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quinta-feira, 17 de fevereiro de 2022

Tempestade Perfeita

Livro de Daniela Sampaio.png


“Tempestade Perfeita” um livro de Daniela Santiago a não perder.


A jornalista Daniela Santiago consegue ter a capacidade de observação e de saber ouvir e depois.  


Estou a reler, desta vez, alguns capítulos.


É um livro por onde desfilam algumas das personagens que descredibilizam a democracia, marcando-a pela negativa. Este livro dá a conhecer os que se aproveitam, como diz na contracapa, “das fraquezas da sociedade carente de valores, sedenta de políticos carismáticos e de justiça mais eficaz, para construir um discurso demagógico alavancado pela discórdia, pelas notícias falsas e por conspirações”. Dá-nos pistas para anteciparmos a onde nos poderão levar partidos como o “Chega” que têm ídolos e conselheiros defensores e negacionistas de ditaduras.


A alguns dará a conhecer os populistas e a ascensão das extremas-direita, e, a outros, a ficarem raivosos por se sentirem retratados.


Tenho para mim que no jornalismo a isenção é uma prática difícil. Mesmo na descrição de factos não é fácil conseguir evitar sinais de opinião favorável ou desfavorável sobre o observável.

segunda-feira, 5 de junho de 2017

Contratempo em Barcelona

Há mais de duas semanas que me encontro afastado das lides da alimentação do blog e a causa esteve em Barcelona, já que resolvemos, eu e a minha mulher, ir visitar a cidade de Gaudi. Era nosso objetivo visitar os vários monumentos das arquiteturas emblemáticas únicas e distintas concebidas por aquele arquiteto e, de seguida, chegarmos a Saint Tropez no sudeste da França.


O bom tempo proporcionava a viagem em automóvel através de Espanha, calma e realizada em dois dias, com uma paragem para descanso na pequena cidade de Guadalajara, a cerca de sessenta quilómetros a nordeste de Madrid.


Atravessar aquela grande metrópole, próximo da hora de ponta, pelas circulares até encontrarmos a saída para Barcelona foi algo de aterrador. Não é a primeira vez que viajamos por terras de Espanha, vários itinerários já foram percorridos, mas parecia que todos os veículos do país tinham confluído para as autovias circulares que envolvem a cidade. Tudo fazia lembrar um carrocel de loucura. Ao fim de mais de meia hora lá estava a tão esperada saída A2- E90 para Guadalajara onde tires circulam em catadupa em direção a cidades, algures.


Guadalajara ficou com o meu telemóvel. Não sei se o perdi ou mo roubaram. Ainda estou para saber. Às dez da manhã, a cerca de cem metros do carro, ainda estava no meu bolso traseiro das calças, quando lá cheguei… onde estás? Onde te deixei que não te encontro? Esforço em vão. Ficou o benefício da dúvida. Talvez caído no banco do jardim onde antes nos tínhamos sentado. Este é o segundo telemóvel que ficou em Espanha, o outro foi em Mérida, há poucos anos atrás.


Finalmente Barcelona. Mais uma vez chegados a hora de ponta. Perto das 19 horas. Foi mais de uma hora para chegar ao centro com paragens sucessivas entre túneis e desvios. Motas, motinhas e motoretas proliferam nascendo e esgueirando-se pelos mais recônditos e estreitos espaços, resvés entre os veículos parados nas três faixas das circulares. Um autêntico inferno de motociclos. Surgem de todos os lados motociclistas de mochila às costas. No centro de Barcelona parques destinados a este tipo de veículos não faltam.


O nosso destino era um hotel moderno que tínhamos previamente marcado, localizado



no centro antigo da cidade, muito próximo da Catedral Gótica.


A Via Laietana passou a ser a nossa avenida de referência no meio de uma cidade de morfologia ortogonal onde facilmente nos podemos perder nos inúmeros cruzamentos, se não tivermos bem presente um claro mapa mental da cidade.


Barcelona_1.png


Deambulámos de carro pela cidade tentando chegar ao nosso destino, o hotel próximo da catedral. Procurámos aqui e ali a quem passava sem nunca obtermos uma indicação correta até que estacionámos o carro na Plaza d’ António Lopez no términos da Avenida Laietana, frente a uma cervejaria. Aproveitámos para beber uma água e uma coca-cola. Regressámos passados uns escassos 10 minutos. Entrei no carro e preparei-me para arrancar quando me veio a ideia de que, talvez ali, me indicassem como chegar ao nosso destino. Saí novamente do carro tendo deixado a Manuela à espera. Entrei novamente na cervejaria. Quando regressei andava a minha mulher a procurar pela mala de mão onde tinha todos os documentos, cartões e todo o dinheiro disponível  O que tinha acontecido?!


Barcelona_2.png


Nos breves momentos em que me ausentei, um sujeito tinha acenado e apontava para o carro levando as mãos à cabeça. A Manuela sai do carro para ver o que significavam aqueles sinais, dá a volta por detrás do carro para onde o sujeito apontava, quando se apercebeu do golpe já foi tarde, outro individuo que se encontrava na proximidade já lhe tinha levado a mala que deixou no chão dentro da viatura e que, por azar, inadvertidamente, tinha também guardada a minha carteira.


O que se passou de seguida foram momentos de desespero. Andámos mais de quinhentos metros para encontrar polícia. La Rambla foi onde conseguimos encontrar uma patrulha que estava a terminar o turno e que, atenciosamente, nos conduziu na viatura da patrulha até ao comissariado onde tivemos que apresentar participação do roubo e preencher papelada durante de mais de duas horas. Lá se encontrava, por acaso, àquela hora um polícia intérprete português, mas, mesmo assim, com problemas de comunicação linguística.


Para nos deixarem contactar pelo telefone o Visa Internacional para cancelamento dos carões multibanco e outros foi um drama. Apenas podíamos utilizar uma cabina pública que lá se encontrava. Mas como ligar se não tínhamos sequer moedas? Por fim lá consentiram que pudéssemos fazer uma chamada, e nada mais.


Já noite, sem comer, regressámos ao carro que, depois das voltas que a polícia deu para nos levar ao comissariado, já nem sabíamos onde se encontrava o carro. Tínhamos a referência da Via Laietana, foi assim que, perguntando, conseguimos chegar ao local ajudados também pela intuição espacial. Tínhamos estacionado o carro num pequeno espaço entre outros dois embora à justa, dava para sair com alguma dificuldade. Espanto nosso! O carro que estava estacionado à frente do nosso tinha saído e encontrava-se um outro que deixou um intervalo não mais de dois dedos. Foi mais uma vez com a ajuda de pessoas da cervejaria que, ao fim de pelos menos dez manobras conseguimos ver-nos livres daquele local, reiniciando a busca do hotel.


Àquela hora da noite, talvez vinte e três horas, de cada vez que parávamos para pedir informações sobre a localização do hotel, deparávamos com sujeitos isolados, não sei se romenos ou magrebinos, encostados aos edifícios, com ar suspeito que se aproximavam solícitos para tentar ajudar.  Um dos mais evidentes foi um deles que, quando saí do carro para perguntar, se aproximou de mim e à minha pergunta começou a indicar-me uma rua estreita que subia para algures, de sentido proibido dizendo que o hotel era para ali, mas que o carro não podia ir por lá, dizia:


-  Hay que aparcar el coche aquí y subir con las maletas por aquella calle que el hotel estaba hacia allí.


Sem lhe ligar nenhuma voltei para o carro e segui novamente para a Via Laietana onde encontrei um pequeno largo com uma praça de táxis cuja maior parte dos motoristas não eram, de certo, pelo seu semblante, de origem espanhola. Talvez magrebinos, talvez de outras origens. Parei para fazer a mesma pergunta a um deles. Espantado, como se nunca tivesse ouvido o nome do hotel pela primeira vez, sabendo nós que era bem conhecido. A referência era a proximidade da catedral gótica. O taxista puxou do seu smartphone e pesquisou. Procurou, mas nada. Virou-se para um colega próximo e fez-lhe a mesma pergunta que eu lhe tinha feito:


- Sabes dónde se encuentra este hotel? Yo sé que es por aquí - mostrou o smartphone - pero no estoy viendo!


O outro pegou no seu smartphone e procurou também e, ao fim de quase cinco minutos lá encontrou. Finalmente! Pensei. A Manuela continuava sentada no carro sempre atenta a movimentos suspeitos.


- Es allí justo delante – indicou o taxista.


Era do outro lado da Via Laietana, no largo em frente, mas não podia entrar lá com o carro. Teria de atravessar a avenida, colocar o carro no parque subterrâneo e levar as malas para o hotel que era ali muito perto, à direita.


Agradeci a informação. Dirigi-me para o carro e fui em direção ao parque. Olhei para o largo. De facto, o largo era espaçoso e lá se encontrava a indicação do parque pago. Era mesmo ali a catedral, e o hotel era próximo, numa rua à direita.


Finalmente chegámos ao hotel para fazer o check-in. Contámos o que se passou. Na receção já sabiam, pela polícia, que íamos chegar mais tarde. Tínhamos-lhes, entretanto, pedido para os avisar.


No carro guardávamos uma espécie de ração de combate que costumamos transportar para eventuais emergências. Água, uns patés, umas fatias de pão do tipo forma embalado, um chouriço fuet, uma lata de conserva e pouco mais. Foi isso que nos valeu nessa noite e no atribulado dia seguinte.


Sem documentos de identificação, sem cartões, sem dinheiro e apenas com os passaportes que, por estratégia, tinham sido guardados noutro local, dirigimo-nos, logo de manhã cedo, à sede do banco BBVA, próximo do hotel. Pensei ingenuamente que estaríamos safos, pois é neste banco que tenho conta em Portugal.  Lá chegados a primeira desilusão. O BBVA em Espanha nada tem a ver com o de Portugal com quem não têm protocolo. Já tiveram, em tempos, disseram-nos, e, como tal, nada podiam fazer. Aconselharam-nos a ir ao Consulado de Portugal em Barcelona e, talvez lá, conseguíssemos alguma coisa. Pedimos a direção e, com grande favor, pesquisaram na net e deram-nos o endereço.  Era lá para cima, numa rua perpendicular quase no fim da Via Laietana, perto do El Corte Inglês, na Ronda de Sant Pere.


Tínhamos marcado dois dias no hotel que se encontrava esgotado e, enquanto caminhávamos sentíamo-nos como duas pessoas que, se não conseguíssemos resolver o problema, seríamos dois potenciais sem abrigo arrastando as nossas duas malas pela grande cidade. Restava-nos para dormir o carro que se encontrava no parque subterrâneo.


Barcelona é uma cidade cuja população supera a de Lisboa, 1 milhão e 600 mil de habitantes e 506 mil habitantes respetivamente. As densidades populacionais das duas cidades também diferem sendo de 15900 hab/Km2 para Barcelona e de 6450 hab/Km2 para Lisboa.


Galgámos acima a dita via sem pequeno almoço com o calor perto do meio-dia já se fazia sentir. Perguntávamos onde era a rua do Consulado, mas as indicações eram por vezes contraditórias. Será que percebiam o que nós dizíamos? A expressão das pessoas a quem perguntávamos era esclarecedora. Mas, com a nossa insistência lá nos fizemos compreender e saber o que queríamos.


Chegados ao Consulado expusemos o nosso caso à rececionista que lamentou o facto e tentou diminuir o nosso desânimo dizendo que não éramos os primeiros. Primeira grande ajuda! Mandou-nos tirar uma senha e aguardar. Não havia muita gente, apenas duas pessoas na altura, ambas portuguesas. Entretanto outras foram entrando, possivelmente emigrantes, a maior parte por causa de revalidação de documentos O tempo de espera foi relativamente elevado até sermos chamados para expormos o nosso caso ao chanceler.


Atendidos que fomos e relatado o acontecido, o mesmo lamento pelo sucedido.


A solução passava por contactarmos em Portugal alguém da família que nos pudesse enviar dinheiro pela Western Union e essa era uma solução mais rápida. No mesmo dia teríamos o dinheiro.


Queríamos evitar se possível, dissemos-lhe, porque seria complicado. Mandou-nos aguardar. Passados breves momentos regressou e conduziu-nos ao gabinete do senhor Cônsul. Pessoa muito afável que nos recebeu com muito delicadeza. Algumas soluções foram propostas, uma delas era através do Banco Caixa Geral filial da CGD onde também tínhamos conta e que ficava na Avinguda Diagonal (Avenida Diagonal) que era lá para cascos de rolha. O cônsul pediu à secretária para ligar para o gerente do Banco para marcar um encontro connosco para tentarmos resolver o problema.  Ficava muito longe e não tínhamos dinheiro para os transportes. O cônsul propôs ceder-nos o seu passe para transportes públicos. A confusão era tal para apanhar transporte, para quem, como nós, desconhecia Barcelona e se encontrava numa situação fragilizada que resolvemos antes ligar do consulado para uma das nossas filhas pedindo para nos enviar dinheiro. E assim foi.


Estávamos há mais de doze horas sem termos ingerido alguma espécie de alimento ou bebida. Resolvemos, por isso, sair do consulado e ir ao hotel comer o que ainda sobrava da ração que tínhamos guardado. Quando chegámos recebemos, entretanto, uma chamada da nossa filha a dizer que já tinha enviado o dinheiro. Regressámos novamente ao consulado para dizer que não necessitávamos de ir ao Banco Caixa Geral porque esse problema já tinha sido ultrapassado. Agradecemos e partimos desta vez, e mais uma vez, pela Via Laietana abaixo para ir à estação dos correios que era no extremo oposto.


Esperámos algum tempo até sermos atendidos e, após confirmações e mais confirmações, assinaturas e mais assinaturas lá nos foi dado o dinheiro que tinha sido enviado e dirigimo-nos ao hotel com os olhos bem abertos para todos os lados, apesar do nosso estado de fraqueza física e psicológica em que nos encontrávamos.


O nosso destino que era Saint Tropez foi cancelado. Queríamos deixar Barcelona e Espanha o mais rápido possível. Nesse mesmo dia conseguimos comer uma refeição quente num dos muitos snacks da Via Laietana. Queríamos no dia seguinte sair dali para fora.


No largo da Catedral de Barcelona, de estilo gótico, encontravam-se miríades de turistas. Uma espécie de babilónia onde línguas e culturas se entrecruzavam. Sentados nas escadarias, e frente à porta da Catedral, turistas aguardavam para entrar enquanto outros tiravam fotografias. A escadaria era local de encontro e de convívio.


Barcelona_3.png


Como a Catedral de Barcelona ficava perto do hotel resolvemos, já ao fim da tarde, tirar umas fotografias e percorrer algumas das ruas do bairro gótico que, àquela hora, proliferava de gentes dos mais diversos pontos do globo. Nada mais vimos de Barcelona, a cidade de Gaudi.


A nossa intenção era não mais voltar ali, tal foi o trauma. Mas isso não vai acontecer. Logo que possamos, e o mais breve possível, lá iremos novamente. Iremos à tal cervejaria à frente da qual estacionámos o carro e, desta vez, comermos tranquilamente (?) umas verdadeiras tapas espanholas como nunca tínhamos visto e comido em Espanha que, por ingenuidade e descuido, não nos deixaram sequer provar.



 

domingo, 14 de agosto de 2016

Perigosos incendiários florestais

Incendios_4.JPG


Saído do algarve viajo em direção ao norte. Acima da linha do rio Tejo os cheiros do mar substituem-se ao odor a esturro das florestas queimadas.


Os incêndios devastam serras, florestas, perigam povoações, casas, animais e pessoas que vivem nas redondezas por onde o fogo se propaga sem contemplações iniciado por mãos criminosa aliciadas por dinheiro fresco, ganho apenas com o trabalho de riscar um fósforo destruindo bens e vidas de quem se sustenta com trabalho duro.  


Nesta época do ano, parca em acontecimentos políticos que não possibilitam a captação de audiências os órgãos de comunicação social televisivos não têm mãos a medir e as redações aproveitam este filão noticioso.


As notícias sobre a destruição de património florestal pelos incêndios substituem-se aos comentários especulativos e às notícias sobre política tendenciosamente desestabilizadoras. 


Na época de incêndios, como se estes fossem uma época, como pomposamente os canais de televisão denominam os incêndios logo no início da primavera e do verão, na sua ânsia de informação, e de “serviço público como tão bem sabem fazer”, convidam toda a espécie de sumidades e personalidades entendidas sobre florestas, incêndios, ordenamentos, para entrevistas e debates sobre o tema. Todos os anos dizem o mesmo, especulam, peroram, defendem, atacam.


Ao longo de mais de trinta anos os incêndios passaram a ser a regra e não exceção. A partir de maio, assim que a meteorologia prevê aquecimento estão eles, os diligentes e atentos das redações dos canais de televisão antecipando notícia do que preveem irá ser notícia. Isto é, preveem aquilo que vai acontecer sem saberem se vai de facto acontecer. Há uma estranha sensação de que preparam, estimulam, aliciam para que aconteça, para que haja notícia.


No calor dos incêndios, as populações acodem, socorrem, apoiam quem acorreu em seu auxílio, os incansáveis bombeiros, quando podem. Os canais informativos primeiro, depois os generalistas, repetem até a exaustão notícias cada vez mais assustadoras e, para acalmar a raiva dos que por toda a parte clamam por justiça avançam com progressos efetuados pelas várias polícias na detenção de presumíveis incendiários. Falam em culpados, suspeitos, indiciados, fazem prisões preventivas, informam sobre números de suspeitos e que as polícias detiveram ou que se encontram em averiguação. Divulgam o perfil dos potenciais incendiários, inimputáveis, uns, outros são geralmente novos ou idosos, desempregados, alcoólicos oue toxicodependentes e, caso estranho, utilizam isqueiros ou fósforos para iniciar o incendio. Estranho seria que utilizassem lança-chamas!


Fazem-se petições para agravamento de penas para incendiários. Juízes sentenciam que os reincidentes pirómanos retornem à prisão durante a época estival. Mas não será isto apenas para acalmar a voz do povo que especula nas ruas, nos cafés, nos bairros que, sem compreender, atribui e aponta as mais diversas as causas para estes atos criminosos?


Na voz de alguns países, nossos parceiros da U.E., somos quase uma espécie de párias, não o dizem, mas de forma mais diplomática lá o vão dizendo de modo a ser politicamente correto. Agora somos um povo de perigosos de incendiários e, neste ponto, temos que lhes dar razão se nos chamarem PIF’s, povo de Perigosos de Incendiários Florestais. Custa-me dizê-lo mas a evidência confirma-o, diariamente, nas últimas três semanas.


Surgem notícias rebuscadas com imagens que mostram incêndios noutros países como em Espanha e em França. É como quem diz: veem não é só cá! E o povo reproduz. Funciona como uma espécie de purga para as consciências face aos desastres premeditadamente provocados por indivíduos ou grupos de incendiários. Não se queira comparar o que é incomparável. Uns, são casos pontuais, outros, os nossos, em Portugal, são sistemáticos, organizados e de cariz marcadamente criminoso. Especula-se sobre as causas que motivam estes atos criminosos que terminam quase sempre em culpados cujo perfil atrás referi.


Se pudéssemos ao longo dos últimos trinta anos, cartografar os dados de áreas ardidas, para um analisar e comparar as suas localizações, dias e horas do início das ignições e dos alertas, a importância económica e ecológica das áreas incendiadas, os locais de importância paisagística para o turismo, a proximidade de reservas naturais para uma análise temporal daquela informação cartografada provavelmente mostraria um padrão que indiciaria que não há aleatoriedade e ocasionalidade dos incêndios mas um planeamento prévio que pressupõe a existência de uma rede de terrorismo incendiário, cobarde e sem rosto, muito bem organizada com objetivos definidos a médio e longo prazo. A média e grande extensão dos incêndios incontroláveis, como o foram os deste verão, mostra exatidão nos locais, a utilização das previsões meteorológicas relevantes para a prática deste terrorismo, o conhecimento da impossibilidade da plena eficácia de meios no combate ao incêndio nas áreas escolhidas a que se junta a seleção de indivíduos que são facilmente aliciados com motivações que vão para além das aparências apontadas ou o maluquinho da aldeia ou o sujeito ou sujeita que resolveu fazer um fogacho para uma sardinhada e que não teve cuidado. Como ouvi dizer o presidente da Cáritas portuguesa, há forças ocultas que estarão por detrás disto.


Funcionam como máfias organizadas onde quem está no terreno desconhece quem é o mandatário do crime ou até a motivação para tal. Um desconhece o agente imediatamente anterior, Não é justificável qualquer que seja a motivação para que portugueses destruam o país onde vivem.


Na Europa temos a fama de sermos um povo que vive acima das suas possibilidades, gastador, acusação que é, como se sabe, falaciosa, agora de sermos considerados um povo perigosamente incendiário é que já não nos livramos.


Hoje é o dia em que o querido líder do PSD Passos Coelho vai dizer as balelas do costume no Pontal o que centrará as atenções dos órgãos de comunicação social que aproveitarão para o “puxar para cima”, e os incêndios passaram à história.

Perigosos incendiários florestais

Incendios_4.JPG


Saído do algarve viajo em direção ao norte. Acima da linha do rio Tejo os cheiros do mar substituem-se ao odor a esturro das florestas queimadas.


Os incêndios devastam serras, florestas, perigam povoações, casas, animais e pessoas que vivem nas redondezas por onde o fogo se propaga sem contemplações iniciado por mãos criminosa aliciadas por dinheiro fresco, ganho apenas com o trabalho de riscar um fósforo destruindo bens e vidas de quem se sustenta com trabalho duro.  


Nesta época do ano, parca em acontecimentos políticos que não possibilitam a captação de audiências os órgãos de comunicação social televisivos não têm mãos a medir e as redações aproveitam este filão noticioso.


As notícias sobre a destruição de património florestal pelos incêndios substituem-se aos comentários especulativos e às notícias sobre política tendenciosamente desestabilizadoras. 


Na época de incêndios, como se estes fossem uma época, como pomposamente os canais de televisão denominam os incêndios logo no início da primavera e do verão, na sua ânsia de informação, e de “serviço público como tão bem sabem fazer”, convidam toda a espécie de sumidades e personalidades entendidas sobre florestas, incêndios, ordenamentos, para entrevistas e debates sobre o tema. Todos os anos dizem o mesmo, especulam, peroram, defendem, atacam.


Ao longo de mais de trinta anos os incêndios passaram a ser a regra e não exceção. A partir de maio, assim que a meteorologia prevê aquecimento estão eles, os diligentes e atentos das redações dos canais de televisão antecipando notícia do que preveem irá ser notícia. Isto é, preveem aquilo que vai acontecer sem saberem se vai de facto acontecer. Há uma estranha sensação de que preparam, estimulam, aliciam para que aconteça, para que haja notícia.


No calor dos incêndios, as populações acodem, socorrem, apoiam quem acorreu em seu auxílio, os incansáveis bombeiros, quando podem. Os canais informativos primeiro, depois os generalistas, repetem até a exaustão notícias cada vez mais assustadoras e, para acalmar a raiva dos que por toda a parte clamam por justiça avançam com progressos efetuados pelas várias polícias na detenção de presumíveis incendiários. Falam em culpados, suspeitos, indiciados, fazem prisões preventivas, informam sobre números de suspeitos e que as polícias detiveram ou que se encontram em averiguação. Divulgam o perfil dos potenciais incendiários, inimputáveis, uns, outros são geralmente novos ou idosos, desempregados, alcoólicos oue toxicodependentes e, caso estranho, utilizam isqueiros ou fósforos para iniciar o incendio. Estranho seria que utilizassem lança-chamas!


Fazem-se petições para agravamento de penas para incendiários. Juízes sentenciam que os reincidentes pirómanos retornem à prisão durante a época estival. Mas não será isto apenas para acalmar a voz do povo que especula nas ruas, nos cafés, nos bairros que, sem compreender, atribui e aponta as mais diversas as causas para estes atos criminosos?


Na voz de alguns países, nossos parceiros da U.E., somos quase uma espécie de párias, não o dizem, mas de forma mais diplomática lá o vão dizendo de modo a ser politicamente correto. Agora somos um povo de perigosos de incendiários e, neste ponto, temos que lhes dar razão se nos chamarem PIF’s, povo de Perigosos de Incendiários Florestais. Custa-me dizê-lo mas a evidência confirma-o, diariamente, nas últimas três semanas.


Surgem notícias rebuscadas com imagens que mostram incêndios noutros países como em Espanha e em França. É como quem diz: veem não é só cá! E o povo reproduz. Funciona como uma espécie de purga para as consciências face aos desastres premeditadamente provocados por indivíduos ou grupos de incendiários. Não se queira comparar o que é incomparável. Uns, são casos pontuais, outros, os nossos, em Portugal, são sistemáticos, organizados e de cariz marcadamente criminoso. Especula-se sobre as causas que motivam estes atos criminosos que terminam quase sempre em culpados cujo perfil atrás referi.


Se pudéssemos ao longo dos últimos trinta anos, cartografar os dados de áreas ardidas, para um analisar e comparar as suas localizações, dias e horas do início das ignições e dos alertas, a importância económica e ecológica das áreas incendiadas, os locais de importância paisagística para o turismo, a proximidade de reservas naturais para uma análise temporal daquela informação cartografada provavelmente mostraria um padrão que indiciaria que não há aleatoriedade e ocasionalidade dos incêndios mas um planeamento prévio que pressupõe a existência de uma rede de terrorismo incendiário, cobarde e sem rosto, muito bem organizada com objetivos definidos a médio e longo prazo. A média e grande extensão dos incêndios incontroláveis, como o foram os deste verão, mostra exatidão nos locais, a utilização das previsões meteorológicas relevantes para a prática deste terrorismo, o conhecimento da impossibilidade da plena eficácia de meios no combate ao incêndio nas áreas escolhidas a que se junta a seleção de indivíduos que são facilmente aliciados com motivações que vão para além das aparências apontadas ou o maluquinho da aldeia ou o sujeito ou sujeita que resolveu fazer um fogacho para uma sardinhada e que não teve cuidado. Como ouvi dizer o presidente da Cáritas portuguesa, há forças ocultas que estarão por detrás disto.


Funcionam como máfias organizadas onde quem está no terreno desconhece quem é o mandatário do crime ou até a motivação para tal. Um desconhece o agente imediatamente anterior, Não é justificável qualquer que seja a motivação para que portugueses destruam o país onde vivem.


Na Europa temos a fama de sermos um povo que vive acima das suas possibilidades, gastador, acusação que é, como se sabe, falaciosa, agora de sermos considerados um povo perigosamente incendiário é que já não nos livramos.


Hoje é o dia em que o querido líder do PSD Passos Coelho vai dizer as balelas do costume no Pontal o que centrará as atenções dos órgãos de comunicação social que aproveitarão para o “puxar para cima”, e os incêndios passaram à história.

terça-feira, 5 de julho de 2016

Síntese duma ida e dum regresso ou a política nunca se esquece

Viagem a França.pngApós semanas de silêncio por ter andado por terras de Espanha e França do sudoeste volto aos comentários habituais sobre política já que a ausência da falta de imprensa e televisões nacionais foram um intervalo desintoxicante e porque o Euro 2016 parece ter-se sobreposto a tudo quanto é política. Mas a este ponto voltaremos no próximo comentário.


Em Espanha, antes das eleições, debates e mais debates televisivos entre os líderes dos quatro principais partidos encheram-me o papo com argumentos sem novidade.


Jajoy, do PP, defendendo uma direita desgastada, mantendo o mesmo estilo de velho conservador sem novidades e sem rumo, mas que fazia suspeitar ao que viria se ganhasse as eleições e que, de facto, veio a ganhar sem maioria absoluta.


O PSOE com Pedro Sanchez mais parecia uma balança desequilibrada cujo fiel da balança não conseguia encontrar. O PODEMOS é uma dose esquerda enfezada cujo receituário de algumas vitaminas que Jajoy lhe proporcionou e que lhe permitiu alcançar algum espaço desocupado pelo PSOE. Prometia referendos de independência para regiões que podem vir a ser caixas de Pandora. Pablo Iglésias apresentava propostas boas se não fossem desadequadas ao momento que a UE atravessa. Iglésias é um líder cujo carisma, postura e imagem foram criadas para ficar mais ajustado a um estereótipo da classe trabalhadora. Bem poderia ser um líder dum partido que poderia fazer história juntamente com o PSOE, mas a embriaguez do crescimento rápido conduziu-o a um certo radicalismo de esquerda que parece preferir que a direita esteja no poder a fazer cedência para mudança de rumo. É isto que tem prejudicado a esquerda em Espanha com sorrisos de contentamento da direita.


O PSOE lá conseguiu, afinal, o segundo lugar nas eleições, imediatamente à frente do PODEMOS. Em conjunto obtiveram nas cortes espanholas uma maioria de deputados superior ao PP. Porém para o PODEMOS a teoria do comportamento operante de Skinner parece não se aplicar, ao contrário dos ratinhos da investigação que, face a um reforço negativo encontram sempre a solução para sair do labirinto.


Em França na região onde me encontrava não se sentiu o efeito dos movimentos e greves da CGT contra a reforma da lei laboral. Aparentemente a política passa despercebida na azáfama dos enormes TIR que circulam sem parar fazendo filas imensas. Um trânsito intenso nas autoestradas, talvez devido ao Euro 2016, tornava as viagens cansativas para as quais o tempo também não ajudava, passando de violentas chuvadas que transmitiam insegurança para quem quisesse, mesmo a sol aberto, pôr o pé na praia de Biarritz onde surfistas faziam a rotina do vai e vem constante para tentarem apanhar a onda perfeita, à altura de cada um claro está, mas que nunca chegava. Era uma espécie de mito de Sísifo aplicado, sem desistência, até ao pôr-do-sol.


Finalmente, cheguei ao nosso Portugal. Com grande espanto ouço, sobre a questão das penalizações da UE por causa do não cumprimento dos dois décimos do défice, os disparatados argumentos de Passos Coelho e de alguns dos seus mais fiéis acólitos (ditos patriotas) que fazem parte do calhambeque que é hoje a oposição. Mas sobre isto irei escrever proximamente.


Quanto à saída do Reino Unido da UE como resultado do referendo outro espanto: a desresponsabilização e abandono de três influentes políticos como se nada tivesse acontecido por culpa deles e fogem como ratazanas dum navio que está prestes a afundar-se.

terça-feira, 10 de março de 2015

A pele de cordeiro dos neoliberais

Economia neoliberal.png


 


Sabendo-se que no mundo atual o motor da economia deve ter sempre por base uma forte iniciativa privada nos dias que correm, serão poucos aqueles que, mesmo sem o saberem, são liberais. Aliás, todos os partidos com exceção dos ortodoxos de esquerda têm um gene liberal no seu ADN ideológico, sejam eles democratas-cristãos, sociais-democratas ou socialistas (estes últimos consoante os países) para isso basta assumirem a importância da iniciativa privada como motor da economia.


Para que não haja equívocos de interpretação consideramos neste contexto que os liberais sociais defendem os direitos humanos e as liberdades civis e, neste âmbito, combinam o apoio a uma economia em que o Estado desempenha essencialmente um papel de regulador e de garantidor que todos têm acesso, independentemente da sua capacidade económica, a serviços públicos que asseguram os direitos sociais fundamentais.


Neste contexto o PSD e o CDS são hoje partidos que deixaram as suas raízes e passaram a ser neoliberais que apregoam a redução do estado à sua expressão mais simples, seja lá isso o quer que seja. Dizem que o Estado tem demasiado poder e intervém em excesso na economia. Tem-se provado a falsidade destas afirmações demonstrada pelo recente caso do BES, entre outros.


Fora de Portugal o caso da Grécia é a prova onde a imposição de medidas neoliberais conduziram a um desastre financeiro e económico onde os neoliberais da Nova Democracia perderam as eleições e o partido socialista grego PASOK, ficou reduzindo a uns escassos 4,7%. É isso que os neoliberais pretendem ficarem apenas eles com o controle da democracia. Mas, no caso da Grécia, enganaram-se fazendo disparar o Syriza e, em Espanha, veremos o que vai acontecer com o Podemos.


Como se tem visto nas reuniões do Eurogrupo as pressões sobre a Grécia são tentativas para derrubar o atual Governo e menos para tentar ajudar a Grécia a sair da crise. Após seis anos de austeridade a Grécia cresceu apenas 0,6%.  Com mais austeridade o que pode acontecer é ainda uma incógnita cujo resultado pode ser conhecido em breve. As afirmações de Schäuble sobre a Grécia são a prova quando disse hipocritamente que "Sinto muito pelo gregos. Elegeram um Governo que, neste momento, comporta-se de maneira bastante irresponsável" e rematou a reunião do Eurogrupo com "Os gregos vão ter certamente dificuldades em explicar este acordo aos seus eleitores...". 


Senhores financeiramente bem instalados, cujos rendimentos lhe proporcionam dispensarem o que for do Estado seja ao nível da saúde, da educação ou quaisquer outros serviços. Defendem um Estado do todos cada um per si e o do salve-se quem poder. Daí que defendam a privatização de toda a economia desde que lucrativa incluindo os serviços que devem ser da exclusiva responsabilidade do Estado. Isto é, o Estado deve privatizar tudo quanto for lucrativo e assumir tudo o der prejuízo. Aliás em muitas das privatizações é isso que se passa quem compra fica apenas com os ativos e o Estado com os passivos.


Todavia, defendem parcerias público privadas e subsídios a setores de atividade através dos impostos pagos por todos de que beneficiam apenas alguns cidadãos.


Foi esta a base ideológica da política em que o nosso atual Governo de baseou. À despesa exagerada e incontrolada do Governo anterior com a finalidade de dinamizar a economia através do consumo interno, o atual baseou o controlo da despesa apenas em cortes no setor social, salários da função pública, pensões de reforma, deixando à revelia outras áreas, nomeadamente no que se refere a sectores para onde o Estado canaliza verbas dos impostos que resultam na acumulação dos lucros em grandes empresas.


Apesar do abrandamento das medidas de austeridade e dos discursos de falinhas de mansas enganadoras do primeiro-ministro Passos Coelho e seus acólitos, elogiando um incipiente crescimento económico de 0,9% (relativamente às austeridades praticadas a Grécia conseguiu melhor) podemos ter a certeza que a austeridade apenas estacionou na berma devido à aproximação de eleições. Basta estar atento às declarações da ministra das finanças


No encerramento de uma conferência Maria Luís Albuquerque afirmou que os níveis de dívida pública e privada são elevados e que “o potencial de mais reformas é ainda grande” e, depois dos avisos deixados pelo Eurogrupo, Maria Luís Albuquerque manteve que Portugal vai ter um défice abaixo dos 3 por cento, saindo do procedimento de défice excessivo. Hoje, 10 de março, reafirmou que não serão precisas outras medidas para cumprir o objetivo do défice português para este ano mas, sobre a necessidade de mais reformas se for caso disso, afirmou: "…como já dissemos o Governo português mantem-se atento e ajustará a estratégia quando for necessário….". Deixa implícito o que poderá vir a acontecer. É apenas um ponto morto temporário até às eleições. Na eventualidade dos partidos do Governo ganharem as eleições já todos sabemos o que nos espera.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

A chantagem da europa

 


 


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A europa atravessa tendências radicais nos países que vão a eleições este ano, daí a aflição de alguns setores europeus, nomeadamente da Alemanha de Merkel e do seu ministro das finanças Schäuble que inauguraram as pressões e a chantagem sobre a Grécia, face às previsões das próximas eleições de janeiro coadjuvados pelo assustado Holland e outros. Antecipam as maiores desgraças, anteveem a catástrofes, obrigam a condições, ameaçam com sanções, chantageiam e atemorizando os povos. Fazem reinar o medo. Aliás, parece ser esta a política seguida na União Europeia com a Alemanha a comandar o que, a nós, portugueses, já não é estranho porque Passos Coelho também utilizou e ainda utiliza o método da chantagem e do medo não apenas relativo ao passado com projeção no futuro.


A possibilidade do Syriza, partido  da esquerda radical da Grécia, poder vir a ganhar as eleições assim como o Podemos em Espanha poder obter um grande votação põe a direita europeia nervosa. Esta é a grande preocupação da Alemanha e de outros países lacaios que vêm a democracia como válida apenas e só se os partidos que eles entendem ganharem as eleições. Caso isso não suceda apontam a povos soberanos a arma do medo.


A democracia passará a estar em perigo na Europa se aceitarmos que, em eleições livres, devam ganhar apenas os partidos que outros achem devam ganhar.


Veremos se a mesma atitude, face aos partidos extremistas da direita de Marine le Pen em França, se levantarão vozes ameaçadoras na Europa caso a tendência, em altura própria, seja a de poder vir a ganhar eleições.

domingo, 5 de janeiro de 2014

A intensificação da extrema-direita na Europa


Aproveitando-se da crise no espaço da União Europeia, especialmente nos países intervencionados, sem que muitos se deem conta, a extrema-direita está a ficar cada vez mais presente e a capitalizar apoiantes. Chegou-se ao ponto de, sem qualquer discrição, se exibirem símbolos fascistas e nazis tal como em Espanha onde símbolos franquistas são exibidos sem quaisquer complexos.


Casos concretos deste tipo de exibições em Espanha têm vindo da Juventude do Partido Popular, partido conservador que está no poder. Muitos destes jovens têm-se feito fotografar com símbolos nazis e franquistas que colocam no Facebook e no Twitter o que levou a que representantes do Partido Popular viessem desdramatizar falando de “infantilidades” e desculpabilizando-os ao dizerem paternalisticamente que aos jovens são desculpadas determinadas atitudes que são “imperdoáveis aos mais velhos”. 


Há sinais de alarme que provêm do Reino Unido, França, (veja o caso da Frente Nacional de Marine le Pen), Itália, Grécia, República Checa, Hungria e Eslováquia, todos países pertencentes à União Europeia. Em Portugal ainda se verifica uma certa contenção, talvez porque à esquerda do Partido Socialista há alguns partidos que, apesar de não terem uma elevada expressão eleitoral, ainda têm uma base de apoio social muito maior do que os seus equivalentes no resto da Europa.


O ambiente político, financeiro e económico internacional favorece os extremismos de direita que se alimentam da crise. De acordo com o jornal El País de Novembro passado, no Partido Popular de Espanha nenhum dirigente exibia símbolos franquistas nem nazis mas exibiam as cores do partido e da bandeira nacional. Atualmente, tudo mudou. Agora alguns jovens militantes daquele partido já se aventuram a mostrar publicamente símbolos franquistas.


Muitos destes movimentos extremistas surgem do interior dos partidos de direita, onde se encontram camuflados à espera de oportunidade para se manifestarem a descoberto. O curioso é que a maior parte deles são oriundos das juventudes partidárias de direita.


Já escrevi várias vezes neste blog que, em Portugal, nos partidos de direita, nomeadamente no PSD, se encontram no seu interior elementos que se denunciam pelas suas declarações públicas e na Assembleia da República que podem ser interpretadas como posições ideológicas de natureza pró nazi e segregacionista.


Não é de admirar que haja pontos comuns na origem destes grupos da extrema-direita europeia porque na prática estes grupos são oriundos dos partidos liberais, ou, no mínimo, provenientes ideologicamente deles mas que radicalizaram as suas posições.  Veja-se o caso do holandês Geert Wilders, antieuropeísta, do grupo dos partidos chamados Tea Party, líder da oposição holandesa que teve origem nos liberais e que conseguiu ser o terceiro partido mais votado nas últimas eleições.


Não é por mero acaso que está em negociação uma aliança entre o político da extrema-direita holandês Geert Wildess e o de Marine le Pen antes das eleições de maio de 2014 com o objetivo de “perturbar o funcionamento do Parlamento Europeu e destruir a EU a partir de dentro”. Esta aliança poderá incluir também partidos idênticos da Itália, Suécia e Bélgica.


Será esta também uma oportunidade para os partidos antieuropeístas de esquerda aproveitarem e darem, como habitualmente, uma mãozinha de abertura à extrema-direita?


Nas próximas eleições para o Parlamento Europeu devemos estar muito atentos e votar no sentido de que em Portugal não se venha a verificar o mesmo.    

sexta-feira, 21 de junho de 2013

A teta da vaca que já não dá leite!


 


Apesar de se prever para a Alemanha uma baixa do crescimento de 0,7% para 0,4%, e porque se aproximam eleições, segundo a imprensa alemã,  Angela Merkel resolve ser perdulária. Para renovar o Estado Social alemão vai assim gastar 20 mil milhões de euros para pensionistas, mães solteira, mulheres que sustentem as famílias e pessoas impedidas de trabalhar; 7500 milhões de euros para subsídios a famílias carenciadas,  entre outras verbas.


Então como é? De onde é que vem o dinheiro…?      


Enquanto os países do sul da europa sofrem apertadas restrições os país do norte, conforme tem vindo a público na imprensa, Jornal i por exemplo, têm lucrado com a crise do euro que em contraponto têm vindo a ficar cada vez mais pobres. Culpa deles, dirão os do norte porque são gastadores, perdulários e preguiçosos.


Países como Portugal e Espanha governados pela direita têm vindo cada vez mais a ser penalizados em nome do défice e da dívida que tem sabido tão bem aos do norte. Tenho aversão ao estabelecimento destas dicotomias numa europa que todos ajudaram a construir, mas onde as vantagens são apenas para alguns. Talvez tivéssemos gastado menos, é verdade, mas Cavaco Silva nos anos oitenta também não seu o exemplo, bem pelo contrário.


O que se passa entre os países do norte e os do sul da zona euro pode ser comparado com o que se passa em cada país individualmente onde o enriquecimento rápido de alguns e faz à custa do empobrecimento de muitos. São os ricos a viver à custa dos pobres e não o que muitos dizem: coitadinhos dos ricos que estão (ou estavam) a ser vítimas da exploração pelos pobres devido aos impostos que pagavam. No caso dos países a situação é mais engenhosa. Passo a citar parte de um artigo do mesmo jornal que coloco em itálico:   


“Se é certo que opções, erros e más políticas dos governos dos últimos anos de Portugal ou Grécia, por exemplo, são os grandes responsáveis pela queda destes países em recessão, também é cada vez mais evidente que os países ricos da zona euro souberam pôr a desgraça alheia a render em seu proveito: os pacotes de "ajuda" impostos aos países em dificuldades asseguraram uma enorme margem de lucro para estes, através dos juros cobrados aos países "irmãos" do euro, que, não fossem os elevadíssimos custos dos juros suportados pelos empréstimos "solidários", estariam já mais longe do caos: Portugal gasta por ano 4,4% do seu PIB em juros - 7,2 mil milhões de euros -, valor que sai diretamente dos bolsos dos contribuintes e dos trabalhadores portugueses para dezenas de cofres de Estados e bancos europeus.”.


Basta comparar os últimos dados do Eurostat sobre o PIB per capita e o índice de preços para verificarmos que o poder de compra dos portugueses está um terço abaixo da média europeia (ver gráfico abaixo) ao mesmo nível da Grécia e muito próximo da Letónia.


Nem os governos de direita da europa do norte foram condescendentes com os seus amigos do sul. Até na Espanha, uma das mais fortes economias do U.E. que não está diretamente intervencionada, o FMI pressiona para uma reforma laboral mais exigente e para a redução de salários para poder combater o desemprego. Devem estar a pensar ainda em moldes dos anos cinquenta. Não é necessário saber muito de economia para perceber que, quanto mais baixos os salários, não significa que uma empresa contrate trabalhadores. Se não há quem compre, o que lhe adianta estar a produzir e a admitir pessoal se depois não consegue pagar, mesmo com salários baixos. Poderá funcionar apenas para uma poucas algumas empresas exportadoras mas, mesmo assim, se não houver recessão nos mercados.


Captar investimento estrangeiro? Ilusão! Haverá sempre um lugar onde os salários serão sempre mais baixos. Ou será que se pretende que os já desgraçados do sul se coloquem mais abaixo do que os do Bangladesh?




Poder de Compra na Europa 2012





 


 




LEGENDA


BE:Belgium; BG:Bulgaria; CZ:Czech Republic; DK:Denmark; DE:Germany; EE:Estonia; IE:Ireland; EL:Greece: ES:Spain


FR:France; IT:Italy;CY:Cyprus; LV:Latvia;LT:Lithuania; LU:Luxembourg; HU:Hungary; MT:Malta;  NL:Netherlands; AT:Austria; PL:Poland; PT:Portugal; RO:Romania; SI:Slovenia; SK:Slovakia FI:Finland; SE:Sweden; UK:United Kingdom; IS:Iceland; NO:Norway; CH:Switzerland; ME:Montenegro; HR:Croatia; MK:Former Yugoslav Republic of Macedonia, the; RS:Serbia;TR:Turkey; AL:Albania; BA:Bosnia and Herzegovina


 



Fonte: Eurostat

A teta da vaca que já não dá leite!


 


Apesar de se prever para a Alemanha uma baixa do crescimento de 0,7% para 0,4%, e porque se aproximam eleições, segundo a imprensa alemã,  Angela Merkel resolve ser perdulária. Para renovar o Estado Social alemão vai assim gastar 20 mil milhões de euros para pensionistas, mães solteira, mulheres que sustentem as famílias e pessoas impedidas de trabalhar; 7500 milhões de euros para subsídios a famílias carenciadas,  entre outras verbas.


Então como é? De onde é que vem o dinheiro…?      


Enquanto os países do sul da europa sofrem apertadas restrições os país do norte, conforme tem vindo a público na imprensa, Jornal i por exemplo, têm lucrado com a crise do euro que em contraponto têm vindo a ficar cada vez mais pobres. Culpa deles, dirão os do norte porque são gastadores, perdulários e preguiçosos.


Países como Portugal e Espanha governados pela direita têm vindo cada vez mais a ser penalizados em nome do défice e da dívida que tem sabido tão bem aos do norte. Tenho aversão ao estabelecimento destas dicotomias numa europa que todos ajudaram a construir, mas onde as vantagens são apenas para alguns. Talvez tivéssemos gastado menos, é verdade, mas Cavaco Silva nos anos oitenta também não seu o exemplo, bem pelo contrário.


O que se passa entre os países do norte e os do sul da zona euro pode ser comparado com o que se passa em cada país individualmente onde o enriquecimento rápido de alguns e faz à custa do empobrecimento de muitos. São os ricos a viver à custa dos pobres e não o que muitos dizem: coitadinhos dos ricos que estão (ou estavam) a ser vítimas da exploração pelos pobres devido aos impostos que pagavam. No caso dos países a situação é mais engenhosa. Passo a citar parte de um artigo do mesmo jornal que coloco em itálico:   


“Se é certo que opções, erros e más políticas dos governos dos últimos anos de Portugal ou Grécia, por exemplo, são os grandes responsáveis pela queda destes países em recessão, também é cada vez mais evidente que os países ricos da zona euro souberam pôr a desgraça alheia a render em seu proveito: os pacotes de "ajuda" impostos aos países em dificuldades asseguraram uma enorme margem de lucro para estes, através dos juros cobrados aos países "irmãos" do euro, que, não fossem os elevadíssimos custos dos juros suportados pelos empréstimos "solidários", estariam já mais longe do caos: Portugal gasta por ano 4,4% do seu PIB em juros - 7,2 mil milhões de euros -, valor que sai diretamente dos bolsos dos contribuintes e dos trabalhadores portugueses para dezenas de cofres de Estados e bancos europeus.”.


Basta comparar os últimos dados do Eurostat sobre o PIB per capita e o índice de preços para verificarmos que o poder de compra dos portugueses está um terço abaixo da média europeia (ver gráfico abaixo) ao mesmo nível da Grécia e muito próximo da Letónia.


Nem os governos de direita da europa do norte foram condescendentes com os seus amigos do sul. Até na Espanha, uma das mais fortes economias do U.E. que não está diretamente intervencionada, o FMI pressiona para uma reforma laboral mais exigente e para a redução de salários para poder combater o desemprego. Devem estar a pensar ainda em moldes dos anos cinquenta. Não é necessário saber muito de economia para perceber que, quanto mais baixos os salários, não significa que uma empresa contrate trabalhadores. Se não há quem compre, o que lhe adianta estar a produzir e a admitir pessoal se depois não consegue pagar, mesmo com salários baixos. Poderá funcionar apenas para uma poucas algumas empresas exportadoras mas, mesmo assim, se não houver recessão nos mercados.


Captar investimento estrangeiro? Ilusão! Haverá sempre um lugar onde os salários serão sempre mais baixos. Ou será que se pretende que os já desgraçados do sul se coloquem mais abaixo do que os do Bangladesh?




Poder de Compra na Europa 2012





 


 




LEGENDA


BE:Belgium; BG:Bulgaria; CZ:Czech Republic; DK:Denmark; DE:Germany; EE:Estonia; IE:Ireland; EL:Greece: ES:Spain


FR:France; IT:Italy;CY:Cyprus; LV:Latvia;LT:Lithuania; LU:Luxembourg; HU:Hungary; MT:Malta;  NL:Netherlands; AT:Austria; PL:Poland; PT:Portugal; RO:Romania; SI:Slovenia; SK:Slovakia FI:Finland; SE:Sweden; UK:United Kingdom; IS:Iceland; NO:Norway; CH:Switzerland; ME:Montenegro; HR:Croatia; MK:Former Yugoslav Republic of Macedonia, the; RS:Serbia;TR:Turkey; AL:Albania; BA:Bosnia and Herzegovina


 



Fonte: Eurostat