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quarta-feira, 1 de outubro de 2025

A verdade das mentiras

"Primeiro, eles fascinam os tolos.


Depois, amordaçam os inteligentes!"


 Betrand Russel, filósofo do séc. XX


Temos de abrir caminho para resistir civicamente ao avanço da desumanidade autoritária seja ela extremista de direita ou de esquerda, e os mais jovens que sempre viveram em liberdade nem sempre sabem ao certo qual o seu verdadeiro significado. Não adiante denegrir o Chega porque já vimos que isso apenas o reforçou, mas fazer de conta que não existe e tão-pouco normalizá-lo também não funciona.


Ventura Análise das narrativas.png


Na última década testemunhámos a ascensão de líderes, movimentos e políticas populistas em muitas democracias liberais pluralistas. Portugal não foi exceção. Este novo populismo é sustentado por uma inventada política de pós-verdade que usa as redes sociais como porta-voz de “notícias falsas” e “factos alternativos” com a intenção de incitar ao medo e ao ódio do “outro”, construções que estão relacionadas ou referidas a circunstâncias nas quais factos objetivos são menos influentes na formação da opinião pública do que apelos à emoção e à crença pessoal. Prevalece o apelo à emoção do povo em lugar do racional.  Recorde-se o caso de Donald Trump que afirmou publicamente, num evento realizado em setembro nos EUA, onde disse: “Odeio os meus adversários e não quero o melhor para eles" frase que incita ao ódio sobre quem não o apoia. Não é uma “fake news”  é um facto que revela até onde pode ir o incitamento à emoção e ao ódio. No entanto ainda há quem o admire e até concorde com a política por ele seguida.


O presidente do partido CHEGA, André Ventura, vai novamente candidatar-se à Presidência da República em 2026. Justifica a sua candidatura dizendo que “o espaço de luta contra a corrupção e contra a imigração descontrolada não podia ficar sem candidato”.


Não me causará admiração se ele chegar à segunda volta. Os candidatos que se apresentam com exceção do almirante Gouveia e Melo são fracos e os portugueses estão fartos de comentadores televisivos como presidentes e Luis Marques Mendes é um deles, assim, como outros com perfil de democratas, mas sem força e inseguros tais como como António José Seguro não apresentam grande confiança. Alguém que nunca esteve ao serviço de forças partidárias e apresente características de independência pode ser uma vantagem.


Vamos ao caso que nos interessa neste momento e sair do ruído para analisar as narrativas de André Ventura ao longo dos últimos dois anos e tentar conhecer o que está por de baixo do tom combativo e do padrão que emerge das suas intervenções e textos que se baseiam, fundamentalmente, no endurecimento penal e imigratório, na revisão constitucional como “chave mestra”, e no discurso anticorrupção repetido e baralhado que, no meio da predominância e importância do processo socioeconómico, não tem sustentabilidade e falha em toda a linha.


Por outro lado, as frases ditas e mentiras mil vezes repetidas, propagadas nas redes sociais vieram a tornar-se realidades aceites por impreparados dos mais diversos matizes sociais que as aceitam irrefletidamente sem ponderarem nas respetivas consequências.


O populismo terminou com os princípios burgueses da decência, da retidão, da palavra ou da honra que eram também contestados pelos radicais da esquerda.


Temos de reaprender a ler, a interpretar e a viver neste novo mundo à luz da reflexão e da razão. Temos de abrir caminho para resistir civicamente ao avanço da desumanidade autoritária seja ela extremista de direita ou de esquerda, e os mais jovens que sempre viveram em liberdade nem sempre sabem ao certo qual o seu verdadeiro significado.


Não adiante denegrir o Chega porque já vimos que isso apenas o reforçou, mas fazer de conta que não existe e tão-pouco normalizá-lo também não funciona.


A resistências tem de ser a desmontagem de todas as suas contradições. As formações cívicas e políticas não se ajustam a “leituras” escritas e imagéticas assimiladas sem critério e sem reflexão que proliferam nas redes sociais onde as máquinas de propaganda e de desinformação são destinadas, sobretudo, para convencer os mais jovens politicamente inexperientes.


Para análise dos eixos temáticos recorrentes na retórica e narrativas de André Ventura, porque é deste que falamos, utilizei uma metodologia baseada em excertos de três tipos das suas intervenções públicas:



  • Debates televisivos (2019–2024) analisados pela Renascença

  • Discurso no Conselho Nacional do Chega (12 set 2025)

  • Discurso de abertura da V Convenção Nacional do Chega (27 jan 2023)


As intervenções de Ventura baseiam-se num tom combativo quer nos debates e discursos partidários quer em assembleias públicas. Torna-se evidente o modo como Ventura estrutura a sua argumentação e constrói a sua imagem política com discursos que recorrem frequentemente à repetição de temas-chave, polarização nos debates e utilização de exemplos concretos através de imagens ou dados, cuja veracidade é por vezes discutível, para dramatizar questões sociais.


A sua abordagem, emocionalmente mobilizadora, aposta na simplicidade das soluções apresentadas e na clara distinção entre “nós” e “eles”, fomentando uma identidade de grupo entre apoiantes e tenta promover a perceção de rutura face ao sistema vigente. Contudo faz questão de mostrar que pretende ganhar o que, afinal, mostra uma vontade de fazer parte do sistema. Que diz querer mudar.


O recurso a slogans e ideias força como por exemplo “tolerância zero”, “Portugal primeiro”, “fim da impunidade” que serve uma retórica que privilegia a clareza e o impacto mediático sem atender à complexidade dos problemas e das soluções.


A estratégia comunicacional de André Ventura é marcada pela presença ativa nas redes sociais e pela aposta em formatos de comunicação direta, como vídeos curtos, sessões ao vivo e fóruns abertos, onde a mentira e a produção de notícias falsas ou truque amplificadas pelo exagero das situações escolhidas. A estratégia dos vídeos e cassetes foi utilizada por Silvio Berlusconni, bilionário, empresário e político italiano que foi Primeiro-ministro da Itália durante vários anos que, antes da popularização das redes sociais, enviou uma cassete de vídeo para todos os canais de televisão de Itália e poucos meses depois estreou-se como primeiro-ministro após  a astúcia da cassete que, sem intermediários falou ao povo através de monólogo emocional uma espécie do que políticos atuais populistas, ou não, fazem usando as redes sociais.


Esta estratégia tem como objetivo criar uma proximidade com o eleitorado, contornar filtros mediáticos tradicionais e estabelecer um canal de comunicação onde a mensagem seja transmitida sem intermediários, fora da comunicação social corrente, em redes sociais, nas quais se manipula o modo emotivo, que hoje é o mecanismo dominante do discurso nesses locais, consolidando, assim, uma base de seguidores altamente envolvida.


André Ventura explora as vulnerabilidades da opinião pública, recorrendo a uma lógica de simplificação binária de dois polos opostos, por vezes contraditórios, e à exploração de medos difusos. Estas dinâmicas, aliadas à eficácia da máquina de propaganda partidária, contribuem para a sedimentação das principais narrativas que sustentam a sua candidatura e reforçam o posicionamento do Chega enquanto força política de contestação, Ventura “foi capaz de instituir a perceção generalizada de um país corrupto, liderado por políticos infames, analisado por cientistas e jornalistas vendidos, colonizado por imigrantes oportunistas e criminosos, até porque casos como o das multas dos bancos, dos prémios do Novo Banco ou a história da Spinumviva lhe facilitam a vida.”, de acordo com um artigo de opinião de Manuel Carvalho no jornal Público.


Devo aqui acrescentar que tudo que que se possa fazer, dizer ou escrever sobre André Ventura seja em artigos de opinião, vídeos, mensagens, comentários, livros, televisão ou análises como esta que realizei, nos quais ele seja protagonista, facilitam-lhe a vida da sua propaganda. Mas, citando uma frase do livro a Arte da Guerra de Sun Tsu, “Se conhece o inimigo e se conhece a si mesmo, não precisa temer o resultado de cem batalhas. Se se conhece mas não conhece o inimigo, para cada vitória ganha sofrerá também uma derrota. Se não conhece nem o inimigo nem a si mesmo, perderá todas as batalhas.”


**********


Uma análise de conteúdo das intervenções de André Ventura (últimos 2 anos)


O que está por baixo do tom combativo de André Ventura e o padrão que emerge nos discursos e textos nos últimos dois anos?


Estratégias retóricas e estilo


Anticorrupção palavra de ordem como apoio discursivo



  •  Há uma discrepância intencional entre a sua atitude quando fala para uma assistência a partir do seu “palco” e o programa do partido. Discurso para mobilizar, mas sem proposta de governabilidade ou pouco coerente no programa.

  •  A palavra “corrupção” surge repetida no texto programático (45 vezes), mas é sinalizada como um apoio emocional/moral do discurso com o registo oral incendiário, mesmo quando a proposta escrita assume tom mais tecnocrático.


Polarização moral e nacional



  • Para justificar a prioridade aos nacionais agita uma hierarquia afetiva como a de “amamos primeiro os nossos”, estabelecendo medidas restritivas de imigração não apenas securitárias, mas também culturalmente de proteção.

  • Propõe soluções fortes para casos simples que exagera com penas máximas, metas absolutas como “tolerância zero”. O léxico que utiliza privilegia a emoção à qualidade jurídica da atuação, depois reformatado em propostas com linguagem de reforma “estrutural”.


Observa-se, portanto, uma evolução discursiva marcada pela adaptação estratégica do vocabulário e pela mudança de abordagem, sem abandonar a intensidade dos temas de modo a adaptar-se a uma linguagem aceite por algumas faixas de população e pelos grupos mais jovens como se verá mais adiante.


Este percurso revela uma transição de uma comunicação polarizador, identitária e de rutura para uma abordagem mais racionalizada em propostas institucionais e promessas de eficiência.


A linguagem torna-se, assim, não só um instrumento de mobilização, mas também de legitimação perante o eleitorado, refletindo a tentativa de ocupar novos espaços no debate político e conquistar legitimidade governativa, o que pode ser observado no seguinte quadro.


 



Domínios do discurso



Itens de uma determinada sequência de texto e palavras mais salientes



Função retórica


Técnicas e estratégias utilizadas para persuadir o público, moldar a sua mensagem e alcançar um objetivo comunicativo específico



Justiça/segurança



prisão perpétua;


castração química



Severidade punitiva



Constituição



revisão constitucional;


Tribunal Constitucional



Reconfigurar regras



Imigração



controlos fronteiriços; residência ilegal



Ordem/controlo



Corrupção



enriquecimento ilícito;


confisco de bens



Limpeza do sistema



Cultura/educação



ideologia de género; educação parental



Guerra cultural



 


Vejamos agora a estratégia discursiva de André Ventura para mobilizar os mais jovens, (e não apenas), que combina elementos populistas, digitais (utilização de redes e comunicação vídeo) e identitários que, afinal, não diferem muito da sua narrativa habitual dos quais se destacam alguns dos seguintes pontos-chave:


 


 



  • Linguagem simples, direta e emocional



  • Evita tecnicismos e usa frases curtas e fortes, que apelam mais ao sentimento do que à racionalidade.

  • O uso de polarizações claras (concentração de forças num determinado ponto por oposição a outro “nós contra eles”, “os jovens esquecidos vs. a elite política”)  que cria um sentimento de pertença e urgência.



  • Narrativa de exclusão e oportunidade



  • Apresenta os jovens como uma geração sacrificada: precariedade laboral, dificuldades no acesso à habitação, falta de futuro em Portugal.

  • Posiciona-se como o político que “diz o que ninguém diz” e que pode devolver oportunidades e esperança.



  • Apelo à rebeldia e ao inconformismo



  • O discurso funciona como um convite à “rebeldia contra o sistema”.

  • A narrativa é construída como antissistema porque se diz contra as instituições oficiais, sejam elas políticas, económicas ou sociais, da forma vigente da sociedade,  o que atrai jovens que se sentem distantes da política tradicional.



  • Uso estratégico das redes sociais



  • Forte presença em TikTok, Instagram e YouTube, com vídeos curtos, memes e transmissões em tempo real.

  • Conteúdo feito para ser facilmente partilhado, usando humor, provocação e linguagem próxima da gíria jovem.

  • Estilo “influencer político”, aproximando-se das práticas comunicacionais dos jovens.



  • Temas com apelo juvenil



  • Habitação: dificuldade em sair da casa dos pais.

  • Emprego: salários baixos, instabilidade e emigração forçada.

  • Justiça social seletiva: “os jovens portugueses são esquecidos em detrimento de minorias ou imigrantes”.

  • Segurança e identidade: discurso nacionalista que cria a sensação de proteger o futuro dos jovens “do seu próprio país”.


Note-se que muitos destes temas são comuns de partidos de extrema-esquerda até aos de direita “normalizada”.



  • Criação de comunidade e identidade



  • Usa slogans e símbolos fáceis de apropriar (“Chega” como sinónimo de basta e “Portugal Primeiro”).

  • Gera sentimento de pertença, quase tribal, em que o jovem passa a sentir que faz parte de um movimento maior. Este tribalismo político no seu nível mais básico, é a divisão do mundo político em grupos opostos impulsionados por uma forte lealdade e identidade de grupo. Estes aspetos negativos do tribalismo são frequentemente alimentados pela competição e pela perceção de uma ameaça comum, através do medo, ansiedade e preconceito, tornando as pessoas mais suscetíveis a notícias falsas, propaganda e conflito.



  • Estilo performativo de André Ventura



  • Aposta em debates televisivos, confrontos diretos e frases “virais”.

  • Essa teatralização política agrada a jovens que consomem política como espetáculo e entretenimento.


Em síntese: a estratégia para os jovens combina emoção, rebeldia, identidade nacional e linguagem digital, criando uma narrativa de rutura com o sistema e de esperança num futuro “roubado” aos jovens.


 Eixos temáticos recorrentes



  • Família e demografia: A família é erguida como solução ao “inverno demográfico”, com incentivos fiscais (ex.: isenção de IRS para mulheres com 3 ou mais filhos), alargamento de licenças parentais e apoios na saúde materna. Nota-se a retirada, desde propostas antigas, de retirar aborto e cirurgias de transição de género da saúde pública, sinalizando uma adaptação tática. O programa evita quantificar impactos financeiros destas medidas.

  • Justiça e crime: Centralidade em “acabar com a brandura” da justiça: prisão perpétua com revisão, castração química para reincidentes sexuais, agravamento de penas para violência doméstica, e apertos processuais para acelerar megaprocessos de corrupção. Isto exige revisão constitucional é tratada pelo próprio partido como prioridade. Há também reforço de meios (PJ, magistrados), apreensão de bens antes da sentença e crime de enriquecimento ilícito.

  • Imigração: Passagem de quotas “culturais” (antigas) para endurecimento amplo: controlos fronteiriços, crime de residência ilegal, recondução a países de origem se não houver prova de autossustento em 6–12 meses, exigência de português no trabalho, restrição de apoios sociais a quem tenha 5 anos de contribuições, revogação do acordo de mobilidade da CPLP e recomposição da AIMA com funções policiais à la SEF.

  • Revisão constitucional: Objetivo estruturante que viabiliza o pacote penal. Pretende “limpar carga ideológica” do preâmbulo, permitir prisão perpétua e castração química, reduzir e alterar composição do Tribunal Constitucional, voto obrigatório, referendos vinculativos sobre qualquer matéria, reduzir deputados e limitar ministérios. A conjuntura parlamentar recente tornou este objetivo menos hipotético.

  • Economia e fiscalidade: Centra-se na retórica liberal de direita: baixar IRS/IRC/IMI, eliminar derrama e pagamentos por conta; isenção de IRS para jovens até 100 mil de rendimento acumulado, depois taxa plana de 15%; isenções na primeira habitação; incentivos a contratação jovem. Em paralelo, medidas de tributação extraordinária sobre banca/petrolíferas e uma lista extensa de promessas sociais sem envelope orçamental explícito, estimadas em mais de 5% do PIB, expondo tensão entre ambição e sustentabilidade.

  • Educação: Defesa de “autonomia da família versus escola”; combate à chamada “ideologia de género” com direito de veto parental; oposição a casas de banho neutras como única opção; Cidadania e Desenvolvimento apenas opcional; reintrodução de exames em todos os ciclos e “tolerância zero” à indisciplina. Reposição integral do tempo de serviço dos professores e revisão do ECD-Estatuto da Carreira Docentes.


Se analisarmos à lupa verificamos que muitas destas medidas servem apenas para captar potenciais eleitores sem garantia de que numa situação de governo muitas dessas medidas sejam sustentáveis ou até exequíveis a prazo.


 


 


Fontes:


Lessard-Hébert, Michelle, Investigação Qualitativa; Fundamentos e Práticas, Instituto Piaget.


José Raul de Sousa; Simone Cabral Marinho dos Santos; Análise de conteúdo em pesquisa qualitativa. https://www.google.com/url?sa=t&rct=j&q=&esrc=s&source=web&cd=&ved=2ahUKEwjXg-norvmPAxUYUKQEHfGUG184FBAWegQIMBAB&url=https%3A%2F%2Fperiodicos.ufjf.br%2Findex.php%2FRPDE%2Farticle%2Fdownload%2F31559%2F22049%2F134370&usg=AOvVaw3qBWRai0qz1Bqbg0p36NMV&opi=89978449


 


https://ojs.letras.up.pt/index.php/re/article/view/13182/12192


Como o discurso do Chega mudou e o que isso diz da sua estratégia: https://rr.pt/fotoreportagem/politica/2024/03/05/como-o-discurso-do-chega-mudou-e-o-que-isso-diz-da-sua-estrategia/368696/


Desafios e Oportunidades da imigração em Portugal, revelados no Dia Internacional dos Migrantes: https://pessoas2030.gov.pt/2024/12/20/desafios-e-oportunidades-da-imigracao-em-portugal-revelados-no-dia-internacional-dos-migrantes/


https://linguateacher.com/pt-pt/glossary/vocabulario-para-contextos-politicos-e-governamentais-em-portugues/


André Ventura quer o Chega a liderar oposição e "preparado para governar": https://cnnportugal.iol.pt/chega/andre-ventura/sangue-suor-lagrimas-e-muita-fe-andre-ventura-quer-um-chega-preparado-para-governar/20230127/63d44cef0cf2c84d7fc54165


O Chega é o futuro, mudámos o sistema político português para sempre: https://expresso.pt/podcasts/legislativas-2025-todos-os-debates/2025-05-19-andre-ventura-o-chega-e-o-futuro-mudamos-o-sistema-politico-portugues-para-sempre-609d2d4f


Discurso de André Ventura no 25 de novembro: https://www.youtube.com/watch?v=pvdm8YIqmJ8


Chega promete programa eleitoral para a próxima segunda-feira com foco em corrupção e imigração: https://www.dn.pt/pol%C3%ADtica/chega-promete-programa-eleitoral-para-a-pr%C3%B3xima-segunda-feira-com-foco-em-corrup%C3%A7%C3%A3o-e-imigra%C3%A7%C3%A3o


O que defende mesmo o Chega? As convicções e contradições do partido de André Ventura:     https://rr.pt/fotoreportagem/politica/2025/05/20/o-que-defende-mesmo-o-chega-as-conviccoes-e-contradicoes-do-partido-de-andre-ventura/426219/https://www.publico.pt/2025/09/11/politica/noticia/chega-recrutar-futuros-votantes-2146881


Como é que o Chega está a recrutar futuros votantes https://www.publico.pt/2025/09/11/politica/noticia/chega-recrutar-futuros-votantes-2146881


Entrevista ao jornal Público, fevereiro 2024, https://www.publico.pt/2024/02/13/politica/entrevista/andre-ventura-so-crescimento-economico-casa-3-5-podemos-aumentar-pensoes-2080089

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2025

Crescimento dos votos na extrema-direita: causa ou consequência?

Extrema direita cupula patriota.png


Eleição após eleição tem-se sentido cada vez mais os efeitos do aumento da extrema-direita no Mundo e sobretudo no continente europeu onde nos inserimos. Embora os partidos da direita moderada e os denominados conservadores tenham conquistado o apoio do eleitorado os da direita radical ou da extrema-direita populistas, soberanistas ou nacionalistas têm vindo a crescer eleição após eleição. Veja-se o caso da AfD na Alemanha nas últimas eleições.


Estes partidos que estão a evoluir na UE nas intenções de voto. Os líderes dos partidos de extrema-direita do terceiro maior bloco eleitoral do Parlamento Europeu, Patriotas pela Europa, elogiaram o regresso de Donald Trump ao poder num encontro em Madrid, no dia 8/fev/25 realizado sob o lema “Make Europe Great Again”.


Tenho-me questionado sobre o que leva o eleitorado a decidir votar em partidos cujos líderes apresentam tendências autocráticas e radicais de extrema-direita. Não se trata de esquerda ou de direita, trata-se de poderem originar e transformarem-se em ditaduras autocráticas, ou seja, regimes em que o governo está nas mãos de um indivíduo ou grupo com poder que possa vir a ser transformado em absoluto e ilimitado. Temos como exemplo o caso da Rússia de Vladimir Putin e agora o de Donald Trump que parece querer seguir os mesmos passos do primeiro. O caso da Rússia não é o medo dos russos, mas do que Putin representa, pois é sabido que ele tem aliados fiéis nas extremas-direita europeia. Sobre este tema há uma visão histórica interessante A ameaça russa em Notas à Margem.


Para tal há diversas razões complexas e interrelacionadas. Há muito a considerar e a entender sobre o contexto e a mentalidade dos eleitores em cada situação específica. Frequentemente, líderes autocráticos provenientes de partidos, ou não, possuem personalidades carismáticas que podem criar uma forte ligação emocional com os eleitores, fazendo-os sentir que esse líder é alguém que compreende os seus problemas e representa os seus interesses.


A técnicas de manipulação emocional usando a retórica nacionalista para mobilizar apoio e influenciar os seus seguidores, sobretudo os potenciais seguidores, podem incluir apelos ao medo, à esperança e à identidade nacional, contra ameaças, internas e externas por vezes infundadas tornando as pessoas mais suscetíveis para acreditar nas palavras que ouvem.


Muitas pessoas tendem a confiar em figuras de autoridade se um líder é percebido como forte e decisivo, pode atrair eleitores que anseiam por estabilidade e ordem. Esta opção pode ser devida a diversos contextos culturais e história política dum país que podem favorecer uma liderança centralizada, tornando as ideias autocráticas mais aceitáveis.


Outro fator pode ser devido a tempos de crise económica, social ou política, os eleitores aceitem apoiar representantes políticos que prometem soluções rápidas e decisivas, mesmo que isso signifique uma concentração de poder.


Há ainda fatores menos evidentes que tem a ver com equações pessoais dos eleitores. Concordar com os líderes pode ser visto como um sinal de lealdade e identidade do grupo a que pertencem ou a que julgam pertencer. Há uma necessidade de pertencimento a algo que pode levar as pessoas a aceitar opiniões e afirmações dos líderes do seu grupo social, político ou religioso (pode até ser um clube de futebol ou qualquer outro tipo de associação) e, por isso, buscam informações que se alinhem com as suas crenças preexistentes ignorando contradições.


O efeito de grupo, de bando ou de rebanho (o termo anglo-saxónico é bandwagon effect) por vezes também referido como “efeito de contágio”. Este termo denota um fenómeno de impacto da opinião pública sobre um ou vários sujeitos. Com as suas preferências e posições políticas, as pessoas juntam-se ao que consideram ser maiorias ou posições dominantes existentes ou esperadas na sociedade. Isso implica que o sucesso gera mais sucesso, e os parecem gozar de um amplo apoio popular provavelmente ganharão um apoio ainda mais forte. Tal pode conduzir a que alguns eleitores votem no candidato com maiores chances de vitória, com o objetivo de não desperdiçar o seu voto, o chamado voto útil. Temos também o voto baseado no comportamento direcionado para o candidato com menores perspetivas de ser eleito, muito devido ao “vou votar nele só por votar”.


A opinião pública percebida ganha assim a qualidade de poder e ser realizada, tal como uma espécie de vagão que carrega uma banda num desfile e atrai uma grande multidão de seguidores que marcham atrás dela para apreciar a música. Em síntese, trata-se de o eleitor decidir votar num partido ou candidato que ainda em sondagens considera apresentar valores que na sua perspetiva são injustamente baixos, ao contrário do anterior efeito que é o de votar em quem vai à frente.


As técnicas de manipulação emocional para influenciar os seus seguidores, sobretudo os potenciais seguidores, podem incluir apelos ao medo, à esperança e à identidade nacional, tornando as pessoas mais suscetíveis para acreditar nas palavras que ouvem.


As palavras e as frases simples vão de encontro ao desejo de simplicidade das pessoas que geralmente preferem explicações simples e claras em vez de frases muito complexas. As pessoas preferem a certeza à dúvida e assim acreditam em quem simplifica questões complexas e em quem oferece soluções fáceis para problemas complexos que podem parecer mais convincentes, tal é o caso de Trump nos EUA que a eliminação de tratados, a ocupação de territórios e a eliminação das teses sobre as alterações climáticas são tratados com apenas com uma assinatura de eliminação ou de abolição. Em Portugal temos o caso André Ventura quando apresenta propostas e soluções para casos complexos cuja exequibilidade seria impraticável se os quisesse colocar em prática caso estivesse no poder.


Há um outro fenómeno conhecido como efeito de ilusão de verdade em que a repetição constante de uma afirmação, mesmo que falsa, pode fazer com que ela pareça verdadeira, mesmo que o não seja. Veja-se o caso exemplar do atual presidente dos EUA Donald Trump que durante a campanha eleitoral muitas vezes usou esta técnica e ainda hoje a utiliza. Mais próximo de nós temos André Ventura do partido Chega.


Nem todos têm acesso a informações imparciais ou as competências para avaliá-las criticamente. A propaganda e o controle dos media podem moldar narrativas para fazer com que perspetivas alternativas pareçam falsas ou perigosas.


Em alguns casos as pessoas podem não ter acesso a informações alternativas ou a meios de verificar o que os políticos candidatos dizem. Isso pode ser exacerbado em regimes onde a comunicação social é controlada ou censurada.


Mas, há um outro ponto muito importante que será desenvolvido noutra ocasião e que tem a ver com desinformação, o controle dos media e com campanhas de desinformação via redes sociais que podem influenciar significativamente a opinião pública, suprimindo críticas e promovendo uma imagem positiva ou negativa dos candidatos a líderes ou até de produtos e de pessoas que são promovidas.  


Notas sobre a imagem:



  1. Apesar do objetivo declarado dos Patriotas de unificar os conservadores nacionalistas da Europa, alguns dos partidos mais influentes da UE nesse campo - como os Irmãos da Itália da primeira-ministra italiana Giorgia Meloni, a Alternativa para a Alemanha e o Lei e Justiça da Polônia – recusaram-se a participar.

  2. O líder do partido político de extrema-direita português Chega, André Ventura, o líder holandês de extrema-direita Geert Wilders, o líder do partido de extrema-direita espanhol Vox, Santiago Abascal, e a líder e deputada francesa de extrema-direita Marine Le Pen, o presidente do grupo parlamentar francês de extrema-direita Reunião Nacional (Rassemblement National - RN), o primeiro-ministro húngaro Viktor Orban, o vice-primeiro-ministro italiano Matteo Salvini e o líder grego do partido "Voz da Razão", Afroditi Latinopoulou, estão no palco do O partido espanhol de extrema-direita VOX reúne-se com outros líderes europeus de extrema-direita, em Madrid, Espanha, em 8 de fevereiro de 2025. REUTERS/Ana Beltran

segunda-feira, 18 de março de 2024

A propósito do jornalismo dar a papa à direita-radical

Jornalismo e direita radical.png


Montagem parcial a partir da imagem do Público do artigo "A grande família do Chega"


Os media contribuíram para a importância que hoje tem o partido Chega. Ao ajudarem os partidos direitistas a canalizar o descontentamento para o PS abriram caminho para o crescimento daquele partido. Mas não só, o PCP e o BE com a repetição contínua de palavras de ordem com ataques ao Partido Socialista ajudaram a passar a mensagem do Chega também contra o PS sem que eles próprios se auto questionassem sobre por que os votos de protesto foram para a extrema-direita, Chega. Se houve tantos votos de protesto para a extrema-direita por que apenas ela tirou proveito disso e não também à extrema-esquerda.


O partido Chega estrategicamente passou a simular o jogo democrático como uma obrigação, mas as declarações do seu líder continuarem a mostrar que era contra o sistema. Por entre a extrema-direita existem versões mais moderadas e outras mais extremistas, mas todas elas colocam em causa as conquistas civilizacionais e, em última instância, a democracia.


Já escrevi vários textos neste blogue em que me debrucei sobre os media e o jornalismo como por exemplo “Fugir das Armadilhas” e “Relação Político Mediática e Jornalismo”. No primeiro escrevi que “A dúvida instala-se sobre o que pudemos esperar do verdadeiro jornalismo quando estes, por motivos de interesses vários, se encontram enfeudados a ideologias e partidos” e mais adiante que “o problema verifica-se quando há tendenciosamente critérios de subtil favorecimento a candidatos pela utilização das mais variadas técnicas de abordagens…”. Pacheco Pereira em artigos de opinião tem abordado aquelas mesmas questões de forma clara e com um preciosismo muito próprio.


Quem vê televisão e os seus noticiários, debates e comentários opinativos durante a pré demissão do primeiro-ministro e depois de conhecidos os resultados das últimas eleições pode perceber as causas e possíveis consequências dos resultados que são lançadas para o ar. Refiro-me à televisão por ser o media através do qual a maioria das pessoas toma conhecimento do andamento da política.


Verifica-se uma ininterrupta relação entre a política e os media onde, para além dos políticos, o jornalismo tem uma carga de politização, talvez até uma partidarização subliminar, que servem de veículos de transmissão de políticas de direita através de comentadores que, ao mesmo tempo, são políticos. São os profissionais da contradição consoante os interesses e que, por vezes, agarram o que os seus adversários dizem e o tomam à letra. Tomar à letra o que se diz tem a suas dificuldades interpretativas e dificuldade em discernir pois depende do contexto em que as frases são enunciadas porque podem ser determinadas pela função da pergunta e dos contextos em que se dá a resposta.


Na política, as questões são frequentemente complexas e podem exigir mais do que um simples "sim" ou "não". Embora seja possível dar uma resposta direta, muitas vezes é necessário fornecer contexto ou explicação e depende da situação. Em todo o caso, na minha opinião, em política não pode haver apenas sim ou não!


Por outro lado, jornalistas, quais lobos famintos, procuram encontrar ininterruptamente supostas contradições que dizem ter sido proclamadas pelos políticos para os atacarem e fazerem disso aberturas de noticiários televisivos ou manchete para capa de jornal.


Verifica-se desde alguns anos um crescimento dum jornalismo politizado, maioritariamente de direita e muito, quer nas televisões, quer na imprensa, não sei se na rádio, mas nas rádios dos jornais e nos podcasts que agora estão na moda isso é certo.


Porém, do ponto de vista do líder do Chega, não há um jornalismo politizado maioritariamente de direita. Para ele, no que reporta às redações, o que se passa é o contrário. Leia-se parte da transcrição do discurso de André Ventura no dia das eleições ao festejar os ganhos eleitorais do seu partido: “…hoje houve em Portugal um ajuste de contas com a história, na nossa história do pós 25 de abril. Houve um ajuste de contas com um país que, durante décadas, foi asfixiado, dominado, manipulado, atrofiado, pela extrema-esquerda e pela esquerda que dominou redações, dominou instituições e que dominou a nossa economia…” (itálico da minha autoria). Neste mesmo dia duas militante do Chega já com alguma idade disseram a um jornalista da CNN que “fala a nossa linguagem” e, ainda por cima, “é um borracho”.


Nas agendas dos noticiários e nos seus alinhamentos os indicadores económicos, financeiros e sociais que foram bons em Portugal e foram aplaudidos internacionalmente foram apresentados de maneira fugaz e não entravam como fator importantes nas notícias.


A isto acresce o ambiente mediático negativo, a agressividade de várias ordens e sindicatos profissionais com criação acintosa de modo a criar um contexto social de caos e insegurança. Servem como exemplos as reivindicações dos sindicatos dos professores, dos médicos, dos enfermeiros, dos polícias entre outros. Acrescentemos o Serviço Nacional de Saúde com que diariamente os telespectadores eram bombardeados aquando das situações extraordinárias devidas às doenças de inverno que anualmente acontecem. Recordemos o anterior bastonário da Ordem dos Médicos, Miguel Guimarães, que fez tudo quanto era possível para subtilmente desacreditar o ministro da saúde e para fazer campanha denegrindo o SNS. Posteriormente, durante a campanha eleitoral da AD várias vezes estava ao lado de Luís Montenegro e foi, e agora é, cabeça de lista da AD pelo Porto.


Num artigo de opinião Pacheco Pereira escreve que após o resultado das eleições “Subitamente, órgãos políticos e de interesses, como a Rádio Observador, cujos orgasmos matinais contra o Governo davam o tom para as notícias de muitos outros órgãos de informação, passaram agora, como era de prever, a ensinar como é que a AD deve governar, quais as prioridades, o estilo e as alianças. Com ironia se pode perceber que o que antes era negro na acção política agora é branco, já não há falta de transparência nos silêncios, e a obrigação de responsabilidade tornou-se a dos “outros”, como mostra a chantagem comunicacional sobre a votação do PS no Orçamento.”


É fácil perceber que vai cair sobre o PS a responsabilidade por tudo o que aconteça de mal à direita. A pergunta que se coloca é a de saber se deve ser o PS a sustentar um Governo cujo partido ganhou as eleições?


De alguns pensamentos provindos de grupos de comentaristas entendedores de política salientam-se opiniões que propõem que o Chega não deve ficar na oposição porque pode crescer ainda mais. Estas razões são simplistas porque há outras razões mais complexas.   Há outras variáveis mais marcantes nos eleitores que que os levaram a presentear o Chega e que têm a ver com aspetos sócio económicos vários que nem sempre são da responsabilidade do PS, mas do jornalismo de influência direitista que preparou a população contra o PS num alinhamento com o Chega e com os partidos da extrema-esquerda.


Parece estar a haver críticas a Montenegro por causa da frase do “não é não” ao Chega, que agora lamentam, porque pôs em causa um possível entendimento com aquele partido. Contudo, do meu ponto de vista, o “não é não” ficou em suspenso para salvaguardar que, numa circunstância como a atual poderia ser adaptado a novas circunstâncias que, entretanto, surgissem. Mas, tal poderá não acontecer pois colocaria face a alguma opinião pública como falta à palavra dada.


É por isso que o “não é não” de Montenegro ao Chega poderá, ou não, ter outras nuances, digamos, mais “flexíveis”. É o mesmo que dizer “Bem, na Assembleia da República falamos o que seria a condensação e ou remoção da frase e de alguns de seus sentidos, com o objetivo de restringir o propósito do pensamento seria uma espécie de “novilíngua” orwelliana) entre todos os deputados”, o que, como é óbvio, todos não significa para a AD falar com o Bloco ou com o PCP, mas com o Chega.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

A castração dos media


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As tentativas e as estratégias de alguma direita para "controlar" ou enfraquecer o Estado de direito democrático são um atributo dos seus governos seja, aqui em Portugal, seja em qualquer outro país.


É o caso da orientação que o Governo da Polónia seguiu, tomando como modelo o que fez a Hungria em relação à liberdade de imprensa. Em março de 2013 a Polónia abriu-se à democracia e aderiu à EU. Das eleições de outubro saiu um novo Governo do Partido Direito e Justiça, partido de direita nacionalista, conservadora, ultracatólica e eurocética. Não tenho nada contra os católicos, eu próprio o sou, mas, coincidentemente, os católicos surgem envolvidos e ligados ideologicamente a medidas de direita.


 O Governo polaco aprovou uma lei que permite nomear e demitir diretores dos meios de comunicação social públicos para os controlar. Os media públicos (rádio e televisão) passarão a ficar sobre controlo do Governo. O mesmo já foi feito para controlar o Tribunal Constitucional pelo mesmo Governo. Ao escrever isto vem-me à memória o Governo da coligação neoliberal de Passos Coelho e de Paulo Portas quando tentaram privatizar a RTP, claro que para entregar a privados da sua confiança, e recordo ainda o que, na altura, foi proferido contra o Tribunal Constitucional chegado até alguém dizer que esse Tribunal não servia para nada. Podemos ou não concordar, mas nas atuações do anterior governo estava implícito um desejo de implementar o que se está agora a fazer na Polónia ainda que deforma ténue e subtil (começa sempre assim). Ainda bem que a nossa democracia funcionou porque, se houvesse uma maioria absoluta dessa direita, nada nos garantia que assim não fosse no futuro.


Apoderarem-se do controlo dos media é o apetite dos conservadores quando chegam ao poder e, no caso da Polónia, ainda só passaram dois meses. Justificam dizendo que o Governo anterior, de centro-direita, "tinha um conceito político de esquerda" e acrescenta que o mundo não pode ir apenas segundo um modelo marxista. Pela voz de um seu ministro a direita que agora governa a Polónia defende que "o governo anterior, de centro-direita, seguiu um certo conceito político de esquerda", disse o ministro. E continua: "Como se o mundo devesse ir apenas num único sentido, segundo um modelo marxista – uma nova mistura de culturas e de raças, um mundo de ciclistas e vegetarianos, que só se interessa por energias renováveis e se opõe a todas as religiões. Isto não tem nada a ver com as raízes polacas tradicionais". Pensamento que defende e que se insere no Estado de direito democrático que segundo ele se deve seguir, está bem de ver! A direita é senhora da verdade absoluta. Que diria se isto fosse feito por parte da esquerda?


Noutro países não há controlo dos media pelo Estado, como em Portugal, mas, mesmo que entregues a empresa privadas nada a sua independência e não será por isso que se tornarão isentas. Se as entidades privadas, detentoras dos media, houver coincidência  ou relação de semelhança ideológica com quem governa, há o perigo de privilegiarem o governo estiverem em funções. É tudo uma questão de coincidência ideológica.


Mas não são apenas os governos de direita há muitos governos de esquerda radical por esse mundo que assim procede.


Devemos temer o efeito de contágio de termos a Polónia a aprovar uma lei que dá ao Governo o controlo efetivo dos media estatais. Os sistemas não são de todo perfeitos e, mesmo em Portugal, verificaram-se episódios de interferência do Estado no media, o erro não tem desculpa e não se poder tornar um preceito, seja qual for o sinal ideológico do governo.

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Direita portuguesa, eis a questão


 




Luís Rosa no editorial do Jornal i de hoje faz incursões pela direita e pela esquerda partindo da Constituição diz, vejam só, ela pretender "abrir caminho para uma sociedade socialista". Temos visto que, ao longo dos quase 40 anos de democracia, a Constituição em nada tem obstado à iniciativa privada, ao enriquecimento ilícito e lícito de alguns, ao crescimento de muitas empresas privadas portuguesas e estrangeiras[i].  


Continua dizendo que, por a "constituição não ser neutra há um preconceito cultural contra tudo o seja denominado de direita". Será que eu estou a perceber bem? Então, e nas últimas eleições, o complexo cultural contra tudo quanto seja de direita sublimou-se na atual maioria?


Leio sempre que posso, por vezes sem agrado, os editoriais do jovem Luís Rosa - comparado comigo é um jovem -, que terminou o curso na Lusófona no ano em que entrei como professor para uma das instituições de ensino superiores do grupo, (não, não passei alunos ao género do Relvas), apenas sabe do que foi a ditadura pelo que lhe dizem ou leu. Tenho a certeza de que sabe que houve durante estes 40 anos governos de direita.


Refere ainda que os últimos acontecimentos relativos às declarações de Mário Soares e da ocupação simbólica dos ministérios são "exemplos inimagináveis em democracias maduras como a inglesa ou francesa.". Diz bem, democracias maduras! Pelo menos a de Inglaterra já tem mais de quinhentos anos. Recordam-lhe estes factos a anarquia do radicalismo político da Primeira República e reforça que não se compara com a "luta política normal de um estado-membro da União Europeia". Que luta política na europa? A Europa está estabilizada com as suas direitas, não selvagens, em termos socias.


Viveu por acaso Luís Rosa numa anarquia para a comparar com as manifestações de descontentamento popular que se têm verificado. Se acha que são comparáveis então estamos mal porque o problema então apenas se resolveria com uma ditadura.


Mas o essencial é que a direita portuguesa não tem qualquer paralelo com as que lhe servem de comparação porque as direitas europeias (fora as extremas direita radicais) não sujeitam os seus povos a torturas sociais, nem colocam em segundo lugar as pessoas através de formas iníquas e critérios vincadamente ideológicos, próprios do radicalismo neoliberal como as do famigerado tempo de Thatcher.


Ainda ontem o ministro da economia Pires de Lima numa entrevista na TVI24  afirmou que a "austeridade tem sido seletiva" (nos momentos selecionados no portal da net da TVI essa afirmação não consta). Aqui está a equidade desta direita: atingir apenas alguns com a austeridade.


Esta direita portuguesa não é a direita europeia, é uma direita que se baseia, apenas e só, nos interesses dos seus clientes partidários e criar lugares na função pública para os amigos dos amigos e para os ansiosos por lugares que proliferam nas "jotas". Não tem sentido de Estado nem defende Portugal perante as interferências, ameaças e agressões verbais exógenas sobre as instituições democráticas (veja-se o caso do T.C.).


Nos países em que a direita está no poder os governos não tem procedido à destruição violenta dos seus estados sociais, salvo alguns ajustamentos necessários, nem atuam contra as Constituições, nem transformam estados em assistencialistas como esta direita tem feito e continua a fazer em Portugal.


Não defendamos o indefensável com passados recentes nem nos iludamos, a direita em Portugal nada tem a ver com a direita verdadeiramente democrática dos países europeus.


Será isto pensamento de esquerda? Se assim for então sou de esquerda.


 





[i] Veja-se o caso da Sonae por exemplo. http://www.sonae.pt/pt/sonae/historia/


 




segunda-feira, 14 de outubro de 2013

A Fartura

 


 

Qualquer dicionário apresenta mais do que um sinónimo para fartura. Em culinária é uma espécie é uma massa frita em espiral e polvilhada com canela e açúcar muito apreciada e normalmente vendida nas barracas das feiras. Outra tem o significado de abundância. Outra ainda é o de estar farto. Sim, é este tipo de fartura que os portugueses sentem quando os senhores do governo, mandatários,  correligionários, comentadores e afins, atrelados às ideias do governo, tentam passar para o povo um chorrilho de chavões amedrontadores para no dia seguinte desdizerem, por palavras confusas, o que anteriormente disseram.


Voltámos aos discursos  em que se aplicam à solta palavras como banca rota, perda de soberania, não há dinheiro para pagar ordenados na função pública, nem para pensões, os credores exigem, etc., etc..Tudo isto para se justificarem ao imporem condições gravosas, apenas para alguns, as medidas que tencionariam tomar mesmo sem "troika". Serve-lhes o discurso consoante a ocasião. É como a do segundo resgate. Num dia estamos à beira do segundo resgate, na semana seguinte nem pensar, não haverá segundo resgate.


A questão da banca rota é um chavão para amedrontar. Pensemos apenas no que aconteceria se tal acontecesse. A Europa do euro bem poderia começar a preparar-se para o pior. Vejam o que aconteceu com a Grécia, essa que estava já no patamar da total rotura financeira. Vieram todos a acudir para a salvar. Imaginem a possibilidade de caos que se geraria em que ninguém pagava ninguém...


Ser de direita não significa estar contra o estado social ou até optar por destruí-lo como este governo tem feito e se propõe continuar a fazer embora lance para a opinião pública a ideia de que não é assim. Estado Social e direita não são incompatíveis desde que se verifique desenvolvimento económico.


O mal não está na direita mas na conceção que a direita radical infiltrada no PSD que se encontra no governo, apoiada pelo CDS, com Passos Coelho como cabeça mandada, que tem o objetivo, não de fazer reformas inteligentes, mas  de destruir o Estado Social.


O que Passos Coelhos e o seu bando de terroristas sociais e incompetentes do  governo pretende é que a riqueza do país seja canalizada para uma elite económica e financeira que se pretende apropriar de grande parte das receitas do estado para benefício próprio. Esta é a direita com a qual se deve estar contra. Veja-se o caso da apetência pela saúde, caso dos seguros de saúde e pelas poupanças das contribuições para a reforma que em parte se prevê poderem vir a ser privatizadas.  


Esta não é, como se afirma,  a direita da liberdade de investimento, que cria postos de trabalho e riqueza e estimula a poupança . Esta é a direita do saque, do salve-se quem puder, que quer transformar Portugal num país sem lei, e sem rei nem roque, onde vale tudo. É a direita radical de odor totalitário que pretende até interferir na liberdade dos cidadão ao decidir quem deve ou não ter direito e define qual o valor com o qual acha que devem receber para viver. Veja-se o caso das pensões de sobrevivência. É um governo da direita radical que aplica o velho estilo soviético.


Este governo é uma instituição de venda a retalho de medidas anunciadas aos poucos e sem consistência que faz lançar para opinião pública parte de medidas gravosas para, depois, ao desdizê-las, poder afirmar que, afinal, não era bem assim... Não era tão mau como parecia. Vejam-se as declarações de Paulo Portas.


Para os portuguese este governo é uma FARTURA.

domingo, 8 de setembro de 2013

O apego ao poder por interesse nacional


 


Mesmo nas eleições autárquicas votar na manutenção desta gente, esquecendo-nos do engodo em caímos aquando das últimas eleições legislativas é sermos duplamente parvos. A democracia fez-se para que haja mudanças, não que se espere que a situação melhor a curto prazo, mas para que, em conjunto, quem governa e é governado partilhem dos mesmos objetivos geradores de uma unidade de facto de emergência nacional e não de uma qualquer união nacional que apenas garante os interesses de quem está neste momento no poder.

  


Ainda desligado dos comentários políticos e dos aparecimento constante e propagandístico do primeiro-ministro nos canais de televisão, contemplo o mar sereno a partir de uma varanda num lugar do algarve fora do reboliço do mês de agosto, preferencial da maioria dos portugueses, não resisti, mesmo assim, de refletir sobre atitudes e comportamentos politiqueiros de quem dirige o governo deste país de quem a a maioria que o elegeu já está farta.


O apego ao poder do primeiro-ministro Passos Coelho, a sua inexperiência política e a falta de competências governativas é uma mistura explosiva quando se trata de governar um país em crise. Teria sido mais sensato se os portugueses tivessem na altura optado por uma solução de, quem provocou a crise que a gerisse e nos fizesse sair dela porque tinha pleno conhecimento das suas causas e consequências. Mas o engodo foi lançado e aqui estamos nós. É bem de ver que a atual liderança do PSD foi impulsionada pela amálgama da direita mais radical do partido e por uma geração de alguns retornados na ânsia de reconquistar poder e dinheiro através do estado.


O Estado para esta gente é demasiado grande e gastador, há que reduzi-lo à sua infíma espécie que apenas sirva os interesses dos políticos e de quem gravita à volta deles. Um estado que sirva apenas os que governam e os que já se alinham para governar.


Querer governar a todo o custo acima das instituições democráticas e das leis fundamentais nunca foi uma boa política para acordos com outros partidos sejam eles da direita ou da esquerda. O mais grave é que o primeiro-ministro para pagamento de favores, porque chegar a uma liderança tem custos, rodeou-se de assessores e conselheiros (?) jovens radicais inexperientes na governação que acumulam incompetências perigosas e com desconhecimento da cultura e sentir da maior parte das populações do país. A prova está nos desaires e desastres políticos e económicos que foram manifestos nestes dois últimos anos, apesar de casos pontuais de algumas poucas medidas positivas.


O que tem valido a Passos Coelho é o CDS/PP, também este agarrado ao poder, com os desaires oportunamente provocados e convenientes, mas que, à custa do partido que apoia se vai enterrando cada vez mais. Por mais que custe a Paulo Portas o CDS sairá mais ferido e enfraquecido do que quando entrou. O PSD dos jovens radicais neoliberais, se não forem neutralizados, se encarregarão disso.


Passos Coelho e a sua trupe de “advisers” parecem desconhecer que governar um país e uma nação não é apenas propaganda partidária concertando saídas e eventos para aparecer à hora nobre nos canais de televisão dizendo as vagas patacoadas do costume. Em vez de unir desune, ora elogiando o que o governo tem feito, mas não fez, ora atacando a oposição por não ir de encontro aos seus caprichos governativos. Como é óbvio o papel da oposição em democracia, é fazer oposição não é participar nos desmandos de quem governa.


Apesar da importância do contacto com o país é no gabinete que se estudam e preparam com tempo e consciência os dossiers para a tomada de decisões e resolução dos problemas para bem coordenar os conselhos de ministros, coisa que Passos Coelho parece desconhecer.


Mesmo nas eleições autárquicas votar na manutenção desta gente, esquecendo-nos do engodo em caímos aquando das últimas eleições legislativas é sermos duplamente parvos. A democracia fez-se para que haja mudanças, não que se espere que a situação melhor a curto prazo, mas para que, em conjunto, quem governa e é governado partilhem dos mesmos objetivos geradores de uma unidade, de facto, de emergência nacional e não uma qualquer união nacional que apenas garante os interesses de quem está neste momento no poder.

O apego ao poder por interesse nacional


 


Mesmo nas eleições autárquicas votar na manutenção desta gente, esquecendo-nos do engodo em caímos aquando das últimas eleições legislativas é sermos duplamente parvos. A democracia fez-se para que haja mudanças, não que se espere que a situação melhor a curto prazo, mas para que, em conjunto, quem governa e é governado partilhem dos mesmos objetivos geradores de uma unidade de facto de emergência nacional e não de uma qualquer união nacional que apenas garante os interesses de quem está neste momento no poder.

  


Ainda desligado dos comentários políticos e dos aparecimento constante e propagandístico do primeiro-ministro nos canais de televisão, contemplo o mar sereno a partir de uma varanda num lugar do algarve fora do reboliço do mês de agosto, preferencial da maioria dos portugueses, não resisti, mesmo assim, de refletir sobre atitudes e comportamentos politiqueiros de quem dirige o governo deste país de quem a a maioria que o elegeu já está farta.


O apego ao poder do primeiro-ministro Passos Coelho, a sua inexperiência política e a falta de competências governativas é uma mistura explosiva quando se trata de governar um país em crise. Teria sido mais sensato se os portugueses tivessem na altura optado por uma solução de, quem provocou a crise que a gerisse e nos fizesse sair dela porque tinha pleno conhecimento das suas causas e consequências. Mas o engodo foi lançado e aqui estamos nós. É bem de ver que a atual liderança do PSD foi impulsionada pela amálgama da direita mais radical do partido e por uma geração de alguns retornados na ânsia de reconquistar poder e dinheiro através do estado.


O Estado para esta gente é demasiado grande e gastador, há que reduzi-lo à sua infíma espécie que apenas sirva os interesses dos políticos e de quem gravita à volta deles. Um estado que sirva apenas os que governam e os que já se alinham para governar.


Querer governar a todo o custo acima das instituições democráticas e das leis fundamentais nunca foi uma boa política para acordos com outros partidos sejam eles da direita ou da esquerda. O mais grave é que o primeiro-ministro para pagamento de favores, porque chegar a uma liderança tem custos, rodeou-se de assessores e conselheiros (?) jovens radicais inexperientes na governação que acumulam incompetências perigosas e com desconhecimento da cultura e sentir da maior parte das populações do país. A prova está nos desaires e desastres políticos e económicos que foram manifestos nestes dois últimos anos, apesar de casos pontuais de algumas poucas medidas positivas.


O que tem valido a Passos Coelho é o CDS/PP, também este agarrado ao poder, com os desaires oportunamente provocados e convenientes, mas que, à custa do partido que apoia se vai enterrando cada vez mais. Por mais que custe a Paulo Portas o CDS sairá mais ferido e enfraquecido do que quando entrou. O PSD dos jovens radicais neoliberais, se não forem neutralizados, se encarregarão disso.


Passos Coelho e a sua trupe de “advisers” parecem desconhecer que governar um país e uma nação não é apenas propaganda partidária concertando saídas e eventos para aparecer à hora nobre nos canais de televisão dizendo as vagas patacoadas do costume. Em vez de unir desune, ora elogiando o que o governo tem feito, mas não fez, ora atacando a oposição por não ir de encontro aos seus caprichos governativos. Como é óbvio o papel da oposição em democracia, é fazer oposição não é participar nos desmandos de quem governa.


Apesar da importância do contacto com o país é no gabinete que se estudam e preparam com tempo e consciência os dossiers para a tomada de decisões e resolução dos problemas para bem coordenar os conselhos de ministros, coisa que Passos Coelho parece desconhecer.


Mesmo nas eleições autárquicas votar na manutenção desta gente, esquecendo-nos do engodo em caímos aquando das últimas eleições legislativas é sermos duplamente parvos. A democracia fez-se para que haja mudanças, não que se espere que a situação melhor a curto prazo, mas para que, em conjunto, quem governa e é governado partilhem dos mesmos objetivos geradores de uma unidade, de facto, de emergência nacional e não uma qualquer união nacional que apenas garante os interesses de quem está neste momento no poder.