte da maquinação do campo hostil e invasor da Rússia, e o dele, pacifista, defensivo. Mas é ele que mostra uma agressividade bélica, expansionista, no sentido de regressar ao anterior império czarista. É o pensamento dos totalitaristas.


A solução adotada pelos ditadores totalitários é dirigir a hostilidade latente do povo contra inimigos reais ou imaginários. É este último caso o de Putin contra a Ucrânia e o Ocidente. Hitler escolheu primeiro os judeus para alvo da agressividade alemã; uma vez arranjado um alvo não ficou satisfeitos e, mais tarde, outros povos e personalidades tomaram o lugar dos judeus. No caso de Putin parece ser o povo ucraniano e, segundo ele, um produtor de fake news, passa para o povo russo a ideia de que os invasores são o ocidente e  a NATO que estão a cercar e a invadir a Rússia.


A Rússia é um país localizado na Europa e na Ásia com os montes Urais frequentemente vistos como a fronteira entre os dois continentes e é amplamente considerado política e culturalmente europeu. Segundo as estatísticas mais recentes, em janeiro de 2023, tem aproximadamente três quartos da população que vive a oeste dos montes Urais, na Europa portanto, geograficamente fronteira entre os dois continentes.


Se observarmos o mapa seguinte que nos mostra as atuais fronteiras da Rússia comparadas com as de 1914 podemos supor até onde poderá ir o sonho imperial de Putin, que tenta comparar-se ao czar Pedro, com uma ideologia irracionalista, pretensamente mítica que mostra uma colocação política irracional tendente a  voltar a consolidar as suas posições em direção ao sul e leste do país.


 


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Putin parece não se ter desligado, nem esquecido do mundo russo soviético em que viveu e em que participou que implodiu em dezembro de 1991. Entre 1922 e 1991 a ex-URSS era formada por 15 nações diferentes: Rússia, Ucrânia, Bielorrússia, Estónia, Letónia, Lituânia, Arménia, Geórgia, Moldávia, Azerbaijão, Cazaquistão, Tajiquistão, Quirguistão, Turquemenistão, Uzbequistão. Sob o domínio de Estaline e durante a Segunda Guerra a URSS combateu ao lado dos Países Aliados, e fez da Alemanha o seu principal alvo militar. Nesse contexto, o Exército da URSS invadiu a Alemanha e os territórios sob a sua zona de influência e formou estados-satélite como a República Popular da Polónia, República Popular da Hungria, República Popular da Roménia, República Popular da Bulgária, República Popular da Albânia, República Socialista da Checoslováquia (atualmente República Checa e Eslovénia) e, no fim do conflito, a parte leste da Alemanha que passou a ser denominada por República Democrática Alemã.


Questiono-me várias vezes porque será que andam nas redes sociais muitos “personagens” a divulgar propaganda do Kremelin/Putin difundindo notícias falsas anti Ucrânia em sintonia com as mesmas que Vladimir Putin e os seus seguidores russos fazem em sucessivas lavagens cerebrais ao povo. A estes que, aqui, em liberdade, defendem as ideias de Putin pergunto porque não vão viver para esse extraordinário país sob o seu domínio e deixam de viver cá onde recebem salários à custa dos impostos que todos pagamos? É a liberdade de expressão a funcionar dirão, mas será que nesse regime que tanto defendem não haverá a mesma liberdade para dizerem o que pensam?

terça-feira, 31 de janeiro de 2023

É o poder da guerra superior ao poder da paz?

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Voltemos à decisão unilateral de Vladimir Putin de invadir ilegalmente a Ucrânia. Putin passou a fazer parte do grupo dos senhores da guerra, aliás, parece que sempre fez, embora não reconhecido como tal. Faz parte dos que a praticam e não dos que se lhe opõem. Há quem confunda defesa com agressão, tal é o caso de Putin que, numa espécie de lenga-lenga, diz estar a ser ameaçado pelos inimigos do Ocidente.


Vladimir Putin tem a convicção adulterada de que o Ocidente está a impor os seus valores e estereótipos de consumo a tentar expandir os seus mercados. Pois bem, é muito provável que seja verdade. Então que ponha o seu país a fazer o mesmo de forma pacífica e honesta num mundo de cooperação. Putin que promova o seu país pela positiva e não pela beligerância e com invasões sem cabimento a não ser a ânsia de poder e de expansão e com tentativas para recuperar o que foi a antiga URSS em modo oligarquia.


Putin e seus aliados de elite que atualmente governam a Rússia ainda estão virados para o passado e para a guerra fria que terminou. Nunca aceitaram a perda de uma proporção significativa do território, população e dos países que saíram da influência da Rússia que a dissolução da União Soviética implicou.


A elite dominante do país anda exasperada  por ser tratada como um ator menor no sistema global e insistem que a Rússia continua a ser uma grande potência com interesses de segurança com uma área global de influência que deve ser respeitada, isto é, Putin e os atuais governantes da Rússia, nunca aceitaram a ordem internacional pós-Guerra Fria e o fim do Pacto de Varsóvia.


A invasão da Ucrânia levou-me a recordar os “senhores da guerra” cujo conceito é diversos consoante as regiões geográficas e políticas. Ao analisar-se a gama de opções disponíveis para os senhores da guerra obtemos como resultados uma compreensão complexa de variedade de motivações.


O que interessa salientar é saber se podemos considerar Putin como um dos senhores da guerra no contexto de invasão por ele iniciada. Jesse Driscoll escreveu um livro onde analisa o termo senhores da guerra centrando-se no período após a União Soviética a que deu o título Warlords and Coalition Politics in Post-Soviet States  que pode ver aqui.


O principal argumento que Driscoll apresenta é o de que os senhores da guerra conspiraram para estabelecer o estado pós-comunista, na esperança de garantir uma parcela da ajuda estrangeira.


Driscoll afirma que “não é de surpreender que as unidades militares russas tenham intervindo para resolver quase todas as batalhas militares decisivas travadas no antigo território da URSS. Foi apenas com a ajuda militar da Rússia que as milícias da Ossétia do Sul e Adjaran[1] detiveram os paramilitares georgianos. A ajuda tática de bases russas próximas acabou por tornar-se explícita quando os separatistas da Abkhaz[2] foram auxiliados pelo poder aéreo russo e combatentes paramilitares. … A artilharia da Frota Russa do Mar Negro desempenhou um papel crucial na derrota da insurgência zviadista[3] na Geórgia”.


Mas afirma ainda que “que a Rússia não nomeou ou controlou os senhores da guerra e as milícias que estavam envolvidos na luta, e que os acordos locais alcançados entre essas milícias foram realmente o que levou ao acordo da guerra civil”.


 Curioso é que forças paramilitares há época já eram utilizadas pela Rússia nas suas intervenções em várias guerras locais, como na Síria, para ajudar ditaduras opressoras tal como o Grupo Wagner, grupo de mercenários ligados à Rússia.   


Este grupo é uma empresa paramilitar privada, cujo dono é um aliado de Putin. O grupo fundado em 2014 teve uma das suas primeiras missões conhecidas na península ucraniana da Crimeia, e que, com uniformes sem identificação, ajudaram as forças separatistas apoiadas pela Rússia a tomar a região.


Em 2015, o Grupo Wagner começou a operar na Síria, lutando ao lado das forças pró-governo do ditador Bashar al-Assad. Na Líbia está desde 2016 a apoiar as forças leais ao general Khalifa Haftar, um dos mais poderosos "senhores da guerra" do país. Acredita-se que até mil mercenários do Wagner tenham participado da ofensiva de Haftar sobre o governo oficial em Trípoli em 2019. As suas tropas passaram a ser acusadas de perpetrar crimes de guerra, como massacre de prisioneiros e mortes arbitrárias.


Negando evidências dos factos e subtilmente aceitando os objetivos da invasão alguns comentadores que escrevem em redes sociais e em blogues os agressores, os que provocam a guerra, são defendidos com determinação com argumentos falaciosos apoiando-se na má política de outros países para justiçarem a invasão pela Rússia e a política beligerante de Putin. Quem se opõem à invasão, mas ajuda à defesa do país invadido são os malvados, os que não procuram a paz e incentivam a guerra. É a total inversão de valores em defesa sabe-se lá do quê.


O objetivo desses senhores que apoiam invasões ilegítimas, tal como a da Ucrânia, ao colocarem-se contra o Ocidente e procurando razões arcaicamente históricas é apenas um: alimentar o ódio contra os EUA, a U.E. e a OTAN e desacreditar os aliados históricos do Ocidente que lutaram contra o nazismo, e reatar o conflito político e ideológico do tempo da Guerra Fria, vivida durante o tempo da acabada União Soviética. Talvez haja da parte deles saudosismo que lhes alimenta a esperança de poderem voltar utilizando quaisquer meios ao dispor para atingir os fins, uma hipotética restauração, modelo século XXI, do renascimento do imperialismo soviético liderado por Putin.


Dado que estes “influenciadores” procuram sistematicamente indícios e arbitrariedades por parte daqueles que detestam para, utilizando a liberdade que o Ocidente lhes confere, poderem atacar os que a defendem.


Os senhores da guerra e os que os defendem padecerão duma patologia de pacientes paranoicos. Tal como na paranoia, conforme os manuais de foro psiquiátrico, têm a tendência para a interpretação errónea da realidade em consequência da suscetibilidade aguda, do orgulho excessivo e/ou da desconfiança extrema do indivíduo que pode até chegar ao delírio persecutório, não apenas a nível pessoal, mas ao nível de povos, grupos e governos. Exemplo será a obsessão de Putin, a nível político, por uma invasão vinda do Ocidente.


Como em política nada acontece por acaso, quando se pretende justificar determinadas ações e circunstâncias nada melhor do que fabricar um inimigo, um bode expiatório, para se justificarem manifestações de vontade que seriam considerados ilegais. É o caso que se passa com o caso sobre o qual se está a tratar, a invasão russa da Ucrânia decidida por Putin justificando que o malvado do Ocidente estará a querer cercar a Rússia que está a querer libertar e salvar o povo ucraniano dos nazis. Na Alemanha, Hitler, também quis defender e libertar o país dos judeus.


Por aqui, em Portugal, muitos dos apoiantes de Putin que escrevem nas redes sociais e noutros locais como blogues e páginas que proliferam na net difundem falsidades onde põem os seus escritos a defender exasperadamente os invasores da Ucrânia que justificam culpando o Ocidente com argumentos requintados de deslisura que Ucrânia é um país de nazis. Nazis serão os que, ultrapassando todas as leis da política e direito internacional, defendem quem começa guerras como esta apenas pelo ódio aos EUA, à OTAN e ao Ocidente onde vivem e onde podem exprimir livremente o seu pensamento.


Por princípio, e sem pretender generalizar, tenho a perceção de que entre o tipo de senhores que atrás refiro alguns estarão desagradados com a falta de visibilidade que não lhes é dada na comunicação social (sobretudo na TV) porque a sua sumidade não lhes é reconhecida. São identificados politicamente com a esquerda, mas da esquerda, da radical. Destilam veneno nas redes sociais contra o Ocidente, EUA, OTAN e UE. Contudo, há outros a quem é concedido o trono das cadeiras dos canais de televisão para perorarem subtilmente em prol dos invasores e inimigos da liberdade. Para eles os senhores da guerra são os outros o Ocidente.


Um dos últimos escritos que descobri foi de um tal senhor coronel português, reformado, que escreveu um artigo numa página de um site que é uma plataforma híbrida online para publicação de conteúdos e que se denomina jornalismo social. No jornalismo social qualquer um pode enviar e publicar histórias para uma plataforma. No entanto, alguns meios de comunicação têm filtros para garantir que um determinado padrão seja verificado. Há também plataformas (como Medium.com e Linkedin) que incorporam muito menos filtros de curadoria. Isso, por sua vez, deixa uma questão em torno da qualidade do conteúdo publicado podendo cair sob o disfarce de jornalismo.


Cito excertos do documento atrás referido onde parece claro e implícito, salvo outra interpretação, que, para o autor, os senhores da guerra são o Ocidente e os EUA que auxiliam a Ucrânia na defesa da invasão. Escreve o senhor coronel:


“Os senhores da guerra vão realizando análises de custos e benefícios ao longo das campanhas até chegar ao momento em que decidem terem mais a perder do que a ganhar com a manutenção das hostilidades, que chegou o tempo de negociar o saque. No caso da Ucrânia, estão em jogo os milhares de milhões de euros de “ajuda à reconstrução”! Os franceses deram sinal de vida e já estão em campo, de dente afiado, informa do Le Monde: “Guerre en Ukraine, en direct : 500 entreprises françaises réunies mardi à Paris pour reconstruire l’Ukraine.”


E mais adiante:


“Os Estados Unidos atingiram o seu objetivo principal: subordinar a União Europeia e bloqueá-la na sua órbita, separando-a da Rússia e destruindo a sua coesão e veleidades de autonomia.”


“Contudo os estados ocidentais irão para o saque do futuro da Ucrânia em ordem dispersa, cada um por si e contra os outros para abocanhar o que puderem dos fundos atribuídos à “reconstrução” da Ucrânia: os franceses estão a preparar-se, assim como os alemães. A Polónia deverá ser recompensada do seu apoio como base logística com uma parcela da Ucrânia, o Reino Unido servirá de sócio principal dos EUA, e a Turquia venderá caro os seus bons ofícios de intermediação e na manutenção de pontes entre as partes, que deverão ser pagos pelo Ocidente e pelos curdos. Os Estados Unidos através das suas empresas serão os grandes “reconstrutores”, como já foram no Iraque!”


Repare-se bem, “subordinar a União Europeia e bloqueá-la na sua órbita, separando-a da Rússia”! Separar a União Europeia da Rússia. Que frase ambígua! É difícil interpretar corretamente este pensamento.


A pergunta que se pode colocar é: mesmo que assim seja, quem começou a invasão, causa para que o prognóstico do autor se cumpra?


Parece não reconhecerem a hipocrisia e de que a mentira de Putin são por demais evidentes. Tenta imputar ao Ocidente tudo quanto lhe cabe a ele de responsabilidade. Putin parece sofrer de uma patologia que se pode designar por inversão psíquica a do poder pela destruição. É uma patologia psicossocial dos indivíduos com poder. São psicóticos que estão impedindo o desenvolvimento humano e pretendem destruir as sociedades e nações que não pensem ou sejam como a deles. O objetivo é dominar outros povos que lhe fugiram do encalço quando da queda da URSS. Sujeitos como este, se não forem parados, poderemos vir a assistir ao rápido desmoronamento da civilização colocando-a em perigo.


Em outubro de 2022 Teresa de Sousa escrevia que as ameaças de recurso a armas nucleares. As nomeações de novos chefes militares que ganharam fama de assassinos em outros teatros de guerra, como na Síria. A anexação ilegal de partes da Ucrânia. A deportação de populações das poucas regiões que ainda controla, incluindo crianças. O objetivo é óbvio: desmoralizar os ucranianos, intimidar os seus apoiantes ocidentais e, internamente influenciar o povo russo.


Para os mesmos objetivos recorrem a outras vias como a guerra da informação em que os dois polos do conflito estão envolvidos. Nestes dois encontram-se os que apoiam Putin que, não defendendo explicitamente a invasão da Ucrânia, atacam os países que se colocam do seu lado no auxílio da sua defesa.


Há indivíduos e grupos que divulgam a propaganda oficial do Kremlin negando a veracidade dos factos sobre a realidade da guerra e contra o Ocidente, enquanto os propagam nos seus países sendo coadjuvados por lacaios doutros países, incluído Portugal. Usam falsas razões e argumentos ao mesmo tempo que no seu país há um controle rigoroso sobre os órgãos de informação que mandam encerrar, fixam censura, perseguem e prendem quem não aceite ou desminta a “verdade” oficial.


A informação e contra informação pela quantidade inassimiláveis e confunde as opiniões públicas para o que comentadores e órgãos de comunicação por vezes também contribuem.


 


[1] Adjara, oficialmente uma República Autónoma de Adjara é uma república autónoma da Geórgia.


[2] Região no Cáucaso e uma república autônoma no norte da Geórgia que se declara independente, desde o fim da guerra civil de 1992-1993


[3] Consultar https://www.wikiwand.com/pt/Guerra_Civil_na_Ge%C3%B3rgia


 

sábado, 30 de julho de 2022

A invasão da Ucrânia de Trump a Putin: contributos para uma teoria da conspiração

Curioso é analisarmos que Joe Biden tomou posse como Presidente dos EUA em 20 de janeiro de 2021. Cerca de um ano e um mês depois de Trump ter saído da cena da presidência Putin invade a Ucrânia. Isto diz-nos alguma coisa.


 


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As circunstâncias criadas pelos atores da política internacional levam-nos por vezes a aventurar-nos em terrenos imprevisíveis da paisagem política em permanente mudança de velocidade e de factos. Ao tentarmos fazer uma interpretação política de factos políticos sem sermos especialistas, vemos que há acontecimentos comprovados que nos levam a estabelecer interpretações e paralelismos por vezes arrojados.


Em política, interpretações e paralelismos não são isentos de ideologias que determinam o contexto do exercício do poder e as abordagens socioeconómicas que fazem parte de ideias e de interesses que ajudam a compreender a criatividade estratégica das ações e, muitas vezes, as obsessões dos atores políticos.


Pode continuar a ler AQUI o artigo: A invasão da Ucrânia de Trump a Putin-contributos para uma teoria da conspiração


 


 

sábado, 28 de maio de 2022

Com o PCP nada acontece por acaso, nada se perde e tudo se transforma

Jerónimo e Putin.png


A estratégia que o PCP - Partido Comunista Português tem vindo a seguir após o desaire das eleições, e, mais recentemente, com a invasão da Ucrânia está a desenvolver-se em três frentes.


A primeira frente, a mais recente, é a manutenção da culpabilização da invasão da Ucrânia pelo ocidente tratando o invadido e o ocidente como sendo os agressores. A desculpabilização do agressor é também defendida pelos que, reivindicam um pensamento alternativo, para eles indiscutível, em contraponto ao que eles denominam de pensamento único, que é contra a invasão e que é o errado. Para essa corrente, a Europa, enfeudada aos EUA e à NATO, são os geradores de uma escalada militar belicista.


Pela análise dos argumentos de Vladimir Putin e dos seus seguidores, o ocidente é o meio privilegiado da expansão dos valores negativos da cultura ocidental para a Rússia. É, pois, em nome da autodeterminação dos povos, e não apenas do povo russo, que Vladimir Putin diz prosseguir a sua política externa de forma a romper com os constrangimentos da hegemonia ocidental (ver discursos e intervenções). Ao mesmo tempo insiste em querer preservar a influência de Moscovo no “estrangeiro próximo” que se perdeu com o colapso da URSS (a retórica do PCP está próxima). Todavia a invasão da Ucrânia é demonstrativa da sua contradição por não lhe reconhecer o seu direito à autodeterminação.


A segunda frente do PCP é ideológica e processa-se no âmbito da sua política interna. No partido nada acontece por acaso. O “interior” do partido está rodeado pela discrição onde está enraizada uma ideologia dogmática com certos postulados não sujeitos a crítica e em que é o comité central que faz o ditame do posicionamento ideológico-partidário do momento que obedece a uma liturgia própria. O PCP debate-se, por isso, com o dilema de simultaneamente ter de responder à necessidade de manutenção da sua identidade, cujos valores e princípios são submetidos à ideologia internacionalista do comunismo mais ortodoxo e a vontade do eleitorado que pretende recuperar.


As narrativas produzidas pelo PCP têm vindo a competir com outros discursos existentes no espaço político. Ao longo do tempo, no que se refere a evolução discursiva, desenvolveu algumas alterações na sua terminologia linguística reprimindo algumas expressões e a aceitação de outras pela reformulação de elementos linguísticos que deixaram de ser utilizados na sua antiga formulação com a entrada e a participação do partido no diálogo político que se encetou em Portugal após o estabelecimento do regime democrático, ficando numa espécie de letargia de que tem custado a sair, mas a que parece pretender regressar.


Todavia, ao longo dos anos, ao escutar e ao ler alguns dos discursos dos líderes do PCP tenho verificado que, desde o tempo da URSS e do PCUS (Partido Comunista da União Soviética), até à atualidade, alguns dos pressupostos do PCP mantiveram-se. A NATO continua a ser uma organização agressiva, os EUA capitalistas, imperialistas e agressores e a União Europeia está ao seu mando. Deste modo, faça a Rússia  o que fizer, (leia-se antes Putin), para o PCP estará sempre certa, no pressuposto de que, todos os que considerem como inimigos os de quem sou inimigo, são meus amigos.


Apesar da confusa barracada causada por declarações por figuras do PCP, algumas delas contraditórias, sobre a invasão da Ucrânia por Vladimir Putin que pode ver aqui e aqui, e em que o líder Jerónimo de Sousa tem afirmado que o PCP garante “não ter nada a ver com o governo russo” nem com Putin o certo é que, os seus militantes e adeptos ao colocarem-se do lado contrário de quem está contra Putin colocam-se, indiretamente, do lado do agressor.


No 101º aniversário do PCP Jerónimo de Sousa afirmou ser “uma calúnia” dizer que o partido apoia a invasão da Ucrânia. Apesar da tentativa de se demarcar do regime de Putin, não foi a ele quem mais atacou. Foi aos EUA que mais apontou o dedo. No mesmo comício, em março, a defesa indireta do agressor que é Vladimir Putin deu-se pelo ataque aos que ajudam o agredido, foi o Ocidente, sobretudo aos EUA, que mais responsabilizou. Narrativa que também tem passado pelas redes sociais pelos seus adeptos. Jerónimo de Sousa apontou “todo um caminho de ingerência, violência e confrontação” que diz ter começado no “golpe de Estado de 2014, promovido pelos EUA, que instaurou um poder xenófobo e belicista”, e que provocou “a recente intervenção militar da Rússia na Ucrânia e a intensificação da escalada belicista dos EUA, da NATO e da União Europeia.” Afinal o que é isto senão a lavagem da política de Putin em relação à Ucrânia? Basta agora acrescentarmos o termo “operação militar especial” que Jerónimo já utilizou para se referir à invasão da Ucrânia. A colagem torna-se ainda mais evidente quando não refere Putin como imperialista nem o coloca em causa pelo que deveria ser para o PCP a tradição leninista da autodeterminação dos povos, já que, Putin responsabiliza Lenine pela independência da Ucrânia por ser o seu "autor e criador".


Os argumentos vindos do Kremlin para a invasão da Ucrânia são apontados ao ocidente, sobretudo à U.E., EUA e NATO o que parece terem dado ao PCP um novo alento. Não é por acaso que os seus capangas ideológicos andam pelas redes sociais e blogues a apoiar indiretamente Putin criticando e colocando-se contra o ocidente. Para o PCP a U.E. e a NATO foram e são uns empecilhos ao avanço estratégico da Rússia para ocidente e um bloqueio à progressão dos desígnios de expansão do comunismo na esperança de que um dia a URSS ou algo parecido regressem.


O PCP, embora esteja contra as políticas capitalistas do Kremlin como diz, ao mesmo tempo está em consonância com a sua política externa. A ambição do Kremlin pelo controle da Europa, pelo menos dos países que pertenceram ao Pacto de Varsóvia, é a hegemonia económica e geopolítica que passa também pelo desmembramento da União Europeia e a NATO que tem sido (e sempre foi) uma pedra no sapato de Putin e que também fazem parte de uma das lutas do PCP.


A terceira frente que não é independente das duas anteriores resulta da pesada derrota nas últimas eleições legislativas que está a fazer com que o PCP regresse ao “show de rua” com reivindicações e greves, com palavras de ordem mais do desgastadas e com o costumeiro radicalismo arcaico e ortodoxo.


As palavras de ordem do PCP voltaram a ser as de um populismo de esquerda para captar as massas populares para a sua luta. Palavras de ordem, as mesmas de sempre, como “aumentar os salários”, “valorizar o trabalho”, “desenvolver o país” às quais acrescentam a inflação e o custo de vida que vieram, em boa-hora, ajudar a direita e a extrema-direita a fazer oposição, como já vimos no Parlamento o PSD a defender aumento na função pública quando anteriormente falava no peso do Estado na economia.


Aprovado o OE para 2022 que o PCP votou contra, juntamente com a direita e com a extrema-direita, pela mão dos sindicatos que controla irá tentar instalar uma instabilidade social artificial com greves, paralisações e manifestações. O seu objetivo é fazer uma oposição de ataque cerrado e de desacreditação da maioria absoluta do Governo do Partido Socialista.


As únicas propostas que o PCP apresenta para melhorar o país são o aumento das pensões, dos salários, a fixação de preços contra o grande capital. Fixação de preço que resultaria em faltas nos abastecimentos de produtos básicos essenciais para as populações, sobretudo as urbanas, em filas para a compra de produtos essenciais como se verificava na ex-URSS da chamada economia planificada do regime comunista.


A economia da URSS era tão planificada que, depois da sua dissolução as privatizações de grandes empresas foram parar à mãos de quadros, antes fiéis do PCUS-Partido Comunista da URSS e “gestores” dessas mesmas empresas do Estado, que são atualmente os grandes oligarcas da Federação Russa e cuja maioria ainda está do lado de Putin.


Ainda no sentido desta terceira frente e aproveitando a atual conjuntura internacional devido à invasão da Ucrânia seguida do pedido de adesão à U.E., o PCP luta com as armas desestabilizadoras que tem ao seu dispor para dar apoio, mal disfarçado, à política de Vladimir Putin. Esta posição é coerente com a nota do gabinete de imprensa do PCP de 22 de fevereiro deste ano.


Há ainda a salientar a despropositada conferência que o PCP organizou no ISCTE na passada terça-feira, em Lisboa, para analisar as “consequências do uso do euro para o país se este rumo se mantiver” e as “possibilidades para concretizar uma rutura”. Parece-me que Putin terá ficado agradecido, assim como o PCFR.


O PCP faz um balanço negativo da adesão ao euro e destes 20 anos em que a moeda esteve a circular baseia-se na perda de soberania sobre a sua política monetária, cambial e orçamental; nos períodos de recessão ou estagnação económica, tornou-se mais endividado e dependente, perdeu capacidade produtiva, e não convergiu com a média da União Europeia. “Temos o dever de perguntar: como serão os próximos 20 anos? Vamos resignar-nos a este cenário?” questiona o PCP. Os argumentos parecem ser idênticos aos da extrema-direita quando está contra a U.E.


Os comunistas realçaram na conferência, organizada pelos eurodeputados do PCP, que “A permanência no euro já é suficientemente longa para se tirar conclusões independentes das conjunturas e dos governos. Este é o tempo de recordar a propaganda e as promessas então feitas e de as conformar com os impactos reais da adesão. Mas é sobretudo o tempo de pensarmos o presente e o futuro. Este debate assume recusar inevitabilidades”.


A proposta e a estratégia do PCP ao adotar uma estratégia anacrónica para criticar a presença de Portugal no Euro vai no sentido de que Portugal fique novamente “orgulhosamente só”, tal como proferiu Salazar num discurso em 1965 quando o mundo se opunha à manutenção do colonialismo. É lamentável que após 57 anos, embora num contexto distinto, mas igualmente severo, o PCP esteja a querer encaminhar Portugal para o desastre.


A discussão veio facilitar a abertura do tema que está no alinhamento com Putin ao aperceber-se de uma Europa Unida pelo que há que estilhaçar esta perigosa união. Não nos admiremos se a extrema-direita vier também a alinhar com a ladainha comunista sobre a U.E. Temos visto nos últimos anos como a extrema-direita na Europa tem trazido para a discussão populista a verborreia contra a União Europeia.


Enquanto continua a haver países de leste, nomeadamente a Moldávia, que pretendem entrar para a U.E. e para a NATO/OTAN e para zona Euro, coisa que o presidente Vladimir Putin vê como um cerco à Rússia, e o Reino Unido acha que terá sido um erro a sua saída da U.E. o PCP continua a propor a saída de Portugal do Euro. Não é novidade, a sua coerência reside no facto de ter estado sempre contra a entrada de Portugal para a U.E. e para a zona Euro que, para aquele partido, é uma organização “defensora do grande capital”. Aliás, em 2016, o PCP defendia “derrotar a União Europeia, criar ‘outra Europa’ dos trabalhadores”. Qual? A da ex-URSS?


De facto, parece-me estranho que o PCP nas atuais circunstâncias esteja novamente a levantar a discussão e a colocar em causa o Euro e a U.E. Caso fosse desmantelada a U.E. esta ficaria dividida e a porta ficaria aberta ao imperialismo de Vladimir Putin. Neste aspeto o PCP é coerente porque sempre foi contra a U.E., mas, saído das “amarras” de compromissos de apoio parlamentar com o PS encontrou novamente o folego e a oportunidade para, ao arrepio da guerra da Ucrânia, se aproximar dos pontos de vista de Vladimir Putin cuja filosofia é contra a E.U. e contra o Euro por ver neles um empecilho apesar de a ter enfeudado ao fornecimento de gás e petróleo da Rússia.


Este debate sobre o Euro não surge por acaso e regressa com os mesmos estribilhos já bem conhecidos.


Convém também não esquecer que este espírito anti U.E. e anti NATO foi também a do anterior presidente dos EUA Donald Trump que esteve empenhado no seu enfraquecimento como realçou o Presidente francês Emmanuel Macron em 2019: “O que estamos a assistir é a morte cerebral da NATO", devido às decisões do presidente norte-americano sobre a Aliança Atlântica e também pelo comportamento do presidente turco”. A invasão russa da Ucrânia ocorreu num momento de enfraquecimento da NATO e não de um ostensivo e concreto alargamento até à fronteira russa.


O PCP sabe que a política externa de Vladimir Putin se pauta pelo confronto com os países ocidentais como se tem verificado há algum tempo. Os comunistas do PCP encontraram agora uma oportunidade de fazer eclodir uma discussão sobre o Euro porque a conjuntura da invasão da Ucrânia, a que também Jerónimo de Sousa chamou “operação militar especial”, e a que, claramente, nunca se opuseram, a não ser em falar em abstrato na paz que dizem pretender.


O presidente Vladimir Putin, para justificar os seus objetivos argumenta que se está a criar um “cerco estratégico”, o que é falso, e, de acordo com esta narrativa, traçou uma política externa que diz ser defensiva. Independentemente da avaliação que possamos fazer quanto a esta linha de argumentação, há uma verdade inequívoca: as ações de Moscovo ao longo dos últimos anos quer na Moldávia, na Geórgia, na Crimeia e agora na Ucrânia, as ações de Moscovo desfizeram dúvidas quanto à postura bélica assumida pelo presidente Putin.


 

sexta-feira, 22 de abril de 2022

Uma análise do discurso do presidente da Rússia Vladimir Putin antes da invasão da Ucrânia

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Quem tiver paciência para ler na íntegra os discursos do Presidente Vladimir Putin antes e depois do 24 de fevereiro, data triste marcada pela invasão da Ucrânia pelas suas forças, encontrará nos artigos e opiniões escritos pelos que se dizem não pertencer ao “pensamento único do rebanho” muitas semelhanças, algumas passagens parecem ser frases transcritas sobre as causas da invasão fazendo parecer que são o ocidente, a OTAN, os EUA e a U.E. os grandes responsáveis por tal ato alinhando com as teses de Moscovo e, claro, como a da Embaixada Russa em Portugal.


Parecem querer deixar claro que as vítimas só merecem solidariedade quando são perfeitas, daí as acusarem de erros e outras culpas. Para esses se não há vítimas perfeitas, não há solidariedade para com eles nunca. É uma nova moral, a deles, que nos querem quase impor.


Elencam os defeitos ucranianos merecedores do inferno, por não serem os meninos bem-comportados que deviam ser. Se os ucranianos não são isentos de quaisquer culpas e serem por eles vistos como inocentes, então, não se pode reclamar dos alegados injustos e perversos crimes de guerra russos cuja responsabilidade não é dos russos, mas do seu chefe máximo Putin. Para esta gente as vítimas só merecem solidariedade se forem univocamente perfeitas e, como não há vítimas perfeitas, então não são nunca merecedoras de solidariedade.


Cito abaixo, com realce, algumas das citações dos argumentos do discurso de Putin publicado por alguns órgãos de comunicação russos a 24 de fevereiro de 2022 titulado com “O discurso do Presidente à nação em conexão com a situação no Donbass”.


Putin: Assim, começarei com o facto de que a Ucrânia moderna foi inteiramente criada pela Rússia, mais precisamente, bolchevique, a Rússia comunista. Este processo começou quase imediatamente após a revolução de 1917.


Putin parece prender ser o interprete único da história russa. A Ucrânia não deixou de ser um país por ter sido anexado durante a Revolução Soviética:


A Ucrânia não deixou de ser um país por ter sido anexado durante a Revolução Soviética, como também o foram outros países depois da II Guerra que ficaram sob a alçada da ex-URSS.


Putin omite factos históricos ao referir-se apenas à Ucrânia moderna. Mas um país, não é por isso que deixa de ser soberano e de existir historicamente. A Rússia moderna também foi criada pelos mesmos e não foi por isso que deixa de ser um país independente e soberano!


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Putin: sem qualquer autorização do Conselho de Segurança da ONU, …eles (o ocidente) conduziram uma sangrenta operação militar contra Belgrado, usaram aviação, mísseis bem no coração da Europa.


Os factos:


A operação militar foi decidida após o fracasso das negociações para terminar o conflito no Kosovo entre os separatistas armados albaneses do Exército de Libertação do Kosovo (UÇK) e as forças sérvias comandadas pelo líder nacionalista Slobodan Milosevic.


A intervenção da NATO, com o objetivo de evitar uma limpeza étnica e crimes de guerra como os sucedidos em Srebrenica ou no cerco a Sarajevo, não teve a aprovação do Conselho de segurança da ONU após veto da Rússia e da China (entre os membros permanentes).


Em resultado dos bombardeamentos, a Jugoslávia retirou-se do Kosovo, que se tornou num país de facto, apesar de não ser reconhecido por um número suficiente de países. É no Kosovo que os EUA têm a maior base militar fora do país.


Slobodan Milosevic acabou por se demitir em 2000 face a manifestações e no ano seguinte foi preso e levado para Haia, onde o Tribunal Penal Internacional para a Ex-Jugoslávia o acusou de crimes de guerra e contra a humanidade. A sua morte por ataque cardíaco, em 2006, impediu o desfecho do caso.


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Putin: …Temos que lembrar esses factos, porque alguns colegas ocidentais não gostam de recordar esses eventos, e quando falamos sobre isso, eles preferem apontar não para as normas do direito internacional, mas para as circunstâncias que eles interpretam como bem entenderem.


Antes da invasão da Ucrânia terá Putin, olhado para as normas do direito internacional? Este argumento é também utilizado pelos que se colocam ao lado de Putin, ao recorrer ao”mau comportamento” do ocidente para justificar a agressão. Parece que, neste caso, quem coloca de lado todas as normas e pratica crimes de guerra como os que se têm visto pelos órgãos de comunicação é o próprio Putin com a invasão após a data do discurso.   


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Continua o discurso:


Putin: Depois foi a vez do Iraque, Líbia, Síria. O uso ilegítimo da força militar contra a Líbia, a perversão de todas as decisões do Conselho de Segurança da ONU sobre a questão líbia levou à destruição completa do Estado, ao fato de que surgiu um enorme foco de terrorismo internacional, ao fato de que o país mergulhou em uma catástrofe humanitária, no abismo da guerra civil de longo prazo que ainda não cessou. A tragédia à qual centenas de milhares e milhões de pessoas estavam condenadas, não só na Líbia, mas em toda esta região, deu origem a um êxodo migratório em massa do norte da África e do Oriente Médio para a Europa.


Foi preparado um destino semelhante para a Síria. As ações militares da coligação ocidental no território deste país sem o consentimento do governo sírio e a sanção do Conselho de Segurança da ONU nada mais são do que agressão, intervenção.


Em 2015, as Forças Armadas foram usadas para colocar uma barreira confiável à penetração de terroristas da Síria na Rússia. Não tínhamos outra maneira de nos proteger.


Os factos:


Os factos foram intencionalmente distorcidos no discurso para que Putin tivesse argumentos para uma despropositada comparação com a invasão que lançou sobre a Ucrânia, esquecendo a sua intervenção na Síria para a apoiar o ditador Assad.


Uma coligação liderada pelos EUA também realizou ataques aéreos e mandou forças especiais para a Síria a partir de 2014 para ajudar uma aliança de milícias curdas, árabes, assírias e turcas chamada de Forças Democráticas Sírias, as FDS, que antes estava dominando pelo Estado Islâmico. As (FDS) defendem um governo secular, democrático e federalista em território sírio.


O Presidente russo, Vladimir Putin em 2015 mobilizou as suas tropas para ajudar Bashar al-Assad na guerra civil na Síria que já leva mais de uma década. Em 2016 a zona oriental de Alepo era conquistada pelo regime às forças da oposição, com a ajuda da força aérea da Rússia, que reduziu praticamente a ruínas uma das cidades mais antigas do mundo.


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Putin: Após o colapso da URSS, a redivisão do mundo realmente começou, e as normas do direito internacional que se tinham desenvolvido naquela época – e a chave, as básicas foram adotadas no final da Segunda Guerra Mundial e consolidaram em grande parte seus resultados – começaram a interferir com aqueles que se declararam vencedores na Guerra Fria.


O saudosismo:


Putin mostra-se saudosista e elogia indiretamente o passado ao tempo da URSS para imputar ao ocidente a culpa de todos os males que inclusivamente levaram ao fim da Guerra Fria.


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Putin: … a invasão do Iraque também sem qualquer fundamento legal. Como pretexto, eles escolheram as supostas informações confiáveis disponíveis para os Estados Unidos sobre a presença de armas de destruição em massa no Iraque. Como prova disso, publicamente, diante dos olhos de todo o mundo, o Secretário de Estado dos EUA sacudiu algum tipo de tubo de ensaio com pó branco, assegurando a todos que esta é a arma química que está sendo desenvolvida no Iraque. E então descobriu-se que tudo isso era uma fraude, um blefe: não há armas químicas no Iraque. Incrivelmente, surpreendentemente, o fato permanece. Havia mentiras no mais alto nível estadual e da alta tribuna da ONU. E como resultado, enormes baixas, destruição, uma incrível onda de terrorismo.


Confundir e misturar factos são argumentos ineptos:


As fraquezas e estratégias errada da política externa dos EUA e de países que o coadjuvaram na invasão do Iraque foi uma espécie de retaliação ao terrorismo do 11 de setembro de 2000 muito mal escolhida, mas não se tratou de uma ocupação territorial e à luz da mora não pode justificar um caso de invasão como aquele que Putin cometeu.


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Putin: Apesar de tudo, em dezembro de 2021, tentámos mais uma vez chegar a um acordo com os Estados Unidos e seus aliados sobre os princípios de garantir a segurança na Europa e sobre a não expansão da OTAN. Tudo em vão. A posição dos EUA não está mudando. Eles não consideram necessário negociar com a Rússia sobre esta questão-chave para nós, perseguindo seus objetivos, negligenciando nossos interesses.


 


A tese da liberdade de escolha:


A que interesses é que Putin se refere? Voltar a fazer sucumbir os países quer estiverem sob o domínio da Ex-URSS? É que Putin ainda não conseguiu digerir a sua frustração de que países que eram satélites da URSS após a libertação da sua esfera estejam a optar por aderir à União Europeia e pedirem a sua entrada para a OTAN. Países livres e soberanos têm o direito de optar pela sua entrada nas organizações que entenderem e, se isso, acontece talvez seja porque estejam receosos da uma agressão por parte de Moscovo/Putin e que lhes acontecesse como está a gora a acontecer à Ucrânia.


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Putin: Quanto à esfera militar, a Rússia moderna, mesmo após o colapso da URSS e a perda de uma parte significativa de seu potencial, é hoje uma das potências nucleares mais poderosas do mundo e, além disso, tem certas vantagens numa série de novos tipos de armas. A este respeito, ninguém deve ter dúvidas de que um ataque direto ao nosso país levará à derrota e terríveis consequências para qualquer potencial agressor.


………………………………..


A expansão da infraestrutura da Aliança do Atlântico Norte, o início do desenvolvimento militar dos territórios da Ucrânia são inaceitáveis para nós. Certamente não é sobre a própria OTAN – é apenas um instrumento da política externa dos EUA. O problema é que nos territórios adjacentes a nós – notei, em nossos próprios territórios históricos – está sendo criado um hostil "anti-Rússia", que é colocado sob controle externo total, intensamente estabelecido pelas forças armadas dos países da OTAN e bombeado com as armas mais modernas.


Para os Estados Unidos e os seus aliados, esta é a chamada política de conter a Rússia, dividendos geopolíticos óbvios. E para o nosso país, é, em última análise, uma questão de vida ou morte, uma questão do nosso futuro histórico como povo. E isso não é um exagero – é. Esta é uma ameaça real não só aos nossos interesses, mas à própria existência do nosso Estado, à sua soberania. Esta é a linha vermelha que tem sido repetidamente falada. Eles atravessaram.


 


A omissão dos falsos pacifistas:


Putin pontua sobre uma possível justificação para iniciar uma invasão seja onde for por motivos de defesa e clama ao povo pelo orgulho nacional na sua defesa preparando a população para potenciais ataques sobre os que ele chama agressores.


Putin contradiz todos quantos criticam e assinalam o ocidente como um conjunto de países belicistas que tem enormes custo financeiros com inclusão nos orçamentos dos países enormes verbas destinados ao armamento. Putin é claro no que diz respeito ao armamento e ao investimento nas suas forças armadas considerando a Rússia como “uma das potências nucleares mais poderosas do mundo. A todos quanto sejam contra os EUA e os seus aliados Putin agradece a ajuda e é um estímulo para futuras pretensões expansionistas.


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Putin: Vemos que as forças que realizaram um golpe de Estado na Ucrânia em 2014 tomaram o poder e estão segurando-o com a ajuda, de facto, de procedimentos eleitorais decorativos, finalmente abandonaram a solução pacífica do conflito. Durante oito anos, fizemos todo o possível para resolver a situação por meios pacíficos e políticos. Tudo em vão.


A falsa desculpa:


A atuações do Kremlin como se passa na Bielorrússia onde está há anos um ditador títere de Moscovo, e na própria Rússia onde a oposição é esfrangalhada e depois perseguida por Putin, tal qual hoje a censura férrea está em circulação em toda a Rússia. Fazem censura ao que se passa na Ucrânia e proíbem a liberdade de expressão sobre a guerra. Então não é uma intervenção militar especial?


 


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Putin: Claro, eles também irão para a Crimeia, assim como em Donbass, com guerra, a fim de matar, como punidores de gangues de nacionalistas ucranianos, cúmplices de Hitler durante a Grande Guerra Patriótica, mataram pessoas indefesas. Eles também declaram abertamente que reivindicam uma série de outros territórios russos.


…………………………..


Todo o curso dos acontecimentos e a análise das informações recebidas mostram que o confronto da Rússia com essas forças é inevitável. É só uma questão de tempo: eles se preparam, esperam por uma hora conveniente. Agora eles também afirmam possuir armas nucleares. Não permitiremos que isso aconteça.


As mentiras desmontadas pelos factos:


A justificação para a invasão era que, o inimigo, a Ucrânia, seria um potencial invasor e que, como tal, para o evitar deveria ser primeiro invadido. Apenas e porque havia “análise das informações recebidas”.  Também para Hitler o inimigo eram os judeus e a Polónia e que, por isso, a invadiu. Curiosa esta narrativa. Como Putin, no seu discurso antes da invasão, preparava os russos para o apoio das suas teses conotando e chamando aos ucranianos nacionalistas, nazis e neonazis e até cúmplices de Hitler. Vemos agora, trinta e quatro dias, após a invasão da Ucrânia quem é criminoso de guerra! 


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Putin: … a Rússia após o colapso da URSS aceitou novas realidades geopolíticas. Respeitamos e continuaremos a tratar todos os países recém-formados no espaço pós-soviético da mesma forma.


… a Rússia não pode se sentir segura, desenvolver, existir com uma ameaça constante emanando do território da Ucrânia moderna.


… decidi realizar uma operação militar especial. O seu objetivo é proteger as pessoas que foram submetidas ao bullying e ao genocídio pelo regime de Kiev por oito anos. E para isso, lutaremos pela desmilitarização e desnazificação da Ucrânia, bem como trazendo à justiça àqueles que cometeram numerosos crimes sangrentos contra civis, incluindo cidadãos da Federação Russa.


Ao mesmo tempo, nossos planos não incluem a ocupação de territórios ucranianos. Não vamos impor nada a ninguém à força.


 


A pergunta que merece resposta


Se os planos não incluem a ocupação de territórios ucranianos e de não impor nada a ninguém, a pergunta que se coloca é então o que foi que aconteceu nos últimos 39 dias e o que continua a acontecer?  Será que tudo quanto se vêm em todos os canais informativos de todo o mundo, com exceção da Rússia, é tudo ficção, mentira e propaganda do ocidente? Só os apoiantes do Kremlin é que acreditarão nisso refugiando-se do que no passado o ocidente também fez.


 


Putin: No centro de nossa política está a liberdade, a liberdade de escolha para todos determinarem independentemente seu futuro e o futuro de seus filhos. E consideramos importante que esse direito – o direito de escolha – possa ser usado por todos os povos que vivem no território da Ucrânia de hoje, por todos que o querem.


 


Salvadores há muitos.


Mais uma vez a deturpação das realidades Putin quer mostrar-se ao povo russo como o grande salvador da humanidade e, neste caso, da Ucrânia. Falar em liberdade quando no seu país ela está condicionada ou não existe, falar no direito de escolha quando quer impor a sua escolha a outros. Um país soberano, seja ele o que for tem o direito de escolher o que regime que quiser, não necessita de salvadores que os ocupem.


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Ecos da história.


Desde o início de março de 2014, manifestações de grupos pró-russos e anti governo ocorreram nos oblasts de Donetsk e Luhansk, que integram a região da Bacia do Rio Donets, na sequência da Revolução ucraniana de 2014 e do movimento Euromaidan. Esse conflito armado ocorreu em parte do território ucraniano que foi objeto de diversos protestos pró-russos em todo sul e leste da Ucrânia. Trata-se de um conflito armado entre as forças separatistas das autodeclaradas Repúblicas Populares de Donetsk e Lugansk e o governo ucraniano.[43][44] Os separatistas são amplamente liderados por cidadãos russos.[45] Os paramilitares voluntários russos são relatados por compor entre 10% e mais de 50% dos combatentes.


Após o colapso da União Soviética em 1991, a Ucrânia firmou-se como uma nação independente. Contudo, no Leste, especialmente em Donetsk e Luhansk (na região da Bacia do Donets (Donbas), as minorias russas começaram a reinvindicar mais autonomia política, algo a que o governo central em Kiev resistia. No final da década de 2000, o governo ucraniano passou a buscar uma maior aproximação com a Europa Ocidental, algo que a Rússia via com maus olhos. Em 2013, em meio a uma crise económica, o presidente Víktor Yanukóvytch rejeitou um acordo com a União Europeia e iniciou uma reaproximação com o governo russo. A população ucraniana, principalmente aquelas concentradas nas grandes cidades do Oeste, iniciaram-se enormes protestos (conhecidos como Euromaidan) e forçaram o presidente Yanukóvytch a renunciar em fevereiro de 2014. Aproveitando-se do caos político que se seguiu na Ucrânia, a Rússia anexou, em março, a região da Crimeia.


 


Em síntese: E mais não digo. Se não existissem estes pretextos Vladimir Putin recorreria a outros para justificar a invasão que há muito terá premeditado. O tempo oportuno foi este após a saída de Merkel da cena política e a presidência dos EUA ter mudado de Trump para Biden.