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sexta-feira, 15 de março de 2024

A propósito de porcos e de poder

Triunfo do porcos.png


O perigo dos resultados que nos levam de um extremo que é o de passar da liberdade, sistema que para alguns, tendencialmente adeptos das ditaduras dizem ser o pior dos mundos, para outro onde tudo é prometido através da perigosa manipulação das massas.


O livro Triunfo dos Porcos (ou Os Animais da Quinta) de George Orwell, publicado no Reino Unido em 17 de agosto de 1945, mostra-nos como somos enganados, como acreditamos e, consequentemente, como até nos esquecemos das nossas próprias dúvidas, porque achamos que não as temos.


Entretanto vemos a ânsia de poder e os limites a serem ultrapassados e apagados e já não é possível voltar atrás, pois as mentiras, para quem as escolhe, há muito que se tornaram verdades. No final, muitos se tornam naquilo que juraram destruir.


A revolução populista que inicialmente prometia justiça e dizia lutar contra a corrupção, os “porcos” que a denunciavam e diziam poder resolver os problemas da quinta mudam de rumo e acabam por se instalar. No final os “animais”, os “porcos” ficam assim sem saber se estão numa posição igual ou pior que a inicial. Isto por que, assim como acontece com os humanos, os dois porcos líderes que se aliaram mostram as suas verdadeiras cores quando estão em uma posição de poder. Enfrentam as mesmas tentações de reprimir ameaças ao seu governo, e fazem-no de forma cruel. Os dois “porcos líderes” voltam-se um contra o outro, e fica claro que eles não fizeram uma revolução e que a resistência foi inútil. Os animais da fazenda ficaram numa posição em que antes se encontravam, mas quase retornam a uma posição diminuída, pois agora também perderam a esperança numa mudança de situação que melhore as suas vidas.


O perigo das revoltas populares mesmo que iniciadas pelo poder do voto, podem levar-nos de um extremo ao outro e a passar da opressão para uma suposta liberdade onde tudo é permitido e vice-versa, mas também nos mostra o perigo da apatia das massas manipuladas.


A quinta onde se passa a trama do livro de Orwell mostra-nos como somos enganados, como acreditamos e, consequentemente, como toleramos individualmente o que uma sociedade aceita como um todo esquecendo as nossas próprias dúvidas porque já mais ninguém as tem.


A política de hoje reflete uma mentalidade semelhante: o que estamos a fazer não está a funcionar, e devemos encontrar uma maneira de mudar os nossos destinos, mudando os nossos fundamentos e a maneira como abordamos o processo democrático.


Isso não significa que devemos eliminar tudo, ou seguir aqueles que afirmam querer subverter o presente sem um caminho claro para o futuro. Os líderes que se procuram devem depender da sua capacidade de nos fornecer uma missão, e não aqueles em que julgamos acreditar e dizem que nos afastarão do caminho que estamos a pisar agora. É a verdadeira paixão que está por trás duma mudança bem-sucedida que é o que falta aos líderes como aqueles “porcos” patetas que assumiram o disfarce e que depois os mesmos que o construíram o perderam.  plano se perdeu.


há algo na importância da integridade da missão e na crença de quem assume a posição de poder e um aviso sobre o que pode acontecer quando os motivos não são puros, mas herdados ou forjados.


Como nota final para os mais jovens não devemos esquecer-nos que Hitler não conquistou o poder pela força, mas através de eleições. A Quinta dos Animais é, no fundo, uma fábula ambientada nos conceitos de tirania e revolução.

segunda-feira, 18 de setembro de 2023

As lições de Ressabiado Silva

Cavaco avatar3.png


O nome próprio “Ressabiado” não existe, é ficcionado. Tal nome próprio nunca terá sido posto a ninguém, a não ser como alcunha. Já viram como soaria se nos dirigíssemos a alguém com tal nome? «Bom dia, senhor Ressabiado!» ou «Como está senhor Ressabiado? Tem passado bem? Há muito tempo que não o via!».


Ressabiado não é um nome próprio para designar determinada pessoa, isto é, aquela e não outra. É um adjetivo cujo significado é o de alguém que está melindrado, agastado sendo também sinónimo de zangado, por isso mantenho a designação para a personagem. O nome Silva é um apelido, e há muitos!


A estória começa quando, certo dia, Ressabiado Silva, corroendo-se interiormente e clamando por vingança - para explicação deste último sentimento seria a necessário um psicanalista - com o coração pleno de raiva e ódio que tinha contra tudo e contra todos os que com ele não concordam, nem concordaram resolveu destilar publicamente tudo o que sentia contra o seu alvo predileto que, no passado, o confrontou e quase lhe impôs aceitar condições que o contrariavam.


Por vezes vêm-lhe à memória os bons tempos da leitura do conto de Lewis Carroll “Alice no País das Maravilhas”. Recorda-se, sobretudo, da personagem do Coelho (no conto é a Lebre de Março) que, para ele, é uma personagem que possuía a verdadeira sabedoria da governação, mesmo diante dos maiores obstáculos.


Podemos imaginar Alice como sendo o povo que acaba por fazer parte do "chá de desaniversário" sem entender nada que está a acontecer. O Coelho era o fiel companheiro da hora do chá que insiste em provocar e incomodar a convidada. O Ressabiado é uma espécie de personagem como o Chapeleiro Louco que se juntam ao Coelho (Lebre de Março) e convidam Alice, o povo, para beber chá, mas sem açúcar. O Coelho é um personagem de sonho que ainda alguns continuam a procurar que regresse ao país das maravilhas.


Ressabiado Silva não convivendo bem com a imagem que ficou dele enquanto desempenhou cargos políticos, sobretudo no meio dos seus, esforça-se por colorir essa imagem. Mas a História não se reescreve e o que fez mal por erro ou omissão, obscurece a sua postura de infalível e continua a pensar que "ainda está para nascer quem seja mais honesto que ele", mas a sua atitude de ressentimento, ficarão assim inalteráveis por muitos livros que escreva e muitos discursos que faça.


Mesmo assim, Ressabiado Silva insistiu em escrever e publicar um livro, mais um, este último sobre a arte de como fazer política e nela conviver. Ressabiado, revê-se num hábil ético-moralista da política, isto é, avalia severamente os outros de acordo com os seus próprios padrões morais, desdenhando outros que sejam discordantes ou que não sigam os seus princípios político-partidários. Egocentrista convenceu-se e interiorizou o que disse no passado quando salientava que para serem mais honestos do que eles tinham de nascer duas vezes.


Para o esquadrão dos seus seguidores não é um livro qualquer. Para eles estão lá contidos altos pensamentos filosóficos no âmbito da ética política. Talvez seja uma “Bíblia”, talvez seja até um catecismo, poderá até ser um manual de instruções de como fazer e não fazer política.


Há um livro muito conhecido cujo título é “A Arte da Guerra”, obra literária do pensador chinês Sun Tzu, escrito por volta do ano 500 a.C. A obra apresenta-se como um manual estratégico para conflitos armados, mas que pode ser extrapolado para várias aplicações noutras áreas da vida e do confronto político. Terá, por acaso, Ressabiado Silva perguntado a si mesmo: Se aquele tal Tzu escreveu sobre a guerra porque não escrevo eu sobre a política? Mas o livro que escreveu é ainda mais completo, é um livro que ficará na memória do “mundo português”, uma espécie de Bíblia, com um Velho e Novo Testamento aplicados à política, mas tendo como alvo o ataque a vários dos seus inimigos figadais e a uma ideologia em especial.


O livro de Ressabiado Silva tem como base a sua sabedoria infinita. São textos que, para ele, são princípios sagrados e contêm histórias, doutrinas, códigos e tradições que devem guiar os verdadeiros políticos.


Ressabiado Silva, assim como para os seus correligionários, sempre se considerou um símbolo do país onde vive e o maior panteão do partido a que aderiu, talvez por engano, ou talvez porque não teve coragem de aderir na altura da queda do antigo regime a outro com que mais se identificasse.  


Teve sempre uma visão austera, (ainda há quem aprecie), com um perfil que aponta para um autoritarismo que mal consegue disfarçar. Poderia ter sido líder de um partido de extrema-direita, embora sem os chavões populistas inerentes. Poderia até ser líder de um partido com amostras de salazarismo, sem Salazar, em convivência com uma democracia controlada a seu modo. Foi o forno onde ele se cozinhou. A sua postura comunicacional, quer a sua retórica, quer o que defende, fazem parte de um passado que pode não estar longe de poder regressar, não na sua forma primitiva, mas revista e atualizada.


Ressabiado Silva tem uma necessidade egocêntrica e narcisista de se mostrar o melhor, o sábio, o infalível. Faz oposição a um governo cujas políticas não sejam as que ele defende e que pretenderia impor ao país onde vive. Nestas circunstâncias, tem o impulso de sair da concha onde habita, para fazer campanhas de oposição a qualquer governo que não seja o por ele idealizado,  sem, no entanto, propor soluções. Dizem os seus correligionários que ele é o símbolo de um período de crescimento no país, mas e as pessoas terão de facto também crescido? Ressabiado Silva é um saudosista do poder, mas dum poder absoluto. Ressabiado Silva parece ter-se esquecido que pensar e decidir quando se está no poder, frente a problemas atuais, concretos e complexos não é o mesmo que escrever para dar lições quando se está por fora do poder e como se o tempo tivesse parado.


 

quarta-feira, 1 de dezembro de 2021

Os Cinco Sentidos

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Imagem RTP – Cinco sentidos


Encontrei as folhas que abaixo transcrevo no meio de uns livros da minha estante. São originais inéditos que ficaram por aqui desde a altura em que Maria Isabel Moura vinha de Espinho até Lisboa para finalizar as suas escritas. Com a devida autorização da autora resolvi divulgar e tornar públicas aquelas folhas.


São cinco folhas dedicadas aos cinco sentidos, um exercício de escrita naïf pleno de criatividade expressiva. São diálogos simples, mas com uma força que revela a complexidade dos sentidos que  nos leva à imaginação do dano que nos causaria a sua perda.


Seguem-se mais quatro folhas, uma espécie de continuidade dos cinco sentidos na perspetiva duma aplicação ritualizada.


Maria Isabel Moura nasceu na Covilhã, em 1955. Cresceu e interessou-se pela leitura na aldeia dos Trinta, no distrito da Guarda, em plena Serra da Estrela. Fez os seus estudos no Colégio do Ramalhão  instalado no antigo Palácio do Ramalhão, em Sintra,  com a sua serra e neblinas,  palácio onde reis e rainhas arrastaram saias, paixões, sofrimentos, loucuras e exílios. Colaborou com Jornal do Fundão e o seu trabalho sempre foi com Matos Costa, ilustrador constante das suas obras e companheiro de vida.


Em Espinho, junto ao mar, viveu anos e anos respirando a maresia e o bulício do verão que os turistas causavam ao sossego da cidade. Frequentava Lisboa onde, com avidez, procurava a intelectualidade dos amigos. Reside atualmente em Guimarães, cidade onde continua a sonhar.  



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Da mesma autora já foram publicados os seguintes títulos:



Vinte maneiras diferentes de contar a mesma história


Prémio Nacional de Conto Manuel da Fonseca 1998;



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Vou dar pontapés na Lua, contos infantis, Edições Afrontamento, 2004.


Plano Nacional de Leitura


Livro recomendado para o 3º ano de escolaridade, destinado a leitura autónoma.



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Todo o começo é involuntário, com prefácio de Urbano Tavares Rodrigues, Editorial Teorema, 2001;



 


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OS CINCO SENTIDOS


A VISÃO


- Que cor é aquela?


- Não me lembro do nome. Não é azul… é outra coisa...


- Espera! Espera aí! Papoilas são vermelhas, malmequeres brancos e amarelos… Violeta! Aquela cor é violeta. Como as flores.


- Já pensaste como seria o mundo se a gente não visse as cores?


- Não. Nunca…


- E...


 - E é como aquelas fotografias antigas, em que é tudo castanho, não dá para ver se é Verão ou Inverno…


- Já sei! É como uma fotografia que eu vi: o vestido era de Verão, mas atrás estava uma árvore de Natal!


- Pois é isso mesmo. Tem que se ter muita atenção, adivinhar tudo…


- Que trabalheira que isso dava. . .


- Sabes, há gente assim. Até tem um nome e tudo: daltónico.


- Dal... tó… ni... co…


- Pois, é como ser cego nas cores. É tudo igual!


- E isso pega-se? Pode-se apanhar?


- Acho que não… o meu tio é...


- E tu chegas-te ao pé dele, não tens medo?


- Conheço-o desde que. nasci... até me sentava no colo dele quando era pequenino... acho que não se pega.


-  E ele faz muitas asneiras? Quero dizer, come a tarte em vez do empadão, coisas assim?


- Não!... Mas agora que falas nisso... já sei porque é que ele de vez em quando, veste esquisito. Julguei que era porque gostava. Até tem uns sapatos vermelhos!


- Uns vermelhos?!! Eu sempre quis ter uns sapatos vermelhos, mas a mãe não me deixa... E se eu lhe dizer que tenho isso, achas que ela mos dá?


- Se calhar...


- Então diz outra vez a palavra! Para eu não me esquecer.


 


O TACTO


- Eu conheço esta voz...     


- Eu também. É a do Leão.    


- O senhor Luís prendeu-o outra vez... porque será que ele


faz isso? ele é um bom cão. É bom no abraço…


- Não sei...    


- E meter as mãos com os dedos todos «abertos no pelo do


pescoço… é tão macio!   


- E esfregar a cara na parte detrás das orelhas!  


- Ah, isso não sei, nunca fiz.       


- É como quando se toca no musgo, devagarinho, com a ponta


dos dedos. Ou em veludo!     


- Eu gosto de tocar em cetim. É… é…doce! 


- A tia Clara tem uma blusa de cetim…, mas os beijos dela


picam!              


- E o tio Jaime arranha. Arranha como as árvores. 


- Porque será?      


- Acho que é porque tem muitos ossos. Acho que tem mais ossos 


que o resto das pessoas…     


- Se calhar é isso…  às vezes até tenho vontade de trepar 


por ele acima, como fazemos no castanheiro.  


- Sabes, outro dia o castanheiro quase que conseguiu abraçar-me de volta!


- E como é que ele fez isso?     


- Com a ajuda do vento. Esteve quase, quase. 


- Deve ser bom ser—se abraçado por uma árvore…   


- Pois, mas temos de lhe pedir agora, depois já não dá.   


- Porque será que quando se cresce essas coisas já não


acontecem?   acho que não se tem tempo para esperar.  


- Não sei... acho que não se tem tempo para esperar.       


 


A   AUDIÇÃO


- Que é isso?


- Isso o quê? 


- O que estás a cantar. 


- É a cantiga daquele pássaro. O preto, de bico amarelo,


aquele ali, naquele ramo.


- Não é nada! Isso é uma música do rádio!


- Não é não! Não é não. é a do passarinho.


- E os pássaros ouvem rádio?


- Não sei..., mas sei que se fosse eu a fazer as músicas do rádio as fazia assim.  


- Assim como? 


- Como nós estamos. Estendia-me no chão e ficava a ouvir.


- A ouvir os passarinhos? 


- Tudo! A ouvir o mundo. 


- Engraçado. . . aquele pardal acho que está a cantar com o teu


pássaro. 


- E o grilo com o vento. 


- E o vento com as árvores.


- Só falta pôr as palavras…, mas eu não tenho as palavras,


só a música. 


- E temos de pôr palavras redondas como o pássaro de bico


amarela, pontiagudas como o grilo, suaves como o vento...


- E tu, sabes essas palavras?


- Eu não..., mas o meu tio é poeta, ele sabe!


- E achas que ele se quer vir aqui deitar connosco?


 


O OLFACTO


  - Hummm!! Que cheirinho a violetas! Vamos procurá-las?


-  Porquê? Estamos tao bem assim…   


- Porque gosto de violetas. Quero fazer um raminho para levar para casa.


- Está bem…      


- Onde vais? O cheiro vem dali...    


- Desculpa... eu não sinto o cheiro.   


- Estás constipado?      


- Não… eu   sinto o cheiro de nada... não sei o que é isso.     


- Nada de nada?        


- Nada...         


- E quando o almoço é frango assado?   


- Já disse que não!      


 - Não te zangues. Mas que engraçado, é como se tu fosses cego do nariz!     


- Não é engraçado, não acho que seja!  


- Olha: eu vou-te ensinar os cheiros. As flores são doces, como gelados. o vinagre pica... frango assado é.… não, não sei explicar!     


- Tenta, tenta outra vez! Quero entender!  


- É muito difícil... olha, para veres como é difícil, vamos fingir que eu sou cega e explica-me as cores!


- Fácil: o vermelho é quente. O azul é suave, mesmo o azul-escuro da noite é…        


- Não sei o que é a noite.      


— Esqueci-me.… e então como é que eu explico?  


- Não sei... é muito difícil...    


- Olha, as violetas!      


- Já sei!  Vou andar com algodão no nariz para ele ficar cego também… só um bocadinho, para ver como é….          


            


O PALADAR


- Hiii!!!  Que chocolate grande tu tens aí no bolso!


- Ah, pois é! Já me tinha esquecido. Queres?


- Todo?!! Todo, todo, todo, todinho para mim?!! E tu? - Eu não quero. Eu não gosto de chocolate.


- Não gosto de chocolate, nem de bolos, nem de gelados... não gosto de coisas doces.


- Nem de gelados?


- Não acredito!  Toda a gente gosta de gelados!   


- Só de gelado de limão.


- Puahh!! Que porcaria. Ê azedo! 


- É nada! Faz piquinhos na língua como os pickles.


- E tu gostas de pickles?!  Que horror!  


- De pickles,    de empadão de carne, de presunto, de croquetes,  


de sardinhas, de caracóis. . .   


- De caracóis?! E as pessoas comem isso?! Puahhh!! Que porcaria! castanha de chocolate! Até ao nariz!


-É… e tu estás toda castanha de chocolate! Até ao nariz! Do nariz ao umbigo!


- Minha avó diz que gostos não se discutem… nunca tinha entendido... E gostas mesmo de caracóis? 


- E tu, de chocolate?   


- Ah, ah, ah!           


- Ah, ah, ah!           


- Olha, aquela nuvem parece um gelado, um gelado de morango    coberto de natas.   


- Que nada! É um empadão de carne.   


- Um bolo de chocolate! 


- Um frango estornicado!


- Corre, vamos para casa que vai chover!


╌────═❁═────╌


AMORAS


- Trouxeste o teu saco?      


- Não... esqueci-me…    


- E agora? Como vamos fazer?     


- Não sei...  tens alguma ideia?     


- Eu não…           


- Podemos metê-las no chapéu!    


- E depois? quando chegarmos a casa como vai ser?


- Posso dizer que o perdi…   


- Não podes não, as mães sabem sempre que mentimos.   


- Então empresta-me o teu saco!      


- Não posso… também me esqueci    .  


- Ah, ah, ah!!          


- De que te ris?        


- Como é que tu gostas de comer amoras?  


- Pretas, pretas.  Maduras!      


- Não é isso... onde é que tu gostas de comer amoras? 


- Aqui.  Logo que as apanho.     


- Eu também... em casa parece que não sabem tao bem... parece que deixam de ser doces...


- Nem são tao sumarentas... acho que -dei iam de- ter o sol dentro...


- É por isso que me estou a rir. Acho, que sem querer, nos esquecemos de propósito...


 


AS CORES


 


 


- De todas as cores do mundo, de qual gostas mais?


- Não sei...  nunca pensei nisso...


- Então pensa.


- Agora, agorinha mesmo, é do azul... só que não sei de qual azul... Uma vez pus-me a contar quantos azuis há no céu...


- E?


- Perdi a conta. Quanto mais se olha mais azuis há.   


- Engraçado, é mesmo... acho que há infindões! É como os verdes, também nunca mais acabam.


- E tu? De que cor gostas mais?      


- Do vermelho! Tenho uma camisola vermelha de que gosto muito, mas é muito quente, só se pode usar no Inverno... 


- Eu tinha uma amarela, mas já não me serve... e a mãe não me deixa usá-la...


- Porque será que as mães nunca entendem nada? A mim nunca me deixa vestir como eu quero, tem que ser como ela gosta.   


- Porquê?


- Diz que eu não sei nada, diz que me visto a parecer um arco-íris.


- E ela não gosta do arco-íris?      


- Não sei, nunca lhe perguntei. Mas acho que não. 


- Ah, eu se pudesse, se a mãe deixasse, tinha sempre um comigo!         


- Eu também. Trazia um vestido, pintava um nas paredes do quarto...       


- Forrava os livros da escola e dava um à avó, ela veste sempre com cores tão tristes!        


 


ARCO-IRIS


 


- Olha! Olha além no céu! Um arco-íris!


- Onde? Onde? Ah! Que bonito!


- Dizem que no fim do arco-íris há um pote cheio de ouro. - Ouro, ouro, a sério? Como o dos fios?


- Sim. Mas está todo em moedas, que há um pote cheio de moedas de ouro.


- Era engraçado se nós o encontrássemos… O que é que tu fazias com um pote cheio de ouro?


- Não sei... nunca pensei nisso... acho que comprava montes e montes de chocolates.


- Gelados!


- Rebuçados!


- E podemos ir á loja com moedas de ouro?


- Não sei... acho que não. Primeiro tínhamos de ir ao Banco trocar o ouro por dinheiro de ir às compras.


- E nós, podemos ir ao Banco fazer isso?


- Eu punha um bigode para parecer crescido!


- E um chapéu. É melhor pôr também um chapéu.


- E um sobretudo comprido, para parecermos mais altos.


- E uns óculos de ver… e se o balcão for muito alto, como é que vamos fazer?


- Levamos um banquinho escondido debaixo do sobretudo.


- E se fossemos ver se é verdade? Vamos procurar o fim do arco-íris?


- Já não vale a pena... está a desaparecer... uma vez, faz muito tempo, vi um arco-íris a sair de uma poça de água...


- E nada, não tinha nada na poça, só lama...


- Ah! De certeza que era o começo do arco-íris, não era o fim!


 


DANÇA


- Sabes dançar?                                     


- Não, acho que não.                                


- Eu gostaria de saber. Gostava muito de saber dançar como


vimos ontem na televisão...                        


- Como o Ballet?                                    


- Sim, gostaria muito de saber dançar Ballet.       


- Eu também, às vezes acho que sim, mas depois vejo os


pássaros a dançar no céu…                          


- E as árvores? Já viste como elas bailam com o vento, em dias de tempestade?!


- E os cisnes, os cisnes no lago do senhor Antero.   


- O mar e a areia...                                


- O vento e as espigas de trigo.                    


- O rio com as pedras! Quando vejo o rio a dançar sei que nunca conseguirei...


- Mas eu gostava de tentar, eu queria aprender.    


- Achas que se aprendermos a nadar que depois é mais fácil dançar?                                              


- Talvez...   dançar na água é capaz de ser mais fácil!  


- Ou aprendermos a voar. No ar parece tão fácil!    


- Ou então...                                       


- Então o quê?                                      


- Fincarmos os pés bem fundo no chão e pedirmos ao vento para nos ensinar a bailar.                                


 

sexta-feira, 14 de abril de 2017

A leitura do momento

 


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Regressei do Portugal da Beira Interior para fugir das festas da época pascal na chamada província.  A Páscoa não é para mim. Fora das grande cidades vive-se intensamente esta época, mais do que o Natal que é o símbolo do nascimento. Na época da Páscoa são demasiados os rituais religiosos que estão ligados ao renascer da natureza com a chegada da primavera. Esta sim, é a ressurreição da vida que se faz notar por todo o lado de norte a sul se Portugal que o citadino não capta no meio da confusão do transito e das compras para a Páscoa.


É também um boa altura para iniciar leituras assim selecionei um livro cujo lançamento aconteceu este mês. História e jornalismo podem complementar-se quando este nos trás para o presente factos dum passado mais ou menos recente. São, todavia, relatos diferentes da história. O jornalismo recupera testemunhos e documentos, ajuda a recuperar a memória do povo, que tem tendência para o esquecimento, dá uma visão aos mais jovens do passado que não experienciaram. O livro “Quando Portugal Ardeu” de Miguel Carvalho que agora comecei a ler foi com base em testemunhos e documentos inéditos e não é de história é jornalismo como diz o autor.

terça-feira, 4 de abril de 2017

Estórias sobre estórias e romances

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Terminei hoje o último livro que tinha ainda para ler “A vida Secreta dos Livros”. É um livro que parece ser de ficção, mas que foi escrito com base em pesquisas efetuadas pelo autor, de seu nome Santiago Posteguillo que recebeu já vários galardões.


O livro tem vários capítulos cada um deles dedicado a um autor ou a uma obra das mais conhecidas ao longo do tempo, desde o Hamlet até à autora de Harry Potter.


Livro agradável, de fácil leitura, construído sob a forma de narrativas independentes que respondem a perguntas como, por exemplo, quem escreveu de facto as obras de Shakespeare, o que está por detrás de génese das aventuras de Harry Potter e o êxito da sua autora, entre muitas outras. É um livro que consegue retratar-nos sem falsas narrativas o que está por detrás dos livros da literatura universal. São enigmas e segredos sobre personagens e obras da como escreveu o jornal La Vanguardia. É, portanto, um livro divertido que a mesmo tempo é um contributo para nossa cultura literária.


 


Manuel Rodrigues | Abril 3, 2017 8:59

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

A política nacional com manual de instruções

Portugal Manual de Instruções, de Ricardo Costa,  é um livro de fácil leitura, bem escrito ao bom  estilo jornalístico que apresenta uma visão interpretativa séria, com algum esforço de isenção, mas, por vezes, pretensiosamente independente.


A clareza da linguagem oferece-nos um conjunto de factos relativos ao passado recente e ao presente da política portuguesa mesmo para aqueles que não gostam da complexidade da análise e do debate político feita apenas para alguns.


 



 


Apesar de se intitular um liberal, as suas convicções ideológicas e políticas não obstaram críticas à atual governação que confronta com a realidade portuguesa que se vive.


No essencial  não é um livro polémico mas, no que se refere aos passados governos de José Sócrates, desculpabiliza de algum modo a estratégia seguida pelo PSD para a tomada do poder, ao afirmar que o PEC IV ( e outros que se seguiriam, digo eu) não   iria resolver qualquer problema inclusive a vinda da troika. Poderia ter sido uma espécie de programa cautelar sem a austeridade violenta de um programa de ajustamento que Passos Coelho tanto ambicionava. Não se pode afirmar que o PEC IV não resultaria sem se ter em conta o estilo do antigo primeiro-ministro e as suas relações com o exterior no sentido de abertura de uma solução. Houve de facto um ataque ao poder desencadeado pelo atual primeiro-ministro e pelo PSD, apoiados pela esquerda radical, e isso pode ter sido o início da explosiva crise social e económica que estamos a viver.


As PPP's são um tema que diz servirem apenas "como armas de arremesso político" em vez de ser analisadas como "exemplos de erros políticos". São todos culpados, uns mais do que outros e há PPP's boas e outras más. Por seu lado, Cavaco Silva e o caso BPN e SLN são tratados com luvas brancas.


Ricardo Costa tece criticas sem exceção aos anteriores e atual governo, apontando no sentido de que as reformas estruturais tinham que ser tomadas e deverão continuar a ser tomadas, não esclarecendo como e quais, se bem que não seja esse o objetivo do livro. Não tece acusações é certo, mas vai apontando responsabilidades mais dirigidas ao passado, manifestando opinião favorável ao presente porque, para ele, nada vai ficar como dantes.


Para o autor a esquerda como alternativa ao poder não existe porque não se une, pelo que resta apenas a viabilidade  dum pacto entre PSD e PS. Nas entrelinhas podemos ler a forma como ele qualifica de AD a coligação PSD-CDS, como já houve no passado, e uma potencial aliança PS-PSD de bloco central, que também já houve no passado. Afinal parece que há sempre situações em que se pode voltar atrás!


Quem leia este livro não espere que tudo lhe irá agradar, quer sejam de direita quer sejam de esquerda.  Há que saber fazer as leituras convenientes sem quaisquer sectarismos político e ou partidário. Do meu ponto de vista não há independência absoluta no jornalismo e na interpretação dos factos políticos. Quem escreve sobre política acaba sempre por se denunciar mesmo que faça um esforço para ficar partidariamente equidistante. O tempo do todos e apenas a "Bem da Nação" já lá vai, para alguns com grande desgosto.


De qualquer modo é um livro com atualidade política cuja leitura não se deve fazer esperar.

quarta-feira, 23 de maio de 2012

A história não acaba assim, de Miguel Sousa Tavares


 


Nem tudo é mau neste Portugal triste e desiludido com tudo o que se vê, ouve e lê nos órgãos de comunicação social que, presumivelmente, Miguel Relvas pretende pressionar e chantagear como recentemente tem vindo a público, à boa semelhança de José Sócrates como na altura se dizia. É no domínio da leitura que acaba de sair um livro que é uma lufada de ar fresco no comentário político independente e sem papas na língua. “A historia não acaba assim” de Miguel Sousa Tavares, edição do Clube de Autor, é uma série de textos inteligentes, não comprometidos com nada nem com ninguém, com uma escrita racional e lúcida.


Alguns dos textos da obra não agradarão a todos, como alguns também a mim não me agradaram mais por uma questão de interpretação dos factos do que pela opinião em si mesma. Talvez não agrade a muitos porque, apesar de independentes, alguns textos poderão ir contra opções ideológicas adquiridas que, muitas vezes, funcionam mais como princípios clubísticos.  


Quer se goste ou não é uma leitura obrigatória a fazer porque nem só aquilo de que gostamos é com certeza o mais certo. Quando gostamos aceitamos quase sempre tudo o que lemos, vemos e ouvimos. É necessário conhecer outros pontos de vista mesmo quando não gostamos ou deles discordamos.

A história não acaba assim, de Miguel Sousa Tavares


 


Nem tudo é mau neste Portugal triste e desiludido com tudo o que se vê, ouve e lê nos órgãos de comunicação social que, presumivelmente, Miguel Relvas pretende pressionar e chantagear como recentemente tem vindo a público, à boa semelhança de José Sócrates como na altura se dizia. É no domínio da leitura que acaba de sair um livro que é uma lufada de ar fresco no comentário político independente e sem papas na língua. “A historia não acaba assim” de Miguel Sousa Tavares, edição do Clube de Autor, é uma série de textos inteligentes, não comprometidos com nada nem com ninguém, com uma escrita racional e lúcida.


Alguns dos textos da obra não agradarão a todos, como alguns também a mim não me agradaram mais por uma questão de interpretação dos factos do que pela opinião em si mesma. Talvez não agrade a muitos porque, apesar de independentes, alguns textos poderão ir contra opções ideológicas adquiridas que, muitas vezes, funcionam mais como princípios clubísticos.  


Quer se goste ou não é uma leitura obrigatória a fazer porque nem só aquilo de que gostamos é com certeza o mais certo. Quando gostamos aceitamos quase sempre tudo o que lemos, vemos e ouvimos. É necessário conhecer outros pontos de vista mesmo quando não gostamos ou deles discordamos.