Mostrar mensagens com a etiqueta eleições. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta eleições. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Como eu gosto de ser emocionalmente instrumentalizado!

Eleições Presidenciais instrumentalização.png

A instrumentalização em política é o uso de pessoas, grupos de pessoas duma sociedade para atingir determinados fins e está ligada a emoções, sentimentos, atitudes e comportamentos inerentes ao ser humano que variam em função da cultura, família, etnia, entre outros.

A atitude política tem uma componente afetiva e é uma resposta emotiva face a determinado acontecimento social, pessoa, seja ela política, ou não, e apresenta-se sob a forma de ideia favorável ou desfavorável em relação a essa pessoa ou acontecimento e pode ter uma componente que se costuma confundir com afeto, emoção e sentimento. Os três conceitos referem-se ao que sentimos, mas distinguem-se pelo modo como são expressos.

Como podemos associar estes sentimentos a tomadas de decisões eleitorais. Os comportamentos eleitorais são ações e decisões de indivíduos ou grupos durante um determinado período que se revelam como votamos, porque apoiamos determinados candidatos ou partidos e por que os apoiamos e sobre os quais somos afetados pelas influências que moldam as nossas escolhas.

Há vários estudos publicados sobre o comportamento eleitoral dos eleitores como por exemplo “Emoções e Comportamento Eleitoral em Portugal” de José Manuel Rivera Otero, Nieves Lagares Diez, Erika Jaráiz Gulías, Patrício Costaé publicado em novembro de 2025, edição do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa que coloca as emoções no centro da explicação do comportamento político e eleitoral em Portugal. É crucial para entender a dinâmica da participação e da representação política, pois revela padrões no envolvimento dos eleitores e os fatores subjacentes que impulsionam os resultados eleitorais.

A atitude eleitoral é complexa porque faz também parte dum conjunto complexo de sentimentos, crenças e disposições individuais que os eleitores têm em relação à política, aos partidos e aos candidatos que ajudam a moldar o seu comportamento e a escolha do voto. Estas escolhas são muitas vezes enraizadas por fatores psicológicos, identidade social, confiança, ou até lealdade partidária, tradições culturais que funcionam como um atalho para a tomada de decisões.

Contudo, em política não existem apenas lógica, racionalidade e ideologia, há também outros aspetos emocionais usados como estímulos pelos políticos consoante os objetivos, as pessoas ou grupos sociais, tendo em vista motivar atitudes políticas e eleitorais.

Durante as campanhas muitos políticos utilizam as emoções dos potenciais eleitores como ferramenta de mobilização. Frequentemente constroem e manipulam emoções de forma estratégica, utilizando discursos, imagens e narrativas para incitar sentimentos como o medo, raiva, compaixão ou orgulho nacional. Essas emoções podem ser usadas não apenas para fortalecer a coesão social, mas também para legitimarem decisões políticas ou mobilizar a população em torno de causas específicas. Por exemplo, imagens de tragédias ou discursos de vitimização são frequentemente empregues para gerar empatia e apoio, veja-se o caso do Primeiro-Ministro Luís Montenegro que, mais do que uma vez, usou essa estratégia com sucesso, nomeadamente aquando da apresentação de uma moção de confiança ao Parlamento sobre o caso Spinumviva.

Mas, temos ainda visitas de candidatos a locais religiosos que têm grande impacto na religiosidade das populações tal como fez Marques Mendes durante a sua visita a Fátima onde se deixou fotografar junto a imagens religiosas. A hipocrisia parece estar validada nos políticos e na política.  O uso da família para obter vantagem eleitoral tem sido para Marques Mendes, comentador- mor, um ato de propaganda eleitoral. Em Leiria, durante um almoço com empresários, Sofia Marques Mendes, mulher do candidato presidencial, subiu ao púlpito para uma declaração de amor: “Todos os dias consegues surpreender com a tua generosidade e sentido de missão.” “Amo-te”, declarou em frente a todos os convidados.

Mas esta participação na campanha não ficou por aqui. Segundo o jornal Público, numa breve mensagem que leu do telemóvel, Sofia Marques Mendes começou por referir que gosta de “passar despercebida”, mas que desde a primeira hora não podia “ser egoísta” e decidiu estar “fisicamente” ao lado do candidato durante a campanha e “mostrar publicamente o orgulho” que tem nele. E mete ao barulho o resto da família dizendo que “realmente sente” que Luís Marques Mendes é a “pessoa mais certa” para o cargo de Presidente da República, “pelos filhos e netos de todos nós”. De resto, o neto mais novo do candidato, de apenas um mês, esteve presente na iniciativa.

Este é um exemplo de como o provocar emoções pode desempenhar um papel central e multifacetado na política influenciando a formação de atitudes e opiniões públicas, a mobilização coletiva e a legitimação de políticas. O uso das emoções passou a ser reconhecidas como elementos fundamentais para compreender a estrutura para a chegada ao poder.

As emoções estão intimamente ligadas à polarização partidária e à formação de identidades políticas. Sentimentos como raiva, medo e ansiedade podem ser usados como incentivos para angariação política, mas também para o aumento da intolerância e da divisão social. A combinação de várias emoções em torno de um evento ou numa narrativa de campanha eleitoral é frequentemente utilizado para criar identidades políticas e mobilizar massas.

Escândalos, discursos emocionais e imagens que tenham impacto são usados para influenciar a opinião pública e direcionar o debate político, assim como o uso estratégico das emoções pela comunicação social tanto pode fortalecer como enfraquecer a confiança nas instituições e nos próprios meios de comunicação. Veja o caso da estratégia de André Ventura do partido “Chega”.

quarta-feira, 1 de outubro de 2025

A verdade das mentiras

"Primeiro, eles fascinam os tolos.


Depois, amordaçam os inteligentes!"


 Betrand Russel, filósofo do séc. XX


Temos de abrir caminho para resistir civicamente ao avanço da desumanidade autoritária seja ela extremista de direita ou de esquerda, e os mais jovens que sempre viveram em liberdade nem sempre sabem ao certo qual o seu verdadeiro significado. Não adiante denegrir o Chega porque já vimos que isso apenas o reforçou, mas fazer de conta que não existe e tão-pouco normalizá-lo também não funciona.


Ventura Análise das narrativas.png


Na última década testemunhámos a ascensão de líderes, movimentos e políticas populistas em muitas democracias liberais pluralistas. Portugal não foi exceção. Este novo populismo é sustentado por uma inventada política de pós-verdade que usa as redes sociais como porta-voz de “notícias falsas” e “factos alternativos” com a intenção de incitar ao medo e ao ódio do “outro”, construções que estão relacionadas ou referidas a circunstâncias nas quais factos objetivos são menos influentes na formação da opinião pública do que apelos à emoção e à crença pessoal. Prevalece o apelo à emoção do povo em lugar do racional.  Recorde-se o caso de Donald Trump que afirmou publicamente, num evento realizado em setembro nos EUA, onde disse: “Odeio os meus adversários e não quero o melhor para eles" frase que incita ao ódio sobre quem não o apoia. Não é uma “fake news”  é um facto que revela até onde pode ir o incitamento à emoção e ao ódio. No entanto ainda há quem o admire e até concorde com a política por ele seguida.


O presidente do partido CHEGA, André Ventura, vai novamente candidatar-se à Presidência da República em 2026. Justifica a sua candidatura dizendo que “o espaço de luta contra a corrupção e contra a imigração descontrolada não podia ficar sem candidato”.


Não me causará admiração se ele chegar à segunda volta. Os candidatos que se apresentam com exceção do almirante Gouveia e Melo são fracos e os portugueses estão fartos de comentadores televisivos como presidentes e Luis Marques Mendes é um deles, assim, como outros com perfil de democratas, mas sem força e inseguros tais como como António José Seguro não apresentam grande confiança. Alguém que nunca esteve ao serviço de forças partidárias e apresente características de independência pode ser uma vantagem.


Vamos ao caso que nos interessa neste momento e sair do ruído para analisar as narrativas de André Ventura ao longo dos últimos dois anos e tentar conhecer o que está por de baixo do tom combativo e do padrão que emerge das suas intervenções e textos que se baseiam, fundamentalmente, no endurecimento penal e imigratório, na revisão constitucional como “chave mestra”, e no discurso anticorrupção repetido e baralhado que, no meio da predominância e importância do processo socioeconómico, não tem sustentabilidade e falha em toda a linha.


Por outro lado, as frases ditas e mentiras mil vezes repetidas, propagadas nas redes sociais vieram a tornar-se realidades aceites por impreparados dos mais diversos matizes sociais que as aceitam irrefletidamente sem ponderarem nas respetivas consequências.


O populismo terminou com os princípios burgueses da decência, da retidão, da palavra ou da honra que eram também contestados pelos radicais da esquerda.


Temos de reaprender a ler, a interpretar e a viver neste novo mundo à luz da reflexão e da razão. Temos de abrir caminho para resistir civicamente ao avanço da desumanidade autoritária seja ela extremista de direita ou de esquerda, e os mais jovens que sempre viveram em liberdade nem sempre sabem ao certo qual o seu verdadeiro significado.


Não adiante denegrir o Chega porque já vimos que isso apenas o reforçou, mas fazer de conta que não existe e tão-pouco normalizá-lo também não funciona.


A resistências tem de ser a desmontagem de todas as suas contradições. As formações cívicas e políticas não se ajustam a “leituras” escritas e imagéticas assimiladas sem critério e sem reflexão que proliferam nas redes sociais onde as máquinas de propaganda e de desinformação são destinadas, sobretudo, para convencer os mais jovens politicamente inexperientes.


Para análise dos eixos temáticos recorrentes na retórica e narrativas de André Ventura, porque é deste que falamos, utilizei uma metodologia baseada em excertos de três tipos das suas intervenções públicas:



  • Debates televisivos (2019–2024) analisados pela Renascença

  • Discurso no Conselho Nacional do Chega (12 set 2025)

  • Discurso de abertura da V Convenção Nacional do Chega (27 jan 2023)


As intervenções de Ventura baseiam-se num tom combativo quer nos debates e discursos partidários quer em assembleias públicas. Torna-se evidente o modo como Ventura estrutura a sua argumentação e constrói a sua imagem política com discursos que recorrem frequentemente à repetição de temas-chave, polarização nos debates e utilização de exemplos concretos através de imagens ou dados, cuja veracidade é por vezes discutível, para dramatizar questões sociais.


A sua abordagem, emocionalmente mobilizadora, aposta na simplicidade das soluções apresentadas e na clara distinção entre “nós” e “eles”, fomentando uma identidade de grupo entre apoiantes e tenta promover a perceção de rutura face ao sistema vigente. Contudo faz questão de mostrar que pretende ganhar o que, afinal, mostra uma vontade de fazer parte do sistema. Que diz querer mudar.


O recurso a slogans e ideias força como por exemplo “tolerância zero”, “Portugal primeiro”, “fim da impunidade” que serve uma retórica que privilegia a clareza e o impacto mediático sem atender à complexidade dos problemas e das soluções.


A estratégia comunicacional de André Ventura é marcada pela presença ativa nas redes sociais e pela aposta em formatos de comunicação direta, como vídeos curtos, sessões ao vivo e fóruns abertos, onde a mentira e a produção de notícias falsas ou truque amplificadas pelo exagero das situações escolhidas. A estratégia dos vídeos e cassetes foi utilizada por Silvio Berlusconni, bilionário, empresário e político italiano que foi Primeiro-ministro da Itália durante vários anos que, antes da popularização das redes sociais, enviou uma cassete de vídeo para todos os canais de televisão de Itália e poucos meses depois estreou-se como primeiro-ministro após  a astúcia da cassete que, sem intermediários falou ao povo através de monólogo emocional uma espécie do que políticos atuais populistas, ou não, fazem usando as redes sociais.


Esta estratégia tem como objetivo criar uma proximidade com o eleitorado, contornar filtros mediáticos tradicionais e estabelecer um canal de comunicação onde a mensagem seja transmitida sem intermediários, fora da comunicação social corrente, em redes sociais, nas quais se manipula o modo emotivo, que hoje é o mecanismo dominante do discurso nesses locais, consolidando, assim, uma base de seguidores altamente envolvida.


André Ventura explora as vulnerabilidades da opinião pública, recorrendo a uma lógica de simplificação binária de dois polos opostos, por vezes contraditórios, e à exploração de medos difusos. Estas dinâmicas, aliadas à eficácia da máquina de propaganda partidária, contribuem para a sedimentação das principais narrativas que sustentam a sua candidatura e reforçam o posicionamento do Chega enquanto força política de contestação, Ventura “foi capaz de instituir a perceção generalizada de um país corrupto, liderado por políticos infames, analisado por cientistas e jornalistas vendidos, colonizado por imigrantes oportunistas e criminosos, até porque casos como o das multas dos bancos, dos prémios do Novo Banco ou a história da Spinumviva lhe facilitam a vida.”, de acordo com um artigo de opinião de Manuel Carvalho no jornal Público.


Devo aqui acrescentar que tudo que que se possa fazer, dizer ou escrever sobre André Ventura seja em artigos de opinião, vídeos, mensagens, comentários, livros, televisão ou análises como esta que realizei, nos quais ele seja protagonista, facilitam-lhe a vida da sua propaganda. Mas, citando uma frase do livro a Arte da Guerra de Sun Tsu, “Se conhece o inimigo e se conhece a si mesmo, não precisa temer o resultado de cem batalhas. Se se conhece mas não conhece o inimigo, para cada vitória ganha sofrerá também uma derrota. Se não conhece nem o inimigo nem a si mesmo, perderá todas as batalhas.”


**********


Uma análise de conteúdo das intervenções de André Ventura (últimos 2 anos)


O que está por baixo do tom combativo de André Ventura e o padrão que emerge nos discursos e textos nos últimos dois anos?


Estratégias retóricas e estilo


Anticorrupção palavra de ordem como apoio discursivo



  •  Há uma discrepância intencional entre a sua atitude quando fala para uma assistência a partir do seu “palco” e o programa do partido. Discurso para mobilizar, mas sem proposta de governabilidade ou pouco coerente no programa.

  •  A palavra “corrupção” surge repetida no texto programático (45 vezes), mas é sinalizada como um apoio emocional/moral do discurso com o registo oral incendiário, mesmo quando a proposta escrita assume tom mais tecnocrático.


Polarização moral e nacional



  • Para justificar a prioridade aos nacionais agita uma hierarquia afetiva como a de “amamos primeiro os nossos”, estabelecendo medidas restritivas de imigração não apenas securitárias, mas também culturalmente de proteção.

  • Propõe soluções fortes para casos simples que exagera com penas máximas, metas absolutas como “tolerância zero”. O léxico que utiliza privilegia a emoção à qualidade jurídica da atuação, depois reformatado em propostas com linguagem de reforma “estrutural”.


Observa-se, portanto, uma evolução discursiva marcada pela adaptação estratégica do vocabulário e pela mudança de abordagem, sem abandonar a intensidade dos temas de modo a adaptar-se a uma linguagem aceite por algumas faixas de população e pelos grupos mais jovens como se verá mais adiante.


Este percurso revela uma transição de uma comunicação polarizador, identitária e de rutura para uma abordagem mais racionalizada em propostas institucionais e promessas de eficiência.


A linguagem torna-se, assim, não só um instrumento de mobilização, mas também de legitimação perante o eleitorado, refletindo a tentativa de ocupar novos espaços no debate político e conquistar legitimidade governativa, o que pode ser observado no seguinte quadro.


 



Domínios do discurso



Itens de uma determinada sequência de texto e palavras mais salientes



Função retórica


Técnicas e estratégias utilizadas para persuadir o público, moldar a sua mensagem e alcançar um objetivo comunicativo específico



Justiça/segurança



prisão perpétua;


castração química



Severidade punitiva



Constituição



revisão constitucional;


Tribunal Constitucional



Reconfigurar regras



Imigração



controlos fronteiriços; residência ilegal



Ordem/controlo



Corrupção



enriquecimento ilícito;


confisco de bens



Limpeza do sistema



Cultura/educação



ideologia de género; educação parental



Guerra cultural



 


Vejamos agora a estratégia discursiva de André Ventura para mobilizar os mais jovens, (e não apenas), que combina elementos populistas, digitais (utilização de redes e comunicação vídeo) e identitários que, afinal, não diferem muito da sua narrativa habitual dos quais se destacam alguns dos seguintes pontos-chave:


 


 



  • Linguagem simples, direta e emocional



  • Evita tecnicismos e usa frases curtas e fortes, que apelam mais ao sentimento do que à racionalidade.

  • O uso de polarizações claras (concentração de forças num determinado ponto por oposição a outro “nós contra eles”, “os jovens esquecidos vs. a elite política”)  que cria um sentimento de pertença e urgência.



  • Narrativa de exclusão e oportunidade



  • Apresenta os jovens como uma geração sacrificada: precariedade laboral, dificuldades no acesso à habitação, falta de futuro em Portugal.

  • Posiciona-se como o político que “diz o que ninguém diz” e que pode devolver oportunidades e esperança.



  • Apelo à rebeldia e ao inconformismo



  • O discurso funciona como um convite à “rebeldia contra o sistema”.

  • A narrativa é construída como antissistema porque se diz contra as instituições oficiais, sejam elas políticas, económicas ou sociais, da forma vigente da sociedade,  o que atrai jovens que se sentem distantes da política tradicional.



  • Uso estratégico das redes sociais



  • Forte presença em TikTok, Instagram e YouTube, com vídeos curtos, memes e transmissões em tempo real.

  • Conteúdo feito para ser facilmente partilhado, usando humor, provocação e linguagem próxima da gíria jovem.

  • Estilo “influencer político”, aproximando-se das práticas comunicacionais dos jovens.



  • Temas com apelo juvenil



  • Habitação: dificuldade em sair da casa dos pais.

  • Emprego: salários baixos, instabilidade e emigração forçada.

  • Justiça social seletiva: “os jovens portugueses são esquecidos em detrimento de minorias ou imigrantes”.

  • Segurança e identidade: discurso nacionalista que cria a sensação de proteger o futuro dos jovens “do seu próprio país”.


Note-se que muitos destes temas são comuns de partidos de extrema-esquerda até aos de direita “normalizada”.



  • Criação de comunidade e identidade



  • Usa slogans e símbolos fáceis de apropriar (“Chega” como sinónimo de basta e “Portugal Primeiro”).

  • Gera sentimento de pertença, quase tribal, em que o jovem passa a sentir que faz parte de um movimento maior. Este tribalismo político no seu nível mais básico, é a divisão do mundo político em grupos opostos impulsionados por uma forte lealdade e identidade de grupo. Estes aspetos negativos do tribalismo são frequentemente alimentados pela competição e pela perceção de uma ameaça comum, através do medo, ansiedade e preconceito, tornando as pessoas mais suscetíveis a notícias falsas, propaganda e conflito.



  • Estilo performativo de André Ventura



  • Aposta em debates televisivos, confrontos diretos e frases “virais”.

  • Essa teatralização política agrada a jovens que consomem política como espetáculo e entretenimento.


Em síntese: a estratégia para os jovens combina emoção, rebeldia, identidade nacional e linguagem digital, criando uma narrativa de rutura com o sistema e de esperança num futuro “roubado” aos jovens.


 Eixos temáticos recorrentes



  • Família e demografia: A família é erguida como solução ao “inverno demográfico”, com incentivos fiscais (ex.: isenção de IRS para mulheres com 3 ou mais filhos), alargamento de licenças parentais e apoios na saúde materna. Nota-se a retirada, desde propostas antigas, de retirar aborto e cirurgias de transição de género da saúde pública, sinalizando uma adaptação tática. O programa evita quantificar impactos financeiros destas medidas.

  • Justiça e crime: Centralidade em “acabar com a brandura” da justiça: prisão perpétua com revisão, castração química para reincidentes sexuais, agravamento de penas para violência doméstica, e apertos processuais para acelerar megaprocessos de corrupção. Isto exige revisão constitucional é tratada pelo próprio partido como prioridade. Há também reforço de meios (PJ, magistrados), apreensão de bens antes da sentença e crime de enriquecimento ilícito.

  • Imigração: Passagem de quotas “culturais” (antigas) para endurecimento amplo: controlos fronteiriços, crime de residência ilegal, recondução a países de origem se não houver prova de autossustento em 6–12 meses, exigência de português no trabalho, restrição de apoios sociais a quem tenha 5 anos de contribuições, revogação do acordo de mobilidade da CPLP e recomposição da AIMA com funções policiais à la SEF.

  • Revisão constitucional: Objetivo estruturante que viabiliza o pacote penal. Pretende “limpar carga ideológica” do preâmbulo, permitir prisão perpétua e castração química, reduzir e alterar composição do Tribunal Constitucional, voto obrigatório, referendos vinculativos sobre qualquer matéria, reduzir deputados e limitar ministérios. A conjuntura parlamentar recente tornou este objetivo menos hipotético.

  • Economia e fiscalidade: Centra-se na retórica liberal de direita: baixar IRS/IRC/IMI, eliminar derrama e pagamentos por conta; isenção de IRS para jovens até 100 mil de rendimento acumulado, depois taxa plana de 15%; isenções na primeira habitação; incentivos a contratação jovem. Em paralelo, medidas de tributação extraordinária sobre banca/petrolíferas e uma lista extensa de promessas sociais sem envelope orçamental explícito, estimadas em mais de 5% do PIB, expondo tensão entre ambição e sustentabilidade.

  • Educação: Defesa de “autonomia da família versus escola”; combate à chamada “ideologia de género” com direito de veto parental; oposição a casas de banho neutras como única opção; Cidadania e Desenvolvimento apenas opcional; reintrodução de exames em todos os ciclos e “tolerância zero” à indisciplina. Reposição integral do tempo de serviço dos professores e revisão do ECD-Estatuto da Carreira Docentes.


Se analisarmos à lupa verificamos que muitas destas medidas servem apenas para captar potenciais eleitores sem garantia de que numa situação de governo muitas dessas medidas sejam sustentáveis ou até exequíveis a prazo.


 


 


Fontes:


Lessard-Hébert, Michelle, Investigação Qualitativa; Fundamentos e Práticas, Instituto Piaget.


José Raul de Sousa; Simone Cabral Marinho dos Santos; Análise de conteúdo em pesquisa qualitativa. https://www.google.com/url?sa=t&rct=j&q=&esrc=s&source=web&cd=&ved=2ahUKEwjXg-norvmPAxUYUKQEHfGUG184FBAWegQIMBAB&url=https%3A%2F%2Fperiodicos.ufjf.br%2Findex.php%2FRPDE%2Farticle%2Fdownload%2F31559%2F22049%2F134370&usg=AOvVaw3qBWRai0qz1Bqbg0p36NMV&opi=89978449


 


https://ojs.letras.up.pt/index.php/re/article/view/13182/12192


Como o discurso do Chega mudou e o que isso diz da sua estratégia: https://rr.pt/fotoreportagem/politica/2024/03/05/como-o-discurso-do-chega-mudou-e-o-que-isso-diz-da-sua-estrategia/368696/


Desafios e Oportunidades da imigração em Portugal, revelados no Dia Internacional dos Migrantes: https://pessoas2030.gov.pt/2024/12/20/desafios-e-oportunidades-da-imigracao-em-portugal-revelados-no-dia-internacional-dos-migrantes/


https://linguateacher.com/pt-pt/glossary/vocabulario-para-contextos-politicos-e-governamentais-em-portugues/


André Ventura quer o Chega a liderar oposição e "preparado para governar": https://cnnportugal.iol.pt/chega/andre-ventura/sangue-suor-lagrimas-e-muita-fe-andre-ventura-quer-um-chega-preparado-para-governar/20230127/63d44cef0cf2c84d7fc54165


O Chega é o futuro, mudámos o sistema político português para sempre: https://expresso.pt/podcasts/legislativas-2025-todos-os-debates/2025-05-19-andre-ventura-o-chega-e-o-futuro-mudamos-o-sistema-politico-portugues-para-sempre-609d2d4f


Discurso de André Ventura no 25 de novembro: https://www.youtube.com/watch?v=pvdm8YIqmJ8


Chega promete programa eleitoral para a próxima segunda-feira com foco em corrupção e imigração: https://www.dn.pt/pol%C3%ADtica/chega-promete-programa-eleitoral-para-a-pr%C3%B3xima-segunda-feira-com-foco-em-corrup%C3%A7%C3%A3o-e-imigra%C3%A7%C3%A3o


O que defende mesmo o Chega? As convicções e contradições do partido de André Ventura:     https://rr.pt/fotoreportagem/politica/2025/05/20/o-que-defende-mesmo-o-chega-as-conviccoes-e-contradicoes-do-partido-de-andre-ventura/426219/https://www.publico.pt/2025/09/11/politica/noticia/chega-recrutar-futuros-votantes-2146881


Como é que o Chega está a recrutar futuros votantes https://www.publico.pt/2025/09/11/politica/noticia/chega-recrutar-futuros-votantes-2146881


Entrevista ao jornal Público, fevereiro 2024, https://www.publico.pt/2024/02/13/politica/entrevista/andre-ventura-so-crescimento-economico-casa-3-5-podemos-aumentar-pensoes-2080089

segunda-feira, 26 de maio de 2025

Eleições legislativas 2025: uma leitura subjetiva e ficcional

 


Eleições 2025 leitura subjetiva.png


Há várias perguntas que podemos colocar sobre os resultados das eleições. Quais as interpretações sobre os resultados das eleições? Haverá de facto uma mensagem passada pelos eleitores através do voto? Será que a mensagem coletiva é o somatório do voto individual de cada uma das preferências dos eleitores? Se a houver será mais emocional ou mais racional?


Cada eleitor carrega consigo preferências, valores e aspirações que, ao serem depositados numa urna, mas cujo somatório das opções manifestadas em cada um dos nos votos enviam uma mensagem coletiva que pode indicar o caminho que a sociedade deseja seguir. As eleições para além da escolha de candidatos são também uma forma simbólica de comunicação que pode medir o estado da opinião pública.


Em democracia essa mensagem pode ilustrar o desejo por mudança, a continuidade de políticas que funcionaram ou até a insatisfação com determinados aspetos do sistema político em vigor.


Os resultados eleitorais são assim um indicador que partidos e governantes e a sociedade podem analisar para entender as expectativas, os medos e, principalmente, os anseios de transformações mais ou menos radicais do ambiente social e político. 


O voto, na sua essência, vai muito além de uma simples escolha entre candidatos ou partidos, ele é uma forma simbólica e concreta de comunicação. Mais do que uma escolha individual, o ato de votar reflete não apenas o que cada cidadão pensa, mas também sinaliza, de forma pluri-uníssona, as exigências e as esperanças de duma comunidade.


É importante lembrar que o voto é, sobretudo, uma ferramenta de protagonismo do cidadão. Cada voto é uma afirmação do direito de participar da construção do futuro, funcionando como um meio pelo qual os eleitores expressam não apenas suas preferências imediatas, mas também sua visão sobre a direção que a sociedade deve tomar.


Algumas teorias dizem que votamos de acordo com a classe social, lealdades grupais a um partido ou por motivo de fortes crenças ideológicas. pode ser também uma visão simplista de interesse individual porque se pensa vir a estar melhor com as políticas de um partido do que com a de outro.


O voto sendo unipessoal expressa em cada eleitor uma vontade, uma ideologia, um sentimento, um ressentimento, um protesto, uma aceitação, um descontentamento, um ato de pertença, uma insatisfação, um incentivo à agressividade e um ressentimento, estes dois últimos as principais armas políticas de alguns partidos que terão levado alguns a desistir do partido que antes terá escolhido, alterando o seu voto tradicional que é trocado por um desejo inconsciente de mudança e, por isso, optando pelo desconhecido. O somatório de cada uma destas vontades apresenta-nos um leque variado de opções cuja interpretação não nos leva a concluir que houve uma “mensagem coletiva de escolha” fonte de um desejo generalizado, isto devido à concentração regional de algumas das escolhas a isso leva a concluir.


Eleições 2025 leitura subjetiva-Mapa de votos.pn


O somatório dos votos em partidos radicais populistas de extrema-direita são um protesto que resulta, afinal, de votos individuais, consequência duma multidão de descontentes que com nada mais se identificam a não ser no ódio aos partidos do regime que ouvem dizer serem “corruptos” que nada lhes deram e, acrescente-se, algum aventureirismo dos jovens que consideram que os valores da democracia estão mais do que garantidos e que essa história do “25 de Abril” e do regresso ao fascismo “já era”.


Aliás, o voto de protesto e reivindicativo, dos partidos de extrema-esquerda, plenos de palavras de ordem, parece, estar a ser substituído por partidos populistas de extrema-direita.


A influência do tipo de voto de cada um dos eleitores induzido por aconselhamento de outros, pela campanha direta dos intervenientes dos partidos, pelos órgãos de comunicação social, pelas redes sociais e pela imagem de simpatia ou de antipatia que sentem pelos líderes dos partidos. São formas e fontes muito eficazes que, em grande parte, são manifestadas nas redes sociais onde se criam mecanismos para influenciar polarizações e radicalizações que geram o tal confronto entre o “nós” e o “eles” das narrativas populistas.


Poderemos ficcionar a resposta de um certo eleitor a uma pergunta muito direta sobre a razão que o levou a votar em determinado partido sobre o conhecimento do seu programa. A resposta poderia ser: - voto nesse partido e quero lá saber do programa. Basta-me ouvir o que ele diz, ler e ver o que aparece nas redes sociais que, para mim, são mais do que suficientes e até mais “credíveis” do que os órgãos de comunicação. Para além disto as redes sociais também possibilitam que o que eu digo passe a ter um valor maior do que com os que tenho ao meu lado, no emprego, no namoro, no café, em casa e, melhor ainda, possibilita-me culpar o outro, ou os outros, pelo meu insucesso.


Se lermos com atenção e disciplina crítica os comentários publicados a artigos de opinião na imprensa descobrimos afirmações interessantes que nos apontam para as causas e nos sugerem o sentido de voto de alguns desses eventuais e potenciais votantes.  Podemos dar como exemplo jovens votantes inconsequentes que utilizam linguagens guturais e narrativas em que o substantivo “tipo” está presente a cada duas ou três palavras, e captam declarações falaciosas com sound bites, frases cativantes e altissonante que eles ouvem, apreciam e com hipóteses de votar em quem tem discursos dessa espécie.  


Se analisarmos o estudo “As bases sociais do novo sistema partidário português 2022-2025” de João Cancela e Pedro Magalhães verificamos que os votos destas últimas eleições mostram-nos o PS atrás da IL no voto jovem masculino e quase encostado ao partido Livre nas jovens mulheres ficando ainda os socialistas em quarto lugar, atrás da IL, no apoio dos jovens homens (entre os 18 e os 24 anos) e abaixo da AD e do Chega nos eleitores com o ensino secundário. Estão ainda a competir quase ao lado do Livre no voto jovem feminino (na mesma faixa etária dos 18/24) e com a AD pelo voto dos idosos menos instruídos.


Se ouvirmos as dezenas de comentários televisivos, opiniões e análises sobre os resultados das eleições e sobre o que poderá, como consequência, vir a acontecer, o que podemos apurar é que cada um defende as suas teorias, normalmente permeáveis à especulação e oráculos da imperfeição sobre o que resultará após as eleições. No entanto, até ao momento, tudo está em aberto.


Uns dizem que os recentes resultados eleitorais permitem ler um desejo dos eleitores por mudança e inovação na política. Outros defendem teses já gastas de que o eleitorado demonstrou um profundo desencanto com os partidos tradicionais, visivelmente insatisfeitos com um sistema que, para muitos, não tem respondido de forma eficaz aos desafios sociais e económicos. Outros ainda que, pelo facto de a AD - Aliança Democrática ter conquistado uma expressiva percentagem dos votos (exagero, já que, se assim fosse, não se levantaria a questão de poder haver um problema governativo para a AD se não houver acordos).


Facto é haver uma queda histórica do PS que, conforme alguns comentadores da política caseira, pode revelar que os eleitores (como no início referi, são somatórios de várias vontades) exigem alternativas capazes de romper com o padrão antigo e promover realmente uma renovação no cenário político. Isto é, pretenderam uma aposta no desconhecido.


Falar em renovação do cenário político é uma abstração porque o entendimento que a generalidade do eleitorado tem de renovação não é evidente e é multifacetada por estar dependente dos vários partidos por haver uma oferta de opções partidárias com consequente distribuição e dispersão de votos.


Será que, para grande parte do eleitorado, o motor da renovação está no partido Chega por este ter conseguido aumentar a sua percentagem de eleitores? O eleitor não militante ou simpatizante de um qualquer partido defende no seu voto uma atitude de colocar os seus interesses, opiniões, desejos, necessidades em primeiro lugar, em detrimento (ou não) do ambiente social e das demais pessoas com que se relaciona. O eleitorado é volátil. O que vota hoje num partido pode já não votar no mesmo na próxima eleição.


Podemos incluir estes eleitores num grupo central, moderado, que oscila facilmente entre os blocos ideológicos (talvez PSD e PS). Este grupo será o somatório de várias vontades individuais e compõe uma fatia significativa dos eleitores e é particularmente suscetível às variações de curto prazo, pois não se encontra fortemente ancorado em identificações ideológicas profundas. A volatilidade resulta de uma interação complexa de fatores de longo prazo e estímulos de curto prazo.


Para analisar a volatilidade eleitoral em Portugal e, para saber como conquistar eleitores considerados “voláteis”, é importante compreender que há variáveis tais como a conjuntura económica, a imagem dos líderes e os temas da campanha podem exercer forte influência sobre o voto dos eleitores voláteis. A identificação com um partido ou líder pode funcionar como uma âncora que estabiliza o voto. Quando essa identificação é fraca, característica dos eleitores voláteis há uma maior probabilidade de mudança de opinião antes ou durante as campanhas. Essa variável mostra que, mesmo em segmentos com acesso a informações, a falta de um forte vínculo emocional ou ideológico com um partido pode abrir espaço para oscilações.


Enquanto os eleitores mais entusiasmados e com maior envolvimento político têm capacidade para analisar e consolidar uma posição, os menos interessados podem ser facilmente influenciados por fatores que levam à procura de melhor. Essa capacidade para dar resposta rápida aos sinais do ambiente imediato faz com que mudanças rápidas na comunicação ou na situação nacional sejam determinantes para a mudança do voto.


Neste sentido, a volatilidade eleitoral em Portugal é moldada por uma combinação de fatores históricos, sociais e estruturais imediatos. Para perceber a volatilidade dos eleitores há que perceber a fragilidade dos vínculos tradicionais e oferecer, de maneira rápida e consistente, respostas às inquietações desses eleitores e numa personalização do discurso para transformar a oscilação numa conquista eleitoral.


Para finalizar apresento um vídeo da Rádio Comercial interpretdo por Vasco Palmeirim que é divertido, muito atual e que nos diz muito sobre a política atual. 



 

sábado, 17 de maio de 2025

Verdade e ficção em tempo de eleições

Eleições verdade e ficção.png


Há políticos que raramente dizem a verdade, sobretudo em tempo de campanhas eleitorais. Preferem falar em hipotéticas promessas com narrativas próximas da ficção. Isto porque a ficção pode ser mais simples de assimilar pelos potenciais eleitores, enquanto a verdade é tendencialmente complicada porque a realidade que a representa é também complicada. É mais fácil convencerem-se os eleitores de que tudo será simples e fácil com demagogia plena de ficção do que dizerem a verdade porque esta é, por vezes, dolorosa e perturbadora e se a tornam mais reconfortante e suavizadora deixa de ser verdade. Assim, um discurso mais ficcional é mais irrealista, maleável e demagógico e sem qualquer sustentabilidade com a realidade é mais produtivo para a captação de votos. Daqui a necessidade duma análise atenta às suas intervenções.  

O Fandango nova versão

Luís Montenegro poderá vir a dançar o fandango com Rui Rocha


Montenegro e Rui Rocha no Fandango.png


 

domingo, 11 de maio de 2025

Perdoai-lhes Senhor porque sabem o que fazem

Religião Montenegro e Ventura.png


O título deste texto foi inspirado nos evangelhos, mais propriamente em Lucas (23;34), quando Jesus disse: «Pai, perdoai-lhes, porque não sabem o que fazem!».


Assim, no entremeio das eleições para as legislativas de 18 de maio, cinco dias antes do 13 de maio dia de peregrinação ao Santuário de Fátima surge a oportunidade de aproveitamento da religiosidade da população devota daquele dia e Luís Montenegro não poderia deixar perder a oportunidade deste dia e lança a sua esposa para a comunicação social (fica o benefício da dúvida). Montenegro encontra-se com a mulher, em peregrinação a Fátima e, para tal, televisões foram convocadas.


O líder do PSD deixou um almoço de forma discreta e decidiu ir cumprimentar a mulher, que se encontrava algures na zona de Mira negando aproveitamento político. Recordemo-nos quando foi ameaçada uma CPI por causa da SPINUMVIVA Montenegro lamentava que a família fosse envolvida no caso. Enfim são pontos de vista!


Temos um novo Papa e sobre a sua atuação fazem-se prognósticos sobre se seguirá o caminho do seu antecessor ou se irá manter uma postura mais conservadora. Há opiniões sobre o novo Papa conforme as várias visões sobre o Mundo conturbado que estamos todos a viver.


É interessante conhecermos como reagem alguns políticos ou próximos sobre como foi a atuação do Papa Francisco e de como será a do Papa Leão XIV, mas antes recordemos o que alguns deles disseram no rescaldo do falecimento do Papa Francisco.


Começo por uma atriz ressabiada (talvez por ter sido votada ao esquecimento), apoiante do partido Chega, de seu nome Maria Vieira que reagiu numa rede social à morte do Papa Francisco escrevendo “Eu sou cristã, mas nunca simpatizei com este Papa socialista e «wokista» que falseou e atacou os valores ancestrais do cristianismo. Agora é tempo de a Igreja Católica encontrar um Papa conservador e verdadeiramente cristão que recupere a Palavra de Deus e que ponha ordem na Igreja”. É esta uma visão caridosa que de cristã não tem nada.


Esta falsa cristã apenas demonstra a sua ignorância porque um dos valores e pilar do cristianismo é o amor ao próximo desconhecendo que esses ensinamentos são encontrados em várias passagens dos Evangelhos, como o do Sermão da Montanha e nas parábolas de Jesus Cristo que formam a base da ética cristã que se encontra nos Evangelhos.


Deixemos para trás esta senhora e vamos ao que afirmou o seu grande líder André Ventura quando se pronunciou sobre a morte do Papa Francisco. Ventura, que diz ter frequentado o seminário, mostra pelas suas afirmações que também parece desconhecer o fundamento da essência da mensagem pregada por Jesus Cristo.


As primeiras declarações de Ventura sobre o Papa Francisco remontam a outubro de 2020 quando, numa entrevista ao Diário de Notícias, afirmou sobre o Papa Francisco que “Eu acho que este Papa tem prestado um mau serviço ao cristianismo. Acho. Acho que tem mostrado a esquerda revolucionária quase como heroica e a esquerda europeia marxista como a normalidade. Acho que este Papa tem contribuído para destruir as bases do que é a Igreja Católica na Europa e acho que em breve vamos todos pagar um bocadinho por isso.”. André Ventura, nos últimos anos foi repetidamente crítico do Papa Francisco.


O tempo passou, já lá vão cinco anos, e, para Ventura, o Papa Francisco foi um “exemplo para todos os que querem servir a causa pública”. Face ao que antes tinha afirmado ficamos sem perceber qual é o verdadeiro pensamento de Ventura sobre o Papa Francisco, mas, fica confrontado com declarações passadas sobre o líder da Igreja Católica.


André Ventura sempre recusou acolher a mensagem do líder da Igreja Católica porque dizia ele, o Papa Francisco só queria que a Igreja ficasse “bem na fotografia” e acusava o Papa de estar a transformar a Igreja num “partido político de esquerda”.


Na celebração das Jornadas Mundiais da Juventude em 2023, aquando da visita do Papa Francisco a Lisboa, André Ventura foi um dos poucos ausentes. Afirmou então que “Confesso que podia ter estado no CCB (Centro Cultural de Belém) com Sua Santidade e não desejei esse encontro. “Peço a Deus que me perdoe por isso e tenho tido todas as dificuldades com a minha própria consciência” disse. Os hipócritas batem com as mãos no peito quando isso lhes convém. Ventura escreveria depois, numa carta reproduzida no Correio da Manhã que, embora dirigida ao Papa Francisco, que não terá sido enviada ao Vaticano.


Conforme a Agência Lusa, em 21 de abril de 2025, André Ventura citou João Paulo II: “Dizia um outro Papa, João Paulo II, a Europa é cristã, a sua matriz é cristã e não a devemos perder em nenhuma circunstância”. Segundo o DN o líder do partido disse que Francisco deixou a Igreja «diferente», mas não especificou se a Igreja melhorou ou piorou, contudo, afirmou que esta “tem de começar a ter mais posição de firmeza nas grandes lutas", nomeadamente “contra a cultura 'woke' e contra a sexualização das crianças”.


Regressemos agora à eleição do Papa Leão XIV e atentemos no que disse André Ventura aos jornalistas no concelho de Guimarães em declarações em que saudou a escolha do cardeal norte-americano Robert Francis Prevost como novo Papa, manifestando esperança, e achando que “é um nome que nos dá esperança de que no futuro possamos ter uma Igreja interventiva em áreas importantes”, e onde defendeu que é preciso uma “Igreja firme, forte em matéria de convicções, em todas as áreas, desde a espiritualidade, à imigração, ao acolhimento, ao combate à pobreza”, mas acrescenta que  espera que o novo Papa “seja um sinal de reforma para a Igreja” e «de doutrina»”. Será que para Ventura o combate à pobreza deve passar por acabar com o RSI-Rendimento Social de Inserção!


Referindo-se à imigração disse que há coisas que poderiam ser “poderia ser diferente”, como na “questão da imigração na Europa”.


Ao longo da história a religião serviu de alimento às almas e muitos políticos recorreram e ainda recorrem à retórica religiosa para construir pontes de identificação com os eleitores, criando uma sensação de esperança, pertencimento e reafirmação de valores compartilhados. Eles sabem que é um terreno poderoso e convincente para eleitores cuja fé os salva e se políticos estiverem desse lado então a convicção produz os efeitos desejados.  

quarta-feira, 16 de abril de 2025

Os saldos, as promoções e as ofertas da AD e de Montenegro

Montenegro e Miranda fazem promoções.png


O que é que os saldos e as promoções têm a ver com a política e com o Governo do país. Feita esta pergunta a alguém e até mesmo a especialistas a resposta seria óbvia: - Nada!


No entanto, agora que os partidos estão em campanha eleitoral talvez tenha. Comecemos por definir conceitos. Saldos são mercadorias ou até serviços que são postos à venda a um preço inferior ao normal. Quanto a promoções já podemos dar-lhe uma outra nuance. Uma promoção de vendas é uma estratégia de marketing em que uma empresa, neste caso um partido, usará campanhas de curto prazo para despertar o interesse dos clientes, os eleitores, e criar procura, os votos.


Sendo o marketing o processo de levar um produto a determinado público o que envolve analisar as necessidades dos consumidores, neste caso os eleitores, com os produtos dos concorrentes. Assim, há estratégias e técnicas que ajudam a comunicar um produto ao público, neste caso um partido político, com o objetivo de o apresentar, aumentar a procura e a diferenciá-lo de outro.


Ora, é isso que o Governo e a AD têm feito e continuam a fazer, a propaganda mais descarada, para tornar o seu “produto” mais competitivo com o do seu opositor mais concorrencial. Aliás a AD utiliza o Governo em gestão para a promover. Montenegro nos debates não apresenta o que pretende fazer ou melhorar o que já fez, apenas faz propaganda do que diz já fez, mas que afinal era o que tinha prometido, mas não fez.


O PS apresentou no início da semana passada o seu programa eleitoral, esta semana foi a vez da AD apresentar o seu. Vejam-se os pontos essências segundo a comunicação social.


“AD quer salário mínimo de 1100 euros, CSI nos 870; e já só baixa IRC para 17%. “IRS com bandeira de corte de 2000 milhões. Promessas de aumento de salários e pensões são muito parecidas com as do PS. Montenegro suaviza redução do IRC e quer contratualizar 12 mil vagas nas creches”, escreve o Público. É uma campanha promocional e uma aposta forte no bolso onde os eleitores sentem mais.


É o ver quem dá mais ofertas para ganhar votos. Já lá vai o tempo em que a cidade de Gondomar foi capa de vários jornais pelo facto de Valentim Loureiro ganhar votos para a presidência da câmara oferecendo eletrodomésticos aos habitantes. Agora arem-se os cordões à bolsa custo o que custar depois se verá. Montenegro terá sempre um escudo se tudo falhar, é a crise internacional que o obrigará a uma austeridade.


O programa eleitoral da AD tem uma falha uma espécie de “bug” informático. Especialistas de todo o mundo alertam que o cenário macroeconómico é marcado por uma “forte incerteza” e especifiquem que uma delas resulta da “possibilidade de medidas protecionistas, com impacto no comércio internacional, na inflação e na atividade económica", a AD parece não assumir potenciais consequências.


Escreveu Marta Oliveira no jornal Público que “A previsão para o PIB não revela incorporar qualquer impacto da guerra comercial e é mais optimista que outras. Se a economia mundial encolher, qual das medidas incluídas no programa cai? O alívio do IRS, avaliado numa perda de receita de 500 milhões de euros, segue, aconteça o que acontecer? A dúvida é tanto maior quanto a garantia de que com Montenegro não haverá défices.” E acrescenta que, “No entanto, também não se lê que medidas dos socialistas ficariam pelo caminho se o cenário passar a ser real. O IVA zero para um cabaz de produtos mantém-se, aconteça o que acontecer?”. Questiona Marta Oliveira.


 

segunda-feira, 7 de abril de 2025

A manutenção do poder por Montenegro estará assegurada?

Montenegro e governo.png


O que Luís Montenegro pretende é que estas eleições sirvam como uma espécie de moção de confiança que os eleitores deste país lhe outorguem. Por outro lado, pretende ou propõe, já que não pode obrigar, que os temas do debate sejam apenas sobre o que fez e o que pretende fazer, isto é, debates de propaganda.


A propósito de propaganda é o que tem feito Montenegro com apressadas inaugurações, como foi a do dia 31 de março em que falou na sessão de inauguração da Unidade de Saúde Familiar (USF) Feira Sul, em Milheirós de Poiares, uma das três que inaugurou nessa manhã neste concelho do distrito de Aveiro.


Lata não lhes falta! A confusão está instalada e no clima de campanha há confusão entre Estado, Governo e PSD que deveria ser evitada, mas não. Na terça-feira à noite, dia 1/04 a concelhia do Porto do PSD convocou os militantes via SMS para irem cumprimentar não o primeiro-ministro, mas o líder do partido. Eis o SMS que enviaram aos militantes: “Caro(a) militante, informa-se que amanhã, dia 2 de abril, o primeiro-ministro Luís Montenegro estará na cidade do Porto, numa reunião do Conselho de Ministros que assinalará 1 ano de governação. O primeiro-ministro chegará ao Mercado do Bolhão pelas 10h20 e sairá pelas 12h30. Todos estão convidados a ir cumprimentar o nosso Presidente”, pode ler aqui. Não contentes com isto, acresce que, além desta colagem ainda calhou que o balanço da governação se fundisse, ou confundisse, com a confirmação da candidatura de Pedro Duarte à câmara do Porto


A incapacidade que alguns políticos têm para não se verem ao espelho quando acusam outros de algo que eles próprios também fazem, como é o caso de Luís Montenegro e seus acólitos do Governo que, para evitar movimentos sociais e contestações, distribuíram dinheiro por todo o lado como foram os professores e polícias entre outros. Fora de causa está a justeza ou não das medidas. Não gozem connosco por favor!


Os tipos do PSD/AD, ou como é que agora se passou a designar, são uns trapalhões e uns hipócritas. Em relação ao programa de governo apresentado pelo PS dizem agora que tem a “Receita para o desastre”, “grau zero da responsabilidade política” e recuperam para comparação o caso Sócrates, que nada tem a ver, e serve apenas para afastarem do domínio público os arranjinhos que Luís Montenegro tem com as suas empresas.


O PSD é um fazedor de esquecimento para tudo quanto a si próprio diz respeito, mas, tratando-se de outros, a memória de longo prazo aviva-se e encurta-se e, de repente, a AD saca da palavra “Sócrates” isto é um impulso de quê? Esqueceu-se rapidamente que Montenegro processa o CHEGA e pede retirada de cartazes que o associam a Sócrates.


O PSD ter sentido necessidade de recorrer a Sócrates para atacar o programa do PS, mostra quanto a imagem de Montenegro é afetada pelo cartaz do CHEGA a compará-lo com o dito. Uma confissão que terá toda a razão de ser, e da qual será muito difícil descolá-lo.
Em síntese: imediatamente após a entrada em funções o Governo de Luís Montenegro pegou no dinheiro do excedente, resultado do anterior Governo e, para evitar, contestações sociais distribuiu dinheiro ao desbarato por todo o lado. Em resumo: o Governo que cessou funções para além de distribuir por alguns funcionários públicos o excedente que o PS deixou em nada mudou a educação e a saúde que está muito pior e, pelo andar carruagem, se a AD(?) ou será PSD(?) ou PSD/AD(?) formar Governo vamos ter novamente a incompetente da ministra da saúde Ana Paula Martins e estragar o que falta do SNS.


Jogada cheia de habilidades e de falsa ingenuidade é querer que o Governo bata certo com os seus negócios que continue a tratar da sua vida privada como se nada fosse e distribuiu cheques por todo o lado como se não houvesse amanhã para atrair as classes médias e descolar, juntamente com os pensionistas, os eleitores do PS e depois esperar pelos votos a cair. É o poder comprado com meios do erário público.


Após isto o primeiro-ministro Montenegro jogou na queda do Governo porque teve medo de uma CPI na Assembleia da República e por isso conduziu o país para novas eleições.


As palavras do primeiro-ministro Luís Montenegro têm sido bem esclarecedoras para quem o quer escutar quando nesta campanha usa e abusa da palavra “pessoas”, identicamente como ele fazia há mais de dez anos, quando era líder da bancada do PSD, durante um Governo de Pedro Passos Coelho/Paulo Portas. Tem agora razões para repetir que “a vida das pessoas não está melhor, mas a do país está muito melhor” porque o país tem as contas em dia, graças ao governo anteriores, mas as pessoas não.


Mais uma, todos nos recordamos que o PS deixou passar o Programa de Luís Montenegro para não criar um impasse no país e que o Orçamento de Estado para 2025 foi aprovado porque o PS o viabilizou, e também todos nos recordamos que foi com a ajuda do PS que foi eleito o Presidente da Assembleia da República Aguiar-Branco. Vem agora esse senhor Leitão Amaro publicitário do Governo AD dizer que “PSD pode não viabilizar governo PS e alega que essa não é a vontade dos portugueses”. Não é essa a vontade dos portugueses? Estará a instituir-se como a voz oficial ou oficiosa dos portugueses? Atrevimento não lhe falta!


Era bom pensássemos e que também não esquecêssemos.

quarta-feira, 12 de março de 2025

Moção de confiança arriscada: teimosia ou receio

Montenegro-moção de confiança.png


A propósito de Luís Montenegro lamento que se tenha deixado enredar numa teia que ele ajudou a edificar com ausência substantiva de explicações. Lamento porque, apesar de não ter qualquer aproximação com o seu partido, e ideologicamente afastado tinha algum apreço pelo seu comportamento correto e pela honestidade que fazia transparecer, embora as suas atitudes se fossem alterando no decurso da controvérsia que o atingiu, não sei se por ele, se por pressão do partido ou dos elementos do seu Governo.


O adiamento e a rejeição aos esclarecimentos pedidos pela oposição e pela pressão da comunicação social fizeram-no entrar numa espécie de desespero que o levou à apresentação da moção de confiança, talvez com intuito de se livrar da CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) com argumentos pouco credíveis na substância negando ser essa a intenção. Foi uma fuga para a frente para evitar que a sua credibilidade, honestidade e ética política fossem ainda mais manchadas.


A investigação que gerou a controvérsia e que envolve Luís Montenegro teve origem em reportagens do jornal Correio da Manhã. Essas reportagens revelaram que a empresa Spinumviva, fundada por Montenegro e gerida por sua família, tinha contratos com um grupo de casinos. Montenegro transferiu a sua participação na empresa para familiares, mas, devido ao regime de comunhão de bens, ainda poderia beneficiar financeiramente das atividades da Spinumviva. Esses contratos levantaram suspeitas de conflito de interesse, especialmente porque o governo poderia vir a estar envolvido na renovação das concessões desses casinos (neste momento apenas juízos de intenção). Mas, o facto é que a empresa teria beneficiado de mudanças legislativas aprovadas em 2024, o que intensificou as críticas. Revelações sobre pagamentos contínuos à empresa por parte de uma companhia de casinos aumentaram a pressão sobre Montenegro, levando a oposição a exigir explicações e a propor uma comissão parlamentar de inquérito.


Face ao “perigo” de ser alvo duma CPI Montenegro apresentou uma moção de confiança ao Governo, argumentando que era necessária para garantir estabilidade política. Ora, parece-me que Montenegro não seria ingénuo ao ponto de não prever qual o resultado. A prova surgiu com a oposição a ver a moção de confiança como uma tentativa de condicionar a investigação o que levou à rejeição da moção que, após debate tenso no Parlamento a moção foi chumbada, resultando na queda do governo a que se seguirão eleições. Isto não terá sido previsto por Montenegro?  Claro que foi!


A oposição e a comunicação social pressionaram para obter explicações, mas as respostas de Montenegro foram consideradas insuficientes, alimentando ainda mais as críticas. A situação escalou para uma crise política, culminando na reprovação de uma moção de confiança apresentada por ele.

sábado, 8 de março de 2025

A vítima somos nós e não o senhor primeiro-ministro

Montenegro-vítima dos media.png


A propósito da costumeira vitimização, perseguição dos media, como Montenegro escreveu numa rede social, ou não sabemos se de doutros inimigos invisíveis. À falta de argumentos, a tática é dizer que estamos a ser injustiçados e vítimas de cabalas justificando de ânimo leve o injustificável, fugir a dar respostas a perguntas essenciais e evitar justificar erros cometidos.


Não pertenço à área política e ideológica do PSD, mas tinha um certo apresso por Luís Montenegro porque me pareceu uma pessoa confiável e honestas apesar de alguns ministros do seu Governo serem polémicos.


Luís Montenegro já fez de tudo para evitar esclarecimentos sobre o caso que o persegue. Arranjou uma tábua de salvação, a moção de confiança, para fazer cair sobre a oposição o ónus da culpa e evitar a CPI.


Castro Almeida, Ministro Adjunto e da Coesão Territorial, disse ontem que o primeiro-ministro vai responder às perguntas antes de terça-feira. E desafia o PS a retirar a comissão de inquérito caso esteja “satisfeito” com as respostas. Contudo o porta-vozes do Governo dizem que não retiram a moção de confiança. Tenho dúvidas sobre quem, afinal, pretende instabilidade política e levar o país para eleições.


Luís Montenegro, prepara-se, por sua culpa, para ver o seu Governo cair, no Parlamento no dia em que será votada a moção de confiança que decidiu apresentar e cujo chumbo já foi anunciado pelo PS e pelo Chega. Mas Luís Montenegro, ao mesmo tempo, afirmou que continuará a liderar o PSD nas eleições legislativas antecipadas. Pretende aproveitar os benefícios de duas coisas diferentes. A expressão geralmente é traduzida literalmente, como “o melhor de dois mundos” aproveitar os benefícios de duas coisas diferentes, culpara a oposição pela queda do Governo e ao mesmo tempo livrar-se da comissão parlamentar de inquérito depois de ter andado mais de duas semanas a enrolar-se numa teia de suspeições.


Se Luís Montenegro se dispuser a ir a eleições para reforçar um possível novo mandato como primeiro-ministro vai ser usado pelos partidos na oposição para o combate político.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2025

Crescimento dos votos na extrema-direita: causa ou consequência?

Extrema direita cupula patriota.png


Eleição após eleição tem-se sentido cada vez mais os efeitos do aumento da extrema-direita no Mundo e sobretudo no continente europeu onde nos inserimos. Embora os partidos da direita moderada e os denominados conservadores tenham conquistado o apoio do eleitorado os da direita radical ou da extrema-direita populistas, soberanistas ou nacionalistas têm vindo a crescer eleição após eleição. Veja-se o caso da AfD na Alemanha nas últimas eleições.


Estes partidos que estão a evoluir na UE nas intenções de voto. Os líderes dos partidos de extrema-direita do terceiro maior bloco eleitoral do Parlamento Europeu, Patriotas pela Europa, elogiaram o regresso de Donald Trump ao poder num encontro em Madrid, no dia 8/fev/25 realizado sob o lema “Make Europe Great Again”.


Tenho-me questionado sobre o que leva o eleitorado a decidir votar em partidos cujos líderes apresentam tendências autocráticas e radicais de extrema-direita. Não se trata de esquerda ou de direita, trata-se de poderem originar e transformarem-se em ditaduras autocráticas, ou seja, regimes em que o governo está nas mãos de um indivíduo ou grupo com poder que possa vir a ser transformado em absoluto e ilimitado. Temos como exemplo o caso da Rússia de Vladimir Putin e agora o de Donald Trump que parece querer seguir os mesmos passos do primeiro. O caso da Rússia não é o medo dos russos, mas do que Putin representa, pois é sabido que ele tem aliados fiéis nas extremas-direita europeia. Sobre este tema há uma visão histórica interessante A ameaça russa em Notas à Margem.


Para tal há diversas razões complexas e interrelacionadas. Há muito a considerar e a entender sobre o contexto e a mentalidade dos eleitores em cada situação específica. Frequentemente, líderes autocráticos provenientes de partidos, ou não, possuem personalidades carismáticas que podem criar uma forte ligação emocional com os eleitores, fazendo-os sentir que esse líder é alguém que compreende os seus problemas e representa os seus interesses.


A técnicas de manipulação emocional usando a retórica nacionalista para mobilizar apoio e influenciar os seus seguidores, sobretudo os potenciais seguidores, podem incluir apelos ao medo, à esperança e à identidade nacional, contra ameaças, internas e externas por vezes infundadas tornando as pessoas mais suscetíveis para acreditar nas palavras que ouvem.


Muitas pessoas tendem a confiar em figuras de autoridade se um líder é percebido como forte e decisivo, pode atrair eleitores que anseiam por estabilidade e ordem. Esta opção pode ser devida a diversos contextos culturais e história política dum país que podem favorecer uma liderança centralizada, tornando as ideias autocráticas mais aceitáveis.


Outro fator pode ser devido a tempos de crise económica, social ou política, os eleitores aceitem apoiar representantes políticos que prometem soluções rápidas e decisivas, mesmo que isso signifique uma concentração de poder.


Há ainda fatores menos evidentes que tem a ver com equações pessoais dos eleitores. Concordar com os líderes pode ser visto como um sinal de lealdade e identidade do grupo a que pertencem ou a que julgam pertencer. Há uma necessidade de pertencimento a algo que pode levar as pessoas a aceitar opiniões e afirmações dos líderes do seu grupo social, político ou religioso (pode até ser um clube de futebol ou qualquer outro tipo de associação) e, por isso, buscam informações que se alinhem com as suas crenças preexistentes ignorando contradições.


O efeito de grupo, de bando ou de rebanho (o termo anglo-saxónico é bandwagon effect) por vezes também referido como “efeito de contágio”. Este termo denota um fenómeno de impacto da opinião pública sobre um ou vários sujeitos. Com as suas preferências e posições políticas, as pessoas juntam-se ao que consideram ser maiorias ou posições dominantes existentes ou esperadas na sociedade. Isso implica que o sucesso gera mais sucesso, e os parecem gozar de um amplo apoio popular provavelmente ganharão um apoio ainda mais forte. Tal pode conduzir a que alguns eleitores votem no candidato com maiores chances de vitória, com o objetivo de não desperdiçar o seu voto, o chamado voto útil. Temos também o voto baseado no comportamento direcionado para o candidato com menores perspetivas de ser eleito, muito devido ao “vou votar nele só por votar”.


A opinião pública percebida ganha assim a qualidade de poder e ser realizada, tal como uma espécie de vagão que carrega uma banda num desfile e atrai uma grande multidão de seguidores que marcham atrás dela para apreciar a música. Em síntese, trata-se de o eleitor decidir votar num partido ou candidato que ainda em sondagens considera apresentar valores que na sua perspetiva são injustamente baixos, ao contrário do anterior efeito que é o de votar em quem vai à frente.


As técnicas de manipulação emocional para influenciar os seus seguidores, sobretudo os potenciais seguidores, podem incluir apelos ao medo, à esperança e à identidade nacional, tornando as pessoas mais suscetíveis para acreditar nas palavras que ouvem.


As palavras e as frases simples vão de encontro ao desejo de simplicidade das pessoas que geralmente preferem explicações simples e claras em vez de frases muito complexas. As pessoas preferem a certeza à dúvida e assim acreditam em quem simplifica questões complexas e em quem oferece soluções fáceis para problemas complexos que podem parecer mais convincentes, tal é o caso de Trump nos EUA que a eliminação de tratados, a ocupação de territórios e a eliminação das teses sobre as alterações climáticas são tratados com apenas com uma assinatura de eliminação ou de abolição. Em Portugal temos o caso André Ventura quando apresenta propostas e soluções para casos complexos cuja exequibilidade seria impraticável se os quisesse colocar em prática caso estivesse no poder.


Há um outro fenómeno conhecido como efeito de ilusão de verdade em que a repetição constante de uma afirmação, mesmo que falsa, pode fazer com que ela pareça verdadeira, mesmo que o não seja. Veja-se o caso exemplar do atual presidente dos EUA Donald Trump que durante a campanha eleitoral muitas vezes usou esta técnica e ainda hoje a utiliza. Mais próximo de nós temos André Ventura do partido Chega.


Nem todos têm acesso a informações imparciais ou as competências para avaliá-las criticamente. A propaganda e o controle dos media podem moldar narrativas para fazer com que perspetivas alternativas pareçam falsas ou perigosas.


Em alguns casos as pessoas podem não ter acesso a informações alternativas ou a meios de verificar o que os políticos candidatos dizem. Isso pode ser exacerbado em regimes onde a comunicação social é controlada ou censurada.


Mas, há um outro ponto muito importante que será desenvolvido noutra ocasião e que tem a ver com desinformação, o controle dos media e com campanhas de desinformação via redes sociais que podem influenciar significativamente a opinião pública, suprimindo críticas e promovendo uma imagem positiva ou negativa dos candidatos a líderes ou até de produtos e de pessoas que são promovidas.  


Notas sobre a imagem:



  1. Apesar do objetivo declarado dos Patriotas de unificar os conservadores nacionalistas da Europa, alguns dos partidos mais influentes da UE nesse campo - como os Irmãos da Itália da primeira-ministra italiana Giorgia Meloni, a Alternativa para a Alemanha e o Lei e Justiça da Polônia – recusaram-se a participar.

  2. O líder do partido político de extrema-direita português Chega, André Ventura, o líder holandês de extrema-direita Geert Wilders, o líder do partido de extrema-direita espanhol Vox, Santiago Abascal, e a líder e deputada francesa de extrema-direita Marine Le Pen, o presidente do grupo parlamentar francês de extrema-direita Reunião Nacional (Rassemblement National - RN), o primeiro-ministro húngaro Viktor Orban, o vice-primeiro-ministro italiano Matteo Salvini e o líder grego do partido "Voz da Razão", Afroditi Latinopoulou, estão no palco do O partido espanhol de extrema-direita VOX reúne-se com outros líderes europeus de extrema-direita, em Madrid, Espanha, em 8 de fevereiro de 2025. REUTERS/Ana Beltran

quinta-feira, 30 de maio de 2024

Ambição por visibilidade

Visibilidade e política.png


No início do mês de maio veio à tona na comunicação social um caso típico de visibilidade que envolve José Castelo Branco. Este ser híbrido, qual personagem circense autocriado para animar o espetáculo da comunicação ao longo do tempo, umas vezes mais dos que outras, tem tido a visibilidade que os media, sempre atentos a casos de escândalo, lhe concederam e agora voltam a conceder a honra de produto de venda, desta vez por causas gravosas.


Outra novidade típica que tem por detrás a visibilidade foi a surpresa da indicação pela AD de Sebastião Bugalho para cabeça de lista para as eleições europeias.


Trago estes dois casos atuais a propósito da releitura que fiz do livro de Ítalo Calvino “Seis Propostas para o Próximo Milénio”, precisamente o capítulo 4 que trata do tema “Visibilidade”, trouxe-me a ideia de escrever sobre este tema que, cada vez mais, está presente como uma necessidade absoluta de setores da nossa sociedade. Este meu texto, que nada tem a ver com a profundidade que Ítalo Calvino lhe reservou, serviu só para introduzir o propósito do meu tema.


Ítalo Calvino começa a sua conferencia sobre “visibilidade” a partir de um verso do capítulo do Purgatório da Divina Comédia de Dante onde diz que “Chove dentro da minha fantasia”.


“E qui fu la mia mente sì ristretta


Dentro da sé, che di fuor non venia


Cosa che fosse allor da lei recetta.


Poi piovve dentro all' alta fantasia


Un crocifisso dispettoso e fiero


Nella sua vista, e cotal si moria.


(Dante; Purgatorio, XVII, 25; p. 76)


Que pode ser traduzido por


“E aqui estava a minha mente tão estreita


Dentro de si, que não vem de fora


O que foi algo que ela aceitou na época.


Então choveu dentro da minha fantasia*


Um crucifixo travesso e orgulhoso


À sua vista, e assim alguém morre.”


*Tradução livre: então, choveu na mais alta imaginação.


Escreveu Calvino que a “fantasia é um lugar onde chove lá dentro”. Quer ele dizer que é uma metáfora para um buraco onde chove. Calvino interpreta que “Dante está a falar das visões que se apresentam ao autor (Dante), quase como projeções cinematográficas ou receções televisivas num visor separado daquela que para ele é a realidade objetiva de sua viagem ultraterrena.”


A metáfora de Calvino sugere uma visão da fantasia como sendo um lugar interior onde chove. É possível pensarmos que está a referir-se à capacidade da imaginação humana para criar mundos fictícios, histórias e personagens dentro da mente sobre si próprio ou sobre outros e onde “chove lá dentro". Porquê “chove lá dentro”? Porque a chuva enquanto elemento climatérico é frequentemente associada a emoções que sentimos como melancolia, tristeza ou num aspeto mais otimista como renovação, o que faz renascer a vida. Sem a água da chuva nada existiria. A metáfora de Calvino salienta a riqueza e a vitalidade da experiência fantasiosa que é uma maneira poética de descrever a capacidade humana de criar e imaginar mundos que não existem na realidade, mas podemos imaginarmo-nos neles e sermos conhecidos por isso.


Claro que a interpretação de Calvino sobre a sensibilidade e visibilidade imagética não corresponde àquela sobre a que vou debruçar-me. Vou centrar-me na corporização ou objetividade da realidade pelos media e nos artifícios de que se servem indivíduos, grupos, políticos e empresas para conseguirem visibilidade para um negócio, para efeitos de marketing, para umas eleições, para defesa de ideias, para captação de atenções, sobretudo nas emissões televisivas, redes sociais, eventos e até mesmo em manifestações das mais variadas origens e tendências.


O senso comum atribui à palavra visibilidade, conforme definição que consta dos dicionários e também no Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, o “caráter, condição, atributo do que é ou pode ser visível, ser percebido pelo sentido da vista”. Mas visibilidade é também o estado do que é visível que, no sentido figurado, corresponde ao que é percetível, manifesto, evidente ou aparente. Assim pode ser pela aparência, ou seja, pelo aspeto que julgamos pessoas ou coisas.


O anseio por visibilidade traduzida na necessidade de ser conhecido, de dar nas vistas, mesmo que por maus motivos, através dos media de grande difusão tem vindo a crescer nas últimas décadas e a proporcionar fantasias e exibicionismos cada qual a mais disparatada, tudo no sentido de dar nas vistas, de ser falado, de ser conhecido.


Seja qual for a definição que encontremos para visibilidade verificamos que é um conceito chave que está implícito na qualidade ou estado do que é visível, ou de se tornar visível, e pode conter todos os tipos de noções preconcebidas, equívocos, muitas experiências e histórias pessoais que tem o propósito e o potencial de moldar e afetar a nossa faculdade de julgar. Na política acontece o mesmo, sobretudo em épocas de campanhas eleitorais como a que atravessamos com o objetivo de influenciar potenciais eleitores.


Quando se ouve que alguém está a disputar por "visibilidade" associamos a procurar ficar conhecido por alguma coisa, projetar uma certa imagem pessoal, tornar-se publicamente visível através de qualquer suporte de difusão de informação seja rádio, televisão, imprensa, publicação na Internet, videograma e de plataformas de redes sociais, meios intermediários para transmissão de mensagens escritas, por áudio ou por imagem. Neste âmbito encontram-se os chamados influencers, mas também políticos e partidos e concorrentes a programas televisivos como “Big Brother”, entre outros.


Um influencer é alguém que é capaz de persuadir muitas pessoas, por exemplo, nas redes sociais cativando seguidores e levá-los a fazer comprar ou a usar as mesmas coisas, seja lá o que for, que dizem ter já adquirido e usado. Na política surgiu agora também um jovem lançado pela AD como cabeça de lista para as eleições europeias, Sebastião Bugalho, jovem cuja visibilidade construída tornou-se incontrolável de um dia para o outro.


Os influenciadores digitais em qualquer área nomeadamente na política usam a persuasão psicológica e a reciprocidade, para influenciar seus seguidores. Os consumidores precisam de estar atentos às táticas psicológicas usadas pelos influenciadores. Os seguidores entram numa espécie de êxtase perante os influenciadores, num desejo de querer ser como eles e adquirirem o mesmo. A estratégia é: “eu já usei e gostei muito é eficaz”; “quando experimentei esta roupa nem queria a creditar. E for barata, podem ver e comprar em XXXX”.


Estes influenciadores(as), são pagos ou recebem produtos gratuitos em troca de divulgação de produtos. Ter seguidores corresponde a ter visibilidade virtual. E se for em videograma a visibilidade pode tornar-se quase como uma identificação.


Processos imaginativos de marketing comercial, político e partidário estão por detrás de toda uma parafernália de meios servidos para obtenção de visibilidade. Esses processos imaginativos, como dizia Ítalo Calvino distinguem-se entre “os que partem da palavra e chegam à imagem visual e os que partem da imagem visual e chegam expressão verbal”.


Quando lemos num romance uma determinada passagem, lemos numa reportagem dum jornal um certo acontecimento, somos levados a ver a cena como se ela de desenrolasse aos nossos olhos. Isto porque pensamos por imagens. Daqui a importância da imagem para a visibilidade mediática. Com mais relevância ainda quando vemos e ouvimos esse acontecimento num canal de televisão.


António Damásio, neurocientista português tem estudado a relação entre emoções, sentimentos e cognição. Ele defende que a imagem mental é uma parte fundamental do pensamento humano, argumentando que a imagem mental é uma representação sensorial que nos permite simular experiências e eventos nas nossas mentes. Essas imagens mentais são criadas a partir de informações captadas pelos sentidos que recebemos do mundo ao nosso redor e são armazenadas em nossos cérebros[1].


Em certos programas televisivos, filmes, e em imagens e vídeos lançados para as redes sociais essas imagens são arquitetadas para invocar sentimentos que produzam emoções que ficam gravados na memória de quem os vê. Posteriormente podem ser solicitadas e induzir o individuo a uma compra, a uma ação ou a uma atitude idêntica ao que lhe ficou gravado na memória, tanto mais quanto mais tiver como intermediário alguém que tenha visibilidade.


A visibilidade mediática excessiva pode conduzir ao vedetismo de quem a ela for sujeito, até mesmo na política. De algum modo a visibilidade pode traduzir-se em vedetismo por cedência à tentação do exibicionismo; de dar nas vistas. O vedetismo manifesta-se nas palavras, nos atos, enfim, nas atitudes e comportamentos plenos de sentimentos de vaidade e de superioridade. O que importa é andar no topo, é aparecer nos jornais e marcar presença nas rádios e nas televisões, e, claro nas redes sociais, como o Instagram e outras, procurando ser diferente, mesmo através do disparate. É nisto que que se baseiam quem fica responsável e preparam as campanhas eleitorais dos partidos políticos.


Há também os influencers que procuram evidência e visibilidade e que, com isso, têm a capacidade de alterar, moldar opiniões, decisões ou comportamentos de outras pessoas e exercida em diferentes esferas, como política, social, económica, cultural, comercial, etc. A influência muitas vezes está ligada à visibilidade e ao poder de persuasão, assim, indivíduos ou organizações desde que tenham visibilidade podem ter maior potencial de influência.


O influencer ao passar a vedeta tem a preocupação de mostrar ser ela quem sabe e quem tem a última palavra. Para sobressair atropela regras que deveria respeitar e altera textos que deveria manter inalterados. O vedetismo leva à instrumentalização de pessoas, para que a coloquem no auge; a vedeta paga generosamente aos que dela falam e apregoam os seus feitos. Recorre ao serviço de bajuladores profissionais. Como esse é um modo fácil de levar bem a vida, há quem lhe faça o frete. É tudo uma questão de preço. Há também os media, sobretudo as televisões que ajudam à promoção de influencers concedendo-lhes visibilidade e, consequentemente ao seu negócio digital.


De facto, a visibilidade, o vedetismo e os(as) indivíduos(as) que se intitulam de influencers são um buraco onde lhes chove lá dentro isto porque servem-se das fantasias de outros que é uma espécie de local onde estão presentes as emoções onde há uma experiência íntima e profunda que os leva a serem influenciados por desejos e necessidades.


Sebastião Bugalho.png


Para finalizar sugiro que se tenha em conta que um partido ou uma pessoa que se candidata, por vezes enfadonhos, cresçam devido à importância que a comunicação social lhe concede. Não é favorecido pelo savoir faire (competência adquirida através da experiência em problemas práticos, no exercício de uma profissão), capacidade de liderança, de governo, formação dos seus intervenientes, coerência, programa político, mas tem importância na medida em que lhe dão importância. Trata-se de uma política feita de visibilidade, e não de governabilidade. A imagem vale mais que o conteúdo, e isto é uma pobre resposta coerente com uma geração que passou a valorizar mais a imagem do que o texto, a prevalência da aparência sobre o conteúdo. Será este o caso de Sebastião Bugalho?


[1] Damásio, A. (2010). O Livro da Consciência-A Construção do Cérebro Consciente. (L. O. Santos, Trad.) Círculo de Leitores.

segunda-feira, 22 de abril de 2024

O que mudou com a Revolução dos Cravos

Um soldado com um cravo em seu fuzil em primeiro plano em meio a multidões na rua abaixo dele


Fotografia do Jornal The Guardian


O que mudou com a Revolução dos Cravos


Uma simples homenagem


Cinquenta anos atrás, uma notável cadeia de eventos desencadeada pela transmissão de uma série de canções levou à queda de uma ditadura


Nada melhor do que comparar o antes e o depois do 25 de Abril, a Revolução do Cravos



Muitas coisas mudaram  As que se indicam a  são apenas algumas das mudanças mais importantes
ANTES DEPOIS
Só havia um partido político, a Acção Nacional Popular, que apoiava o governo Passou a haver muitos partidos políticos
Não havia eleições livres Cada um pode votar no partido que quiser
As mulheres só podiam votar se tivessem concluído o curso secundário Toda a gente pode votar
As mulheres não podiam viajar sozinhas para fora do País sem autorização escrita do marido Mulheres e homens têm os mesmos direitos
Havia uma polícia política, com milhares de informadores em toda a parte, que escutava praticamente todas as conversas. As pessoas que tinham opiniões contrárias ao Governo eram presas Não existe polícia política e passou a haver liberdade de opinião
As pessoas casadas pela Igreja não se podiam divorciar O divórcio estendeu-se a toda a população
Cada patrão pagava o que queria aos seus trabalhadores Passou a haver um salário mínimo nacional

As notícias só podiam sair nos jornais depois de terem sido lidas e autorizadas pelos Serviços de Censura
A Imprensa é livre
Os jovens passavam quatro anos da tropa, dois dos quais na guerra

Acabou a Guerra Colonial. Uns anos mais tarde, o serviço militar deixou mesmo de ser obrigatório

Para saber mais sobre a Revolução do 25 de Abril pode 25 de Abril.


 


segunda-feira, 18 de março de 2024

A propósito do jornalismo dar a papa à direita-radical

Jornalismo e direita radical.png


Montagem parcial a partir da imagem do Público do artigo "A grande família do Chega"


Os media contribuíram para a importância que hoje tem o partido Chega. Ao ajudarem os partidos direitistas a canalizar o descontentamento para o PS abriram caminho para o crescimento daquele partido. Mas não só, o PCP e o BE com a repetição contínua de palavras de ordem com ataques ao Partido Socialista ajudaram a passar a mensagem do Chega também contra o PS sem que eles próprios se auto questionassem sobre por que os votos de protesto foram para a extrema-direita, Chega. Se houve tantos votos de protesto para a extrema-direita por que apenas ela tirou proveito disso e não também à extrema-esquerda.


O partido Chega estrategicamente passou a simular o jogo democrático como uma obrigação, mas as declarações do seu líder continuarem a mostrar que era contra o sistema. Por entre a extrema-direita existem versões mais moderadas e outras mais extremistas, mas todas elas colocam em causa as conquistas civilizacionais e, em última instância, a democracia.


Já escrevi vários textos neste blogue em que me debrucei sobre os media e o jornalismo como por exemplo “Fugir das Armadilhas” e “Relação Político Mediática e Jornalismo”. No primeiro escrevi que “A dúvida instala-se sobre o que pudemos esperar do verdadeiro jornalismo quando estes, por motivos de interesses vários, se encontram enfeudados a ideologias e partidos” e mais adiante que “o problema verifica-se quando há tendenciosamente critérios de subtil favorecimento a candidatos pela utilização das mais variadas técnicas de abordagens…”. Pacheco Pereira em artigos de opinião tem abordado aquelas mesmas questões de forma clara e com um preciosismo muito próprio.


Quem vê televisão e os seus noticiários, debates e comentários opinativos durante a pré demissão do primeiro-ministro e depois de conhecidos os resultados das últimas eleições pode perceber as causas e possíveis consequências dos resultados que são lançadas para o ar. Refiro-me à televisão por ser o media através do qual a maioria das pessoas toma conhecimento do andamento da política.


Verifica-se uma ininterrupta relação entre a política e os media onde, para além dos políticos, o jornalismo tem uma carga de politização, talvez até uma partidarização subliminar, que servem de veículos de transmissão de políticas de direita através de comentadores que, ao mesmo tempo, são políticos. São os profissionais da contradição consoante os interesses e que, por vezes, agarram o que os seus adversários dizem e o tomam à letra. Tomar à letra o que se diz tem a suas dificuldades interpretativas e dificuldade em discernir pois depende do contexto em que as frases são enunciadas porque podem ser determinadas pela função da pergunta e dos contextos em que se dá a resposta.


Na política, as questões são frequentemente complexas e podem exigir mais do que um simples "sim" ou "não". Embora seja possível dar uma resposta direta, muitas vezes é necessário fornecer contexto ou explicação e depende da situação. Em todo o caso, na minha opinião, em política não pode haver apenas sim ou não!


Por outro lado, jornalistas, quais lobos famintos, procuram encontrar ininterruptamente supostas contradições que dizem ter sido proclamadas pelos políticos para os atacarem e fazerem disso aberturas de noticiários televisivos ou manchete para capa de jornal.


Verifica-se desde alguns anos um crescimento dum jornalismo politizado, maioritariamente de direita e muito, quer nas televisões, quer na imprensa, não sei se na rádio, mas nas rádios dos jornais e nos podcasts que agora estão na moda isso é certo.


Porém, do ponto de vista do líder do Chega, não há um jornalismo politizado maioritariamente de direita. Para ele, no que reporta às redações, o que se passa é o contrário. Leia-se parte da transcrição do discurso de André Ventura no dia das eleições ao festejar os ganhos eleitorais do seu partido: “…hoje houve em Portugal um ajuste de contas com a história, na nossa história do pós 25 de abril. Houve um ajuste de contas com um país que, durante décadas, foi asfixiado, dominado, manipulado, atrofiado, pela extrema-esquerda e pela esquerda que dominou redações, dominou instituições e que dominou a nossa economia…” (itálico da minha autoria). Neste mesmo dia duas militante do Chega já com alguma idade disseram a um jornalista da CNN que “fala a nossa linguagem” e, ainda por cima, “é um borracho”.


Nas agendas dos noticiários e nos seus alinhamentos os indicadores económicos, financeiros e sociais que foram bons em Portugal e foram aplaudidos internacionalmente foram apresentados de maneira fugaz e não entravam como fator importantes nas notícias.


A isto acresce o ambiente mediático negativo, a agressividade de várias ordens e sindicatos profissionais com criação acintosa de modo a criar um contexto social de caos e insegurança. Servem como exemplos as reivindicações dos sindicatos dos professores, dos médicos, dos enfermeiros, dos polícias entre outros. Acrescentemos o Serviço Nacional de Saúde com que diariamente os telespectadores eram bombardeados aquando das situações extraordinárias devidas às doenças de inverno que anualmente acontecem. Recordemos o anterior bastonário da Ordem dos Médicos, Miguel Guimarães, que fez tudo quanto era possível para subtilmente desacreditar o ministro da saúde e para fazer campanha denegrindo o SNS. Posteriormente, durante a campanha eleitoral da AD várias vezes estava ao lado de Luís Montenegro e foi, e agora é, cabeça de lista da AD pelo Porto.


Num artigo de opinião Pacheco Pereira escreve que após o resultado das eleições “Subitamente, órgãos políticos e de interesses, como a Rádio Observador, cujos orgasmos matinais contra o Governo davam o tom para as notícias de muitos outros órgãos de informação, passaram agora, como era de prever, a ensinar como é que a AD deve governar, quais as prioridades, o estilo e as alianças. Com ironia se pode perceber que o que antes era negro na acção política agora é branco, já não há falta de transparência nos silêncios, e a obrigação de responsabilidade tornou-se a dos “outros”, como mostra a chantagem comunicacional sobre a votação do PS no Orçamento.”


É fácil perceber que vai cair sobre o PS a responsabilidade por tudo o que aconteça de mal à direita. A pergunta que se coloca é a de saber se deve ser o PS a sustentar um Governo cujo partido ganhou as eleições?


De alguns pensamentos provindos de grupos de comentaristas entendedores de política salientam-se opiniões que propõem que o Chega não deve ficar na oposição porque pode crescer ainda mais. Estas razões são simplistas porque há outras razões mais complexas.   Há outras variáveis mais marcantes nos eleitores que que os levaram a presentear o Chega e que têm a ver com aspetos sócio económicos vários que nem sempre são da responsabilidade do PS, mas do jornalismo de influência direitista que preparou a população contra o PS num alinhamento com o Chega e com os partidos da extrema-esquerda.


Parece estar a haver críticas a Montenegro por causa da frase do “não é não” ao Chega, que agora lamentam, porque pôs em causa um possível entendimento com aquele partido. Contudo, do meu ponto de vista, o “não é não” ficou em suspenso para salvaguardar que, numa circunstância como a atual poderia ser adaptado a novas circunstâncias que, entretanto, surgissem. Mas, tal poderá não acontecer pois colocaria face a alguma opinião pública como falta à palavra dada.


É por isso que o “não é não” de Montenegro ao Chega poderá, ou não, ter outras nuances, digamos, mais “flexíveis”. É o mesmo que dizer “Bem, na Assembleia da República falamos o que seria a condensação e ou remoção da frase e de alguns de seus sentidos, com o objetivo de restringir o propósito do pensamento seria uma espécie de “novilíngua” orwelliana) entre todos os deputados”, o que, como é óbvio, todos não significa para a AD falar com o Bloco ou com o PCP, mas com o Chega.