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segunda-feira, 26 de maio de 2025

Eleições legislativas 2025: uma leitura subjetiva e ficcional

 


Eleições 2025 leitura subjetiva.png


Há várias perguntas que podemos colocar sobre os resultados das eleições. Quais as interpretações sobre os resultados das eleições? Haverá de facto uma mensagem passada pelos eleitores através do voto? Será que a mensagem coletiva é o somatório do voto individual de cada uma das preferências dos eleitores? Se a houver será mais emocional ou mais racional?


Cada eleitor carrega consigo preferências, valores e aspirações que, ao serem depositados numa urna, mas cujo somatório das opções manifestadas em cada um dos nos votos enviam uma mensagem coletiva que pode indicar o caminho que a sociedade deseja seguir. As eleições para além da escolha de candidatos são também uma forma simbólica de comunicação que pode medir o estado da opinião pública.


Em democracia essa mensagem pode ilustrar o desejo por mudança, a continuidade de políticas que funcionaram ou até a insatisfação com determinados aspetos do sistema político em vigor.


Os resultados eleitorais são assim um indicador que partidos e governantes e a sociedade podem analisar para entender as expectativas, os medos e, principalmente, os anseios de transformações mais ou menos radicais do ambiente social e político. 


O voto, na sua essência, vai muito além de uma simples escolha entre candidatos ou partidos, ele é uma forma simbólica e concreta de comunicação. Mais do que uma escolha individual, o ato de votar reflete não apenas o que cada cidadão pensa, mas também sinaliza, de forma pluri-uníssona, as exigências e as esperanças de duma comunidade.


É importante lembrar que o voto é, sobretudo, uma ferramenta de protagonismo do cidadão. Cada voto é uma afirmação do direito de participar da construção do futuro, funcionando como um meio pelo qual os eleitores expressam não apenas suas preferências imediatas, mas também sua visão sobre a direção que a sociedade deve tomar.


Algumas teorias dizem que votamos de acordo com a classe social, lealdades grupais a um partido ou por motivo de fortes crenças ideológicas. pode ser também uma visão simplista de interesse individual porque se pensa vir a estar melhor com as políticas de um partido do que com a de outro.


O voto sendo unipessoal expressa em cada eleitor uma vontade, uma ideologia, um sentimento, um ressentimento, um protesto, uma aceitação, um descontentamento, um ato de pertença, uma insatisfação, um incentivo à agressividade e um ressentimento, estes dois últimos as principais armas políticas de alguns partidos que terão levado alguns a desistir do partido que antes terá escolhido, alterando o seu voto tradicional que é trocado por um desejo inconsciente de mudança e, por isso, optando pelo desconhecido. O somatório de cada uma destas vontades apresenta-nos um leque variado de opções cuja interpretação não nos leva a concluir que houve uma “mensagem coletiva de escolha” fonte de um desejo generalizado, isto devido à concentração regional de algumas das escolhas a isso leva a concluir.


Eleições 2025 leitura subjetiva-Mapa de votos.pn


O somatório dos votos em partidos radicais populistas de extrema-direita são um protesto que resulta, afinal, de votos individuais, consequência duma multidão de descontentes que com nada mais se identificam a não ser no ódio aos partidos do regime que ouvem dizer serem “corruptos” que nada lhes deram e, acrescente-se, algum aventureirismo dos jovens que consideram que os valores da democracia estão mais do que garantidos e que essa história do “25 de Abril” e do regresso ao fascismo “já era”.


Aliás, o voto de protesto e reivindicativo, dos partidos de extrema-esquerda, plenos de palavras de ordem, parece, estar a ser substituído por partidos populistas de extrema-direita.


A influência do tipo de voto de cada um dos eleitores induzido por aconselhamento de outros, pela campanha direta dos intervenientes dos partidos, pelos órgãos de comunicação social, pelas redes sociais e pela imagem de simpatia ou de antipatia que sentem pelos líderes dos partidos. São formas e fontes muito eficazes que, em grande parte, são manifestadas nas redes sociais onde se criam mecanismos para influenciar polarizações e radicalizações que geram o tal confronto entre o “nós” e o “eles” das narrativas populistas.


Poderemos ficcionar a resposta de um certo eleitor a uma pergunta muito direta sobre a razão que o levou a votar em determinado partido sobre o conhecimento do seu programa. A resposta poderia ser: - voto nesse partido e quero lá saber do programa. Basta-me ouvir o que ele diz, ler e ver o que aparece nas redes sociais que, para mim, são mais do que suficientes e até mais “credíveis” do que os órgãos de comunicação. Para além disto as redes sociais também possibilitam que o que eu digo passe a ter um valor maior do que com os que tenho ao meu lado, no emprego, no namoro, no café, em casa e, melhor ainda, possibilita-me culpar o outro, ou os outros, pelo meu insucesso.


Se lermos com atenção e disciplina crítica os comentários publicados a artigos de opinião na imprensa descobrimos afirmações interessantes que nos apontam para as causas e nos sugerem o sentido de voto de alguns desses eventuais e potenciais votantes.  Podemos dar como exemplo jovens votantes inconsequentes que utilizam linguagens guturais e narrativas em que o substantivo “tipo” está presente a cada duas ou três palavras, e captam declarações falaciosas com sound bites, frases cativantes e altissonante que eles ouvem, apreciam e com hipóteses de votar em quem tem discursos dessa espécie.  


Se analisarmos o estudo “As bases sociais do novo sistema partidário português 2022-2025” de João Cancela e Pedro Magalhães verificamos que os votos destas últimas eleições mostram-nos o PS atrás da IL no voto jovem masculino e quase encostado ao partido Livre nas jovens mulheres ficando ainda os socialistas em quarto lugar, atrás da IL, no apoio dos jovens homens (entre os 18 e os 24 anos) e abaixo da AD e do Chega nos eleitores com o ensino secundário. Estão ainda a competir quase ao lado do Livre no voto jovem feminino (na mesma faixa etária dos 18/24) e com a AD pelo voto dos idosos menos instruídos.


Se ouvirmos as dezenas de comentários televisivos, opiniões e análises sobre os resultados das eleições e sobre o que poderá, como consequência, vir a acontecer, o que podemos apurar é que cada um defende as suas teorias, normalmente permeáveis à especulação e oráculos da imperfeição sobre o que resultará após as eleições. No entanto, até ao momento, tudo está em aberto.


Uns dizem que os recentes resultados eleitorais permitem ler um desejo dos eleitores por mudança e inovação na política. Outros defendem teses já gastas de que o eleitorado demonstrou um profundo desencanto com os partidos tradicionais, visivelmente insatisfeitos com um sistema que, para muitos, não tem respondido de forma eficaz aos desafios sociais e económicos. Outros ainda que, pelo facto de a AD - Aliança Democrática ter conquistado uma expressiva percentagem dos votos (exagero, já que, se assim fosse, não se levantaria a questão de poder haver um problema governativo para a AD se não houver acordos).


Facto é haver uma queda histórica do PS que, conforme alguns comentadores da política caseira, pode revelar que os eleitores (como no início referi, são somatórios de várias vontades) exigem alternativas capazes de romper com o padrão antigo e promover realmente uma renovação no cenário político. Isto é, pretenderam uma aposta no desconhecido.


Falar em renovação do cenário político é uma abstração porque o entendimento que a generalidade do eleitorado tem de renovação não é evidente e é multifacetada por estar dependente dos vários partidos por haver uma oferta de opções partidárias com consequente distribuição e dispersão de votos.


Será que, para grande parte do eleitorado, o motor da renovação está no partido Chega por este ter conseguido aumentar a sua percentagem de eleitores? O eleitor não militante ou simpatizante de um qualquer partido defende no seu voto uma atitude de colocar os seus interesses, opiniões, desejos, necessidades em primeiro lugar, em detrimento (ou não) do ambiente social e das demais pessoas com que se relaciona. O eleitorado é volátil. O que vota hoje num partido pode já não votar no mesmo na próxima eleição.


Podemos incluir estes eleitores num grupo central, moderado, que oscila facilmente entre os blocos ideológicos (talvez PSD e PS). Este grupo será o somatório de várias vontades individuais e compõe uma fatia significativa dos eleitores e é particularmente suscetível às variações de curto prazo, pois não se encontra fortemente ancorado em identificações ideológicas profundas. A volatilidade resulta de uma interação complexa de fatores de longo prazo e estímulos de curto prazo.


Para analisar a volatilidade eleitoral em Portugal e, para saber como conquistar eleitores considerados “voláteis”, é importante compreender que há variáveis tais como a conjuntura económica, a imagem dos líderes e os temas da campanha podem exercer forte influência sobre o voto dos eleitores voláteis. A identificação com um partido ou líder pode funcionar como uma âncora que estabiliza o voto. Quando essa identificação é fraca, característica dos eleitores voláteis há uma maior probabilidade de mudança de opinião antes ou durante as campanhas. Essa variável mostra que, mesmo em segmentos com acesso a informações, a falta de um forte vínculo emocional ou ideológico com um partido pode abrir espaço para oscilações.


Enquanto os eleitores mais entusiasmados e com maior envolvimento político têm capacidade para analisar e consolidar uma posição, os menos interessados podem ser facilmente influenciados por fatores que levam à procura de melhor. Essa capacidade para dar resposta rápida aos sinais do ambiente imediato faz com que mudanças rápidas na comunicação ou na situação nacional sejam determinantes para a mudança do voto.


Neste sentido, a volatilidade eleitoral em Portugal é moldada por uma combinação de fatores históricos, sociais e estruturais imediatos. Para perceber a volatilidade dos eleitores há que perceber a fragilidade dos vínculos tradicionais e oferecer, de maneira rápida e consistente, respostas às inquietações desses eleitores e numa personalização do discurso para transformar a oscilação numa conquista eleitoral.


Para finalizar apresento um vídeo da Rádio Comercial interpretdo por Vasco Palmeirim que é divertido, muito atual e que nos diz muito sobre a política atual. 



 

domingo, 16 de fevereiro de 2025

Discurso de Vance em Munique: Críticas à Democracia Europeia

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Ontem na Conferência de Segurança de Munique é um evento anual onde líderes mundiais, ministros e outros decisores políticos se reúnem para debater os principais desafios globais. Este ano de 2025 teve como objetivo abordar questões urgentes de segurança global, incluindo a guerra em curso na Ucrânia, a crise em Gaza e a dinâmica de mudança das alianças internacionais. Serviu de plataforma para o diálogo e a cooperação de alto nível entre líderes mundiais, decisores políticos e peritos.


O discurso de JD Vance em Munique parece ter revelado o colapso da aliança transatlântica. Para o The Guardian, o discurso foi “cheio de hipocrisia risível, retratos distorcidos da democracia europeia e insensibilidade em relação ao trauma da Europa com o fascismo”.


JD Vance, o vice-presidente dos EUA, fez um discurso na conferência onde criticou a abordagem dos governos europeus à democracia. Vance criticou a abordagem dos governos europeus à democracia e disse temer que a liberdade de expressão no continente esteja a “recuar” criticou os líderes europeus e a democracia da U.E. porque não alinharem com as extremas-direitas e radicais em vez de se focar que estava em discussão que eram para a paz na Ucrânia.


Ele expressou preocupações sobre a liberdade de expressão na Europa, afirmando que muitos americanos veem na Europa “interesses entrincheirados” que se escondem atrás de termos como desinformação para suprimir pontos de vista alternativos. Fez críticas à abordagem dos países europeus à democracia e à liberdade de expressão e manifestou preocupação com o recuo da liberdade de expressão na Europa e criticou os governos europeus por lidarem com a imigração e os valores democráticos


Vance também mencionou que a maior ameaça à Europa não é externa, como a Rússia ou a China, mas sim interna, com a Europa se afastando de alguns de seus valores fundamentais compartilhados com os Estados Unidos.


Está mais do que provado que o que ele denomina pontos de vista alternativos, isto é, verdades não evidenciadas por factos, muito ao gosto de Donald Trump, como se verificou do seu anterior mandato. dar algum sentido à distopia desorientadora da pós-verdade que parece ter envolvido os Estados Unidos desde o primeiro mandato mantendo-se, agora novamente com Donald Trump na presidência americana.


A propósito do que eles chamam “pontos de vista alternativos” ou “factos alternativos” como em 2017 os seus conselheiros de Donlad Trump (ou acólitos)?) contestavam a realidade como já escrevi noutro texto. Um deles, “Kellyanne Conway, diretora de campanha presidencial de Donald Trump em 2016 e conselheira do presidente até agosto de 2020, alegava, na altura, a existência de haver “factos alternativos” para  ajudar Sean Spicer, assessor político e Secretário de Imprensa e Diretor de Comunicações interino do presidente Donald Trump que, no mesmo ano, usou seu primeiro encontro na Casa Branca para protestar contra os jornalistas devido ao que ele incorretamente chamou “reportagem deliberadamente falsa” sobre a posse de Trump na altura”.


Ainda sobre a liberdade de expressão em perigo cito as palavras de


Mas regressemos ao discurso de Vance, uma hipócrita “lição” de democracia como escreveu hoje no Público Andreia Sanches, mas, para mim, foi claramente desagregador duma aliança e, ao mesmo tempo, da democracia europeia.


Andreia Sanches escreveu ainda “Vance disse que a Europa está a suprimir a liberdade de expressão e a ignorar quem pensa diferente. Estamos a falar do vice de um país onde universidades e variadíssimas organizações financiadas pelo Estado estão, de há semanas a esta parte, a expurgar dos seus documentos oficiais palavras que se tornaram proibidas com a Administração Trump, como "diversidade", "desinformação", "activismo", "racismo" ou "género"”.


Vance afirmou que “enquanto o governo Trump está muito preocupado com a segurança europeia e acredita que podemos chegar a um acordo razoável entre a Rússia e a Ucrânia – e também acreditamos que é importante nos próximos anos que a Europa se esforce em grande escala para fornecer sua própria defesa – a ameaça que mais me preocupa em relação à Europa não é a Rússia, não é a China, não é nenhum outro ator externo. O que me preocupa é a ameaça interna. O recuo da Europa em relação a alguns dos seus valores mais fundamentais: valores partilhados com os Estados Unidos da América.”


Que ameaça interna na Europa preocupa Vance? Penso ser a democracia. O descaramento deste senhor é tal que afirmou que “Fiquei impressionado com o facto de um antigo comissário europeu ter ido recentemente à televisão e parecer satisfeito com o facto de o Governo romeno ter acabado de anular uma eleição inteira. Ele alertou que, se as coisas não saírem conforme o planejado, a mesma coisa pode acontecer na Alemanha também.” Tem memória curta porque apagou a cena que o seu líder Trump fez quando perdeu as eleições nos EUA e promoveu indiretamente o assalto ao Capitólio.


Sobre os principais partidos democratas não trabalharem com a extrema-direita, referindo-se à Alemanha, Vance defendeu que “não há espaço” (aplicou o termo firewalls-aplicar uma política de segurança a um determinado ponto, geralmente associados a redes) para cordões sanitários seja a quem for. Atente-se a isto: “But what no democracy, American, German or European will survive, is telling millions of voters that their thoughts and concerns, their aspirations, their pleas for relief, are invalid or unworthy of even being considered.


Democracy rests on the sacred principle that the voice of the people matters. There is no room for firewalls. You either uphold the principle or you don’t. Europeans, the people have a voice. European leaders have a choice. And my strong belief is that we do not need to be afraid of the future”.


Foi um discurso demagógico, de falsos valores, sobre o que ele(s) e o que entende(m) por liberdade de expressão (que, para ele e para o seu chefe Trump) deve servir para tudo inclusivamente para motivar o ódio, a promoção de fascismos, nazismos, autocracias, e outras ditaduras. Vance sabe que isso lhes interessa. Isto é, “autocratas e ditadores de todo o Mundo uni-vos”.

sábado, 13 de janeiro de 2024

O que a oposição critica e irá resolver se for governo

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Leio com agrado os artigos de opinião que Francisco Mendes da Silva escreve no Público e que algumas vezes já os publiquei aqui neste mesmo blogue o que não significa estar sempre de acordo com ele.


Desta feita, a tese de Mendes da Silva que cita um artigo de Vasco Pulido Valente no Expresso em fevereiro de 1978 parece-me ter uma lógica que algumas já manifestei, isto é, não basta dizer mal do Governo anterior, mas ainda em gestão, “o velho”, nas palavras de Medes da Silva e nele depositar culpas, é preciso mostrar propostas e soluções que modifiquem o que criticam no “velho governo”, tal como escreve: “Para se ter uma “teoria” sobre a indispensabilidade da troca de governo, não basta a demonstração de que as coisas estão mal e os incumbentes são péssimos. É necessário, em primeiro lugar, explicar que o que está mal é culpa do governo velho e, em segundo lugar, que o que futuramente possa vir a estar melhor só será produto de um governo novo”.


Sugere que “não basta a demonstração de que as coisas estão mal e os incumbentes são péssimos”, pressupõe-se que os incumbentes serão do Governo que está em faze terminal, o governo velho. Insiste que “não basta”, dizer que “as coisas estão mal e os incumbentes são péssimos”, mas que deve insistir-se na continuação das culpas do que é velho, o anterior governo, mas que se deve falar do que fará o governo novo.


Moreira tem alguma razão pois que o PSD, transformado em trio AD, pela voz do seu líder apenas fala sobre o “governo velho” sem dizer o que pretende fazer e melhorar com um “governo novo”, se ganhar as eleições.


Mais ainda, Moreira sustenta que as propostas devem ser mastigadas numa mensagem focada, condensada e repetitiva, que sintetize uma “narrativa” de algibeira, pronta a usar, oposta à do poder instalado.” Quererá dizer de prestidigitação, truques de algibeira, ilusão? Assim sendo, a campanha eleitoral passará então a ser um circo político com o qual não “se tenta cativar o eleitorado através da concisão e simplicidade das mensagens”. Ora este truque é o usado pelos partidos da extrema-direita pela demagogia e pelo populismo, e nós, os eleitores, não queremos isso.


Será que o “governo novo”, se for a AD ou qualquer outro,  irá responder a tudo o que dizem estar mal no “velho governo”?

domingo, 7 de janeiro de 2024

AD para governo o voto no desconhecido

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Das intervenções do líder do PSD, e outros do mesmo partido, verifica-se, de facto, um vazio de propostas. A única coisa que ouvimos são ataques ao seu adversário PS e a pessoas. Seleciona frases e palavras soltas, descontextualizadas, proferidas nas intervenções dos seus adversários e limitam-se apenas a repeti-las e a comentá-las. Pobreza de argumentos para ganhar eleições!  Nisso são o IL e o CHEGA exímios. Se um nada nos diz sobre as suas intenções para governar, o outro limita-se a gritar e a propor comissões parlamentares. Se este dois fossem governo o que fariam? Não sabemos. É a escuridão total. Para essa gente do tipo IL, CHEGA, e com o PSD a ir ao arrasto, tudo está mal, mas nada sabemos sobre o que farão para que seja o melhor para o país e para as pessoas.


Quem ler este “post” pensará de imediato: este é do PS, ou é do BE ou é do PCP ou de qualquer outro. Não sou de nada. Sou independente o que tenho são os olhos e os ouvidos bem abertos.


É aceitável que critiquem o que o Governo do seu principal opositor fez, mas nós precisamos de saber o quê e como farão para retificar o que acham que foi mal feito. Falar da TAP, do caso, X ou do caso Y que vieram no tempo da política e não da justiça não basta.


Tudo isto torna a campanha do PSD paupérrima, porque não é esclarecedora. É a campanha do repete, repete, a que já não se atende. Neste caso já não funciona citação da célebre frase de Joseph Goebbels, ministro da propaganda dos nazis de que uma "Uma mentira dita mil vezes torna-se verdade". Luís Montenegro tem optado por não apresentar medidas que concretizará se for primeiro-ministro.


Pretende confundir os eleitores com o que o anterior Governo fez ou não fez, ou fez mal, e, para isso, centra-se nas questões trazidas à praça pública pelos media. Mas os media deixaram de merecer a confiança do povo que já são sabe em que acreditar, no que é, ou não, verdadeiro. Os media entraram numa espécie de regime do tipo real news com uma pitada de fake news.


Pretendem que, nós eleitores, votemos como se fossemos jogar numa espécie de roleta e que escolhamos às escuras sem sabermos o que pretende o líder do PSD para o país nem ao que vai fazer se for governo, tanto mais quando o PSD se transformou numa AD com toque bolorento.

terça-feira, 21 de novembro de 2023

Uma espécie de ação concertada?

 


Crise política e PGR.png


A crise política desenrolada por via de investigações efetuadas pelo Ministério Público conduziu à demissão do primeiro-ministro António Costa.  Os desenvolvimentos que se seguiram dariam para tecer teorias da conspiração. Não é este o caso, mas dá para analisar factos antecedentes e consequentes que levam a pensar que algo poderá ter estado fora da normalidade política e judiciária.  


Não irei considerar agora os aspetos ético, político e legal do processo que envolveu atores intervenientes como o chefe do Governo, o Ministério Público e a Procuradoria-Geral da República com a mobilização dos órgãos de comunicação social, aspetos sobre os quais a discussão pública pouco se tem debruçado.


Interessa desde já tornar claro que a crise política gerada não surgiu agora por mera casualidade, estaria a ser preparada e aguardava o momento oportuno para passar há comunicação social. Para evitar caso de fugas de informação antecipadas como já tem acontecido, fez-se sair a nota para a comunicação social do Gabinete de Imprensa da Procuradoria-Geral da República de 7 de novembro desse conhecimento do inquérito que estava a ser dirigido pelo Departamento Central de Investigação e Ação Penal (DCIAP) que, posteriormente informou estar o caso a ser investigado por este organismo desde outubro(?).


Tendo como base antecedentes que adiante irei referir o processo para a criação de uma crise política já estava em andamento e o seu agravamento estaria a ser delineada há cerca de ano e meio pelas oposições através de várias ações em andamento vindas da direita (incluindo a extrema-direita) e as de extrema-esquerda, independentemente e cada uma delas com a sua própria estratégia e objetivos bem definidos.


Colocada desta forma poderíamos estar a delinear uma espécie de teoria da conspiração que não teria como base qualquer facto concreto que pudesse ser validado no sentido de ser relevante e ter influência significativa. Todavia, se tivermos em consideração factos anteriores a ideia não será de todo irrealista.  Com base em factos concretos e aceitáveis provenientes em notícias que circularam durante o ano de 2022 - sobretudo neste último - e após o Orçamento de Estado para o ano de 2023, aprovado em 25 de novembro de 2022, verificamos que a agitação social começou a ser desencadeada por diversos setores profissionais acelerados pelas declarações dos partidos na oposição. Tais factos, cada um per si podem levar-nos a considerar a possível existência duma espécie de urdidura no contexto do exercício de oposição ao Governo tendente a causar a sua queda precoce, já que a maioria absoluta nunca iria cair por vontade própria.


É do conhecimento geral a forte reação negativa por parte dos partidos, quer à esquerda, quer à direita do Partido Socialista devido ao rancor que lhes causou a maioria absoluta obtida nas eleições de janeiro de 2022.


As razões para a criação de instabilidade social são diferentes de partido para partido. As extremas-esquerdas, PCP e BE, não se conformaram com a enorme perdas de votos que lhes reduziu o número de deputados na Assembleia da República. O artigo de opinião do orientador político do BE  Francisco Louçã no Expresso em fevereiro de 2022 com os argumentos costumeiros é bastante elucidativo. Escrevia na altura Louçã: “Face a este histórico, apresentar esta nova maioria absoluta como uma salvação do país, o tal “cartão vermelho” à crise, e até como a antítese de um poder absoluto, será um ato de fé, um alibi bem engendrado ou mesmo uma defesa antecipada” e ainda “o PS será também a segunda vítima da sua maioria absoluta. É certo que agora festeja a sua vitória pesada contra a esquerda…”. Disse Catarina Martins, em dezembro de 2021, ainda antes das eleições, "…há poucas coisas tão parecidas com a direita do que uma maioria absoluta do PS". O BE tinha já assestado o alvo ao PS.  


Em fevereiro do mesmo ano Jerónimo de Sousa então Secretário Geral do PCP afirmava que “o PS com condições de levar mais longe o seu compromisso com a política de direita e manter a sua opção de subordinação aos grandes interesses económicos que dominam o país", à falta de melhor a cassete costumeira também tinha já assestada as suas flechas.


À direita, durante o ano de 2023, sobretudo por parte do CHEGA e da Iniciativa Liberal, cujo linguajar deste último se aproxima cada vez mais do primeiro, intensificaram-se as ações de crítica e acusações violentas feitas de forma pública. Agora surfam em conjunto a onda desta crise política que parece estar a ser demonstrado terá sido criada artificialmente. Aliás, o acordo IL com o CHEGA poderá estar a abrir uma nova crise política e colocam o Governo PSD nos Açores em risco de cair com a discussão do Orçamento dos Açores para 2024 em que IL e CHEGA não vão votar a favor e comprometem o futuro do Governo Regional do PSD.


Não era apenas o Governo nem as medidas que tomava que estavam sujeitas ao escrutínio o que, normalmente, faz parte do papel e do debate democrático da oposição. O que estava em causa era, sobretudo, a pessoa de António Costa que visavam e em quem viam uma sombra pela sua credibilidade interna e externa. Assim, havia que o descredibilizar, fosse de que forma fosse. Outro que ficou marcado pela oposição foi Mário Centeno logo que foi para o Banco de Portugal e agora voltam ao ataque, por razões pechisbeque. Há quem afirme que isto faz parte do atributo da costumeira invejazinha portuguesa.


Greves, protestos, movimentos, reivindicações vindas dos sindicatos e outros oriundos de diferentes setores, uns afetos à direita, outros afetos à esquerda tiveram palco em 2023. Tinham a finalidade de a coberto de várias contendas causadas por vários sindicatos contra o Governo e que serviam ao mesmo tempo para contestação política. Pedia-se nessa altura a demissão de ministros e até do próprio primeiro-ministro. Pedir a demissão de ministros já vinha sendo habitual no léxico dos radicais de direita, CHEGA e IL com o objetivo de desgastar o Governo e o próprio primeiro-ministro. Claramente destinavam-se, e destinam-se agora a pressionar o Governo demissionário com prejuízo dos utentes, sobretudo dos serviços de saúde.  


Alguns exemplos são os movimentos sindicais com greves e manifestações aos quais se juntavam críticas de ordens profissionais que, afinal, só prejudicam os utentes de serviços como os do SNS, escolas públicas e hospitais.


Órgãos de comunicação social procuravam e “escavavam” casos e casinhos que, de facto, existiam e deviam ser denunciados, mas que não mereciam a importância que lhes era dada. Quando não os encontravam, para criar impacto negativo na opinião pública, na hora nobre os jornais televisivos repescavam casos do passado que passavam encadeados na edição com os atuais a que davam extensa cobertura. O alvo era sempre o mesmo e para mostrem imparcialidade retiravam da arca poeirenta casos de justiça sobre outros partidos e futebol rapidamente passados dos quais maior parte já não se recordava.


Em janeiro de 2023, após cerca de um ano do Governo da maioria absoluta, os trabalhadores da saúde fizeram uma greve nacional por melhores condições de trabalho, salários e contra as horas extras excessivas exigindo também mais investimento no Sistema Nacional de Saúde. A reivindicação embora justa, acumulava com a natureza política da pressão a fazer sobre o Governo.


Num comunicado do PSD em 15 de janeiro de 2023 podia ler-se que “O PSD acompanha com muita preocupação o que se tem passado nos últimos meses nas escolas, resultante da incapacidade de o Ministério da Educação em concluir um processo negocial com a classe docente, e que resultou na manifestação de hoje. Repudiamos por completo o tom persecutório com que o Ministro da Educação se dirigiu à classe docente, procurando usar os alunos como arma de arremesso político, ao tentar colocar os encarregados de educação contra os professores.”. O que faria o PSD nestes casos quando antes acusava os governos do partido socialista de serem despesistas?


Em fevereiro os professores mobilizados por sindicatos afetos à extrema-esquerda, entre eles o radical STOP, liderado por André Pestana que terá sido do partido MAS-Movimento de Alternativa Socialista que posteriormente terá deixado este partido. Os professores saíram à rua para protestar exigindo a recuperação do tempo de serviço de seis anos, seis meses e 23 dias progressão nas carreiras que tinham sido bloqueadas no tempo do Governo PSD-CDS com Passos Coelho primeiro-ministro. O PSD cola-se aos sindicatos e apresenta proposta sobre tempo de serviço dos professores com o BE pela voz de Mariana Mortágua a salientar que "A proposta é muito justa, a posição do PSD é hipócrita porque quando poderia ter aprovado a proposta, quando havia votos na Assembleia da República para ser consequente e para aprovar a proposta, o PSD não aprovou, não o fez”.


As posições das extremas-esquerda tinham também o objetivo de pressão e de oposicionismo, estas também aplaudidas pelas direitas. A direita PSD que na altura teve a iniciativa da congelação das carreiras, cola-se subtil e oportunisticamente ao lado destas reivindicações.


Para além disso protestavam ainda contra o aumento do número de alunos por turma, pela redução do tempo de aulas e a diminuição da autonomia das escolas. Os manifestantes pediam uma educação pública, gratuita e de qualidade para todos.


Em 2 de outubro de 2023 um título do jornal Público afirma que o “PSD agarra professores e abandona a igualdade de tratamento dos funcionários públicos”. Em fevereiro deste ano, numa entrevista à SIC Notícias, o líder do PSD, Luís Montenegro, dizia que o "princípio basilar da política remuneratória da Administração Pública é que haja equidade e igualdade, pelo que “todos os funcionários públicos” que tiveram “as suas carreiras congeladas têm que ter um tratamento equitativo e igual na recuperação do tempo perdido”. Todavia, em 30 de setembro sai a notícia de que Montenegro anunciou que o partido proporá o pagamento faseado do tempo de serviço dos professores - excluindo assim os restantes funcionários públicos. Escrevia-se no Expresso: “Mas esta é a primeira vez que o líder do PSD admite a recuperação integral do tempo de serviço ainda congelado aos docentes. Em janeiro, por exemplo, o presidente do PSD admitiu mesmo não haver condições para recuperar integralmente a carreira dos professores, devido ao impacto que isso poderia ter nas contas públicas, assim como pela necessidade de encontrar um critério que se aplique de igual forma ao resto da Administração Pública”.


O PSD em outubro deste ano diz o dito por não dito para agarrar professores e abandona a igualdade de tratamento dos funcionários públicos enquanto Pedro Duarte do PSD justificava a mudança de posição dizendo que “nem tudo pode ser uma prioridade, sob pena de nada acontecer”, contudo em 2019, Hugo Soares foi contra a reposição do tempo de serviço dos professores.


Em março, os trabalhadores dos transportes públicos paralisaram as suas atividades por 24 horas, reclamando melhores salários, horários e condições de segurança. A greve afetou os serviços de metro, autocarro, comboio e barco em várias cidades, causando transtornos aos utentes.


Em maio os funcionários públicos fizeram uma greve geral por mais direitos e dignidade, denunciando o congelamento das carreiras, o aumento da precariedade e a falta de pessoal nos serviços públicos. A greve teve uma adesão de cerca de 70% e afetou vários setores como a educação, a saúde, a justiça e as finanças.


Em julho de 2022, passados cerca de seis meses da posse do Governo, a primeira moção de censura ao Governo é apresentada pelo CHEGA que foi “chumbada” no Parlamento com votos contra do PS, PCP, BE, PAN e Livre e abstenção de PSD e IL, tendo o proponente ficado isolado no voto a favor.


Passado um ano das eleições que deu uma maioria absoluta ao PS desencadearam-se movimentos e greves sindicais para pressionarem o Governo para ceder ao que não seria possível conceder. No fundo o objetivo era desgastar o Governo e aumentar a contestação social.


Depois de um ano de mandato surgiram casos com polémicas à mistura que vieram ajudar as oposições à direita e à esquerda do PS que provocaram 13 demissões de membros do Governo. Mas a dissolução do Parlamento, com que as oposições sonhavam, ainda não estava alinhada pela precaução do Presidente da República que alegava que isso só iria agravar a crise económica do país e atrasaria o cumprimento de prazos na aplicação dos fundos europeus.


Durante aquele período, a 5 de janeiro de 2023 a Assembleia da República reprovou a moção de censura ao Governo apresentada pela Iniciativa Liberal com os votos contra do PS, PCP e Livre e as abstenções do PSD, BE e PAN.


Em setembro do mesmo ano o Parlamento debateu uma moção de censura ao Governo novamente apresentada pelo CHEGA que foi a terceira que o executivo enfrentou desde o início da atual legislatura e que teria chumbo garantido. Eram os radicais de direita, com argumentos muito pouco consolidados, apenas para mostrar serviço aos seus potenciais eleitores.


O ano de 2023, pleno de peripécias para o Governo socialista e com ataques ao primeiro-ministro António Costa seriam condições suficientes para uma potencial queda e dissolução do Parlamento não fosse a maioria absoluta. Nem tão pouco as pressões indiretas sobre o Presidente da República surgiram efeito. Assim, podemos considerar que haveria de ser criada uma estratégia que surgisse efeito.


A nova estratégia aparentemente poderá ter vindo do mais do fundo dos meios conspirativos anti Governo socialista talvez com o apoio tácito por alguma parte do Ministério Público mais permeável às circunstâncias políticas. Uma hipotética trama terá vindo do após a verificação de que o trabalho iniciado por forças políticas, sindicatos, ordens profissionais e movimentos vários não estavam a resultar com a rapidez desejada e que o tempo urgia e a incriminação de responsáveis poderia ser a arma mais eficaz através de acusações mesmo que pouco fundamentadas e fiáveis. Fica a suspeição de que a Procuradoria-Geral da República poderá vir a ser uma espécie de quinto poder da República. Sobre o tema a Procuradora Geral Adjunta escreveu um artigo no jornal Público onde aborda algumas questões apreciáveis para reflexão.


Pode duvidar-se desta tese, mas não parece ser tão absurda quantio isso, porque em qualquer poder há sempre algo que se poderá investigar e encontrar no que respeita a crimes praticados por particular contra a administração em geral, mesmo por pouco que seja, mas que voa rápido por fugas de informação através da comunicação social que se encarregará de dar o impacto necessário.


É lamentável que em democracia partidos da direita como o IL, o CHEGA e até o PSD façam uma oposição centrada em denegrir pessoalmente a integridade pessoal e política de rivais partidários para chegar ao poder em vez de se centrarem na apresentação de alternativas e soluções governativas. Quando falam em ética deviam também olhar para si próprios cuja ausência os leva no confronto político a forjar justificativas a que recorrem para apresentarem ao eleitorado à falta de programa alternativo de governo demonstrando falta de ética enquanto opositores. Ou será que a ética não deve existir no confronto político?


As extremas-esquerda, as direitas e a extrema-direita também têm muito que repensar as suas estratégias porque, para atingirem os seus objetivos partidários, apoiam-se mutuamente, embora por razões diferentes, quando se trata estrategicamente do derrube de Governos.


A mais grave crise interna na “geringonça” aconteceu no final da XXI legislatura, semanas antes das eleições europeias que foram em 26 maio 2019, ainda o partido CHEGA não tinha representação parlamentar, quando o BE, PCP, PEV, PSD e CDS-PP aprovaram em sede de Comissão Parlamentar de Educação um diploma para a contabilização total do tempo de serviço dos professores na altura da liderança do PSD por Rui Rio.


Podemos recordar ainda a célebre conjugação entre a direita, a extrema-direita e a extrema-esquerda quando, em 27 de outubro, na votação na generalidade do Orçamento para 2022, o BE votou ao lado do PSD, CDS, CHEGA e Iniciativa Liberal contra a proposta do Governo. PCP e PEV juntaram-se a este conjunto de partidos e o Orçamento “chumbou”, tendo apenas o apoio do PS, as abstenções do PAN e das duas deputadas não inscritas.


Face a isto, este é o momento oportuno para refletir sobre dois pontos cruciais para a nossa democracia: a relação entre a justiça e os media e a sua contribuição para as crises políticas, para o derrube de governos e para a destruição da imagem de cidadãos, por vezes dificilmente recuperável, quando entram num rol de ódios de estimação a partidos, pessoas e instituições devido aos mais variados motivos.  


A estas condições acrescem os movimentos sociais pronunciados por sindicatos, ordens profissionais e outros movimentos ditos independentes e autointitulados sociais, organizados através de redes sociais que influenciam, mobilizam e angariam pessoas através de retóricas demagógicas, sejam eles da esquerda ou da direita, muitos deles até vindos de partidos com representação parlamentar. Há, assim, uma correspondência negativa, por vezes tóxica, entre o poder instituído e outros poderes e órgãos de comunicação social.


Em defesa dum jornalismo livre e dos profissionais que o integram, os profissionais do jornalismo apesar de, na generalidade, serem uma força corporativistas, não obstante, uma sociedade livre e democrática exige órgãos de comunicação social livres. Disso não se tem qualquer dúvida, nem sequer é questionável sua liberdade que nem sempre é respeitada


Cada vez mais faz sentido lançar novamente para o debate público o conceito, caído em desuso, que é o do “quarto poder”. Este conceito foi pela primeira vez utilizado durante a Revolução Francesa por semelhança com o de “quarto estado” como eram o clero, a nobreza e o povo correspondendo ao primeiro, segundo e terceiro estados respetivamente. Em 1821 a imprensa foi chamada pela primeira vez por Edmund Burke o “quarto estado” devido ao seu poder. O conceito deixou, entretanto, de ser utilizado, mas enfatiza a importância do jornalismo que enfatiza a sua importância para a política.


Contudo, é evidente que a política e os partidos necessitam do apoio não apenas a imprensa, mas sobretudo das televisões e dos outros meios de comunicação como os novos media associados à internet como as plataformas digitais e as redes sociais que têm sido elementos essências para se passarem mensagens e informações falsas.


Termino com uma citação dum artigo de opinião da Procuradora Geral Adjunta titulado “Como foi possível acontecer tudo aquilo a que assistimos há duas semanas?” onde escreve a certa altura: “Como se chegou até à tomada de decisões que provocaram uma monumental crise política e cujas consequências vão ainda no adro? Uma coisa é certa: ver um certo político populista de extrema-direita monopolizar a defesa da atuação do MP, dá muito que pensar! Outros haverá que resguardaram o regozijo da crise por entre dentes e aguardam a sua oportunidade num silêncio de marketing.”


Quanto á relação órgãos de comunicação com a política falarei num próximo blogue.

segunda-feira, 18 de setembro de 2023

As lições de Ressabiado Silva

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O nome próprio “Ressabiado” não existe, é ficcionado. Tal nome próprio nunca terá sido posto a ninguém, a não ser como alcunha. Já viram como soaria se nos dirigíssemos a alguém com tal nome? «Bom dia, senhor Ressabiado!» ou «Como está senhor Ressabiado? Tem passado bem? Há muito tempo que não o via!».


Ressabiado não é um nome próprio para designar determinada pessoa, isto é, aquela e não outra. É um adjetivo cujo significado é o de alguém que está melindrado, agastado sendo também sinónimo de zangado, por isso mantenho a designação para a personagem. O nome Silva é um apelido, e há muitos!


A estória começa quando, certo dia, Ressabiado Silva, corroendo-se interiormente e clamando por vingança - para explicação deste último sentimento seria a necessário um psicanalista - com o coração pleno de raiva e ódio que tinha contra tudo e contra todos os que com ele não concordam, nem concordaram resolveu destilar publicamente tudo o que sentia contra o seu alvo predileto que, no passado, o confrontou e quase lhe impôs aceitar condições que o contrariavam.


Por vezes vêm-lhe à memória os bons tempos da leitura do conto de Lewis Carroll “Alice no País das Maravilhas”. Recorda-se, sobretudo, da personagem do Coelho (no conto é a Lebre de Março) que, para ele, é uma personagem que possuía a verdadeira sabedoria da governação, mesmo diante dos maiores obstáculos.


Podemos imaginar Alice como sendo o povo que acaba por fazer parte do "chá de desaniversário" sem entender nada que está a acontecer. O Coelho era o fiel companheiro da hora do chá que insiste em provocar e incomodar a convidada. O Ressabiado é uma espécie de personagem como o Chapeleiro Louco que se juntam ao Coelho (Lebre de Março) e convidam Alice, o povo, para beber chá, mas sem açúcar. O Coelho é um personagem de sonho que ainda alguns continuam a procurar que regresse ao país das maravilhas.


Ressabiado Silva não convivendo bem com a imagem que ficou dele enquanto desempenhou cargos políticos, sobretudo no meio dos seus, esforça-se por colorir essa imagem. Mas a História não se reescreve e o que fez mal por erro ou omissão, obscurece a sua postura de infalível e continua a pensar que "ainda está para nascer quem seja mais honesto que ele", mas a sua atitude de ressentimento, ficarão assim inalteráveis por muitos livros que escreva e muitos discursos que faça.


Mesmo assim, Ressabiado Silva insistiu em escrever e publicar um livro, mais um, este último sobre a arte de como fazer política e nela conviver. Ressabiado, revê-se num hábil ético-moralista da política, isto é, avalia severamente os outros de acordo com os seus próprios padrões morais, desdenhando outros que sejam discordantes ou que não sigam os seus princípios político-partidários. Egocentrista convenceu-se e interiorizou o que disse no passado quando salientava que para serem mais honestos do que eles tinham de nascer duas vezes.


Para o esquadrão dos seus seguidores não é um livro qualquer. Para eles estão lá contidos altos pensamentos filosóficos no âmbito da ética política. Talvez seja uma “Bíblia”, talvez seja até um catecismo, poderá até ser um manual de instruções de como fazer e não fazer política.


Há um livro muito conhecido cujo título é “A Arte da Guerra”, obra literária do pensador chinês Sun Tzu, escrito por volta do ano 500 a.C. A obra apresenta-se como um manual estratégico para conflitos armados, mas que pode ser extrapolado para várias aplicações noutras áreas da vida e do confronto político. Terá, por acaso, Ressabiado Silva perguntado a si mesmo: Se aquele tal Tzu escreveu sobre a guerra porque não escrevo eu sobre a política? Mas o livro que escreveu é ainda mais completo, é um livro que ficará na memória do “mundo português”, uma espécie de Bíblia, com um Velho e Novo Testamento aplicados à política, mas tendo como alvo o ataque a vários dos seus inimigos figadais e a uma ideologia em especial.


O livro de Ressabiado Silva tem como base a sua sabedoria infinita. São textos que, para ele, são princípios sagrados e contêm histórias, doutrinas, códigos e tradições que devem guiar os verdadeiros políticos.


Ressabiado Silva, assim como para os seus correligionários, sempre se considerou um símbolo do país onde vive e o maior panteão do partido a que aderiu, talvez por engano, ou talvez porque não teve coragem de aderir na altura da queda do antigo regime a outro com que mais se identificasse.  


Teve sempre uma visão austera, (ainda há quem aprecie), com um perfil que aponta para um autoritarismo que mal consegue disfarçar. Poderia ter sido líder de um partido de extrema-direita, embora sem os chavões populistas inerentes. Poderia até ser líder de um partido com amostras de salazarismo, sem Salazar, em convivência com uma democracia controlada a seu modo. Foi o forno onde ele se cozinhou. A sua postura comunicacional, quer a sua retórica, quer o que defende, fazem parte de um passado que pode não estar longe de poder regressar, não na sua forma primitiva, mas revista e atualizada.


Ressabiado Silva tem uma necessidade egocêntrica e narcisista de se mostrar o melhor, o sábio, o infalível. Faz oposição a um governo cujas políticas não sejam as que ele defende e que pretenderia impor ao país onde vive. Nestas circunstâncias, tem o impulso de sair da concha onde habita, para fazer campanhas de oposição a qualquer governo que não seja o por ele idealizado,  sem, no entanto, propor soluções. Dizem os seus correligionários que ele é o símbolo de um período de crescimento no país, mas e as pessoas terão de facto também crescido? Ressabiado Silva é um saudosista do poder, mas dum poder absoluto. Ressabiado Silva parece ter-se esquecido que pensar e decidir quando se está no poder, frente a problemas atuais, concretos e complexos não é o mesmo que escrever para dar lições quando se está por fora do poder e como se o tempo tivesse parado.


 

quarta-feira, 17 de maio de 2023

Pretensos democratas que descredibilizam a política

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O espetro partidário da direita tem vindo modificar-se desde 2015. Em 2017 é fundado o Iniciativa Liberal (IL) e concorre às primeiras eleições legislativas e pela segunda vez em 2022 conseguindo oito deputados. O partido Chega concorreu às Eleições Legislativas Portuguesas de 2019 e em 2022 obteve doze deputados.


A suposição que se pode fazer é que a maioria dos eleitores destes partidos terá a sua origem em simpatizantes que votariam anteriormente no PSD e no CDS o que, em parte, pode explicar as enormes perdas destes dois partidos em número de votantes. É assim compreensível que os novos partidos com assento na Assembleia da República tentem conquistar ainda mais votos, e o PSD e o CDS conseguir que os “fugitivos” também os que terão votado no PS de arrependam voltem ao partido e origem.


O Chega pela voz do seu presidente faz uma oposição que se limita a descredibilizar políticos e a política, isto é, descredibiliza a própria democracia. Os que assim procedem uns consideram-se incorruptos e outros apolíticos. Ao atacarem a política e os políticos estão na substância a fazer política e a proceder como políticos. A pergunta que se coloca a estes e aos que pensam que todos os políticos deveriam ser banidos é: como é que eliminariam toda a classe política e por quem a substituiriam?


Montenegro não segue por esse caminho, mas, para chegar ao poder, não rejeita qualquer participação e oportunidade para denegrir os políticos a quem faz oposição em vez de criticar as suas políticas passa o tempo a dedicar-se a casos que em nada contribuem para as reformas necessárias. Contribui para denegrir a própria política para recuperar votos aproximando-se do percurso do Chega por caminhos mais subtis.


São os populistas que espalham a desconfiança em relação aos políticos, que ocultam inevitabilidade da política, como se esta pudesse ser despenhada por quem não é político.


Fará sentido que se alimentem críticas em relação aos parlamentares, representantes do povo, quando os que os criticam dizem estar a falar em nome da voz do povo descontente com os políticos?


Os populistas são uns elitistas políticos virados em sentido contrário, isto é, são senhores do pensamento que propagam defendendo que não acredita que o povo é igual aos seus governantes, mas sim que é melhor que os seus governantes. Basta analisar com cuidado as atitudes, comportamentos e até os discursos fátuos de partidos na Assembleia da República que se acham grandes representantes da vontade do povo contra os partidos, os políticos e a política desde que não sejam eles. É por isto que se torna imperioso que se combata a iliteracia política que tende a devastar toda ação política e governativa lançada na opinião pública e no seio das massas populares.


Há partidos e políticos cujo líderes têm por missão desqualificar os outros com ataques pessoais, fazendo-nos acreditar que eles próprios não agem como políticos ou que são políticos de uma elite à parte. Fazem-se desinteressados e suprapartidários e mostram ser contra o número de deputados, mas que como tal usufruem das mesmas regalias.


Houve tempo em que um líder dum partido de extrema-direita que defendia a proposta de reduzir o número de deputados. Se tal fosse aceite a Assembleia da República seria ainda menos capaz de controlar os executivos. Talvez isso interessar a quem tal propões na esperança de um dia serem Governo.


Partidos e líderes partidários que fazem oposição ao Governo colocam-se por vezes numa posição suprapartidária e de infalibilidade nas afirmações e críticas que proferem usando uma linguagem polissémica e dúbia a partir de retóricas supostamente baseadas em factos desfigurados a que depois chama por factos alternativos.


O populismo vive de inverdades, de meias-verdades, de mentiras e de factos alternativos, ou verdades alternativas como se queira. O Dicionário Inglês de Oxford (Oxford English Dictionary) dá o significado para facto "Aquilo que se sabe (ou em que se acredita firmemente) ser real ou verdadeiro; o que de facto aconteceu; verdade atestada por observação direta ou testemunho autêntico; realidade".


A denominada verdade alternativa[1] ou facto alternativo no seu nível mais básico é uma afirmação que é apresentada como verdadeira, mas que na verdade é falsa ou enganosa. É essencialmente uma forma de propaganda e de desinformação destinada a manipular a opinião pública ou a moldar a perceção pública de forma que seja favorável à pessoa ou grupo que apresenta os ditos factos alternativos que não são mais do que falaciosos.


Factos alternativos não são factos, são falsidades. Só os tendencialmente adeptos do totalitarismo manipulam a linguagem e defendem a ideia absurda dos factos alternativos para poderem afirmar o controle do público.


As “fake news” (notícias falsas) podem assumir muitas formas diferentes, mas o elemento essencial é sempre o de serem parcial ou totalmente falsas. Podem ser uma lenda urbana, um boato, um rumor, escrita mal fundamentada, desinformação deliberada ou com intenção de humor ou paródia. Como consumidores de informações, é da nossa sua responsabilidade avaliarmos as fontes de notícias quanto à sua credibilidade, autoridade e propósito, tanto para as nossas próprias necessidades de informação como para evitar que compartilhemos propositada ou acidentalmente notícias falsas com outras pessoas.


Vejamos um exemplo relevante em como a partir de um facto real que pode ser comprovado se pode gerar uma verdade alternativa. Em 6 de maio de 2023 Luís Montenegro afirmou que entre 2011 e 2015, durante o governo de Passos Coelho, «nós conseguimos não perder tanta qualidade de vida e tanto bem-estar como aquele que tem sido perdido nos últimos anos». Ora pode comprovar-se, recorrendo a informação da época, que as circunstâncias do Portugal democrático desde o 25 de Abril, devido aos episódios da assistência financeira externa, tal não é verdade. É uma verdade que tem uma perspetiva parcial e demagógica porque naquela época houve circunstâncias gravosas para grande parte, se não a maioria, da população.


O líder do PSD, Luís Montenegro, num jantar em Pombal no dia 14 de maio tenta ludibriar quem o ouvia com verdades parciais. Verdades parciais por terem sido feitas sem enquadramento, destacando apenas números desligados.  Afirmou ele: “Pois, esta semana batemos mais uma vez, pela mão do Partido Socialista e do doutor António Costa, o recorde de portugueses sem médico de família. São mais de 1,7 milhões de portugueses que não têm hoje médico da família”, sublinhou, acrescentando que, no distrito de Leiria, “cerca de um terço dos utentes de cada concelho, em média, não tem médico de família”. E acrescentou: “É com este Governo e com este primeiro-ministro que temos em Portugal mais de 3,3 milhões de portugueses que tiveram de fazer um seguro de saúde, aos quais acresce mais cerca de um 1,2 milhões que tem ADSE, mais alguns subsistemas”.


Analisando estas afirmações destacam-se falhas graves na informação passada, a saber:



  1. O número de pessoas sem médico de família terá aumentado devido ao número de imigrantes que teve acesso ao SNS nos últimos anos e que vieram acrescer o número de utentes e a sobrecarregar estes serviços.

  2. Quanto ao número de seguros de saúde está a confundir dois tipos: os seguros de saúde propriamente ditos com os cartões de desconto em serviços médicos de empresas privadas (ex. Medicare, Multicare) que não é o mesmo que um seguro de saúde; A ADSE sempre existiu, desde o tempo do Estado Novo, desde 1963; os outros subsistemas já existem há décadas, e o PSD nos anos em que esteve no Governo em nada alterou, melhorou ou acabou com os subsistemas.


É óbvio que algumas intervenções oposicionistas do líder do PSD têm a sua razão, contudo, os que não estejam “acorrentados” aos pontos de vista daquele partido devem estar atentos, porque muitas das intervenções políticas do presidente do PSD revelam alguma ansiedade e falta de preparação institucional e recorre a manobras de diversão e algumas vezes vai andando a reboque dos populismos.


[1] Facto alternativo ou verdade alternativa surgiu sobretudo durante o mandato de Donald Trump nos EUA.


 


 


 

segunda-feira, 7 de novembro de 2022

A não mudança do PCP no editorial de Manuel Carvalho



Manuel Carvalho




Paulo Raimundo, a continuação de uma era










Quem acreditou que o PCP aproveitaria o fim de ciclo para se reinventar enganou-se. Raimundo é mais um apparatchik da luta de classes do que um protagonista de uma ideia para o mundo digital.






Jerónimo de Sousa sai do PCP e da sua bancada e deixa como rasto uma onda de complacência simpática que se explica por duas razões: porque ele é um homem genuíno e coerente que, como o próprio disse, procurou “sempre fazer o melhor que sabia (...) nos valores éticos da honestidade, franqueza, fraternidade”; e porque o PCP se tornou com o curso da História uma fera envelhecida e amansada, incapaz de ameaçar direitos fundamentais da democracia liberal, papel que caiu nas mãos da extrema-direita.


Paulo Raimundo vai substituí-lo e promete continuar a trilhar as mesmas vias que levaram o PCP à quase irrelevância – o partido que em 1976 elegeu 40 deputados e teve força para pôr em causa a criação de uma democracia liberal está hoje reduzido a seis lugares no Parlamento. Quem acreditou que aproveitaria o fim de ciclo de Jerónimo de Sousa para se actualizar ou para se reinventar enganou-se. Raimundo é mais um “apparatchik” do velho mundo da luta de classes do que um protagonista de uma ideia para o mundo digital.


Até na tentativa de vender aos eleitores o perfil de um operário se percebe esse esforço de conservar a mitologia – a classe operária já não usa o boné com fuligem e Paulo Raimundo é um produto do circuito fechado da Soeiro Pereira Gomes. O PCP vive há anos nessa terrível angústia de saber que, se mudar, arrisca perder o seu pequeno lugar no mundo e, se não mudar, está condenado a adiar a decadência.


Para a continuidade, Paulo Raimundo parece bem. Basta ouvir o seu discurso no 101.º aniversário do partido para se perceber que a “luta”, os “inimigos de classe”, a “exploração” como “instrumento do capitalismo”, ou, numa citação reveladora, que a “teoria do passado continua a explicar a luta do presente” para perceber ao que vem. É essa “teoria” que impede o PCP de ver a Europa como um projecto de paz, é isso que o impele a proteger tiranias como a da Coreia do Norte ou da Venezuela, é isso que associa a “luta pela paz” ao apoio discreto à Rússia na agressão â Ucrânia.


Hoje, o PCP não tem força para impor uma ditadura do proletariado, nem para matar a liberdade de iniciativa. O “espectro” que Marx profetizou tornou-se uma extravagância, como a moda “soviet chic”. Paulo Raimundo dirá coisas importantes, manterá os seus trunfos nos sindicatos ou no Estado e o PCP continuará a dar voz a uma parte importante da sociedade portuguesa. Não deixará de ser o reflexo de um passado. Uma força do folclore que não faz mal a ninguém.






segunda-feira, 19 de setembro de 2022

O desgoverno das oposições ao Governo

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Os partidos na oposição têm propensão para criticarem e para se oporem sistematicamente a tudo quanto dele venha, mesmo que oportuno, acertado e a favor das populações, o que é demonstrativo do mau serviço que prestam à democracia portuguesa, com mais relevância dos que fazem parte da alternância de poder.  


A democracia, é um poder que, por direito, possibilita ao povo a escolha dos seus representantes políticos que tem o dever de garantir os direitos inerentes à cidadania, a liberdade de expressão e possibilitar uma maior participação popular no que refere à política.


É ainda o exercício da democracia criticar e controlar os governos.  Também sabemos que, qualquer tomada decisão política, por mais criteriosa, bem avaliada, analisada e discutida nunca é garantido ser excelente, infalível, porque se encontrarão na legislação promulgada pontos de escape voluntários ou involuntários, distorções e falhas. Qualquer que seja o partido escolhido para formar governo, nunca será infalível. Mas, quando na oposição tentam demonstrar, segundo o seu ponto de vista ideológico, que fariam mais e melhor ao criticarem, quase como uma obrigação, as propostas ou decisões do governo em exercício.  


Um exemplo recente têm sido as críticas às medidas que o atual Governo tomou para tentar mitigar os efeitos da inflação e da crise energética nas famílias e nas empresas, sobretudo por parte do que mais poderá vir a aproximar-se do poder.


Todos os partidos, cada um à sua medida, fazem oposição, uns com mais razão do que outros, às medidas anunciadas com fogachos que utilizam as mais variadas retóricas e narrativas populistas e demagógicas. Dizem uns serem poucas, dizem outros, quase todos, que são tardias, e, ainda outros, mostram a centram-se apenas na baixa de impostos. Defendem estes que em vez de ajudas diretas ou créditos se deveria antes baixar impostos.  Mostram eles insensatez por não olharem às possibilidades financeiras do país não pensando nas contas públicas que devem ter em conta a dívida e o déficit a que dão importância apenas quando estão no poder e defendem a austeridade. Tivemos experiência disso. Agora chamam às contas públicas certas austeridade. Parecem ter-se esquecido dos tempos em que acusavam o PS de ser perdulário e de quando Teixeira dos Santos, ministro das finanças de José Sócrates, deixou que o Governo da altura fizesse derrapar as contas públicas até ao descalabro.


A Iniciativa Liberal é a mais coerente cuja tónica se mantém na bandeira menos Estado, melhor Estado, com a defesa da baixa de impostos para resolver os problemas da inflação e da energia. Dizem eles que o que faria sentido era um conjunto de reformas estruturais e defendem que as boas empresas não precisam de subsídios do Estado. O que é necessário, segundo a IL, é que as empresas possam crescer e desenvolver-se para que possam estar capitalizadas durante os períodos bons para fazer face aos períodos maus e isso passa pela redução de impostos (ou será eliminação dos ditos?). Mas, como para eles tudo dever privado a despesa pública seria substancialmente reduzida com o desinvestimento nos serviços públicos nomeadamente na saúde e na assistência social e assim deixaria de haver necessidade de serviços públicos porque a iniciativa privada daria resposta e a que apenas os ricos poderiam ter acesso. Baixavam-se impostos e deixavam de pagar crises, seria o povo a suportá-las.


O outro partido de direita, o PSD, parece ter virado socialista e alguns até se aproxima dos pontos de vista defendidos pelas esquerdas mais radicais. Na Assembleia da República as intervenções dos deputados, da esquerda à direita, os argumentos, tirando alguns dos que são mais ou menos repetitivos como o PCP e o BE, não divergem muito. A extrema-direita do Chega, que sempre foi contra os impostos e se tem mostrado contra os subsídios critica agora o Governo por não dar mais dinheiros às famílias. São medidas “tardias” e “vazias” e que são “migalhas” face às necessidades dos portugueses de menos recursos, comparando com o aumento do custo de vida e propôs aumentos de sete milhões. Se é contra os impostos reivindicando a sua baixa, e contra para pagamento de subsídios, onde iria arranjar recursos para satisfazer as pretensões. Nesta altura a estratégia de todos os partidos é a de falarem em defesa dos portugueses desvalidos e desfavorecidos num posicionamento à esquerda.


O xadrez partidário transformou-se num jogo competitivo em que, quem vence é quem mais defender as classes desfavorecidas, os pensionistas e os reformados, as pequenas e as médias empresas.


O PSD, após eleição do seu líder Luis Montenegro de sorriso forçado, que mostra uma simpatia que se prevê efémera se chegar ao poder é o que mais se tem destacado nesta competição. Com o slogan de cartaz “Acreditar” não sabemos em quê ou em quem, o líder promete o sol primaveril da esperança e pretende mostrar um partido renovado que se transformou, qual camaleão da política, cujo comportamento e atitude mudou para tirar proveito das circunstâncias. Na tentativa de captar o eleitorado que lhe escapou nas últimas eleições expõe-se como um partido que virou à esquerda e é defensor das classes mais necessitadas.


Com o slogan “Acreditar” Montenegro parece ele próprio não acreditar que o eleitorado que lhe escapou pode não ser transitório e pode até prever-se que seja definitivo com algumas nuances.


Segundo num estudo de março de 2022 sobre a transferência de votos nas eleições legislativas comparando com 2019 o PSD ganha mais votos do que aqueles que perdeu para a abstenção, e foi buscar votos à categoria Outros/ Brancos e Nulos e ao CDS-PP. Contudo, o PSD perdeu votos em primeiro lugar para a Iniciativa Liberal, em segundo lugar para o PS, e em terceiro para o Chega. Isto é, com alguma margem de erro, o eleitorado que o PSD perdeu foi alimentar, juntamente como o CDS, os partidos à sua direita, o Iniciativa Liberal e o Chega e também, alguns, para o PS. São os mais idosos que terão votado PS que Montenegro tenta agora atrair na espectativa de um regresso.


Luís Montenegro passou a ser líder de um partido que defendia a sustentabilidade da Segurança Social como Passos Coelho fazia quando em 2015 dizia que a sustentabilidade da Segurança Social não é "um papão" e no mesmo ano a então ministra das Finanças Maria Luís Albuquerque explicava, sem esclarecer como pretendia fazê-lo, que o Governo previa "poupar 600 milhões de euros em 2016 com uma reforma do sistema de pensões". Em maio de 2015, alterou o discurso e afirmou mesmo ser "honesto dizer aos portugueses que vai ser preciso fazer alguma coisa sobre as pensões para garantir a sustentabilidade da Segurança Social" e que poderia passar, "se for essa a opção, por alguma redução, mesmo nos atuais pensionistas". Parece que atualmente o PS com António Costa, com mais ou menos artifício, pretende fazer o mesmo


Recorde-se que Montenegro em abril deste ano disse, claramente, numa entrevista, que tinha orgulho do tempo da governação de Passos Coelho. “Tenho orgulho no Governo de Pedro Passos Coelho”, afirmou Luís Montenegro. Questionado se teme ser visto como um candidato ligado a Pedro Passos Coelho, disse ter orgulho e não vergonha do seu passado.


Quem tem orgulho num passado que chamou “peste grisalha” aos pensionistas e reformados, que cortou reformas e pensões e previa agravá-los, é porque aceita as políticas praticadas nesse passado.


Mais sério ainda é que nas próximas eleições pode não estar fora de questão por parte do PSD uma abertura de solução com o Chega se atentarmos  nas palavras de Rui Gomes da Silva: "Dizer que não há governabilidade com o Chega como dizia Rui Rio para afastar acordos com André Ventura é autoexcluir-se de qualquer solução governativa nos tempos mais próximos. Isso é permitir à esquerda sempre governar.”


Portanto, a surpresa surge-nos quando passou a defender políticas de aumentos de pensões e de reformas, a considerar que o Governo está a enganar os pensionistas, que acha as medidas insuficientes, ilusórias e tardias e até uma sugere abertura despesista. Mesmo que possamos dar-lhe razão estranha-se a alteração opcional de políticas demasiado enlevada.


Nós, eleitores, não podemos deixar-nos embarcar pelas boas intenções de partidos quando, ao mesmo tempo, dizem que pretendem e irão ganhar as próximas eleições e, então, entram num jogo do vale tudo.


No caso das extremas esquerdas, BE e PCP, as intervenções dos deputados destes partidos são previsíveis, são uma repetição por palavras diferentes de intervenções anteriores, são uma espécie de leituras panfletárias, são o déjà entendu da cassete centrada no aumento dos salários e pensões, no ataque aos grandes grupos económicos, na fixação e tabelamento de preços, nas reivindicações demagógicas e populistas da taxação dos lucros acumulados pelas empresas.


O tabelamento de preços por entre os efeitos, salienta-se o desincentivo à produção e este, por consequência, pode gerar desabastecimento no mercado.  Preços congelados não incentivam a produção pela retirada da liberdade do ponto de vista da produção, já que a margem de custos e de lucro fica limitada. Assim, muito possivelmente, num cenário de preços congelados, os produtores não estão dispostos a empenhar esforços segundo critérios fixados pela autoridade pública o que resulta numa crise de abastecimento do mercado. Estas medidas pelo contrário poderia favorecer a concentração de mercado pelas empresas que já praticavam preços máximos. E ainda, as multas impostas em caso de descumprimento do preço tabelado, poderiam ser passadas para o consumidor.


Em síntese, embora os partidos da oposição tenham alguma margem de razão nas críticas que fazem ao Governo, nomeadamente na questão das pensões e das reformas, também é evidente que as críticas que agora fazem, nomeadamente o PSD, se fossem governo não hesitariam como no passado a pôr em prática as soluções que, segundo eles, seriam as necessárias mesmo que em prejuízo daqueles que agora dizem defender.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2022

Tempestade Perfeita

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“Tempestade Perfeita” um livro de Daniela Santiago a não perder.


A jornalista Daniela Santiago consegue ter a capacidade de observação e de saber ouvir e depois.  


Estou a reler, desta vez, alguns capítulos.


É um livro por onde desfilam algumas das personagens que descredibilizam a democracia, marcando-a pela negativa. Este livro dá a conhecer os que se aproveitam, como diz na contracapa, “das fraquezas da sociedade carente de valores, sedenta de políticos carismáticos e de justiça mais eficaz, para construir um discurso demagógico alavancado pela discórdia, pelas notícias falsas e por conspirações”. Dá-nos pistas para anteciparmos a onde nos poderão levar partidos como o “Chega” que têm ídolos e conselheiros defensores e negacionistas de ditaduras.


A alguns dará a conhecer os populistas e a ascensão das extremas-direita, e, a outros, a ficarem raivosos por se sentirem retratados.


Tenho para mim que no jornalismo a isenção é uma prática difícil. Mesmo na descrição de factos não é fácil conseguir evitar sinais de opinião favorável ou desfavorável sobre o observável.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2022

Quem não ganhou nas urnas quer agora ganhar na aritmética

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Começa a não haver paciência para a leitura de certos artigos de opinião escritos após eleições, alguns que até chegam a ser ridículos. O objetivo destas opiniões é exclusivamente a desvalorização das perdas do partido ou partidos da simpatia dos articulistas, mesmo para os que, como eu, tentam fazer um distanciamento.


Após umas eleições para a maior parte dos partidos que ficam com assento no Parlamento, é sempre a mesma coisa. Há almas que buscam e rebuscam números que justifiquem que, apesar de terem perdido ganharam, e que garantam que os que ganharam afinal perderam. Isto é, tentam o milagre de fazer ganhar quem perdeu e de fazer perder quem ganhou.


Esta neste caso João Miguel Tavares no artigo de opinião no jornal Público que não foge à regra. Recorre à matemática ao estilo do torturem os números que eles confessam e recorre à lógica da evidência que, não sendo da batata, mostra que nada acrescenta ao resultado final para resolução da equação.


São os mesmos que criticam os partidos que, frente às câmaras de TV, dizem que afinal não perderam porque ganharam aqui e ali, mas que fazem agora o mesmo pegando em frases que podemos considerar como hiperbólicas ditas no calor da vitória assim como tudo quanto é dito e escrito em tempo de noite de eleições e durante o respetivo rescaldo.


Reparem nestes parágrafos do artigo de opinião que João Miguel Tavares publica no jornal Público onde pretende rescrever os resultados eleitorais, e contrariar o óbvio, ou, talvez pretender sugerir que  se deve mudar a “contabilidade” de modo que, no futuro, seja dada a vitória aos partidos com que mais simpatiza. Veja-se este parágrafo que ele escreve:


“Há três grandes enganos sobre a noite eleitoral que convém desmontar. Engano número 1: António Costa ganhou em toda a linha. Não ganhou. O PS perdeu muitos votos para a direita, nomeadamente para Rui Rio.”. Recorre a uma demonstração aritmética por conveniência: "Ajuda muito que seja verdade, por isso...". Acrescenta que a votação no PSD subiu 120 mil votos. A votação no PS subiu 338 mil. Juntos, o Bloco, o PCP e o PAN perderam 448 mil votos, apesar do aumento da participação eleitoral…”. “… o PS teve à sua disposição 436 mil votos perdidos pela esquerda, mais uma parte significativa do crescimento na população eleitoral (imaginemos 40%, 56 mil votos). Isso dá perto de meio milhão de votos a entrar no PS pela esquerda. Mas a subida foi só de 338 mil. Logo, António Costa teve pelo menos 160 mil votos a saírem pelo centro-direita…” E por aí fora. Não vale sequer a pena perder tempo com isto, mas o que podemos deduzir daqui é onde o PS foi buscar os votos. A pergunta que podemos deixar no ar é onde foram o IL e o CHEGA buscar votos? Terá sido ao CDS e ao PSD? João Miguel que responda.


Como se isto tivesse agora importância. O PSD conseguiu mais votos? Ainda bem que goze com isso. Que o PS teve menos votos, então consolem-se com os votos que dizem o PS ter perdido.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2021

A propósito de: Quem sou eu para comentar?

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Quem sou eu para comentar, bem ou mal, o que doutos professores catedráticos, comentadores, experimentados políticos, conceituados jornalistas, analistas políticos (que proliferam nos canais de televisão), sindicalistas, bastonários de ordens profissionais que fazem política pró- partidária, cientistas, e muitos outros. Uns sentados nos bancos do serviço público e outros que se movem no mundo das instituições privadas onde praticam elaborações de leis e defesas de alta corrupção, mas que escrevem e proferem opiniões sobre tudo, mesmo sobre o que não dominam, nos vários órgãos de comunicação social, da imprensa à televisão.  Lançam sabedoria que o público admira e consome. Sendo, conhecidos, sobretudo, pelos seus prognóstico e oráculos, obtidos por canais privilegiados e informais de amigos do governo ou de fora dele.  Conjetura-se que transacionem informações sobre processos de investigação criminal em segredo de justiça e, como troca, entra-se no jogo do dás-me isso e eu dou-te aquilo.


Quem não têm amigos e conhecidos em postos chave há intermediações a fazerem-lhes chegar às mãos informações privilegiadas para em seguida emitirem opiniões escritas ou verbalizadas de algo que desconhecem sobre pessoas públicas que têm uma reputação a defender. É extraordinário que ninguém lhes pergunte pelas provas do que afirmam com tanta certeza, que ninguém pergunte onde estão os factos que justificam as suspeitas, enfim, que ninguém pergunte nada, apenas suspeições. É o velho aforismo da mentira tantas vezes repetida que passa a ser verdade.


Parece-me vir a propósito a forma como vejo de fora a imprensa e a televisão a formatarem e a lançarem para o público a informação editada. Por muito que se diga o contrário os media e os jornalistas são atores políticos que muitas vezes seguem subtilmente agendas partidárias ou ideológicas consequentes das especificidades editoriais.


A relação entre os órgãos de comunicação social e a política acentuou-se consideravelmente de tal forma que é impossível conceber a política sem a existência de um ambiente jornalístico, notando-se da parte dos políticos, sobretudo, quando num governo, envidarem esforços para controlar as margens de incerteza resultantes de um relacionamento dinâmico com a opinião pública. Um caso paradigmático é a falta de estratégia para controle de danos, para alguns deixado ao acaso dos acontecimentos, como aconteceu com o ministro António Cabrita.


Atualmente a ferramenta mais eficaz para comunicar com o público, ou melhor com os eleitores, é a televisão que, no entanto, é mediada/conduzida por jornalistas. Em última análise, empresas mediáticas que se orientam por valores e princípios distintos daqueles que são defendidos por poderes democraticamente eleitos, passa a haver uma tensão latente entre os media e esse tal poder político, sobretudo quando este não é da “simpatia” de algumas redações. Isto passa-se com um qualquer candidato seja ele a líder partidário, a ministro ou a primeiro-ministro de um governo quando não é o preferencial por um determinado órgão de comunicação.


O desagrado com alguns políticos e práticas políticas, com determinado governo ou com um primeiro-ministro pode manifestar-se num ataque cerrado por parte do media. É frequente a insistência diária e sistemática sobre o mesmo assunto, nomeadamente das televisões, a incidência em aspetos negativos sobre uma qualquer figura pública da política, atuação ministerial, mau funcionamento de instituições e falhas em determinada área como forma de colocar em desfavor a opinião pública considerando tal atitude como a de escrutinar o poder.


Em democracia o escrutínio do exercício político dos governos e do poder político, são uma das mais importantes e legítimas funções do jornalismo, mas a liberdade de imprensa não é um privilégio dos jornalistas, mas sim uma condição da liberdade de expressão dos cidadãos visto estes só poderem captar um conjunto muito limitado de acontecimentos.


Os jornalistas não foram eleitos nem representam oficialmente ninguém, mas têm um contrato informal com os cidadãos numa espécie de procuração que lhes confere o dever de zelar pelo cumprimento dos valores democráticos e denunciar as suas falhas, através de uma informação isenta e verdadeira. Sublinho isenta porque considero ser óbvia a verdade e a isenção no jornalismo sério.


Por vezes alguma comunicação social atua tendenciosamente através da procura e da insistência em factos marginais para desacreditar na opinião pública um cidadão ou um poder político porque pertencem a uma dada área partidária e ideológica que pretendem atacar.


Um caso evidente e atual e que tomo como exemplo do que refiro são as falhas nos serviços de saúde públicos, tema sensível na opinião pública, que têm sido são diariamente salientados durante o atual Governo mesmo durante a contingência das vagas da crise pandémicas. Os meios de comunicação não devem, nem podem, tentar omitir os problemas que se passam no SNS que acho devem ser noticiados nos limites do bom senso e do não alarmismo. Alguns dos problemas no interior dos serviços do SNS que nos chegam como telespectadores fica-se com a perceção de que são por vezes organizados para criar instabilidade sobre o sistema e as ordens dão uma ajuda, mas quando o poder pertence a uma área ideológica da sua “preferência” os mesmos media manifestam mais complacência para com os problemas detetados e dados como notícias marginais.


Vejamos o caso mais paradigmático quando, durante o Governo PSD-CDS com Passos Coelho primeiro-ministro, a esquerda o pelos cortes no SNS. Durante esse período órgãos de comunicação afetos à direita que, pressurosamente, publicam notícias, comentários e opiniões favoráveis omitindo, na altura, os reais problemas.


Situemo-nos então no caso do SNS ao tempo do Governo de Passos Coelho. Quando em janeiro de 2015 Passos justificava que a qualidade do SNS não podia ser aferida pelas falhas registadas que coincidiram com o período de crise no país e reconhecia que a pressão e o escrutínio mediático criavam muita pressão.  Sobre o agravamento nas urgências hospitalares, Passos dizia na altura que "não se confunda o que se está a passar, se passa em Portugal" com o que "se tem passado noutros países" de "uma forma anormal, desafiando a capacidade instalada e a qualidade dos profissionais".


O que se verifica hoje apesar da pressão causada no SNS pela pandemia covid-19 é que sindicatos e ordens de médicos e enfermeiros que se juntam para fazer coro nos órgãos de comunicação que diariamente e com presteza por via do SNS pretendem atacar o Governo.


Também em janeiro de 2015 durante o Governo de Passos Coelho num debate com o primeiro-ministro na Assembleia da República a dirigente Catarina Martins do BE criticava Passos por não ter apresentado "uma única medida que o Governo tenha tomado para contrariar o descalabro na saúde", recebendo apupos da bancada do PSD. Acrescentava então: "Poupou-se despesa no SNS, mas não se pouparam vidas e isso não se pode desculpar a um Governo e que "Poupou-se despesa no SNS, mas não se pouparam vidas e isso não se pode desculpar a um Governo". Foi esta a intervenção da dirigente da extrema-esquerda durante o debate quinzenal no parlamento: "Quero saber de que cortes na despesa é que se orgulha, três dias antes de ter morrido uma pessoa sem assistência no Hospital de Santa Maria, a diretora das urgências disse que não tinha meios, nós temos pessoas a morrer nas urgências sem assistência".


Com o presente Governo socialista já demissionário e na antecipação da campanha contra o PS o  sinal dado pelos órgãos de comunicação as para as criticas ao SNS, que já tinham sido iniciadas pelas ordens dos médicos e sindicatos independentes, que também fazem política partidária, foram reforçadas em junho do corrente por Passos Coelho que, segundo a TSF, numa intervenção de mais de 50 minutos, acompanhada na primeira fila pelo candidato à Câmara de Lisboa Carlos Moedas, Passos Coelho apontou "um paradoxo" à esquerda no domínio da saúde em particular.


"Seria imperdoável que a esquerda, que diz ser que é uma espécie de 'alma mater' do SNS o esteja a desqualificar desta maneira e que seja a o que se chama de direita sempre a tentar salvar a situação e ver se lhe consegue dar sustentabilidade". Criticava o que o que chamou de "estatização" do SNS, que considera ter resultado na falta de atração dos profissionais e na degradação de equipamentos e serviços prestados.


Durante a apresentação do livro de um militante do PSD este afirmou que Passos nunca cortou no SNS. E janeiro de 2021 no jornal Observador o dito militante apresentou uma série de generalidades e medidas avulso como medidas tomadas por Passos Coelho para melhorar o SNS que iam da “manipulação inteligente do sistema informático” que “que pôs todos os médicos a receitaram por princípio ativo genérico”, e na poupança em exames e medicamentos sem interesse clínico efetivo, “alargou os horários dos médicos para 40 horas, aumentando assim a oferta de mais horas médicas e poupando em horas extra, que pode ler aqui, coisa que os médicos posteriormente contestaram. Recordo-me daquela altura em que os médicos de família com receio reduziam os medicamentos e os exames aos utentes ficando sem meios de diagnóstico eficazes como aconteceu comigo.


Recorde-se que em 2008, durante o Jornal Nacional da TVI, em campanha para a liderança do PSD Manuela Ferreira Leite e Passos Coelho, candidatos à liderança do PSD, declaravam-se a favor do fim do Serviço Nacional de Saúde (SNS) tendencialmente gratuito para todos, defendendo que sirva quem tem menos recursos e Passos reforçava então que "concordo com este princípio de acabar com a universalidade na área da saúde e não só". Isto era a proposta para um SNS para pobres e outro para ricos, isto é, o fim de um SNS universal.


Tenho observado ao longo dos anos que os órgãos de comunicação social serem mais condescendentes, muitas vezes por omissão, com as falhas e os erros dos governos de direita e ávidos predadores sempre ao ataque quando os governos são do Partido Socialista moldando de forma mais ou menos direta, a perceção que cada um de nós tem da realidade em que se insere. Deste modo, os jornalistas deixam de ser mediadores e transforma-se em contrapoder e em produtores de opinião pública e a perceção com que ficamos pode ser uma armadilha lixada. Ainda que os factos seguramente nos digam uma coisa, temos a capacidade de construir sólidos argumentos excecionais para sustentar o contrário, se para isso formos levados.


 

sábado, 6 de novembro de 2021

A propósito do quem sou eu para comentar e sobre o comentário ao comentário

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Quem sou eu para, bem ou mal, comentar o que doutos comentadores, professores catedráticos, experimentados políticos, advogados chamados para comentadores, conceituados jornalistas e muitos outros, muitos deles sentados nos bancos do serviço público que nada têm a perder.  A estes podemos juntar ainda os que se movem no mundo do privado que escrevem, opinam e publicam nos vários órgãos de comunicação social da imprensa à televisão.


Quando emito uma opinião, por muito fundamentada e acertada que seja, consegue ser, para frequentadores das redes sociais, menos credível do que as “fake news” que eles partilham e multiplicam num ápice.


Entendo que a análise política é diferente do comentário e da opinião política. Assim, uma afirmação sobre um facto pode ser comprovada como verdadeira ou falsa. Um comentário é algo que se diz ou escreve e que expressa uma opinião pessoal. Expressa sentimentos subjetivos sobre um facto ou factos, mas que não podem ser provados. As opiniões podem ser baseadas em factos e, muitas vezes pretendem aliciar outros deliberadamente para as posições de quem as emite. A análise política grosso modo aborda ou aprofunda a origem dos sistemas políticos e o modo como se desenvolvem e funcionam. Pesquisa e analisa governos, ideias políticas, políticas, e as suas tendências entre outros temas.


Quando o comentário e a opinião pretendem ser preditivos e substituir-se à análise política transformam-se duma espécie de oráculos o que é frequente verificar-se nos comentários e nos frente a frente televisivos.


Considerar que face a acontecimentos presentes comparativamente com o passado colocar várias hipóteses que poderão ser confirmadas, ou infirmadas, é uma coisa, outra é, dizer-se que vai acontecer isto ou aquilo com base em circunstâncias tão fluidas como são as da política. Vejamos o seguinte exemplo: quando se afirma que a “geringonça” chegou ao fim, ou que a destruição da esquerda está à vista, ou que a direita não ganhará as próximas eleições através de informações vagas e dados insuficientes é aproxima-se de oráculos.


O prof. Fernando Rosas, pessoa por quem tenho imensa consideração enquanto intelectual de esquerda, escreveu num artigo de opinião no jornal Público a propósito do “tempo dos oráculos da desgraça” que vê numa “campanha destinada a tentar fazer as forças de esquerda pagar a ousadia de, desta vez no seu conjunto, votarem contra o Orçamento de Estado (OE). À exceção dos seus próprios argumentos e predições tudo quanto se alvitrar sobre isto do que possa acontecer à esquerda são oráculos. Considera que “há uma vaga oracular que assenta num punhado de fábulas mistificadoras” que tenta justificar.


Sobre os oráculos em geral concordo com Fernando Rosas, porque há muitos comentários e opiniões que por vezes são mais oráculos do que pontos de vista. A tentativa de desconstrução das opiniões que ele toma como fábulas mistificadoras vão no sentido de purificar os falhanços do BE devido a radicalismo e sectarismo. Note-se que o prof. Fernando Rosas foi um dos fundadores do Bloco de Esquerda.


Fernando Rosas apresenta quatro pontos, a que chama fábulas mistificadoras, que, segundo ele fundamentam a sua tese.  Razões que, na minha opinião, fogem às verdadeiras questões. Foi criada uma crise sim porque se ousou “votar contra um OE por se considerar que ele não serve os interesses do país” e sim foi uma “irresponsabilidade” apesar de haver “outras soluções constitucionalmente possíveis.” Seria que qualquer uma dessas outras soluções, dado os pressupostos do PCP, e, sobretudo, os do BE evitariam uma crise num futuro próximo?  Creio que não porque estas forças quiseram impor o seu próprio orçamento ao Governo descaracterizando o inicial.


A segunda que Fernando Rosas aponta como mistificação é uma falácia baseada numa hipotética obsessão de António Costa por uma maioria absoluta e que, por isso, desejava uma crise. Este ponto é uma possibilidade sem fundamento. O desejar-se algo não significa que esse algo aconteça, aliás há sondagens que neste momento desmentem tal argumento.  A crise foi desencadeada pelo PCP e pelo BE porque foi evidente que de facto que “o Governo “cedeu tudo o que podia ceder” para salvar o OE. Sim, tendo em vista as boas contas públicas com redução possível do défice e redução da dívida. O BE não entende isso dos mercados e das dívidas dos países, ou melhor, entende, mas como é pela revolução permanente deveria cortar-se com o Mundo. Os restantes argumentos do segundo ponto são pontos de vista subjetivos e muito discutíveis.


O terceiro ponto ou mistificação passa, segundo diz Fernando Rosas, por ser uma dramatização sobre o que perdem os funcionários públicos ou os pensionistas pela não passagem do OE ao escrever que o “Governo em funções pode e deve, mesmo sem aprovação do OE, proceder aos aumentos e atualizações anunciados para cada um destes casos”. Então, assim sendo, os OE em alguns casos são uma espécie de jogo que se faz entre partidos e que, aprovados ou não, tudo pode continuar como se nada tivesse acontecido. Parece-me uma visão um pouco enviesada.


A quarta mistificação apresentada por Fernando Rosas é quando escreve que é um oráculo feito por alguns que “faz furor no comentário político dos oráculos, é de que a esquerda que hoje não se entende não será solução para uma maioria futura”. Acrescenta ainda que este é um “argumento surpreendente, pois é a direita que parece estar triplamente descredibilizada”, e “porque é ela que se esfarela em cruentas lutas intestinas para saber quem apresenta ao ato eleitoral e que “para governar, as direitas todas juntas precisam de maioria absoluta e parecem estar longe dessa possibilidade”.


Será assim? Verdade é que a direita anda descredibilizada e em lutas intestinas e por isso não terá maioria para governar. Estes argumentos também me parecem ser oráculos. E se, entretanto, a direita se conseguir reorganizar?


O argumento que faz depender dos problemas internos nos partidos de direita e das circunstâncias políticas atuais um possível entendimento à esquerda, parece-me estar a desvalorizar qualquer hipótese de a direita vir a ter maioria. Repare-se que no caso do PSD se Paulo Rangel ganhar a liderança assumiu acordos com a Iniciativa Liberal. Por outro lado, o CDS está a ser desfalcado de militantes que, na melhor das hipóteses, irão engrossar o IL e já não incluo o Chega. O imprevisível em política acontece.


Mantendo-se os partidos à esquerda do PS, PCP e BE, irredutíveis e na negação de cedências e de acerto de alguns consensos e compromissos é também provável que, mesmo que uma maioria de esquerda saia das próximas eleições, seja mais difícil manter-se um acordo semelhante ou melhor do que a passada “geringonça”. O contrário disto será um otimismo e uma profecia de Fernando Rosas. As dificuldades que existem na direita são um argumento aceitável, contudo, quem diz que após a sua organização maioria de direita não poderá vir a ser uma possibilidade, então, lá estará a esquerda toda tramada. E a responsabilidade será então de quem?