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sábado, 22 de novembro de 2025

O carrossel de André Ventura

Ventura nuvem de palavras.png


Nada de novo com o agora candidato à presidência da república André Ventura. A estratégia como líder do partido Chega não se altera, não muda é igual a si mesmo.


Para Ventura ser candidato à Presidência da República é o mesmo que ser candidato a primeiro-ministro ou mesmo como deputado. Nada muda, nem no estilo, nem na atitude, nem no comportamento.


Nas entrevistas e debates, sejam quais e onde forem, a sua atitude mantém-se, manifestando e reagindo a situações e a pessoas conforme o seu modo de sentir ou avaliar algo ou alguém, assim como o seu comportamento expresso por ações observáveis e exteriores às atitudes, mantendo as emoções.


Assim, a disposição interna de André Ventura perante os seus adversários políticos, temas polémicos e o modo como reage emocionalmente e avalia situações nos debates, mantem sempre uma postura combativa e crítica, independentemente do cargo a que se candidata.


Um psicólogo poderia avaliar este estado como uma atitude interna de firmeza e convicção, que não se altera com o contexto. O seu comportamento motor, verbal, cognitivo, emocional e social é denunciado através das suas atitudes e comentários durante entrevistas ou debates. Cite-se, a título de exemplo, factos como interromper adversários, usar um tom assertivo ou desafiar regras dos debates.


A postura de André Ventura, enquanto figura política, revela uma notável constância tanto na sua atitude como no seu comportamento, independentemente do cargo a que se candidata ou do contexto em que participa em debates públicos. Não há alterações visíveis na sua forma de se posicionar perante os adversários políticos, mantendo sempre uma postura combativa, crítica e por vezes provocatória. Seja como candidato à Presidência da República, a primeiro-ministro ou enquanto deputado, Ventura apresenta as mesmas estratégias, o mesmo estilo comunicativo e as mesmas expressões emocionais.


Esta coerência manifesta-se tanto a nível interno, na sua disposição e convicção, como externamente, através de comportamentos nas entrevistas e debates, nomeadamente, a tendência para interromper adversários, adotar um tom assertivo e desafiar as normas dos debates. O seu comportamento motor, verbal, cognitivo, emocional e social mantém-se estável, perante o público e interlocutores, reforçando a imagem de firmeza e convicção, para além das contradições.


Uma das suas estratégias é o uso de soundbites, palavras ou frases que ele sabe que têm impacto em parte do eleitorado e que fazem parte dos trechos do seu discurso que sempre usa para resumir as ideias do seu ponto de vista político.


Outra estratégia adotada por Ventura nos debates consiste em dirigir-se ao interlocutor interrompendo-o de modo que muitas vezes ele não seja escutado pelo público. Típica atitude de forte pressão verbal. Lança mão de estímulos que provocam reações emocionais intensas e frequentemente impulsivas nos seus oponentes, influenciando desse modo o ritmo do debate.


Há palavras que Ventura utiliza para descredibilizar o adversário ou interromper o raciocínio alheio tais como “vergonha”, talvez a palavra mais frequente em expressões como “Tenha vergonha” ou “É uma vergonha”, que servem para reivindicar superioridade moral sobre o seu oponente. A estas junta-se o tema central da sua narrativa que é “Corrupção” que utiliza para colar os adversários especialmente PS e PSD a escândalos passados.


Outras palavras são “Mentira” e “Mentiroso” que emprega sistematicamente para refutar dados apresentados pelos oponentes, muitas vezes sem os contra-argumentar, atacando unicamente a intenção. A sua luta é contra o seu inimigo abstrato que é o “Sistema”! Para André Ventura tudo o que está errado é culpa do “sistema” ou dos “interesses instalados”.


Mas há mais, usa até à exaustão, frases referentes ao apelo identitário do ‘nós’ contra ‘eles’, para criar uma ligação direta com o telespectador, os portugueses e outros políticos. Coloca-se frequentemente como sendo o único intérprete do sentir da vontade dos portugueses, o povo, com palavras com expressões como “Os portugueses sabem”, “Os portugueses sentem “.


Foca-se também no custo de vida para demonstrar empatia com a economia doméstica dos portugueses, falando em “bens de primeira necessidade” e “famílias”.


O alarmismo e o medo são instrumentos usados para instalar o sentimento de insegurança e criar um inimigo comum, justificativo para um governo autoritário que apela à força e à intolerância, tal como o fascismo clássico usa o medo para consolidar o seu poder, e caracterizado pelo seu nacionalismo exacerbado, pelo autoritarismo, anticomunismo e antissocialismo, mesmo o socialismo democrático.


O vocabulário de alarmismo e de medo são referidos para criar um sentido de urgência ou de catástrofe iminente. Palavras como “migração” ,”imigrantes” associados a termos como “descontrolo”, “portas escancaradas” ou “invasão” são usadas para gerar também a ideia de que o país é perigoso e que as forças de autoridade estão desprotegidas. Daí a insistência em palavras que surgem nas narrativas de Ventura como aumento de “Criminalidade”, ausência de “Segurança”, desautorização da “Polícia”.


O estado da saúde e do SNS não ficam de fora do discurso de André Ventura e outros temas que saem dessa perigosa figura Rita Matias. O estado da saúde (SNS) ou da educação são descritos como “caos” recorde-se o caso de Rita Matias ter lido e passado nas redes sociais nomes de crianças estrangeiras matriculadas numa escola em Lisboa, alegando que passam à frente das crianças portuguesas, sem nunca o ter conseguido provar. “Subsídios” e    “Subsídio-dependentes” são os vocábulos usados para criticar quem recebe apoios do Estado (RSI), criando divisão entre “quem trabalha” e “quem não quer trabalhar”.


Rita Matias-perigosa irritante.png.jpg


O termo “limpar” do discurso “Vamos limpar Portugal” concentra a ideia de purificação das instituições.


Vejamos outras frases de André Ventura: “Um presidente não pode achar que um imigrante é igual a um português”


“Quem quiser usar burca não faz cá falta, boa viagem”


 “Montenegro é frouxo e morno”, “Se a polícia tiver de entrar a matar, tem de entrar a matar”, etc..


Muitos outros vocábulos e frases poderíamos encontrar nas narrativas de André Ventura do Chega, mas estes são os principais que identifiquei para usar como a repetição se torna numa espécie de carrocel durante comícios, entrevistas e debates.


Para finalizar vejam este vídeo que sintetiza tudo o que por palavras aqui foi descrito.



Fonte: Youtube-bruttosuave


 

segunda-feira, 3 de novembro de 2025

Extrema-direita imigração de portas abertas e eleições presidenciais

Imigração-acolhimento.png


Já entrámos em pré-campanha eleitoral para a Presidência da República e por entre os vários candidatos surge o líder do partido Chega André Ventura. É, assim, previsível que o tema da imigração venha a ser reanimado e trazido à discussão tendo em conta a polémica que os cartazes da sua campanha já desencadearam.


O destaque que André Ventura imprime à temática da imigração, ao enfatizar uma presença excessiva de imigrantes, parece ter-se revelado uma estratégia eficaz na conquista de votos e apoio eleitoral. Esta abordagem, ao centrar o debate nas emoções em torno dos receios e inquietações em determinados segmentos da população, tem-lhe permitido captar o interesse e a adesão de muitos eleitores.


Com o início da pré-campanha eleitoral para a Presidência da República, o líder do partido Chega, André Ventura, assume um papel de destaque entre os candidatos. É previsível que o tema da imigração volte a ser central no debate político, especialmente considerando as controvérsias já geradas pelos cartazes da sua campanha. Ao explorar essas preocupações, Ventura consegue captar o interesse e a adesão de muitos eleitores, reforçando assim o espaço político do Chega.


O seu posicionamento crítico face à imigração, frequentemente reiterado no discurso público e nos materiais de campanha como os referidos cartazes de campanha já levantaram polémica e tem sido determinante para consolidar o seu espaço político e aumentar a sua influência no panorama eleitoral português.


Falar ou escrever sobre imigração sob uma perspetiva que difere do discurso dominante acarreta desafios significativos. Já abordei este tema em diversas ocasiões, e é inevitável sentir a preocupação de que qualquer análise mais crítica possa ser imediatamente associada às posições defendidas pelo líder do Chega. Esta realidade torna o debate sensível e complexo, pois existe o risco constante de ver as minhas opiniões confundidas com as de uma corrente política específica.


Ao contrariar a visão dominante quando se abordam ideias que se afastam da visão partilhada pela maioria, persiste sempre o risco de que estas sejam mal interpretadas ou gerem controvérsia. Este posicionamento, embora necessário para um debate plural, frequentemente entra em conflito com o meu próprio ponto de vista e consciência sobre o meu pensamento, gerando falsas interpretações.


Apesar das possíveis divergências entre opinião pessoal e consenso social, é fundamental que se exprima aquilo que se observa e sente, especialmente quando tal reflete o sentimento duma parcela significativa da população. Nos grandes centros urbanos, estas perceções, mesmo quando não sustentadas por dados objetivos, manifestam-se de forma intensa e merecem ser consideradas no debate público, pois revelam inquietações e realidades vividas no quotidiano.


Recordem-se as polémicas geradas quando o projeto de lei aprovado pelo Parlamento português que proíbe o uso de vestimentas que ocultem o rosto em espaços públicos a chamada “lei da burca” que desencadeou uma série de comentários e artigos de opinião nos órgãos e comunicação. Mesmo aqueles a quem Portugal abriu as portas saem à rua em manifestações (não ponho em causa o direito ao protesto), mas ao procederem a exigências ao país que os acolhe remete para uma atitude de que a cultura do país de acolhimento não tem de ser respeitada, antes pelo contrário, deve ser imposta sua cultura àqueles que os acolhem na sua “casa”. Este tema tornando-se um símbolo das tensões existentes em torno das questões de integração e respeito pelas normas do país de acolhimento.


As manifestações públicas organizadas por alguns daqueles que beneficiaram da hospitalidade portuguesa, embora legítimas no seu direito ao protesto, trouxeram à tona um debate delicado. Quando, durante estas manifestações, se fazem exigências ao país de acolhimento, surge a perceção de que pode não haver uma plena aceitação da cultura local. Ao invés disso, pode parecer que há uma tentativa de impor os valores e costumes de origem à sociedade que os recebe, desafiando os princípios de integração e respeito mútuo.


O fenómeno migratório, longe de ser um processo linear, envolve fatores sociais, económicos e culturais que desafiam tanto as comunidades de acolhimento como as dos que recebemos. A perceção pública sobre a imigração é frequentemente moldada por narrativas mediáticas, discursos políticos e comentários polarizados que, grande parte das vezes, distorce a compreensão real dos benefícios e desafios associados à integração de novas populações.


A perceção pública sobre a imigração é frequentemente contrariada por narrativas mediáticas e discursos políticos que tendem a polarizar o debate. Comentários e análises difundidos pelos media podem distorcer o entendimento coletivo acerca dos verdadeiros benefícios e desafios inerentes à integração de novas populações. Assim, o debate sobre a imigração raramente reflete a realidade total dos processos de integração, sendo muitas vezes marcado por interpretações parciais ou sensacionalistas.


A ascensão dos partidos populistas de extrema-direita, como o Chega, está intrinsecamente ligada à instrumentalização de temas sensíveis como a etnia cigana e a imigração. Este fenómeno político alimenta-se de uma retórica que explora emoções e receios latentes na sociedade, direcionando o debate público para questões identitárias, nacionalistas e de segurança. O partido Chega utiliza a imigração como ponto central do seu discurso, promovendo uma visão crítica e alarmista sobre a presença de imigrantes no país.


No caso concreto do Chega, para além da corrupção e da criminalidade a imigração tornou-se o eixo central do seu discurso, sendo abordada de forma crítica e frequentemente alarmista. Esta abordagem visa criar uma perceção de ameaça associada à presença de imigrantes no país, explorando inseguranças quanto à preservação da identidade nacional e à estabilidade social. O partido utiliza esta estratégia para consolidar a sua base de apoio, apresentando-se como a voz que denuncia aquilo que considera serem os riscos e desafios decorrentes da integração de novas populações.


Assim, o fenómeno político em análise revela-se alimentado por uma retórica polarizadora, que procura dividir a opinião pública e mobilizar segmentos da população que se sentem desamparados ou ignorados pelas políticas tradicionais. Ao focar-se na imigração e em questões identitárias, o Chega posiciona-se como alternativa ao discurso dominante, promovendo uma visão que enfatiza os potenciais impactos negativos da imigração na sociedade portuguesa.


Numa entrevista que deu para um livro de Gustavo Sampaio, André Ventura disse sobre a imigração que «… problemas com um impacto mais significativo, talvez, no dia-a-dia das pessoas, exceto em algumas zonas do território. Refiro-me à imigração». Continua referindo-se ainda à imigração que, «portanto, não podia deixar de abordar este tema. Vejo aliás que somos o único partido no Parlamento com coragem para o fazer. Nenhum outro partido aborda o tema da imigração. E quando o aborda, é para dizer que precisamos de mais gente, ou que está tudo bem assim…».  


A resposta ao crescimento dos movimentos de extrema-direita apresenta-se como um fenómeno multifacetado, sendo a imigração apenas uma de suas dimensões, além do descontentamento económico e social decorrente de crises financeiras, desemprego, precarização das relações de trabalho e redução do poder de compra, fatores que contribuíram para um ambiente de insatisfação, notadamente entre as classes médias e trabalhadoras. Observa-se uma perceção de que os partidos tradicionais não têm proporcionado soluções eficazes para tais questões, o que gera desconfiança nas instituições e na política tradicional, agravada por episódios de corrupção, promessas não cumpridas e o distanciamento percebido entre representantes políticos e cidadãos. Esse conjunto de fatores tem alimentado o desencanto com a democracia liberal, criando condições favoráveis ao surgimento de partidos autodeclarados “antissistema”, como é o caso do Chega.


Todavia há um ponto comum entre os partidos populistas da extrema-direita que centram a sua narrativa no aumento excessivo da imigração, especialmente após a crise dos refugiados de 2015 que gerou o levantamento de questões identitárias e culturais.


Aqui chegado vem à memória a “teoria da conspiração sobre a substituição da população europeia por imigrantes”, amplamente conhecida como a teoria da “Grande Substituição” e adotada pelas extremas-direitas como forma de encarar a imigração porque é uma teoria conspirativa que alega a existência de um plano deliberado e secreto, frequentemente atribuído a elites políticas ou a grupos globalistas, para substituir a população branca e cristã da Europa por imigrantes não-brancos e não-cristãos, geralmente muçulmanos.


Esta teoria, aproveitada pelas extremas-direita radicais e nazis, é considerada uma narrativa conspiratória, racista e xenófoba, que distorce dados demográficos e atribui as mudanças populacionais naturais e complexas a um plano secreto e malicioso. Ainda que esta teoria da conspiração, como tantas outras idêntica sejam um disparate podemos, contudo, fazer uma abordagem meramente teórica do ponto de vista estritamente duma projeção demográfica de taxas de natalidade e de fecundidade/fertilidade o que virá a ser tema dum próximo POST.

quarta-feira, 1 de outubro de 2025

A verdade das mentiras

"Primeiro, eles fascinam os tolos.


Depois, amordaçam os inteligentes!"


 Betrand Russel, filósofo do séc. XX


Temos de abrir caminho para resistir civicamente ao avanço da desumanidade autoritária seja ela extremista de direita ou de esquerda, e os mais jovens que sempre viveram em liberdade nem sempre sabem ao certo qual o seu verdadeiro significado. Não adiante denegrir o Chega porque já vimos que isso apenas o reforçou, mas fazer de conta que não existe e tão-pouco normalizá-lo também não funciona.


Ventura Análise das narrativas.png


Na última década testemunhámos a ascensão de líderes, movimentos e políticas populistas em muitas democracias liberais pluralistas. Portugal não foi exceção. Este novo populismo é sustentado por uma inventada política de pós-verdade que usa as redes sociais como porta-voz de “notícias falsas” e “factos alternativos” com a intenção de incitar ao medo e ao ódio do “outro”, construções que estão relacionadas ou referidas a circunstâncias nas quais factos objetivos são menos influentes na formação da opinião pública do que apelos à emoção e à crença pessoal. Prevalece o apelo à emoção do povo em lugar do racional.  Recorde-se o caso de Donald Trump que afirmou publicamente, num evento realizado em setembro nos EUA, onde disse: “Odeio os meus adversários e não quero o melhor para eles" frase que incita ao ódio sobre quem não o apoia. Não é uma “fake news”  é um facto que revela até onde pode ir o incitamento à emoção e ao ódio. No entanto ainda há quem o admire e até concorde com a política por ele seguida.


O presidente do partido CHEGA, André Ventura, vai novamente candidatar-se à Presidência da República em 2026. Justifica a sua candidatura dizendo que “o espaço de luta contra a corrupção e contra a imigração descontrolada não podia ficar sem candidato”.


Não me causará admiração se ele chegar à segunda volta. Os candidatos que se apresentam com exceção do almirante Gouveia e Melo são fracos e os portugueses estão fartos de comentadores televisivos como presidentes e Luis Marques Mendes é um deles, assim, como outros com perfil de democratas, mas sem força e inseguros tais como como António José Seguro não apresentam grande confiança. Alguém que nunca esteve ao serviço de forças partidárias e apresente características de independência pode ser uma vantagem.


Vamos ao caso que nos interessa neste momento e sair do ruído para analisar as narrativas de André Ventura ao longo dos últimos dois anos e tentar conhecer o que está por de baixo do tom combativo e do padrão que emerge das suas intervenções e textos que se baseiam, fundamentalmente, no endurecimento penal e imigratório, na revisão constitucional como “chave mestra”, e no discurso anticorrupção repetido e baralhado que, no meio da predominância e importância do processo socioeconómico, não tem sustentabilidade e falha em toda a linha.


Por outro lado, as frases ditas e mentiras mil vezes repetidas, propagadas nas redes sociais vieram a tornar-se realidades aceites por impreparados dos mais diversos matizes sociais que as aceitam irrefletidamente sem ponderarem nas respetivas consequências.


O populismo terminou com os princípios burgueses da decência, da retidão, da palavra ou da honra que eram também contestados pelos radicais da esquerda.


Temos de reaprender a ler, a interpretar e a viver neste novo mundo à luz da reflexão e da razão. Temos de abrir caminho para resistir civicamente ao avanço da desumanidade autoritária seja ela extremista de direita ou de esquerda, e os mais jovens que sempre viveram em liberdade nem sempre sabem ao certo qual o seu verdadeiro significado.


Não adiante denegrir o Chega porque já vimos que isso apenas o reforçou, mas fazer de conta que não existe e tão-pouco normalizá-lo também não funciona.


A resistências tem de ser a desmontagem de todas as suas contradições. As formações cívicas e políticas não se ajustam a “leituras” escritas e imagéticas assimiladas sem critério e sem reflexão que proliferam nas redes sociais onde as máquinas de propaganda e de desinformação são destinadas, sobretudo, para convencer os mais jovens politicamente inexperientes.


Para análise dos eixos temáticos recorrentes na retórica e narrativas de André Ventura, porque é deste que falamos, utilizei uma metodologia baseada em excertos de três tipos das suas intervenções públicas:



  • Debates televisivos (2019–2024) analisados pela Renascença

  • Discurso no Conselho Nacional do Chega (12 set 2025)

  • Discurso de abertura da V Convenção Nacional do Chega (27 jan 2023)


As intervenções de Ventura baseiam-se num tom combativo quer nos debates e discursos partidários quer em assembleias públicas. Torna-se evidente o modo como Ventura estrutura a sua argumentação e constrói a sua imagem política com discursos que recorrem frequentemente à repetição de temas-chave, polarização nos debates e utilização de exemplos concretos através de imagens ou dados, cuja veracidade é por vezes discutível, para dramatizar questões sociais.


A sua abordagem, emocionalmente mobilizadora, aposta na simplicidade das soluções apresentadas e na clara distinção entre “nós” e “eles”, fomentando uma identidade de grupo entre apoiantes e tenta promover a perceção de rutura face ao sistema vigente. Contudo faz questão de mostrar que pretende ganhar o que, afinal, mostra uma vontade de fazer parte do sistema. Que diz querer mudar.


O recurso a slogans e ideias força como por exemplo “tolerância zero”, “Portugal primeiro”, “fim da impunidade” que serve uma retórica que privilegia a clareza e o impacto mediático sem atender à complexidade dos problemas e das soluções.


A estratégia comunicacional de André Ventura é marcada pela presença ativa nas redes sociais e pela aposta em formatos de comunicação direta, como vídeos curtos, sessões ao vivo e fóruns abertos, onde a mentira e a produção de notícias falsas ou truque amplificadas pelo exagero das situações escolhidas. A estratégia dos vídeos e cassetes foi utilizada por Silvio Berlusconni, bilionário, empresário e político italiano que foi Primeiro-ministro da Itália durante vários anos que, antes da popularização das redes sociais, enviou uma cassete de vídeo para todos os canais de televisão de Itália e poucos meses depois estreou-se como primeiro-ministro após  a astúcia da cassete que, sem intermediários falou ao povo através de monólogo emocional uma espécie do que políticos atuais populistas, ou não, fazem usando as redes sociais.


Esta estratégia tem como objetivo criar uma proximidade com o eleitorado, contornar filtros mediáticos tradicionais e estabelecer um canal de comunicação onde a mensagem seja transmitida sem intermediários, fora da comunicação social corrente, em redes sociais, nas quais se manipula o modo emotivo, que hoje é o mecanismo dominante do discurso nesses locais, consolidando, assim, uma base de seguidores altamente envolvida.


André Ventura explora as vulnerabilidades da opinião pública, recorrendo a uma lógica de simplificação binária de dois polos opostos, por vezes contraditórios, e à exploração de medos difusos. Estas dinâmicas, aliadas à eficácia da máquina de propaganda partidária, contribuem para a sedimentação das principais narrativas que sustentam a sua candidatura e reforçam o posicionamento do Chega enquanto força política de contestação, Ventura “foi capaz de instituir a perceção generalizada de um país corrupto, liderado por políticos infames, analisado por cientistas e jornalistas vendidos, colonizado por imigrantes oportunistas e criminosos, até porque casos como o das multas dos bancos, dos prémios do Novo Banco ou a história da Spinumviva lhe facilitam a vida.”, de acordo com um artigo de opinião de Manuel Carvalho no jornal Público.


Devo aqui acrescentar que tudo que que se possa fazer, dizer ou escrever sobre André Ventura seja em artigos de opinião, vídeos, mensagens, comentários, livros, televisão ou análises como esta que realizei, nos quais ele seja protagonista, facilitam-lhe a vida da sua propaganda. Mas, citando uma frase do livro a Arte da Guerra de Sun Tsu, “Se conhece o inimigo e se conhece a si mesmo, não precisa temer o resultado de cem batalhas. Se se conhece mas não conhece o inimigo, para cada vitória ganha sofrerá também uma derrota. Se não conhece nem o inimigo nem a si mesmo, perderá todas as batalhas.”


**********


Uma análise de conteúdo das intervenções de André Ventura (últimos 2 anos)


O que está por baixo do tom combativo de André Ventura e o padrão que emerge nos discursos e textos nos últimos dois anos?


Estratégias retóricas e estilo


Anticorrupção palavra de ordem como apoio discursivo



  •  Há uma discrepância intencional entre a sua atitude quando fala para uma assistência a partir do seu “palco” e o programa do partido. Discurso para mobilizar, mas sem proposta de governabilidade ou pouco coerente no programa.

  •  A palavra “corrupção” surge repetida no texto programático (45 vezes), mas é sinalizada como um apoio emocional/moral do discurso com o registo oral incendiário, mesmo quando a proposta escrita assume tom mais tecnocrático.


Polarização moral e nacional



  • Para justificar a prioridade aos nacionais agita uma hierarquia afetiva como a de “amamos primeiro os nossos”, estabelecendo medidas restritivas de imigração não apenas securitárias, mas também culturalmente de proteção.

  • Propõe soluções fortes para casos simples que exagera com penas máximas, metas absolutas como “tolerância zero”. O léxico que utiliza privilegia a emoção à qualidade jurídica da atuação, depois reformatado em propostas com linguagem de reforma “estrutural”.


Observa-se, portanto, uma evolução discursiva marcada pela adaptação estratégica do vocabulário e pela mudança de abordagem, sem abandonar a intensidade dos temas de modo a adaptar-se a uma linguagem aceite por algumas faixas de população e pelos grupos mais jovens como se verá mais adiante.


Este percurso revela uma transição de uma comunicação polarizador, identitária e de rutura para uma abordagem mais racionalizada em propostas institucionais e promessas de eficiência.


A linguagem torna-se, assim, não só um instrumento de mobilização, mas também de legitimação perante o eleitorado, refletindo a tentativa de ocupar novos espaços no debate político e conquistar legitimidade governativa, o que pode ser observado no seguinte quadro.


 



Domínios do discurso



Itens de uma determinada sequência de texto e palavras mais salientes



Função retórica


Técnicas e estratégias utilizadas para persuadir o público, moldar a sua mensagem e alcançar um objetivo comunicativo específico



Justiça/segurança



prisão perpétua;


castração química



Severidade punitiva



Constituição



revisão constitucional;


Tribunal Constitucional



Reconfigurar regras



Imigração



controlos fronteiriços; residência ilegal



Ordem/controlo



Corrupção



enriquecimento ilícito;


confisco de bens



Limpeza do sistema



Cultura/educação



ideologia de género; educação parental



Guerra cultural



 


Vejamos agora a estratégia discursiva de André Ventura para mobilizar os mais jovens, (e não apenas), que combina elementos populistas, digitais (utilização de redes e comunicação vídeo) e identitários que, afinal, não diferem muito da sua narrativa habitual dos quais se destacam alguns dos seguintes pontos-chave:


 


 



  • Linguagem simples, direta e emocional



  • Evita tecnicismos e usa frases curtas e fortes, que apelam mais ao sentimento do que à racionalidade.

  • O uso de polarizações claras (concentração de forças num determinado ponto por oposição a outro “nós contra eles”, “os jovens esquecidos vs. a elite política”)  que cria um sentimento de pertença e urgência.



  • Narrativa de exclusão e oportunidade



  • Apresenta os jovens como uma geração sacrificada: precariedade laboral, dificuldades no acesso à habitação, falta de futuro em Portugal.

  • Posiciona-se como o político que “diz o que ninguém diz” e que pode devolver oportunidades e esperança.



  • Apelo à rebeldia e ao inconformismo



  • O discurso funciona como um convite à “rebeldia contra o sistema”.

  • A narrativa é construída como antissistema porque se diz contra as instituições oficiais, sejam elas políticas, económicas ou sociais, da forma vigente da sociedade,  o que atrai jovens que se sentem distantes da política tradicional.



  • Uso estratégico das redes sociais



  • Forte presença em TikTok, Instagram e YouTube, com vídeos curtos, memes e transmissões em tempo real.

  • Conteúdo feito para ser facilmente partilhado, usando humor, provocação e linguagem próxima da gíria jovem.

  • Estilo “influencer político”, aproximando-se das práticas comunicacionais dos jovens.



  • Temas com apelo juvenil



  • Habitação: dificuldade em sair da casa dos pais.

  • Emprego: salários baixos, instabilidade e emigração forçada.

  • Justiça social seletiva: “os jovens portugueses são esquecidos em detrimento de minorias ou imigrantes”.

  • Segurança e identidade: discurso nacionalista que cria a sensação de proteger o futuro dos jovens “do seu próprio país”.


Note-se que muitos destes temas são comuns de partidos de extrema-esquerda até aos de direita “normalizada”.



  • Criação de comunidade e identidade



  • Usa slogans e símbolos fáceis de apropriar (“Chega” como sinónimo de basta e “Portugal Primeiro”).

  • Gera sentimento de pertença, quase tribal, em que o jovem passa a sentir que faz parte de um movimento maior. Este tribalismo político no seu nível mais básico, é a divisão do mundo político em grupos opostos impulsionados por uma forte lealdade e identidade de grupo. Estes aspetos negativos do tribalismo são frequentemente alimentados pela competição e pela perceção de uma ameaça comum, através do medo, ansiedade e preconceito, tornando as pessoas mais suscetíveis a notícias falsas, propaganda e conflito.



  • Estilo performativo de André Ventura



  • Aposta em debates televisivos, confrontos diretos e frases “virais”.

  • Essa teatralização política agrada a jovens que consomem política como espetáculo e entretenimento.


Em síntese: a estratégia para os jovens combina emoção, rebeldia, identidade nacional e linguagem digital, criando uma narrativa de rutura com o sistema e de esperança num futuro “roubado” aos jovens.


 Eixos temáticos recorrentes



  • Família e demografia: A família é erguida como solução ao “inverno demográfico”, com incentivos fiscais (ex.: isenção de IRS para mulheres com 3 ou mais filhos), alargamento de licenças parentais e apoios na saúde materna. Nota-se a retirada, desde propostas antigas, de retirar aborto e cirurgias de transição de género da saúde pública, sinalizando uma adaptação tática. O programa evita quantificar impactos financeiros destas medidas.

  • Justiça e crime: Centralidade em “acabar com a brandura” da justiça: prisão perpétua com revisão, castração química para reincidentes sexuais, agravamento de penas para violência doméstica, e apertos processuais para acelerar megaprocessos de corrupção. Isto exige revisão constitucional é tratada pelo próprio partido como prioridade. Há também reforço de meios (PJ, magistrados), apreensão de bens antes da sentença e crime de enriquecimento ilícito.

  • Imigração: Passagem de quotas “culturais” (antigas) para endurecimento amplo: controlos fronteiriços, crime de residência ilegal, recondução a países de origem se não houver prova de autossustento em 6–12 meses, exigência de português no trabalho, restrição de apoios sociais a quem tenha 5 anos de contribuições, revogação do acordo de mobilidade da CPLP e recomposição da AIMA com funções policiais à la SEF.

  • Revisão constitucional: Objetivo estruturante que viabiliza o pacote penal. Pretende “limpar carga ideológica” do preâmbulo, permitir prisão perpétua e castração química, reduzir e alterar composição do Tribunal Constitucional, voto obrigatório, referendos vinculativos sobre qualquer matéria, reduzir deputados e limitar ministérios. A conjuntura parlamentar recente tornou este objetivo menos hipotético.

  • Economia e fiscalidade: Centra-se na retórica liberal de direita: baixar IRS/IRC/IMI, eliminar derrama e pagamentos por conta; isenção de IRS para jovens até 100 mil de rendimento acumulado, depois taxa plana de 15%; isenções na primeira habitação; incentivos a contratação jovem. Em paralelo, medidas de tributação extraordinária sobre banca/petrolíferas e uma lista extensa de promessas sociais sem envelope orçamental explícito, estimadas em mais de 5% do PIB, expondo tensão entre ambição e sustentabilidade.

  • Educação: Defesa de “autonomia da família versus escola”; combate à chamada “ideologia de género” com direito de veto parental; oposição a casas de banho neutras como única opção; Cidadania e Desenvolvimento apenas opcional; reintrodução de exames em todos os ciclos e “tolerância zero” à indisciplina. Reposição integral do tempo de serviço dos professores e revisão do ECD-Estatuto da Carreira Docentes.


Se analisarmos à lupa verificamos que muitas destas medidas servem apenas para captar potenciais eleitores sem garantia de que numa situação de governo muitas dessas medidas sejam sustentáveis ou até exequíveis a prazo.


 


 


Fontes:


Lessard-Hébert, Michelle, Investigação Qualitativa; Fundamentos e Práticas, Instituto Piaget.


José Raul de Sousa; Simone Cabral Marinho dos Santos; Análise de conteúdo em pesquisa qualitativa. https://www.google.com/url?sa=t&rct=j&q=&esrc=s&source=web&cd=&ved=2ahUKEwjXg-norvmPAxUYUKQEHfGUG184FBAWegQIMBAB&url=https%3A%2F%2Fperiodicos.ufjf.br%2Findex.php%2FRPDE%2Farticle%2Fdownload%2F31559%2F22049%2F134370&usg=AOvVaw3qBWRai0qz1Bqbg0p36NMV&opi=89978449


 


https://ojs.letras.up.pt/index.php/re/article/view/13182/12192


Como o discurso do Chega mudou e o que isso diz da sua estratégia: https://rr.pt/fotoreportagem/politica/2024/03/05/como-o-discurso-do-chega-mudou-e-o-que-isso-diz-da-sua-estrategia/368696/


Desafios e Oportunidades da imigração em Portugal, revelados no Dia Internacional dos Migrantes: https://pessoas2030.gov.pt/2024/12/20/desafios-e-oportunidades-da-imigracao-em-portugal-revelados-no-dia-internacional-dos-migrantes/


https://linguateacher.com/pt-pt/glossary/vocabulario-para-contextos-politicos-e-governamentais-em-portugues/


André Ventura quer o Chega a liderar oposição e "preparado para governar": https://cnnportugal.iol.pt/chega/andre-ventura/sangue-suor-lagrimas-e-muita-fe-andre-ventura-quer-um-chega-preparado-para-governar/20230127/63d44cef0cf2c84d7fc54165


O Chega é o futuro, mudámos o sistema político português para sempre: https://expresso.pt/podcasts/legislativas-2025-todos-os-debates/2025-05-19-andre-ventura-o-chega-e-o-futuro-mudamos-o-sistema-politico-portugues-para-sempre-609d2d4f


Discurso de André Ventura no 25 de novembro: https://www.youtube.com/watch?v=pvdm8YIqmJ8


Chega promete programa eleitoral para a próxima segunda-feira com foco em corrupção e imigração: https://www.dn.pt/pol%C3%ADtica/chega-promete-programa-eleitoral-para-a-pr%C3%B3xima-segunda-feira-com-foco-em-corrup%C3%A7%C3%A3o-e-imigra%C3%A7%C3%A3o


O que defende mesmo o Chega? As convicções e contradições do partido de André Ventura:     https://rr.pt/fotoreportagem/politica/2025/05/20/o-que-defende-mesmo-o-chega-as-conviccoes-e-contradicoes-do-partido-de-andre-ventura/426219/https://www.publico.pt/2025/09/11/politica/noticia/chega-recrutar-futuros-votantes-2146881


Como é que o Chega está a recrutar futuros votantes https://www.publico.pt/2025/09/11/politica/noticia/chega-recrutar-futuros-votantes-2146881


Entrevista ao jornal Público, fevereiro 2024, https://www.publico.pt/2024/02/13/politica/entrevista/andre-ventura-so-crescimento-economico-casa-3-5-podemos-aumentar-pensoes-2080089

sábado, 24 de fevereiro de 2024

Partido Chega ilusão ou armadilha

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Quem neste momento está na disposição de votar no partido Chega, ou não sabe o que é a extrema-direita, nacionalista xenófoba e racista ideias que perfilhava quando foi criado, ou está desorientado com a narrativa de ser um partido que se interessa pelas pessoas. Talvez por presentemente tentar moderar o seu discurso, o que o seu líder Ventura não está a conseguir de forma clara. Para aproveitar a ingenuidade de alguns eleitores retirou do seu programa alguns pontos mais comprometedores das suas intensões.


 


Nas últimas publicações tenho-me debruçado sobre André Ventura e o seu partido, o Chega. Mas, o que é o Chega e como chegou até aqui? O partido Chega, pela voz do seu líder, nega a designação de extrema-direita que não lhe agrada e parece pretender balizá-lo como um partido populista de direita de cunho liberal-conservador. Talvez seja uma estratégia para captar o maior número de descontentes de todo o espectro político e da abstenção. Isto é, tem um discurso racista, anti-imigração, diz-se contra o sistema, mas nega veementemente ser de extrema-direita.


De acordo com Heidi Beirich, especialista em ciência política pela Universidade de Purdue sobre fascismo europeu e movimentos de extrema-direita, fundadora do GPAHE, afirmava em 26 de junho de 2023 que «o Chega é um partido profundamente anti-imigração, anti ciganos e anti-LGBTQ», e que «Demoniza os imigrantes e os seus dirigentes, incluindo o seu líder carismático, André Ventura, têm dito coisas horríveis sobre os ciganos, chamando-lhes um problema de segurança - entre outras coisas».


Ainda segundo a mesma especialista, Ventura também falou de coisas como a teoria da conspiração da grande substituição, que é uma ideia supremacista branca que defende que os imigrantes vão substituir os portugueses, em Portugal, o que está em linha com o que se passa na europa.


Contudo, e segundo a opinião de Cátia Moreira de Carvalho, investigadora na área do extremismo, terrorismo, psicologia e política na Universidade do Porto onde se dedica a estudar os processos psicossociais associados à prevenção e combate à radicalização e envolvida em projetos de investigação (contra) radicalização, afirmou à Euronews em agosto de 2023 que «de momento, o Chega é um partido populista de direita radical, e não um partido de extrema-direita». Justifica a sua afirmação porque «o Chega tem claramente uma agenda populista, uma vez que vê o “povo puro” em oposição às “elites corruptas”» slogans dos populistas. Acrescentou que o partido «defende opiniões iliberais e que o seu objetivo é estabelecer um tipo de democracia iliberal em Portugal.». A diferença está, para a mesma especialista que «A extrema-direita quer abolir toda e qualquer forma de democracia e recorre à violência para atingir os seus objetivos. Por enquanto não é isso que o Chega tem feito, nem me parece que venha a acontecer num futuro próximo», supõe Cátia Moreira.


Não me parece ser assim tão evidente porque em alguns momentos André Ventura dissimuladamente tem incitado alguns movimentos, alguns inorgânicos como o “movimento zero” e também da GNR. Em 2019 o presidente da Associação dos Profissionais da Guarda (APG/GNR) considerou “um aproveitamento político” do deputado do Chega, André Ventura, ter usado o palco e um megafone da organização da manifestação de polícias para fazer um discurso.


Passos Coelho, em novembro de 2023, afirmava que o Chega não é um partido antidemocrático e que tem toda a legitimidade de existir. De facto, o partido tem toda a legitimidade de existir face às regras da democracia. Está legalizado, participou em eleições, teve votação que lhe concedeu deputados na Assembleia da República. É certo, mas, embora na Europa ainda não se tenha verificado pergunta-se quantos países no mundo estão em declínio democrático? No passado quantos partidos em regimes democráticos aproveitaram a democracia para acabarem com ela e passaram a ditaduras.


No presente as democracias podem estar a correr riscos. De acordo com o relatório mais recente sobre o Estado Global das Democracias, relativo ao ano de 2021, do Instituto Internacional para a Democracia e a Assistência Eleitoral (IDEA), metade dos 173 países avaliados revelaram declínio em pelo menos um dos atributos democráticos. O relatório indica que o número de países democráticos em regressão é o mais elevado da última década. Além disso, o número de países a nível mundial que avançam na direção do autoritarismo excede o dobro do número de países que avançam numa direção democrática. Portanto, pode dizer-se que um grande número de países está em declínio democrático.


As perguntas que podemos colocar são as de saber como o Chega, um partido tão recente e controverso, está a ter uma ascensão vertiginosa? Como rapidamente se inseriu no vasto panorama dos partidos populistas? Como corteja a extrema-direita europeia, tem narrativas contra os migrantes, muçulmanos e ciganos, mas rejeita ser descrito como racista e xenófobo sabendo-se ainda que André Ventura é fã de Bolsonaro e de Trump?


Uma das respostas é que chegámos aqui à semelhança do que se tem passado na Europa com o crescimento de outros partidos da extrema-direita. Podemos incluir o crescimento do partido Chega no conjunto de vários fatores que se medem por uma combinação de mudanças políticas, normalização e respostas aos desafios sociais que estão a moldar a futura paisagem política do continente europeu. Os partidos populistas de extrema-direita têm vindo a ganhar terreno em toda a Europa e a sua influência está a tornar-se mais pronunciada e a ganhar apoio eleitoral.


A normalização destes partidos começou a conferir-lhes alguma respeitabilidade (excluo daqui o Chega cujo seu líder não tem contribuído para tal) e começam a estar enraizados moldando políticas e apoio eleitoral. Seja na Itália, Espanha, França ou Finlândia, partidos que já foram marginalizados ganharam respeitabilidade e até conseguiram poder em coligações e alguns até obtiveram pastas ministeriais.


São exemplo a extrema-direita que faz parte do novo governo de coligação na Finlândia e, em troca de concessões políticas importantes, o mesmo se passa na Suécia. Há aproximadamente um ano para as próximas eleições na Áustria, a extrema-direita (FPÖ-Freiheitliche Partei Österreichs, Partido da Liberdade da Áustria) está atualmente confortável à frente nas sondagens.


Têm sido impulsionadores do fenómeno a oposição à imigração proveniente do Médio Oriente e de África que alimentam o populismo de extrema-direita, o euroceticismo crescente e o descontentamento com as políticas económicas da União Europeia que também contribuem para os radicais de direita serem ouvidos.


Num artigo publicado pela RTP “O AfD partido alemão da extrema-direita, admira o estilo de governação autocrático e homofóbico de Putin como uma espécie de modelo para a Alemanha. Querem restabelecer a antiga relação germano-russa, incluindo a importação de gás e petróleo russos. Por esta razão, pedem o fim das sanções e do fornecimento de armas à Ucrânia”, segundo o professor emérito da Universidade de Bremen, em declarações à agência Lusa. Sabe-se que há outros partidos da extrema-direita europeus que tem posições pró Russia e que são ou já foram, (caso do partido de Le Pen em França) apoiados por Putin.


Acrescem ainda fatores como a política partidária fragmentada nos países e a polarização da Europa têm criado oportunidades para que aqueles partidos se tornem relevantes quando nenhum dos grandes partidos tem maioria e os pequenos movimentos ganham importância neste tipo de cenários apoiando a manutenção dos partidos de direita moderada no poder.


O sucesso da extrema-direita deve-se ainda, em parte, à sua capacidade para abandonar pontos radicais e apresentarem uma nova imagem mais "respeitável". Em Portugal temos observado exatamente o mesmo. André Ventura, apesar da gritaria e das falsidades tem vindo a adotar uma nova estratégia evitando o uso de algumas palavras numa atitude aparentemente mais moderada para eleitor ”comprar”.


Em 23 de fevereiro, disse Ventura na TVI “Fui mal compreendido em relação ao que disse sobre a comunidade cigana”. Mais uma treta para enganar os adormecidos e desatentos. Por algum motivo deixou de se referir ao que designava como um problema.


O que tem unido os partidos da extrema-direita na Europa na mesma orientação, e também o adotado pelo Chega, para além do controle da imigração, juntam-se as guerras culturais, os direitos das minorias, a crise climática e os sacrifícios injustos que os governos insistem que serão necessários para combatê-la. Os partidos de extrema-direita numa atitude oportunista, tendo em vista a captação de votos, têm moderado algumas de suas visões mais condenáveis pelo eleitorado.


Catherine Fieschi, especialista em estudos sobre o populismo e extrema-direita e diretora desde setembro de 2019 do Global Policy Institute da Queen Mary University of London, “os partidos de extrema-direita parecem agora ser um voto razoável para muitas das pessoas que, em circunstâncias anteriores, teriam votado numa esquerda popular e protetora.”. No caso português não sei se terá sido assim, embora em regiões tradicionalmente de esquerda como no Alentejo os votos no Chega tenham conseguido o quarto lugar nas últimas eleições. Ainda segundo a mesma autora “O que a esquerda pode prometer é a proteção, mas a extrema-direita promete ordem e controle. Não pode necessariamente entregá-lo, mas fala mais aos medos individuais e culturais das pessoas.”


O partido personalizado em André Ventura teve uma evolução muito própria. Depois do 25 de abril quem teria tido ligações ou era conotado com o anterior regime estava sujeito a perseguição ideológica e sujeito a críticas “abrigaram-se” em partidos de direita como o PSD e o CDS/PP. Outros dispersaram-se por pequenos partidos da direita radical então surgidos, mas que nunca chegaram a ter representação parlamentar.


Nos órgãos partidários do partido Chega encontram-se alguns outros que vieram da direita radical que se opunham à democracia do 25 de Abril. Um deles foi Diogo Pacheco de Amorim que desempenha o cargo de Vogal da Direção nacional e Coordenador da Comissão Política Nacional do partido Chega tendo exercido o cargo de Vice-Presidente da Direção Nacional do partido.  


Diogo Pacheco de Amorim esteve no setor político do movimento que coordenou e promoveu centenas de atentados bombistas e assaltos a sedes de partidos e organizações de esquerda naqueles primeiros anos de liberdade de 1975, alguns dos quais resultaram em mortes, como foi o caso do padre Max e da estudante Maria de Lurdes, na Cumieira, em Vila Real. Pode ler aqui   ou ver o livro que relata estes factos.  


Quando em 2019 o partido Chega foi constituído nas eleições desse mesmo ano conseguiu o 7º lugar a nível nacional elegendo um deputado. Nas eleições de 2022 saltou para o 3º lugar conseguindo eleger doze deputados, contudo esta subida não corresponde ao número de militantes inscritos. A sua subida eleitoral terá sido reforçada por franjas que terão sido eleitores do PSD e do CDS/PP, entre outros pequenos partidos.


O Chega parece pretender balizar um partido populista de direita de cunho liberal-conservador para captar o maior número de descontentes de todo o espectro político e da abstenção. Para tal, capitalizou a retórica populista, explorando sentimentos de insatisfação e frustração entre certos segmentos da população. O discurso de André Ventura apela aos que sentem marginalizado ou desiludido com a política tradicional utilizando palavras tipo ‘soundbites’, isto é, frases curtas facilmente apreensíveis e recordáveis para fazer passar a sua mensagem que são repetidas até à exaustão e percetíveis por franjas da população politicamente iliterata.


Idêntico à de outros movimentos populistas em toda a Europa, o Chega pretende posicionar-se como antissistema, criticando os partidos e instituições políticas tradicionais que retrata como incapazes de abordar as preocupações dos cidadãos comuns, mas, ao mesmo tempo, tenta pressionar e captar os partidos da direita democrática para alianças. Contradição evidente, partido antissistema pretende fazer parte do sistema que diz reprovar. Procura que alguns eleitores percebam que estão votados ao abandono pelos que ele chama elite política.


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Em Portugal o aproveitamento demagógico do Chega vai também no sentido de mostrar que nos últimos anos tem havido um aumento da imigração. Facto que usa para apelar ao controlo de fronteiras e para aplicação da lei indo ao encontro da corrente de opinião que se sente um incómodo com esta tendência que é também alimentada por movimentos radicais como o “nativismo” e, em alguns casos, suprematistas e racistas. Estes grupos radicais de extrema-direita pretendem a aplicação de políticas de promoção dos interesses da população nativa de um país contra os dos imigrantes, incluindo o apoio a medidas de restrição à imigração. O nativismo é uma das expressões do nacionalismo segundo o qual estrangeiros nunca são bem recebidos numa sociedade, por os considerarem diferentes, por origem geográfica, religião ou qualquer outra característica socioeconómica.


 Também neste sentido o partido Chega ganhou apoios ao defender políticas de imigração mais rígidas, e uma postura mais dura em questões de crime e segurança. Ao mesmo tempo tem tirado proveito dos receios de diluição cultural e de perda de soberania nacional, enaltecendo a nostalgia de uma perceção de época de ouro da história portuguesa, o nosso passado histórico colonialista.


Apesar de crítico de Salazar e dizer que ideologias como o fascismo e o nazismo são uma “traição ao espírito do partido” André Ventura vai adotando linguagem e símbolos no seu discurso, talvez subconscientemente, que partilham dos radicais de direita como o “ar de família” da direita radical histórica, donde provêm slogans como “Deus, Pátria, Família e Trabalho” que proveem dos parentescos da família das ditaduras europeias do século XX, nomeadamente do Estado Novo.


É provável que o crescimento do Chega tenha também origem na utilização eficaz das redes sociais e os canais de comunicação digital para divulgar a sua mensagem e mobilizar apoiantes. Isso pode ter permitido que o partido alcançasse um público mais amplo, especialmente entre os eleitores mais jovens que são mais premiáveis a ideologias simbolicamente radicais e mais ativos online.


Quem neste momento está na disposição de votar no partido Chega, ou não sabe o que é a extrema-direita, nacionalista xenófoba e racista ideias que perfilhava quando foi criado, ou está desorientado com a narrativa de ser um partido que se interessa pelas pessoas. Talvez por presentemente tentar moderar o seu discurso, o que o seu líder Ventura não está a conseguir de forma clara. Para aproveitar a ingenuidade de alguns eleitores retirou do seu programa alguns pontos mais comprometedores das suas intensões.


Saindo Ventura, o partido sobreviverá? É uma incógnita!

sábado, 6 de fevereiro de 2021

As forças da extrema direita que surgem da sombra

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Com Portugal centrado no combate à pandemia covid-19 os órgãos de comunicação social, especialmente as televisões, focam-se exageradamente neste problema ultrapassando o nível da informação necessária, imprescindível e preventiva, consumindo com exagero de tempo e de espaço dedicado, por vezes com casos e casinhos, mais ou menos pontuais, com que vão preenchendo as suas edições.


As eleições nos EUA, a tomada de posse da nova administração da Casa Branca, a saída de Trump atribulada e machadada na democracia pela incitação aos seus adeptos radicais para invasão à violência no Capitólio.


Por cá, as eleições presidenciais aliviaram, embora pouco, as notícias covid-19.  Com o rescaldo das presidenciais no dia 25 de janeiro passou ao lado o discurso do Secretário Geral da ONU, António Guterres, no dia em que foi assinalado o 76.º aniversário da libertação do campo de concentração de Auschwitz-Birkenau. Guterres chamou a atenção para o facto de que «Após décadas na sombra, os neonazis e as suas ideias estão a ganhar terreno» e pediu uma aliança internacional coordenada contra o crescimento do neonazismo e da supremacia branca, xenofobia, antissemitismo e discurso do ódio provocado em parte pela pandemia de covid-19.


Guterres recordou o que há muito anos é sabido: quase dois terços dos jovens norte-americanos não sabem que seis milhões de judeus foram mortos durante o Holocausto. Alertou ainda para a necessidade de «combater a propaganda e a desinformação» tendo apelado para uma maior educação sobre as ações nazis durante a Segunda Guerra Mundial.


«A propaganda que liga os judeus à pandemia, por exemplo, acusando-os de criar o vírus como parte de uma tentativa de dominação global, seria ridícula, se não fosse tão perigosa», salientou.


Não seria necessário conhecer as palavras do Secretário Geral da ONU, bastava-nos acompanhar o que grupos e adeptos de partidos extremistas divulgam nas redes sociais. O que dizem é tal que, qualquer mente minimamente racional e com algum tino intelectual, aferiria a irracionalidade e a quantidade de mensagens e de “publicações” de tal modo grotescas e inverosímeis que mais parecem ter saído de uma ficção de baixo nível.


O discurso de ódio não se faz apenas via redes sociais ou blogs. No nosso país, embora com palavreado disfarçadamente menos violento, temos exemplos ao vivo e a cores desses discursos via alguns partidos políticos legalmente aceites que utilizam a nossa democracia para fazerem passar as suas mensagens na tentativa de lançar explorar antagonismos entre cidadãos.


Durante a campanha eleitoral para as presidenciais vimos e ouvimos candidatos das esquerdas incluindo a mais moderada pedir a ilegalização do partido Chega representado por André Ventura. Esta atitude parece-me ser quase uma apologia ao  partido pois poderá levá-lo a ostentar a sua vitimização. Não parece ser esta a via. Aliás, no campo das ideias é tal a falta de base daquele candidato que se torna impossível ter um debate político coerente e minimamente são.


O tipo de propostas que o partido Chega tem para apresentar em termo de ideias é de tal modo sem robustez e coerência que não se compara com a potencial de perigosidade dos seus congéneres europeus, contudo, não devemos subestimá-lo. A democracia deve estar atenta porque os que se candidatam, ou dizem candidatar-se, contra o sistema vão depois abraçá-lo e até impor com “zelo” a sua sobrevivência através de modelos monolíticos, mais ou menos disfarçados de democracias.


É perigoso ainda porque o complexo dos messias em Portugal, ainda está vivo em alguma parte das populações, mesmo em pessoas bem-intencionadas, que veem o seu mundo a desmoronar-se, o seu ambiente a tornar-se imprevisível e a aumentar o seu desejo de ordem e de previsibilidade.  


A próxima década vai ser perigosa porque, se tudo falha, políticos, liderança, U.E., erupções de forças obscuras que estavam latentes e que se vêm exteriorizando, podem vir a agitar-se entre nós. Como já ouvimos muitas vezes a democracia não está garantida. Veja-se o exemplo recente do que aconteceu nos EUA, um dos países onde a democracia estava há muito instalada, e onde uma tentativa da tomada do poder por um presidente com forte tendência para o autoritarismo que se servia da democracia para finalidades pouco democráticas.


Em julho de 1979, quatro após ter-se dado a Revolução de Abril em portugal, o The New York Times relatava que «Depois de mais de três décadas de hibernação, pequenos, mas influentes grupos de direita em França estão novamente a procurar o centro das atenções intelectuais, expondo teorias sobre raça, biologia e elitismo político desacreditadas pela derrota do fascismo na Segunda Guerra Mundial». E continuava, «Ao contrário de seus predecessores na década de 1930, os novos grupos de direita mostram pouco interesse em criar movimentos políticos de massa. Nem assumiram abertamente posições anti-semitas. Em vez disso, escolheram influenciar o curso da política, trabalhando ao lado de figuras centristas e conservadoras estabelecidas no governo e no parlamento». O sublinhado é meu porque esta última frase é de reter.


Para essa gente um dos argumentos é que as raças nasceram desiguais e assim deveriam ser mantidas pela política social. Estes e outros argumentos com a mesma orientação também os ouvimos nos últimos quatro anos nos EUA. Já ouvimos, por outras palavras, algo semelhante no nosso país.


Em síntese, o aparecimento da exigência de “liderança mais forte” coincide com o recrudescimento de grupos apologistas de regimes autoritários que esperam aproveitar com o potencial ou eventual colapso dos governos representativos baseando-se no mito da destruição do sistema (dizem-se antissistema) e a vantagem da eficiência autoritária.


Muitos ainda acreditam na esperança de um messias, um salvador, que nos livre dos ciganos, dos imigrantes, dos negros, nos retirem todos os subsídios, na baixa ou eliminação de impostos, e que apele a todos os insatisfeitos, vingativos, descontentes, enfim, aos que apelam ao ódio.   Veja-se que isto não é tão inverosímil como possa parecer. Esta semana veio a público uma notícia sobre uma nova congressista do Partido Republicano nos EUA, Taylor Greene, que difunde teorias da conspiração e apela à morte de figuras do Partido Democrata o que torna evidente o que poderá acontecer noutros países, nomeadamente no nosso se as posições se extremarem ou polarizarem. Estão a regressar os movimentos racistas, xenófobos e étnicos que atuam a descoberto. Entretanto  o Partido Republicano condenou as ameaças e as teorias da conspiração propagadas pela congressista Marjorie Taylor Greene, mas o Partido Democrata considerou que isso era insuficiente e afastou-a dos seus cargos em duas comissões de trabalho.


De vez em quando, e quando se entra em crise política e de governabilidade alguns analistas e comentadores de política falam na crise mundial da democracia e da sua capacidade de resolução de problemas e sobre o desafio a que está a ser sujeita a democracia. Por enquanto esses oráculos da desgraça não têm tido razão, os poderes democráticos têm conseguido resolver e ultrapassar as crises.


O processo já é por demais conhecido, fala-se mal dos políticos, da corrupção, do exagerado número de deputados, sobre a política parlamentar que está em crise, que a Assembleia da República está a falhar e que não está a responder às expectativas do povo. Estes e outros são argumentos da extrema direita e dos populistas tendo em vista a desestabilização e a descredibilização da democracia, daí a necessidade de um esforço para um diálogo sério entre forças da esquerda, do centro e da direita moderada para delinearem, em contexto democrático, estratégias e consensos para resolução de problemas económicos, financeiros e, sobretudo, sociais, de modo a retirar a esses partidos da extrema direita o seu campo de manobra populista.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2021

Ana Gomes a justiceira que saiu da penumbra

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Ana Gomes deveria saber que as mensagens racistas e xenófobas e de ódio subscritas por partidos da extrema direita e por indivíduos e grupos proliferam nas redes sociais e que essas serão mais nefastas do que a verbalização mais ou menos contida quando esses partidos estão legalizados. 


O Diário de Notícias avançou ontem, quarta feira, que Ana Gomes ex-candidata à presidência da República enviou participação à procuradora-geral na qual pede ilegalização do partido de André Ventura e investigação ao seu financiamento.


Além das posições defendidas publicamente por Ana Gomes e pelo Presidente da Câmara Municipal de Lisboa Fernando Medina, a contestação em torno do Chega, por ideias alegadamente fascistas ou racistas e xenófobas, desde outubro do ano passado, segundo o semanário Expresso, a PGR tinha recebido cerca de 300 exposições relativas ao Chega.


Segundo ao Diário de Notícias Ana Gomes apresentou uma queixa na Procuradoria-Geral da República (PGR) contra e legalização do Chega. Ana Gomes pretende formalizar a ilegalidade do partido Chega à PGR através da reapreciação da sua legalidade pedindo ainda que se investigue a origem do financiamento do partido liderado por André Ventura elencando mais de 40 razões para justificar a sua pretensão.


Apesar do que se tem visto e ouvido por parte de André Ventura e de aparentemente poderem existir razões o pedido de ilegalização parece-me ser desaconselhado e uma inadequada estratégia. Mesmo que a conclusão do processo seja favorável e o partido seja ilegalizado podem considerar-se duas situações que André Ventura poderá a usar em seu favor.


Para além de contribuir para lhe dar mais “palco” numa primeira hipótese mesmo que o partido seja ilegalizado Ventura envidará todos os esforços para poder continuar a falar livremente explorando emocionalmente o sucedido vitimizando-se e ao seu partido. Uma segunda hipótese será o de, estrategicamente, lançar e legalizar um novo partido que poderá vir a ter ainda mais aceitação do que o anterior. Para tal poderá desencadear uma mudança em termos ideológicos nem que, para isso, tenha de mudar substancialmente o discurso através de uma mera substituição do seu léxico.  Ventura poderá ter aprendido que o poder não se conquista, numa sociedade democrática como a nossa, apesar de ainda com alguns solavancos, com meras tiradas de bota-abaixo e procurará encontrar uma alternativa mais credível em termos de palavras, mas com a mesma carga ideológica.


Assim, a sua atividade poderá continuar a concentrar-se nos seus temas preferidos que lhe deram frutos durante as presidenciais. Irá continuar a ter em vista a segurança, esta por enquanto sem impacto real a não ser a sua colagem objetiva ao lado das polícias apontando para pequenos “casinhos”, manter-se contra os ciganos, a imigração, a defesa da família tradicional. Isto significa que, para ganhar votos, procurará explorar os medos e as fragilidades, sobretudo o pavor do que é estrangeiro, propor reformas impraticáveis nos impostos, gerir sentimentos de precariedade e de injustiça social centrada nos que recebem sem trabalhar, bem como os preconceitos decorrentes de uma visão antiquada das relações entre as pessoas. É a principal estratégia dos partidos da extrema direita que consiste na diabolização de uma categoria de cidadãos, na criação de um inimigo interno virtual, que passa a ser o foco visível e repetido de todos os ataques.


Ventura surge na mesma linha de qualquer outro partido extremista que é a de identificar um alvo que, no caso português, são os ciganos e os negros. Também procuraram eufemisticamente os "imigrantes" onde concentram o fogo por serem causadores de todos os males que retiram os empregos, ao que se junta uma retórica de nacionalismo económico.


Como não existem fraturas nacionais graves, continuará a focar-se no único grupo social que apresenta algumas diferenças em relação à generalidade dos cidadãos, os ciganos. Mas os portugueses não veem a comunidade cigana como perigosa e como uma ameaça existencial, o que há são apenas representações de imagens e preconceitos muito antigos.  Os ciganos são sujeitos vulneráveis e destituídos de qualquer poder. O extremismo do Chega e do André Ventura, ao contrário do que acontece noutros países europeus, tem pouco espaço político, por não haver um filão identitário que possa ser explorado.


Ana Gomes deveria saber que as mensagens racistas e xenófobas e de ódio subscritas por partidos da extrema direita e por indivíduos e grupos proliferam nas redes sociais e essas serão mais nefastas do que a verbalização mais ou menos contida quando esses partidos estão legalizados. 

quarta-feira, 25 de novembro de 2020

Ameaças que nos espreitam ocultas nas democracias

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Em Portugal sempre existiu populismo, embora contido, nos vários partidos, sobretudo em tempo de campanha eleitoral. Nessa altura regressam à tona  partidos mais radicais que, não tendo programa exequível, tentam demonstrar contradições do sistema e procuram a explorara a distinção entre dois grupos antagónicos: um, virtuoso e maioritário, o povo, que todos exaltam e outro que diz defender procurando ganhar vantagens com o apelo a reivindicações ou preconceitos amplamente disseminados entre a população utilizando as redes sociais.


Nessas alturas os dirigentes partidários apelam às emoções, o que é legítimo, porque a política também é feita de emoções, todos os políticos tentam utilizar uma linguagem emocional e tentam apresentar propostas que agradem aos eleitores.


Por outro lado, o desinteresse pela política por parte dos cidadãos, porque acham que a discussão política é para meia dúzia de iluminados dos partidos que lutam entre si para chegar ao poder, é um outro fator explicativo.


Quais as implicações de aceitar de forma cega tudo o que se diz e escreve nos órgãos de comunicação clássicos e, sobretudo, nas redes sociais e quais as consequências dessa aceitação devido ao desvario das populações que o reproduzem acriticamente de forma viral? 


Governantes de países passaram a utilizar a tecnologia das redes sociais para comunicar com as pessoas e que por serem governantes o que eles dizem são aceites pelos seus apoiantes como verdades e opiniões a serem aceites ou desmentidas transformando verdade em mentiras e mentiras em verdades. Mentiras e informações falsas colocadas nas redes sociais até mesmo em conferências de imprensa ditas por responsáveis máximos da política dos países são por muitos tomadas como verdades, o caso do Presidente Trump nos EUA é um caso de estudo.


Em Portugal passou a estar também na moda dirigentes partidários e responsáveis do Governo comunicarem através das redes sociais. Os partidos da extrema-direita são prolíferos na propagação do populismo e das suas mais absurdas teses.


Após as eleições nos Açores o acordo com o Chega gerou polémica que emergiu na comunicação social e nas redes sociais que deu, e ainda está a dar, para todos os gostos. Numa primeira análise o PSD caiu, por vontade própria, na armadilha de se apoiar num partido populista como o Chega dando-lhe o protagonismo que até então lhe tinha faltado para além das caóticas intervenções de André Ventura na AR. Não é por acaso que os populistas utilizam uma retórica para chegar a segmentos da população que sentem que foram deixados para trás pelos dois maiores partidos e que se deixam, devido á sua ignorância política, encantar por discursos simplistas e chavões fáceis de fixar repetidos até à exaustão.



Como tem sido habitual ao longo de décadas as inovações e modas em sentido lato, sejam elas boas ou más, chegam com anos de atraso. O mesmo aconteceu com o populismo da extrema-direita que se pensava ser pouco ou nada representativa na nossa sociedade e que Portugal estaria a salvo, muito embora soubéssemos que andavam por aí acantoados em partidos de direita e do centro-direita considerados democráticos e que fazem parte do denominado arco da governação.


Aliás, os partidos populistas e da extrema radical de direita estiveram sempre presentes na maior parte dos países, especialmente na U.E., não se extinguiram após a derrota do nazismo e dos fascismos, apenas ficaram adormecidos durante algumas décadas vindo a ressurgir.


O fenómeno do populismo associado ao próprio conceito não é fácil de caracterizar embora vários especialistas já tenham proposto várias definições. Na perspetiva do filósofo e historiador britânico de Isaiah Berlin não há apenas um populismo, há versões do mesmo “consoante a mudança histórica que sublinha a natureza específica do desenvolvimento do populismo em países, locais e datas específicas”. Acha que uma única fórmula para cobrir todos os populismos em todo o lado não serão muito úteis.


O interessante foi que Berlin comparou ao conto da Cinderela a tentativa de definir populismo através de uma única definição. Diz que não devemos sofrer de um complexo de Cinderela. Há um sapato, para o qual deve existir um pé em algum lado. Há vários tipos de pés nos quais os sapatos “quase” se encaixam. O príncipe que anda sempre a vaguear com o sapato acredita que um dia encontrará o pé certo.  Esse será o populismo puro e a sua essência.


Para Isaiah Berlin “Todos os populismos são derivações do mesmo, desvios do mesmo e variantes do mesmo, mas algures por aí esconde-se um verdadeiro e perfeito populismo, que pode ter durado apenas seis meses, ou [ocorreu] em apenas um lugar”. Consultar BERLIN, Isaiah – «To define populism»., 1967, p. 6.


O populismo reclama ser pela afirmação dos direitos do povo face ao grupo dos interesses privilegiados, considerados habitualmente como inimigos do povo e da nação, dirige as suas críticas às deficiências da democracia representativa que diz não refletir o pensar e o querer do povo.  Veja, por exemplo, o caso do partido Chega e o género de intervenções feitas por André Ventura e os estribilhos e lugares-comuns que ele utiliza. O Chega representa a chegada do populismo da extrema-direita a Portugal.


Como chegámos até aqui?


Acima de tudo, a globalização fez com que as nossas vidas fossem de facto influenciadas por fatores que não podemos controlar. E enquanto os populistas dizem que é preciso "recuperar o controlo", os outros políticos dizem que não se pode fazer nada, "ou porque somos parte da UE ou porque a imigração vai continuar…". O resultado é que a maioria não tenta responder às necessidades e aos receios, às vezes justificáveis, das populações.


Nos estados europeus a globalização e a crise económico-financeira diminuíram o investimento, impedindo ou retardando o desenvolvimento económico agravado pela crise de 2008 e pelos efeitos da austeridade consequentes aplicados pelos governos acrescidos pelo aumento do desemprego que causaram um sentimento de insegurança. A "crise migratória" que os dirigentes europeus declararam existir no território da União Europeia ajudou ao crescimento de partidos populistas e xenófobos.


Os movimentos de imigração e de refugiados que assolaram e assolam os países da U.E. geram uma concorrência no mercado de trabalho nos países que os acolhem aproveitado como um dos argumentos da extrema-direita xenófoba que é falacioso porque aqueles vão ocupar as lacunas que os autóctones não querem ocupar assim como a escassez de investimento no comércio local que tem vindo a desaparecer e onde ninguém quer investir. Estas imigrações ocasionam graves problemas de acolhimento nos países de chegada que são aproveitados pelos populistas da extrema-direita racista e xenófoba.


Esta situação e outras, assim como as indecisões ao nível da U.E. tem sido aproveitada por alguns governos apoiados por partidos de direita ou de extrema-direita como na Hungria de Orbán, na Polónia de Jaroslaw Kaczynski, e na Áustria de Sebastian Kurz em coligação com o Partido da Liberdade da Áustria (FPö), que têm adotado políticas violadoras dos direitos fundamentais e da democracia liberal defendidos pela U.E. Em Espanha, pelos mesmos motivos e como reação à política de austeridade e contra o euro, surge o Podemos, embora sem conseguir chegar ao poder. No espaço da União Europeia foi a "crise migratória" existente que ajudou ao crescimento de partidos populistas e xenófobos como o AfD alemão.


Marine Le Pen, a líder da Frente Nacional, partido da extrema-direita francesa e nacionalista radical, antes da eleição de Macron, apresentava-se como uma perigosa candidata à vitória na eleição presidencial, o que poderia colocar em perigo a sobrevivência do projeto europeu.


Quando foi colocada a Le Pen a questão sobre as razões por que os partidos que se dizem antissistema estão a obter tanto relevo na Europa resumiu o credo populista da extrema-direita na europa: «Creio que todos os povos aspiram a ser livres. Os povos dos países da União Europeia, e talvez também os americanos, terão tido durante demasiado tempo a sensação de que os líderes políticos não estão a defender os seus interesses (os do povo), mas antes, interesses especiais(?). Há uma espécie de revolta da parte do povo contra o sistema, que já não os serve mais, mas antes a si próprio». Ver aqui. É com este palavreado, a que chamam argumento, que as extremas-direita, nacionalistas, xenófobas e populistas se agarram para, habilidosamente, iludirem os insatisfeitos com as políticas praticadas em democracia que acham não ter contemplado os seus interesses.


Uma das evidências dos perigos que espreitam as democracias liberais vem dos partidos de extrema-direita é o que atualmente estão a perpetrar os governos da Hungria e da Polónia, a que se juntou depois o apoio da Eslovénia, utilizando uma força de bloqueio contra o pacote de resposta à crise aceite por todos. Consideram ser inaceitável que não possam aceder aos novos fundos europeus por discordarem da condicionalidade do critério pelo respeito ao Estado de Direito. São eles os mesmos países que propagam que se mostram receosos do regresso do “espectro do comunismo” à Europa, como se no atual contexto político isso fosse o perigo real.


Este é apenas um exemplo de como governos autocráticos de extrema-direita se dedicam por todos os meios democraticamente disponibilizados a minar os alicerces das democracias e dos perigos que a direita populista faz pairar sobre a democracia europeia. Manuel Carvalho escreveu num editorial do jornal Público que “Não se pode aceitar que a Hungria ou a Polónia beneficiem das vantagens da Europa, ao mesmo tempo que se dedicam a minar os seus alicerces”.


A mensagem nacionalista, anti-imigrante, anti étnica, racista e xenófoba, por vezes eurocética e anti União Europeia veiculada pela extrema-direita é representada em Portugal pelo partido Chega.  O populismo em Portugal ainda está no seu início, mas já está a dar os seus frutos e a “vender bem”. O perigo do populismo do Chega, e de outros partidos do mesmo, ou pior espetro, deteta-se por meio de diatribes tais como:


- Críticas isoladas e desconexas dirigidas aos políticos, aos partidos (que não seja o deles);


- Críticas aos órgãos representativos dos cidadãos indigitados através de eleições livres;


- Chamando a si a luta contra a corrupção colocando em causa setores da administração pública, organizações privadas com relevância na vida económica ou social com tentativas para descredibilizar, sem fundamentação científica, o funcionamento do sistema político (veja-se o caso de Trump nos EUA);


- Incoerência com outros valores e medidas que igualmente defende, que são um fator disruptor dos direitos fundamentais da liberdade e da igualdade e da tolerância garantes da dignidade da pessoa humana, pondo também em risco o Estado de direito que os salvaguarda.


Estes movimentos e partidos são um vírus que se está a expandir tornando-se uma ameaça e um perigo para a democracia e que vai corrompendo por forma dissimulada os seus valores e procedimentos essenciais, tanto mais perigoso se torna quando partidos democráticos para obterem ou manterem no poder os chamam para fazer acordos colocando os interesse partidários acima dos interesses democráticos do país e dos próprios cidadãos.


Sofia Lorena, num artigo publicado no jornal Público em 2018 baseado no pensamento de Daniele Albertazzi, especialista em movimentos políticos e estudioso do fenómeno populista na “Escola de Governo e Sociedade da Universidade de Birmingham”, escreveu que «Um líder populista é aquele que se vai apresentar como representante de um único povo, unido e homogéneo, que está face a uma ameaça. Esta ameaça pode ser a elite política ou algo externo. Estes líderes defendem que o seu povo está a ser roubado — dos seus valores, princípios, identidade. E em breve será demasiado tarde para recuperar o que lhes está a ser tirada».


É fácil defender que os povos europeus perderam o controlo das suas vidas porque há anos que a Liga Norte italiana de Salvini, partido de extrema-direita, dizia que "temos de ser donos e senhores da nossa própria terra". André Ventura chegou a dizer em agosto de 2020 que “Eu e Salvini, de mãos dadas, é um sinal para o futuro de Portugal e Itália”.


Para os populistas há sempre bodes expiatórios que são os causadores da desgraça do povo, na Alemanha nazi eram os judeus, noutros países são os muçulmanos, em Portugal, por enquanto, são os ciganos e em alguns casos os negros e outras etnias, os políticos e os partidos são extensão da corrupção.


Os populistas atacam a lentidão da democracia representativa e liberal e "apresentam-se sempre como defensores do tal povo homogéneo contra outros — os imigrantes, as etnias, as pessoas que seguem uma religião minoritária ou que não se encaixam por algum motivo", diz Albertazzi.



 

sábado, 14 de novembro de 2020

Será Ventura seletivo quanto á corrupção?

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Estamos todos a falar demais do partido Chega o que agrada especialmente a André Ventura que aprecia que falem do partido e, sobretudo deles e das suas ambivalências no âmbito das suas entremeadas políticas e ideológicas que o caracterizam. Para ele o que é hoje pode não o ser amanhã e muito menos depois.


O que me baralha sobre a ideia que tenho do Chega é o que se passou após as eleições na Região Autónoma dos Açores. O apoio do Chega ao governo dos Açores é para durar toda a legislatura e nele estão contidas aprovações tais como moções de confiança, moções de censura e orçamentos regionais que foram negociados entre a coligação PSD/CDS/PPM e o Chega. A estes juntou-se também o Iniciativa Liberal que também divulgou as medidas acordadas com o PSD.


Segundo o Jornal de Notícias “O presidente do PSD disse que o acordo entre os sociais-democratas e o Chega nos Açores só foi possível porque o partido de André Ventura se "moderou". E que Rui Rio não descartou acordos à escala nacional com o partido de André Ventura, mas apenas se este se comportar como no arquipélago.


Para tal, e segundo o jornal Público, foram quatro as exigências do Chega. “Redução do número de deputados regionais; criar um gabinete regional de luta contra a corrupção; reduzir a elevadíssima subsidiodependência na região; e promover o aprofundamento da autonomia política no quadro do Estado Político-administrativo dos Açores e da Constituição da República”.


Quanto à redução da elevadíssima subsidiodependência na região um artigo de Francisco Louçã, (com quem várias vezes discordo das suas opiniões), argumenta no semanário Expresso desta semana que: “Para proteger essa escolha, Rio veio explicar que ocorreu o ansiado milagre da moderação de Ventura. E que concorda com o objetivo de reduzir o apoio aos pobres por via do RSI (para metade, diz o Chega). Porquê metade ou como se vai garantir esse corte? Mistério. Se se perguntar se há um estudo que diga que essas pessoas recebem o que não deviam, ou se o PSD tem ideia de como criar dez mil empregos açorianos num ano, a resposta é o silêncio”.


E acrescenta: “Em 2019 havia nos Açores uma taxa de desemprego superior à média do país (7,9% para 6,5%). É natural: com duas exceções, são ilhas pequenas, com poucos recursos produtivos, com escasso emprego na agricultura e em serviços, em que a solução tem sido a emigração. Assim, a privação material severa, a pobreza extrema, atingia 13,1% da população, quando a média nacional era de 5,6%. Das 32 mil pessoas pobres, somente dois terços recebiam o RSI, cerca de 21 mil. Parece que o objetivo do governo das direitas e extrema-direita é retirar esse pequeno apoio (a média do RSI é de 120 euros) a dez mil pessoas. Porquê? Porque não se justifica a prestação, porque essas pessoas têm alternativas, porque são ciganos? A explicação é que convinha anunciar esta crueldade contra os pobres. Para quem alcança o poder prometendo criar miséria, é sempre fácil assinar a sentença. Como explicou Justino, é tudo uma questão de encher o peito, na linha de Tocqueville, e recusar “os extremismos de nicho”.


O jornal Expresso escrevia em 12 de novembro que os líderes dos dois partidos estiveram envolvidos nas negociações desde que o PS perdeu a maioria absoluta no arquipélago e surgiu a hipótese de se formar um governo regional de direita chefiado por José Manuel Bolieiro.


bate um ponto que me baralha, Ventura que se autointitula um lutador contra a corrupção e para quem é tudo “uma vergonha, uma vergonha…” alia-se ao PSD Açores com o beneplácito do líder nacional do PSD, Rui Rio.


Apesar de Bolieiro, Presidente do governo regional, segundo notícias vindas a público “está a ser investigado pelo Ministério Público (MP) pelo crime de insolvência culposa quando presidia à autarquia de Ponta Delgada. Em causa está a alienação da empresa municipal Azores Parque (AP), que se encontrava falida, com mais de 11 milhões de euros de passivo e que a autarquia se preparava para extinguir e integrar. Em março de 2019, num volte-face inesperado e após um curto concurso público, a sociedade, com 500 mil metros quadrados de terrenos de património, passou para as mãos de uma entidade privada desconhecida e sem contas registadas por 500 euros” e por isso está a ser investigado por insolvência culposa.


André Ventura também nunca falou em corrupção no futebol, pelo que parece ser seletivo no que se refere à corrupção.


Mas desenterremos o que já se disse sobre o que à corrupção se refere a Ventura.


Ventura em 2019 foi questionado sobre casos como o de “um porta-voz do Chega que recebeu a subvenção vitalícia” dada aos ex-políticos, um “candidato às europeias que é arguido” num processo de fraude, e sobre “quando a PJ lhe bateu à porta para o questionar sobre o caso de corrupção tutti frutti e a contratação de um assessor fantasma”


A revista Sábado no passado mês de outubro Carlos Lima chamava Ventura cavaleiro andante da moralidade pública, “homem íntegro e com uma folha, melhor, quatro folhas de serviço limpo, André Ventura já foi tão corrupto como aqueles que – ainda que sempre em generalizações – ataca. O passado do líder do Chega como inspetor tributário deixa muito a desejar, sobretudo no papel que desempenhou na Autoridade Tributária para ilibar a empresa Intelligent Life Solutions (ILS), do senhor Paulo Lalanda de Castro, de pagar mais de 1 milhão de euros em IVA. A história está toda nos autos do processo Vistos Gold”.