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quarta-feira, 5 de fevereiro de 2025

A Iniciativa Liberal e a sua demagógica cultura do mérito

Iniciativa Liberal-mérito.png


A propósito da Convenção da IL que decorreu no fim de semana de 02/25 veio-me à memória a cultura do mérito tão do agrado nas intervenções do partido. Rui Rocha afirmou que “quem tem mérito não entrega a maior parte do seu trabalho ao Estado”, o que pode significar que quem trabalha no Estado não é avaliado pelo seu mérito, ou, na pior das hipóteses não tem mérito.


Em 2023, na Madeira, a Iniciativa Liberal (IL), pela voz da sua ‘número quatro’, Madalena Santos, denunciava ‘a promoção do carreirismo’ na Região, defendendo como alternativa o ‘mérito’ e a ‘capacitação’.


O mérito é uma das palavras que consta em vários pontos do programa do partido embora com diferentes sentidos e contextos, colocando grande ênfase nessa valia. Para a IL o mérito é fundamental numa sociedade para que o esforço individual e a competência sejam recompensados.


Há uma boa dose de utopia nas propostas e no programa do partido IL ao assinalar que “No país que queremos construir, a cultura do mérito derrotará a cultura do compadrio. Qualquer que seja a função, se não forem os melhores a desempenhá-la perdem os próprios, mas perde sobretudo o país.”.


“Os portugueses não podem ser punidos pelo seu mérito, pelo seu sucesso e pelo seu trabalho. Queremos por isso recuperar uma cultura de sucesso - sucesso esse que os portugueses conhecem fora do país, onde são mais produtivos, reconhecidos e recompensados, optando frequentemente por não voltar.”


Vejam-se ainda algumas citações do Programa Eleitoral Legislativas 2024 da Iniciativa Liberal:


“… para tal, será necessário criar carreiras atrativas do ponto de vista da remuneração, do reconhecimento do mérito e da qualidade de serviço, de métodos de avaliação transparentes e contínuos…”


“… deve alterar-se as regras de progressão automática na carreira,


passando a progressão a alicerçar-se em critérios de mérito e qualificação profissional”.


“O recrutamento para a Administração Pública deve basear-se no mérito e na efetiva igualdade de oportunidades, através de uma avaliação que será feita por painel independente da CRESAP, com recurso a profissionais de reconhecido mérito nos diversos sectores”.


Como tem sido defendido pela IL um dos princípios fundamentais do liberalismo é a redução do Estado às suas funções mínimas deixando à iniciativa privada e empresarial muitos dos serviços prestados pelo Estado onde parece a meritocracia não impera.


Na saúde diz querer “promover a liberalização da saúde em Portugal, promovendo um vigoroso mercado que atenda às necessidades dos portugueses”.


Na educação pretende uma “reforma da Educação em Portugal, que passa por mudar o financiamento do Estado para o financiamento do aluno, o que permitirá às famílias poderem matricular os seus filhos nas escolas que quiserem, sejam públicas, privadas ou sociais, sabendo que são igualmente comparticipadas pelo Estado”.


Na Segurança Social “defende uma reforma, sobretudo no que diz respeito ao seu financiamento, que passa por…, acrescentar uma componente de capitalização para aumentar a segurança das pessoas, e desonerar outros instrumentos de poupança. A Iniciativa Liberal entende igualmente que a prestação de assistência social deve… recorrer mais a prestadores privados e sociais”.


Nas Empresas Públicas “defende que o Estado não deve politizar a economia, e não deve interferir, como participante, em mercados competitivos, como são a banca, os transportes, a comunicação social, e tantos outros. O Estado deve sim assegurar a livre iniciativa, mercados abertos e competitivos, as liberdades e direitos dos envolvidos.”.


Na Assistência Social “defende que a assistência social aos mais desprotegidos é uma atividade que deve ser desenvolvida ao nível mais local, e deve envolver entidades privadas e cooperativas…”.


Nesta sequência deduz-se que o mérito será um fator da qualidade daí resultantes e a IL pretende que deixe de ser ao nível do compadrio e se alterem as regras de progressão automática na carreira, passando a progressão a alicerçar-se em critérios de mérito e qualificação profissional.


Deixa transparecer que o preenchimento de lugares no Estado e a admissão e a progressão das carreiras são por “cunha” e por vias em que o mérito não é tomado em consideração.


No entanto, uma análise sobre o que se passa no sistema empresarial privado, o mérito também não é sempre considerado o elemento primordial para a admissão e progressão nas carreiras. Muitas vezes, fatores como conexões pessoais, preferências subjetivas e até preconceitos inconscientes podem influenciar essas decisões. Embora a Iniciativa Liberal defenda firmemente a integração do mérito como a base para o recrutamento e progressão, é reconhecido que a implementação prática desta ideologia enfrenta desafios substanciais. As admissões e progressões nas carreiras estão também muitas vezes subordinadas à vontade dos empresários e ao compadrio. Todavia a proposta da IL é que, em qualquer função, os melhores devem ser escolhidos para desempenhá-la, garantindo assim o progresso e o desenvolvimento do país.


O conceito de mérito é amplo sendo muitas vezes alvo de interpretações variadas e, por isso, pode ser extremamente subjetivo e sujeito a pontos de vista ideológicos. A subjetividade do mérito pode ser também influenciada por vários fatores, incluindo contextos culturais, históricos e sociais. Outra questão é o de como se pode avaliar o mérito.


Avaliar e medir o mérito pessoal e profissional pode ser um processo multifacetado e devem ser considerados alguns aspetos-chave. Além disso, a avaliação do mérito pode estar imbuída de preconceitos inconscientes, influenciando os julgamentos de capacidade e desempenho. Ao avaliar o mérito, surgem perguntas inevitáveis: Quem define o que constitui mérito? Quais são os critérios objetivos e subjetivos utilizados? E como se pode garantir que esses critérios sejam aplicados de forma justa e equitativa?


O conceito de mérito gira em torno da ideia de que os indivíduos devem ser recompensados com base nas suas aptidões, esforços e realizações, e não em fatores arbitrários, como status social, riqueza ou relacionais. A meritocracia, um sistema construído sobre esse princípio, teoricamente visa criar uma sociedade justa, onde oportunidades e recompensas são distribuídas de acordo com o mérito de cada um. Assim, numa meritocracia, aos indivíduos são concedidas posições de poder, influência ou recompensa apenas com base nas suas competências e realizações e não com base na sua origem social, cultural, económica ou características pessoais irrelevantes. Pressupõe a possibilidade de igualdade de oportunidade, isto é, as pessoas devem ser capazes de competir em igualdade de condições por cargos e posições vantajosas.


Num sistema meritocrático, vários elementos-chave de com base no seu desempenho, habilidades e contribuições. Isso requer métodos de avaliação transparentes e imparciais, como testes padronizados, avaliações de desempenho e critérios entram em jogo que são difíceis de implementar para que se evitem os problemas enunciados pelo partido IL, todos eles são falíveis e podem não conduzir à justiça desejável. 


É quase impossível praticar a meritocracia quando o tecido empresarial privado é dominante e se requer responsabilidade em todos os níveis, líderes e decisores que devem ser responsabilizados pelas suas ações e decisões, garantir que eles ajam no melhor interesse da comunidade. Não é claro que na complexidade do sistema privado e liberalizado as oportunidades de formação, orientação e desenvolvimento de competências para ajudar os indivíduos a atingir todo o seu potencial possa ir no sentido de contribuir de forma mais eficaz para a sociedade.


Embora o conceito de mérito seja atraente, implementar uma verdadeira meritocracia pode ser um desafio, mas fatores como normas e procedimentos estabelecidos que favorecem certos grupos de pessoas sobre outros, geralmente de forma inconsciente ou implícita. Podem surgir desvios em várias áreas, como emprego, educação, justiça criminal e saúde, e podem perpetuar desigualdades baseadas na raça, género, classe social, orientação sexual, entre outros. Combater esses desvios exige uma revisão crítica e contínua das práticas e políticas existentes para garantir que promovam a justiça e igualdade para todos. Não se vê, portanto, como a IL possa modificar uma estrutura minada pelos desvios para implementar o referido mérito no sistema empresarial privado e público.


Como conclusão, a difusão da mensagem da IL sobre o mérito é de caráter doutrinário, simplesmente partidário e demagógico não tem uma aplicação prática e tão fácil como este partido pretende divulgar.

quarta-feira, 15 de maio de 2024

Nós os jovens e eles os velhos frente de confronto geracional?

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No documento Eurobarómetro sobre Juventude e Democracia emitido pela Comissão Europeia mostra que, em Portugal, 77% dos jovens até aos 30 anos tencionam votar nas eleições europeias de 9 de Junho, e que apenas 5% manifestam não tencionar votar.


Não é por acaso que os partidos políticos mais representativos estão a dirigir nos seus discursos mensagens e promessas para os jovens de tal modo que parece que em política passou a valer tudo. Não há ética, não há moral, não há contenção de palavras no discurso político, não há verdade, mas há simulação, há intenção de conflito, há hipocrisia.


O cabeça de lista da IL às europeias, Cotrim de Figueiredo, apresentou este domingo o manifesto para as eleições de 9 de junho que vai servir para a campanha eleitoral das europeias. Informou-nos, mal, sobre o que pretende fazer na EU. Uma das suas preocupações para atrair os mais jovens abriu a porta para um conflito mesmo que implícito e para gerar animosidades para com os mais velhos e para com os que ainda trabalham, quer no que respeita a pensões, quer no que respeita a manutenção dos postos de trabalho.


Para dar mais força ao que pretende e utilizando um seu caso pessoal fez a seguinte afirmação:  “Eu, que sou de outra geração mais velha, tenho de vos dizer isto com clareza: estamos a assistir a uma brutal transferência de riqueza dos mais jovens para os mais velhos, porque os interesses instalados não querem mudança”. E mais disse o  candidato a eurodeputado pela IL-Iniciativa Liberal defendendo que não é aceitável que “não se mexa no sistema de pensões” porque, considera Cotrim, se está a “hipotecar as pensões futuras” e acrescentou ainda que é inaceitável que “não se mexa na legislação laboral que protege os que têm emprego e ignora quem não tem, em especial os jovens”.


São palavras que geram conflitos geracionais que polarizam partes da sociedade. Há muito tempo, e já não é novidade, que se deve fazer algo no sistema de pensões, mas tal deve ser feito sem prejuízo de uns em benefício de outros.


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O que a IL pretende é que o sistema público de proteção social, nomeadamente de pensões, seja privatizado. A privatização do sistema público de pensões para o qual se contribui durante toda a vida profissional tem como finalidade a passagem para fundos privados das contribuições e de outras variáveis de desconto de que as pessoas irão beneficiar após a sua reforma sob a forma de uma pensão. É evidente que empresas privadas de gestão desses fundos têm na mira esses sistemas porque são altamente lucrativos.


Mas, os sistemas de pensões privatizados podem trazer atrás de si problemas graves. Não nos podemos esquecer, como já aconteceu noutros países, que houve situações de falcatrua e falências que prejudicaram os pensionistas. Alguns exemplos do tipo de gestão privada dos sistemas de pensões mostram haver perigos evidentes. Por exemplo, um trabalhador ou trabalhadora   que tenha contribuído durante toda sua vida para um fundo privado de pensões duma empresa e aos 64 anos, ou na proximidade da reforma, a empresa entra em dificuldades financeiras ou falir devido ao efeito de contacto global o fundo de pensões a ela ligado e o dinheiro da poupança feito durante mais de 30 anos “evapora-se”, é apagado, isto é pode ser perdido.


Um facto relacionado com esta situação foi o que aconteceu em março de 2013 foi a queda do Silicon Valley Bank nos EUA. Esta queda levou à perda de milhões de dólares pelos fundos de pensão em todo o mundo. No banco que, entretanto, faliu fora investido vários fundos, tais como o Fundo de Pensão para Funcionários Públicos da Califórnia (CalPERS), Fundo de Pensão de Professores do Estado da Califórnia (CalSTRS), Serviço Nacional de Pensões da Coreia do Sul (NPS) e o fundo de pensão sueco Alecta. Pode confirmar aqui.


O aliciamento para o voto na AD também é feito aos idosos e aos reformados que recebem pensões, por isso, Luís Montenegro anunciou que o Governo aprovou com efeitos imediatos um aumento de cerca de 50 euros do CSI-Complemento Solidário para Idosos para os 600 euros face ao valor atualmente em vigor que é de 550,67 euros, anúncio oportuno um mês antes das eleições europeias. 


Mas regressemos aos jovens a quem, como afirmei anteriormente, todos os partidos se dirigem com o intuito de os aliciar para a captação de votos e ao mesmo tempo reclamam-se precursores das suas necessidades fazendo as mais diversas promessas que não passam de intenções.


Desconhecemos qual é o conceito de jovem para os partidos, mas segundo têm afirmado parece que têm como referência para jovens o intervalo na faixa etária dos 18 aos 35 anos. Neste intervalo cabem os muito jovens que atingem a maioridade, com as mais várias ocupações e sem ocupações.


É na área fiscal que alguns partidos incidem as suas propostas no intuito de aumentar o rendimento líquido que os jovens recebem. Os que têm ocupação, parece claro. São temas recorrentes o da habitação e o da fiscalidade.  Foi promessa da AD que, se governasse, os jovens até aos 35 anos, parece excluírem-se os sem ocupação(?), que pagariam uma taxa máxima de IRS de 15% e ficariam isentos do pagamento de IMT. E justificava a AD que “não quer um país em que um terço dos jovens tem de viver fora”. Todos? Mesmo?


A habitação é outro tema central das promessas eleitorais dos partidos. AD propõe “libertar” as faixas etárias mais novas (quais?) do imposto de selo e do Imposto Municipal sobre Transmissões (IMT) na compra da primeira casa e, ainda, dar uma garantia pública para viabilizar o financiamento bancário da totalidade do preço da mesma. Faixas etárias mais novas? O que considera a coligação as mais novas no intervalo 18 aos 35 anos? Outros partidos sugerem casas do Estado em lugar ao (des)congelamento de rendas.  Quem são os jovens com pouca liquidez que assumem o risco de fazer um contrato de arrendamento para se candidatarem. Segundo a AD e com a reformulação do programa Porta 65 “Este programa deve ter como ponto de partida a garantia pública de atribuição à família do apoio, que depois procurará uma habitação compatível e verá o apoio expresso na comparticipação de rendas e eventual empréstimo de cauções”.


Linhas de crédito específicas e taxas de juro bonificadas para os empréstimos concedidos a jovens até aos 35 anos, (mais uma vez, todos?) “tornando o financiamento mais acessível e criando condições flexíveis para a concessão de crédito”.


Esta é da Iniciativa Liberal que diz que deve ser criadas “condições para que os jovens portugueses saiam mais cedo de casa dos pais”, e, por isso, propõem uma redução do IVA da construção dos atuais 23% para a taxa mínima de 6% para edificado novo, eliminar o IMT na compra de habitação própria permanente, aumentar as deduções em IRS das rendas e dos juros dos créditos à habitação, isentar o arrendamento e as transações imobiliárias de imposto de selo e reduzir o imposto sobre as rendas para uma taxa máxima de 14,5%. “Se a habitação é um bem essencial, não pode ser taxado como bem de luxo” defende a IL.


Parece-me que todas estas medidas são devem ser para proporcionar condições especiais aos filhos das famílias de posses e mais abastadas. Será que também está agora na moda housing for the boys?


Nada tenho contra os jovens, mas todos os partidos, da extrema-esquerda à extrema-direita, na última campanha eleitoral para as legislativas passaram a referir e a interessar-se pelos jovens, consideram-nos como uns coitadinhos que precisam de ser apoiados e, de facto, precisam, mas em quê? Será que é em tudo o que seja facilitismo?


Os partidos da esquerda à direita produzem discursos de pregadores que incentivam e agravam o conflito intergeracional porque, segundo eles os velhos, estes, os ditos instalados na vida, que gastaram a sua juventude e viveram uma vida de trabalho sem os facilitismos da atualidade. São esses velhos (pais e avós) que estão a proporcionar com grandes sacrifícios uma vida fácil aos jovens.


Há políticos tal com Cotrim de Figueiredo que acima referi que querem ressuscitar o tema da “peste grisalha” do tempo de Passos Coelho quando  Carlos Peixoto do PSD referiu, num artigo no jornal “i” no dia 10 de janeiro de 2013 com o título “Um Portugal de cabelos brancos” onde a dada altura, escreveu, “a nossa pátria foi contaminada com a já conhecida peste grisalha”. Justificou-se depois que foi em determinado contexto, talvez, mas disse-o.


No discurso que o agora primeiro-ministro Luís Montenegro traçou na tomada de posse, entre outras prioridades, referiu-se também aos problemas dos jovens. E, para demonstração do seu interesse por esta grupo social coloca como cabeça de lista para as eleições europeias o jovem Sebastião Bugalho de 28 anos que passa de comentador para político, isto é, arranjou um job for a young boy.


O descontentamento dos jovens é, não raras vezes, induzido pelos partidos políticos que sabem não ser fácil resolver-lhes os problemas que dizem enfrentar pretendem, na sua propaganda, mostrar interessar por eles. A extrema-direita e também a extrema-esquerda também estão em força para os mobilizar e, para tal, seguem a via mais fácil porque sabem que os extremismos fazem parte do crescimento dos jovens.


Os jovens sempre passaram e também alguns menos jovens passam por fases de extremismo, radicais até, nos seus comportamentos, atitudes, pontos de vista e luta por causas, mesmo no que à família diz respeito. Para estes os pais nada sabem, mas eles sabem tudo e pretendem tudo já, vivem no domínio do já. Contudo, temos de distinguir entre os comportamentos normais. O extremismo como atitude psicológica nos jovens deve ser avaliado com sensibilidade, considerando o contexto e a diferença entre comportamentos normais e preocupantes. Os jovens enfrentam desafios como identidade, desejos de independência, relações interpessoais e pressões sociais.


Nestes tempos conturbados e difíceis há interesses que os jovens mais apreciam e de que sentem necessidade para além da habitação e outros que consideram essenciais porque os jovens têm a cultura do imediatismo. Para eles é preferível viver o agora e a qualquer custo e nem a vontade e a necessidade das outras pessoas lhes interessa. Há uma perceção equívoca de que tudo tem de ser para agora. Para eles o presente não é consequência do passado e tanto faz o que se fizer hoje, só o agora interessa e é suficiente. Neste sentido há uma ânsia crescente por ter coisas para já e de resolver todos os problemas imediatamente.


Apesar de correr o risco de uma generalização e tirar  uma conclusão apressada, sem uma validação do universo de observação, tenho a perceção de que os jovens procuram tudo o que mais anseiam e de imediato: emprego, refiro propositadamente emprego e não trabalho, este sem esforço e com bons salários, divertimentos a que têm direito q.b. e nisso estou de acordo, habitação fácil e barata, telemóveis de topo de gama para se intoxicarem nas redes sociais e com notícias, por vezes falsas, conteúdos destituídos de qualquer ética estrategicamente compostos visando os interesses dos influencers, a procura intensiva de concertos Rock e Pop, cujos bilhetes de entrada se esgotam num piscar de olhos, concursos de shots no bares e discotecas e, nos fins de semana, restaurantes onde as bejecas e os shots saem em catadupa.


Mas, alegremo-nos, afinal, não são apenas os nossos jovens, os portugueses, os estrageiros também se misturam nesta orgia consumista que, se por um lado faz girar a economia, por outro os intoxica.

sexta-feira, 8 de março de 2024

Os jovens esses coitados. Diz a direita

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A legalização de drogas foi uma proposta da IL que serviu de mote para atrair alguns jovens. A direita do lado da IL-Iniciativa Liberal diz querer legalizar a produção e venda de cannabis para uso recreativo, incluindo no supermercado. De acordo com a proposta da Iniciativa Liberal, qualquer loja (exceto estações de serviço) poderá vender, mas a pelo menos 300 metros de escolas. Consumo só para maiores de 18 anos. Isto foi afirmado em abril de 2023.


Todos os partidos políticos têm feito apelo ao voto dos jovens com promessas e alternativas para todos os gostos. São um isco para a “pesca” de votos. Para todos os partidos da direita os jovens são o máximo e têm sido muito mal tratados dizem.


Para o PSD/AD o governo do partido socialista tratou-os mal, não lhe deu importância, dizem que emigram devido às políticas do Governo PS que não lhes deu o que lhes era devido.


As estratégias e os malabarismos da direita para atrair os jovens, e também de alguma esquerda, são várias. O líder do PSD, Luís Montenegro tem afirmado que não se resigna com um país “que deixa fugir para o estrangeiro os seus jovens” e que é preciso criar mais riqueza para reter as pessoas no país. Tem dito ainda que não se resigna nem conforma com um país que deixa fugir para o estrangeiro os seus jovens, “aqueles que são garante da nossa capacidade de criarmos mais riqueza e, através dessa riqueza, sermos mais justos”. Só que a riqueza não se cria com varinhas mágicas nem num curto espaço de tempo, pelo que os jovens a quem ele se dirige terão que esperar e muito.


A memória de Montenegro é muito curta esquecendo-se do Governo de Passos Coelho do PSD com o CDS. Foi nesse tempo, entre 2012 e 2015 que, de acordo com o Observatório de Emigrações, foram registados os maiores níveis de emigração de portugueses, contabilizando mais de 100 mil saídas anuais, e um saldo migratório negativo, ao contrário do que se tem registado entre 2017 e 2021, em que o saldo é positivo.


Todos se referem aos coitadinhos dos jovens que não têm ou não vão ter o mesmo género de vida que os seus pais e avós tiveram. Uma palavra de ordem que se houve por aí em relação aos jovens portugueses, porque interessa, é a de que esta geração viverá pior do que anterior. A ideia tem por base o critério material, ou seja, o rendimento e regalias sociais que o 25 de Abril possibilitou.


Não sei a que jovens se refere a direita quando fazem estas declarações. Será aos que nasceram entre 1995 e 2005? Parece-se que estas declarações parecem-me ser enganadoras.


Os pais e avós destas gerações não tiveram a vida nada facilitada. Tinham de trabalhar para pagar a habitação a alimentação e a educação dos filhos e em alguns casos até a deles próprios. Não tinham acesso à cultura nem a espetáculos porque o salário era muitas vezes contado para as despesas obrigatórias e os passeios e férias eram condicionados pela disponibilidade financeira.  


O que vemos nas últimas décadas, sobretudo na época de primavera verão é a organização de concertos por todo país cujos espaços se esgotam e onde há consumo desenfreado de álcool (diga-se que é mais de cerveja), para já não falar das discotecas, restaurantes onde jovens consumem álcool à discrição com dinheiro grande parte das vezes abonados pelos pais. Os que não estão nesta dependência financeira já têm trabalho, mas do qual se queixam ser precário. Mas têm trabalho!


Porém há dinheiro para divertimento o que se compreende por se considerar que também necessário aos jovens e também aos adultos. Dizem não ter tempo para se divertirem porque têm sempre muito que estudar e dos trabalhos que lhes são impostos nos estudos. Alguns acumulam com um emprego.


Com a IL-Iniciativa Liberal os jovens iludem-se ao pensar que todos serão empresários de sucesso e que serão apreciados pelo mérito e os que não o forem terão ganhos salariais excelentes.  Mas enganam-se o excesso de liberalismo retira-lhes direitos, sobretudo ao nível do trabalho. Quando não há mérito na sua avaliação que, sendo vista do ponto de vista da empresa será sempre subjetivo, abre-se a porta para o despedimento.


Num trabalho de Joana Gorjão Henriques publicado no jornal Público jovens foram questionados sobre o seu sentido de voto. Algumas respostas são interessantes e demonstrativa de como os jovens vêm os partidos e a política.


Do que se percebe das conversas, alguns dizem que há vários amigos que aderem às ideias do Iniciativa Liberal, partido que, dizem “chama muito os jovens”. A jovem diz que isso “Tem muito que ver com a forma como eles se publicitam, tentam chegar aos jovens por causas insignificantes, por exemplo, legalização de cannabis, tentam imenso falar sobre isso no Instagram e no Twitter. Pode conferir aqui.


A direita não diz tudo porque não lhe interessa. Identifica a carga fiscal das empresas como um problema. No entanto parecem desconhecer ou omitir que os governos vão precisar de cada vez mais receitas fiscais e sociai, para pagar as reformas e a saúde de uma sociedade envelhecida; para compensar os cidadãos pelas consequências das secas, cheias, fogos, aumentos dos preços da energia e da alimentação; para investir na descarbonização. Será razoável, neste contexto, pensar que se pode reduzir os impostos e as contribuições sociais? Escreve-se no artigo. A direita omite, mas não desconhece, porque tem em vista usar os recursos do Estado para pagar a privados, nomeadamente a saúde que deveria, por direito, ter serviços públicos de qualidade, para todos, porque o privado, mesmo recebendo esses recursos, não conseguiria dar resposta.

quinta-feira, 7 de março de 2024

Por favor, não gozem com quem trabalha

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Que se baixem os impostos todos queremos, mas uma coisa é baixá-los outra coisa é poder fazê-lo sem pôr em causa o Estado Social como a IL e o Chega pretendem fazer, assim como o PSD, mas este de forma mais faseada e sem dar nas vistas.


Todos estes propõem dar tudo a todos sabendo que não poderão fazê-lo. Uns prometem ser já nesta legislatura, outros dizem que irão fazê-lo até ao fim da legislatura, outros será gradual outros ainda nos primeiros sessenta dias de governo. Isto é que é mesmo gozar com quem trabalha!


 Com a diminuição da receita e com um contexto internacional que pode ser adverso que pode agravar-se e colocar em causa a economia, mais tarde ou mais cedo alguém vai ter de sofrer cortes e serão sempre os mesmos. Isto é, são promessas vãs que a direita não conseguirá controlar.


Durante esta campanha eleitoral toda a direita, quer ser campeã e protagonista da baixa de impostos.


No entanto, o PSD ou com a AD, quando teve possibilidade para o fazer nunca o fez e foram vários os governos como se pode confirmar. Neste governo nunca nenhum deles baixou impostos, antes pelo contrário.


 


Governos  Período                     Primeiro-Ministro


VI Governo       1980 – 81 Sá Carneiro/Freitas do Amaral


VII Governo     1981         Francisco Pinto Balsemão


VIII Governo    1981 – 83 Francisco Pinto Balsemão


X Governo        1985 – 87        Aníbal Cavaco Silva


XI Governo       1987 – 91 Aníbal Cavaco Silva


XII Governo     1991 – 95 Aníbal Cavaco Silva


XV Governo     2002 – 04 José Manuel Durão Barroso


XVI Governo    2004 – 05 Pedro Santana Lopes


XIX Governo    2011 – 2015      Pedro Passos Coelho            


Votar num partido não radical e com sensatez na governação é o que se impõe neste momento pouco favorável internacionalmente e em que vai ter de haver aumento em despesas militares. Aventureirismos deram sempre mau resultado.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2022

Previsões para uma maioria socialista, as linhas vermelhas e o dilema da direita

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…”quem diz que os votos do Chega se devem somar aos do PSD e da IL assume que o racismo, a xenofobia, o apoio a retrocessos civilizacionais e a vontade de destruir princípios básicos do estado de direito faz parte do património político da direita portuguesa. Não faz.”


(Pedro Marque Lopes, in Facebook)


Comentários e opiniões sobre a maioria absoluta do Partido Socialista arrastam-se no resultado das eleições de 30 de janeiro. Recomendações, regressos ao passado do “socratismo” pré-troika, da troika e do pós-troika. Ele são os cavaquistas; ele são os da crença num movimento profético que surgirá em Portugal pela mão “passista”; ele são os traumatizados que viram em 2015 uma maioria relativa, mas sem maioria parlamentar, desaparecer por via de uma “geringonça” que conduziu ao desaparecimento político de Passos Coelho; ele são os que, ainda a medo e aos poucos, vão clarificando as suas opções ideológicas extremista de direita; ele são os que pretendem colar os jovens aos votos na Iniciativa Liberal; eles são os que acusam os mais velhos de terem contribuído para a maioria absoluta do PS. Há-os para todos os gostos e feitios.


As minhas previsões para a política dos próximos quatro anos vão ser anos do tipo “annus horribilis”. Não consulto oráculos, não faço profecias,  nem tomo o lugar de Pítia portuguesa, mas os próximos anos vão ser extremamente ruins.


O Partido Socialista irá confrontar-se com o circo propagandístico do partido extremista CHEGA na Assembleia da República, com as violentas oposições que virão da direita e da esquerda e pelos apaixonados, emotivos e facciosos jornalistas, natas dos artigos de opinião, comentadores em muitos jornais, rádios, televisões e por aí fora.


Não perdem tempo basta lermos, vermos e ouvirmos o que se publica e se profere, e o que ainda se publicará e divulgará na comunicação social. A espécie de “perseguição” ao Governo proveniente da maioria absoluta não seguirá dentro de momentos já está no ar.


Um outro contributo para o possível annus horribilis virá do PCP cujo seu líder, Jerónimo de Sousa, já voltou ao apelo à “luta de massas”, (leia-se luta de classes) a que, por acréscimo, irá certamente juntar-se o BE. É o contributo “democrático” destes partidos. Quando perdem lançam-se numa espécie de “contra a decisão do povo”. Não aceitam o escrutínio eleitoral. É a ditadura das massas. Não aceitam a democracia tal como ela é, não assumem a derrota e ameaçam. Aliás Jerónimo não assume erros na campanha, apenas “desvantagens”, e apela à “luta de massas”.


Haverá momentos em que as direitas que se dizem contra a esquerda radical e contra a “geringonça” irão alinhar com as duas extremas-esquerda para causarem pressão sobre o governo socialista liberal que recusa o dualismo irredutível, que sempre recusou, e prefere, a integração e o compromisso como a principal maneira de escapar tanto da armadilha extremista da direita neoliberal, quanto da coletivista.


A imprensa politicamente de direita como o Observador, o Nascer do Sol, o Novo e outros jornais, rádios e televisões já estão a postos, na atual situação pós-eleitoral com opiniões e comentários editoriais, com as escolhas das personalidades que entrevistam e que, com mais veemência, criticarão e criticam o “socialismo”, e a “ditadura do PS” e de António Costa. Até agora que até agora têm estado mais preocupados com o estado do PSD e com a perspetiva da saída de Rui Rio. Alguns até estarão muito mais satisfeitos com o desastre do PSD e com a queda certa de Rui Rio do que com a maioria absoluta do PS.


Mas temos ainda a imprensa que aconchega os partidos radicais de direita que estão contra os mais elementares direitos. Será a bem de todos os portugueses ou apenas de alguns? Veja-se esta pérola publicada no jornal Nascer do Sol:


“Qual medo da covid-19, qual quê? Medo, sim, é de perder a pensão, o subsídio de desemprego ou outra prestação assistencial qualquer, o Serviço Nacional de Saúde gratuito, a escola e os livros escolares e computadores à borla, a segurança do lugar e do vencimentozinho na Função Pública, o Estado-providência e redistribuidor da riqueza que é incapaz de gerar. O resto que se dane”.


O autor da opinião fala do ‘papão’ da direita liberal que se criou. Não se engana é mesmo. E pergunta no título “Quem tem medo do liberalismo?” A resposta é fácil, muitos milhões de portugueses.


Não me interessa neste caso o contexto donde foi retirada a citação, mas é de facto isto que os portugueses de norte a sul poderão esperar de partidos orientados contra os princípios mais elementares de vivência numa sociedade democrática lançaria centenas de milhares de pessoas num gueto social e numa pobreza ainda maior do que aquela já temos.


É de facto isto o que os liberais radicais de direita pretendem quando falam em reformas do Estado. Acabar com a assistência; acabar com o ensino público e pôr os jovens a pagar propinas no privado; acabar com o SNS ou mantê-lo apenas para indigentes e passar a saúde para o privado; reduzir reformas e, se possível, acabar com elas; reduzir o Estado e os seus trabalhadores, para que os dinheiros públicos sejam desviados para investimentos privados lucrativos que, em vez de criarem riqueza como dizem, geram lucros para distribuir por acionistas. Note-se que sou a favor da iniciativa privada enquanto geradora de riqueza, mas não com a que eles não dizem, mas que está nas entrelinhas.


Deparamo-nos com alguns dos tais fazedores de opinião a darem tratamento elogioso aos novos partidos radicais de direita que entraram na Assembleia e que falam em nome de uma “juventude” que mobilizaram e do seu dinamismo e que terão, presumivelmente, com esses partidos uma “nova”, e mais eficaz, oposição. Esta argumentação é mais evidente com a IL.


A atitude dos da IL é mais galante, mais simpática, deixando esbaterem-se as “linhas vermelhas” programáticas. Em comparação o Chega não tem compostura nas relações sociais, é grosseiro, raiando a agressividade e a má educação.


Mas o problema que se coloca é a da IL vir a ser um engodo para os jovens por os fazer pensar que, por exemplo, na profissão docente ou noutra qualquer, será a IL a dar-lhes melhores perspetivas de futuro. O neoliberalismo poderá trazer vantagem a uma reduzidíssima elite de "ganhadores" das start-ups, enquanto todos os outros, os "perdedores", ficarão cada vez mais pobres. Porque é óbvio que nem todos poderão ser empresários de sucesso e se limitarão a ser trabalhadores por conta de outrem que ficarão sem instrumentos de regulamentação de trabalho.


Foi a ameaça de um Estado e de uma economia neoliberal que levaram o povo a concentrar o voto no PS e a dar-lhe a maioria absoluta e isso Cotrim Figueiredo e muitos outros não terão percebido.


O Chega não é o “fofinho” da direita, procura a senda do retorno ao passado encoberto por alguns ajustes. Defende um conjunto de medidas que vão no caminho do ensino do passado cujos “conteúdos” foram vivenciados pelos mais velhos, mas que poderá atrair os mais novos a quem o passado nada diz por terem sempre vivido em liberdade.


O professor do programa é Gabriel Mithá Ribeiro (podem ver o que ele tem a dizer sobre o ensino aqui). Claramente tem defendido a valorização da ordem, da autoridade e da hierarquia, da família e da nação, combate ao valor da “solidariedade” trazido pelo 25 de Abril que para ele é um movimento secundário face à “autorresponsabilidade”, reabilitação da história colonial portuguesa e negacionista do racismo na atualidade.


Afinal podemos ter um espírito aberto e ao mesmo tempo crítico sem, contudo, acreditarmos em tudo o que nos dizem. Podemos fazer perguntas às quais ainda não nos deram respostas objetivas.


O que propõem, ou melhor, o que prometem estes partidos que dizem ter soluções para bem do país e do povo? Falam em reformas em sentido lato; falam na reforma dos Estado sem dizer em quê e como; falam em mudar a vida das pessoas (em quê e a quais pessoas?); falam em baixa de impostos sem dizerem como e quando o farão.


Outras perguntas se podem ainda fazer: como pensam os eleitores que aqueles partidos irão contribuir para melhorar a sua vida e a do povo em geral? Por que razões defendem com tanta veemência esses partidos os seus apoiantes? Como pensam que ficaria Portugal sob o domínio desses mesmos partidos? Para o justificarem adjetivo “melhor”, sem mais nada, não serve.


Que vantagens obteriam com maiorias destes partidos? A resposta tirar o socialismo do poder não serve.  O derrube do PS e de António Costa que vantagens traria para o país e para eles próprios? Estará esta gente preocupada com o país e com as pessoas que nele trabalham e vivem? Os órgãos de comunicação social de direita e de quem com ela se identifica estarão de facto preocupados com a vida dos portugueses em geral ou com apenas a de alguns?


As perguntas parecem ser redundantes, mas é mesmo assim. Naqueles partidos as propostas também são redundantes.


 

sexta-feira, 8 de novembro de 2019

O Iniciativa Liberal e a lâmpada de Aladino

Iniciativa Liberal e Aladino.png


A disparatada afirmação do deputado do IL, João Cotrim de Figueiredo, não merecia sequer tantas linhas e espaço no jornal, nem o trabalho da jornalista, nem, tão pouco, os “posts” nos comentários.


Ler alguns comentários sobre artigos de opinião nos jornais online, salvo raríssimas exceções, é o mesmo que ler colunas escritas em jornais humorísticos. Ler esses comentários é, por vezes, um passatempo. Exemplos do jornal Público, é o que hoje apresento, sabendo-se de antemão que também poderiam ser de outros jornais.


Antes de avançar com esse caso concreto devo informar que podem também incluir nesse rol o presente texto. Sobre ele haverá, com certeza, alguns leitores, ou melhor, muitos, que também o acharão digno de gozo e que o considerem um chorrilho de disparates. Se assim for ainda bem, é porque foi lido.


A democracia é assim mesmo porque dá lugar a poder haver várias opiniões, contrastantes, idiotas, disparatadas, sem nexo, imbuídas de fação, recalcitrantes, ocas, sectárias, incompreensíveis, desajustadas, reativas, reacionárias, de propensão totalitarista, racista, etc., etc. e a maior parte delas são provocadas por emoções à flor da pele. Algumas são manipulações intencionais impulsionadas por facciosismo. Outras há que tentam mostrar erudição na matéria lançam-se em explicações e apontam formas de se fazer, algumas sem fundamento e exequibilidade prática para o caso em questão.


Sim, podem incluir também este mesmo texto numa dessas categorias.


Caberá a cada um a seleção e a avaliação. Mas a prática da Internet que muitos creem ser o paraíso da liberdade de expressão, sofre de fragilidade democrática identificada através de muitos dos conteúdos publicados que propagam informação falsa e intencionalmente deturpada, incitam à violência e fomentam a radicalização cujos publicadores consideram ser a liberdade de expressão, porque, para esses, a é a oportunidade de se fazerem ouvir e a ter acesso a todos os conteúdos, incluindo os falsos. Para alguns a sua verdade é a única, é a verdade e a razão absolutas.  


Continuando. Vem tudo isto propósito das mentecaptas palavras pronunciadas na intervenção no Parlamento por esse estreante e debutante deputado do Partido Iniciativa Liberal (será PIL ou apenas IL?) ao dizer que “O PS sabe que mantendo um país amorfo e resignado tem um grupo de pobres, desesperados e dependentes do Estado que lhe irão dar o voto. A pobreza de muitos é o que segura o PS ao poder.” E de seguida que o PS só “existe para estar no poder, nunca irá resolver o problema da pobreza”, pois são os pobres que permitem ao PS “manter-se lá”.


Antes de mais gostaríamos de saber qual é para o deputado e para o IL o conceito de pobre e qual a demonstração da afirmação que fez. Para um raciocínio ser correto as premissas devem ser verdadeiras e devem ser primeiras, ou seja, não têm necessidade de serem demonstradas, é o silogismo científico.


O conceito de pobre reduz-de, para o senhor deputado, apenas aos que ele diz votam no PS?


Se formos pela lógica e fazendo humor poderemos construir silogismos deste tipo:


Eu votei no PS, 


Segundo o IL os que votaram no PS são pobres e desesperados,


Logo eu sou pobre e desesperado.


Mais um:


A pobreza de muitos segura o PS ao poder,


Eu sou pobre,


Logo seguro o PS ao poder.


 


Senhor deputado do PIL, por favor, não goze com o povo!


Ora, dizendo-se o IL liberal a cem por cento, e diz apoiar a meritocracia e o acesso de todos ao empreendedorismo e supostamente à riqueza acessível a todos pela redução do peso do Estado, dos impostos, etc.., estamos a ver que, quando e se o PIL for governo, os pobres, os votantes no PS passarão a ser ricos, deixarão de ser desesperados e passarão a ser votantes no PIL.


Quem ler o programa do IL, pleno de demagogia, pode encontrar um conjunto de intenções e desejos. Tal como no conto de Aladino e a Lâmpada Mágica das “Mil e uma Noites” que, ao esfregar a lâmpada, são satisfeitos assim também o PIL (Partido Iniciativa Liberal) fará tudo acontecer. Isto é, tudo quanto lá se escreve vai no sentido de reduzir ou até eliminar a pobreza e dar a possibilidade a todos sermos todos ricos através da iniciativa e da meritocracia. O que não diz é como tencionam acabar com os pobres que, segundo eles, votam todos no PS.


É sobre este último ponto que a conceituada e experiente jornalista do jornal Público Bárbara Reis escreveu um artigo de opinião sobre as afirmações antes citadas de João Cotrim de Figueiredo, líder e único parlamentar do PIL que podem ler aqui. Na minha opinião a disparatada afirmação do dito deputado, não merecia sequer tantas linhas e espaço do jornal nem o trabalho da jornalista.


Foram escritos vários comentários críticos ao artigo de opinião de Bárbara Reis, poucos elogiando, outros atacando. Para quem tiver tempo e paciência para ler transcrevo-os a seguir na íntegra, sem qualquer alteração, mesmo a ortográfica, apenas os nomes dos que os publicaram foram omitidos.



  • 11.2019 00:53


As contas que foram feitas no final são completamente ridiculas e com o objectivo de atirar areia para os olhos dos leitores. O que interessaria saber seria como cada categoria profissional vota (e isto assumindo assim de repente que há categorias profissionais com mais pobres vs ricos). Interessava sim saber da categoria do operariado qual a percentagem que votou PS vs a percentagem que votou PS na categoria de empresários. Nem sequer sabemos a percentagem global de cada categoria no total da população, como podemos sequer fazer as contas de que percentagem votou no partido..enfim..isto é só para enganar quem quer ser enganado..



  • 11.2019 04:21


Não defendendo em circunstância nenhuma a retórica da IL, devo dizer que o que também não cola é a forma falaciosa como a autora tenta desmontar este discurso. Se o deputado da IL falou em "pobres" a autora não pode decidir comparar este termo com o esquema de classes de Daniel Oesch que não se refere a pobres, nem ricos, mas a categorias profissionais. Sabia que um arquitecto, professor, enfermeiro, e tantas outras profissões incluídas tradicionalmente no universo dos "não-pobres" chega a ganhar menos à hora que uma empregada doméstica ou um operário? Posto isto é lamentável que a autora tenha falhado redondamente a linha de raciocínio, sem confrontar quaisquer factos pertinentes, contribuindo apenas para mais desinformação.



  • 11.2019 21:17


Tanto trabalho a ler relatórios para fugir a uma evidência. Basta ver como e a quem são distribuídas as benesses em épocas eleitorais para saber onde estão os votantes que pesa



  • 11.2019 21:13


Tanto trabalho a ler relatórios para fugir a uma evidência. Basta ver como e onde são distribuídas as benesses em épocas eleitorais para ver que votos têm peso nos resultados eleitorais



  • 11.2019 19:34


Provavelmente o que Cotrim quis dizer a Costa foi semelhante ao que Palme disse a Otelo, quando este lhe disse que o 25 abril tinha sido feito para acabar com os ricos. Olof Palme respondeu que na Suécia estavam mais preocupados em acabar com a pobreza e os pobres. Se Costa fosse o alvo da pergunta de Palme, provavelmente responderia que Portugal cresce acima da média europeia. Ao que o culto e desconfiado Palme, depois de consultar uns números, perguntaria talvez porque razão o nosso país cai nos últimos 4 anos no rendimento per capita, descendo uma posição todos os anos e estando já em antepenúltimo lugar... não sei que resposta daria Costa/Otelo a Cotrim/Palme... A chatice são os números :-/



  • 11.2019 20:39


parece-me sensato iniciar-mos uma sessão conjunta de telepatia para apurarmos com precisão o que vai na tola sizuda do Cotrim....hemmm!??



  • 11.2019 19:34


Provavelmente o que Cotrim quis dizer a Costa foi semelhante ao que Palme disse a Otelo, quando este lhe disse que o 25 abril tinha sido feito para acabar com os ricos. Olof Palme respondeu que na Suécia estavam mais preocupados em acabar com a pobreza e os pobres. Se Costa fosse o alvo da pergunta de Palme, provavelmente responderia que Portugal cresce acima da média europeia. Ao que o culto e desconfiado Palme, depois de consultar uns números, perguntaria talvez porque razão o nosso país cai nos últimos 4 anos no rendimento per capita, descendo uma posição todos os anos e estando já em antepenúltimo lugar... não sei que resposta daria Costa/Otelo a Cotrim/Palme... A chatice são os números :-/



  • 11.2019 18:47


Senhora jornalista Bárbara Reis, como se atreve a escrever dois artigos a malhar no IL! Muito grato lhe ficaria, a auscultação dos tais cientistas, relativamente à caracterização dos pobres deste país. Pense nisto: temos pobres em Portugal, que só o são, porque vivem neste país socialista. É inadmissível que uma pessoa que trabalha oito e mais horas diárias, viva pobremente.



  • 11.2019 17:06


Esses Pobres são Incultos se soubessem Votar levavam o Cartão Vermelho



  • 11.2019 20:09


são os chamados pobres de espirito. desde que elegeram o illuminati Socrates que acredito no infindável bom senso do povo. outros portentos tb foram escolhidos, como Cavaco. mas é o povo quem mais ordena...isto é...45 % do povo porque os restantes 55% gostam tanto do actual sistema q nem sequer votam.



  • 11.2019 16:26


O Sr Figueiredo prestou homenagem à imbecilidade. Não é coisa pouca.



  • 11.2019 16:14


...o populismo combate-se com factos e argumentos sustentados neles...BR, como sempre muito lúcida, é um gosto lê-la.



  • 11.2019 16:10


Muito bem, Bárbara. Apenas gostaria que o sr. João Cotrim, nos falasse do milagre liberal no Chile, como exemplo de criação de uma sociedade sem pobres.



  • 11.2019 20:31


a Michele Bachelet é uma perigosa neo-liberal. é tão nice saltar uma geração ou duas.



  • 11.2019 20:56


O Chile foi transformado num "paraíso" neoliberal durante a ditadura de Pinochet. Foi tudo privatizado: educação, saúde, segurança social, tendo os trabalhadores perdido ficado sem quaisquer proteções laborais. Michele Bachelet não mudou nada. Foi totalmente conivente com o sistema instalado. Os chilenos estão fartos do seu "paraíso".



  • 11.2019 21:17


olhe que não, olhe que não!! quando o preço de cobre aumentou nos por volta de 2008, Michellet investiu os fundos dai resultantes de forma muito sensata: primeiro, criou um fundo almofada que permitiu ao Chile escapar á crise financeira global de 2008 e, além disso, investiu fortemente em pensões para os idosos, programas de assistencia social e um pacote de medidas para estimular o crescimento econóomico. ela reduziu o desemprego e a pobreza e melhorou dramaticamente a educação infantil. é por estas e outras razões que foi fenomenalmente popular... não diga mentiras. vários esquerdistas europeus elogiaram-na.



  • 11.2019 15:54


Vê-se que a Iniciativa Liberal já incomoda o PSV (Pinho, Sócrates e Vara) bem como a CS que os apoia, patrocina e catapulta.



  • 11.2019 15:49


Tenho a dizer que foi graças a alguns artigos da Bárbara Reis que votei IL. De facto, pode -se escolher algo com dois raciocínios: “se uma pessoa daquelas gosta , deve ser bom”. Ou: “se uma pessoa daquelas detesta, deve ser bom”. Percebida a minha situação, imagino que esta sua persistência já tenha arregimentando mais uns quantos potenciais votantes. Continue o bom trabalho.



  • 11.2019 15:38


De facto o PS não é o partido dos pobres, é o partido dos penduras. Pendura, em ciência politica, é aquele que, pobre ou rico, viva à custa dos outros.



  • 11.2019 17:28 Para a mentira ser segura ... tem que ter qualquer coisa de verdade


Nem mais.



  • 11.2019 15:22


Pobres? O socialismo nao acabou com a pobreza em Portugal? Ou quer é acabar com a riqueza?



  • 11.2019 14:56


Na politica não interessa a verdade mas sim o que se diz e o momento.O novel deputado da IL já aprendeu, depressa, a cartilha. O importante é dizer qualquer coisa para as TVs...



  • 11.2019 13:59


O PS não é o partido dos pobres, de facto. É principalmente o partido dos funcionários públicos e daqueles (em número muito maior) cujos rendimentos vêm directa ou indirectamente do Estado. Isto é um problema para a democracia, porque o PS é dominante na máquina do Estado, que deve supostamente ser imparcial. Quando o PS consegue dominar também a banca e a imprensa, como nos anos Sócrates, adquire um poder sinistro e praticamente sem controlo. [Escrevi este comentário há quatro horas, seria o segundo do dia por acaso, mas ainda não apareceu aqui, embora apareça no meu perfil. Um mistério.]



  • 11.2019 14:55


Fake News



  • 11.2019 12:27


Obrigada senhora jornalista por repor a verdade. Uns apresentam factos, outros frases bombásticas que no incêndio que agora se vive nos média e redes sociais até colam. Aliás a Iniciativa Lacoste deve grande parte da sua votação a esse tipo de frases feitas e em cartazes de puro marketing.



  • 11.2019 14:11


Aplaudo o escrutínio mas receio detentores da verdade.



  • 11.2019 11:31


Tenho um amigo que baralha qualquer análise sobre a propensão do voto. É Monárquico e leva um modo de vida aristocrático, veste-se a rigor para as refeições servidas em baixela de porcelana e copos de cristal por uma empregada e depois vota no Partido Comunista. Também conheço alguns pobres, Investigadores com grande capital social porque são Doutorados e estão no desemprego ou na precariedade e esses não votaram PS.



  • 11.2019 13:21


Não há ciência do particular...



  • 11.2019 11:15


Pessoalmente, acho que os pobres em Portugal não existem como suporte de qualquer dos partidos que têm estado no governo (PS e PSD). São, antes, uma consequência natural do tipo de governação imposta a esses governos por força da adesão à UE. Quando se sabe que a economia é mantida praticamente em "crescimento zero" propositadamente, com todas as consequências que daí derivam, então a pobreza em Portugal é um claro efeito secundário das políticas implementadas. Agora, se esse efeito secundário (pobreza) é aproveitado para beneficiar alguém, julgo que esse alguém poderia ser mais facilmente um qualquer partido de esquerda, mais defensor dos pobres.



  • 11.2019 11:08


Obrigado Barbara Reis, eu como votante na IL, venho agradecer-lhe a escalpelização - em sentido positivo - que em dois artigos dedicou á IL. A minha opção de voto na IL, identifica-se com os principios da valorização competitiva - quem organiza e controla eficientemente a sua actividade economica, perspetivando o lucro (não conheço empresas privadas que sobrevivam com prejuízos), adoptando uma politica de valorização dos seus colaboradores e remunerando em função da riqueza criada, pois hoje só sobrevivem empresas que tenham estes principios. Foi este tipo de exigencia que encontro no discurso da IL, o seu programa não sendo um primor nas referencias á organização da sociedade, tem bons principios e concerteza será melhorado pois reonheço-lhes capacidades para corrigir o que promova injust



  • 11.2019 15:20


Não conhece empresas privadas que sobrevivam com prejuízos?!... Ah, ah, ah! Boa piada! Basta olhar para as empresas que controlam os meios de comunicação social. E sabe, não sabe, porque não fecham mesmo a acumular prejuízos?... E também deve saber que a situação estaria ainda pior se não houvesse umas "empresas amigas" que lhes compram publicidade inútil. Tanta "ingenuidade"...



  • 11.2019 10:50


Não cola? Vamos então ao que este jornal publicou em 7 Outubro 2019: "Quem vota em quem? Breve análise ao perfil dos concelhos onde os partidos se destacam" 1. PS mais forte nos concelhos com menor poder de compra Os concelhos onde o PS obteve resultados mais altos registam um poder de compra inferior à média nacional, com um ganho médio mensal dos trabalhadores por conta de outrem de 950 euros (inferior ao valor médio registado no país, de 1108,56 euros). Têm também mais trabalhadores da administração local do que a média (por cada 1000 habitantes há 13,21 funcionários das câmaras ou juntas de freguesia, enquanto a média nacional é de 11,62 funcionários por cada 1000 habitantes). E ainda um número mais elevado de escolas, embora a escolaridade esteja abaixo da média." A realidade é esta



  • 11.2019 14:18


Mas hoje estava com vontade de mandar palminhas ao PS



  • 11.2019 10:46


E o argumento de que o Bloco central se alimenta da máquina do estado ?? Acho que isso já cola melhor !!



  • 11.2019 10:45


Então somos um país de eleitores filantropos! Obrigado pela revelação



  • 11.2019 10:39


O enviesamento do artigo demonstra-se na falaciosa pretensa aposta nos ricos para haver mais pobres quando a ideia é transformar os pobres em ricos, como dizia Lucas Pires e como demonstram os factos nos países que os emigrantes económicos pobres preferem como destino, sinal inequívoco do que realmente cola. Talvez estes últimos, pelo muito que sofreram nas suas controladas terras de origem, sejam mais listos a compreender os mecanismos da perpetuação da pobreza (dependência do estado e não do indivíduo) do que muitos jornalistas e investigadores.



  • 11.2019 10:22


Sendo benevolente, os "iluminados" da Iniciativa Liberal vivem num mundo completamente imaginado por eles, uma espécie de bolha de gente que nunca teve algum contacto de facto com a realidade em toda a sua extensão. Sendo mais realista, os "iluminados" da Iniciativa Liberal sabem que mantendo o país extremamente desigual, cultivando uma pequena minoria de bolsos cheios, enquanto o resto chafurda na miséria, irão ter o apoio dessa minoria. E aqui apoio não siginifica apenas votos, mas antes de mais lum lugar na teia de relações onde essa minoria se apoia.



  • 11.2019 09:46


Muito bem. Excelente trabalho jornalístico num espaço de opinião, que mostra que é possível sustentar opiniões com factos, sem achismos, “parece que” e pré-conceitos. Receio é que com a qualidade dos novos partidos que entraram no parlamento o Publico tenha de contratar uma equipa só para verificar as tolices que dali virão...


01.11.2019 10:50



  1. PS mais forte nos concelhos com menor poder de compra Os concelhos onde o PS obteve resultados mais altos registam um poder de compra inferior à média nacional, com um ganho médio mensal dos trabalhadores por conta de outrem de 950 euros (inferior ao valor médio registado no país, de 1108,56 euros). Têm também mais trabalhadores da administração local do que a média (por cada 1000 habitantes há 13,21 funcionários das câmaras ou juntas de freguesia, enquanto a média nacional é de 11,62 funcionários por cada 1000 habitantes). E ainda um número mais elevado de escolas, embora a escolaridade esteja abaixo da média. Jornal Público, 7 Outubro 2019


 



  • 11.2019 09:28


Excelente, Barbara. O jornalismo faz-se com fontes e conteúdos.