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segunda-feira, 22 de abril de 2024

O que mudou com a Revolução dos Cravos

Um soldado com um cravo em seu fuzil em primeiro plano em meio a multidões na rua abaixo dele


Fotografia do Jornal The Guardian


O que mudou com a Revolução dos Cravos


Uma simples homenagem


Cinquenta anos atrás, uma notável cadeia de eventos desencadeada pela transmissão de uma série de canções levou à queda de uma ditadura


Nada melhor do que comparar o antes e o depois do 25 de Abril, a Revolução do Cravos



Muitas coisas mudaram  As que se indicam a  são apenas algumas das mudanças mais importantes
ANTES DEPOIS
Só havia um partido político, a Acção Nacional Popular, que apoiava o governo Passou a haver muitos partidos políticos
Não havia eleições livres Cada um pode votar no partido que quiser
As mulheres só podiam votar se tivessem concluído o curso secundário Toda a gente pode votar
As mulheres não podiam viajar sozinhas para fora do País sem autorização escrita do marido Mulheres e homens têm os mesmos direitos
Havia uma polícia política, com milhares de informadores em toda a parte, que escutava praticamente todas as conversas. As pessoas que tinham opiniões contrárias ao Governo eram presas Não existe polícia política e passou a haver liberdade de opinião
As pessoas casadas pela Igreja não se podiam divorciar O divórcio estendeu-se a toda a população
Cada patrão pagava o que queria aos seus trabalhadores Passou a haver um salário mínimo nacional

As notícias só podiam sair nos jornais depois de terem sido lidas e autorizadas pelos Serviços de Censura
A Imprensa é livre
Os jovens passavam quatro anos da tropa, dois dos quais na guerra

Acabou a Guerra Colonial. Uns anos mais tarde, o serviço militar deixou mesmo de ser obrigatório

Para saber mais sobre a Revolução do 25 de Abril pode 25 de Abril.


 


segunda-feira, 24 de abril de 2023

Um artigo de Clara Ferreira Alves: Tão felizes que nós eramos

Clara Ferreira Alves.png


Clara Ferreira Alves escreveu este artigo em março de 2017 no semanário Expresso. Será que atualmente ainda pensa assim?


Tão felizes que nós eramos


Clara Ferreira Alves


In Semanário Expresso


18 MARÇO 2017


"Anda por aí gente com saudades da velha portugalidade. Saudades do nacionalismo, da fronteira, da ditadura, da guerra, da PIDE, de Caxias e do Tarrafal, das cheias do Tejo e do Douro, da tuberculose infantil, das mulheres mortas no parto, dos soldados com madrinhas de guerra, da guerra com padrinhos políticos, dos caramelos espanhóis, do telefone e da televisão como privilégio, do serviço militar obrigatório, do queres fiado toma, dos denunciantes e informadores e, claro, dessa relíquia estimada que é um aparelho de segurança.


Eu não ponho flores neste cemitério.


Nesse Portugal toda a gente era pobre com exceção de uma ínfima parte da população, os ricos. No meio havia meia dúzia de burgueses esclarecidos, exilados ou educados no estrangeiro, alguns com apelidos que os protegiam, e havia uma classe indistinta constituída por remediados. Uma pequena burguesia sem poder aquisitivo nem filiação ideológica a rasar o que hoje chamamos linha de pobreza. Neste filme a preto e branco, pintado de cinzento para dar cor, podia observar-se o mundo português continental a partir de uma rua. O resto do mundo não existia, estávamos orgulhosamente sós. Numa rua de cidade havia uma mercearia e uma taberna. Às vezes, uma carvoaria ou uma capelista. A mercearia vendia açúcar e farinha fiados. E o bacalhau. Os clientes pagavam os géneros a prestações e quando recebiam o ordenado. Bifes, peixe fino e fruta eram um luxo.


A fruta vinha da província, onde camponeses de pouca terra praticavam uma agricultura de subsistência e matavam um porco uma vez por ano. Batatas, peras, maçãs, figos na estação, uvas na vindima, ameixas e de vez em quando uns preciosos pêssegos.


As frutas tropicais só existiam nas mercearias de luxo da Baixa. O ananás vinha dos Açores no Natal e era partido em fatias fininhas, para render e encharcado em açúcar e vinho do Porto para render mais. Como não havia educação alimentar e a maioria do povo era analfabeta ou semianalfabeta, comia-se açúcar por tudo e por nada e, nas aldeias, para sossegar as crianças que choravam, dava-se uma chucha embebida em açúcar e vinho. A criança crescia com uma bola de trapos por brinquedo, e com dentes cariados e meia anã por falta de proteínas e de vitaminas. Tinha grande probabilidade de morrer na infância, de uma doença sem vacina ou de um acidente por ignorância e falta de vigilância, como beber lixívia. As mães contavam os filhos vivos e os mortos era normal. Tive dez e morreram-me cinco. A altura média do homem lusitano andava pelo metro e sessenta nos dias bons. Havia raquitismo e poliomielite e o povo morria cedo e sem assistência médica. Na aldeia, um João Semana fazia o favor de ver os doentes pobres sem cobrar, por bom coração.


Amortalhado a negro, o povo era bruto e brutal.


Os homens embebedavam-se com facilidade e batiam nas mulheres, as mulheres não tinham direitos e vingavam-se com crimes que apareciam nos jornais com o título ‘Mulher Mata Marido com Veneno de Ratos’. A violação era comum, dentro e fora do casamento, o patrão tinha direito de pernada, e no campo, tão idealizado, pais e tios ou irmãos mais velhos violavam as filhas, sobrinhas e irmãs. Era assim como um direito constitucional. Havia filhos bastardos com pais anónimos e mães abandonadas que se convertiam em putas. As filhas excedentárias eram mandadas servir nas cidades. Os filhos estudiosos eram mandados para o seminário. Este sistema de escravatura implicava o apartheid. Os criados nunca dirigiam a palavra aos senhores e viviam pelas traseiras.


O trabalho infantil era quase obrigatório porque não havia escolaridade obrigatória. As mulheres não frequentavam a universidade e eram entregues pelos pais aos novos proprietários, os maridos. Não podiam ter passaporte nem sair do país sem autorização do homem. A grande viagem do mancebo era para África, nos paquetes da guerra colonial. Aí combatiam por um império desconhecido. A grande viagem da família remediada ao estrangeiro era a Badajoz, a comprar caramelos e castanholas.


A fronteira demorava horas a ser cruzada, era preciso desdobrar um milhão de autorizações, era-se maltratado pelos guardas e o suborno era prática comum.


De vez em quando, um grande carro passava, de um potentado veloz que não parecia sujeitar se à burocracia do regime que instituíra uma teoria da exceção para os seus acólitos. O suborno e a cunha dominavam o mercado laborai, onde não vigorava a concorrência e onde o corporativismo e o capitalismo rentista imperavam. Salazar dispensava favores a quem o servia. Não havia liberdade de expressão e o lápis da censura aplicava-se a riscar escritores, jornalistas, artistas e afins. Os devaneios políticos eram punidos com perseguição e prisão. Havia presos políticos, exilados e clandestinos. O serviço militar era obrigatório para todos os rapazes e se saíssem de Portugal depois dos quinze anos aqui teriam de voltar para apanhar o barco da soldadesca. A fé era a única coisa que o povo tinha e se lhe tirassem a religião tinha nada. Deus era a esperança numa vida melhor. Depois da morte, evidentemente. "


Clara Ferreira Alves.

O 25 de Abril e os opositores da democracia. Eles voltaram e andam por aí!

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Os opositores do 25 de Abril e da democracia que restam dos velhos tempos, e gente nova, disfarçada, andam por aí!


O 25 de ABRIL e os CONTRA


Em que área do espectro político/partidário se posicinam hoje esses contra?


A Tempestade Perfeita


de Daniela Santiago


O livro da Daniela Santigo "explora os contornos sociais e políticos protagonizados por André Ventura e Santiago Abascal que sairam da sombra de partidos de direita moderada"


Livro de Daniela Sampaio.png


e ainda


Quando Portugal Ardeu


de Miguel de Carvalho


 


Um livro a ler, um documento essencial.


Compreender as Histórias e a violência do pós-25 de ABRIL


O ELP, MDLP, IGREJA, EX-agentes da PIDE e da Legião são alguns dos protagonistas da contra-revolução de Abril


As extrema-direita e a extrema-esquerda em choque


Um livro de consulta obrigatório para os jovens que vivem hoje em liberdade e  em democracia.


Quando Portugal Ardeu2.png


 

sábado, 24 de abril de 2021

Panfletos da Revolução do 25 de Abril de 1974

No 25 de Abril, a celebração da liberdade passa por estas 25 sugestões | 25  de Abril | PÚBLICO


Imagem do jornal Público


Alguns panfletos da Revolução do 25 de Abril de 1974


 


Comemorando o 25 de Abril de 1974 aqui ficam alguns panfletos que circularam durante este período e que


 Podem ser consultados aqui

quarta-feira, 27 de janeiro de 2021

Educação ou má educação. Eis a questão!

Escola e ma-educação.png


A leitura de um artigo de opinião que Henrique Raposo escreveu para o semanário Expresso sobre má educação levou-me a refletir um pouco e a esboçar a minha sobre o tema que o autor aborda. Antes, porém, devo dizer que concordo com a maior parte do que o autor escreveu, mas situemo-nos em primeiro lugar nos conceitos de educação que, neste contexto, entendo deverem ser esclarecidos.


Entende-se por educação o conjunto dos princípios, valores e normas de conduta socialmente transmitidas que estruturam a personalidade de um sujeito. Não confundamos com outro conceito de educação que é o processo educativo formal sob a forma de escolarização, isto é, de instrução em ambientes educativos especializados onde as pessoas passam alguns anos da sua vida.


Há quem pense que a má ou a boa educação terá a ver com a classe social...


Educação ou má educação.pdf



onde cada um foi ou está a ser educado, mas a ideia de boa educação é transversal às diferentes classes sociais. Não é a pobreza ou a riqueza que determinam a boa ou a má educação em sentido não formal. Como iremos ver adiante há variáveis que influenciam o sentido da má e da boa educação.


A indisciplina pode traduzir-se em má educação. Mas o que devemos entender por indisciplina? A indisciplina depende do ponto de vista e dos contextos sob a forma em que ela se manifesta, mas de maneira geral é a transgressão de dois tipos de regras. A primeira são as morais, construídas socialmente com base em normas que regulam o universo da relação com os outros numa sociedade. O segundo tipo são as chamadas regras convencionais, geralmente aceites, definidas por um grupo restrito ou mais vasto com objetivos específicos. Entendo, assim, que ser disciplinado é comportar-se seguindo as regras sociais e morais, para alcançar algum objetivo e/ou resultado. Quando a má educação ultrapassa certos limites pende para a indisciplina.


Para os mais jovens a boa educação parece ter passado a ser algo que pertence ao passado qualquer coisa a que ainda se agarram os “cotas” - designação dada por adolescentes a pessoas mais velhas, e os “caretas” – alguém com grande apego aos padrões tradicionais.


A reboque de um alegado conflito ou desacordo geracional e de uma alegada autonomização em relação a normas convencionais começou a desenvolver-se um processo de degeneração da própria linguagem popular transformando-a numa espécie de linguajar e numa forma de falar livre ligada a uma classe e a alguns grupos urbanos.


Quando ouvimos reparos como “não sabemos o que eles andam a fazer na escola” ou “os professores é que têm a culpa do estado a que a isto chegou” está a confundir-se educação em termos de aprendizagem formal com os valores e com as condutas sociais que, de certo modo, são geralmente transmitidos em ambiente familiar ou em grupos de proximidade.


No referido artigo Henrique Raposo afirma que “hoje em dia, é quase impossível estar com as pessoas da minha infância sem ouvir a metralha do asneiredo”. E acrescenta, que “quando exijo tino, dizem-me assim: “Lá estás tu com a mania que és doutor.” A minha resposta é sempre a mesma: “Se eu dissesse um palavrão ao pé da avó, da tia ou da minha mãe, levava na hora uma estalada.” Haverá que perguntar quem não concorda com isto? Maioritariamente todos, digo eu!


Henrique Raposo terá hoje aproximadamente 41 anos, nasceu seis anos após o 25 de Abril de 1974, já no pós-revolução. Os seus pais terão vivido a maior parte da sua vida durante o regime da ditadura de Salazar e Caetano. Não admira, portanto, que a “estalada” viesse a propósito e bem aplicada. Fazia parte dos “modelos educativos” então em vigor inclusivamente no ensino formal, sobretudo na instrução primária, onde a palmatória ou a “menina de cinco olhos” estava sempre de prevenção.


Recordo-me bem dos métodos de aprendizagem desses tempos. Estávamos nos anos 50 quando os meus pais tiveram de me retirar da escola onde frequentava a instrução primária e em que o mau comportamento, a falta de trabalhos de casa e os erros cometidos, normais a qualquer aprendizagem, eram compensados pelo castigo corporal com a tal palmatória. Este tipo de violência cometido pelos professores sobre os alunos era frequente, mesmo nas escolas públicas e privadas, com a condescendência do ministério da tutela. Foi de tal forma que me retiraram daquela escola para outra cujos métodos eram o oposto. Lá consegui tirar a quarta classe e a antiga admissão ao liceu e matriculam-me a seguir no conhecido Colégio São João de Brito, na altura gerido na íntegra pela Companhia de Jesus em que os maus comportamentos e as irreverências desajustadas conduziam à abertura das palmas das mãos punidas pelo “prefeito jesuíta” em número de palmatoadas consoante a gravidade da má-criação ou ato praticado.   


Eram outros tempos, outras épocas, outros métodos pedagógicos que a Revolução de Abril veio eliminar substituindo-os por outros determinados por práticas e investigações que vieram melhorar o ensino e a aprendizagem. Como não há bela sem senão, os excessos revolucionários o “boom” da liberdade e a obsessão de tudo mudar a todo e qualquer custo, por vezes com critérios ideológicos cujos fins eram claramente calculados, contestava-se qualquer autoridade, até a dos próprios professores nas escolas, sem as prudentes cautelas. Pedia-se publicamente o desmantelamento de estruturas políticas autoritárias, defendia-se a democratização das instituições sociais, culturais e educativas.


Na educação informal os nossos valores são sustentados pelo que vivenciamos no seio familiar e, por esse motivo, os filhos começam a tornar-se parecidos com os pais na convivência diária. A tendência é que os jovens, desde criança, reproduzam o que observam e o que lhes é transmitido no dia a dia das suas vidas. O problema parece não estar na rebeldia do filho, mas sim nos pais que não souberam impor a sua autoridade enquanto educadores e manifestaram atitudes e comportamentos grosseiros e inadequados diante dos filhos.


A má educação e a indisciplina na escola e na sala de aula e fora dela é encarada por muitos investigadores como tendo origem na sociedade ou no grupo social através do qual o jovem aluno é arrastado a reproduzir comportamentos e atitudes experienciados.


As crianças copiam principalmente as atitudes e comportamentos dos pais e a própria linguagem utilizada em família ou dos grupos a que se associam.  Não se trata de um padrão absoluto, pois depende também do tipo de relação entre pais e filhos. Trata-se de uma aprendizagem social por imitação, ou vicariante, teoria desenvolvida por Albert Bandura (Teoria da Aprendizagem Social, Social Learning Theory e Social Foundations of Thought and Action). Na aprendizagem por modelação todos os fenómenos que ocorrem por meio da experiência podem ocorrer de forma vicariante, isto é, pela observação de outras pessoas e das consequências daí resultantes.


Todos os dias ouvimos pais a pedir ajuda para lidarem com a má educação e mau comportamento dos seus filhos ou educandos. Do mesmo modo professores queixam-se de que existem cada vez mais alunos indisciplinados que desafiam a autoridade do adulto no contexto escolar e familiar. O ponto de convergência está na dificuldade que as crianças e jovens têm em acatar ordens e em obedecerem a regras, ou seja, em saber estar.


O rápido salto de uma ditadura, com regras severamente impostas, para uma democracia “apressada” e com a instabilidade daí decorrente, associado aos procedimentos de um povo ansioso pela liberdade de expressão e de pensamento conduziu à rebeldia manifestada e induzida pela aquisição de mais direitos sociais e contra a exploração, extravasou e substituiu antigos valores por outros que passaram a ser mais importantes do que os deveres, o que consequentemente se refletiu na educação.


A implementação da gestão democrática nas escolas com a participação dos encarregados de educação que sobrevalorizando os seus educandos e exercendo pressões sobre os diversos poderes, condicionou, e pôs em causa, a autoridade dos órgãos diretivos das escolas e dos professores dentro e fora da sala de aula.  Tudo isto gerou abusos e atropelos devido ao protecionismo complacente dos ministérios tutelados pelos governos dos partidos frequentadores do poder cujas políticas educativas têm mais de ideológico-partidário do que de pedagógicas.


Os professores encontram-se assim no olho do furacão passando mais tempo a manter a disciplina do que a lecionar o conteúdo dos programas no seu exercício. Encontram-se por um lado na condição de educadores e, por outro, de agentes de ensino/aprendizagem.


Um dos grandes desafios dos educadores e dos professores na atualidade é o de resolver o problema da indisciplina associada à má educação dos alunos no espaço escolar e dentro da sala de aula, e fora dela. Esta situação não é um problema exclusivo das escolas públicas, é também das privadas e ultrapassa as fronteiras das escolas portuguesas.


A quem compete uma e outra? Uma deveria essencialmente competir à família, a outra à escola que pode e deve complementar a primeira que é indispensável. As famílias parecem ter abdicado da educação dos seus filhos ou educandos.


No dizer de Henrique Raposo “Os pobres estão a ficar cada vez mais pobres e menos instruídos porque criou-se a ideia perversa de que a boa educação é coisa de betinhos.” Parece-me que fazer depender a pobreza e o seu aumento da falta de boa educação parece-me ser arrevesado.


A má educação não está desassociada da indisciplina nas escolas que não podem ser atribuídas apenas aos jovens enquanto pessoas. A formação do sujeito é também fruto do meio / sociedade de onde ele procede. Desde a fase de tenra idade a pessoa é influenciada pela sociedade e pelo ambiente, cabendo a maior parte desta influência à responsabilidade parental, visto que os pais são os principais responsáveis ​​pelo cuidar dos seus filhos ou educandos. A estrutura e as organizações familiares contemporâneas são um dos fatores que interfere no comportamento dos educandos na escola, e fora dela, o que está a refletir-se no modo de encarar a educação não formal já que muitos pais tentam transferir para a escola a tarefa e a responsabilidade de educar os seus filhos.


Quando uma criança não é ensinada a mostrar boa educação e a ser disciplinada, a possibilidade de essa criança vir a ser mal-educada é muito alta, assim como é muito fácil para uma criança copiar as atitudes dos pais ou responsáveis educativos, especialmente quando essas atitudes são contra as normas e valores da sociedade.


Quando desde tenra idade a convivência se processa em ambientes sem limites, regras e princípios e onde tudo é permitido, transformar-se-ão em sujeitos que não obedecerão a regras, não terão limites em casa, na escola ou em qualquer grupo em que conviva. Passarão a acreditar que todas as suas vontades deverão serão atendidas, tornando-se assim em alguém incapaz de conviver em sociedade. Este tipo de atitude dificultará a sua adaptação e à aceitação dentro de grupos sociais.


Os alunos que não aceitam e nem compreendem a importância e a necessidade das regras sociais, não conseguirão adaptar-se às regras e normas impostas pela escola, apresentando atitudes indisciplinadas e algumas vezes afastando-se das instituições educacionais, pois para esses educandos é mais fácil viver sem algo que restrinja suas ações.


 Algumas das causas da má educação e de indisciplina nas instituições escolares são: perda de respeito pelos professores; falta de ideais; prática educacional defeituosa no ambiente familiar; desvalorização progressiva do valor e importância da escola pelos pais; crises económicas e financeiras gerais ou familiares e consequente pobreza. Estes São os fatores externos a interferir nos atos de indisciplina na escola.


Se efetuarmos, portanto,  uma pesquisa rigorosa sobre o tema não restarão dúvidas que a má educação que leva à indisciplina dos educandos é um problema social, onde as atitudes dos alunos estão diretamente ligadas às influências do meio em que vivem. Acresce o facto de que o mesmo aluno que é disciplinado com um professor pode ser indisciplinado com outro tornando assim a questão muito mais complexa.


A má educação e a indisciplina traduzem-se numa perda do respeito ao nível familiar e pelos professores que não se verificava no passado com a mesma intensidade onde sistemas mais ou menos totalitários dominavam e onde atualmente ainda dominam em alguns países.


Durante a revolução do 25 de Abril alguns movimentos de partidos e políticos influenciaram com algum exagero o sentimento dos alunos encorajando-os a participar ativamente da revolução. Do meu ponto de vista os professores não puderam ter uma participação idêntica devido às perturbações então vividas nas escolas, e em certa medida como resultado perderam a consideração e o respeito dos alunos.


Uma das causas poderá ter sido a “deslocação do poder do Ministério da Educação para as escolas, dos diretores das escolas e do corpo docente tradicional para os professores progressistas e para o corpo estudantil”[1]. Para Stoer, sociólogo português com trabalhos na área da Sociologia da Educação, a “ocupação” das escolas não foi operada por iniciativa do poder político ou da administração central, na base de qualquer projeto consistente de descentralização. Não se tratou, sequer, de uma delegação de poderes, e menos ainda de uma devolução, mesmo que transitória. Tratou-se, isso sim, de uma deslocação de facto, de uma “imposição da periferia e da base do sistema” que se apropriou progressivamente de poderes e ensaiada na prática, através de processos de democracia direta. Aprendendo a decidir, decidindo, e através da decisão alcançando a autonomia. Do meu ponto de vista talvez tenha sido o que poderá ter levado os alunos ao desrespeito pelos professores numa lógica de que todos estavam no mesmo barco e somos “todos iguais em direitos”.


O que ocorreu, em termos de implantação da gestão democrática das escolas, foi uma decisão, que exerceu uma autonomia não concedida, mas antes conquistada pela ação dita revolucionária dos movimentos da época.


Algumas opiniões para que “um dos grandes feitos do 25 de Abril foi precisamente o de permitir que cada macaco não esteja no seu galho. A liberdade deu lugar à libertinagem. O professor passou a ser o mau da fita” para o que todos os partidos contribuíram e continuam a contribuir para isso.


Mas a indisciplina começa quando a falta de educação e ausência de princípios acabam. A importância da participação ativa da família com a escola tem sido alvo de diversos estudos, tendo em conta fatores como o comportamento dos alunos em sala de aula e os problemas de adaptação. De uma maneira geral o que se verifica é que na família não se impõem regras e limites aos filhos, e até porque ela própria muitas vezes não as têm ou não as praticam.


O que está em discussão é saber se a má educação e a indisciplina a ela associada refletem a importância que a sociedade lhes atribui. Em primeiro lugar, a disciplinas na escola está expressa nas várias perspetivas e posições mais ou menos instaladas em torno de ideologias ou escalas de valores que são conflituantes.


Como a maior ênfase é dada aos exames os professores ensinam apenas para preparar os alunos para aquelas provas colocando de lado os ideais e valores da boa educação. A disciplina e a boa educação são valores sociais muito importantes, porém, há crianças e jovens que convivem num meio ou grupo onde essas regras não existem ou não são consideradas.


As deficiências de nosso atual sistema educacional proveniente dos primeiros 20 a 30 anos afetaram todo o sistema e os professores estiveram, e ainda estão, expostos a críticas, por vezes infundadas, e a interferências externas ao espaço pedagógico da escola o que afetou o seu status ficando sujeitos a ter contacto mais direto, e quase permanente, com a sociedade, sobretudo pais, contestação de alunos e ainda de outros agentes que não fazem parte do domínio pedagógico. As pessoas passaram a respeitar menos esta profissão. Os próprios professores não raras vezes devido aos sindicatos que apenas se centram e os movimentam em torno de reivindicações principalmente no que se refere as remunerações salariais, acabando por ignorar imperativos inerentes exercício da sua função.


No período da revolução solicitava-se pela intervenção de algumas forças políticas a não seguir leis e regras que consideravam serem do passado, da ditadura consideradas impróprias, tornando-se difícil diferenciar entre as leis certas e as erradas. Quando os alunos desenvolvem o hábito de violar algumas regras básicas da boa convivência e educação também desenvolvem o hábito de violar todos os tipos de leis. O principal motivo da indisciplina entre as crianças e jovens reside neste facto. Ao longo dos anos buscam-se causas, como se fosse uma doença para a qual, ao ser diagnosticada será encontrada a cura, mas o tratamento quando diagnosticada a doença demorará anos a prevalecer até ser vencida.


Tratando da dimensão ideológica do currículo para a teoria curricular o conhecimento presente no currículo serve a legitimação e o desenvolvimento da ordem social e democrática enquanto uma construção social. Dessa forma, a linguagem, metodologias, conteúdos e os códigos culturais modelam a perceção e o modo de compreensão dos alunos, sendo marcado pelas relações de poder decorrentes de opções ideológicas e de posições hegemónicas de diferentes grupos de interesses.[2]


Henrique Raposo com algum assomo sectário aponta o dedo a um dos alvos que contribuiu para os desmandos da má educação atual que, segundo ele, foram os “gurus pós-modernos” como Pierre Bourdieu e outros que “impuseram a ideia errada de que a “boa educação era uma prisão burguesa que aprisionava o povo; criou-se assim a perceção de que o decoro não é um valor universal, mas sim um tique dos ricos”.


Henrique Raposo conforme depreendo da leitura dos artigos que acompanho, sempre que posso, será tendencialmente um neoliberal ou um liberal o que poderá justificar algum sectarismo ideológico ao referir-se a Bourdieu, sociólogo e filósofo francês cujo pensamento se baseia em fontes que se estendem ao marxismo e ao diálogo intelectual com contemporâneos, como Althusser, Habermas e Foucault também eles de influência marxista.


O pensamento de Bourdieu leva, por vezes, por aceitações por alguns e a outros a rejeições precipitadas do seu pensamento filosófico e sociológico. As avaliações levadas pela emoção conduzidas por sectarismos ideológicos de esquerda, ou de direita, não contribuem para uma compreensão da obra no âmbito da sociologia da educação que nada têm a ver com o que Henrique Raposo afirma, generalizando: “Criou-se assim a perceção de que o decoro não é um valor universal, mas sim um tique dos ricos.” O pensamento filosófico marxista passou a ser um preconceito de setores da direita e de alguma esquerda moderada.


Henrique Raposo ao atribuir a culpa a Bourdieu pelo conceito de “boa educação” que é uma clausura/prisão devida à burguesia parece-me ser, de certo modo, deturpada quanto ao objetivo original do seu autor. Tomou o particular pelo geral, descuidando o contexto em que tal afirmação foi expressa, isto é, a boa educação é afinal uma questão “chunga” inventada pela burguesia como diz Raposo.


O que Bourdieu refere diz respeito à educação formal que é facultada pelos currículos escolares e projetos escolares que Bourdieu, de facto numa perspetiva marxista de domínio classista, afirma ser um ensino dito burguês numa perspetiva de formação tendencialmente economicista para a competição, que é atribuída à educação.


Henrique Raposo sabe, com certeza e muito bem, que toda a política educacional contém intencionalidade, valores, ideias e orientações, que se estendem pelas escolas atuando decisivamente na prática pedagógica, e, consequentemente, à construção de perfis dos cidadãos desejado pelo Estado. Todas as políticas educativas são desenhadas ideologicamente, vimos isso em todos os regimes, dos democráticos aos totalitários sejam de que sinal forem.


De facto, a educação sempre serviu para responder aos interesses das classes dominantes, (isto é, da sociedade organizada em estratos socioeconómicos, profissionais e religiosos), e   do   mercado, e, nesse   sentido, as   camadas   populares, cujos filhos frequentam o sistema de educação pública, foram   sempre desfavorecidas em comparação com o ensino privado, embora a má educação seja mais frequente no primeiro. Esta não deve ser encarada como sinónimo de interpretação de perspetiva marxista, ela deve interpretar-se consoante as ideologias dos poderes que em cada altura controlam os Estados.


 
   


Se nos situarmos em dois momentos marcantes da nossa história recente deparamo-nos com diferenças entre dois modelos educativos e curriculares: um ao tempo do Estado Novo e outro no pós-revolução do 25 de abril, podendo este ser dividido em dois ou três momentos.


O Estado Novo recorria às escolas primárias para comunicar com as populações e para difundir a imagem e a “herança da Nação Portuguesa”. A escola era responsável pelo desenvolvimento de ações conducentes à criação de vínculos entre as crianças e a Nação[3]. Para tal, recorria a referenciais simbólicos como a bandeira e o hino nacional, por forma a promover a construção da identidade nacional. Basta darmos uma olhadela aos manuais de leitura da instrução primária para o constatarmos.


 Nas escolas do Estado Novo, afixados nas salas de aula a fotografia de Salazar estava sempre presente ao lado de um crucifixo. Eram fábricas de cidadãos nacionais obedientes e bem-educados e “Nos bancos das escolas, aprenderam os rudimentos de geografia e de história necessários para adquirir algo como uma consciência nacional. A identificação de certos símbolos – hino, bandeira, instituições, figuras, monumentos, etc. – é outro aspeto importante desse processo de formação cívica que só na época contemporânea mereceu uma atenção sistemática por parte dos responsáveis políticos.” [4]


A escola primária era um dos principais agentes ideológicos do regime que utilizava os currículos escolares para mentalização ideológica. Era uma imagem distorcida da realidade, marcada pela existência de um regimento autoritário e por um líder a quem se exigia total obediência. O modelo de comportamento do chefe era o exemplo e devia ser assimilado e seguido pelo povo, porque só assim se poderiam formar novas gerações educadas no espírito do amor e da defesa da Pátria Salazar era tomando como o exemplo do português modesto e trabalhador, pronto a sacrificar-se pela Pátria.


O aparelho ideológico do Estado Novo, consciente desta questão, formulará e difundirá, nomeadamente através da criação do Secretariado de Propaganda Nacional em 1933, um programa de política do espírito.[5]


Apesar de na chamada primavera marcelista algumas alterações e revisões terem sido submetidas a modificações nos currículos educativos, só após a queda do regime se procedeu a alterações profundas que se executaram desta vez numa orientação ideológica de esquerda de tendência pró-marxista que se prolongou por alguns anos.   


Portanto, voltando a Bourdieu, e em síntese, o significado de a “boa educação” ser uma “prisão burguesa” este autor referia-se, no ano em que o escreveu, às políticas e orientações educativas associadas à ideologia dominante sinalizadas pelos Estados através dos currículos educativos e à orientação educativa das escolas que as aplicavam.


No início deste texto referi dois conceitos de educação, a instrucional e a formativa: a que é fornecida pelas escolas em função de cada projeto educativo o outro que se refere ao conjunto dos princípios, valores e normas de conduta socialmente transmitidas em que a família está incluída. Parece-me ser ao âmbito da educação formal que Bourdieu refere. Este caracteriza-se por ser estruturada e desenvolvida no ambiente de instituições como escolas e universidades onde o aluno deve seguir um programa pré-determinado e, mais importante ainda é idêntico ao dos outros alunos que frequentam a mesma instituição.


A educação não formal processa-se fora da esfera escolar e é veiculada através de meios de comunicação e outras instituições desenvolvendo-se, assim, de acordo com os desejos do indivíduo, ocorrendo de forma espontânea na vida do dia-a-dia através de conversas e vivências com familiares, amigos, colegas e interlocutores ocasionais.


De facto, para Bourdieu, a educação formal perde o papel que ao longo do tempo lhe é atribuído pela instância transformadora e democratizadora das sociedades e passa a ser vista como uma das principais instituições por meio da qual se mantêm e se legitimam os privilégios sociais em sentido lato. Trata-se, portanto, de uma inversão total de perspetiva encarada por Henrique Raposo. Bourdieu oferece apenas um novo quadro teórico para a análise da educação, dentro do qual os dados estatísticos acumulados a partir dos anos 50 e a crise de confiança no sistema de ensino vivenciada nos anos 60 ganharam uma nova interpretação.


Termino com uma citação de Henrique Raposo: “Quem não percebe isto não percebe nada. Não percebe, por exemplo, porque é que os políticos abertamente mal-educados como Trump e Ventura recolhem os votos do tal povo deseducado por três décadas de pós-modernismo à Bourdieu e à Jon Stewart. Tão modernos que eles são: fazem rir a malta porque dizem fuck três vezes num minuto. Tão sofisticados, meu Deus!”.


Concordo, mas, por favor, não se culpe Bourdie. Quanto a Jon Stuart não sei, só conheço Stuart Mill e Stuart Hall[6] e, mesmo assim, este último, mal.


____________________________


[1] (Soer, Stephen R. ; 1985 - A Revolução de Abril e o sindicalismo dos professores em Portugal. Cadernos de Ciências Sociais, 3, p. 61-83 e p.67


[2] APPLE, Michael W. Ideologia e currículo. Porto Alegre, ARTMED, 2006. p. 288


[3]Consultar Jorge Ramos do Ó, 1999, Os anos de Ferro, o dispositivo cultural durante a “Política do Espírito” 1933-1949; pp. 55-59, citado em A Escola Portuguesa ao serviço do Estado Novo: as Lições de História de Portugal do Boletim do Ensino Primário Oficial e o Projeto Ideológico do Salazarismo; Maria Paula Pereira, U. Aberta; Revista Da Investigação às Práticas: Estudos de Natureza Educacional (INVEP), publicação do Centro Interdisciplinar de Estudos Educacionais (CIED) da Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico de Lisboa.


[4] João, M. I.; 2001. Estado, Nação e Região; Arquipélago-Revista da Universidade dos Açores,5, 689-702. Maria Isabel João, Professora da Universidade Aberta.


[5] Idem


[6] Professor de sociologia jamaicano que viveu no Reino Unido, um dos defensores do multiculturalismo.


 


 



 

sábado, 25 de abril de 2020

Primeiras eleições após a Revolução do 25 de Abril de 1974: um documento histórico

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A 25 de Abril de 1975 cerca de seis milhões de portugueses souberam pela primeira vez na sua existência o agrado de saber o que era o exercício democrático fundamental de ter o direito ao voto.


Hoje no dia da comemoração da Revolução do 25 de Abril de 1974 resolvi ir vasculhar os meus arquivos relacionados com esta data histórica e encontrei um recorte do artigo publicado da Revista Expresso com o título “A sondagem secreta”, cuja data por lapso não anotei.


Achei interessante saber-se, muito antes de haver marketing direcionado para a política houve no final de 1974, como é que se manifestava então a vontade popular através de uma sondagem de opinião efetuada por uma instituição ligada ao grupo CUF, o CEAD, que, entretanto, desapareceu, perdendo-se o estudo com a desvario das nacionalizações.


A sondagem era inédita porque, pela primeira vez, incidia sobre as preferências partidárias dos portugueses e de quais era os preferidos para Presidente da República.


Esta sondagem procurava entrever a incógnita que eram as eleições por sufrágio universal direto e secreto para a Assembleia Constituinte. As eleições livres era um dos sérios compromissos do MFA – Movimento das Forças Armadas que tinha derrubado o regime de ditadura que vigorou em Portugal durante 41 anos.   


No seu início e em finais de 1974 a revolução seguia caminhos incertos e sempre para a esquerda. Em dezembro de 1974 o poder político assentava cada vez mais nos militares onde despontavam claras divergências e o Governo Provisório que perdeu, entretanto, poderes era apoiado por quatro partidos PS, PPD (atual PSD), PCP e MDP dos quais se desconhecia a respetiva expressão eleitoral.


A sondagem apontava para uma nítida vitória dos partidos moderados, o PS e o PPD ficando-se o PCP e o MDP seu aliado com posições minoritárias e atribuía á direita, extrema-direita e á extrema-esquerda valores insignificantes. Outra conclusão antecipada foi quanto à abstenção que era quase residual.


O questionário continha 33 perguntas sobre problemas nacionais urgentes e foram questionadas pessoal e diretamente cerca de setenta e sete mil pessoas selecionadas aleatoriamente residentes no continente em trabalho de campo que ocorreu em dezembro de 1974.


Aqui vão algumas das principais conclusões do inquérito de opinião:


 

 



Partidos



PS



PPD


atual PSD



PCP



MFA


Não era partido nem concorreu



MDP



ANP partido único da ditadura



CDS



% de intenções de voto



35,1%



27,0%



10,8%



5,4%



2,7%



2,7%



Sem significado estatístico



 


Acima da média encontravam-se partidos como o PS nos distritos da Guarda, Setúbal, Lisboa, Beja. O PPD sobressaía em Viseu, vila Real Braga e Porto. O PCP destacava-se em distritos como Beja, Setúbal e Évora. O CDS em Castelo Branco.


Menos de um quarto da população, 23%, participara em comícios ou sessões de esclarecimento.


 



Sem eleições a população não sabia que rumo seguir


 



SIM



NÃO



Indecisos



Se não se realizassem eleições o povo sentia-se enganado



49%



13%



-



Tencionavam ir votar



83%



5%



12%



 



 



Maior liberdade



Mudança de governo



Fim da guerra no Ultramar



Na sua opinião qual foi a mudança mais importante depois do 25 de Abril?



21%



10%



9%



 



Acha bem ou mal



Bem



Mal



Aumento dos salários



88%



3%



Libertação de presos políticos



85%



2%



Prisão dos agentes da PIDE



80%



3%



Dar independência aos povos de África



78%



4%



Os sindicatos ganharem força



64%



3%



Abertura de relações com os países comunistas (na altura)



62%



9%



 



 



 



Haver possibilidade de divórcio



57%



27%



Portugal pode tornar-se um país comunista



46%



21%



Problemas entre trabalhadores e patrões podem ser resolvidos sem greves



72%



2%



 



 



Mais



Menos



Empresas do Estado são mais eficientes



33%



14%



Acredito mais na iniciativa privada do que no Governo



10%



37%



 



O Governo fez bem em dar independência aos territórios ultramarinos



Bem



Mal



81%



4%



 



 



Europa



EUA



Rússia



Junto de que países Portugal podia obter maior auxílio?



25%



20%



13%



 



 



Sim



Não



Portugal devia manter-se no Ultramar se fosse possível acabar com a guerra



51%



23%



 



A quem deviam pertencer as terras



Aos seus proprietários



45%



Aos que nelas trabalham


(Maioria verificou-se nos distritos de Beja e Setúbal)



30%



Cooperativas agrícolas



7%



Ao Estado



5%



 


Resultados reais das eleições



Que partido gostaria que ganhasse



 



Em quem vai votar



Resultado real das eleições (1)



PS



44,2%



35,1%



37,9%



PPD (PSD)



32,7%



27%



26,4%



PCP



11,5%



10,8%



12,5%



MFA



5,6%



5,4%



Não era partido



MDP/CDE



1,9%



2,7%



4,1%



CDS



1,9%



-



7,6%



UN/ANP



-



2,7%



Partido entretanto extinto



FSP



Partidos formados após a sondagem



Partidos formados após a sondagem



1,2%



UDP



0,8%



MES



-



-



1%



PPM



-



-



0,6%



Nenhum



1,9%



13,5



Outros partidos



 


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Num país que na altura não tinha experiência de inquéritos com finalidades políticas houve uma percentagem muito elevada de pessoas que não emitiram opinião sobre vários assuntos, devido à falta de hábitos democráticos e segundo os autores afirmaram especialmente no Alentejo os entrevistadores tiveram de ir acompanhados pela GNR.


Foi significativo o facto de metade da população desconhecer quem fizera o 25 de Abril.


Como tudo mudou até aqui!!!


Vivemos em democracia e queremos continuar a viver, apesar de haver ainda por aí uns “jarrões” empedernidos que estão a fazer tudo para acabar com ela. Querem a democracia deles, isto é, nenhuma!….

quarta-feira, 25 de abril de 2018

25 de Abril a minha homenagem

A minha pequena homenagem através de imagens


Um breve resumo do 25 de Abril de 1974 


 



 


 



 


 



 



25 de Abril antecedentes


Documentário RTP 1 e 2



 

terça-feira, 25 de abril de 2017

O dia do 25 de Abril

 


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Algumas recordações do 25 de Abril em 2017 vão ficar por aqui. Este dia é também um dia para reflexão sobre o passado e para alguma autocrítica sobre as opções tomei. Concluí que ao fim de 43 anos de democracia e de eleições livres cometi três erros nos últimos sete anos por falta de análise criteriosa da situação política e partidária, o  que me levou a tomar opções que depois verifiquei serem erradas. O voto não pode ser visto como algo sem importância, nem ser feito de ânimo leve porque os erros, por vezes, saem muito caros. Um deles, o último não terá sido por desconfiança e esta, às vezes, não é boa conselheira.


 

domingo, 23 de abril de 2017

Considerações sobre alguns factos do 25 de abril

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Encontramo-nos nas proximidades das comemorações do 25 de abril, faltam 48 horas, e é bom relembrar e relacionar factos casuais de personalidades da política atual com o passado.


Miguel Júdice foi recrutado pela TVI 24 para o comentário político há alguns meses atrás. É claro o espírito deste comentador. Não vou sintetizar o que ele tem dito, mas limito-me a citar um dos comentários mais recente, este no que toca a Marcelo Rebelo de Sousa.


Até parece coincidência, mas o jornal i de hoje publicou uma entrevista com José Miguel Júdice, um militante da extrema direita do pós 25 de abril que se reciclou posteriormente em democrata militando no PSD. Na entrevista Júdice tece comentários pessoais a políticos denegrindo alguns de forma muito clara, mas politicamente correta como um oportunista da política. Um dos atingidos foi Marcelo Rebelo de Sousa que considera como sendo «maquiavélico de forma instrumental, é ácido, às vezes, com as pessoas, mas isso não é o objetivo da vida dele. Se ele achar que esse lado da vida dele, às vezes lúdico, outras vezes sarcástico, lhe é útil, não deixará de o usar, mas ele quer ficar na história como o melhor e o mais importante Presidente da República em democracia». Não ficando por aqui diz ainda que «é manipulador, é capaz de jogar com as pessoas, é capaz de dizer mal das pessoas quando elas não estão presentes... Tem esses defeitos, mas tem enormes qualidades cívicas e é uma pessoa de uma honestidade elevada. É uma pessoa que faz falta na política».


Miguel Júdice dá uma no cravo outra na ferradura, mas lá vai passando a mensagem negativa.


Este advogado, ex-dirigente do PSD, membro do secretariado em 1984 e do conselho Nacional em 1985, logo após o 25 de abril participou em ações da extrema-direita como dirigente do PP – Partido do Progresso integrando posteriormente o MDLP - Movimento Democrático de Libertação de Portugal que «Spínola liderava e que contava com uma organização espalhada pela Espanha (Alpoim Calvão, José Miguel Júdice, entre outros), França (Sanches Osório) e Brasil, tinha sido já anunciado um mês e meio antes e começava a articular-se com o Exército de Libertação de Portugal (ELP), que unira figuras da extrema-direita, incluindo ex-elementos da PIDE, apostadas em “limpar o país de todos os cães comunistas e traidores” e com o Movimento Maria da Fonte, liderado pelo editor da obra de Spínola Portugal e o Futuro, Paradela de Abreu, e por Jorge Jardim, em íntima conexão com o Arcebispado de Braga e sectores empresariais do Norte do país contra sedes de partidos políticos da direita com o objetivo de culpar os partidos de esquerda» escreveu o jornal Público em 26 de abril de 2014, também relatado no livro Quando Portugal Ardeu, p. 75.  


«ELR MDLP, Igreja, ex-agentes da PIDE e da Legião, elementos de guerrilhas e movimentos avessos à independência das ex-colónias, mercenários, ex-militares, serviços de inteligência estrangeiros, banqueiros, empresários e industriais. A extensão da rede de cumplicidades e ramificações para pôr o Portugal pós-revolução a arder não olhou a meios nem a divergências de pormenor.


Os vários exércitos, da contrarrevolução, alguns avulsos, foram responsáveis por 566 ações violentas no País entre maio de 197 5 e abril de 1977, uma média de 24 atos de terrorismo por mês, quase um por dia, causando mais de dez mortes e prejuízos incalculáveis no património de vítimas e instituições. os partidos à esquerda do PS, com o PCP à cabeça, a par de militares e sindicatos, foram os alvos preferenciais de quase 80 por cento das bombas, assaltos, incêndios, espancamentos, apedrejamentos e atentados a tiro. A contabilidade foi coligida num Dossier Terrorismo, elaborado pelo PCR mas os cálculos não merecem suspeita. "Muito do que eles escreveram naquele livro está correto reconheceu Francisco Van Uden, do ELP. Também é um indicador de que eles possuíam uma estrutura de informação muito bem organizada, assume». (In Quando Portugal Ardeu, Miguel Carvalho, p. 79)


Em julho de 2006 o jornal Correio da Manhã noticiava que Conselho Superior acusava Míguel Júdice de violação das normas deontológicas. Em causa estava «uma entrevista ao Jornal de Negócios, em 2005, após o longo período de silêncio que se seguiu ao fim do mandato como bastonário. Júdice defendeu que o Estado devia contactar as três maiores sociedades de advogados do País para serviços de consultadoria, entre as quais a PLMJ da qual é sócio e que conta com 220 advogados. A declaração soou a publicidade e deu origem a um processo disciplinar.»


Muita coisa estará por contar sobre as manigâncias da extrema-direita da qual muitos dos seus cabecilhas e dirigentes se reciclaram em democratas espalhando-se pelos partidos da direita democrática donde agora manobram lenta e engenhosamente para conseguirem os seus intentos servindo-se da voz que lhes é dada pela comunicação social.


Ainda bem! É sinal de que estamos a viver em democracia e liberdade de expressão de pensamento, o que nos obriga à responsabilidade democrática de, após 43 anos, continuarmos atentos.

sexta-feira, 14 de abril de 2017

A leitura do momento

 


Quando Portugal Ardeu.png


Regressei do Portugal da Beira Interior para fugir das festas da época pascal na chamada província.  A Páscoa não é para mim. Fora das grande cidades vive-se intensamente esta época, mais do que o Natal que é o símbolo do nascimento. Na época da Páscoa são demasiados os rituais religiosos que estão ligados ao renascer da natureza com a chegada da primavera. Esta sim, é a ressurreição da vida que se faz notar por todo o lado de norte a sul se Portugal que o citadino não capta no meio da confusão do transito e das compras para a Páscoa.


É também um boa altura para iniciar leituras assim selecionei um livro cujo lançamento aconteceu este mês. História e jornalismo podem complementar-se quando este nos trás para o presente factos dum passado mais ou menos recente. São, todavia, relatos diferentes da história. O jornalismo recupera testemunhos e documentos, ajuda a recuperar a memória do povo, que tem tendência para o esquecimento, dá uma visão aos mais jovens do passado que não experienciaram. O livro “Quando Portugal Ardeu” de Miguel Carvalho que agora comecei a ler foi com base em testemunhos e documentos inéditos e não é de história é jornalismo como diz o autor.

quarta-feira, 13 de abril de 2016

O ideólogo, a mobilidade social, e a sociedade sem classes

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Para quem escreve Paulo Rangel do PSD? Para quem, do povo, menos iletrado, o leia e não percebe patavina. É um discurso hermético apenas para alguns eleitos a quem provavelmente se dirige.


A sua retórica é a de alguém que procura exibir um conhecimento intelectual levando leitores a desistir da sua maçadora prosa. Eu, cá por mim, não me considerando, de todo, um desses eleitos e iluminados a quem os seus textos parecem dirigir-se lá vou tentando fazer um esforço para o ler e compreender.  


O último artigo desse supremo intelectual e ideólogo da política neoliberal por onde enveredou o PSD é um caso paradigmático do que acabo dizer. Na amálgama de conceitos sócio-político-filosófico-partidários o leitor desprevenido, e, como escrevi em parágrafo anterior, sem a formação adequada perde-se pelos diversos e complexos conceitos da política do partidarismo e da sociologia sem tirar conclusão plausível, mantendo-se em explicações e argumentos já cansativos que volvem sempre ao passado onde não se vislumbra qualquer projeto para o futuro, ainda que o seu líder tenha utilizado no último congresso o chavão “Social-democracia sempre”.


Paulo Rangel, desde qualificar o PSD como partido que não é de massas mas um “partido de eleitores” de “abertura” e de “adaptabilidade” do seu “leque ideológico” lá vai dizendo que os “eleitores e militantes não são atraídos por um programa” e devem ser os “produtores de um programa que os atrai”. Se bem se percebe aos eleitores e simpatizantes do PSD não interessa uma ideologia, um programa, um projeto, são eles que o irão construir ao votar no desconhecido.   


Mas vejamos esta complexa e ambígua frase que caracteriza o seu discurso: “Os eleitores e militantes não são o propriamente atraídos por um programa; eles foram e são – e, questão decisiva no futuro, devem novamente ser - os produtores de um programa que os atrai. Dito de um modo mais apelativo: no PSD, os simpatizantes e os militantes não veem um programa, eles revêem-se no programa - porque o programa é pela própria elasticidade genética ou constitucional (constitutiva) do partido, de algum modo, um reflexo ou uma refracção da afinidade sociológica da sua composição.”


Tudo isto para dizer que simpatizantes e militantes revêm-se no programa do PSD. Eles não veem um programa, reveem-se nele – diz ele. Fantástico!


Atenção, isto não fica assim, porque vai deambular para a sociologia eleitoral caracterizando a base de apoio do partido afirmando que, ao contrário do que escreveu anteriormente, não se pode “enganosamente” caracterizar o partido “como um partido de classe” (classe média, de feição pequena e médio burguesa ou de pequena e média propriedade rural e de uma boa parte das profissões liberais ou com formação universitária…) e que, se assim fosse, agora recorrendo a Marx, afasta o PSD desse cálice. Nada disso porque, a ser assim, o PSD seria uma instituição encarregada de politicamente zelar e velar por esse agregado de interesses e valores.


Basta olhar para as estatísticas eleitorais ao longo dos anos e para trabalhos estatísticos no âmbito da geografia eleitoral como por exemplo “Comportamento eleitoral e o voto através de indicadores regionais nas eleições de outubro de 2015: Uma análise geográfica do voto” que mostra que é precisamente nas regiões onde esses eleitores, de feição pequena e médio burguesa ou de pequena e média propriedade rural e camponeses de parcos recurso como ele diz, se concentra em maior massa o eleitorado do PSD.


Mas lá vai argumentando Rangel que, “Sem nunca desdenhar da pertinência duma análise social e até da categoria “marxiana” da classe social – análise, em todo o caso, sempre parcelar, relativa e redutora – não é esse o traço que aqui se pretende realçar. Por mais dialética que se reclame, uma análise de classe seria, hoje e irremediavelmente, uma análise estática, conservadora, imobilizadora.”. Essa categoria “marxiana” (neologismo inventado pelo super intelecto ideólogo do partido) não é mais do que um contrassenso.


Rangel vê em Marx o imobilismo? Se assim for, então qual a finalidade ideológica da contínua luta de classes que Marx preconizava senão a de potenciar, através da luta permanente, (do meu ponto de vista, hoje em dia, essa apologia da luta de classes é destrutiva e injustificada da forma como partido mas radicais a propõem), em que uma classe ascende a outra sem olhar a meios para tingir os fins, em direção a uma sociedade sem classes, essa sim conduzindo ao imobilismo? Sem que Rangel se aperceba o imobilismo talvez esteja mesmo no PSD com Passos Coelho na liderança. Mais ainda, esse tal eleitorado do PSD tem-se mostrado ao longo do tempo com uma instabilidade eleitoral conjuntural.


Poderíamos continuar por este caminho, mas o título do artigo de opinião de Paulo Rangel publicado no jornal Público de 12 do corrente diz tudo: “Mobilidade social: um desígnio para o PSD pós-troika (2)” que pode resumir-se, segundo as suas próprias e demagógicas palavras proclamadas no último congresso do PSD, a que “o partido deve fazer da mobilidade social a sua “grande bandeira para os próximos anos” e considerou que está na hora de Portugal deixar de ser “o país dos doutores” e “virar a página na estratificação social e na estrutura elitista e aristocrática da sociedade portuguesa”.


Não tenho a certeza se Rangel, licenciado em Direito pela Universidade Católica, sabe o significado do conceito sociológico de mobilidade social, algo complexo que, lançado para o ar, pode levar à confusão. Mobilidade social entendendo-a como sendo movimento de indivíduos entre diferentes posições sociais. Este mesmo conceito divide-se ainda em mobilidade vertical e mobilidade horizontal. A qual delas se refere Rangel? Será à mobilidade vertical definida como movimento ascendente ou descendente na hierarquia de posição num sistema de estratificação social? Ou refere-se à mobilidade horizontal que é o movimento físico de indivíduos ou grupos entre regiões.


Estranhamente, e se bem percebi, Rangel, com esta frase, mais parece um esquerdista radical da altura do 25 de Abril. Tece uma viragem populista do partido que nos últimos anos ficou virado para si mesmo, que foi, e é elitista, afirma agora que tem que se combater a estratificação social e a estrutura elitista e aristocrática da sociedade portuguesa, e fora com o doutorismo. Paulo Rangel mais parece um revolucionário marxista ressuscitado que defende levar Portugal no sentido da sociedade sem classe. Aonde chega o desplanto!


Afinal, quem és tu PSD?


 

segunda-feira, 27 de abril de 2015

O amado líder

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O discurso do Presidente da República Cavaco Silva no Parlamento nas comemorações do 25 de abril de 2015 foi ovacionado pelos partidos PSD e CDS que sustentam o Governo. Foi uma manifestação de apoio ao discurso do amado líder, educador e orientador do maior partido que faz parte do Governo e, pretensamente, de todo o povo, na proximidade de eleições legislativas.


Mais pareciam aquelas manifestações de apoio ao líder na pretensa Assembleia Popular Suprema da Coreia do Norte. Há contudo uma grande diferença, é que, felizmente, em democracia nem todos são obrigados a aplaudir quando não se concorda, ao contrário do regime daquele país coreano.



A maior parte da intervenção do Presidente da República foi orquestrada em prol do Governo numa quase campanha eleitoral e, mais uma vez, de colagem ao que Passos Coelho e o seu Governo têm vindo enganosamente a lançar para a opinião pública.


Ao fazer apelo ao consenso nesta fase política só não seria perder o bom senso se, como se depreendeu e verificou posteriormente, não fosse conseguido entre os partidos da própria maioria.


Pretende mostrar uma atitude de colocação acima da política e dos políticos, mas sempre que intervém está fazer política, e da má.

segunda-feira, 6 de abril de 2015

A propósito de Manoel de Oliveira

 


O desaparecimento do vulto incontornável do cinema português Manoel de Oliveira trouxe-me à memória recordações do tempo em que despertei para o gosto pela sétima arte. A minha adolescência foi marcada por idas frequentes ao cinema. Na altura, quando a televisão se iniciava em Portugal e as telenovelas com o seu mundo irrealista não tinham ainda chegado mente os cinemas de bairro eram locais de encontro e divertimento. Recordo o Cinema Lis que posteriormente se passou a designar Roxy, o Cinema Imperial que mais tarde passou a chamar-se Pathé Cinema localizado na Rua Francisco Sanches nº 157, edifício que ainda hoje existe, embora abandonado e quase em ruínas.


Cinema Lys.png


Cinema Pathe.png


 


Naqueles cinemas, ditos de reposição, passei horas a fios a ver bons e maus filmes. Via quase tudo o que aparecia por lá.


Mais tarde, já próximo dos meus 18 ou 19 anos dois amigos que frequentavam comigo o Colégio Clenardo na Rua do Salitre, já próximo do Largo do Rato e que já não existe, partilhavam comigo o mesmo gosto pela sétima arte.


Nessa altura existia ali próximo uma lojinha de venda de produtos em segunda mão, cuja montra fazia esquina daquela rua com o largo, onde parávamos a contemplar uma máquina de filmar de 8 mm e um tripé. Ao contrário dos dias de hoje não tínhamos acesso fácil ao dinheiro por parte dos pais. Aquela máquina que parecia olhar para nós espevitava-nos os sonhos que iam desde a constituição de um cineclube até à realização de pequenas metragens em película de amador.


Era o tempo em que os cineclubes eram locais de reflexão cultural e política, esta apenas entre linhas porque o regime do Estado Novo, diria que mais velho e a cair de podre, não o permitia com as linhas todas. Revistas com a Filme editada entre finais dos anos 50 e finais de 60, a revista Plateia, esta mais popular e com conteúdos mais ligeiros, e, claro, sempre que as finanças o permitiam, os Cahiers du Cinéma, revista publicada desde os anos 50 que devorava sempre que podia.


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Muito antes já Manoel de Oliveira tinha realizado para além de Aniki Bóbó (1942) e Douro Faina Fluvial (curta metragem 1931) que passavam em cineclubes para além de outras dezenas de filmes, documentários e curtas metragens.



 


Outro filme A Divina Comédia de 1991 



 


Party de 1996



 


A maior parte dos jovens da minha idade sonhavam ser atores galãs de filmes, eu gostava de estar por detrás das câmaras como realizador, coisa que nunca consegui.


Só muito mais tarde no final dos anos 90 tive a oportunidade de lecionar no curso de audiovisuais numa escola profissional onde os contactos e o trabalho de equipa com colegas profissionais de cinema e de televisão abriram-me horizontes do mundo deste mundo que nunca vim a concretizar a não ser como espetador interessado e atento. Alguns dos meus alunos de então enveredaram por uma carreira na área do documentário. Recordo especialmente dois porque de outros não mais tive notícias. O Kiluange Liberdade e o Tiago Pereira.


 


Tiago Pereira O Povo que ainda Canta



Kiluange Liberdade


 


  


Kiluange Liberdade A Minha Banda e Eu - Documentário - Semba e Kizomba


 



Entretanto naquela altura estávamos nos anos 60, Maio de 68 e as contestações estudantis em França estavam no seu auge e foram pretexto para Godart realizar um documentário sobre a revolta estudantil de Paris. Decorreram seis anos e o 25 de abril de 1974 trouxe a Portugal a democracia.


Maio de 68_Paris.png


 



Ao tempo era em França que tudo acontecia e o cinema europeu, especialmente o cinema francês, estava na moda e os realizadores da Nova Vaga François Truffaut, Jean-Luc Godard, Eric Rohmer e Claude Chabrol, entre outros, eram os mais representativos.


Ma Nuit Chez Maud realizado em 1961 por Éric Rohmer foi para mim surpreendente porque transformava as imagem em palavras. O importante era o discurso e não apenas as imagens.


 



Muito antes já Manoel de Oliveira tinha realizado para além de Aniki Bóbó (1942) e Douro Faina Fluvial (curta metragem 1931) para além de grandes metragens para além de dezenas de filmes, documentários e curtas-metragens.


 


 


 


A Divina Comédia de 1991 noutro filme


  



Party (1996)


 


Vi poucos filmes de Manoel de Oliveira em salas de cinema e alguns poucos dos que passaram na televisão. Sobre os seus filmes tenho ouvido comentários, frequentemente de jovens, e até adultos,  habituadas ao cinema americano com sequências e planos cada vez mais rápidos, dizer que os filmes de Manoel de Oliveira são "chatos", muito lentos e sem ação. Comparam o incomparável, os filmes de Manoel de Oliveira são arte cinematográfica, tem estética que lhe é dado pelos enquadramentos e planos muito longos que são autênticos quadros que conduzem o espectador à contemplação da ação.


Não foi por acaso que lhe foram atribuídos vários prémios.

domingo, 27 de abril de 2014

O 25 de Abril de 2014














O 25 de Abril de 2014. Imagens Soltas


O melhor e mais participado dos últimos dez anos o 25 de Abril mostrou que  continua presente no espírito de todos os portugueses apesar de alguns, poucos, que gostariam fosse reduzido a discursos ocos, oportunistas e de ocasião efetuados na Assembleia da República, até à sua extinção final...






 



 



 


quinta-feira, 24 de abril de 2014

Abaixo a segregação, 25 de Abril com todos

 


 VIVA o 25 de ABRIL


 


40 ANOS


A Revolução dos cravos



 



VIVA A REVOLUÇÃO QUE DEU LIBERDADE AOS PORTUGUESES E OS INCLUIU A TODOS NO SEU PROJETO


 


ABAIXO QUEM QUER UM PROJETO SÓ



PARA ALGUNS E QUE SEGREGUE UMA PARTE DOS PORTUGUESES


 


 


 


 


 


Revivendo


 

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Os interesseiros





Várias notícias que têm vindo a público nos órgãos de comunicação ao longo dos últimos trinta anos de democracia levam a pensar que possa existir um Estado paralelo, oculto e profundo, que está para além do que é visível e legível, para nós, cidadãos comuns. Os setores que afeta serão o judiciário, as polícias, as forças segurança, as autarquias, os ministérios mas não se quem os domina. Às vezes toma-se conhecimento disto pela comunicação social e por algum bom jornalismo de investigação. Saltam à vista casos como as prescrições e atrasos da justiça como por exemplo nos processos do BCP e BPN e isto para citar apenas o que têm sido mais noticiados ultimamente.


Se enveredarmos por uma teoria da conspiração poderíamos dizer que parece haver "conspirações" ou melhor, pressões religiosas, laicas, de esquerda, de direita, monárquicas, lóbis homossexuais, financeiros e nacionalistas que se movimentam "por aí" veladamente.


Foi devido ao modo como foi sendo construída a democracia que facilitou que aquelas forças se instalassem e tomassem conta do poder através de lóbis e influências, seja sobre que partido for que tenha estado ou esteja no Governo para capturar o Estado em seu favor.


Pode pergunta-se como foi possível um país se ter deixado dominar por estes grupos? A resposta parece ser simples, foram o entrosamento e a promiscuidade na política, já mais do que uma vez denunciados, os motores deste estado de coisas. Não é por acaso que a legislação produzida pelos Governos é encomendada, não raramente e a custos elevados, a gabinetes jurídicos privados associados a grupos de interesses.


Uma classe de banqueiros e de empresários e muitos outros espécimes que ascenderam à classe média alta após o 25 de abril de 1974, do qual se serviram, apropriaram-se indiretamente do aparelho de Estado, foram o motor e o suporte de sustentação que conduziu ao estado em que nos encontramos.


Apesar das iniciativas e novas leis “não existe em Portugal uma estratégia nacional de luta em vigor contra a corrupção”, acusou Bruxelas, que incita o país a apresentar um registo de resultados comprovados dos processos judiciais (Jornal Público fev/2014). 


Portugal em 2013 mantinha o 33.º lugar no Índice de Perceção da Corrupção da organização Transparência Internacional conforme tem sido denunciado em vários órgãos e comunicação, veiculado por instituições de combate à corrupção. Apesar de Portugal assinar todas as convenções contra a corrupção (ONU, OCDE e outras), depois, não desenvolve as atividades aí previstas, designadamente criação de estruturas especializadas de combate à corrupção, proteção dos denunciantes de casos de corrupção. Há pois todo um "conjunto de compromissos" que o Estado português assumiu no papel e que depois não concretiza. O que leva à suspeita de que há interesses para que tudo se mantenha como está.


Um dos domínios onde a corrupção se pode tornar mais evidente é a contratação pública que, de acordo com o relatório anticorrupção da U.E., é um "domínio de grande importância para a economia da UE, dado que cerca de um quinto do PIB da UE é gasto anualmente por entidades públicas na aquisição de bens, obras e serviços. É também um domínio vulnerável à corrupção" e acrescenta apelando à "criação de padrões de integridade mais exigentes no domínio dos contratos públicos e sugere melhoramentos dos mecanismos de controlo em determinados Estados-Membros.".


Num Portugal em crise é onde existe cada vez um mais pequeno número de pessoas que detêm a maior parte da riqueza nacional, isto é, os 25 mais ricos de Portugal são hoje donos de 10% do PIB quando há um ano as suas fortunas não chegavam aos 8,5% do PIB. Numa altura em que a riqueza disponível em Portugal é cada vez menor, os mais ricos do país estão a acumular cada vez mais fortuna.


Com muito ricos, social e politicamente influentes que se apropriaram da democracia para a modelarem aos seus interesses, uma classe média que hoje não é mais do que remediada e cada vez mais pobre e sem força, associados a um número cada vez maior de pobres não é difícil que os Governos fiquem reféns e, consequentemente, o Estado deixe de servir os interesses coletivos em favor de interesses pessoais e de grupos específicos que movimentam nos seus meandros.


Os primeiros possuem uma espécie de "wi-fi", que opera segundo padrões que não necessitam de licença para instalação e/ou operação, movimentando "frequências" e "canais" entre os seus apoiantes para beneficiarem dos negócios que lhe interessem. Detendo canais de informação e de comunicação através de órgãos de comunicação social podem agilizar o condicionamento e o comportamento dos cidadãos num determinado sentido de interesses. A própria publicidade paga, alguma dela disfarçada de artigos e de notícias, publicada na imprensa pode ser uma forma de sugestão e condicionamento.


Não é por acaso que, em épocas eleitorais, órgãos de comunicação social, especialmente da área audiovisual e de acordo com as suas orientações ideológicas direcionam o "jogo" a favor ou contra os intervenientes em confronto, sejam eles partidos ou pessoas.


Assim, os órgãos de comunicação podem operar de modo a que politicamente direcionem o noticiário jornalístico a partir de suas opiniões conservadoras, ou não, procurando definir a agenda pública e política do país a partir de entrevistados facilitando visões alinhadas e dificultando as não-alinhadas não facilitando muitas das vezes o contraditório.


Especialmente em épocas leitorais ou pré-eleitorais e por maioria de razão nas europeias que se aproximam há que ter bem atenção a potencial manipulação tendenciosa de noticiários e reportagens, aparentemente isentas, que possam favorecer forças políticas facilitadoras da manutenção de  situações que se acabam de referir.