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terça-feira, 7 de março de 2023

Que outros objetivos de Putin?

Questiono-me várias vezes porque será que andam nas redes sociais muitos “personagens” a divulgar propaganda do Kremelin/Putin difundindo notícias falsas anti Ucrânia em sintonia com as mesmas que Vladimir Putin e os seus seguidores russos fazem em sucessivas lavagens cerebrais ao povo. A estes que, aqui, em liberdade, defendem as ideias de Putin pergunto porque não vão viver para esse extraordinário país sob o seu domínio e deixam de viver cá onde recebem salários à custa dos impostos que todos pagamos? É a liberdade de expressão a funcionar dirão, mas será que nesse regime que tanto defendem não haverá a mesma liberdade para dizerem o que pensam?


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Podemos conjeturar se a invasão da Ucrânia não será apenas o início de outros objetivos imperialistas e mais ambiciosos de Putin, se conseguisse ocupar parte ou a totalidade da Ucrânia. Por agora bastar-lhe-ia bloquear o acesso da Ucrânia ao Mar de Azov e ao Mar Negro, caso consiga dominar toda a área que vai da Kharkiv a Odessa passando por Zaporizhia, Kherson e Mikolaiv, o que, até à data, não foi conseguido.


O caso da Crimeia, república autónoma da Ucrânia, anexada pela Rússia em 2014, que gerou um conflito na região que dura até hoje. A crise na Crimeia foi motivada pela deposição do presidente ucraniano Viktor Ianukovitch, (que fugiu de seguida para a Rússia), alinhado com as políticas russas de Putin que foi seguida de um referendo fantoche que aprovou a sua união com a Rússia, não sendo, contudo, reconhecida por Kiev nem pela comunidade internacional.


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Fonte: Institute for the Study of War


O ponto de vista da preparação a de uma possível invasão da Europa em larga escala, planeada a longo prazo, a começar pela Polónia através da Bielorrússia, estaria em linha com o discurso do presidente Vladimir Putin antes da invasão da Ucrânia.


Não se sabe se, atualmente, a Rússia terá ou não capacidade militar para lançar um ataque contra a Polónia ou qualquer outro país da NATO, mas Putin tem ambições imperialistas, de longo prazo, ele próprio não o nega,  e está a procurar, numa primeira fase territórios vizinhos e próximos das suas fronteiras. É um processo contínuo a Rússia tentar invadir algumas das regiões que ela reivindica, pela voz de Putin, como sendo suas.


Dias antes da publicação deste “post”  o presidente da República Russa da Chechénia, Ramzan Kadyrov, sugeriu, numa entrevista na televisão do estatal daquele país, que o exército russo invadisse a “Alemanha Oriental”, como era chamado o território da antiga RDA (República Democrática Alemã) antes da queda do império soviético. O motivo de tal ataque verbal teria a ver com a entrega de tanques à Ucrânia, anunciada pela Alemanha. Também aquele radical terá sugerido que a Rússia atacasse a Ucrânia com armas nucleares.


Mais descarada ainda, e até ridícula, foi a afirmação do ministro dos negócios estrangeiros da Rússia, Lavrov, numa conferência na India, (3 de março), quando lhe perguntaram como é que a guerra afetou a estratégia energética da Rússia e como isso poderia beneficiar a Rússia, Lavrov respondeu: “A guerra que estamos tentando impedir foi lançada contra nós” o que suscitou gargalhada na plateia que pode ver aqui ou aqui. Este mesmo sujeito já afirmou em fevereiro do corrente ano que a Rússia deveria procurar "desnazificar" a Polónia, usando a mesma linguagem e argumento que Putin usou para justificar a invasão da Ucrânia.


Tem-se escrito e falado muito sobre a equiparação dos propósitos de Putin com os que Hitler para começara a guerra: a expansão da Alemanha e a disseminação da política nazi; depois de, no tempo da União Soviética de Estaline este ter feito um pacto em 23 de agosto de 1939 com a  Alemanha nazi de Hitler, Putin diz agora querer combater o nazismo na Ucrânia.  O governo de Hitler tinha em mente a criação de um império vasto, um “espaço vital” como ele lhe chamava então conducente à expansão germânica no leste europeu. Vladimir Putin tem a mesma ambição, mas para ocidente para criação dum império, conforme as suas próprias palavras. A efetivação da dominação russa sobre a Europa, como têm dito os seus correligionários, requereria uma nova guerra. Como já várias vezes escrevi neste mesmo local Putin nunca aceitou a dissolução da União Soviética e descreveu o seu colapso como uma “grande tragédia do século XX".


Putin recorre a uma narrativa sobre eventos passados para dar, no presente, um significado especial que sirva para fortalecer a sua autoridade como detentor do poder e reavivar no povo antigos mitos políticos do  culto de personalidade. É isto que Putin pretende criar um novo, mas retrogrado, um culto à sua personalidade, de inspiração estalinista que remeta para uma forma de propaganda que eleve a sua figura  a político de dimensões quase religiosas cujos discursos procurem promover, de forma exagerada, os seus méritos e qualidades, fazendo ocultar críticas ou defeitos que possam vir a ameaçar o seu poder e a condição de grande líder e guia da pátria russa.


O presidente Vladimir Putin, que muitas vezes invocou e  a história para alimentar sentimentos nacionalistas, comparou-se ao czar Pedro, o imperador que expandiu o território russo através de conflitos prolongados no século XVIII.


Logo após a invasão da Ucrânia de fevereiro, no dia 9 de junho de 2022, num discurso do 350º aniversário do nascimento de Pedro, Putin pareceu fazer uma ligação da sua sangrenta invasão da Ucrânia com o passado imperial da Rússia. Segundo um jornal russo “o presidente russo Vladimir Putin, durante uma reunião com jovens empresários, engenheiros e cientistas na VDNKh em Moscovo, comparou a situação atual na Ucrânia com a Guerra do Norte (1700-1721) com a Suécia, que foi liderada por Pedro I”.


O jornal MKRU escrevia na altura que “o presidente Vladimir Putin traçou analogias com Pedro I. Segundo o presidente, “o imperador "não tirou nada" dos suecos durante a Guerra do Norte, mas devolveu os territórios que historicamente pertenciam à Rússia. E também coube à nossa parte retornar e fortalecer". Confirmava assim que, no pano de fundo ideológico da “operação especial” na Ucrânia, subsistia a ideia de reunir ao que ele chama mundo russo e recriar a “Novorossiya”.


Putin elogiou a construção do império de Pedro I e sugeriu que as terras tomadas pelo czar pertenciam legitimamente à Rússia. "O que Pedro estava fazendo?" De acordo com a Associated Press Putin disse na altura que o que Pedro fez foi segundo ele "Retomar e reforçar. Foi o que ele fez. E parece que nos coube também retomar e reforçar." Os comentários foram amplamente vistos como uma referência ao ataque de Putin à Ucrânia, que há muito vê como parte da esfera de influência da Rússia.


Em 24 de fevereiro, Vladimir Putin chocou o mundo ao iniciar uma guerra com a invasão da Ucrânia. No período que antecedeu a invasão russa, Putin fez discursos de longo alcance e escreveu um artigo para legitimar as suas ações que estava repleto de intensa retórica sobre a história imperial e a história soviética. No entanto, isso não é algo novo. Putin tem consistentemente instrumentalizado a história para alcançar os seus objetivos políticos desde o dia em que se tornou presidente.


Ao longo dos anos, tem-se referido cada vez mais, e repetidamente, à história do Império Russo, como se pode verificar nos seus discursos. A história nas suas mãos tem-se transformado gradualmente numa arma. Putin pratica essa retórica dentro do país e para o exterior para justificar as suas ações, garantir a sua posição de poder e a legitimação da invasão que foi sua e apenas sua, culminar da sua estratégia. Por outro lado parece haver também, por parte de Putin, uma espécie de saudosismo que reside numa espécie de esperança profética assente na crença de que é possível um retorno ao antigo regime soviético numa versão século XXI.


Putin parece ter adaptado à atualidade a frase que Estaline escreveu em 1924 no seu livro “Foundations of Leninism”  onde afirmava que o mundo estava dividido em dois campos hostis «a frente mundial do imperialismo» e «a frente comum do movimento revolucionário em todos os países»; afirmava ainda Estaline, de modo particular, que «na presente fase do capitalismo as guerras não se podem evitar». Na linha interpretativa de Putin o mundo continua dividido em dois campos, o ocidente e a NATO que fazem parte da maquinação do campo hostil e invasor da Rússia, e o dele, pacifista, defensivo. Mas é ele que mostra uma agressividade bélica, expansionista, no sentido de regressar ao anterior império czarista. É o pensamento dos totalitaristas.


A solução adotada pelos ditadores totalitários é dirigir a hostilidade latente do povo contra inimigos reais ou imaginários. É este último caso o de Putin contra a Ucrânia e o Ocidente. Hitler escolheu primeiro os judeus para alvo da agressividade alemã; uma vez arranjado um alvo não ficou satisfeitos e, mais tarde, outros povos e personalidades tomaram o lugar dos judeus. No caso de Putin parece ser o povo ucraniano e, segundo ele, um produtor de fake news, passa para o povo russo a ideia de que os invasores são o ocidente e  a NATO que estão a cercar e a invadir a Rússia.


A Rússia é um país localizado na Europa e na Ásia com os montes Urais frequentemente vistos como a fronteira entre os dois continentes e é amplamente considerado política e culturalmente europeu. Segundo as estatísticas mais recentes, em janeiro de 2023, tem aproximadamente três quartos da população que vive a oeste dos montes Urais, na Europa portanto, geograficamente fronteira entre os dois continentes.


Se observarmos o mapa seguinte que nos mostra as atuais fronteiras da Rússia comparadas com as de 1914 podemos supor até onde poderá ir o sonho imperial de Putin, que tenta comparar-se ao czar Pedro, com uma ideologia irracionalista, pretensamente mítica que mostra uma colocação política irracional tendente a  voltar a consolidar as suas posições em direção ao sul e leste do país.


 


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Putin parece não se ter desligado, nem esquecido do mundo russo soviético em que viveu e em que participou que implodiu em dezembro de 1991. Entre 1922 e 1991 a ex-URSS era formada por 15 nações diferentes: Rússia, Ucrânia, Bielorrússia, Estónia, Letónia, Lituânia, Arménia, Geórgia, Moldávia, Azerbaijão, Cazaquistão, Tajiquistão, Quirguistão, Turquemenistão, Uzbequistão. Sob o domínio de Estaline e durante a Segunda Guerra a URSS combateu ao lado dos Países Aliados, e fez da Alemanha o seu principal alvo militar. Nesse contexto, o Exército da URSS invadiu a Alemanha e os territórios sob a sua zona de influência e formou estados-satélite como a República Popular da Polónia, República Popular da Hungria, República Popular da Roménia, República Popular da Bulgária, República Popular da Albânia, República Socialista da Checoslováquia (atualmente República Checa e Eslovénia) e, no fim do conflito, a parte leste da Alemanha que passou a ser denominada por República Democrática Alemã.


Questiono-me várias vezes porque será que andam nas redes sociais muitos “personagens” a divulgar propaganda do Kremelin/Putin difundindo notícias falsas anti Ucrânia em sintonia com as mesmas que Vladimir Putin e os seus seguidores russos fazem em sucessivas lavagens cerebrais ao povo. A estes que, aqui, em liberdade, defendem as ideias de Putin pergunto porque não vão viver para esse extraordinário país sob o seu domínio e deixam de viver cá onde recebem salários à custa dos impostos que todos pagamos? É a liberdade de expressão a funcionar dirão, mas será que nesse regime que tanto defendem não haverá a mesma liberdade para dizerem o que pensam?

sábado, 8 de outubro de 2022

A orquestra não pode desafinar nem perder a memória histórica

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A perplexidade, o espanto, apoderaram-se de mim em fevereiro de 2022. Estes sentimentos transformaram-se em indignação quando sou surpreendido pelas notícias difundidas em todo o mundo que relatavam a invasão de um país soberano por outro, justificada por motivos pouco credíveis, fantasiosos até.
O invasor, Vladimir Putin em nome da Rússia, foi a ator protagonista da peça macabra onde reivindica a pretensão da Rússia de passar a hegemonia que diz já ter tido no império passado. Para ele o Mundo deve ser um jardim onde se pode entrar e sair em pequenos passeios a bel-prazer queimando tudo à passagem sem nada pode detê-lo.
Não podemos perdermo-nos pelo caminho nem esquecer as imagens que as comunicações sociais livres nos fornecem e que nos ficam na memória veiculada por uma leitura semiótica das imagens televisivas. Imagens de destruição de famílias, de bens, de patrimónios e mortes causados pelo exercício de poder de um homem só.
As imagens que vemos e lemos mostram-nos pedras e cadáveres que estão lá da maneira que poderiam estar e que, com a passagem dos tempos, se cristalizam nas nossas memórias, mas que outros delirantemente negam dizendo que são encenações propositadas.
Destes ecrãs podemos ver tudo, o humano e a natureza da destruição causada pelo egocentrismo de um homem que não quer perder a face nem o poder. Desta janela poderemos ver em todas as direções toda a história décadas e décadas depois.
Os invadidos veem a sua terra ser ocupada. A Ucrânia poderia ser um país charneira para o diálogo entre a U.E., e a Rússia, pelas mãos de um homem, transformou-a num inimigo para si próprio por viver num delírio obsessivo de que uma organização defensiva pretende cercar e invadir a Rússia. Um homem apoiado por uma ditadura de elites extremistas ameaça todas as sociedades, sobretudo os povos dos países ocidentais. Um homem destituído de qualquer da humanidade, que se mostra contra os valores ocidentais e pela supressão das suas liberdades democráticas a que chama “satanismo total”.
Desde o início Lenine resistiu à autonomia ucraniana e anulou o começo do seu movimento de independência e Estaline reprimiu a dissidência ucraniana, com uma fome intencionalmente provocada. Os líderes soviéticos que diziam ser anticolonialistas trataram a Ucrânia como uma "colónia interna" durante décadas, explorando os seus recursos naturais, a sua produção e mantendo os seus cidadãos sob vigilância estreita e enviando os seus produtos "para o resto da União Soviética a preços fortemente subsidiados".
O regime autoritário de Putin construiu uma campanha interna que não convenceu o ocidente, excetuando um parco rebanho cujos argumentos contorcionistas saem em defesa da invasão e do regime de Putin, potenciais defensores de ditaduras. Sobre a invasão da Ucrânia, num esforço amplamente propagandeado, construi-se dentro da Rússia uma campanha por meio duma narrativa ficcional que diz ser para libertar os ucranianos de maléficos captores neonazis fictícios por meio duma "operação militar especial" e ao mesmo tempo tentar alertar o mundo para o poder dos militares russos e com a necessidade de "desnazificar" e desmilitarizar a Ucrânia para segurança da Rússia.
O ocidente, EUA e União Europeia, sobretudo esta última, já deviam, há muito, estar prevenidos com as previsíveis astúcias pelas quais o senhor Putin procuraria obter vantagens políticas internas.
A resposta à invasão da Ucrânia por parte da U.E. tem demonstrado algumas dificuldades na aplicação de sanções e está atualmente a demonstrar algumas divisões. A orquestra da U.E. pode estar em vias de desafinar e esse pode ser um dos trunfos de Putin que sempre desejou que acontecesse. Talvez uma metáfora possa explicar as reações do ocidente.
Metáforas são uma forma de se fazer a representação simbólica de algo. A linguagem verbal está repleta de metáforas e algumas palavras até perderam o seu sentido literal de tão metaforizadas que se tornaram. As associações por metáforas não são ao acaso, são estruturadas e dependentes de experiências que são compartilhadas por membros do mesmo grupo social.


No contexto deste artigo tem cabimento a introdução duma metáfora que me ocorreu ao recordar-me do filme “O Ensaio de Orquestra” realizado por Frederico Fellini em 1978.



Fellini utiliza a orquestra, os instrumentos, músicos e a música como metáfora de uma sociedade em crise. Uma orquestra que recusa a sua natureza coletiva, e onde cada indivíduo tem uma visão egocêntrica do seu papel. Estão apenas unidos pelo propósito de destronar aquele que entendem ser o seu inimigo comum: o maestro.
As expressões musicais são criadas pelo compositor evidenciadas nos sons, ritmos e melodias, desenvolvendo-se no desempenho como uma sequência de ocorrências significantes ao longo do tempo, um drama de oposições e resoluções.
Pode ser um exercício interessante comparar a metáfora deste filme com as políticas praticadas em alguns países, organizações e sociedades com governos malconduzidos por políticos e políticas que revelam incompetências com orquestras confusas e mal ministradas nas quais, apesar do descontentamento e da revolta popular o povo empobrecido e temente do futuro opta pelo status quo situação que que nos pode levar numa regressão ao tempo dos governos limitativos das liberdades democráticas.
As sociedades têm vindo a confrontar-se com políticas várias regidas por políticos, partidos e seus líderes, na oposição ou não, que são uma espécie de “músicos” que tocam “instrumentos vários” cada um com a sua pauta que os membros dessas sociedades ouvem pensando qual o tom que virá a seguir.
Se escutarmos com muita atenção é uma música antiquada, repetitiva, em que trompetes sobem escalas numa escalada de tons comandadas por maestros vários que não coordenam os vários instrumentos que deveriam seguir juntos no mesmo arranjo. Esta desafinação vai sustentar as composições musicais de moralistas populistas, extremistas de várias tendências e autocratas totalitários que obedecem a manias de grandeza e de poder.
A União Europeia é uma espécie de orquestra onde entram vários instrumentistas classificados em diversos tipos de acordo com a forma pela qual o som é produzido, numa espécie de organologia da política.
Numa orquestra onde tocam vários instrumentos basta um que desafine para corromper toda a orquestra para satisfação dos que preferem o toque de charangas, barulhentas ou desafinadas. Neste sentido o problema não está na orquestra, nem no maestro, mas na maneira como encaramos a música que tocam.
Cada músico que alinha pela desafinação não é um músico é um individualista que apoia o grupo que desafina, é um atacante da democracia da orquestra onde todos tocam para o mesmo fim que é o sucesso da peça musical.
Na política há “instrumentistas” que desafinam no meio de uma orquestra que se pretende afinada e com a consciência profunda de interpretar o sentimento de muitos dos assistentes ao concerto e, por isso, fazem com que a música perca a sua intensidade perturbando todos os outros elementos.
Há que tentar perceber o que nos rodeia e ouvir, através dos nossos próprios sentidos, os sons que se vão esbatendo e que salientam os que nos chegam dados pelos instrumentos desafinados.
Uns sons são próximos, outros distantes. Há que percecionar tudo o que vem de fora da orquestra a partir desses sons indiciários e provocadores que nos chegam de instrumentistas desafinados. Há que perceber quais as fontes específicas de cada um desses sons, sem melodia, que nos são enviados pelas vibrações que, ao penetrarem no nosso ouvido, produzem sensações de revolta.
A União Europeia devia funcionar como uma espécie de orquestra que ao longo dos anos os instrumentistas, para fazerem parte da orquestra, apesar de desuniões ideológicas foram obrigados a afinar os seus instrumentos pelo mesmo diapasão quando concordaram em unir-se economicamente, cientes de que o Euro não seria apenas uma moeda, mas também uma ideologia fabricada pelas democracias liberais do ocidente.
Após a invasão da Ucrânia têm sido tomadas várias iniciativas da U.E. para afinação dos instrumentos da orquestra embora ainda haja alguns instrumentistas que ainda não estejam a afinar plenamente pelo lamiré europeu. Uma dessas iniciativas que hoje, dia 06/10, tem uma reunião inaugural, a nova Comunidade Política Europeia, que surge no atual contextos de gravidade que a Europa enfrenta como resultado da escalada da guerra da Rússia contra a Ucrânia que pôs em risco a paz e a segurança europeia. Pretende-se a exigência da retirada imediata e incondicional daa Ucrânia de todas as tropas enviadas por Putin, assim como todo o equipamento militar e do não reconhecimento da anexação ilegal de território ucraniano, ou os referendos fictícios organizados pela Rússia para a justificar.
Não sabemos se este concerto sairá afinado tendo em conta os 27 dirigentes da União Europeia e os 17 governantes de quase todos os restantes países europeus. Prevê-se que não haja alguns elementos dentro da orquestra que pretendam desconstruí-la e se há ou não adeptos de totalitarismos que pretendam substituir o(s) regente(s) por outro(s) que dirija(m) apenas o tom de um único instrumento condicionando a orquestra a um só compasso. Mas, neste caso, uma orquestra em uníssono deseja-se.
Quando há crises financeiras e agora, também, energéticas e outras há instrumentistas que provocam desafinações no conjunto. Quando alguns dos grupos instrumentais começam para se fazerem ouvir, sejam eles os das flautas, os dos trompetes ou os das baterias, a cacofonia musical desestabiliza a orquestra no seu todo e não há maestro que lhe ponha cobro. Cada grupo instrumental começa então a tocar ao seu ritmo acusando os outros de estarem a desafinar e isso em nada contribui para bloquear os maestros que dirigem orquestras barulhentas que tocam numa sala ao lado.
Quando a orquestra começa a desafinar entram as pateadas por parte das assistências para desestabilizar a orquestra e parar o concerto. É este o caso de Putin que tem vindo a apostar, (como fez Donald Trump), na desafinação dos grupos instrumentais que fazem parte da orquestra na União Europeia. Na espectativa de divisões com o apoio dado aos partidos de extrema-direita antieuropeístas e que, como de facto, se colocam do seu lado do maestro da sala do lado.
Um caso exemplar entre outros, foi o de Berlusconi, antigo primeiro-ministro italiano e amigo de longa data de Vladimir Putin que chegou recentemente a afirmar publicamente que que Putin, foi “pressionado” pelo seu partido e pelo povo a invadir a Ucrânia. Acredita que o seu objetivo era apenas retirar Zelensky do poder. Declaração que, poucas horas, depois veio a justificar dizendo que foi mal-entendido.
Os europeus que apoiam partidos populistas da extrema-direita têm sido historicamente mais propensos a expressar uma visão positiva da Rússia e do seu presidente, Vladimir Putin. Todavia, em alguns casos, as opiniões favoráveis sobre a Rússia e Putin diminuíram acentuadamente entre os populistas europeus da extrema-direita após a invasão militar da Ucrânia por Putin em nome da Rússia.
Na orquestra democrática da União Europeia há grupos cujos “instrumentos” que não estão afinados no tom da peça musical tocada por aquela orquestra e que falam em nome das coletividades que representam e a que pertencem. Isto é, nessas sociedades, a vida e a política estão a causar a desafinação no conjunto porque contemplam dimensões morais e de regras de conduta diferentes daquelas com que de início aderiram à orquestra.
Após a devastação social causada por duas guerras mundiais, o movimento em direção à solidariedade coletiva foi incorporado à vida política em muitos países, não só europeus, tendo em vista o Estado de bem-estar social. Contudo, nas últimas décadas do século XX, a implantação de políticas neoliberais na década de 1970 e seguintes incentivaram direta ou indiretamente o desenvolvimento de características morais, sociais e afetivas definidoras das culturas individualistas. Isto é, uma “nova peça musical” que também influenciou emoções, comportamentos e até mesmo a conduta dos ouvintes.
Fazer tocar todos os instrumentos desta orquestra afinados durante um concerto não é possível porque se transforma numa charanga que toca sons e tons em que cada um afina o seu instrumento ao seu modo. Pensar e agir politicamente torna-se difícil quando prevalece desproporcionada a autorreferência do conjunto instrumental, o interesse próprio, o individualismo da nação de cada grupo, servindo-se de todos os outros como meios para os seus objetivos.
A competição pelo controle do mundo, ou seja, pela hegemonia económica e geoestratégica após a Segunda Guerra Mundial foi a causa da denominada Guerra Fria, conflito político-ideológico entre os Estados Unidos, países democráticos e a União Soviética entre 1947 e 1991, o conflito travado entre aqueles dois blocos foi responsável por polarizar o mundo, um, alinhado ao capitalismo, outro alinhado ao comunismo. Naquele último ano foi a queda do muro de Berlim que se pensou ser o começo das relações pacíficas entre aqueles dois países. Durante a segunda metade do século XX, a polarização mundial resultou numa série de conflitos de pequena e média escala em diferentes locais do mundo, que contavam, muitas vezes, com o envolvimento indireto dos EUA e da URSS, a partir do financiamento, da disponibilização de armas e do treinamento militar.
As perdidas pretensões hegemónicas da antiga URSS regressaram pela mão do poder totalitário e autocrático de Vladimir Putin A questão da competição pela hegemonia no mundo voltou a fazer parte das suas ambições em nome da Rússia. Putin revelou-se um perito em desafinação de orquestras.
Temos vindo a assistir, por parte de alguns concertistas extremistas e obstrutivos, a contribuições para a desafinação das orquestras europeia a que pertencem o que, no que se refere à guerra na Ucrânia, pode vir a contribuir para o desejo de Putin de fazer desafinar a orquestra da Europa ao aperceber-se de indícios de desafinação. Não é por acaso que Moscovo financiou, ou ainda financia, a extrema-direita europeia e é também é sabido que a extrema-direita italiana e francesa o terão aceitado.
O apoio de Putin às orquestras da extrema-direita é lançar à terra as sementes do mal palavras idênticas às que ele usou no seu último discurso “vitória” e de propaganda pela anexação ilegal de territórios ucranianos, em que são evidentes a política do ódio, da acusação, da discriminação, procurando encontrar, no outro, um inimigo. Antes da invasão Putin pretendeu preparar a desafinação da Europa que neste momento enfrenta o veneno letal das cobras apoiadas pelo Kremlin materializado em partidos como o Vox, Irmãos de Itália, Chega, Democratas da Suécia, Verdadeiros Finlandeses, Partido da Liberdade, União Nacional, causando uma espécie de epidemia que alastra. Seria nesta peste que Trump e Putin apostavam para desmantelar a Europa. Onde o exibicionismo reativo de Trump falhou, a frieza e a sórdida obsessão de Putin ainda pode resultar.
No passado já houve outros como ele, Estaline, Hitler, Mussolini, Pinochet, e muitos outros, e, por isso, a nossa memória histórica não se pode perder.

sábado, 30 de julho de 2022

A invasão da Ucrânia de Trump a Putin: contributos para uma teoria da conspiração

Curioso é analisarmos que Joe Biden tomou posse como Presidente dos EUA em 20 de janeiro de 2021. Cerca de um ano e um mês depois de Trump ter saído da cena da presidência Putin invade a Ucrânia. Isto diz-nos alguma coisa.


 


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As circunstâncias criadas pelos atores da política internacional levam-nos por vezes a aventurar-nos em terrenos imprevisíveis da paisagem política em permanente mudança de velocidade e de factos. Ao tentarmos fazer uma interpretação política de factos políticos sem sermos especialistas, vemos que há acontecimentos comprovados que nos levam a estabelecer interpretações e paralelismos por vezes arrojados.


Em política, interpretações e paralelismos não são isentos de ideologias que determinam o contexto do exercício do poder e as abordagens socioeconómicas que fazem parte de ideias e de interesses que ajudam a compreender a criatividade estratégica das ações e, muitas vezes, as obsessões dos atores políticos.


Pode continuar a ler AQUI o artigo: A invasão da Ucrânia de Trump a Putin-contributos para uma teoria da conspiração


 


 

sexta-feira, 13 de maio de 2022

Afinal as cassetes ainda existem

“A conversa dos políticos ocidentais sobre liberdade e democracia é pura conversa”. (Palavras do líder do Partido Comunista da Federação Russa, numa reunião dos ativistas do partido realizada em Moscovo a 3 de abril de 2022)


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O grande perigo para a Europa e para o Mundo não vem da NATO, nem dos EUA, mas do presidente Vladimir Putin. A pergunta que se coloca é a de saber se a Suécia e a Finlândia teriam pedido com brevidade a entrada na NATO caso Putin não tivesse invadido a Ucrânia. Putin passou a ser um fator de instabilidade também para a União Europeia que, segundo ele, teria a pretensão de desagregar.


Agora um ditador candidato a “imperador” quer pressionar a Finlândia, país autónomo, soberano e independente, a não aderir à NATO e, por isso, ameaça tudo quanto mexe. Desde quando um país obriga outro a seguir os seus ditames com a justificação de se sentir ameaçado. Por aqui vê-se quem ameaça o Mundo e qual a sua estratégia para o enfraquecimento dos mecanismos de proteção e defesa dos países que os rodeiam.


Putin nunca viu com bons olhos que Helsínquia aderisse em 1995 e encontrasse na União Europeia o seu espaço estratégico preferencial. A questão da adesão à NATO nunca se tinha colocado apesar de ser essa a preferência de grande maioria dos finlandeses.


Vamos ver se a Turquia deixará, ou melhor, não se oporá!


Putin, em vez de fazer uma aproximação à Europa e ao ocidente optou por se dispersar com divagações pouco credíveis conforme é citado no Kremlin: "O nosso dever comum é impedir o renascimento do nazismo, (o sublinhado é meu), que trouxe tanto sofrimento aos povos de vários países. É necessário preservar e transmitir (...) a verdade sobre os acontecimentos da guerra, valores espirituais comuns e tradições de amizade e irmandade". Palavras vazias sem sentido e que contrariam as suas ações pois atua pior do aqueles que diz estar a combater.


No dia 8 de maio Vladimir Putin, por ocasião do 77º aniversário da “Vitória na Grande Guerra Patriótica”, enviou mensagens de congratulações para vários países onde declarava, repetindo qual cassete gravada, que "Hoje, o dever comum é evitar o renascimento do nazismo, que trouxe tanto sofrimento para as pessoas de diferentes países. É preciso preservar e passar aos descendentes a verdade sobre os acontecimentos dos anos de guerra, valores espirituais comuns e tradições de amizade fraterna".


Que valores são estes a que se refere vindos de quem agride, ameaça, causa sofrimento com falsas justificações através de uma retórica mentirosa como a de “impedir o renascimento do nazismo” quando os seus atos, práticas e discursos contradizem o que ele diz querer evitar?


A utilização de forma genérica, mas específica, das palavras nazismo e desnazificação aplicados ao caso da Ucrânia não surgem por acaso. Foram escolhidas porque ele sabe que a nível mundial, estas palavras estão ainda bem presentes nas memórias coletivas dos povos e têm uma carga muito negativa. Daí a insistência no apelo demagógico contra o renascimento do nazismo passando a mensagem de que ele é o libertador das nações oprimidas pelo nazismo.


Falar de desnazificação e acusar a NATO de ser a responsável pela agressão à Ucrânia é, pelo menos, risível. São estratégias de desvirtuar informação apontando a outros, erros, falhas, atitudes e intenções que não servem senão para ocultar as do agente emitente. Como em qualquer totalitarismo, na Rússia de Putin a desinformação, a mentira, a mentira por omissão e a deturpação de factos são a regras aplicadas ao povo.


Porém, podemos questionar em que diferem as atuações de Putin daqueles que ele diz querer libertar os povos.  Nazismo é um tipo de fascismo totalitário com forte natureza nacionalista, agravado por radicalismos racistas, étnicos e xenófobos. A Rússia do presidente Vladimir Putin é uma autocracia com uma forte componente totalitária que se estende à regulação de todos os aspetos da vida pública e privada da Rússia, conforme informações que vão chegando ao nosso conhecimento. A Rússia é governada, na prática, pelo poder de uma única pessoa política e de fação personalizado em Vladimir Putin cuja autoridade não tem limites. A Duma (câmara baixa da Assembleia Federal da Rússia), não passa de um conjunto de deputados que são uma espécie de “Yes men”, até mesmo o Partido Comunista da Federação Russa, de que irei escrever mais adiante.


Como nos regimes totalitários e no nazismo Vladimir Putin tem implementado no seu país, repressão, perseguição a opositores, censura obstinada que proíbe publicação de informação que lhe seja desfavorável tornando-a inacessível às populações, etc.. Por outro lado, Putin tem apoiado financeiramente partidos xenófobos e racistas da extrema-direita na Europa. O que é isto afinal?


Lamentável é também haver em alguns países do ocidente partidos e pessoas que, dizendo-se democratas, apoiam ditaduras e um ditador que invade um país soberano. Neste alinhamento também se encontram os que dizem estar a favor do povo e da cultura russa, o que é indubitavelmente aceitável, mas são também esses os que defendem, tipo "copy paste", o pensamento presente nos argumentos discursivos de Vladimir Putin.


Tudo isto conduz-me, mais uma vez, aos argumentos do PCP em relação à invasão da Ucrânia. Em primeiro lugar, é preciso também que se entenda o pensamento do PCFR - Partido Comunista da Federação Russa que “aplaude” a decisão de Putin sobre a “intervenção militar” na Ucrânia, basta ler os discursos de Gennady Zyuganov, líder daquele partido.


Recuemos então seis anos, 2016, e recordemos o que o líder do PCP disse no discurso de abertura do XX Congresso do PCP, em Almada, acerca da União Europeia e do Euro a quem não poupou críticas por serem, segundo ele, a “fonte dos maiores males dos portugueses”. Dizia então Jerónimo de Sousa, referindo-se a um discurso feiro no Parlamento Europeu sobre o Estado da União Europeia que, segundo ele, não se tratava de "maquilhar, refundar ou democratizar" a União Europeia (UE). Nem "mudar alguma coisa para ficar tudo na mesma". Disse que os comunistas não estão aqui para isso. Querem mesmo mudar o mundo e, quanto à UE, "articular ruturas que permitam construir uma outra Europa". Isso mesmo, mudar o mundo para que lado? O que pretenderia ele dizer na altura com a construção de uma nova Europa? Seria uma espécie de premonição do que se iria passar?


Mesmo com uma pequena margem de erro é o que, atualmente, o presidente Vladimir Putin e o seu partido Rússia Unida acolitado pelo Partido Comunista da Federação Russa, têm afirmado. Cada um que tire as ilações que entender.


Recentemente as palavras de Jerónimo de Sousa também não levantam dúvidas sobre o seu alinhamento com o seu congénere da Rússia, o PCFR,  e com Putin ao considerar que não houve uma invasão nem que há uma guerra na Ucrânia causada pela Rússia, mas sim “uma operação militar” embora acrescente que o PCP “condena”.


A subtileza passa a  evidência quando se refere a “operação militar” em vez de guerra (de facto, não houve formalmente uma declaração de guerra),  mas enfileira com a retórica de Putin apesar de, como disse, ser capitalista, única verdade.


Jerónimo de Sousa, no entanto, admite, contradizendo-se, que “Há uma guerra, isso é incontornável”, e esclarece que “é claro para o PCP que estamos perante uma Rússia capitalista” da qual “o PCP claramente se demarca”, “não tendo nada a ver” com Putin. Jerónimo de Sousa é muito hábil só que, por acaso, não deve ter lido os discursos de Putin e do secretário-geral do PCFR, ou, se os leu, fez-se de esquecido.


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Vamos lá ver então se eu entendo: “não houve uma invasão”; “houve uma operação militar”; “há uma guerra e isso é incontornável”.


Analisemos então qual a aproximação das narrativas do PCP com a intervenção do líder do PCFR - Partido Comunista da Federação Russa, Gennady Zyuganov, em 3 de abril de 2022 numa reunião dos ativistas do partido realizada em Moscou sob o tema “Temos que resistir e vencer.”, onde o líder do Partido Comunista da Federação Russa recordou a solidariedade das forças patrióticas de esquerda do mundo. A ortodoxia no seu melhor.


Gennady Zyuganov tem a certeza de que o objetivo “é derrotar o nazismo e o fascismo, caso contrário, se espalhará por toda a Europa "e muitos jovens terão que usar sobretudos". Nazismos e fascismo são palavras coincidentes nos discursos de Putin e de Zyuganov. O chefe da fação comunista afirmou ainda na Duma do Estado da Federação Russa que "Se todos nós – a Duma, o Conselho da Federação e o Conselho de Segurança – apoiamos a operação especial, devemos explicar às pessoas o que estamos a perseguir, por que é que apoiamos ativamente os que defendem fielmente o mundo russo, a nossa língua, dignidade e Donbass, e a nossa amizade com a Ucrânia."


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Em 19 de abril já tinha afirmado algo sobre a “mentalização” pró militarista agressiva dos jovens russos ao dizer que "acreditava que nas escolas e nas universidades haveria muito trabalho para explicar a situação em que todos nós nos encontramos. Mas não vejo e não sinto isso nem nas atividades de ministros, professores, diretores de escolas ou figuras culturais", disse Gennady Zyuganov.


Zyuganov chega a lembrar as palavras do presidente Putin numa reunião com jornalistas estrangeiros em outubro de 2021 onde disse, (no contexto dos problemas socioeconómicos da humanidade que pioraram e que houve turbulências em escala global) que "O modelo existente de capitalismo na grande maioria dos países esgotou-se". Zyuganov acrescenta ainda que "Olhando para Biden, esta múmia ambulante, que ameaça todos, torna-se assustadora para a América". O líder do PCFR disse ter tirado uma conclusão ao observar que a Alemanha começou novamente a apoiar o nazismo, e a França está totalmente dançando ao som americano. O segredo foi revelado, é o ódio aos EUA. É assim que as coisas começam, agressões imaginárias, ódios, seja ao que for, como etnias, raças, nações, países que servem como bodes expiatórios para justificarem agressões e perseguições. É assim o nazismo!


Zyuganov afirmou ainda que “vamos ter de lidar com todos os desafios, porque, na sua maioria, os cidadãos do espaço pós-soviético já entenderam quem é o organizador da nova agressão. E toda a conversa dos políticos ocidentais sobre liberdade e democracia é pura conversa”. "Estamos presentes no final do conto de fadas sobre o mercado, sobre o livre comércio, sobre a liberdade de expressão", continuou o líder comunista (os sublinhados são meus). Sobre política externa da Rússia Zyuganov observou ainda a importância da interação da Rússia com a China, Índia, Vietname, Irão, Paquistão e Turquia.


Terminou prometendo que “Faremos de tudo para trazer paz à Ucrânia fraternal. Faremos tudo para desenvolver a nossa união", e que "vem uma nova etapa no processo de integração. E tenho certeza de que o Partido Comunista e as forças patrióticas de esquerda estarão na vanguarda deste trabalho, preparando-se para o centenário da formação da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas", concluiu o líder do Partido Comunista da Federação Russa. A mensagem de agressividade deste senhor líder de um partido que fala em paz, amizade e fraternidade está patente no seu discurso no “Dia da Vitória na Grande Guerra Patriótica”.


A razão por que inclui estas passagens do discurso de Zyuganov é por que, nas entre linhas, encontram-se pontos de vista aproximados aos de Putin que o PCP parece perfilhar fazendo-o através de narrativas travestidas que não evidenciam substância e cuja conversa é apenas o que está na superfície para convencerem e apelar a potenciais adeptos.


Mais recentemente numa intervenção num comício no dia 1º de Maio de 2022 o líder do PCFR, Gennady Zyuganov, afirmou que “agora na Ucrânia, a Rússia está a lutar principalmente por um mundo multipolar. “Estamos lutando pelo mundo russo, porque o mundo russo não está nos planos deles”.


A propaganda de Putin tem conseguido ter eficácia junto dos seus agentes e adeptos no ocidente e tem como grande aliado o Partido Comunista de Federação Russa. Comparando tantas opiniões, até da esquerda, que se indignam contra a incapacidade de alguns em condenar uma agressão imperialista assinada por um regime autocrático, verifica-se de facto quem está a fazer uma “tentativa de impor, à escala do povo, um pensamento único”, na Rússia e também aqui em Portugal.


Há pessoas que parecem ser crédulas por vontade própria que se deixam contaminar por invenções demasiado extraordinárias para que sejam autênticas veiculadas pelos canais de propaganda de Putin, tais como a da necessidade de desnazificar a Ucrânia, os laboratórios onde se preparam armas químicas na proximidade da Rússia, o genocídio dos que falam russo. O que está a acontecer é que, na minha opinião, a invasão da Ucrânia, serviu para mascarar as fraquezas internas da Rússia por ele causadas. Quem nos pode garantir que os que escrevem contra o ocidente apoiando as retóricas de Putin é que estão na posse da verdade e que todas as outras são mentiras?

quinta-feira, 8 de outubro de 2020

A propósito de Trump e das eleições nos Estados Unidos da América

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Consideram-se deuses na terra, abençoados por Deus ou, ainda, profetas conduzidos por Deus para salvarem o povo. Donald Trump insere-se ele próprio neste perfil para poder iludir o povo dos Estados Unidos da América e os evangélicos dão-lhe também uma mãozinha.


Numa peça de reportagem televisiva após ele ter saído do hospital onde presumivelmente terá estado ou ainda está com a covid-19 ouve-se alguém, uma voz de homem a gritar vivas a Tump e a dizer “eu dava a vida por este homem!”. A onde chegou o povo e o desespero que leva os homens a acreditar em algo tão abjeto.  


A presidência de Donald Trump nos Estados Unidos da América tem sido, e ainda é, um pesadelo para a maioria real dos cidadãos americanos. Foi, de certo modo, um choque social explorado para obter vantagens sobre uma população desorientada pelos discursos populistas de quem escolheram para os liderar.


Em livros, documentários, artigos de opinião, notícias factuais e reportagens de investigação podem observar-se várias tendências como imposição de marcas, ascendência e influência de grandes fortunas sobre o sistema político e imposição global do neoliberalismo servindo-se do racismo e do espetro do medo do “outro”, causador da insegurança.


Trump é uma espécie



de monstro contruído com diversos pedaços de várias tendências perigosas de cariz racista e extremista fazendo uma espécie de guerrilha a tudo o que seja benéfico para a sociedade americana e global como sejam as leis antipoluição e programas humanitários que são trocadas pelo poder e a liberdade para as grandes empresas num sistema corrupto que é implantado à custa do dividir para reinar e através de espetáculos sistemáticos de distração mediática.


Não é desconhecido que o governo de Trump é formado por multimilionários proprietários de grandes empresas multinacionais assim como sujeitos da Goldman Sachs, o que é revelador dos objetivos pretendidos que era desconstruir o Estado administrativo que tem função proteger os cidadãos e os seus direitos. A obsessão pelo lucros levou Trump a nomear como vice-ministro da Defesa Patrick Shanahan que entretanto se demitiu do cargo e que era um alto executivo da Boeing que foi responsável pela venda de dispendioso material de guerra às forças armadas dos EUA e também dirigiu o programa de mísseis balísticos da Boeing cujos lucros subiriam se se fizesse subir as tenções internacionais aumentassem sob a presidência de Trump.


Trump nomeou após a tomada de posse Steven Mnuchin para secretário do Tesouro, entregando outro cargo importante na administração cuja principal qualificação é a lealdade pessoal a Donald Trump. Mnuchin é um banqueiro que trabalhou para a Goldman Sachs e não tem experiência em política ou política. Suas opiniões sobre as questões são um mistério total e completo e, de facto, a sua própria nomeação foi contra grande parte da retórica de Trump durante a campanha. Gary Cohn ex-diretor de operações do Goldman Sachs foi nomeado para diretor do Conselho Económico Nacional da Casa Branca pata iniciativas económicas, que   em março de 2018 renunciou ao cargo  de principal conselheiro económico de Trump, após discordar da decisão do presidente de impor tarifas sobre as importações de aço e alumínio.


Os pilares do projeto político de Trump são a destruição do papel regulador do Estado, o ataque ao Estado-providência e serviços sociais (Estado Social), supressão e descrédito da ciência climática, guerra contra imigrantes, incitamentos belicosos ao medo racial. É um projeto destinado a criar ondas de crise e de choque. Não estão excluídos os pretextos para a declaração de alguma espécie de estado de exceção ou de emergência para restringir as regras habituais que deixariam de vigorar. Projeto inserido numa agenda de Trump que requerem suspensões de normas democráticas fundamentais tais como as ameaças por ele já declaradas de chamar o exército para dominar a violência nas ruas, e o seu desejo de impor restrições à imprensa.   


Quando nos encontramos num estado de choque intencionalmente provocado em que há uma lacuna entre os acontecimentos e a nossa capacidade imediata de os explicar e à falta de uma narrativa explicativa as pessoas tornam-se vulneráveis e a autoridade de liderança nos dizem para termo medo e desconfiarmos uns dos outros aceitamos a pedido que abdiquemos dos nossos direitos em nome de todos e de um bem maior a segurança.


Trump "transformou o discurso retórico em uma forma de arte" e usa muitas palavras e palavras curtas para transmitir seu ponto de vista, é esse para alguns o seu segredo comunicativo, pessoas incultas e pouco exigentes apreciam um discurso “oco”, simples com palavras curtas e repetitivas.


Não é difícil reconhecer as marcas de um discurso do presidente Trump. Ele adota frases e repete-as indefinidamente. Ele marca frases com um punhado de superlativos e adjetivos exclamativos como “Ótimo!”, “Errado!” “TRISTE!”, “Fantástico”, “Formidável”, “Fake News”, “Embuste (hoax), mais de 250 vezes este ano”, faz promessas e garantias que não são mais do que verbalizações.


O palavreado de Trump é muito forte apesar de nem sempre ser apreciado por alguns setores do seu público, mas que tem um certo impacto. De certo modo porque esses mesmo setores pensam que ele “é igual a todos nós”, isto porque tem um repertório de palavras que aparece sempre na sua linguagem cotidiana.


A presunção de Trump ou, se quiserem, fanfarronice, é tal que afirmou em determinada altura que: “Só eu posso consertar” e não consigue admitir que não seja ele a pessoa que ajudará a superar a pandemia. Mesmo com a vacina para a qual tantos trabalharam e trabalham, Trump fabricou um argumento para tentar demonstrar que é ele quem merece o crédito.


A Revista Science de 1 de outubro de 2020 publicou um editorial onde recorda as palavras destrutivas de Trump quando os cientistas tentaram dizer-lhe que uma crise estava a aproximar-se quando disse que “eles preparam uma nova farsa". Quanto ao número extraordinário de vidas perdidas, afirmou que: “é o que é”. O plano de Trump para vencer o vírus era simplesmente dizer que “como um milagre, ele desaparecerá”. E quanto ao seu papel como líder de um país em crise, ele disse: “Não, eu não assumo nenhuma responsabilidade”. É seguro dizer que os presidentes Roosevelt, Kennedy e Reagan teriam dito algo mais reconfortante e profundo do que coisas como estas.


Mary Trump no seu livro “Demasiado e Nunca Suficiente – Como a minha família criou o homem mais perigoso do mundo”, publicado recentemente, afirma que a eventual reeleição de Donald Trump, nas eleições de 3 de novembro, significará o fim da democracia nos Estados Unidos. Numa entrevista ao jornal Público a esta questão a autora do livro, afirma que “Para eles, não existe nenhum limite. O Partido Republicano, tal como está actualmente constituído, não tem sentido de decência nem de honra. Se eles sentirem que é do interesse deles apoiar as queixas do Donald, vão fazê-lo. Tudo se resume à manutenção do poder pelo poder.”


Se combinarmos as psicopatologias do Donald e o acesso que ele tem ao poder, temos uma situação muito perigosa. Ele não tem qualquer controlo sobre os seus impulsos e não tem empatia. É mesmo muito assustador.


Os eleitores quando vão às urnas colocar o seu voto preocupam-se pouco em saber qual o perfil da pessoa em quem votam. Apenas sabem que é um fulano que fala bem e diz o que nós queremos ouvir. Este desinteresse pode fazer toda a diferença nos anos seguintes à sua eleição.


Há várias análises e estudos psicológicos do perfil de um ditador e todos apontam para os mesmos sintomas.  O ditador tem tendência para se agarrar ao poder. Tenta por todos os meios calar os críticos imprensa,  televisão e opositores ameaçando-os com demissões, encerramento mas, por outro lado, financia tudo quanto faça propaganda do regime, veja-se o caso de Donald Trump nas conferências de imprensa quantas vezes deixou de responder às perguntas dos jornalistas e até mandar estarem calados e acusando órgãos de comunicação social credenciados e de referência de lançarem para o ar notícias falsas.


Um ditador julga-se perfeito, nunca assume os seus erros culpa outros do tudo o que de mal acontece. Faz discursos empolgantes de dedo em riste apontando em todas as direções, culpabilizando todos menos ele para assim provocar a revolta das massas a seu favor. Não perde uma oportunidade de lançar ameaças quando alguém, mas pelo contrário quando a decisão lhe é desfavorável é a justiça que não presta.


Enleva a população com os seus discursos inflamados de ódio dividindo para tê-la sempre à mão, esquecendo o povo quando está a gozar dos privilégios que o cargo lhe confere. Perde, por vezes, o controle ameaçando todos os que não lhe prestam vassalagem, podendo de seguida dar o dito por não dito.


Tenho a convicção de que apesar de Trump ter tendências para o poder absoluto e para o autoritarismo e de o podermos incluir no perfil de um ditador  pelo seu ego estar próximo de alguns do passado, mesmo que apoiado pelos republicanos  os EUA têm mecanismo da defesa democrática mesmo que debaixo de um neoliberalismo feroz e não estou a vê-los a enveredarem pelo caminho de ditaduras ou sequer do fascismo.


Sabemos que foi no seio das democracias que nasceram e se reproduziu em alguns países o fascismo, o nazismo e a autocracia que atribui o poder absoluto e ilimitado a quem detém o poder. Estas conceções de poder estão de regresso renovadas no populismos e aproveitando as liberdades possibilitadas pelas democracias para novamente emergirem, nus casos de forma subtil, noutros vão sendo aceites, não sem revolta dos seus povos em países que, no passado, se insurgiam contra o totalitarismo leninista-estalinista sob domínio da ex-união soviética.


Há países que se apresentam como exemplos da defesa das liberdades e da democracia, mas que, ao mesmo tempo, apoiaram ditaduras selvagens noutros países com intuitos de defesa dos seus interesses económicos e geoestratégicos, muitas vezes até desencadeando e dando apoio a fações em guerra regionais. Os Estados Unidos da América é o país que mais se exemplifica como o espaço é vivido em liberdade e em democracia liberal.


Em época da proximidade de eleições nos EUA e durante os últimos quatro anos o que verificámos foi a tentativa de cavalgamento da autocracia e dos interesses individuais de um presidente para impor a sua vontade e o culto da personalidade sobre a democracia.


Este pressuposto conduz-nos por associação a regressar ao passado desconhecido dos mais jovens a quem na prática lhes é restringido o acesso à história dos finais do século XX, quando a Europa ficou sujeita a ditaduras totalitárias.  


As organizações totalitárias de governo são ditaduras impostas por um só partido, nacionalista, racista, militarista e imperialista. São consideradas como formas de política a ser exercida por um Estado com o objetivo da sua expansão através de captura territorial ou pelo domínio económico, político e social sobre uma população ou sobre outros Estados.


A primeira nação a tornar-se fascista na Europa foi a Itália em 1922 a que seguiu a Alemanha em 1933 altura em que nos EUA governava o presidente Franklin Roosevelt que teve como objetivo recuperar e reformar a economia norte-americana, após a grande depressão.  


Uma ditadura pode estar apoiada no prestígio pessoal do ditador que pode ter ou não o apoio do povo que pode não ser a maioria. Um sistema deste tipo pode nascer num país com ou sem qualquer experiência democrática.


A experiência do passado demonstrou que, quanto mais violentos e de aplicação do terror forem os movimentos fascistas mais existe a tendência para terem um grande apoio popular. Na sua altura e de início o nazi/fascismo na Alemanha foi o mais brutal e o mais popular. Na Itália menos brutal e menos popular, com Mussoli. As ditaduras de Espanha e de Portugal foram as mais tradicionais e moderadas e assentavam nas forças da burocracia e do exército.


As sociedades mais desenvolvidas e industrializadas provocam tensões económicas e sociais que normalmente são tratadas por um processo liberal ou por um processo totalitário. O fascismo é o método totalitário de resolver conflitos dentro de uma sociedade evoluída que, atualmente, voltam a ser sujeitas a pressões económicas e sociais contraditórias.


O totalitarismo nazi na Alemanha não chegou ao poder por um golpe de estado ou militar. No partido nazi entre 1919 e 1932 havia filiados de todos os grupos sociais. Entretanto os votos no partido nazi cresceram entre 1932 e 1933 levando o nazismo ao poder através de eleições.


Questiona-se como foi possível tal subida e a chegada ao poder do partido nazi. Havia um terreno fértil para o crescimento das ideologias totalitárias e dos partidos nacionalistas devido a uma profunda crise económica. O partido nazi, criado em 1920 começou como um pequeno partido sem expressão eleitoral, apelava ao nacionalismo através de um discurso xenófobo, populista e autoritário aproveitado pelo crescente descrédito dos partidos tradicionais incapazes de resolver os graves problemas do país. Após sucessivas eleições e crises políticas marcadas por uma crescente instabilidade e violência, o partido de Hitler conseguiu finalmente uma posição de vantagem eleitoral, afirmando-se como a principal força política da Alemanha. (Para saber mais consulte 2019, James Hawes, A Mais Breve História da Alemanha e Jason P. Coy, A Brief History of Germany, 2011).


Em países com experiência democrática implantada há um longo período não havia a probabilidade de um qualquer triunfo de partidos fascista e de extrema-direita, mas estes começaram a surgir nas últimas décadas à luz da democracia apresentando-se a concorrer às eleições em alguns países da Europa.  São exemplos a França (Rassemblement National de Le Pen), Suécia (extrema-direita, representada pelos Democratas Suecos, partido com raízes neo-nazis), Holanda, com Fórum pela Democracia (FVD), Reino Unido, Itália com o Liga, Alemanha com a AfD, e o Estados Unidos da América, entre outros,


Nos países de fortes tradições liberais e democráticas surgem quando a democracia está em risco de se tornar mais fraca e bastam o poder financeiro e económico, proprietários de grandes grupos económicos, para fornecerem fundos para movimentos fascistas ou pró-fascistas.


Onde a pressão da opinião pública é fortemente democrática e liberal os grandes proprietários de grupos económicos acham que não é boa estratégia apoiar grupos fascistas, mas quando as tradições e instituições democráticas forem frágeis esses mesmos líderes acham que é possível colocarem-se ao lado de causas fascistas.


O fascismo e a extrema-direita jogam habilmente com a inveja entre classes e grupos sociais (idêntico aos partidos comunistas radicais) e, ao mesmo tempo, fazem propaganda contra as grandes empresas, contra a corrupção, imigrantes, políticos, etc. Uma segunda origem importante para o surgimento e apoio ao fascismo, e numericamente a mais importantes, está nas camadas mais baixas das classes médias que detestam a possibilidade de se juntarem ou aproximarem aos assalariados das classes mais baixas e consideram o fascismo a salvação dos seu prestígio e situação na hierarquia social.


O empregado assalariado sente “inveja” das grandes empresas onde ele gostaria de subir a um degrau mais elevado da escala salarial e de chefia que seria um elevador social receando ao mesmo tempo a descida ao mundo do assalariado mais baixo para onde receia de descer.


Pelo que vamos observando na Europa e nos EUA não é desproporcionado o receio pelo que está a acontecer, embora em contexto socio políticos muito diferentes dos casos surgidos nas primeiras décadas do século XX.


Na Europa recente vemos governos democráticos cujos líderes enveredam por atitudes políticas com proximidades que denotam influência ou carácter fascista, como é o caso da Hungria de Viktor Orbán que, desde 2010, é primeiro-ministro e líder do Fidesz, um partido nacional-conservador de direita ou como a Bielorrússia de Aleksandr Lukashenko  talvez o último ditador da Europa no poder há cerca de 26 anos. Das cinco eleições vencidas por Lukashenko, apenas a primeira foi considerada livre e justa por monitores internacionais. Há ainda nos países da União Europeia partidos da extrema-direita nacionalista e populista que na última década do século XXI têm vindo a crescer e outros que têm surgido como novos partidos cuja lema está situado no espetro com franjas aparentadas às defendidas pelo nazismo. 


O caso dos EUA é sui generis, a ansiedade de preservar a posição social ameaçada é utilizada como a força psicológica mais explorada pela direita republicana e pelos grupos radicais extremistas e racistas da extrema-direita (grupos mais ou menos fascistas e fascizantes). A exploração dessa ansiedade concentra-se no poder do trabalho organizado que é considerado uma ameaça para o status quo existente.


 Na sensação de ser inútil em situação de desemprego ou por qualquer outro motivo, como por exemplo a aposentação e a de estarem fora das camadas respeitáveis da sociedade, é onde os radicais extremistas vão recrutar elementos oferecendo-lhes algo que os faça sentir iguais entre os iguais, dizendo-lhes que é membro de uma raça ou país superior devolvendo-lhe a ficção de alguma dignidade que sentiram perder. O sentimento de frustração, ressentimento e insegurança é onde os de pretensões mais ou menos totalitárias podem transformar com facilidade a desilusão em ódio e agressão quer contra inimigos externos como internos.


A propaganda republicana dos EUA atualmente apoiada a descoberto pelos partidos de extrema-direita, xenófobos e racistas concentram as suas atenções no receio dos brancos pela subida dos negros na escala social. A atual presidência tem-se concentrado e explorado a hostilidade racista que é mais forte nos grupos cujo sentimento de insegurança das camadas mais baixas da classe média do que nas classes média e superior de nível de instrução mais elevado e melhor nível de vida.


Presentemente nos EUA há milícias armadas em espera de organização que se podem assemelhar às SA , "Divisão de Assalto", utilizadas no tempo do nascimento do nazismo na Alemanha na década de 1920 e 1930 que eram uma  organização paramilitar cujos métodos de intimidação violenta desempenharam um papel fundamental em fornecer proteção aos comícios e assembleias nazis.


Aliás a melhor prova é a que foi veiculada pelo próprio Donald Trump no debate de 29 de setembro ao Trump ameaçar atiçar extremistas nas eleições caso perdesse as eleições. O presidente, em vez disso, usou o tempo que lhe foi concedido para culpar o que chamou de "antifa e a esquerda" pela violência e para dizer aos Proud Boys para "recuarem e aguardarem".


Membros do grupo de extrema direita os Proud Boys de seguida celebraram com comentários feitos pelo presidente Donald Trump depois de ele ter sido instado  a condenar os supremacistas brancos, e recusou fazê-lo, durante o debate presidencial.


Segundo o jornal francês Figaro os Proud Boys são uma organização americana de extrema-direita, que se autodenomina uma fraternidade, que assume posições pró-Trump". A organização foi descrita como “um grupo de ódio” pelo Southern Poverty Law Center, uma associação que monitoriza grupos de extrema-direita".


A esperança é que os EUA continuam como até à chegada ao poder de Trump continue a ser um país de democracia liberal e defensores das liberdades, embora que sobre estes aspetos as ideologias tenham ainda muito a dize e a discutir.